Capítulo XV
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Apesar do mau tempo que se fizera sentir por toda a Europa, desde que chegara a Santarém que o Sol não nos abandonara. Naquele Sábado, pela manhã, enquanto me preparava para iniciar a sessão de treinos, congratulei-me por isso.
A meu pedido, o professor Nogueira iniciou a fase de aquecimento, fazendo as jogadoras correr em volta do relvado do clube local, onde programámos o único treino a realizar antes do jogo.
Junto à linha de meio-campo, fiquei na companhia de Laurinda a observar o grupo a correr em volta do relvado. Parecia mais um grupo de empregados de escritório a preparar-se para um qualquer torneio amador do que jogadoras de futebol. Algumas pareciam mesmo estar em muito má forma, talvez consequência de o Campeonato Nacional ainda não se ter iniciado.
Após a corrida, seguiram-se alguns alongamentos, finalizando-se o aquecimento com alguns exercícios de relaxamento. O professor Nogueira deu por encerrada a sessão e o grupo juntou-se à minha volta, ligeiramente a meio de um dos meios-campos.
Perante mim, dezoito atletas, supostamente as melhores do país. Todas elas me olhavam com atenção, esperando que eu dissesse algo. Só naquele instante percebi como estava nervoso e inseguro das minhas capacidades para aquelas funções. Pela primeira vez liderava uma equipa técnica, sem nunca ter percebido que talvez não fosse tão competente quanto supunha. Hesitei tanto que já nem sabia onde tinha as folhas com os apontamentos.
─ Bom... ─ disse eu, sem saber o que dizer. ─ Bem...
─ Penso que trouxe. ─ disse Laurinda, olhando-me com naturalidade.
─ O quê? ─ perguntei eu sem saber do que ela estava a falar.
─ Os apontamentos sobre as gregas. ─ explicou. ─ Mas, penso que não precisa deles.
Fiquei espantado com a atitude dela. Laurinda percebera o que eu estava a sentir e, disfarçadamente, deu-me a dica daquilo de que deveria falar com as jogadoras.
A selecção grega não era nenhuma equipa de topo. Pelo que observara no DVD, era uma equipa mediana, senão medíocre. O problema era a minha equipa também não ser muito melhor. Segui o conselho e falei um pouco sobre as adversárias, tentando passar a ideia de que as minhas jogadoras eram muito melhores. Não me alonguei e findei o discurso indicando que fossemos fazer uma peladinha. Para quem não sabe, uma peladinha é dividir o grupo em duas equipas que vão jogar à bola, em ritmo de treino, de forma a permitir às jogadoras mostrar o seu valor e treinarem-se algumas jogadas que poderão ser utilizadas durante um jogo.
─ A Maria João, a Nandinha, a Lila, a Cati, a Carly, a Jeninha, a Ery, a Paula Cristina e a Mila ficam no grupo dos coletes amarelos. As restantes ficam com os coletes cor-de-laranja.
─ Mais valia dizer que as campeãs ficavam todas juntas. ─ disse Maria João, de maneira a que pudesse ser ouvido e sentido como provocação às jogadoras do Boavista.
Felizmente, não houve resposta.
Ao dividir assim o grupo, não estava interessado em agrupar os elementos que iriam jogar contra os que ficariam no banco de suplentes, até porque não tinha onze jogadoras de cada lado. Preocupei-me em manter as jogadoras do 1º de Dezembro e do Boavista em grupos separados, conforme me aconselhara Laurinda. Queria vê-las em acção e analisar o potencial (ou a falta dele) de cada jogadora.
Numa análise geral, aquilo que poderia concluir era que havia muito trabalho a fazer. A nível de preparação física, elas estavam muito em baixo, notando-se que a cada corrida mais acelerada, elas ficavam muito ofegantes. Tecnicamente, destacava-se a Lila no seu posicionamento defensivo, notando-se igualmente o seu entendimento com Cati, sua habitual parceira da zona central da defesa. Fiquei soberbamente espantado com as capacidades de Ariela que demonstrou que, para além de bonita, também sabia como tratar a bola. As restantes eram pouco mais do que corredoras atrás do esférico.
A peladinha corria bem e já ia com um resultado de três golos para cada lado. Eu tirava apontamentos e Laurinda chamava a atenção para velhas lacunas que via repetirem-se. Tudo teria terminado bem, não fosse Ery ter rasteirado Beta com alguma maldade, fazendo com que as rivalidades despertassem. Laurinda e eu, com a ajuda do professor Nogueira e do doutor Madeira, tivemos alguma dificuldade em separar os grupos. Eu acabei por finalizar o treino e mandá-las a todas para o balneário. Ainda não enfrentavam as adversárias na qualificação para o Mundial e já encontravam o seu maior inimigo, elas próprias.
O almoço desse Sábado já contou com a presença do senhor Simões que chegou ao hotel pouco depois do treino. Não adiantei nada do que acontecera, limitando-me a dizer que estava tudo a correr bem.
O jogo com a Grécia aconteceu a meio da tarde, perante algumas dezenas de curiosos que aproveitaram o facto de não se cobrar os bilhetes para assistir ao desafio. O estádio do União de Santarém foi o palco do jogo amigável. O Sol quente de princípio de Outono brilhava no céu, disfarçando o vento que soprava com alguma força.
Após o almoço, troquei algumas impressões com Laurinda e decidi quais as onze jogadoras que colocaria em campo para principiar a partida, uma vez que contava fazer jogar todas.
Cerca de uma hora antes do jogo, as jogadoras entraram no balneário para se equiparem. Sugeri a Laurinda que me avisasse quando todas estivessem prontas, para que se sentissem mais à vontade sem a presença de um homem lá dentro, quando estivessem a trocar de roupa. Recordo-me que a minha adjunta concordou, mas não deixou de encolher os ombros, achando aquilo desnecessário.
Alguns minutos passados, Laurinda avisou-me. Eu entrei no balneário e reparei que ninguém ligou à minha entrada. Dirigi-me ao quadro branco, ao fundo do balneário, e chamei a atenção de todas. Equipadas com as cores nacionais, elas cercaram-me e ficaram atentas.
─ Como todas sabem, este jogo é amigável. ─ comecei. ─ Só que eu quero que joguem como se tratasse de um jogo oficial. Quero que ganhem porque esse será o nosso lema a partir de hoje: Ganhar.
Os rostos de todas não enganavam. Enfadadas e pouco motivadas com o que eu pudesse dizer. Parecia que o hábito à derrota se instalara por ali. Para além disso, suspeitava que ninguém me reconhecia direito de estar ali e de as comandar. Todas reconheciam esse direito a Laurinda e ostracizavam quem estivesse naquele lugar.
─ De início... ─ prossegui. ─ ...jogarão a Maria João, a Nandinha, a Lila, a Cati, a Beta, a Carly, a Jeninha, a Ery, a Ariela, a Paula Cristina e a Mila. ─ O 4-5-1 (quatro defesas, cinco médios e um avançado) que Laurinda sugerira e que era o sistema de jogo habitual delas.
A selecção grega era treinada por um homem, o qual cumprimentei antes do início do jogo. Comentei o facto de também terem um homem como treinador principal com Laurinda. Apoiada no seu vasto conhecimento da modalidade, ela disse-me que isso não era muito habitual e que todas as equipas de topo, ou quase todas, tinham mulheres à cabeça das respectivas equipas técnicas.
O jogo não foi nada de especial, chegando mesmo a ser monótono. Portugal controlava, mas raramente entrava na área adversária. As gregas viam jogar e quando tinham a bola em seu poder, perdiam-na tão infantilmente que até custava a acreditar.
Durante a observação, gritei algumas dicas para o campo, mas raramente era ouvido. Aproveitei para olhar com atenção para as minhas jogadoras e tentar encontrar alguma qualidade no seu jogo. A Lila confirmava-se como uma boa defesa central, segura e experiente. A Ery continuava a ser mais agressiva que eficaz, denotando alguma valia e técnica. Ariela era uma agradável surpresa na ala esquerda, pois jogava bastante bem, quando bem servida pelas colegas. Tudo o resto era medíocre. Senti-me com a missão de fazer uma escultura e estar perante o bloco de pedra rectangular.
No intervalo, coloquei todas as suplentes a jogar. Mantive o esquema e a meio da segunda parte, a Manelinha aproveitou um brinde da defesa grega e fez o golo. Tudo muito fácil, tudo ridiculamente fácil.
O final do jogo chegou quase como um alívio a tamanho suplício.
A caminho do balneário, Laurinda aconselhou-me a incentivar as jogadoras e comentar pontos positivos do jogo. Teria certamente dificuldade em encontrá-los, mas mesmo assim acedi ao seu pedido. Claro que elas nem ligaram aos incentivos e eu também não falei em pontos positivos.
Cá fora, enquanto aguardávamos a vinda das jogadoras, perguntei a Laurinda:
─ Quando é que começa o campeonato delas?
─ Na próxima semana.
─ Recorda-se do que lhe pedi? Que gostava de assistir a alguns jogos? ─ lembrei. ─ E que gostaria que viesse comigo.
─ Tudo bem. ─ concordou ela.
Olhando para o céu azul, comentei:
─ Até custa a acreditar.
─ Em quê? ─ indagou ela.
Virei o olhar na sua direcção e respondi:
─ Confio plenamente na escolha que fez na convocatória, mas até custa a acreditar que não haja jogadoras melhores.
─ Em Portugal, não. ─ retorquiu Laurinda. ─ Agora lá fora....
─ Temos jogadoras a jogar no estrangeiro?
Laurinda esboçou um sorriso, uma mistura de satisfação com tristeza, e relatou:
─ Nunca lhe falei na Helena?
─ Que me recorde...
─ É a única que joga no estrangeiro. ─ afirmou ela, olhando para o vazio como se a recordasse em pensamento. ─ É só a melhor jogadora portuguesa de todos os tempos.
─ Então, porque não a convocou?
─ Porque ela recusa-se a jogar pela Selecção!
─ Porquê?
─ Pela falta de ambição, pela falta de qualidade de jogo... Enfim, por tudo o que acaba por ser o paradoxo dela como jogadora.
─ Onde é que ela joga?
─ Nos Estados Unidos, numa equipa profissional.
─ Acha que eu...
─ ... a consegue convencer? Não pense nisso. Esqueça.
Encolhi os ombros. Ela conhecê-la-ia melhor que eu, por isso...
Meia hora mais tarde, regressámos ao hotel. E passada mais uma hora estávamos a caminho de Lisboa.
O meu primeiro jogo oficial como treinador da equipa nacional de futebol feminino de Portugal só iria decorrer daí a um mês. Se eu fosse como alguns dos meus antecessores, mal chegasse a Lisboa, apanharia o primeiro avião para casa, para junto da minha família. Deixaria a convocatória a cargo de Laurinda e só regressaria às minhas funções nas vésperas de partir para a Alemanha, dando uma imagem de quem se preocupava muito com a equipa.
No entanto, eu estava ali com outro pensamento. O cargo podia ser inglório, a equipa podia não valer nada, podia ser muita coisa... Mas, acima de tudo era o meu primeiro trabalho como treinador principal, na modalidade que fizera parte da minha vida quase desde que nascera, o futebol. E não passava pela minha cabeça atropelar os meus princípios e os meus ideais, nem a forma de estar na vida e usar o cargo para ganhar dinheiro até encontrar algo melhor. Empenhar-me-ia naquela equipa como se se tratasse de uma das melhores equipas do Mundo.
Foi com base nesse espírito e empenho que combinara a visita a alguns jogos do Campeonato Nacional de futebol feminino que iria iniciar-se na semana seguinte.
Curiosamente, o campeonato abriu com um apetecível Boavista versus 1º Dezembro. Eram as duas equipas que mais jogadoras forneciam à Selecção. Segundo Laurinda não havia mais seleccionáveis entre elas. Não era que não confiasse em si, mas pretendia observar isso com os meus olhos.
A Federação pagou os bilhetes para a viagem de avião para o Porto. Nós partimos a seguir ao almoço de Lisboa e cerca de meia hora antes do jogo já estávamos a chegar ao local.
O desafio de futebol estava agendado para a tarde desse Domingo no complexo desportivo do Boavista Futebol Clube. O jogo não se realizou no relvado principal do Estádio do Bessa, uma vez que a equipa sénior masculina realizaria lá o seu jogo, nessa mesma noite, contra o Belenenses. E nenhum responsável do clube quereria o tapete verde principal revolvido, resultado do desenrolar de um outro jogo muito menos importante.
Desta forma, a partida de futebol feminino entre o Boavista e o 1º Dezembro seria jogada no relvado secundário, onde normalmente decorriam os treinos das outras equipas de futebol, principalmente a sénior masculina.
O campo de treinos recordou-me os primeiros tempos em Paúle, quando o G. D. P. foi jogar ao campo do Vila do Mato, um rectângulo de terra batida, cercado por uma cerca de pedras com ferros e sem bancadas. Neste caso, a única diferença era o relvado.
Se assistirmos a um jogo de futebol feminino em Portugal, rapidamente percebemos que é um desporto sem expressão no país. E quando vemos o jogo a desenrolar-se, acabamos por compreender o porquê de não chamar espectadores.
No entanto, há sempre quem venha assistir, algumas dezenas de pessoas que vão desde familiares ou conhecidos das intervenientes até ao indivíduo anónimo que assiste por passatempo ou porque vive perto do local e assiste embrenhado no espírito bairrista ou porque é adepto do clube na sua versão mais conhecida e aproveita para ir para ali torcer pela camisola, apesar de não conhecer minimamente quem as enverga.
Laurinda e eu colocámo-nos mais ou menos perto da linha central, no lado contrário à zona das equipas técnicas e jogadoras suplentes. De pé e encostados às barras de ferro, vimos as duas equipas entrar no relvado.
Todas as jogadoras de ambas as equipas que foram convocadas para o particular com a Grécia estavam presentes, excepto a Manelinha que apanhara uma constipação durante a semana, não podendo dar o seu contributo na posição mais avançada do Boavista.
A tarde estava fresca com a humidade normal da Invicta no ar. Com o passar do tempo, as nuvens começaram a adensar-se e o Sol fraco desapareceu por completo. Temi que começasse a chover e nós não teríamos onde nos proteger da chuva sem abdicar de visionar a partida.
O 1º Dezembro controlou o jogo desde o primeiro minuto. Observei com atenção todas as jogadoras, tendo especial interesse pelas que não tinham ido à Selecção no jogo com a Grécia, de forma a conhecê-las e a aquilatar da sua qualidade. Acabei por dar razão à opinião de Laurinda, na maior parte dos casos, quanto às seleccionáveis.
Contudo, apenas uma das não convocadas demonstrou qualidade para ir à Selecção. Chamei a atenção da minha adjunta e disse:
─ Aquela joga muito bem.
─ A Fabiana? ─ interrogou. ─ A brasileira?
─ É brasileira? ─ repeti, denotando alguma desilusão.
─ Já vive em Portugal há alguns anos. ─ contou Laurinda. ─ Quase que podia ser portuguesa... Aliás, é casada com um português.
─ E vive cá há quantos anos?
─ Cinco ou seis.
─ Que idade é que ela tem?
─ Se não estou enganada, acho que tem uns vinte e nove anos.
O nosso diálogo foi interrompido pelo primeiro golo do jogo, favorável à equipa da região sul. O 0 a 1 acabava por ser a confirmação do domínio das jogadoras do 1º Dezembro.
─ Costuma ser convocada pelo Brasil? ─ perguntei, dando continuidade ao diálogo.
Laurinda sorriu com alguma ironia, ripostando:
─ Acha??? ─ Senti-me a fazer a pergunta mais absurda. ─ O Ivan Pedro continua a ver o futebol feminino como se fosse o masculino. ─ concluiu. ─ Já viu algum jogador português que jogue numa equipa do Luxemburgo a ser convocado para a Selecção Nacional masculina?
─ Não.
─ A Fabiana não foi contratada a uma equipa brasileira. ─ prosseguiu. ─ Lá no Brasil nem devem saber que ela existe. Ela veio para Portugal com uns vinte e poucos anos, à procura de uma vida melhor. Começou a trabalhar nas limpezas e hoje é chefe de operadoras de caixa num supermercado. Sempre gostou de jogar futebol, mas só cá é que o começou a fazer de forma competitiva.
─ Ela não jogava no Brasil?
─ Que eu saiba, não. ─ respondeu Laurinda. ─ A entrada dela no 1º Dezembro foi uma feliz coincidência. Conheceu uma das jogadoras do 1º Dezembro numa empresa de trabalho temporário e tornaram-se amigas. A outra trouxe-a a um treino e a Fabiana acabou por revelar os seus dotes futebolísticos.
─ Ela joga muito bem. ─ acentuei, olhando para mais uma investida da brasileira com a bola pela defesa contrária. ─ Então, isso quer dizer que se ela se naturalizasse, poderia jogar por Portugal?
─ Teoricamente, sim. ─ concordou Laurinda. ─ Resta saber se ela quer e o Estado o permite.
─ Seria possível conversarmos com ela?
─ Claro que sim, mas não hoje. Eu contacto o clube para que ela vá à Federação conversar connosco.
Novamente, os gritos de mais um golo interromperam o nosso diálogo. Era o segundo das visitantes. O jogo terminou dez minutos depois.
Após o apito final, muitas das jogadoras aproximaram-se da cerca para nos cumprimentar. Percebi que o seu interesse era cumprimentar Laurinda, por quem nutriam enorme respeito e admiração. Claro que todas me cumprimentaram, mas de uma forma mais protocolar que por vontade própria. Foram trocas de palavras rápidas, pois a inevitável chuva começou a cair.
A meu pedido, o professor Nogueira iniciou a fase de aquecimento, fazendo as jogadoras correr em volta do relvado do clube local, onde programámos o único treino a realizar antes do jogo.
Junto à linha de meio-campo, fiquei na companhia de Laurinda a observar o grupo a correr em volta do relvado. Parecia mais um grupo de empregados de escritório a preparar-se para um qualquer torneio amador do que jogadoras de futebol. Algumas pareciam mesmo estar em muito má forma, talvez consequência de o Campeonato Nacional ainda não se ter iniciado.
Após a corrida, seguiram-se alguns alongamentos, finalizando-se o aquecimento com alguns exercícios de relaxamento. O professor Nogueira deu por encerrada a sessão e o grupo juntou-se à minha volta, ligeiramente a meio de um dos meios-campos.
Perante mim, dezoito atletas, supostamente as melhores do país. Todas elas me olhavam com atenção, esperando que eu dissesse algo. Só naquele instante percebi como estava nervoso e inseguro das minhas capacidades para aquelas funções. Pela primeira vez liderava uma equipa técnica, sem nunca ter percebido que talvez não fosse tão competente quanto supunha. Hesitei tanto que já nem sabia onde tinha as folhas com os apontamentos.
─ Bom... ─ disse eu, sem saber o que dizer. ─ Bem...
─ Penso que trouxe. ─ disse Laurinda, olhando-me com naturalidade.
─ O quê? ─ perguntei eu sem saber do que ela estava a falar.
─ Os apontamentos sobre as gregas. ─ explicou. ─ Mas, penso que não precisa deles.
Fiquei espantado com a atitude dela. Laurinda percebera o que eu estava a sentir e, disfarçadamente, deu-me a dica daquilo de que deveria falar com as jogadoras.
A selecção grega não era nenhuma equipa de topo. Pelo que observara no DVD, era uma equipa mediana, senão medíocre. O problema era a minha equipa também não ser muito melhor. Segui o conselho e falei um pouco sobre as adversárias, tentando passar a ideia de que as minhas jogadoras eram muito melhores. Não me alonguei e findei o discurso indicando que fossemos fazer uma peladinha. Para quem não sabe, uma peladinha é dividir o grupo em duas equipas que vão jogar à bola, em ritmo de treino, de forma a permitir às jogadoras mostrar o seu valor e treinarem-se algumas jogadas que poderão ser utilizadas durante um jogo.
─ A Maria João, a Nandinha, a Lila, a Cati, a Carly, a Jeninha, a Ery, a Paula Cristina e a Mila ficam no grupo dos coletes amarelos. As restantes ficam com os coletes cor-de-laranja.
─ Mais valia dizer que as campeãs ficavam todas juntas. ─ disse Maria João, de maneira a que pudesse ser ouvido e sentido como provocação às jogadoras do Boavista.
Felizmente, não houve resposta.
Ao dividir assim o grupo, não estava interessado em agrupar os elementos que iriam jogar contra os que ficariam no banco de suplentes, até porque não tinha onze jogadoras de cada lado. Preocupei-me em manter as jogadoras do 1º de Dezembro e do Boavista em grupos separados, conforme me aconselhara Laurinda. Queria vê-las em acção e analisar o potencial (ou a falta dele) de cada jogadora.
Numa análise geral, aquilo que poderia concluir era que havia muito trabalho a fazer. A nível de preparação física, elas estavam muito em baixo, notando-se que a cada corrida mais acelerada, elas ficavam muito ofegantes. Tecnicamente, destacava-se a Lila no seu posicionamento defensivo, notando-se igualmente o seu entendimento com Cati, sua habitual parceira da zona central da defesa. Fiquei soberbamente espantado com as capacidades de Ariela que demonstrou que, para além de bonita, também sabia como tratar a bola. As restantes eram pouco mais do que corredoras atrás do esférico.
A peladinha corria bem e já ia com um resultado de três golos para cada lado. Eu tirava apontamentos e Laurinda chamava a atenção para velhas lacunas que via repetirem-se. Tudo teria terminado bem, não fosse Ery ter rasteirado Beta com alguma maldade, fazendo com que as rivalidades despertassem. Laurinda e eu, com a ajuda do professor Nogueira e do doutor Madeira, tivemos alguma dificuldade em separar os grupos. Eu acabei por finalizar o treino e mandá-las a todas para o balneário. Ainda não enfrentavam as adversárias na qualificação para o Mundial e já encontravam o seu maior inimigo, elas próprias.
O almoço desse Sábado já contou com a presença do senhor Simões que chegou ao hotel pouco depois do treino. Não adiantei nada do que acontecera, limitando-me a dizer que estava tudo a correr bem.
O jogo com a Grécia aconteceu a meio da tarde, perante algumas dezenas de curiosos que aproveitaram o facto de não se cobrar os bilhetes para assistir ao desafio. O estádio do União de Santarém foi o palco do jogo amigável. O Sol quente de princípio de Outono brilhava no céu, disfarçando o vento que soprava com alguma força.
Após o almoço, troquei algumas impressões com Laurinda e decidi quais as onze jogadoras que colocaria em campo para principiar a partida, uma vez que contava fazer jogar todas.
Cerca de uma hora antes do jogo, as jogadoras entraram no balneário para se equiparem. Sugeri a Laurinda que me avisasse quando todas estivessem prontas, para que se sentissem mais à vontade sem a presença de um homem lá dentro, quando estivessem a trocar de roupa. Recordo-me que a minha adjunta concordou, mas não deixou de encolher os ombros, achando aquilo desnecessário.
Alguns minutos passados, Laurinda avisou-me. Eu entrei no balneário e reparei que ninguém ligou à minha entrada. Dirigi-me ao quadro branco, ao fundo do balneário, e chamei a atenção de todas. Equipadas com as cores nacionais, elas cercaram-me e ficaram atentas.
─ Como todas sabem, este jogo é amigável. ─ comecei. ─ Só que eu quero que joguem como se tratasse de um jogo oficial. Quero que ganhem porque esse será o nosso lema a partir de hoje: Ganhar.
Os rostos de todas não enganavam. Enfadadas e pouco motivadas com o que eu pudesse dizer. Parecia que o hábito à derrota se instalara por ali. Para além disso, suspeitava que ninguém me reconhecia direito de estar ali e de as comandar. Todas reconheciam esse direito a Laurinda e ostracizavam quem estivesse naquele lugar.
─ De início... ─ prossegui. ─ ...jogarão a Maria João, a Nandinha, a Lila, a Cati, a Beta, a Carly, a Jeninha, a Ery, a Ariela, a Paula Cristina e a Mila. ─ O 4-5-1 (quatro defesas, cinco médios e um avançado) que Laurinda sugerira e que era o sistema de jogo habitual delas.
A selecção grega era treinada por um homem, o qual cumprimentei antes do início do jogo. Comentei o facto de também terem um homem como treinador principal com Laurinda. Apoiada no seu vasto conhecimento da modalidade, ela disse-me que isso não era muito habitual e que todas as equipas de topo, ou quase todas, tinham mulheres à cabeça das respectivas equipas técnicas.
O jogo não foi nada de especial, chegando mesmo a ser monótono. Portugal controlava, mas raramente entrava na área adversária. As gregas viam jogar e quando tinham a bola em seu poder, perdiam-na tão infantilmente que até custava a acreditar.
Durante a observação, gritei algumas dicas para o campo, mas raramente era ouvido. Aproveitei para olhar com atenção para as minhas jogadoras e tentar encontrar alguma qualidade no seu jogo. A Lila confirmava-se como uma boa defesa central, segura e experiente. A Ery continuava a ser mais agressiva que eficaz, denotando alguma valia e técnica. Ariela era uma agradável surpresa na ala esquerda, pois jogava bastante bem, quando bem servida pelas colegas. Tudo o resto era medíocre. Senti-me com a missão de fazer uma escultura e estar perante o bloco de pedra rectangular.
No intervalo, coloquei todas as suplentes a jogar. Mantive o esquema e a meio da segunda parte, a Manelinha aproveitou um brinde da defesa grega e fez o golo. Tudo muito fácil, tudo ridiculamente fácil.
O final do jogo chegou quase como um alívio a tamanho suplício.
A caminho do balneário, Laurinda aconselhou-me a incentivar as jogadoras e comentar pontos positivos do jogo. Teria certamente dificuldade em encontrá-los, mas mesmo assim acedi ao seu pedido. Claro que elas nem ligaram aos incentivos e eu também não falei em pontos positivos.
Cá fora, enquanto aguardávamos a vinda das jogadoras, perguntei a Laurinda:
─ Quando é que começa o campeonato delas?
─ Na próxima semana.
─ Recorda-se do que lhe pedi? Que gostava de assistir a alguns jogos? ─ lembrei. ─ E que gostaria que viesse comigo.
─ Tudo bem. ─ concordou ela.
Olhando para o céu azul, comentei:
─ Até custa a acreditar.
─ Em quê? ─ indagou ela.
Virei o olhar na sua direcção e respondi:
─ Confio plenamente na escolha que fez na convocatória, mas até custa a acreditar que não haja jogadoras melhores.
─ Em Portugal, não. ─ retorquiu Laurinda. ─ Agora lá fora....
─ Temos jogadoras a jogar no estrangeiro?
Laurinda esboçou um sorriso, uma mistura de satisfação com tristeza, e relatou:
─ Nunca lhe falei na Helena?
─ Que me recorde...
─ É a única que joga no estrangeiro. ─ afirmou ela, olhando para o vazio como se a recordasse em pensamento. ─ É só a melhor jogadora portuguesa de todos os tempos.
─ Então, porque não a convocou?
─ Porque ela recusa-se a jogar pela Selecção!
─ Porquê?
─ Pela falta de ambição, pela falta de qualidade de jogo... Enfim, por tudo o que acaba por ser o paradoxo dela como jogadora.
─ Onde é que ela joga?
─ Nos Estados Unidos, numa equipa profissional.
─ Acha que eu...
─ ... a consegue convencer? Não pense nisso. Esqueça.
Encolhi os ombros. Ela conhecê-la-ia melhor que eu, por isso...
Meia hora mais tarde, regressámos ao hotel. E passada mais uma hora estávamos a caminho de Lisboa.
O meu primeiro jogo oficial como treinador da equipa nacional de futebol feminino de Portugal só iria decorrer daí a um mês. Se eu fosse como alguns dos meus antecessores, mal chegasse a Lisboa, apanharia o primeiro avião para casa, para junto da minha família. Deixaria a convocatória a cargo de Laurinda e só regressaria às minhas funções nas vésperas de partir para a Alemanha, dando uma imagem de quem se preocupava muito com a equipa.
No entanto, eu estava ali com outro pensamento. O cargo podia ser inglório, a equipa podia não valer nada, podia ser muita coisa... Mas, acima de tudo era o meu primeiro trabalho como treinador principal, na modalidade que fizera parte da minha vida quase desde que nascera, o futebol. E não passava pela minha cabeça atropelar os meus princípios e os meus ideais, nem a forma de estar na vida e usar o cargo para ganhar dinheiro até encontrar algo melhor. Empenhar-me-ia naquela equipa como se se tratasse de uma das melhores equipas do Mundo.
Foi com base nesse espírito e empenho que combinara a visita a alguns jogos do Campeonato Nacional de futebol feminino que iria iniciar-se na semana seguinte.
Curiosamente, o campeonato abriu com um apetecível Boavista versus 1º Dezembro. Eram as duas equipas que mais jogadoras forneciam à Selecção. Segundo Laurinda não havia mais seleccionáveis entre elas. Não era que não confiasse em si, mas pretendia observar isso com os meus olhos.
A Federação pagou os bilhetes para a viagem de avião para o Porto. Nós partimos a seguir ao almoço de Lisboa e cerca de meia hora antes do jogo já estávamos a chegar ao local.
O desafio de futebol estava agendado para a tarde desse Domingo no complexo desportivo do Boavista Futebol Clube. O jogo não se realizou no relvado principal do Estádio do Bessa, uma vez que a equipa sénior masculina realizaria lá o seu jogo, nessa mesma noite, contra o Belenenses. E nenhum responsável do clube quereria o tapete verde principal revolvido, resultado do desenrolar de um outro jogo muito menos importante.
Desta forma, a partida de futebol feminino entre o Boavista e o 1º Dezembro seria jogada no relvado secundário, onde normalmente decorriam os treinos das outras equipas de futebol, principalmente a sénior masculina.
O campo de treinos recordou-me os primeiros tempos em Paúle, quando o G. D. P. foi jogar ao campo do Vila do Mato, um rectângulo de terra batida, cercado por uma cerca de pedras com ferros e sem bancadas. Neste caso, a única diferença era o relvado.
Se assistirmos a um jogo de futebol feminino em Portugal, rapidamente percebemos que é um desporto sem expressão no país. E quando vemos o jogo a desenrolar-se, acabamos por compreender o porquê de não chamar espectadores.
No entanto, há sempre quem venha assistir, algumas dezenas de pessoas que vão desde familiares ou conhecidos das intervenientes até ao indivíduo anónimo que assiste por passatempo ou porque vive perto do local e assiste embrenhado no espírito bairrista ou porque é adepto do clube na sua versão mais conhecida e aproveita para ir para ali torcer pela camisola, apesar de não conhecer minimamente quem as enverga.
Laurinda e eu colocámo-nos mais ou menos perto da linha central, no lado contrário à zona das equipas técnicas e jogadoras suplentes. De pé e encostados às barras de ferro, vimos as duas equipas entrar no relvado.
Todas as jogadoras de ambas as equipas que foram convocadas para o particular com a Grécia estavam presentes, excepto a Manelinha que apanhara uma constipação durante a semana, não podendo dar o seu contributo na posição mais avançada do Boavista.
A tarde estava fresca com a humidade normal da Invicta no ar. Com o passar do tempo, as nuvens começaram a adensar-se e o Sol fraco desapareceu por completo. Temi que começasse a chover e nós não teríamos onde nos proteger da chuva sem abdicar de visionar a partida.
O 1º Dezembro controlou o jogo desde o primeiro minuto. Observei com atenção todas as jogadoras, tendo especial interesse pelas que não tinham ido à Selecção no jogo com a Grécia, de forma a conhecê-las e a aquilatar da sua qualidade. Acabei por dar razão à opinião de Laurinda, na maior parte dos casos, quanto às seleccionáveis.
Contudo, apenas uma das não convocadas demonstrou qualidade para ir à Selecção. Chamei a atenção da minha adjunta e disse:
─ Aquela joga muito bem.
─ A Fabiana? ─ interrogou. ─ A brasileira?
─ É brasileira? ─ repeti, denotando alguma desilusão.
─ Já vive em Portugal há alguns anos. ─ contou Laurinda. ─ Quase que podia ser portuguesa... Aliás, é casada com um português.
─ E vive cá há quantos anos?
─ Cinco ou seis.
─ Que idade é que ela tem?
─ Se não estou enganada, acho que tem uns vinte e nove anos.
O nosso diálogo foi interrompido pelo primeiro golo do jogo, favorável à equipa da região sul. O 0 a 1 acabava por ser a confirmação do domínio das jogadoras do 1º Dezembro.
─ Costuma ser convocada pelo Brasil? ─ perguntei, dando continuidade ao diálogo.
Laurinda sorriu com alguma ironia, ripostando:
─ Acha??? ─ Senti-me a fazer a pergunta mais absurda. ─ O Ivan Pedro continua a ver o futebol feminino como se fosse o masculino. ─ concluiu. ─ Já viu algum jogador português que jogue numa equipa do Luxemburgo a ser convocado para a Selecção Nacional masculina?
─ Não.
─ A Fabiana não foi contratada a uma equipa brasileira. ─ prosseguiu. ─ Lá no Brasil nem devem saber que ela existe. Ela veio para Portugal com uns vinte e poucos anos, à procura de uma vida melhor. Começou a trabalhar nas limpezas e hoje é chefe de operadoras de caixa num supermercado. Sempre gostou de jogar futebol, mas só cá é que o começou a fazer de forma competitiva.
─ Ela não jogava no Brasil?
─ Que eu saiba, não. ─ respondeu Laurinda. ─ A entrada dela no 1º Dezembro foi uma feliz coincidência. Conheceu uma das jogadoras do 1º Dezembro numa empresa de trabalho temporário e tornaram-se amigas. A outra trouxe-a a um treino e a Fabiana acabou por revelar os seus dotes futebolísticos.
─ Ela joga muito bem. ─ acentuei, olhando para mais uma investida da brasileira com a bola pela defesa contrária. ─ Então, isso quer dizer que se ela se naturalizasse, poderia jogar por Portugal?
─ Teoricamente, sim. ─ concordou Laurinda. ─ Resta saber se ela quer e o Estado o permite.
─ Seria possível conversarmos com ela?
─ Claro que sim, mas não hoje. Eu contacto o clube para que ela vá à Federação conversar connosco.
Novamente, os gritos de mais um golo interromperam o nosso diálogo. Era o segundo das visitantes. O jogo terminou dez minutos depois.
Após o apito final, muitas das jogadoras aproximaram-se da cerca para nos cumprimentar. Percebi que o seu interesse era cumprimentar Laurinda, por quem nutriam enorme respeito e admiração. Claro que todas me cumprimentaram, mas de uma forma mais protocolar que por vontade própria. Foram trocas de palavras rápidas, pois a inevitável chuva começou a cair.