AS MAGRIÇAS · Capítulo 6

Capítulo VI

≈ 17 min de leitura

A importância que dei às preocupações de Manuela em relação a Cibele fora relativa. Não me encontrei muito disposto a intrometer-me naquele assunto, apesar do pedido da minha irmã. Não quis estar a tentar contrariá-la nas suas convicções, apesar de achar que não havia fundamento nas suas suspeitas. Considerei natural que Cibele visse em Lívia uma amiga, mais velha e mais experiente, com quem gostasse de conversar e passar o tempo, sem que isso implicasse qualquer questão física entre elas.
Ao longo dos primeiros dias, não pude deixar de reparar na ausência constante da minha sobrinha em casa. Todos os dias, levantava-se perto da hora de almoço, almoçava e saía, regressando ao final da tarde. Por vezes, voltava a sair à noite. Notava sempre uma enorme contrariedade no rosto de Manuela, mas evitava confrontar a filha para evitar discussões. Certo era que a situação não se manteria, quando regressasse a época escolar.
A meio da semana, à tarde, fui aliviar-me do calor com um refresco no café da dona Palmira. Aproveitei a insistência de Ivana para que lhe comprasse um gelado e levei-a comigo.
Como sempre, lá andava Augusto atarefado ao balcão com a ajuda da mãe e da irmã, que alternava o serviço com os cuidados com o filho. Ivana gostava de brincar com o pequeno, quase esquecendo o gelado que me pedira.
A clientela foi diminuindo e Augusto veio sentar-se comigo numa das mesas, acompanhando o meu sumo fresco com uma cerveja. Falávamos de futilidades, quando vimos Cibele passar em frente à porta do café, rumo a destino incerto.
─ Lá vai a Cibele. ─ indicou Augusto.
─ Vai para onde? ─ interroguei eu.
Augusto encolheu os ombros e respondeu:
─ Quem sabe? Passa aí todos os dias, mais ou menos à mesma hora. Mas, não sei para onde vai.
Curioso, pedi-lhe que tomasse conta de Ivana e dispus-me a descobrir o destino da minha sobrinha. Augusto concordou imediatamente, ansioso para que eu fosse no encalço da enteada. Calculei logo que Manuela tivesse comentado com ele a nossa conversa, daí aquele impulso para me ajudar, como se fosse uma forma de agradar à mulher.
Abandonei o café e senti a onda de calor a fustigar-me, fazendo-me sentir com falta de ar. Olhei para o fundo da rua e vi Cibele caminhar imponente, vestindo umas das suas usuais camisolas frescas e saias curtas. Conhecendo como conhecia as gentes de Paúle, só mesmo o facto de ser filha de uma pessoa tão acarinhada como Manuela a fazia passar incólume aos mexericos ou às insinuações de rameira ou desavergonhada. Felizmente, para as pessoas, ela era apenas uma miudinha bonita. Não tinha dificuldade em imaginar quantos corações ela não teria destroçado já. A sua beleza não era fora do normal, mas sobressaia relativamente às restantes da sua geração que ali viviam.
Consegui manter uma distância razoável na perseguição. Cibele dava passadas ligeiras, seguindo pelas sombras e evitando um ritmo que a cansasse ou a fizesse transpirar demasiado. Desceu a rua principal de Paúle e atravessou de uma ponta à outra a estrada que ladeava um dos muros do pequeno estádio de Paúle. Ao fundo, virou antes de chegar à capela e continuou a descer em direcção à saída de Paúle, pela parte baixa. Nessa altura, tive que encurtar a distância, de forma a não a perder de vista.
O trajecto que ela estava a fazer não era difícil de adivinhar. Iria sair pela parte baixa da aldeia, indo ter ao caminho de terra batida que desembocava junto à Casa de Paúle, o palacete da família Calheiros, exactamente no local onde se dera a tentativa de assalto à residência deles, uns anos antes. Era uma caminhada de algumas centenas de metros. O destino deveria valer a pena para estar a suportar todo aquele calor.
Quando cheguei à longa recta que contornava o muro sul da propriedade dos Calheiros, tive de aguardar na esquina até que ela chegasse à extremidade oposta, para evitar que me visse, caso olhasse para trás. Mal desapareceu na curva, tive de usar da minha boa preparação física para correr aqueles cerca de cem metros, o mais rapidamente que conseguisse. Ao chegar à curva, já não vi Cibele. Contudo, não havia muitas hipóteses de destino, pois a estrada descia por entre a floresta, ao longo de vários quilómetros. Ou Cibele tinha alguém à espera por ali, ou então dirigia-se para o Coito, um pequeno aglomerado de casas, perto de Midões.
Quanto mais andava, mais curioso ficava com o final da caminhada. Ao dobrar a esquina seguinte, vi-a entrar na mata por um caminho que dava acesso ao interior do pinhal. Era um caminho largo e, por vezes, havia quem por ali entrasse com um carro a descansar à sombra dos pinheiros ou a namorar. Meia dúzia de passos mais à frente, constatei que havia um carro no interior da mata. Logo ali, saltei para o interior do pinhal e mantive-me escondido pelas árvores, enquanto me aproximava. Parei, assim que o veículo e o seu ocupante ficaram visíveis.
O local era, de facto, óptimo para encontros. Entrava-se com o carro por ali até descer ligeiramente e ficar camuflado pela elevação e vegetação. Raramente passavam peões por aquela estrada e os carros não tinham tempo para tomar atenção à presença deles ali.
No interior do carro, vi o que me pareceu ser um rapaz, ao volante. Cibele acenou-lhe ao aproximar-se. Este abriu a porta e saiu do carro. O cabelo curto fizera-me suspeitar da sua masculinidade, só que, uma vez cá fora, notei o volume dos seios por baixo da camisola. Não a reconheci imediatamente, mas depois vi que era Lívia.
Lívia estava tal como a conhecera. Parecia um rapazinho de cabelo curto e entroncado. Já deveria andar na casa dos trinta, pouco mais nova que eu, o que a fazia ter uma diferença de idade de quase vinte anos para Cibele. Nada de extraordinário, não fosse...
Cibele foi recebida por Lívia com um forte abraço que fez a minha sobrinha perder o contacto com o solo. Ao ficarem de cara a cara, Lívia beijou-a na boca, vendo Cibele receber o seu beijo com os olhos cerrados como uma adolescente apaixonada. Fiquei chocado. Só naquele instante me apercebi da gravidade da situação e de como Manuela estava correcta nas suas preocupações.
Lívia sentou-a sobre o capot do carro, ficando com as mãos sobre as pernas da minha sobrinha. Não conseguia ouvir o que diziam, mas via-as a sorrirem constantemente e trocarem olhares. Cibele acariciava-lhe o rosto e deixava que a outra lhe afagasse as pernas com ambas as mãos. Voltaram a beijar-se mais algumas vezes, fazendo-me sentir uma náusea enorme.
O encontro não durou muito tempo. Permaneci sempre agachado no chão, atrás de uma árvore, escondido delas. Cibele saltou do carro e deu um último beijo a Lívia, ficando a vê-la partir no seu automóvel, rumo à direcção contrária por onde viera a minha sobrinha e por onde iniciou o caminho de regresso. Só quando ela desapareceu completamente do meu ângulo de visão, é que me levantei e deixei o esconderijo.
Não consigo explicar a confusão que ia na minha cabeça e a indecisão que nela pairava, relativamente, ao que haveria de fazer. Não sabia se deveria confrontar Cibele com a descoberta que fizera ou, simplesmente, contar à minha irmã, sabendo a reacção que iria despoletar. Precisava de conversar com alguém, desabafar e procurar conselho para tomar a melhor decisão. Contudo, não queria partilhar aquilo com ninguém dos que conhecia.
Imbuído em pensamentos, iniciei a minha caminhada em direcção a Paúle. Perto da entrada da estrada de terra batida, vislumbrei Cibele ao longe. Não quis seguir o mesmo caminho, com receio que me visse e eu não soubesse encontrar uma justificação para a minha presença que não fosse a verdadeira. Até saber a atitude a tomar, iria evitar revelar o que sabia. Optei por continuar a caminhar pela estrada, seguindo ao longo do muro principal dos terrenos do palacete da família Calheiros.
Quando estava a chegar perto do portão, fui despertado dos pensamentos pela chegada de um luxuoso Mercedes, vindo do lado contrário da estrada. Os portões abriram-se e o carro entrou. Durante a passagem, vi um homem fardado a conduzir, levando duas pessoas sentadas no banco de trás. O homem não reconheci, mas a mulher a seu lado, apesar de mais velha e mais redonda, não tive dúvidas, era Raquel Calheiros. Nenhum deles reparou em mim.
Felizmente, o Sol enfraquecera com o avançar da tarde, não me assolando com tanta violência como na vinda.
A estrada entrava num pequeno aglomerado de casas, sempre numa subida ténue, até chegar ao cruzamento da estrada que ligava o Paúle a Midões. Virei à direita e prossegui, acenando sempre às poucas pessoas que encontrava e me reconheciam. Mais alguns metros e ouvi um carro apitar-me. Olhei para trás e vi Manuela no seu monovolume.
─ Que fazes aqui? ─ perguntou-me, logo que parou o carro.
─ Ando a passear.
─ Queres boleia?
─ Quero!
Entrei no carro e segui com ela para o café da dona Palmira.
─ A Ivana? ─ indagou ela.
─ Está no café com o teu marido. ─ informei, sem tirar os olhos da estrada.
Num trajecto curto, não foram precisos dois minutos para que estivéssemos estacionados à porta do café. Saímos ambos do carro e entrámos no estabelecimento.
Eu ainda não decidira o que fazer. E a reacção de Augusto, ao ver-me, ia-me obrigando a contar a verdade.
─ Então? ─ perguntou ele. ─ Viste para onde ela foi?
Eu fiquei meio engasgado, sem saber o que responder.
─ Ela quem? ─ interrogou a minha irmã.
─ A Cibele. ─ explicou Augusto. ─ Vimo-la passar e o Ivan foi ver para onde ela ia.
─ E viste? ─ questionou Manuela no seu jeito característico de advogada fria.
─ Não! ─ exclamei. ─ Perdi-a de vista.
─ Como assim? ─ insistiu Manuela. ─ Como é que a perdeste?
Mantendo a calma e esforçando-me para ser coerente na mentira, retorqui:
─ Não me quis aproximar demasiado para que não me visse. Acabei por a perder de vista.
─ E porque não me contaste, quando te encontrei? Poderíamos tê-la procurado juntos.
─ Já tinha passado algum tempo. ─ ripostei. ─ E não queria falar-te no assunto sem ter dados concretos.
Manuela abanou a cabeça, desiludida, e caminhou até ao balcão, pedindo um café à sogra. Praticamente, ignorou-me a mim e ao marido, o qual andara de volta dela a perguntar se estava tudo bem. Sentei-me no lugar onde estivera anteriormente e fiquei a olhar para Ivana que brincava com o pequenito. Perdi-me em pensamentos, interrogando-me como reagiria se fosse Ivana, no lugar de Cibele.
─ Posso? ─ indagou uma voz conhecida.
Despertei das minhas dúvidas e reparei em Teodoro que acabara de chegar do emprego. Segurava as costas da outra cadeira, perto da minha, e aguardava autorização.
─ Claro que sim, amigo. ─ disse eu.
Teodoro sentou-se sorridente e pediu a Maria de Fátima que lhe trouxesse uma cerveja.
─ Aqueles dois entendem-se bem. ─ constatou ele, olhando para a minha filha e para o seu filho. Assenti com a cabeça, meio distraído. ─ Ainda sai dali casamento.
Percebi que a tentativa de adivinhação não passava de brincadeira, o que me levou a sorrir cordialmente.
─ Como têm sido essas férias?
─ Boas. ─ respondi-lhe, sem pensar muito se estariam a ser boas ou más.
─ Calculo que tenhas saudades da tua mulher?!
Soltei um sorriso conformado, confessando:
─ Cada dia que passa, tenho mais saudades dela. Mas, também não valeria de nada regressar já. Ela está numa digressão pelas delegações da empresa.
─ Tem um emprego muito atarefado, não tem?
─ Bastante.
Augusto, que desistira temporariamente de tentar agradar à esposa, puxou uma cadeira e juntou-se a nós.
─ Já acabaste o serviço, lá nos Calheiros? ─ perguntou-lhe o meu cunhado.
─ Ainda falta muito. ─ retorquiu Teodoro, estafado.
─ Estás a fazer pinturas na casa da engenheira? ─ indaguei.
─ Estou a pintar o quarto do futuro neto. ─ explicou ele.
─ Mas, eles vêm viver para cá? ─ perguntei.
─ Não! ─ respondeu Augusto. ─ A filha só veio para cá para se afastar do emprego e ter a criança. A Manuela contou-me que a velha quis fazer um quarto todo bonito e luxuoso para o neto. Só que a Raquel, ao que parece, não veio de muito boa vontade.
─ Foi o marido que a obrigou? ─ tentei adivinhar.
─ Não. ─ negou Augusto, soltando uma gargalhada de gozo. ─ É um parvinho! Lá em casa, deve ser ela que usa calças.
Fala o nu do roto, pensei.
Nesse instante, Manuela aproximou-se da mesa e disse ao marido:
─ Vens para casa?
─ Sim, amorzinho. ─ concordou ele, naquele seu tom característico de subserviência.
─ E tu, Ivan?
─ Eu já vou, mana.
Manuela e Augusto despediram-se das pessoas e abandonaram o café, rumo ao carro.
Ao vê-los partir no monovolume, fui surpreendido pelo toque do meu telemóvel. Reconheci o número e atendi, dizendo:
─ Olá, amor!
Percebendo que era um telefonema de Susana, Teodoro levantou-se e deixou-me com toda a privacidade para a conversa.
─ Como estás?
─ Cansada. ─ confessou, falando devagar. ─ O avião atrasou-se, passei uma seca no aeroporto e só cheguei a Viena há uma hora. Mal cheguei ao quarto do hotel, foi largar as malas e ligar-te.
─ Se estivesse ao pé de ti, fazia-te uma massagem.
Susana soltou uma risada melodiosa e contrapôs:
─ Sei bem o que me fazias, se estivesses aqui comigo.
─ Também te fazia isso que estás a pensar.
─ Tens-te portado bem?
─ A muito custo. ─ respondi, falando num tom brincalhão.
Susana colocou um tom mais sério, falsamente zangado, e redarguiu:
─ Vê lá o que é que fazes...
─ Não te preocupes, amor. Sabes que só tenho olhos para ti.
Susana ronronou ligeiramente.
─ És um querido. Desculpa, estar assim tão afastada e não te ter acompanhado.
─ Não falemos disso. ─ pedi, evitando que ela se sentisse culpada. ─ Só espero que estejas preparada para me receber, quando voltar. Achas que vais aguentar comigo? Afinal, vai ser quase um mês sem...
─ Vou começar a preparar-me psicologicamente e fisicamente. ─ ripostou bem humorada. ─ Como é que está a Ivana?
─ Está bem. Está a brincar com o sobrinho da tua cunhada. Queres falar com ela?
─ Quero.
Chamei Ivana, informando-a que a mãe estava ao telefone. Mal ouviu, Ivana correu para junto de mim e pegou no telemóvel.
Enquanto mãe e filha falavam ao telefone, interrogava-me a mim próprio se deveria procurar conselho em Susana, relativamente ao que deveria fazer com a minha descoberta sobre Cibele. No entanto, sabendo da amizade de Susana com Manuela, temi que caso ela achasse que eu devia contar e eu não estivesse de acordo, Susana fosse ligar-lhe imediatamente e contar-lhe. Talvez estivesse a ser injusto, mas preferi não arriscar.

Aquela noite, tal como todas as anteriores, revelava-se quente. Após o jantar, decidi vir até ao portão e ficar a desfrutar do silêncio e tranquilidade do local. Durante a refeição, único momento em que vi Cibele, procurei nela algo que me dissesse que tudo não passara de um sonho... ou um pesadelo. Cheguei a ponderar a hipótese de conversar com ela, mas Cibele fechou-se no seu quarto sem grande vontade de falar com ninguém. Por isso, olhando para o céu estrelado, procurava na Lua e nas estrelas a solução para as minhas indecisões.
Ivana veio ao meu encontro com uma carinha de sono ternurenta. Queria que eu a deitasse e lhe contasse uma história. Sem perder tempo, fiz aquilo que fazia todas as noites. Nem cheguei a ter tempo para começar a história, pois a minha filha adormeceu logo.
Quando saí do quarto, encontrei a minha irmã. Seguia para o seu quarto para ir dormir, juntamente com Augusto. Despediu-se de mim e eu perguntei-lhe:
─ Posso usar o teu computador? Precisava de ver o meu email.
─ Fica à vontade.
Sozinho e envolto no silêncio da noite, ali estava eu no pequeno escritório da minha irmã, sentado à secretária dela. Logo que o computador inicializou, abri o browser e comecei a navegar. Ao abrir o email, reparei que tinha uma mensagem nova, datada de dois dias antes, de Márcia Serrano (foi assim que fiquei a conhecer o seu apelido), respondendo à minha mensagem e informando que estaria online na noite anterior. Penitenciei-me por não ter visto a mensagem mais cedo, pois teria gostado de falar com ela. Cliquei no “responder” e escrevi uma nova mensagem, desculpando-me e dizendo que iria lá estar, na sala de chat, nessa noite.
Logo que enviei o email, abri uma nova janela no browser e entrei na sala virtual onde conversara com ela. Estava apinhada de chaters. Limitei-me a ficar a olhar para as mensagens a correr no ecrã, desejando que Márcia aparecesse. Ao fim de alguns minutos, vi a indicação de que “MS entrou na sala”.
Antes que eu conseguisse tocar numa tecla que fosse, surgiu no ecrã a sua primeira mensagem dizendo “Olá”.
“Olá”, retribuí. Logo de seguida, comecei a escrever um pedido de desculpa por não ter aparecido na noite anterior para conversar. Basicamente, repeti-lhe o que já lhe havia escrito no email.
Engraçada a imagem que eu fazia dela. Por mais que tentemos não o fazer, temos sempre tendência a engendrar um retrato visual da pessoa com quem falamos. Márcia já me tinha confessado alguma falta de beleza, por isso, imaginava-a gorda e baixa com um rosto redondo, óculos e cabelo apanhado em carrapito, sempre vestida com toga preta e com uma pasta com processos na mão. Era esta a imagem que eu fazia dela.
“Como estás?”, quis ela saber.
“Mais ou menos.”, respondi.
Inteligente e perspicaz, Márcia percebeu que algo se passava. Voltou a inquirir-me, procurando saber o que me atormentava. Hesitei em partilhar com ela o meu problema, mas rapidamente concluí que ela poderia ser o tal confessor anónimo que eu desejara.
“É a minha sobrinha.”
“Que se passa com ela?”
“Descobri algo muito grave, esta tarde.”
“Se quiseres contar-me, estou aqui para te ouvir.”
Márcia tinha uma forma muito elegante de se disponibilizar, sem correr o risco de invadir a minha privacidade. Apreciei, bastante, esse facto.
“Não contei isto a ninguém. Mas, preciso de desabafar com alguém.”
Márcia não respondeu, evitando repetir-se e dando-me liberdade para levar o tempo necessário.
“Descobri que a minha sobrinha é lésbica e tem um caso com uma mulher de trinta e tal anos.”
“Que idade tem a tua sobrinha?”
“16.”
“É uma adolescente. Ela vive contigo na Suíça?”
“Não.”, neguei lembrando-me que Márcia julgava que eu estava na Suíça. Não lhe quis dizer que lhe mentira no Domingo anterior, por isso, escrevi “Estou em Portugal. Estou a passar umas férias em casa da minha irmã.”
Julguei que ela me fosse perguntar se estava em Lisboa ou arredores. Talvez para que nos pudéssemos conhecer pessoalmente, algo que não estava nos meus horizontes futuros. No entanto, percebi que Márcia não tinha esse objectivo. Não era pessoa para vir para a internet, procurar outras com objectivo de se encontrarem pessoalmente. As salas de chat eram um escape para ela que lhe permitiam abstrair-se do seu dia a dia.
“Que pensas fazer?”
“Não sei. Já pensei contar à minha irmã. Também já pensei falar com a minha sobrinha. Estou muito confuso.”
“Queres um conselho?”
“Sim.”
“Mas, depois não me aches dona da verdade. Não quero que penses que estou a dizer-te o que fazer. É um conselho e os conselhos valem o que valem.”
“Tudo bem. Eu gostava de ouvir a tua opinião.”
“Conheces a mulher com quem ela anda?”
“Pouco. Trabalhou no mesmo sítio que eu, há uns sete ou oito anos.”
“Só tu é que sabes disso?”
“A minha irmã está desconfiada com a amizade de ambas. Foi isso que me alertou a tentar descobrir se havia algo.”
“Eu, talvez, também ficasse desconfiada. Não digo que desconfiasse de uma relação desse género, mas uma amizade entre uma mulher de trinta e tais e uma miúda de dezasseis...”
“Não me admiro disso. A minha irmã também é advogada.”
“Então acho que deverias contar-lhe, Ivan. Se existir uma relação homossexual entre elas, penso que a tua irmã deve fazer queixa às autoridades contra essa mulher. Sexo com adolescentes é crime.”
“Não sei se houve sexo.”
“Que viste?”
“Vi-as beijarem-se.”
“Na cara?”
“Na boca.”
“Se fossem da mesma idade, até não consideraria isso homossexual. Podia ser apenas uma forma mais estreita de amizade. Mas, nesse caso...”
“A mulher é conhecida por ser lésbica.”, adicionei eu.
“Seria importante saber se elas tiveram relações sexuais. Claro que perante uma queixa às autoridades, essa questão será averiguada.”
“E se falasse primeiro com a minha sobrinha?”, sugeri.
“Eu não optaria por essa hipótese, mas tu é que a conheces.”, retorquiu ela.
Fiquei a pensar na melhor solução, algo que ainda não parara de fazer desde que vira a cena daquela tarde. Direccionei os dedos para o teclado e preparei-me para escrever alguma coisa, porém fui travado pela mensagem seguinte de Márcia:
“Desculpa, Ivan! Mas, vou ter de ir andando. Tenho de me levantar cedo, amanhã. Se precisares de alguma coisa, manda um email. Beijinhos.”
Retribuí a despedida e desliguei.
Fim do capítulo

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