AS MAGRIÇAS · Capítulo 4

Capítulo IV

≈ 17 min de leitura

A minha estadia em Lisboa prolongou-se por mais alguns dias, até ao fim dessa semana. Passara o tempo a passear por Lisboa e a levar Ivana a conhecer alguns locais emblemáticos da capital.
Com o passar desse tempo, as saudades de Susana começaram a aumentar. Mesmo telefonando-lhe todos os dias, à noite, isso não abrandava a saudade de a ter perto de mim, de a abraçar, beijar e amar.
Inicialmente, planeara partir para Paúle no Sábado de manhã, dando seguimento à minha viagem pelos locais que queria visitar e os amigos que queria ver durante as minhas férias. Contudo, a onda de calor que continuava a assolar o país levou-me a concluir que por muito cedo que saísse, iria sempre enfrentar o calor do final da manhã e princípio de tarde. Assim, decidi-me por uma partida ao final da tarde.
Os meus pais despediram-se de mim e da neta como se não nos fossem voltar a ver, apesar de eu ter repetido dezenas de vezes que voltaria a estar com eles, antes de regressar à Suíça. Por entre beijos e abraços, partimos para o Parque das Nações, onde fomos apanhar o comboio alfa-pendular à Estação Oriente.
Naqueles poucos dias em Portugal, conseguira recordar os trajectos para os locais que outrora visitava tanto. Chamei um táxi e fui nele com a minha filha para lá. Jantáramos mais cedo, nessa tarde, para não termos fome durante a viagem. Mas, mesmo assim, a minha mãe arranjara uma merenda para o trajecto até Paúle. O táxi deixou-nos junto à entrada da Estação Oriente.
─ Pai! Podemos ir ó Vasco? ─ perguntou-me a minha filha, ao sairmos do carro. Levara-a ao Centro Comercial Vasco da Gama uma vez e ela adorara o local e todo o Parque das Nações.
Olhei para o relógio e disse:
─ Não pode ser, Ivana. O nosso comboio parte dentro de poucos minutos. ─ O rosto de Ivana entristeceu-se, mas conformou-se com a minha justificação. Por vezes, espantava-me com a sua maturidade, pois nunca fora uma criança birrenta e eu ensinara-a a acatar o que lhe dizia. Nem sempre resultava, mas ela era muito obediente. Tinha pena de não a poder levar onde ela queria ir, talvez houvesse outra oportunidade antes do regresso a casa. Peguei na máquina fotográfica e disse-lhe ─ Quando estivermos no comboio, vamos ver as fotos que tirámos.
Ela esboçou um sorriso.
Só houve tempo para chegar, entrar na carruagem que já aguardava e sentarmo-nos nos nossos lugares. Ivana quis ficar do lado da janela para ver a paisagem até o entardecer dar lugar à noite. Senti o ar condicionado e soube-me bem, aliviando-me do calor exterior.
Quando o comboio iniciou a sua marcha, pedi a Ivana que se sentasse como deve de ser no banco. Ela manteve a atenção no exterior e chamava a minha de dez em dez segundos para perguntar:
─ Que é aquilo, pai?
Tinha uma curiosidade infinita e uma enorme sede de conhecimento. Adorava os livros que lhe oferecia, fossem de História, Ciência ou meras curiosidades. Acabou por nem ligar às fotos na máquina, preferindo o exterior até o negrume da noite apagar a realidade, lá fora. Ivana acabou por se deixar vencer pelo sono e adormeceu, encostada a mim, até chegarmos a Coimbra.
Planeara uma viagem longa com troca de comboios em Coimbra. Contudo, quando o meu pai avisou Manuela da minha partida, ela quis ir buscar-me logo ali.
O alfa-pendular chegou a Coimbra um minuto antes das dez da noite. Senti-me perdido a caminhar pela estação com Ivana pela mão. A minha pequenina ainda mantinha o olhar estremunhado do sono, esfregando os olhos e deixando-se conduzir por mim.
Já lá iam sete anos, mas Manuela parecia igual ao que sempre conhecera. Mal apareceu no meu ângulo de visão, reconheci-a logo. Só muito perto lhe notei algumas rugas novas. Muito diferente estava Augusto, mais gordo e bolachudo, fazendo-me duvidar como poderia ser, ainda, o guarda-redes do Paúle.
Eram mais duas caras novas para Ivana, a qual se começava a habituar aos novos rostos que eu lhe apresentava. Percebi que se sentira desprezada, quando ambos me abraçaram saudosos, sentindo que eles não lhe ligaram. Porém, foi mera impressão, pois Manuela abraçou-a logo de seguida, apertando-a como fazia com Cibele, quando esta tinha a sua idade. Augusto foi mais tímido e pediu-lhe um beijo, o qual ela não recusou.
─ A Cibele? ─ perguntei, curioso para rever a minha sobrinha favorita.
─ Ficou em casa. ─ respondeu Manuela, desalentada, fazendo-me transparecer que a atitude não fora de sua vontade.
Sem perder mais tempo, caminhámos para o exterior da estação, rumo ao carro deles. A temperatura era quente, mas menor que em Lisboa.
─ A Susana ficou na Suíça, não foi? A mãe contou-me.
─ Tinha muito trabalho lá, mana.
─ Vais ficar quanto tempo? ─ indagou ela, lançando sorrisos para Ivana.
─ Não sei bem. ─ respondi. ─ Também não quero ir asilar para tua casa.
─ Não sejas parvo, Ivan. ─ retorquiu como se estivesse ofendida. ─ Sabes bem que é um prazer ter-vos lá.
A conversa entre mim e a minha irmã era animada. No entanto, não pude deixar de reparar no silêncio de Augusto, o qual nunca falava quando ela o fazia e cada vez que se pronunciava, olhava para a minha irmã como se esperasse aprovação. Sempre achei que era Manuela quem mandava em casa. E cada vez tinha mais certeza disso.
Ao chegarmos à rua, deparei-me com um monovolume da Volkswagen, o carro familiar que Manuela comprara para si e para a sua família, meses antes. O carro parecia enorme, à primeira vista, e confirmou-se logo com a abertura do porta-bagagem. Parecia que dava para colocar lá uma mobília.
Manuela encaminhou Ivana para o banco traseiro, fazendo eu o mesmo trajecto do lado contrário do veículo. Sentei-me no banco, ao lado de Ivana, sentindo-me a um nível muito superior aos outros carros. Vi Manuela entrar para o lugar do condutor e Augusto para o outro, à minha frente. O interior era confortável e espaçoso com o ar condicionado a temperar o ambiente interior. Encantei-me com a multiplicidade de luzinhas espalhadas pela consola frontal e lateral do habitáculo, junto ao lugar do condutor.
Sem mais demoras, partimos pelas ruas da cidade dos estudantes em direcção ao fatídico IP3, o qual mesmo com o passar dos anos continuava tão perigoso quanto antes. E se já era um perigo atravessá-lo à luz do dia, então de noite...
A pessoa menos preocupada com isso, e ainda bem, foi Ivana que acabou por adormecer durante o trajecto. Manuela conduzia com enorme atenção, tendo Augusto a lançar-lhe sugestões, de vez em vez, as quais ela nem ligava. Também eu me mantive atento, mas não proferi qualquer comentário.
O alívio foi geral, quando desviámos o nosso caminho na direcção de Carregal do Sal, onde o trânsito era menor. Mais alguns quilómetros e novo desvio para apanhar a estrada que nos levaria até Tábua. Aí, só muito raramente se viu um carro a cruzar-se connosco.
Manuela só voltou a falar, após passar a vila de Tábua e entrar numa estrada nova.
─ Já viste? ─ indicou ela, apontando para a via. ─ Foi inaugurada há dois anos. A engenheira Calheiros teve uma guerra enorme com o presidente da câmara de Tábua para que se construísse uma via melhor até Midões. Ela queria mesmo até Paúle, mas os terrenos a partir de Midões têm muita construção e era mais complicado, por isso, fizeram a via até Midões, seguindo depois para a Vila do Mato em direcção a Oliveirinha.
Eu ouvia-a com atenção, sentindo uma sensação estranha por regressar àquele sítio. Quanto mais perto de Paúle estava, mais me sentia num regresso às origens. Olhava para Paúle como se sempre tivesse vivido lá, apesar não ter lá estado mais que dois anos.
À entrada de Paúle, Manuela viu pelo espelho retrovisor interior, a minha cara a olhar para aquela que fora a minha casa nesses dois anos. Não existia qualquer foco de luz no interior e tinha as persianas corridas.
─ Nunca mais ninguém viveu lá! ─ exclamou ela.
─ Como assim? ─ interroguei eu.
─ A engenheira não quis voltar a alugá-la. E encarregou-me da sua conservação. ─ explicou Manuela. ─ Penso que foi a forma que encontrou para agradecer tudo o que fizeste pelo G. D. Paúle.
A viagem prosseguiu por Paúle, rumo à casa da minha irmã, no outro lado da aldeia. Augusto sugeriu que parássemos no café da sua mãe, mas eu pedi-lhe que deixássemos os reencontros para o dia seguinte.
Estava uma bela noite de Verão, o que deixava adivinhar que estaria muita gente no café da dona Palmira. Estariam lá, certamente, muitas pessoas que gostaria de rever. Porém, sentia-me exausto e queria deitar Ivana para que tivesse uma cama melhor que um banco traseiro de um automóvel.
Manuela estacionou mesmo à porta da sua vivenda. Passei a mão pelos cabelos de Ivana e chamei-a com doçura para que acordasse. Manuela e Augusto saíram do carro.
─ Acorda, pequenina.
─ Onde estamos, pai? ─ perguntou ela, esfregando os olhos.
─ Em casa da tia Manuela.
Aguardei que ela se recompusesse, abraçando-a e dando-lhe um beijo na nuca. Logo de seguida, abri a porta e saí. Segurei a mão de Ivana e ajudei-a a descer do monovolume.
Ao olhar para a porta da casa, vi aparecer uma rapariga muito elegante de camisola fina justa e saia de ganga curta. Tive dificuldade em a reconhecer com a penumbra da noite.
─ Olá, tio! ─ cumprimentou ela.
─ Olá, Cibele!
Foi talvez o maior choque na mudança visual das pessoas. Vira Cibele pela última vez, tinha ela nove anos e ainda era uma criancinha. Naquele instante, estava perante a Cibele com quase dezasseis, longe de ser uma criança e com um ar de quase mulher. Caminhou até mim, sorrindo-me, até me abraçar com saudade e carinho. Abracei-a e beijei-lhe o rosto.
─ Estás uma mulher! ─ afirmei eu. Cibele sorriu envergonhada. Desviei o olhar para Ivana. ─ Esta é a tua prima Cibele.
Cibele baixou-se para ficar à altura de Ivana e abriu os braços em sinal de quem queria receber um abraço. A minha filha deu um passo meio tímido e abraçou-a.
─ Olá, Ivana! ─ cumprimentou Cibele, usando um tom de doçura maternal.
Notava que Cibele, a cada gesto ou movimento, procurava parecer mais velha que aquilo que realmente era. Segui ambas no trajecto para o interior da casa. Manuela aproximou-se de mim e disse:
─ Vou mostrar-te os quartos. Está tudo pronto. Podes deitar já a Ivana.
─ Sim, vou fazer isso. ─ concordei. ─ Está a ficar tarde e ela precisa de descansar.
Manuela preparara-me um quarto à imagem daquele que tivera em casa dos nossos pais. Existia uma cama de casal (era um quarto de hóspedes e Manuela queria sempre camas de casal nesses quartos), um roupeiro na parede e um camiseiro. A decoração era fria como a de todos os quartos de ocupantes temporários. Olhei para a bagagem no chão, mas não senti a mínima vontade de arrumar nada. Já tinha deitado Ivana que ficara a dormir noutro quarto, deliciada por a cama ser tão grande. E procurava descansar também. Despedira-me de todos e viera para o quarto, sentar-me no colchão e pegar no telemóvel. Nunca pensei ficar tão desejoso de telefonar a Susana.
Ouvir a sua voz foi como um abraço imaginário no meu coração.
─ Olá amor!
─ Olá, amor! ─ retribuí. ─ Como estás, querida?
─ Bem! E tu? Já chegaram a Paúle?
─ Sim.
─ E como está a Ivana?
─ Está bem. Já está a dormir.
Susana fazia perguntas sucessivas, sedenta de saber como estávamos. Notava-lhe a saudade na voz. Algumas vezes, dependendo da hora a que falávamos, Ivana também conversava com a mãe. Contudo, naquela noite, o telefonema atrasara-se com a nossa instalação em casa de Manuela.
─ Como é que estão os meus cunhados? ─ indagou Susana. Ela tratava todas as pessoas da minha família como se fossem da sua, referindo-se a eles como se fossemos casados. E de facto era como se fossemos, se excluíssemos o papel.
─ Estão bem, também. ─ respondi. ─ Tiveram pena que não pudesses vir. ─ Fiz uma pausa. ─ Não conseguias tirar uns diazitos para vir até cá?
─ Não, amor! Estou atarefadíssima.
─ Tenho muitas saudades tuas. ─ relembrei, sentindo o calor da noite e a fraca brisa que entrava pela janela aberta do quarto. ─ Acho que vou ficar dois ou três dias e regressamos à Suíça para junto de ti.
─ Não vale a pena. ─ contrariou Susana. ─ Vou ter de me ausentar algum tempo, daqui. Aproveitei que vocês iam estar fora para planear uma visita a alguns dos nossos escritórios na Europa. Depois de amanhã vou partir para a Alemanha. De seguida, viajo para a Austria, mais alguns dias em Itália e França. Por fim, preciso de ir à Grécia e termino a viagem com uma última passagem pela Suécia. Vão ser três semanas fatídicas. Mas, planeei tudo de forma a estar cá na data que havias pensado para voltarem.
─ Espero que tenhas tempo para os nossos telefonemas nocturnos.
─ Claro que sim, amor.
Permanecemos, à conversa, mais alguns minutos. Senti o cansaço a pesar e percebi que Susana também precisava de descansar. Despedimo-nos com muitos beijinhos e muitos “amo-te”. Deixei o telemóvel em cima da mesa-de-cabeceira e separei-me da roupa que trazia vestida, entrando nos lençóis frescos e caindo num sono profundo.

Contava dormir bastante, perante o cansaço que sentia na noite anterior. Mas, apesar disso, naquela manhã de Domingo de mais um dia quente de Agosto, acordei cedo. Levantei-me da cama, vesti o pijama para não ir nu e saí do quarto para ir tomar um banho. Andando pelo corredor no piso superior da moradia, constatei que Manuela e Augusto já estavam levantados e conversavam no andar em baixo, provavelmente no salão. Passei pelo quarto da minha filha e bati à porta, entrando logo após a sua voz.
─ Bom dia! ─ disse-lhe, dando-lhe um beijo na face.
─ Bom dia, pai!
─ Dormiste bem?
─ Dormi.
─ Vai tomar banho. Eu vou arranjar-te a roupa para vestires e já te levo lá.
Ivana levantou-se da cama, envergando o seu pijama preferido, cheio de ursinhos e corações em tons rosados.
─ Precisas de ajuda? ─ perguntei.
─ Não. ─ recusou ela, franzindo o rosto. ─ Já sou crescidinha.
Sorri com o seu jeito de mulher pequenina.

O banho foi refrescante, tal era o calor que já se fazia sentir. Logo que indiquei a Ivana que fosse ao encontro da tia, para tomar o pequeno-almoço, entrei no duche e deixei-me encharcar pela água quase fria. Manuela sugerira-me que a mandasse até à cozinha, onde ela estava, pois havia preparado uma bela primeira refeição para a sobrinha.
Quando desci, após o banho e uma luta com as malas para encontrar a roupa que procurava para mim, encontrei Ivana na sala a ver os desenhos animados na televisão. Manuela preparava o almoço de Domingo, como fazia todas as semanas, Cibele ainda estava deitada e Augusto apareceu vindo da rua, convidando-me a um passeio matinal por Paúle.
Caminhar debaixo de um Sol escaldante não fazia parte dos meus passatempos favoritos. Contudo, sabia como ele estava desejoso de me mostrar a aldeia e as suas modificações, tendo igualmente o objectivo de me levar até às pessoas que me queriam rever.
No seu traço geral, Paúle continuava igual ao que eu conhecera. Talvez tivesse uma ou outra casa nova, nos arredores, mas na zona “histórica” permanecia inalterável, contendo apenas melhorias como o alcatroamento recente ou pinturas de restauro.
Ao longo da caminhada, cruzámo-nos com alguns paulenses que me reconheceram imediatamente e me abraçaram com saudade. Houve outros que tiveram que ter o apoio de Augusto para lhes avivar a memória. Prosseguimos pela estrada, chegando junto ao muro do humilde estádio do G. D. Paúle.
─ Quando é que começa a época? ─ perguntei.
─ No principio de Setembro. ─ respondeu Augusto. ─ A pré-época começou em finais de Julho e temos um jogo particular agendado.
─ O Freitas ainda continua à frente da equipa técnica?
─ Ele e o Barnabé. ─ adicionou.
Passei a mão pela testa e limpei duas gotas de suor, espicaçadas pelo calor.
─ Quais são os objectivos para esta época? ─ indaguei, olhando para o muro do estádio.
─ Os mesmos de sempre! A manutenção. ─ respondeu com desilusão. ─ O Paúle, desde que tu te foste embora, nunca mais voltou a ter sonhos.
─ Todos nós temos sonhos, Augusto.
─ Não aqui. ─ reforçou ele. ─ A direcção vive constantemente o trauma da passagem pela 2ª B. A equipa técnica não tem ambição. E os jogadores vivem conformados.
─ Ainda continuas a jogar, não?
─ A titular.
A direcção do nosso trajecto levou-nos até ao café da mãe de Augusto. A meio da manhã não havia muitas pessoas no estabelecimento. Mal me viu, a simpática dona Palmira veio ao meu encontro, de braços no ar para me abraçar, dizendo:
─ Ó meu querido! Que saudades, Ivan Pedro! Como estás?
Abracei-a e recebi o beijo que me deu. Mantinha a sua postura forte de mulher de trabalho, mas revelava maior branqueamento dos cabelos. É indescritível, a sensação de receber todo aquele calor humano e sincero que as pessoas dali me devotavam. Logo depois, vindo de trás do balcão, surgiu Teodoro que me abraçou com força, quase como se tivesse medo que eu fugisse. Seguiu-se Maria de Fátima com um menino de três anos pela mão, seu filho, abraçando-me com o braço livre e dando-me um beijo. Os seus rostos estavam emocionados, olhando-me com ternura.
Reparei que o casal continuava semelhante à recordação que tinha deles, apenas com ligeiros traços do tempo que passara. Alternavam o olhar entre mim e o pequenino bolachudo que não largava a mão da mãe.
Antes que me convidassem a sentar e conversar com eles, Justino entrou no café. Reconheceu-me imediatamente e atirou-se a mim num abraço fraternal e carregado de emoção.
Tal como Teodoro, Justino já não jogava futebol. Após uma brilhante carreira ao serviço do G. D. Paúle (estando ligado à histórica vitória na Taça de Portugal), Académica e F. C. Porto, abandonara o futebol e voltara a viver em Paúle. Casara com a viúva do irmão, algo que já se adivinhava havia muito, o que levou a que ela deixasse a casa da família Calheiros, sustentando-a a ela e aos seus pais.
A vida de Deolinda e da sua família não foi nada fácil. Primeiro fora a morte de Abílio (conforme se recordam), depois o marginal do irmão Xavier, a cumprir pena de prisão em Coimbra, acabou por morrer vítima de uma overdose de cocaína. Os desgostos sucessivos foram fatais a Herculano, seu pai, que acabou por falecer meses depois, levando a esposa a um choque tremendo que a fez perder a razão, sendo internada num lar de idosos em Tábua. Samuel, o outro irmão, após a morte do pai, abandonou o futebol para tomar conta dos negócios. Houve quem considerasse que as duas actividades não eram incompatíveis, uma vez que jogar no Paúle não era profissão, mas ele preferiu dedicar-se exclusivamente à mercearia dos pais, a qual também transformou em pequeno café.
Muitos dos que foram meus colegas no G. D. Paúle, mesmo não se podendo considerar velhos, já tinham optado por deixar de jogar. Por exemplo, para além dos que já referi, Toni e Macário também já não jogavam, continuando o primeiro a trabalhar no Centro de Saúde da Freguesia e o segundo no talho local.
No entanto, alguns ainda jogavam. Hélder, o de maior sucesso juntamente com Justino, estava em final de carreira, tendo jogado pelo Paúle, Académica e Sporting. Encontrava-se a jogar num clube algarvio da 3ª Divisão. Não teve tanta sorte como merecia. Tudo lhe correu bem nos “leões” até se lesionar e não voltar a recuperar a forma que o notabilizara. Foi dispensado e acabou na 3ª Divisão. Fazia-me lembrar um pouco o que passei na minha carreira.
Joselino, Reis, Rato, Ramalho e Albertino permaneceram no Paúle e ainda jogavam lá. Destes, apenas Albertino tivera a oportunidade de evoluir na carreira, indo jogar na Liga de Honra, ao serviço do Académico de Viseu. Contudo, a passagem por lá não teve sucesso e regressou ao Paúle na época seguinte, esfumando-se tudo o que as suas prestações em campo deixavam adivinhar.
Sentados à mesa do café, conversávamos animados. Relatei a minha vida na Suíça, falei de Susana e de Ivana, a qual me comprometi a levar ao café para que a conhecessem. Ouvi-os contar episódios da vida da aldeia, conforme a lembrança de cada um ia despertando.
Subitamente, calei-me com a entrada de outra pessoa no café. Quase não o reconheci, pois estava chocantemente envelhecido e menos gordo. Alfredo Carrapiço era uma sombra do homem corpulento, anafado e bonacheirão que me contratara para jogar no clube da aldeia. Senti um aperto no coração, quando o vi abrir os braços, esboçando um sorriso e deixando escapar uma lágrima. Levantei-me da cadeira e caminhei na sua direcção, unindo-me a ele num forte abraço e ouvindo-o dizer com a voz embargada pela emoção:
─ Ivan Pedro, meu filho! Que bom ver-te de novo!
O abraço revelou-me que já não tinha a força de antigamente, onde saia quase esmagado dos seus braços. A sua imagem era o sinal das marcas provocadas pelo lamento e vergonha da prisão do seu filho Miguel Carrapiço, o qual continuava a cumprir pena em Coimbra, apesar de se avizinhar a sua libertação. Ele visitava-o regularmente, tal como Carla que, segundo Augusto contara, vivia em Oliveira do Hospital, longe dos paulenses que não lhe tinham qualquer simpatia. Os boatos que corriam na aldeia eram que a sua imagem de companheira dedicada escondia a sua infidelidade. Sobre isso ou outro assunto que dissesse respeito a Carla, Alfredo Carrapiço não quis falar, desabafando apenas o lamento pela situação do filho.
Fim do capítulo

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