AS MAGRIÇAS · Capítulo 5

Capítulo V

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A noite em Paúle não mudara nada em relação ao que eu conhecera. Tudo estava silencioso e calmo, sentindo-se a brisa tímida da noite a tentar sobressair por entre o calor do Verão em mais uma noite de Agosto. Eu olhava para a rua pela janela do meu quarto, sozinho, recordando o telefonema de Susana nessa tarde. Telefonara-me antes do habitual, pois tinha que se deitar cedo para apanhar o avião ao amanhecer do dia seguinte.
Já tinha deitado Ivana e, naquele instante, passava o tempo a olhar para as sombras na rua. Não se via ninguém, não porque não andassem por aí, apenas porque a casa de Manuela se localizava numa zona que não tinha muita passagem de pessoas.
Sem saber muito bem o que fazer, desci até ao piso térreo à procura de uma conversa. Ouvi as vozes de Manuela e Cibele e vi a segunda a sair para a rua, ao pisar os últimos degraus da escada. Reparei como saíra elegante, como quem se deslocava a algum encontro. Era normal que, com aquela idade, tivesse algum namorado e fosse sair com ele, naquela noite de Verão.
A minha irmã desapareceu pela porta do escritório. Como não vi Augusto em parte nenhuma, optei por bater à porta do gabinete de Manuela. Encontrei-a atrás de uma secretária cheia de papéis, envolta em várias estantes carregadas de livros das mais diversas áreas.
─ Posso? ─ perguntei.
─ Claro. ─ autorizou ela.
A pequena sala não deveria ter mais que quatro metros quadrados, onde o acesso era feito por uma porta igual a todas as outras na casa. Existia uma janela ampla na parede direita, junto à ligação com a parede da porta. As restantes paredes estavam cobertas pelas altas estantes. Numa vista geral dos temas, constatei que se tratavam de livros de Direito na sua maioria.
Manuela lia alguns papéis que segurava com ambas as mão. Reparei que já necessitava do auxílio de um par de óculos para ver. Sentava-se numa confortável cadeira, semelhante àquela que tinha do lado de cá da secretária.
A sua mesa de trabalho tinha o formato de um “L”, ficando o tampo frontal, maior, livre para as papeladas e o lateral, menor, ocupado por um computador de uso pessoal dela.
─ Muito trabalho? ─ perguntei, sentando-me na cadeira vazia.
─ Assuntos dos Calheiros. ─ respondeu, sem tirar os olhos dos papéis.
Senti a brisa nocturna entrar pela janela, embatendo-me nas costas.
─ Como é que está a engenheira? ─ indaguei. ─ Ainda manda em tudo e em todos?
Manuela pousou os papéis sobre a mesa e disse:
─ Tu conhece-la. Sabes como ela é.
─ Pensei que a idade a tivesse “amansado”.
Ela sorriu.
─ Talvez seja o contrário, maninho. A engenheira Calheiros está cada vez mais dura e intransigente.
─ Sempre teve uma enorme consideração por ti.
─ E tem. ─ confirmou. ─ Tive a sorte de lhe ganhar o respeito.
Abanei a cabeça afirmativamente, concordando com a sua afirmação. Fiz uma pausa, observando a minha irmã a trabalhar.
─ E a filha? ─ interroguei. ─ A Raquel ainda está em Coimbra?
─ Vive lá, mas está cá agora. ─ informou ela. ─ Penso que não te cheguei a contar... Ela casou em finais do ano passado com um médico de Coimbra. ─ Deixou escapar um sorriso. ─ As más-línguas dizem que casaram por ela estar grávida. Eles estão cá a viver uns tempos, até ela ter a criança.
Não me pronunciei sobre o assunto, como se tivesse ficado a matutar na história. Senti uma nova brisa vinda da janela aberta.
─ Está uma noite maravilhosa.
Manuela proferiu um som em concordância.
─ O Augusto?
─ Foi ao café da mãe. ─ comunicou sem parar de escrever os seus apontamentos.
─ A Cibele também aproveitou para sair com o namorado, não foi?
A minha irmã encarou-me o olhar com seriedade, dizendo:
─ Antes fosse.
─ Algum problema?
Notei que Manuela me queria contar algo. Retirou os óculos da face e encostou-se na cadeira, passando a mão pelo cabelo.
─ Estou muito preocupada com ela. ─ confessou num tom de voz apreensivo. ─ Sabes quem é a grande amiga dela? ─ Abanei negativamente a cabeça. ─ A Lívia! Lembras-te da Lívia? A assistente do doutor Gervásio.
Sim, lembrava-me perfeitamente da Lívia, a rapariga com aspecto masculino que o médico trouxera para o G. D. Paúle para que fosse sua sucessora na função. Dizia-se que tinha tendências homossexuais, mas nunca ficou realmente provado, apesar de se saber que vivia com uma amiga em Oliveira do Hospital. Lívia continuava a ser assistente do médico, pois este ainda não abandonara o cargo no clube.
─ Não vejo onde está o problema dessa amizade, mana. ─ disse eu. ─ Também tenho amigos homossexuais. Isso não se pega.
─ Não se trata disso, Ivan. ─ retorquiu. ─ A Cibele não tem namorado e não a vejo minimamente interessada nisso. Só fala na Lívia e passa muito tempo com ela. Tenho receio da influência que ela possa vir a ter na minha filha. E espero não vir a descobrir que existe alguma coisa para além da amizade, senão farei com que corram com ela daqui.
─ Eu compreendo a tua reacção, mana. Mas, não é com agressividade que resolves a questão. Já conversaste com a Cibele acerca disso?
─ Já! ─ confirmou. ─ E o resultado é sempre o mesmo. Discutimos e nunca nos entendemos. Ter filhos adolescentes dá nisto. Vais ver, quando a Ivana tiver a idade da Cibele. ─ Inclinou-se sobre a mesa e segurou-me o braço. ─ Preciso da tua ajuda, mano! Gostava que falasses com ela. Tentasses saber o que se passa. Não estou a gostar do rumo das coisas.
Coloquei a minha mão sobre a dela, dando-lhe duas palmaditas carinhosas.
─ Sabes que só não te ajudo no que não posso. ─ lembrei. ─ Não gostaria muito de me intrometer nesse assunto, mas... Verei o que consigo saber. Contudo, não esperes que ela me vá contar assim tudo, com maior facilidade que faria contigo. Somos dois cotas, mana! E os jovens olham sempre para nós com a desconfiança com que nós olhávamos para os nossos pais.
Manuela levantou-se da cadeira, contornou a secretária e abraçou-me como agradecimento. Deu-me um beijo na face e despediu-se para ir dormir. Pedi-lhe se poderia usar o seu computador, pois não tinha sono.
─ Fica à vontade.
Ficando sozinho na pequena sala, sentei-me no lugar dela e liguei a Internet. Só naquele instante constatei o imenso tempo que passara, desde que usara um computador para falar com alguém. Já só usava a internet para consulta de informação. Manuela não tinha o ICQ instalado no computador, nem eu tinha com quem falar por ele. Para passar o tempo, optei por entrar numa sala de chat, em busca de um anónimo para conversar um pouco.
Estava ligeiramente “enferrujado” naquela matéria e a memória dos endereços dos sites com salas de chat era quase nula. Lá me recordei de um e digitei o endereço.
Para entrar, tive de digitar uma identidade fictícia. Usei o nome “Player” numa alusão ao facto de ter sido jogador. Uma vez lá dentro, as mensagens sucediam-se com alguma velocidade, conversas entre os diversos usuários que lá se encontravam. Existiam identidades para todos os gostos e os assuntos iam desde o engate foleiro à conversa de miúdos. Durante alguns segundos, fiquei a ler as mensagens, procurando um “clique” que me despertasse para interpelar alguém. Nada me cativou, nem mesmo o único usuário que se dirigiu a mim, uma miúda com a idade da minha sobrinha, a qual não teria nenhum assunto com que me identificasse. Estive prestes a sair dali, quando vi um usuário de identidade “MS” entrar na sala.
Ainda hoje não sei bem o que me chamou a atenção. Seleccionei a sua identidade e escrevi “Olá”.
“Olá”, apareceu em resposta. “Não me leves a mal, mas não quero conversar contigo. Vim à procura de um amigo”.
“E ele está cá?”
“Não”
“Então porque não queres falar comigo?”
“Não tenho paciência para conversas de putos!”
“Nem eu.”
A mensagem seguinte demorou. Cheguei a pensar que ele tivesse optado por finalizar a conversa. No entanto, surgiu:
“Idade?”
“34. E tu?”
“És M ou F?”
Aquilo significava que queria saber se eu era homem ou mulher.
“M. Não me respondeste.”
“Não se pergunta a idade a uma senhora.”
A resposta servia para me dar uma informação, que era uma mulher, e deixar-me a adivinhar a idade.
“Ok! Donde tc?” (tc=teclas=escreves)
“Lx”, escreveu ela, seguindo-se um “E tu?”
Não lhe quis dar a localização exacta, até porque duvidei que ela a conhecesse. Acabei por escrever “Suíça”.
“És da Suíça? Emigrante?”
“Sim.”
“Que fazes, profissionalmente?”
“Sou treinador de futebol.”
“Não sou fã de futebol.”
“E tu?” digitei, antes que ela perguntasse mais alguma coisa, “Estudas, trabalhas?”
“Sou advogada”
Aquela informação levava-me a riscar a possibilidade da sua idade estar abaixo dos vinte e poucos. Em tom de graça, escrevi:
“Não sou fã de advocacia!”
“LOL” (LOL=rir alto)
“A minha irmã também é advogada.”
Não surgiu qualquer resposta à minha mensagem. Só ao fim de algum tempo, apareceu:
”Deixa-me dizer-te uma coisa.”
“Sim”
“Não vim para aqui para entrar em conversas de engate, nem estou com disposição para tentativas de sedução.”
“Não é esse o meu objectivo.” argumentei.
“Devo dizer-te que não sou uma mulher bonita, sou gorda e muito pouco atraente. E sou casada.”
“Perdoa-me a expressão, mas estou a borrifar-me para isso. Só quero conversar.”
“Não fiques com má impressão de mim, por te estar a dizer isto. Só estou farta destas porcarias, quando falo com algum desconhecido.”
“Tudo bem. Não corres esse risco comigo.”
Durante o nosso diálogo, havia um ou outro inútil que se metia na conversa. No entanto, nós não ligávamos.
“Disseste que eras casada.” lembrei. “Tens filhos?”
“Não. Tenho um óptimo casamento, mas não tive tempo para ter filhos.”
“Ainda podes vir a ter. Eu tenho uma filha.”
“Não com esta idade.” respondeu, o que me obrigou a reavaliar o seu extracto etário. “E tu? Como é o teu casamento?”
“Não sou casado”
A minha frase provocou uma resposta típica de um chat:
“???”
“Vivo com a mãe da minha filha na Suíça.”
“É suíça, ela?”
“Não. É portuguesa.”
“Que idade tem a tua pequenina?”
“7”
Gerou-se uma pequena pausa no diálogo, deixando transparecer que tínhamos perdido o tema para continuarmos a conversar. Estava a saber-me bem a troca de mensagens. Acabei por digitar:
“Que significa MS?”
“É o meu nome.”
“Posso saber qual é?”
Normalmente, as pessoas que conversam nas salas de chat têm sempre tendência a restringir ao máximo as informações acerca de si, quando falam com desconhecidos. Mesmo quando conhecem alguém lá e se vai criando uma amizade virtual, é necessário ganhar-se a confiança do outro para obter informações mais pessoais. A minha companheira de assunto não fugiu à regra e limitou-se a escrever:
“Márcia”
Ia responder que me chamava Pedro, mas travei-me a mim próprio com a recordação que apenas uma pessoa me tratava assim. E não estava na disposição de criar uma situação que me fizesse recordar isso constantemente.
“Chamo-me Ivan”
“O terrível? LOL”
Ela escreveu-o por graça, mas isso obrigou-me a matutar numa realidade da minha vida. Teria eu sido um Ivan, o Terrível para as mulheres que conheci? Somente Susana não se poderia queixar muito de mim, isto se esquecesse os maus bocados que a fizera passar, ali em Paúle. Senti-me amargurado com a ideia.
“Estás aí?” apareceu no ecrã.
“Sim.”
“Disse alguma coisa de mal?”
“Não.”
Nesse instante, ouvi a porta de casa a fechar e passos pela casa. Calculei que se tratasse de Augusto a chegar a casa. Os passos aproximaram-se e vi a porta do escritório abrir-se. Notei a sua surpresa de me encontrar ali, em vez da mulher.
─ Desculpa! ─ pediu. ─ Vi luz e pensei que fosse a Manuela que aqui estivesse.
─ Ela já se foi deitar. ─ comuniquei eu.
─ Também vou. ─ retorquiu. ─ Boa noite!
─ Boa noite, Augusto! ─ retribuí.
Direccionei o olhar novamente para o ecrã do computador e vi:
“Fala-me mais de ti.”
“Que queres saber?”, interroguei, aguardando uma sugestão.
“Disseste que eras treinador de futebol. Treinas aí na Suíça?”
“Estou sem clube.”
“Desempregado, né?”
“Espero que não por muito tempo.”
“Vou torcer por ti.”
“Terminei o curso no Verão passado e estive a fazer um estágio como adjunto de um treinador. Agora, ando à procura do meu lugar como treinador principal.”
“Já pensaste em regressar a Portugal?”
“Não é uma ideia que me agrade, já que tenho a minha vida estruturada na Suíça.”
“Compreendo.”
“A minha companheira trabalha lá e a minha filha está habituada à escola que frequenta e tem lá os seus amigos.”
Ouvi um carro parar em frente ao muro que ladeava toda a casa. Levantei-me da cadeira e caminhei até à janela aberta. Vi um carro a arrancar rua acima e Cibele a caminhar pelo carreiro entre o portão e a vivenda. A noite continuava amena e agradável. A minha sobrinha desapareceu do meu ângulo, ao mesmo tempo que ouvi a chave a rodar e a porta da casa a abrir. Esse som deu lugar ao som dos seus passos pelo soalho em direcção às escadas que subiu vagarosamente, rumo ao piso superior. Regressei ao meu lugar.
“Estás aí?”, permanecia escrito no ecrã á minha espera.
Escrevi que sim e pedi para que me falasse mais dela.
“Não há muito a saber. Sou advogada, trabalho em Lisboa num escritório de advogados e sou casada.”
“Um casamento de muitos anos?”
“Alguns.”
“És feliz?”
“Não tenho razões de queixa.”
Preparava-me para escrever mais alguma coisa, mas ela antecipou-se com:
“Já é tarde, Ivan. Tenho de ir.”
“Tudo bem. Gostei de te conhecer, Márcia.”
“Eu também. Se quiseres, manda-me um email para voltarmos a conversar.”
Seguiu-se outra mensagem com o seu endereço electrónico. Pedi-lhe desculpa por não lhe escrever ali o meu, mas comprometi-me a enviar-lhe um email, logo a seguir, para que ela ficasse a conhecê-lo.
“Beijos. E até à próxima.”, enviou ela.
“Beijos.”, finalizei eu.
Poucos segundos depois, uma mensagem do gestor da sala de chat indicou que a “MS” abandonara a sala. Clicando com a seta do cursor no botão de “sair”, também eu deixei a sala virtual.
Só naquele momento constatei as horas que eram. Lembrei-me que Susana já deveria estar a dormir, pois teria de madrugar para estar a horas no aeroporto.
Abri o meu endereço electrónico através do browser e escrevi uma mensagem a Márcia, dizendo-lhe que gostara muito de falar com ela e que esperava poder repetir a dose, brevemente. Enviei o email e desliguei o computador.
Perante a descrição que ela fizera de si própria e a imagem pouco sedutora que tinha dela, fiquei aliviado, pois poderia ter uma amiga com quem pudesse desabafar sem o estigma do envolvimento sexual. Claro que não sabia bem porque haveria de estar a fazer aquelas conjecturas, já que conhecera várias mulheres naqueles últimos sete anos e nunca fora infiel a Susana.
Fim do capítulo

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