Capítulo III
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Tanto eu como Susana considerávamos maravilhosa a nossa nova vida de pai e mãe. Aquela bebé pequenina era a luz dos nossos olhos. Foi um pouco difícil adaptarmo-nos às suas necessidades, nos primeiros tempos, principalmente para Susana que tinha de lhe dar de mamar de três em três ou de quatro em quatro horas. Se durante o dia não custava nada, já durante a noite, Susana via-se obrigada a acordar com o choro de Ivana e a ter de se levantar para lhe dar peito. Eu também acordava, mas rapidamente voltava a adormecer.
Susana amamentou Ivana ao longo de quase um ano. O seu leite materno só se esgotou perto do primeiro aniversário de Ivana. Para Susana, os primeiros meses foram estafantes, pois era ela quem fazia tudo, uma vez que eu não tinha jeito para nada, desenrascando-me na mudança das fraldas e pouco mais. Só que esta realidade mudou drasticamente.
Quando o Benfica não renovou a relação contratual comigo, a nossa vida complicou-se, pois deixou de haver dinheiro, obrigando-nos a sobreviver com o que poupáramos. Seria solução para o imediato, mas não a médio e longo prazo. Como já referi, anteriormente, estivemos hesitantes em ficar por ali ou regressar a Portugal. Porém, decidimos permanecer e Susana teve a sorte de arranjar o seu emprego, o qual também já contei.
Sendo assim, fui eu quem passou a cuidar de Ivana, tendo de aprender a fazer tudo e a constatar que, afinal, tinha mais capacidades que aquelas que imaginava. Os únicos momentos em que não estava com ela foram aqueles em que tinha aulas, na época em que frequentava o curso superior, deixando-a na creche perto de casa.
Não trocava a sua companhia por nada. E isso provocou uma enorme cumplicidade entre pai e filha. Ivana também adorava Susana, mas habituara-se desde pequena a que a mãe nunca estivesse em casa.
É indescritível o que sentia, cada vez que Ivana fazia uma coisa nova. O meu ar aparvalhado ao ouvir as suas primeiras palavras, as lágrimas que quase me vieram aos olhos quando deu os primeiros passos, as suas brincadeiras, o aperto no coração, de todas as vezes que se magoava... Ser pai, ou mãe, é a melhor coisa do mundo.
Os anos foram passando sem que o dia-a-dia se alterasse muito. As recordações de Portugal eram cada vez mais distantes e a minha única ligação com o país eram os meus pais e a minha irmã com quem falava regularmente. Tinha também os canais televisivos internacionais portugueses para saber notícias do país.
Antes de começar as aulas do curso superior, frequentei um curso intensivo de francês, o que me permitiu aprender a língua, tornando possível o meu acesso às aulas do curso de Educação Física. E não só serviu para isso, como me permitiu poder andar por todo lado sem necessitar de um tradutor.
Mesmo longe, nunca me deixei de interessar pelas notícias desportivas. Se saber como se comportava o Benfica era fácil, o mesmo não acontecia com os resultados do G. D. Paúle. Para saber isso, tinha de consultar a Internet ou contar com os relatos do meu cunhado Augusto.
Para o Grupo Desportivo de Paúle, a época que se seguiu, a sua primeira temporada na 2ª Divisão B foi catastrófica. Logo no começo, nunca se conseguiu um acordo entre o senhor Ulisses Velez e o G. D. Paúle, devido à intransigência da engenheira Amândia Calheiros, relativamente aos espaços para os patrocínios. Alfredo Carrapiço até ficara entusiasmado com a proposta, mas ninguém demoveu a engenheira das suas pretensões. Não havendo acordo, não houve dinheiro para aquela época, para além do já orçamentado pela engenheira Calheiros.
Respondendo ao meu pedido, o presidente do Benfica, Lúcio Velez, contactou Alfredo Carrapiço para falarem da concessão de algum jogador por empréstimo. Mais uma vez, chegados à fase dos valores, o G. D. Paúle não pôde suportar as verbas salariais desses elementos.
Em conclusão, o Paúle avançou para o campeonato com a mesma equipa, tendo somente colmatado as saídas de Aquiles e eu com jogadores de capacidade duvidosa e que não trouxeram nada de novo. Num campeonato ainda mais competitivo e com equipas mais experientes, o saldo do Paúle quedou-se pelo último lugar, sem vitórias, com dois empates e trinta e duas derrotas. Com isto, aí estava o Paúle de regresso à 3ª Divisão.
Na aldeia, temeu-se a concretização dos receios de Alfredo Carrapiço, nos quais uma época assim podia provocar uma queda imparável pelos escalões de futebol, fazendo o Paúle voltar aos Distritais. Felizmente, isso não aconteceu. Se na época posterior ao massacre da 2ª Divisão B, o Paúle teve de lutar até ao fim para se manter na 3ª Divisão, nos anos seguintes as temporadas foram mais calmas e terminavam sempre entre o nono e décimo segundo lugar, não estando nunca perto dos lugares de descida aos Distritais.
Ao longo destes anos, Freitas conseguiu uma proeza cada vez mais rara no futebol português, mantendo-se como treinador do Paúle, sempre com Barnabé no lugar de adjunto.
Após ter terminado o curso, também procurei o meu espaço como treinador. Como vivia na Suíça, tentei dar-me a conhecer aos clubes locais, independentemente da sua colocação nas divisões helvéticas. Contudo, foi mais difícil do que eu esperava. E o melhor que consegui foi um estágio como adjunto de um treinador de uma equipa que jogava uma liga secundária.
Não foi uma experiência gratificante, nem enriquecedora. Não posso dizer que não tenha aprendido nada, mas... A minha função resumia-se a ser criado do treinador, usando-me este mais para lhe fazer recados do que para opinar no que quer que fosse. Valia pela relação com os jogadores, os quais gostavam de conversar comigo e desabafavam algumas coisas. Eu tinha as minhas próprias ideias acerca das tácticas, mas o individuo não me dava ouvidos, preferindo praticar uma política retrógrada de jogar futebol, mais velha que o meu avô. Por vezes, via a equipa desabar aos pés dos adversários, vítima da sua táctica. Tentava dizer-lhe o que achava melhor, mas ele, no seu pedestal de vinte e tal anos mais velho, considerava-me um puto empertigado e ignorava-me completamente.
Esse tempo foi difícil também pelos dias afastado de Ivana, quando acompanhava a equipa nas deslocações.
Ao fim de um ano de estágio, senti-me aliviado por sair do clube.
As minhas recordações foram interrompidas por uma voz que dizia:
─ Senhores passageiros! Estamos a chegar a Lisboa e em rota com a pista do aeroporto. Queiram fazer o favor de apertar os cintos.
Olhei para Ivana e constatei que adormecera durante a viagem. Esforçando-me para não a acordar, apertei o seu cinto. À nossa frente, António e Gabrielle faziam o mesmo. Por fim, apertei o meu.
Aquela lembrança do estágio fez-me constatar que teria de arranjar uma solução para a minha recente carreira de treinador. A saída do clube acontecera um mês antes. Seria um assunto a resolver depois das férias em Portugal, quando regressasse à Suíça. E esperava ter melhor sorte.
Quando saí do avião, trazendo Ivana bem agarrada pela mão, senti o bafo quente do ar de Lisboa em pleno Verão. De facto, já não estava habituado a tanto calor, depois de tanto tempo num país frio como é a Suíça.
─ Está calor! ─ exclamou Ivana, perturbada com a temperatura. Sorri-lhe com o meu ar paternal, continuando a conduzi-la até ao edifício do aeroporto. Mal entrámos, sentiu-se o fresco do ar condicionado. ─ Aqui já está melhor.
Seguindo os quatro, lado a lado e empurrando os carrinhos com as bagagens, algum tempo depois, dirigimo-nos para a saída do aeroporto, mais precisamente para a praça de táxis. António partilhou comigo o seu plano de férias:
─ Vamos ficar uns dias em Lisboa e depois vamos para o norte. Daqui a uma semana, viajamos para França, onde estamos a pensar ficar mais alguns dias. Depois, voltamos a Portugal para passar quinze dias no Algarve.
─ Não era preferível deixar a visita a França para o fim? Para não terem de andar para trás e para a frente. ─ sugeri eu.
─ Tem de ser assim porque a Gabrielle quer estar na sua terra naqueles dias. É uma época especial, lá.
Gabrielle assentiu com a cabeça, confirmando o que ele dizia.
─ Et toi, Ivan? Vá fiquê quanto tempô?
─ Não sei bem...
─ Queres que te avise, quando partirmos para a Suíça?
Abanei a cabeça em concordância.
Não permanecemos juntos muito mais tempo. António e Gabrielle despediram-se de nós e apanharam o primeiro táxi da fila, junto à saída do Aeroporto da Portela. Empurrei o meu carrinho com a bagagem, tendo sempre a mãozinha de Ivana bem segura, e dirigi-me ao seguinte. O taxista ajudou-me a colocar as malas no seu automóvel.
Não fizera grande esforço, mas sentia-me a transpirar como se estivesse a correr debaixo do Sol do meio-dia. Senti-me grato por Ivana se ter habituado rapidamente à temperatura, não voltando a reclamar do calor.
─ Isso fica aonde? ─ perguntou o taxista, quando lhe indiquei a morada dos meus pais.
─ Alvalade.
O homem iniciou a marcha do carro, indagando:
─ É português?
─ Sou, porquê?
─ Fiquei na dúvida, por causa do seu sotaque francês. ─ explicou ele. ─ Está emigrado em França?
Por momentos, fiquei surpreso, pois não calculava que tivesse pronúncia francófona. De facto, quando estamos no estrangeiro, mesmo continuando a falar português, nem nos apercebemos que a nossa fala se vai transformando. Foi necessário encontrar alguém a falar o português genuíno para ver os meus erros.
─ Tenho estado na Suíça. ─ respondi.
─ Tenho lá uma irmã. ─ continuou o homem, fazendo assunto. ─ Está em Zurique.
─ Eu vivo em Nyon.
Apesar de conversar interessado, não me abstinha de ter atenção ao percurso dele, pois os taxistas portugueses eram famosos por tentarem ludibriar os passageiros que desembarcavam nos aeroportos. Contudo, tive a felicidade de entrar no automóvel de um indivíduo honesto.
As minhas respostas eram curtas, o que levou a que me demonstrasse pouco interessado em dialogar, mesmo não tendo essa intenção, nem de parecer antipático. Só que estava afastado da minha cidade havia sete anos e tinha curiosidade em ver tudo o que me rodeava, procurando diferenças para aquilo que conhecia.
Alvalade não estava muito diferente do que conhecera, poderia ter uma ou outra mudança, mas no geral estava tudo na mesma. Talvez as árvores estivessem mais crescidas e a decoração mais arranjada, mas nada de relevante.
O táxi parou na avenida, junto ao prédio onde viviam os meus pais. Notei que Ivana ficara tão encantada com a paisagem que nem se pronunciara em toda a viagem, desde a Portela até Alvalade.
A sensação daquele regresso a casa era estranha, pois sentia-me completamente diferente da última vez que ali estivera, ainda Ivana não era nascida. Tinham passado apenas sete anos, mas pareciam ter sido vinte. Não que me sentisse assim tão velho, mas a paternidade amadurecera-me mais que aquilo que eu pudesse imaginar.
O Sol continuava forte e agressivo. Segurei as malas com ambas as mãos e confiei na obediência de Ivana para que não se afastasse de mim. Ela era bastante bem-educada e seguiu à risca as instruções que lhe dei.
Como estariam os meus pais? Sempre mantivemos o contacto e falávamos regularmente ao telefone. No entanto, não os via desde que partira para a Suíça.
Parei junto à porta e toquei à campainha. Tive de aguardar quase um minuto até que uma voz perguntasse quem era.
─ Sou eu, mãe! ─ respondi, sentindo a surpresa dela. Não me disse nada, respondendo-me com o estalo da porta a abrir.
Transportando a bagagem, empurrei a porta de ferro com o ombro e entrei, sempre com um olho em Ivana que insistia em ser ela a carregar a sua pequena malinha. Logo que fechei a porta, ouvi passos a descer as escadas.
A surpresa foi grande, mas não gostaria de lhe chamar um choque, quando vi os meus pais aparecerem vindos da escadaria empedrada. Tinham o cabelo bastante grisalho e notei-os mais gordos. Não uma gordura de quem come muito, talvez parecessem inchados pelo envelhecimento. Mesmo sedentos de me sentir nos seus braços, pararam a aproximação e ficaram a olhar para pequena e bela Ivana, a qual me apertava a mão, assustada. Senti-me culpado pela sua apreensão, pois nunca me esforçara por lhes ter possibilitado aquele encontro, antes.
A minha mãe, no seu eterno jeito para as crianças, encurtou a distância e baixou-se junto dela.
─ Dá um beijo à avó! ─ disse-lhe eu, como se ela esperasse a minha autorização para o fazer.
─ Olá! ─ cumprimentou a minha mãe. ─ Dás-me um beijinho?
Ivana olhava-a a medo, numa mistura de timidez e estranheza por estar perante pessoas que se habituara a conhecer de fotografias. Ganhando coragem, esticou-se em direcção ao rosto da minha mãe e deu-lhe um beijo leve na face.
O meu pai abraçou-me, apertando-me com a intensidade das saudades. Logo a seguir, baixou-se junto de Ivana e perguntou-lhe:
─ Será que se arranja um beijinho para este velhote?
Ivana abanou afirmativamente a cabeça e presenteou-o com um beijo semelhante ao que dera à minha mãe.
Emocionada, a minha mãe abraçou-me e encheu-me de beijos, ao que se juntou o meu pai. Ivana olhava-nos com a confusão de quem se sentia num filme onde o seu papel não se enquadrava.
─ A Susana? ─ indagou o meu pai.
─ Não pôde vir. ─ informei com um tom triste. ─ Está muito atarefada no emprego. Seria impossível vir até cá. Mas, pediu-me para que não me esquecesse de vos dar muitos beijos dela.
─ Tenho pena que não tivesse vindo. ─ desabafou o meu pai. ─ Gosto muito de falar com ela.
─ Temos muitas saudades dela. ─ adicionou a minha mãe.
Mudando a expressão do rosto e falando num tom mais robusto, o meu pai lembrou:
─ Podias ter dito que vinhas. Tínhamos ido esperar-vos ao aeroporto.
─ Para quê? ─ questionei eu. ─ Iam estar numa seca sem necessidade.
Havia muita conversa para pôr em dia, mas o átrio da escada não era, certamente, o lugar mais apropriado. Com a ajuda dos meus pais, levei a bagagem para cima, vendo a minha mãe conversando com a minha filha e notando como Ivana ia ganhando confiança com a avó.
Assim que me reinstalei em casa dos meus pais, a qual se mantinha praticamente igual ao que conhecera, telefonei a Susana para lhe dizer que a viagem correra bem. Aliás, telefonar a Susana seria uma constante de todos os dias daquelas férias em Portugal.
Senti algum alívio com a rapidez com que Ivana se ambientara aos avós e como já lidava com eles e brincava com eles, sem precisar da minha presença por perto. Quanto aos meus pais, bastaria olhar para os seus olhos para ver o contentamento que lhes ia na alma.
Não havia muitas pessoas em Lisboa com quem planeasse reencontrar-me. Tinha mais interesse numa passagem por Paúle, onde poderia reencontrar muitas pessoas que me deixaram grandes saudades. E nem teria que me preocupar onde ficar, pois mal os meus pais telefonaram a Manuela para lhe dizer que eu estava em Portugal, ela exigiu a minha estadia em sua casa.
No entanto, em Lisboa, havia um amigo que jamais poderia esquecer. Jorge fora dos poucos a visitar-me na Suíça. Nunca obtivera grandes lucros em ser meu empresário, mas jamais me largaria, sempre preocupado em ajudar-me. Acho que demorou mais tempo a aceitar o final da minha carreira de futebolista que eu próprio.
Na primeira manhã que encarei em Lisboa, peguei no telemóvel e liguei-lhe. Não conversávamos havia algumas semanas. Porém, falávamos sempre como se o tivéssemos feito no dia anterior. Quando lhe disse que estava em Lisboa, em casa dos meus pais, nem hesitou em combinar encontrar-me.
Ivana nem se importou, quando lhe disse que tinha de sair e que ela ficaria a cargo dos avós. A avó prometera-lhe que iria ensiná-la a fazer o macarrão do almoço.
Quase nem reconheci o Jorge, quando o vi encostado ao carro estacionado na avenida, perto do prédio dos meus pais. Mantinha-se elegante e bem arranjado, pois Eduardo não admitiria outra coisa. Porém, o cabelo grisalho e o rosto enrugado atribuíam-lhe uma aparência mais desgastada que a idade normalmente lhe vincaria. Unimo-nos num longo abraço fraternal e Jorge convidou-me a almoçar com ele, evidenciando que não aceitaria recusas.
─ Tenho só que passar primeiro pelo Belenenses. ─ informou-me. ─ Não te importas de vir também, pois não?
Estava um calor asfixiante e eu continuava a tentar readaptar-me ao clima português. Entrei no carro e senti uma temperatura menos quente, fruto do ar condicionado constantemente ligado.
Antes de Jorge entrar no carro, observei o interior do Mercedes dele. Jorge denotava sinais exteriores de riqueza, o que me alegrava, pois sempre trabalhara muito para ter sucesso na sua profissão. Pena foi que não tivesse tido sorte comigo.
Ao entrar, ele ligou a ignição. Ouvi o roncar do motor e o estalido do rádio com leitor de CD, preparando-se para rodar o que tinha no seu interior. Fiquei estarrecido com o que comecei a ouvir. Detestava aquela música, apesar de ser um sucesso em toda a Europa.
─ Que é isto, pá? ─ interroguei eu, sabendo a resposta, mas querendo exprimir a minha repulsa.
─ Não conheces? ─ estranhou ele como se isso fizesse de mim um ignorante. ─ É o CD dos O-Zone!
─ Isso sei eu. ─ ripostei. ─ Tu gostas desta merda? Ainda mais este Draconicos não-sei-de-quê.
─ Dragostea din tei! ─ emendou ele, sentido. ─ É uma musica muito boa. E o Eduardo também gosta.
─ E vocês que não gostassem... ─ disse para os meus botões.
─ O quê?
─ Ainda bem que vocês gostam. ─ respondi-lhe.
Jorge iniciou a condução, mantendo o olhar na estrada e dizendo:
─ Não gostas porque são três gajos a cantar.
─ Não é nada disso. ─ contrapus. ─ Conheces-me há muitos anos e sabes que não tenho esses preconceitos.
─ Sim, tens razão! Desculpa!
─ Tudo bem, Jorge.
Em poucos minutos, ecoou nova música pelo carro, proveniente do mesmo CD.
─ Esta á a minha preferida. ─ confessou Jorge. ─ É o Despre tine.
Estava lixado, apercebi-me, certo que ia levar com a discografia e a história daqueles três ozonos.
Toda a paisagem que nos envolvia por onde passávamos me despertava atenção. Procurava diferenças do actual relativamente às minhas recordações. Claro que existiam diferenças, mas ao longo dos últimos sete anos, nada de significativo.
Jorge conduzia ao som da música emanada do CD, mantendo o seu típico ritmo ligeiro e defensivo. Para ele, conduzir no trânsito da cidade era um pavor. Valia o facto de vivermos uma época do ano em que a maior parte dos lisboetas estava fora em férias. Ao entrarmos no Eixo Norte-Sul, Jorge reiniciou o diálogo:
─ A Susana não veio?
─ Não. ─ informei eu, olhando para um edifício alto, perto da via, que não fazia parte das minhas recordações. ─ Está muito ocupada. Não podia ausentar-se da Suíça.
─ Como é que ela está?
─ Bem.
─ Deves estar cheio de saudades dela, não?
─ Sim. ─ respondi eu, pouco convicto. Seria preciso bem mais que um dia para dizer que sentia a distância. Habituara-me às deslocações em trabalho que ela tinha frequentemente. Eu amava-a muito e tinha a certeza que quando passasse uma semana, sentiria um desejo enorme de a ter nos braços. Porém, um dia era pouco para me perturbar.
─ Tem sido bom, viver na Suíça?
─ Sabes que ao principio não foi. Mas, agora, acho que já não me adaptaria a Portugal. Só para passar férias, mais nada.
─ Já tens planos para o teu futuro como treinador? Sempre saíste lá daquela equipa onde estagiaste?
─ Sim. ─ confirmei, vendo-o abandonar a via na saída para a Avenida de Ceuta. ─ Quando voltar, vou ver se consigo arranjar clube.
─ Queres que te ajude? ─ sugeriu Jorge.
─ Claro, Jorge! ─ aceitei. Todas as ajudas eram bem-vindas. ─ Tens contactos na Suíça?
─ Alguns. ─ respondeu ele. Parámos no semáforo perto de Alcântara. ─ Não pões como hipótese treinar em Portugal.
Não era hipótese que me agradasse muito. Contudo, sabia como o mercado estava difícil. E fazer carreira de treinador em Portugal tinha outra visibilidade que na Suíça. Acabei por dizer:
─ Depende da proposta.
Jorge abriu o sorriso e confidenciou:
─ Não sei o que conseguirei na Suíça, mas tenho bons contactos cá. Talvez se consiga alguma coisa.
Naquele momento, a ideia não obteve grande ânimo da minha parte. Nem quis pensar nela sem uma proposta válida e aliciante. Treinar em Portugal, significaria ter de voltar a viver no meu país, o que logo levantou enormes dúvidas em relação à disponibilidade de Susana para me acompanhar. Não poderia censurá-la por isso, pois não tinha o direito de a fazer abdicar da sua carreira pela minha. Concluindo, não era uma boa ideia, nem queria que Susana fosse uma segunda Camila na minha vida.
Quando voltei a prestar atenção à estrada, já estávamos em Belém, perto de virar para o Mosteiro dos Jerónimos, rumo ao Estádio do Restelo, um pouco mais acima. Jorge parou o carro perto do estádio e ambos saímos para enfrentar o calor pavoroso do exterior e entrar nos portões do complexo. Enquanto ele seguiu para os escritórios, eu fiquei nas bancadas a ver um treino dos miúdos do clube.
Todo aquele local me trazia inúmeras recordações. Afinal, passara ali uns anos da minha carreira de futebolista, na adolescência. Olhava para os miúdos que não deveriam ter mais que oito ou nove anos e recordava-me de como eu era com aquela idade e os sonhos que tinha.
Passei por diversas pessoas ligadas ao clube, a caminho da bancada, mas ninguém me reconheceu. Nem alguns funcionários, que já o eram quando ali estivera, me reconheceram. Sentei-me isolado da meia dúzia de pessoas que se espalhavam pela bancada e fiquei a observar os miúdos.
Ver aquelas crianças a jogar poderia ser um desperdício de tempo, pois à primeira vista pareciam não saber muito bem o que fazer à bola. Temos de ter em conta que a bola é a mesma com que jogam os adultos, o que a nível de proporções se torna relevante para os pequenos. Contudo, notei algum talento em uns poucos, especialmente num miudinho magricela, ligeiramente mais pequeno, o qual já dava uns toques na bola que o faziam sobressair.
─ É de pequenino que se começa. ─ ouvi uma voz dizer.
Olhei para o lado e vi Jorge que regressara da sua reunião com a direcção do clube.
─ Alguns já sabem o que andam ali a fazer. ─ disse eu. ─ Especialmente, aquele ali.
─ O Ângelo? ─ interrogou ele.
─ Aquele ali. ─ tornei a apontar.
─ Sim, é ele. ─ confirmou Jorge. ─ Engraçado que tenhas reparado nele.
─ Porquê?
─ Conheces bem os pais dele! ─ afirmou ele, deixando-me curioso. ─ É filho da Camila e do Nick. ─ Emudeci. ─ Tem sete anos! É o puto mais novo da equipa. E tem talento! Fui eu quem lho descobriu.
─ É o teu próximo cliente?
─ Já o é. ─ informou com naturalidade, como se falássemos de uma estrela de dezoito ou vinte anos. Abriu o sorriso ─ Engraçado que tenha tanto jeito para a bola, sendo filho de quem é.
Fiquei a olhar para o miúdo, o qual a partir daquele momento me pareceu ter parecenças com Camila. Talvez fosse imaginação ou talvez não. Simpatizei com ele...
Permanecemos a ver o treino em silêncio, com especial atenção ao Ângelo.
─ Engraçado! ─ exclamou Jorge.
─ O quê? ─ perguntei eu.
─ Ainda não teres perguntado pela Camila. ─ explicou ele, mantendo um sorriso matreiro, o mesmo que fazia sempre que falávamos nela.
No entanto, penso que a minha reacção foi indicativa de como tudo estava diferente:
─ Não há nada para perguntar! Não me interessa saber nada dela.
Jorge perdeu o sorriso e disse:
─ A vossa história não teve o melhor fim.
─ Por culpa dela. ─ adicionei eu, percebendo que a lembrança ainda me magoava. ─ Não quero falar nela, Jorge. Desculpa, mas é um assunto encerrado na minha vida, há muito tempo. E espero nunca mais a voltar a ver.
Respeitando a minha postura, Jorge não voltou a pronunciar-se sobre ela.
O calor continuava abrasador, sem que eu me conseguisse readaptar, tal me tinha habituado ao Verão suíço, parecido com o Outono de Portugal. Num tom brincalhão, olhei para Jorge e perguntei:
─ Terminaste a reunião com o pessoal do Belenenses. Então? Vão contratar-me para treinador?
─ Não fui lá falar nisso. ─ respondeu ele, sério.
─ Eu sei! Estou a gozar contigo.
─ Mas, não penses que me esqueci de ti. ─ ripostou ele. ─ Tenho esperança de te conseguir algo bom. Pena é que já estamos em Agosto e os campeonatos começam já no final do mês. Bom, os da 3ª Divisão começam em Setembro.
─ Queres pôr-me a treinar no Paúle? ─ interroguei num gracejo.
─ Isto não está fácil.
Alterei o meu semblante para maior seriedade e lembrei:
─ Sabes que prefiro treinar na Suíça. Tenho lá a minha vida estruturada e não queria sair de lá.
─ Eu vou tentar. ─ reafirmou Jorge. ─ Mas conheço o mercado e sei como é difícil arranjar um lugar de treinador a alguém sem experiência. Talvez te consiga um lugar de adjunto.
─ Dispenso. ─ apressei-me a recusar. ─ Já me chegou esta época.
─ Sabes que sempre fui sincero contigo. ─ argumentou. ─ Não vai ser fácil. Não estranhes que te apareça com uma proposta de um clube ao nível do Paúle, seja aqui ou na Suíça.
Não fui capaz de contrariar a sua ideia, até porque sabia que ele estava correcto. Recordei-me dos anos em que vivi em Paúle e acabei por dizer:
─ De facto, os momentos mais gloriosos da minha carreira aconteceram no Paúle.
─ Principalmente, no ano em que o José Luís era o treinador. ─ adicionou Jorge.
─ Por falar nele. ─ recordei. ─ Que é feito dele?
─ Está a trabalhar em Inglaterra, a treinar o Liverpool. ─ informou. ─ É uma divida que tenho para contigo, teres-me apresentado o José Luís e aconselhado a que trabalhasse comigo.
─ Não deves nada, Jorge! ─ retorqui eu. ─ Somos amigos. E os amigos não devem nada entre si.
─ Seja como for, eu pago o almoço! ─ contrapôs ele.
Susana amamentou Ivana ao longo de quase um ano. O seu leite materno só se esgotou perto do primeiro aniversário de Ivana. Para Susana, os primeiros meses foram estafantes, pois era ela quem fazia tudo, uma vez que eu não tinha jeito para nada, desenrascando-me na mudança das fraldas e pouco mais. Só que esta realidade mudou drasticamente.
Quando o Benfica não renovou a relação contratual comigo, a nossa vida complicou-se, pois deixou de haver dinheiro, obrigando-nos a sobreviver com o que poupáramos. Seria solução para o imediato, mas não a médio e longo prazo. Como já referi, anteriormente, estivemos hesitantes em ficar por ali ou regressar a Portugal. Porém, decidimos permanecer e Susana teve a sorte de arranjar o seu emprego, o qual também já contei.
Sendo assim, fui eu quem passou a cuidar de Ivana, tendo de aprender a fazer tudo e a constatar que, afinal, tinha mais capacidades que aquelas que imaginava. Os únicos momentos em que não estava com ela foram aqueles em que tinha aulas, na época em que frequentava o curso superior, deixando-a na creche perto de casa.
Não trocava a sua companhia por nada. E isso provocou uma enorme cumplicidade entre pai e filha. Ivana também adorava Susana, mas habituara-se desde pequena a que a mãe nunca estivesse em casa.
É indescritível o que sentia, cada vez que Ivana fazia uma coisa nova. O meu ar aparvalhado ao ouvir as suas primeiras palavras, as lágrimas que quase me vieram aos olhos quando deu os primeiros passos, as suas brincadeiras, o aperto no coração, de todas as vezes que se magoava... Ser pai, ou mãe, é a melhor coisa do mundo.
Os anos foram passando sem que o dia-a-dia se alterasse muito. As recordações de Portugal eram cada vez mais distantes e a minha única ligação com o país eram os meus pais e a minha irmã com quem falava regularmente. Tinha também os canais televisivos internacionais portugueses para saber notícias do país.
Antes de começar as aulas do curso superior, frequentei um curso intensivo de francês, o que me permitiu aprender a língua, tornando possível o meu acesso às aulas do curso de Educação Física. E não só serviu para isso, como me permitiu poder andar por todo lado sem necessitar de um tradutor.
Mesmo longe, nunca me deixei de interessar pelas notícias desportivas. Se saber como se comportava o Benfica era fácil, o mesmo não acontecia com os resultados do G. D. Paúle. Para saber isso, tinha de consultar a Internet ou contar com os relatos do meu cunhado Augusto.
Para o Grupo Desportivo de Paúle, a época que se seguiu, a sua primeira temporada na 2ª Divisão B foi catastrófica. Logo no começo, nunca se conseguiu um acordo entre o senhor Ulisses Velez e o G. D. Paúle, devido à intransigência da engenheira Amândia Calheiros, relativamente aos espaços para os patrocínios. Alfredo Carrapiço até ficara entusiasmado com a proposta, mas ninguém demoveu a engenheira das suas pretensões. Não havendo acordo, não houve dinheiro para aquela época, para além do já orçamentado pela engenheira Calheiros.
Respondendo ao meu pedido, o presidente do Benfica, Lúcio Velez, contactou Alfredo Carrapiço para falarem da concessão de algum jogador por empréstimo. Mais uma vez, chegados à fase dos valores, o G. D. Paúle não pôde suportar as verbas salariais desses elementos.
Em conclusão, o Paúle avançou para o campeonato com a mesma equipa, tendo somente colmatado as saídas de Aquiles e eu com jogadores de capacidade duvidosa e que não trouxeram nada de novo. Num campeonato ainda mais competitivo e com equipas mais experientes, o saldo do Paúle quedou-se pelo último lugar, sem vitórias, com dois empates e trinta e duas derrotas. Com isto, aí estava o Paúle de regresso à 3ª Divisão.
Na aldeia, temeu-se a concretização dos receios de Alfredo Carrapiço, nos quais uma época assim podia provocar uma queda imparável pelos escalões de futebol, fazendo o Paúle voltar aos Distritais. Felizmente, isso não aconteceu. Se na época posterior ao massacre da 2ª Divisão B, o Paúle teve de lutar até ao fim para se manter na 3ª Divisão, nos anos seguintes as temporadas foram mais calmas e terminavam sempre entre o nono e décimo segundo lugar, não estando nunca perto dos lugares de descida aos Distritais.
Ao longo destes anos, Freitas conseguiu uma proeza cada vez mais rara no futebol português, mantendo-se como treinador do Paúle, sempre com Barnabé no lugar de adjunto.
Após ter terminado o curso, também procurei o meu espaço como treinador. Como vivia na Suíça, tentei dar-me a conhecer aos clubes locais, independentemente da sua colocação nas divisões helvéticas. Contudo, foi mais difícil do que eu esperava. E o melhor que consegui foi um estágio como adjunto de um treinador de uma equipa que jogava uma liga secundária.
Não foi uma experiência gratificante, nem enriquecedora. Não posso dizer que não tenha aprendido nada, mas... A minha função resumia-se a ser criado do treinador, usando-me este mais para lhe fazer recados do que para opinar no que quer que fosse. Valia pela relação com os jogadores, os quais gostavam de conversar comigo e desabafavam algumas coisas. Eu tinha as minhas próprias ideias acerca das tácticas, mas o individuo não me dava ouvidos, preferindo praticar uma política retrógrada de jogar futebol, mais velha que o meu avô. Por vezes, via a equipa desabar aos pés dos adversários, vítima da sua táctica. Tentava dizer-lhe o que achava melhor, mas ele, no seu pedestal de vinte e tal anos mais velho, considerava-me um puto empertigado e ignorava-me completamente.
Esse tempo foi difícil também pelos dias afastado de Ivana, quando acompanhava a equipa nas deslocações.
Ao fim de um ano de estágio, senti-me aliviado por sair do clube.
As minhas recordações foram interrompidas por uma voz que dizia:
─ Senhores passageiros! Estamos a chegar a Lisboa e em rota com a pista do aeroporto. Queiram fazer o favor de apertar os cintos.
Olhei para Ivana e constatei que adormecera durante a viagem. Esforçando-me para não a acordar, apertei o seu cinto. À nossa frente, António e Gabrielle faziam o mesmo. Por fim, apertei o meu.
Aquela lembrança do estágio fez-me constatar que teria de arranjar uma solução para a minha recente carreira de treinador. A saída do clube acontecera um mês antes. Seria um assunto a resolver depois das férias em Portugal, quando regressasse à Suíça. E esperava ter melhor sorte.
Quando saí do avião, trazendo Ivana bem agarrada pela mão, senti o bafo quente do ar de Lisboa em pleno Verão. De facto, já não estava habituado a tanto calor, depois de tanto tempo num país frio como é a Suíça.
─ Está calor! ─ exclamou Ivana, perturbada com a temperatura. Sorri-lhe com o meu ar paternal, continuando a conduzi-la até ao edifício do aeroporto. Mal entrámos, sentiu-se o fresco do ar condicionado. ─ Aqui já está melhor.
Seguindo os quatro, lado a lado e empurrando os carrinhos com as bagagens, algum tempo depois, dirigimo-nos para a saída do aeroporto, mais precisamente para a praça de táxis. António partilhou comigo o seu plano de férias:
─ Vamos ficar uns dias em Lisboa e depois vamos para o norte. Daqui a uma semana, viajamos para França, onde estamos a pensar ficar mais alguns dias. Depois, voltamos a Portugal para passar quinze dias no Algarve.
─ Não era preferível deixar a visita a França para o fim? Para não terem de andar para trás e para a frente. ─ sugeri eu.
─ Tem de ser assim porque a Gabrielle quer estar na sua terra naqueles dias. É uma época especial, lá.
Gabrielle assentiu com a cabeça, confirmando o que ele dizia.
─ Et toi, Ivan? Vá fiquê quanto tempô?
─ Não sei bem...
─ Queres que te avise, quando partirmos para a Suíça?
Abanei a cabeça em concordância.
Não permanecemos juntos muito mais tempo. António e Gabrielle despediram-se de nós e apanharam o primeiro táxi da fila, junto à saída do Aeroporto da Portela. Empurrei o meu carrinho com a bagagem, tendo sempre a mãozinha de Ivana bem segura, e dirigi-me ao seguinte. O taxista ajudou-me a colocar as malas no seu automóvel.
Não fizera grande esforço, mas sentia-me a transpirar como se estivesse a correr debaixo do Sol do meio-dia. Senti-me grato por Ivana se ter habituado rapidamente à temperatura, não voltando a reclamar do calor.
─ Isso fica aonde? ─ perguntou o taxista, quando lhe indiquei a morada dos meus pais.
─ Alvalade.
O homem iniciou a marcha do carro, indagando:
─ É português?
─ Sou, porquê?
─ Fiquei na dúvida, por causa do seu sotaque francês. ─ explicou ele. ─ Está emigrado em França?
Por momentos, fiquei surpreso, pois não calculava que tivesse pronúncia francófona. De facto, quando estamos no estrangeiro, mesmo continuando a falar português, nem nos apercebemos que a nossa fala se vai transformando. Foi necessário encontrar alguém a falar o português genuíno para ver os meus erros.
─ Tenho estado na Suíça. ─ respondi.
─ Tenho lá uma irmã. ─ continuou o homem, fazendo assunto. ─ Está em Zurique.
─ Eu vivo em Nyon.
Apesar de conversar interessado, não me abstinha de ter atenção ao percurso dele, pois os taxistas portugueses eram famosos por tentarem ludibriar os passageiros que desembarcavam nos aeroportos. Contudo, tive a felicidade de entrar no automóvel de um indivíduo honesto.
As minhas respostas eram curtas, o que levou a que me demonstrasse pouco interessado em dialogar, mesmo não tendo essa intenção, nem de parecer antipático. Só que estava afastado da minha cidade havia sete anos e tinha curiosidade em ver tudo o que me rodeava, procurando diferenças para aquilo que conhecia.
Alvalade não estava muito diferente do que conhecera, poderia ter uma ou outra mudança, mas no geral estava tudo na mesma. Talvez as árvores estivessem mais crescidas e a decoração mais arranjada, mas nada de relevante.
O táxi parou na avenida, junto ao prédio onde viviam os meus pais. Notei que Ivana ficara tão encantada com a paisagem que nem se pronunciara em toda a viagem, desde a Portela até Alvalade.
A sensação daquele regresso a casa era estranha, pois sentia-me completamente diferente da última vez que ali estivera, ainda Ivana não era nascida. Tinham passado apenas sete anos, mas pareciam ter sido vinte. Não que me sentisse assim tão velho, mas a paternidade amadurecera-me mais que aquilo que eu pudesse imaginar.
O Sol continuava forte e agressivo. Segurei as malas com ambas as mãos e confiei na obediência de Ivana para que não se afastasse de mim. Ela era bastante bem-educada e seguiu à risca as instruções que lhe dei.
Como estariam os meus pais? Sempre mantivemos o contacto e falávamos regularmente ao telefone. No entanto, não os via desde que partira para a Suíça.
Parei junto à porta e toquei à campainha. Tive de aguardar quase um minuto até que uma voz perguntasse quem era.
─ Sou eu, mãe! ─ respondi, sentindo a surpresa dela. Não me disse nada, respondendo-me com o estalo da porta a abrir.
Transportando a bagagem, empurrei a porta de ferro com o ombro e entrei, sempre com um olho em Ivana que insistia em ser ela a carregar a sua pequena malinha. Logo que fechei a porta, ouvi passos a descer as escadas.
A surpresa foi grande, mas não gostaria de lhe chamar um choque, quando vi os meus pais aparecerem vindos da escadaria empedrada. Tinham o cabelo bastante grisalho e notei-os mais gordos. Não uma gordura de quem come muito, talvez parecessem inchados pelo envelhecimento. Mesmo sedentos de me sentir nos seus braços, pararam a aproximação e ficaram a olhar para pequena e bela Ivana, a qual me apertava a mão, assustada. Senti-me culpado pela sua apreensão, pois nunca me esforçara por lhes ter possibilitado aquele encontro, antes.
A minha mãe, no seu eterno jeito para as crianças, encurtou a distância e baixou-se junto dela.
─ Dá um beijo à avó! ─ disse-lhe eu, como se ela esperasse a minha autorização para o fazer.
─ Olá! ─ cumprimentou a minha mãe. ─ Dás-me um beijinho?
Ivana olhava-a a medo, numa mistura de timidez e estranheza por estar perante pessoas que se habituara a conhecer de fotografias. Ganhando coragem, esticou-se em direcção ao rosto da minha mãe e deu-lhe um beijo leve na face.
O meu pai abraçou-me, apertando-me com a intensidade das saudades. Logo a seguir, baixou-se junto de Ivana e perguntou-lhe:
─ Será que se arranja um beijinho para este velhote?
Ivana abanou afirmativamente a cabeça e presenteou-o com um beijo semelhante ao que dera à minha mãe.
Emocionada, a minha mãe abraçou-me e encheu-me de beijos, ao que se juntou o meu pai. Ivana olhava-nos com a confusão de quem se sentia num filme onde o seu papel não se enquadrava.
─ A Susana? ─ indagou o meu pai.
─ Não pôde vir. ─ informei com um tom triste. ─ Está muito atarefada no emprego. Seria impossível vir até cá. Mas, pediu-me para que não me esquecesse de vos dar muitos beijos dela.
─ Tenho pena que não tivesse vindo. ─ desabafou o meu pai. ─ Gosto muito de falar com ela.
─ Temos muitas saudades dela. ─ adicionou a minha mãe.
Mudando a expressão do rosto e falando num tom mais robusto, o meu pai lembrou:
─ Podias ter dito que vinhas. Tínhamos ido esperar-vos ao aeroporto.
─ Para quê? ─ questionei eu. ─ Iam estar numa seca sem necessidade.
Havia muita conversa para pôr em dia, mas o átrio da escada não era, certamente, o lugar mais apropriado. Com a ajuda dos meus pais, levei a bagagem para cima, vendo a minha mãe conversando com a minha filha e notando como Ivana ia ganhando confiança com a avó.
Assim que me reinstalei em casa dos meus pais, a qual se mantinha praticamente igual ao que conhecera, telefonei a Susana para lhe dizer que a viagem correra bem. Aliás, telefonar a Susana seria uma constante de todos os dias daquelas férias em Portugal.
Senti algum alívio com a rapidez com que Ivana se ambientara aos avós e como já lidava com eles e brincava com eles, sem precisar da minha presença por perto. Quanto aos meus pais, bastaria olhar para os seus olhos para ver o contentamento que lhes ia na alma.
Não havia muitas pessoas em Lisboa com quem planeasse reencontrar-me. Tinha mais interesse numa passagem por Paúle, onde poderia reencontrar muitas pessoas que me deixaram grandes saudades. E nem teria que me preocupar onde ficar, pois mal os meus pais telefonaram a Manuela para lhe dizer que eu estava em Portugal, ela exigiu a minha estadia em sua casa.
No entanto, em Lisboa, havia um amigo que jamais poderia esquecer. Jorge fora dos poucos a visitar-me na Suíça. Nunca obtivera grandes lucros em ser meu empresário, mas jamais me largaria, sempre preocupado em ajudar-me. Acho que demorou mais tempo a aceitar o final da minha carreira de futebolista que eu próprio.
Na primeira manhã que encarei em Lisboa, peguei no telemóvel e liguei-lhe. Não conversávamos havia algumas semanas. Porém, falávamos sempre como se o tivéssemos feito no dia anterior. Quando lhe disse que estava em Lisboa, em casa dos meus pais, nem hesitou em combinar encontrar-me.
Ivana nem se importou, quando lhe disse que tinha de sair e que ela ficaria a cargo dos avós. A avó prometera-lhe que iria ensiná-la a fazer o macarrão do almoço.
Quase nem reconheci o Jorge, quando o vi encostado ao carro estacionado na avenida, perto do prédio dos meus pais. Mantinha-se elegante e bem arranjado, pois Eduardo não admitiria outra coisa. Porém, o cabelo grisalho e o rosto enrugado atribuíam-lhe uma aparência mais desgastada que a idade normalmente lhe vincaria. Unimo-nos num longo abraço fraternal e Jorge convidou-me a almoçar com ele, evidenciando que não aceitaria recusas.
─ Tenho só que passar primeiro pelo Belenenses. ─ informou-me. ─ Não te importas de vir também, pois não?
Estava um calor asfixiante e eu continuava a tentar readaptar-me ao clima português. Entrei no carro e senti uma temperatura menos quente, fruto do ar condicionado constantemente ligado.
Antes de Jorge entrar no carro, observei o interior do Mercedes dele. Jorge denotava sinais exteriores de riqueza, o que me alegrava, pois sempre trabalhara muito para ter sucesso na sua profissão. Pena foi que não tivesse tido sorte comigo.
Ao entrar, ele ligou a ignição. Ouvi o roncar do motor e o estalido do rádio com leitor de CD, preparando-se para rodar o que tinha no seu interior. Fiquei estarrecido com o que comecei a ouvir. Detestava aquela música, apesar de ser um sucesso em toda a Europa.
─ Que é isto, pá? ─ interroguei eu, sabendo a resposta, mas querendo exprimir a minha repulsa.
─ Não conheces? ─ estranhou ele como se isso fizesse de mim um ignorante. ─ É o CD dos O-Zone!
─ Isso sei eu. ─ ripostei. ─ Tu gostas desta merda? Ainda mais este Draconicos não-sei-de-quê.
─ Dragostea din tei! ─ emendou ele, sentido. ─ É uma musica muito boa. E o Eduardo também gosta.
─ E vocês que não gostassem... ─ disse para os meus botões.
─ O quê?
─ Ainda bem que vocês gostam. ─ respondi-lhe.
Jorge iniciou a condução, mantendo o olhar na estrada e dizendo:
─ Não gostas porque são três gajos a cantar.
─ Não é nada disso. ─ contrapus. ─ Conheces-me há muitos anos e sabes que não tenho esses preconceitos.
─ Sim, tens razão! Desculpa!
─ Tudo bem, Jorge.
Em poucos minutos, ecoou nova música pelo carro, proveniente do mesmo CD.
─ Esta á a minha preferida. ─ confessou Jorge. ─ É o Despre tine.
Estava lixado, apercebi-me, certo que ia levar com a discografia e a história daqueles três ozonos.
Toda a paisagem que nos envolvia por onde passávamos me despertava atenção. Procurava diferenças do actual relativamente às minhas recordações. Claro que existiam diferenças, mas ao longo dos últimos sete anos, nada de significativo.
Jorge conduzia ao som da música emanada do CD, mantendo o seu típico ritmo ligeiro e defensivo. Para ele, conduzir no trânsito da cidade era um pavor. Valia o facto de vivermos uma época do ano em que a maior parte dos lisboetas estava fora em férias. Ao entrarmos no Eixo Norte-Sul, Jorge reiniciou o diálogo:
─ A Susana não veio?
─ Não. ─ informei eu, olhando para um edifício alto, perto da via, que não fazia parte das minhas recordações. ─ Está muito ocupada. Não podia ausentar-se da Suíça.
─ Como é que ela está?
─ Bem.
─ Deves estar cheio de saudades dela, não?
─ Sim. ─ respondi eu, pouco convicto. Seria preciso bem mais que um dia para dizer que sentia a distância. Habituara-me às deslocações em trabalho que ela tinha frequentemente. Eu amava-a muito e tinha a certeza que quando passasse uma semana, sentiria um desejo enorme de a ter nos braços. Porém, um dia era pouco para me perturbar.
─ Tem sido bom, viver na Suíça?
─ Sabes que ao principio não foi. Mas, agora, acho que já não me adaptaria a Portugal. Só para passar férias, mais nada.
─ Já tens planos para o teu futuro como treinador? Sempre saíste lá daquela equipa onde estagiaste?
─ Sim. ─ confirmei, vendo-o abandonar a via na saída para a Avenida de Ceuta. ─ Quando voltar, vou ver se consigo arranjar clube.
─ Queres que te ajude? ─ sugeriu Jorge.
─ Claro, Jorge! ─ aceitei. Todas as ajudas eram bem-vindas. ─ Tens contactos na Suíça?
─ Alguns. ─ respondeu ele. Parámos no semáforo perto de Alcântara. ─ Não pões como hipótese treinar em Portugal.
Não era hipótese que me agradasse muito. Contudo, sabia como o mercado estava difícil. E fazer carreira de treinador em Portugal tinha outra visibilidade que na Suíça. Acabei por dizer:
─ Depende da proposta.
Jorge abriu o sorriso e confidenciou:
─ Não sei o que conseguirei na Suíça, mas tenho bons contactos cá. Talvez se consiga alguma coisa.
Naquele momento, a ideia não obteve grande ânimo da minha parte. Nem quis pensar nela sem uma proposta válida e aliciante. Treinar em Portugal, significaria ter de voltar a viver no meu país, o que logo levantou enormes dúvidas em relação à disponibilidade de Susana para me acompanhar. Não poderia censurá-la por isso, pois não tinha o direito de a fazer abdicar da sua carreira pela minha. Concluindo, não era uma boa ideia, nem queria que Susana fosse uma segunda Camila na minha vida.
Quando voltei a prestar atenção à estrada, já estávamos em Belém, perto de virar para o Mosteiro dos Jerónimos, rumo ao Estádio do Restelo, um pouco mais acima. Jorge parou o carro perto do estádio e ambos saímos para enfrentar o calor pavoroso do exterior e entrar nos portões do complexo. Enquanto ele seguiu para os escritórios, eu fiquei nas bancadas a ver um treino dos miúdos do clube.
Todo aquele local me trazia inúmeras recordações. Afinal, passara ali uns anos da minha carreira de futebolista, na adolescência. Olhava para os miúdos que não deveriam ter mais que oito ou nove anos e recordava-me de como eu era com aquela idade e os sonhos que tinha.
Passei por diversas pessoas ligadas ao clube, a caminho da bancada, mas ninguém me reconheceu. Nem alguns funcionários, que já o eram quando ali estivera, me reconheceram. Sentei-me isolado da meia dúzia de pessoas que se espalhavam pela bancada e fiquei a observar os miúdos.
Ver aquelas crianças a jogar poderia ser um desperdício de tempo, pois à primeira vista pareciam não saber muito bem o que fazer à bola. Temos de ter em conta que a bola é a mesma com que jogam os adultos, o que a nível de proporções se torna relevante para os pequenos. Contudo, notei algum talento em uns poucos, especialmente num miudinho magricela, ligeiramente mais pequeno, o qual já dava uns toques na bola que o faziam sobressair.
─ É de pequenino que se começa. ─ ouvi uma voz dizer.
Olhei para o lado e vi Jorge que regressara da sua reunião com a direcção do clube.
─ Alguns já sabem o que andam ali a fazer. ─ disse eu. ─ Especialmente, aquele ali.
─ O Ângelo? ─ interrogou ele.
─ Aquele ali. ─ tornei a apontar.
─ Sim, é ele. ─ confirmou Jorge. ─ Engraçado que tenhas reparado nele.
─ Porquê?
─ Conheces bem os pais dele! ─ afirmou ele, deixando-me curioso. ─ É filho da Camila e do Nick. ─ Emudeci. ─ Tem sete anos! É o puto mais novo da equipa. E tem talento! Fui eu quem lho descobriu.
─ É o teu próximo cliente?
─ Já o é. ─ informou com naturalidade, como se falássemos de uma estrela de dezoito ou vinte anos. Abriu o sorriso ─ Engraçado que tenha tanto jeito para a bola, sendo filho de quem é.
Fiquei a olhar para o miúdo, o qual a partir daquele momento me pareceu ter parecenças com Camila. Talvez fosse imaginação ou talvez não. Simpatizei com ele...
Permanecemos a ver o treino em silêncio, com especial atenção ao Ângelo.
─ Engraçado! ─ exclamou Jorge.
─ O quê? ─ perguntei eu.
─ Ainda não teres perguntado pela Camila. ─ explicou ele, mantendo um sorriso matreiro, o mesmo que fazia sempre que falávamos nela.
No entanto, penso que a minha reacção foi indicativa de como tudo estava diferente:
─ Não há nada para perguntar! Não me interessa saber nada dela.
Jorge perdeu o sorriso e disse:
─ A vossa história não teve o melhor fim.
─ Por culpa dela. ─ adicionei eu, percebendo que a lembrança ainda me magoava. ─ Não quero falar nela, Jorge. Desculpa, mas é um assunto encerrado na minha vida, há muito tempo. E espero nunca mais a voltar a ver.
Respeitando a minha postura, Jorge não voltou a pronunciar-se sobre ela.
O calor continuava abrasador, sem que eu me conseguisse readaptar, tal me tinha habituado ao Verão suíço, parecido com o Outono de Portugal. Num tom brincalhão, olhei para Jorge e perguntei:
─ Terminaste a reunião com o pessoal do Belenenses. Então? Vão contratar-me para treinador?
─ Não fui lá falar nisso. ─ respondeu ele, sério.
─ Eu sei! Estou a gozar contigo.
─ Mas, não penses que me esqueci de ti. ─ ripostou ele. ─ Tenho esperança de te conseguir algo bom. Pena é que já estamos em Agosto e os campeonatos começam já no final do mês. Bom, os da 3ª Divisão começam em Setembro.
─ Queres pôr-me a treinar no Paúle? ─ interroguei num gracejo.
─ Isto não está fácil.
Alterei o meu semblante para maior seriedade e lembrei:
─ Sabes que prefiro treinar na Suíça. Tenho lá a minha vida estruturada e não queria sair de lá.
─ Eu vou tentar. ─ reafirmou Jorge. ─ Mas conheço o mercado e sei como é difícil arranjar um lugar de treinador a alguém sem experiência. Talvez te consiga um lugar de adjunto.
─ Dispenso. ─ apressei-me a recusar. ─ Já me chegou esta época.
─ Sabes que sempre fui sincero contigo. ─ argumentou. ─ Não vai ser fácil. Não estranhes que te apareça com uma proposta de um clube ao nível do Paúle, seja aqui ou na Suíça.
Não fui capaz de contrariar a sua ideia, até porque sabia que ele estava correcto. Recordei-me dos anos em que vivi em Paúle e acabei por dizer:
─ De facto, os momentos mais gloriosos da minha carreira aconteceram no Paúle.
─ Principalmente, no ano em que o José Luís era o treinador. ─ adicionou Jorge.
─ Por falar nele. ─ recordei. ─ Que é feito dele?
─ Está a trabalhar em Inglaterra, a treinar o Liverpool. ─ informou. ─ É uma divida que tenho para contigo, teres-me apresentado o José Luís e aconselhado a que trabalhasse comigo.
─ Não deves nada, Jorge! ─ retorqui eu. ─ Somos amigos. E os amigos não devem nada entre si.
─ Seja como for, eu pago o almoço! ─ contrapôs ele.