Capítulo XIV
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Os torneios de voleibol de praia têm a duração de uma semana, desde a qualificação para o quadro principal até à final. O torneio começava na Terça-Feira com o apuramento, denominado qualifying. Na Quarta-Feira realizar-se-ia a segunda fase do qualifying. Findas estas fases, apuravam-se vários pares que se juntariam ao quadro principal com os pares mais conceituados.
Na Quinta-Feira realizavam-se, durante todo o dia, os dezasseis jogos da primeira eliminatória. Na Sexta-Feira realizavam-se, pela manhã, os oitavos de final e os quartos de final, à tarde. Os especialistas consideravam-no o dia mais desgastante da competição. No Sábado, à tarde, realizavam-se as meias-finais. E no Domingo, o último dia de competição, seria jogado pela manhã o jogo para a medalha de bronze e à tarde o jogo da final.
Os participantes eram compostos por pares mistos, os quais obtinham pontos consoante a sua participação. Esses pontos acumulavam de torneio para torneio e contavam para o campeonato nacional de voleibol de praia em pares mistos.
Quanto ao campeonato nacional, este era composto por quatro torneios (Caparica, Carcavelos, Figueira da Foz e Espinho). O par mais bem pontuado no fim do campeonato, sagrava-se campeão nacional e ganhava o direito de representar Portugal no Campeonato do Mundo em Copacabana, no Brasil.
Neste primeiro dia de competição, cheguei à porta do prédio de Rafaela, dez minutos antes do previsto. Mas, mesmo assim, ela já me esperava.
Entrou no carro e cumprimentou-me.
— Então, preparado para jogar? — perguntou ela.
— Penso que sim. — respondi eu, não escondendo o nervosismo que sentia.
Eu iniciei a marcha do veículo e seguimos para a Costa da Caparica. Durante o trajecto, Rafaela e eu fomos conversando sobre o torneio.
— Quais são as nossas hipóteses, na tua opinião? — perguntei eu.
Rafaela sorriu e respondeu:
— No ano passado, eu e o Tiago estávamos a jogar muito bem e quando entrámos em competição, não ganhámos um jogo.
Sinceramente, se hoje perdermos não fico admirada.
— Isso é que é optimismo. — ironizei eu.
— É a verdade. — insistiu ela. — Treinámos muito, mas não temos o ritmo de jogo e o conhecimento entre nós que existia entre mim e o Tiago.
— A falar assim, até parece que se o Tiago já estivesse com o braço bom, eu não estaria aqui. — disse eu, aborrecido.
— Se dissesse o contrário, mentir-te-ia. — confirmou ela.
Eu, irritado, perguntei:
O que é que eu te fiz? Hoje, ainda não paraste de me deitar abaixo.
— Desculpa. — pediu ela. — Foi sem intenção. É que o Tiago marcou a data do casamento. E isso deixa-me de mau humor.
— Sempre vais casar com ele? — interroguei eu, entristecido com a, cada vez mais confirmada, notícia do casamento.
— Já sabes que sim. Para que é que perguntas? — contrapôs ela.
— Mas, eu...
— Não digas nada. — interrompeu ela. — Não tornes tudo isto ainda mais doloroso.
Eu calei-me e não disse nada até chegarmos ao local da competição. Parei a cerca de cinquenta metros do recinto. Rafaela saiu do carro e eu segui-a. Ela estava mais habituada a todo aquele protocolo do que eu.
Dirigimo-nos à recepção, onde uma jovem em fato de banho prestava as informações aos concorrentes.
— Dupla Marco Oliveira e Rafaela Pereira. — disse ela, dirigindo-se à funcionária.
Eu fiquei a pensar. Tinha dado conta que só, naquele momento, tivera conhecimento do apelido de Rafaela.
A jovem olhou para o papel que tinha na mão e disse:
— O vosso jogo é o terceiro do dia.
— E qual é o que se está a desenrolar? — questionou Rafaela.
— É o segundo. — informou a outra. — Começou há cinco minutos. Se quiserem, podem ir para a bancada assistir. Mas convém que estejam prontos, dez minutos antes da hora marcada.
— Está bem. — concordou Rafaela.
Rafaela e eu seguimos para umas escadas que davam acesso às bancadas. Sentámo-nos a meio, pois lugares eram o que não faltava. A qualificação não atraia muito público.
O local era composto por um rectângulo de areia com marcações brancas, uma rede no meio e bancadas em ferro que circundavam o campo de voleibol.
Daqui a pouco, vamos estar ali a jogar. — afirmou Rafaela.
Eu não disse nada. Ela continuava a falar, não comigo, mas com ela própria:
— Temos que ter atenção à forma como eles jogam.
— A deles e a de todos. — disse eu.
— Mas, estes principalmente. Porque se ganharmos, vamos jogar com o vencedor deste jogo. — esclareceu ela.
As suas palavras fizeram-me ter mais atenção ao jogo.
O jogo demorou meia hora e quedou-se por um resultado de dois parciais contra nenhum dos derrotados.
O speaker da competição avisou:
— Próximo jogo dentro de quinze minutos.
Eu e Rafaela dirigimo-nos aos balneários para mudar de roupa.
Os balneários eram formados por dois contentores onde os concorrentes mudavam de roupa e tomavam banho, após o jogo. Cada contentor estava subdividido em duas partes para maior privacidade de cada membro da equipa.
Prontos para o jogo, deixámos o balneário e seguimos para o areal. Antes de entrarmos, Rafaela presenteou-me com um abraço e um beijo na face.
— É para dar sorte. — disse ela.
No nosso meio-campo, começámos a aquecer, executando passes um para o outro. Não que precisássemos de aquecer, já que estava um calor abrasador e o Sol despenhava-se sobre nós, sem uma única pausa.
Rafaela estava lindíssima, revelando o seu lindo corpo com o biquíni vermelho que eu comprara. Ambos envergávamos uma pequena camisola de alças, com o nosso número de inscrição, o 17.
Íamos confrontar uma dupla vinda do Porto. Os nomes não me recordo, mas sei que eram muito experientes.
O árbitro aproximou-se da rede e chamou:
— Os capitães de equipa que se aproximem.
O homem da outra equipa dirigiu-se ao árbitro. Eu fiquei parado, pois pensava que Rafaela era a capitã de equipa.
— Então? — perguntou ela.
— O que é? — interroguei eu.
— Vai lá. Tu é que és o capitão. — informou ela.
— Eu???
— Sim, tu. — confirmou ela.
— Mas, eu não percebo nada daquilo. — constatei eu, confuso.
— Vai lá que aquilo é fácil. — insistiu ela.
Eu estava relutante, mas o árbitro começou a ficar impaciente:
— Então, qual de vocês é o capitão?
— Sou eu. — respondi, de imediato.
A dupla adversária já ria com tanta inexperiência. Estavam a gozar-nos à grande.
— Cara ou coroa? — perguntou o árbitro.
— O maçarico que escolha. — disse o outro. Eu não respondi à provocação e disse:
— Cara!
O árbitro lançou a moeda ao ar e eu ganhei.
— Bola ou campo? — perguntou-me o árbitro.
Eu olhei para o nosso adversário e respondi:
— Campo. O tripeiro pode ficar com a bola.
— Ouve lá... — tentou responder ele.
Porém, o árbitro interrompeu:
— Meus amigos, essas coisas resolvem-se no campo!
Eu regressei para junto de Rafaela e questionei:
— Porque é que não ficaste como capitã de equipa?
— Achas que ficava bem? Geralmente, é o elemento masculino que chefia a equipa. Se não fizéssemos assim, tu eras visto como um jogador fraco que eu tinha arrastado para a competição. — explicou ela.
— Não andas muito longe disso. — contrapus eu.
Não sejas parvo. — disse ela. — Tu até jogas bem.
Não tivemos tempo para mais conversa, pois o árbitro sinalizou o início da partida.
O primeiro serviço coube aos nossos adversários. Um serviço forte e directo. Nem eu nem ela o apanhámos.
No segundo serviço, ainda esboçámos a resposta, mas nada feito.
O terceiro e o quarto serviço foram iguais.
— Marco, calma! — aconselhou Rafaela. — Não estejas nervoso.
Eu acenei, afirmativamente, com a cabeça.
Quinto serviço: ele atirou, eu apanhei, Rafaela passou e eu rematei em força. A bola foi bloqueada pela jogadora adversária e caiu no nosso campo.
— Tempo! — pediu Rafaela.
O árbitro suspendeu a partida para um desconto de tempo de um minuto.
Ambos nos sentámos nas cadeiras ali colocadas para os jogadores e repousámos.
— Cinco a zero. — disse Rafaela. — Isto está mal.
— Eles são muito fortes. — adicionei eu.
— Se estes são fortes para nós, nunca conseguiremos ganhar um torneio. — afirmou Rafaela.
O tempo terminou e o árbitro chamou-nos de novo ao campo. A dupla adversária olhava para nós e ria no gozo.
— Não ligues! — disse Rafaela.
Dado o sinal de recomeço, ele voltou a servir. Rafaela apanhou, eu passei a bola e ela rematou com toda a força. Sem hipóteses para eles.
Recuperávamos, assim, o serviço. E foi Rafaela quem o executou. E com uma potência que só visto. Os gozões nem viram a bola.
Por mais cinco vezes, Rafaela repetiu a façanha, virando o resultado a nosso favor.
Foi então a vez de eles pedirem um desconto de tempo.
Debaixo do chapéu-de-sol, que nos dava uma sombra maravilhosa, eu questionei Rafaela:
— Como é que consegues servir com aquela força?
Rafaela sorriu e respondeu:
— Penso em quem mais odeio e descarrego na bola.
— Espero que esse alguém não seja eu. — disse eu, olhando para ela.
Ela sorriu e disse:
— Se pensasse em ti quando sirvo ou remato, não tinha a menor força para o fazer.
Com o resultado de seis a cinco, regressámos ao rectângulo de jogo.
Rafaela voltou a servir, eles apanharam a bola e responderam com um remate cheio de efeito e enganaram-nos, retomando o serviço para eles.
Era a vez de a nossa adversária servir. Fê-lo com tanta força que a bola foi directamente para fora.
Vá, Marco! Agora és tu. — disse Rafaela, incentivando-me.
Eu peguei na bola, preparei-me para servir e atirei a bola. Mas estava tão nervoso que a bola colidiu com a rede.
Rafaela manteve-se em silêncio e olhou desiludida para mim.
O gozão pegou na bola e dirigiu-se à zona de serviço. Atirou-a bem alto e rematou-a com força.
Rafaela apanhou-a, desajeitadamente, e a bola seguiu um rumo contrário ao desejado. Foi então que eu corri e, em voo, toquei a bola em manchete, levantando-a e permitindo um remate, pleno de sucesso, a Rafaela.
Não duvido que aquela bola nos tenha galvanizado. Recuperar uma bola quase perdida, aumenta o ânimo dos jogadores. A partir daí, os pontos sucederam-se para o nosso lado e o parcial terminou com o resultado de quinze a cinco, a nosso favor.
— Estamos no bom caminho. — dizia Rafaela, enquanto limpava a areia do corpo com uma toalha.
— O primeiro set já é nosso. — corroborei eu.
O intervalo durou três minutos. Depois, foi o regresso ao campo.
Fui eu quem começou a servir. Desta vez, foi bem executado, mas melhor respondido pelos adversários.
Serviço do lado contrário, eu recebi, Rafaela passou e eu rematei em habilidade, enganando completamente o meu adversário.
— Cabrão! — chamou o tipo, com mau perder.
Eu já ia a responder à ofensa. Porém, Rafaela segurou-me e disse:
— Não ligues! Eles são conhecidos por atitudes destas. O melhor é não ligar, senão isso pode ser-nos prejudicial.
Eu concordei e voltei ao meu lugar.
Rafaela foi, então, para o serviço. E fez, nada mais nada menos que, oito pontos seguidos. Foi o arrumar da questão. Eles já não recuperaram e nós controlámos o parcial até vencermos por quinze a sete.
Ao fazer o ponto de jogo, Rafaela pulou de alegria. Eu juntei-me a ela, abracei-a pelas pernas e levantei-a em peso. Ao que ela respondeu, abraçando-me a cabeça e aconchegando-a no ventre.
A dupla que nós vencemos tinha tão mau perder que abandonou o recinto sem cumprimentar ninguém.
— É a primeira vez que ganho um jogo! — rejubilava Rafaela.
Eu dirigi-me ao árbitro e cumprimentei-o, sendo seguido da minha parceira.
— Eu vou andando. — disse Rafaela, dirigindo-se ao balneário.
Eu fiquei a ver o quadro de jogos e conversava com um dos fiscais:
— Estes tipos são mesmo mal-educados.
— E vá lá que hoje nem foi dos piores dias. — afirmou o fiscal.
— O quê? Não me diga que já fizeram pior. — interroguei eu.
No ano passado, envolveram-se à pancada com o outro par. — contou o fiscal. — O mal é dar-lhes conversa. O melhor é deixá-los falar e continuar a jogar.
Ao ouvir aquelas palavras, verifiquei como era inexperiente naquelas coisas. Eu já estava pronto a partir para as agressões, se não fosse o bom senso e a experiência de Rafaela.
Quando regressei aos balneários, ia tão eufórico e tão distraído que, por engano, entrei no lado de Rafaela. E fiquei com ela, na minha frente, de costas a tomar banho completamente nua.
Ao ver-me, Rafaela escondeu as partes mais íntimas e ordenou:
— Saí daqui, Marco! Saí imediatamente daqui!
Eu fiquei aparvalhado com o engano e demorei a raciocinar. Mas acabei por deixar o seu lado e fui para o meu.
Rafaela ficou convencida de que eu o fizera intencionalmente.
Minutos mais tarde, ao sair do balneário, pedi-lhe desculpa.
— Foi sem intenção. — disse eu.
— Esquece! — disse ela, ainda séria.
Eu olhei para ela e, com muita seriedade, disse:
— Eu jamais faria algo que abusasse da tua confiança.
Rafaela sorriu e respondeu:
— Eu sei, Marco. Eu sei.
Terminado o desentendimento, fomos para a bancada, assistir aos restantes jogos da manhã. Continuava a haver muito pouca gente nas bancadas.
Antes de almoço, foram divulgados os próximos jogos do qualifying. Nós só voltávamos a jogar no dia seguinte pela manhã.
— Rafaela, vamos embora? — perguntei eu.
— Não queres almoçar comigo? — sugeriu ela.
— Adorava. — concordei eu.
Almoçámos num restaurante, junto ao mar. Tinha um ambiente magnífico. Sentámo-nos na esplanada e ficámos a conversar ao som das ondas a bater na areia.
— Nunca me contaste, ao certo, a tua participação no ano passado. — disse eu.
Rafaela que denotava grande felicidade por aqueles momentos, sorriu e perguntou:
— Queres que te conte agora?
— Se quiseres...
Rafaela acedeu à proposta e começou a falar:
— Como já te disse, eu participei com o Tiago. Como meu namorado, ele não permitia que mais ninguém fizesse par comigo, a não ser ele. Por isso, se eu queria participar, tinha de ser com ele.
— E havia mais alguém, a quem pudesses recorrer? — indaguei eu.
— Não. Mas, também, não procurei. — continuou ela. — Bom, mas o Tiago não jogava mal. Só que o nosso relacionamento não era bom e isso reflectia-se no jogo. Participámos neste torneio e perdemos logo. Participámos no de Carcavelos e voltámos a perder no início. E acabámos por desistir de participar nos outros dois.
— Qual de nós joga melhor, eu ou o Tiago? — perguntei eu, vaidoso.
Rafaela derrubou a minha vaidade:
— Ele joga melhor. Mas, eu prefiro jogar contigo.
Depois do almoço, regressámos a Lisboa. Sentia-me feliz ao ver a felicidade dela.
Quando parei em frente ao seu prédio, perguntei:
— Rafaela! Queres sair comigo, logo à noite. Só um bocado para conversar.
Rafaela olhou para mim com uma ternura nos olhos que, quase, me comoveu. Tinham tanto carinho que me senti acariciado só com o seu olhar.
— Marco, já sabes que não posso. — disse ela com ternura.
Eu não insisti, pois compreendia o porquê da sua recusa.
Combinámos a hora para o dia seguinte e eu parti, rumo a casa.
Nessa noite, dormi descansadamente. O cansaço levou-me a ter um sono repousado e sem sobressaltos. Não sei o que sonhei, ou até se sonhei.
Na Quinta-Feira realizavam-se, durante todo o dia, os dezasseis jogos da primeira eliminatória. Na Sexta-Feira realizavam-se, pela manhã, os oitavos de final e os quartos de final, à tarde. Os especialistas consideravam-no o dia mais desgastante da competição. No Sábado, à tarde, realizavam-se as meias-finais. E no Domingo, o último dia de competição, seria jogado pela manhã o jogo para a medalha de bronze e à tarde o jogo da final.
Os participantes eram compostos por pares mistos, os quais obtinham pontos consoante a sua participação. Esses pontos acumulavam de torneio para torneio e contavam para o campeonato nacional de voleibol de praia em pares mistos.
Quanto ao campeonato nacional, este era composto por quatro torneios (Caparica, Carcavelos, Figueira da Foz e Espinho). O par mais bem pontuado no fim do campeonato, sagrava-se campeão nacional e ganhava o direito de representar Portugal no Campeonato do Mundo em Copacabana, no Brasil.
Neste primeiro dia de competição, cheguei à porta do prédio de Rafaela, dez minutos antes do previsto. Mas, mesmo assim, ela já me esperava.
Entrou no carro e cumprimentou-me.
— Então, preparado para jogar? — perguntou ela.
— Penso que sim. — respondi eu, não escondendo o nervosismo que sentia.
Eu iniciei a marcha do veículo e seguimos para a Costa da Caparica. Durante o trajecto, Rafaela e eu fomos conversando sobre o torneio.
— Quais são as nossas hipóteses, na tua opinião? — perguntei eu.
Rafaela sorriu e respondeu:
— No ano passado, eu e o Tiago estávamos a jogar muito bem e quando entrámos em competição, não ganhámos um jogo.
Sinceramente, se hoje perdermos não fico admirada.
— Isso é que é optimismo. — ironizei eu.
— É a verdade. — insistiu ela. — Treinámos muito, mas não temos o ritmo de jogo e o conhecimento entre nós que existia entre mim e o Tiago.
— A falar assim, até parece que se o Tiago já estivesse com o braço bom, eu não estaria aqui. — disse eu, aborrecido.
— Se dissesse o contrário, mentir-te-ia. — confirmou ela.
Eu, irritado, perguntei:
O que é que eu te fiz? Hoje, ainda não paraste de me deitar abaixo.
— Desculpa. — pediu ela. — Foi sem intenção. É que o Tiago marcou a data do casamento. E isso deixa-me de mau humor.
— Sempre vais casar com ele? — interroguei eu, entristecido com a, cada vez mais confirmada, notícia do casamento.
— Já sabes que sim. Para que é que perguntas? — contrapôs ela.
— Mas, eu...
— Não digas nada. — interrompeu ela. — Não tornes tudo isto ainda mais doloroso.
Eu calei-me e não disse nada até chegarmos ao local da competição. Parei a cerca de cinquenta metros do recinto. Rafaela saiu do carro e eu segui-a. Ela estava mais habituada a todo aquele protocolo do que eu.
Dirigimo-nos à recepção, onde uma jovem em fato de banho prestava as informações aos concorrentes.
— Dupla Marco Oliveira e Rafaela Pereira. — disse ela, dirigindo-se à funcionária.
Eu fiquei a pensar. Tinha dado conta que só, naquele momento, tivera conhecimento do apelido de Rafaela.
A jovem olhou para o papel que tinha na mão e disse:
— O vosso jogo é o terceiro do dia.
— E qual é o que se está a desenrolar? — questionou Rafaela.
— É o segundo. — informou a outra. — Começou há cinco minutos. Se quiserem, podem ir para a bancada assistir. Mas convém que estejam prontos, dez minutos antes da hora marcada.
— Está bem. — concordou Rafaela.
Rafaela e eu seguimos para umas escadas que davam acesso às bancadas. Sentámo-nos a meio, pois lugares eram o que não faltava. A qualificação não atraia muito público.
O local era composto por um rectângulo de areia com marcações brancas, uma rede no meio e bancadas em ferro que circundavam o campo de voleibol.
Daqui a pouco, vamos estar ali a jogar. — afirmou Rafaela.
Eu não disse nada. Ela continuava a falar, não comigo, mas com ela própria:
— Temos que ter atenção à forma como eles jogam.
— A deles e a de todos. — disse eu.
— Mas, estes principalmente. Porque se ganharmos, vamos jogar com o vencedor deste jogo. — esclareceu ela.
As suas palavras fizeram-me ter mais atenção ao jogo.
O jogo demorou meia hora e quedou-se por um resultado de dois parciais contra nenhum dos derrotados.
O speaker da competição avisou:
— Próximo jogo dentro de quinze minutos.
Eu e Rafaela dirigimo-nos aos balneários para mudar de roupa.
Os balneários eram formados por dois contentores onde os concorrentes mudavam de roupa e tomavam banho, após o jogo. Cada contentor estava subdividido em duas partes para maior privacidade de cada membro da equipa.
Prontos para o jogo, deixámos o balneário e seguimos para o areal. Antes de entrarmos, Rafaela presenteou-me com um abraço e um beijo na face.
— É para dar sorte. — disse ela.
No nosso meio-campo, começámos a aquecer, executando passes um para o outro. Não que precisássemos de aquecer, já que estava um calor abrasador e o Sol despenhava-se sobre nós, sem uma única pausa.
Rafaela estava lindíssima, revelando o seu lindo corpo com o biquíni vermelho que eu comprara. Ambos envergávamos uma pequena camisola de alças, com o nosso número de inscrição, o 17.
Íamos confrontar uma dupla vinda do Porto. Os nomes não me recordo, mas sei que eram muito experientes.
O árbitro aproximou-se da rede e chamou:
— Os capitães de equipa que se aproximem.
O homem da outra equipa dirigiu-se ao árbitro. Eu fiquei parado, pois pensava que Rafaela era a capitã de equipa.
— Então? — perguntou ela.
— O que é? — interroguei eu.
— Vai lá. Tu é que és o capitão. — informou ela.
— Eu???
— Sim, tu. — confirmou ela.
— Mas, eu não percebo nada daquilo. — constatei eu, confuso.
— Vai lá que aquilo é fácil. — insistiu ela.
Eu estava relutante, mas o árbitro começou a ficar impaciente:
— Então, qual de vocês é o capitão?
— Sou eu. — respondi, de imediato.
A dupla adversária já ria com tanta inexperiência. Estavam a gozar-nos à grande.
— Cara ou coroa? — perguntou o árbitro.
— O maçarico que escolha. — disse o outro. Eu não respondi à provocação e disse:
— Cara!
O árbitro lançou a moeda ao ar e eu ganhei.
— Bola ou campo? — perguntou-me o árbitro.
Eu olhei para o nosso adversário e respondi:
— Campo. O tripeiro pode ficar com a bola.
— Ouve lá... — tentou responder ele.
Porém, o árbitro interrompeu:
— Meus amigos, essas coisas resolvem-se no campo!
Eu regressei para junto de Rafaela e questionei:
— Porque é que não ficaste como capitã de equipa?
— Achas que ficava bem? Geralmente, é o elemento masculino que chefia a equipa. Se não fizéssemos assim, tu eras visto como um jogador fraco que eu tinha arrastado para a competição. — explicou ela.
— Não andas muito longe disso. — contrapus eu.
Não sejas parvo. — disse ela. — Tu até jogas bem.
Não tivemos tempo para mais conversa, pois o árbitro sinalizou o início da partida.
O primeiro serviço coube aos nossos adversários. Um serviço forte e directo. Nem eu nem ela o apanhámos.
No segundo serviço, ainda esboçámos a resposta, mas nada feito.
O terceiro e o quarto serviço foram iguais.
— Marco, calma! — aconselhou Rafaela. — Não estejas nervoso.
Eu acenei, afirmativamente, com a cabeça.
Quinto serviço: ele atirou, eu apanhei, Rafaela passou e eu rematei em força. A bola foi bloqueada pela jogadora adversária e caiu no nosso campo.
— Tempo! — pediu Rafaela.
O árbitro suspendeu a partida para um desconto de tempo de um minuto.
Ambos nos sentámos nas cadeiras ali colocadas para os jogadores e repousámos.
— Cinco a zero. — disse Rafaela. — Isto está mal.
— Eles são muito fortes. — adicionei eu.
— Se estes são fortes para nós, nunca conseguiremos ganhar um torneio. — afirmou Rafaela.
O tempo terminou e o árbitro chamou-nos de novo ao campo. A dupla adversária olhava para nós e ria no gozo.
— Não ligues! — disse Rafaela.
Dado o sinal de recomeço, ele voltou a servir. Rafaela apanhou, eu passei a bola e ela rematou com toda a força. Sem hipóteses para eles.
Recuperávamos, assim, o serviço. E foi Rafaela quem o executou. E com uma potência que só visto. Os gozões nem viram a bola.
Por mais cinco vezes, Rafaela repetiu a façanha, virando o resultado a nosso favor.
Foi então a vez de eles pedirem um desconto de tempo.
Debaixo do chapéu-de-sol, que nos dava uma sombra maravilhosa, eu questionei Rafaela:
— Como é que consegues servir com aquela força?
Rafaela sorriu e respondeu:
— Penso em quem mais odeio e descarrego na bola.
— Espero que esse alguém não seja eu. — disse eu, olhando para ela.
Ela sorriu e disse:
— Se pensasse em ti quando sirvo ou remato, não tinha a menor força para o fazer.
Com o resultado de seis a cinco, regressámos ao rectângulo de jogo.
Rafaela voltou a servir, eles apanharam a bola e responderam com um remate cheio de efeito e enganaram-nos, retomando o serviço para eles.
Era a vez de a nossa adversária servir. Fê-lo com tanta força que a bola foi directamente para fora.
Vá, Marco! Agora és tu. — disse Rafaela, incentivando-me.
Eu peguei na bola, preparei-me para servir e atirei a bola. Mas estava tão nervoso que a bola colidiu com a rede.
Rafaela manteve-se em silêncio e olhou desiludida para mim.
O gozão pegou na bola e dirigiu-se à zona de serviço. Atirou-a bem alto e rematou-a com força.
Rafaela apanhou-a, desajeitadamente, e a bola seguiu um rumo contrário ao desejado. Foi então que eu corri e, em voo, toquei a bola em manchete, levantando-a e permitindo um remate, pleno de sucesso, a Rafaela.
Não duvido que aquela bola nos tenha galvanizado. Recuperar uma bola quase perdida, aumenta o ânimo dos jogadores. A partir daí, os pontos sucederam-se para o nosso lado e o parcial terminou com o resultado de quinze a cinco, a nosso favor.
— Estamos no bom caminho. — dizia Rafaela, enquanto limpava a areia do corpo com uma toalha.
— O primeiro set já é nosso. — corroborei eu.
O intervalo durou três minutos. Depois, foi o regresso ao campo.
Fui eu quem começou a servir. Desta vez, foi bem executado, mas melhor respondido pelos adversários.
Serviço do lado contrário, eu recebi, Rafaela passou e eu rematei em habilidade, enganando completamente o meu adversário.
— Cabrão! — chamou o tipo, com mau perder.
Eu já ia a responder à ofensa. Porém, Rafaela segurou-me e disse:
— Não ligues! Eles são conhecidos por atitudes destas. O melhor é não ligar, senão isso pode ser-nos prejudicial.
Eu concordei e voltei ao meu lugar.
Rafaela foi, então, para o serviço. E fez, nada mais nada menos que, oito pontos seguidos. Foi o arrumar da questão. Eles já não recuperaram e nós controlámos o parcial até vencermos por quinze a sete.
Ao fazer o ponto de jogo, Rafaela pulou de alegria. Eu juntei-me a ela, abracei-a pelas pernas e levantei-a em peso. Ao que ela respondeu, abraçando-me a cabeça e aconchegando-a no ventre.
A dupla que nós vencemos tinha tão mau perder que abandonou o recinto sem cumprimentar ninguém.
— É a primeira vez que ganho um jogo! — rejubilava Rafaela.
Eu dirigi-me ao árbitro e cumprimentei-o, sendo seguido da minha parceira.
— Eu vou andando. — disse Rafaela, dirigindo-se ao balneário.
Eu fiquei a ver o quadro de jogos e conversava com um dos fiscais:
— Estes tipos são mesmo mal-educados.
— E vá lá que hoje nem foi dos piores dias. — afirmou o fiscal.
— O quê? Não me diga que já fizeram pior. — interroguei eu.
No ano passado, envolveram-se à pancada com o outro par. — contou o fiscal. — O mal é dar-lhes conversa. O melhor é deixá-los falar e continuar a jogar.
Ao ouvir aquelas palavras, verifiquei como era inexperiente naquelas coisas. Eu já estava pronto a partir para as agressões, se não fosse o bom senso e a experiência de Rafaela.
Quando regressei aos balneários, ia tão eufórico e tão distraído que, por engano, entrei no lado de Rafaela. E fiquei com ela, na minha frente, de costas a tomar banho completamente nua.
Ao ver-me, Rafaela escondeu as partes mais íntimas e ordenou:
— Saí daqui, Marco! Saí imediatamente daqui!
Eu fiquei aparvalhado com o engano e demorei a raciocinar. Mas acabei por deixar o seu lado e fui para o meu.
Rafaela ficou convencida de que eu o fizera intencionalmente.
Minutos mais tarde, ao sair do balneário, pedi-lhe desculpa.
— Foi sem intenção. — disse eu.
— Esquece! — disse ela, ainda séria.
Eu olhei para ela e, com muita seriedade, disse:
— Eu jamais faria algo que abusasse da tua confiança.
Rafaela sorriu e respondeu:
— Eu sei, Marco. Eu sei.
Terminado o desentendimento, fomos para a bancada, assistir aos restantes jogos da manhã. Continuava a haver muito pouca gente nas bancadas.
Antes de almoço, foram divulgados os próximos jogos do qualifying. Nós só voltávamos a jogar no dia seguinte pela manhã.
— Rafaela, vamos embora? — perguntei eu.
— Não queres almoçar comigo? — sugeriu ela.
— Adorava. — concordei eu.
Almoçámos num restaurante, junto ao mar. Tinha um ambiente magnífico. Sentámo-nos na esplanada e ficámos a conversar ao som das ondas a bater na areia.
— Nunca me contaste, ao certo, a tua participação no ano passado. — disse eu.
Rafaela que denotava grande felicidade por aqueles momentos, sorriu e perguntou:
— Queres que te conte agora?
— Se quiseres...
Rafaela acedeu à proposta e começou a falar:
— Como já te disse, eu participei com o Tiago. Como meu namorado, ele não permitia que mais ninguém fizesse par comigo, a não ser ele. Por isso, se eu queria participar, tinha de ser com ele.
— E havia mais alguém, a quem pudesses recorrer? — indaguei eu.
— Não. Mas, também, não procurei. — continuou ela. — Bom, mas o Tiago não jogava mal. Só que o nosso relacionamento não era bom e isso reflectia-se no jogo. Participámos neste torneio e perdemos logo. Participámos no de Carcavelos e voltámos a perder no início. E acabámos por desistir de participar nos outros dois.
— Qual de nós joga melhor, eu ou o Tiago? — perguntei eu, vaidoso.
Rafaela derrubou a minha vaidade:
— Ele joga melhor. Mas, eu prefiro jogar contigo.
Depois do almoço, regressámos a Lisboa. Sentia-me feliz ao ver a felicidade dela.
Quando parei em frente ao seu prédio, perguntei:
— Rafaela! Queres sair comigo, logo à noite. Só um bocado para conversar.
Rafaela olhou para mim com uma ternura nos olhos que, quase, me comoveu. Tinham tanto carinho que me senti acariciado só com o seu olhar.
— Marco, já sabes que não posso. — disse ela com ternura.
Eu não insisti, pois compreendia o porquê da sua recusa.
Combinámos a hora para o dia seguinte e eu parti, rumo a casa.
Nessa noite, dormi descansadamente. O cansaço levou-me a ter um sono repousado e sem sobressaltos. Não sei o que sonhei, ou até se sonhei.