Capítulo XVI
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A manhã nascera com o Sol típico de princípio de Outono, quase dando um aspecto de início de dia de Verão. Porém, quando almocei no restaurante panorâmico do hotel, o céu perdera o seu azul, dando lugar ao cinzento de um tecto de nuvens carregadas de chuva que ameaçavam fustigar a cidade com água. Certo é que não choveu até eu chegar ao edifício da Federação.
Laurinda agendara a reunião com Fabiana para essa tarde, a meio da semana, aproveitando uma folga da brasileira. Algum tempo antes de ela chegar, a minha adjunta veio ter comigo ao meu gabinete.
─ Já lhe planeei o esquema de visionamento dos jogos. ─ disse ela, entregando-me uma folha com a tabela dos jogos a visitar nos fins-de-semana seguintes. ─ Só temos mais duas jornadas de jogos até ao jogo com a Alemanha. Optei por irmos ver o Murtuoense com o Várzea, no próximo Domingo, e depois, no outro Domingo, o Odivelas com o Vitória de Setúbal. Que lhe parece?
─ Concordo! ─ respondi, olhando para o quadro de jogos.
─ Claro que deveríamos ver outras equipas, mas terá de ficar para depois.
─ Pelo menos com estes, já vimos grande parte.
─ Já “vê”, grande parte. ─ emendou Laurinda com um sorriso. ─ Eu já as conheço todas.
─ Eu sei, Laurinda. ─ concordei. ─ É por isso que a sua opinião é importante.
Mudando de assunto, Laurinda lembrou:
─ A Fabiana deve chegar daqui a pouco. Assim que ela chegar, eu trago-a ao seu gabinete.
─ Obrigado, Laurinda.
Mal ela abandonou o gabinete, senti as gotas de chuva embater violentamente nos vidros das janelas do meu gabinete. Como tinha a luz interior acesa, nem me apercebera de como o ambiente exterior escurecera. Olhei para o computador portátil sobre a mesa e carreguei nas teclas, anotando alguns apontamentos. Seguidamente, abri o browser da internet e estive a ler as notícias desportivas. Sobre futebol feminino, o número de notícias era nulo. Fiz uma pesquisa pelos motores de busca, procurando páginas relacionadas com a modalidade, mas obtive poucos resultados relevantes. Para além de dois ou três sites portugueses, os restantes eram de outros países europeus, Brasil e Estados Unidos.
O meu trabalho foi interrompido por duas batidas na porta do gabinete. Autorizei a entrada e vi Laurinda abrir a porta. Atrás de si, vi entrar Fabiana.
Fabiana era de estatura média, tez ligeiramente escura e porte atlético. Fez-me lembrar uma índia da Amazónia, quer pelo seu tom de pele, quer pelos traços do seu rosto. Usava um corte de cabelo curto, muito parecido com os penteados das índias. Ela era natural do nordeste brasileiro, mas tinha de facto raízes amazonas no sangue.
O seu rosto era expressivo, mas fechado. Diferente do típico brasileiro lança sorrisos, sempre de braços abertos, mas que raramente os fecha. O olhar era frontal e não fugiu a encarar o meu, quando Laurinda lhe disse:
─ Fabiana, apresento-te o nosso Seleccionador, o senhor Ivan Pedro.
Quase sorri com a apresentação, pois não tinha mais que uns cinco anos que Fabiana e Laurinda apresentara-me como se tivesse a idade do seu pai. A minha idade era um pouco estranha para elas, pois era mais novo que Laurinda, que as duas guarda-redes e pouco mais velho que a maior parte das restantes jogadoras. Resumindo, para treinador eu era um “puto”.
─ Oi! ─ cumprimentou Fabiana, estendendo-me a mão. Apertei-lhe a mão com gentileza, mas senti um aperto firme da sua parte. ─ A Laurinda disse que queria me falar?!
─ Sentem-se! ─ convidei, voltando ao meu lugar.
A brasileira sentou-se numa das cadeiras em frente à minha secretária, enquanto Laurinda se sentou na outra. Reparei que as suas roupas estavam ligeiramente molhadas, sinal de que não conseguira evitar a chuva.
─ A Fabiana joga muito bem! ─ afirmei, esperando que isso provocasse alguma reacção em si, mas ela nem pestanejou. ─ Nós vimo-la jogar no Domingo. ─ Ela assentiu com a cabeça, confirmando que já sabia disso. ─ Onde é que aprendeu a jogar?
─ Com meus irmãos. ─ respondeu com naturalidade.
─ Eles também jogam futebol?
─ Não.
─ Também estão em Portugal?
─ Não.
Quase parecia um interrogatório policial, em vez de uma conversa tranquila.
─ Bom, Fabiana. ─ continuei, percebendo que não valeria a pena tentar fazer diálogo com perguntas, pois não iria obter mais que um sim ou não em resposta. ─ Eu penso que você tem qualidade, como jogadora de futebol. Ao que sei, nunca representou a equipa do Brasil.
─ Eu nunca joguei futebol no Brasil. ─ interrompeu. ─ Comecei jogando aqui mesmo, em Portugal.
─ Já cá está há muito tempo?
─ Faz seis anos, no fim desse ano.
─ Tem nacionalidade portuguesa? ─ interroguei, causando algum espanto em si, não entendendo o objectivo do assunto.
─ Não. ─ respondeu ela prontamente e de forma curta, como habitual. Já me preparava para continuar a falar, quando... ─ Mas, sou casada com um português.
─ Há quanto tempo?
─ Fez três anos no mês passado.
Não tinha muito conhecimento de leis do país, mas calculei que tanto o tempo de residência como o de matrimónio lhe permitissem a naturalização. Também o facto de nunca ter jogado pelo Brasil revertia a meu favor, pois perante a FIFA, ela poderia vestir a camisola portuguesa.
Contudo, antes que pudesse fazer mais alguma pergunta, Fabiana questionou:
─ Posso saber o porquê de me estar perguntando tudo isso? Está parecendo um interrogatório do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.
─ Peço desculpa! ─ pedi, lançando-lhe um sorriso para a tranquilizar. Acho que ela nem reparou. ─ Eu tenho... Ou melhor... Nós estávamos interessados em convocá-la para a Selecção, caso já estivesse naturalizada. Só que...
─ Mas, eu penso naturalizar-me. ─ interrompeu novamente. ─ Só agora, com os três anos de casamento, é que eu irei dar entrada dos papéis para o processo. Ainda vou ter que aguardar algum tempo.
─ Após esse processo, quando já for cidadã portuguesa, estaria interessada em representar Portugal?
Fabiana sorriu. Foi a primeira vez que a vi sorrir, apesar de ser um sorriso algo irónico. Encarou o meu olhar, dizendo:
─ Não me parece que algum dia me escalem para team brasileiro, por isso, não vejo nenhum inconveniente em jogar por Portugal.
A disponibilidade dela chegara-me aos ouvidos como uma aceitação por não ter opção melhor, algo muito distante de uma disponibilidade de paixão às cores nacionais. Porém, que queria eu? Convidara-a a jogar por um país que não era o seu, numa das equipas mais fracas do mundo.
Tentei não ligar ao que a movia a aceitar a minha proposta. Levantei-me da cadeira, estendendo-lhe a mão em sinal de despedida, explicando:
─ Vou falar com os responsáveis da Federação para saber o que poderemos fazer para ajudar no processo. Assim que houver novidades, eu ou a Laurinda falaremos consigo.
Fabiana retribuiu o aperto de mão e abandonou o gabinete sem dizer mais nenhuma palavra. Francamente, se jogasse à bola tão bem como falava, aquela reunião tinha sido um desperdício de tempo.
Laurinda acompanhou a brasileira e eu voltei ao meu trabalho na recolha de informações sobre futebol feminino. A minha adjunta deve ter levado Fabiana até à saída, fazendo depois o trajecto inverso e regressou ao meu gabinete.
─ Então? ─ interrogou-me com alguma ansiedade.
─ Esperava mais motivação.
─ Que queria...?
─ Eu sei. Eu sei.
─ E agora? Vai convocá-la?
─ Ela ainda não é portuguesa. ─ lembrei, continuando a olhar para o computador. ─ Não sei quanto tempo vai demorar o processo de naturalização. Vou falar com o senhor Simões acerca disso.
─ Ele está cá! ─ informou-me Laurinda, mantendo-se de pé na minha frente.
Desviei os olhos do computador para si e percebi que havia algum entusiasmo da sua parte em relação às minhas ideias.
─ Vou ligar-lhe.
─ Se precisar de mim, é só chamar. ─ disse ela, abandonando o gabinete.
Eu ainda não sabia os números de telefone e as extensões da Federação, por isso tive de me socorrer da listagem de todos eles que tinha numa folha A4, guardada numa das gavetas. Com o dedo indicador segui linha a linha até encontrar o nome do senhor Simões. Levantei o auscultador do telefone do meu gabinete e marquei os dígitos correspondentes.
─ Senhor Simões?
─ Olá, Ivan Pedro!
─ Como está?
─ Bem. E você?
─ Precisava de lhe falar num assunto.
─ Diga!
Mentalmente, procurei as melhores palavras para explicar as minhas intenções de uma forma simples. Comecei por dizer:
─ Sabia que o 1º Dezembro tem uma jogadora brasileira?
─ Sim... ─ respondeu, meio espantando sem saber a que propósito vinha a pergunta.
─ Ela joga bastante bem e eu gostava de a convocar.
─ Mas, ela é brasileira.
─ Mas, está a pensar naturalizar-se.
─ Se ela já jogou pelo Brasil, não pode jogar por outro país.
─ Eu sei. Só que ela nunca jogou pelo seu país. ─ expliquei. ─ Não sei bem como funcionam estas coisas das naturalizações, mas queria saber se a Federação não a poderia ajudar.
─ Eu também não sei, Ivan. Posso falar com o departamento jurídico, talvez os advogados tenham alguma noção sobre isso. Assim que souber alguma coisa, eu ligo-lhe.
O telefonema terminou ali. Na minha cabeça ficara a ideia de que aquele assunto seria a primeira coisa que Simões iria tratar, logo que desligou. Porém, se foi ou não, o que é certo é que a resposta não veio nesse dia.
Eu permaneci no meu gabinete mais algum tempo, envolto em apontamentos e recolha de informações acerca daquela modalidade que quase me passara incógnita ao longo da minha vida. Como já referi, informações sobre futebol feminino em Portugal eram quase nulas, o que me levou a procurar outras. Nessa mesma pesquisa, surgiu a página oficial da Deutscher Fussball-Bund, ou seja, da federação alemã de futebol, a qual continha informação sobre as nossas temíveis adversárias alemãs. Felizmente que a página tinha uma versão inglesa, pois os meus conhecimentos da língua alemã eram nulos.
Tomei os apontamentos que considerei necessários, após navegar longos minutos por aquele espaço. A descoberta daquele site, levou-me a procurar informações sobre as restantes adversárias na internet.
A página da federação inglesa também era muito rica em informações, o que deveria servir de exemplo à página da nossa federação, já que a informação sobre futebol feminino era escassa. Mais uma vez, analisei tudo o que me pareceu importante para conhecer as nossas adversárias de qualificação.
No sítio na internet da federação holandesa, apesar da tradução para inglês, foi ligeiramente mais difícil obter informações, uma vez que algumas partes não estavam traduzidas. Ainda assim, com alguma paciência, lá encontrei a secção de futebol feminino.
Com toda esta pesquisa, quando me apercebi das horas, já era tempo de regressar ao hotel e o jantar teria de ser no quarto, pois nos restaurantes já tinha passado a hora de os servirem.
A temperatura não estava muito baixa, talvez mesmo ligeiramente acima do normal para a época. O que incomodava era a chuva e todo o ambiente húmido à volta. As gotas embatiam no pára-brisas, quase em ritmo cadenciado com o movimento das escovas que o limpavam.
Não havia muito trânsito, mas ainda tive que fazer algumas manobras até chegar à Rotunda do Marquês de Pombal. Lisboa era uma cidade de obras permanentes, ora aqui, ora ali, lá havia mais um buraco, mais uma construção nova.
A iluminação da rua atribuía aquela tonalidade alaranjada característica. Contornei a rotunda e saí na direcção da Avenida Fontes Pereira de Melo. Lancei um olhar ao relógio do Ford e decidi ligar a Susana, antes de chegar ao hotel.
Como sempre, conversávamos telefonicamente todas as noites. Naquela, eu atrasara-me com todo o trabalho na Federação. E para complicar, a hora a mais do fuso horário da Suíça ainda agravava mais o atraso.
Aproveitando a paragem num dos semáforos da avenida, marquei o número dela no telemóvel. Tinha um sistema de “mãos-livres” para o telemóvel, o que possibilitava que conduzisse e falasse com ela.
Comecei a ouvir o som de chamar, ao mesmo tempo que caía o verde e eu reiniciei a minha marcha.
─ Estou? ─ surgiu no altifalante.
─ Olá amor!
─ Olá amor! ─ retribuiu com aquela voz que aumentava a minha saudade.
─ Estavas a dormir?
─ Ia agora para a cama.
─ Desculpa não ter ligado mais cedo, mas só agora saí da Federação. ─ expliquei, conduzindo com precaução e atravessando a Praça Duque de Saldanha. ─ Como estás?
─ Cansada.
─ E a Ivana?
─ Já está a dormir.
─ Já se habituou à minha ausência?
─ Não se habitua tão depressa, amor. A Gabrielle diz que ela lhe pergunta, várias vezes, quando é que voltas. Por falar nisso, quando é voltas?
─ Vou ficar até ao final do mês. ─ informei, tentando aproveitar todos os semáforos verdes da Avenida da República. ─ Só devo voltar à Suíça depois do jogo na Alemanha.
─ Ela está com muitas saudades tuas.
─ Eu sei.
─ E eu também.
─ Eu sei, amor.
Notava-se na voz de Susana como ela estava cansada. Optei por não prolongar mais o telefonema e despedi-me dela com o compromisso de novo telefonema na noite seguinte, mas mais cedo.
Continuei o meu trajecto pela cidade, rumo ao Parque das Nações. A chuva não parou até lá, mas também não passou de aguaceiros.
Assim que cheguei ao meu quarto no hotel, larguei o computador em cima da mesa e liguei para o Serviço de Quartos. Solicitei qualquer coisa que servisse de jantar, pedindo para que me entregassem tudo uns vinte minutos depois. Por fim, fui tomar um duche quente para relaxar.
A entrega foi pontual e apanhou-me com um pé fora e outro dentro do poliban da casa de banho do meu quarto. O empregado ainda teve de esperar quase um minuto até que abrisse a porta. Ele colocou tudo em cima da mesa, conforme lhe indiquei, recebendo uma gorjeta como retribuição.
Não me pareceu que tivesse sido um dia estafante, mas sentia-me muito cansado e com a cabeça a latejar, misturada com um ardor nos olhos. Não havia dúvidas que estar a olhar para um ecrã de computador durante várias horas fazia mais mazelas que correr a maratona. Mal terminei a minha pequena ceia, que passou por jantar, recolhi à minha cama e fui descansar.
Novidades acerca da naturalização de Fabiana, só as houve no dia seguinte. O senhor Simões ligou-me para me dizer que falara com o departamento jurídico da Federação, o qual o informara que Fabiana já poderia requerer a nacionalidade portuguesa, devido à sua situação de matrimónio com um português havia mais de três anos. Se não fosse isso, teria de aguardar mais alguns meses, até perfazer seis anos de residência em Portugal, para requerer a naturalização. Isto porque ela era natural de um país de língua oficial portuguesa. Caso contrário, não fosse o casamento, ainda teria de aguardar quatro anos até poder requerer a naturalização.
─ E quanto tempo demorará o processo de naturalização? Posso convocá-la para o jogo com a Alemanha?
Percebendo alguma ansiedade na minha voz, Simões respondeu em tom de brincadeira:
─ Ivan! Você deve pensar que ela é a versão feminina do Pelé.
─ Se é a versão feminina do Pelé, eu não sei. Porém, tenho a certeza que será uma mais-valia para a nossa equipa.
─ Esperemos que sim. ─ desejou o outro. ─ Só que, infelizmente, o processo demora o seu tempo. O jogo com a Alemanha está fora de questão.
─ Para quando, então?
─ Vamos fazer os possíveis para que a possa utilizar contra a Inglaterra. ─ respondeu Simões. ─ Parece que temos aqui um funcionário que é irmão da mulher de um amigo do primo de um tipo importante no SEF. Pode ser que se consiga acelerar o processo.
Tipicamente português, pensei eu. As coisas em Portugal são demasiado burocráticas e morosas. Porém, se conhecermos o amigo do tio da irmã do primo da cunhada do tipo que decide, as coisas funcionam num terço do tempo ou menos.
─ É a Federação que vai tratar do processo? ─ indaguei.
─ Não. ─ respondeu ele, imediatamente. ─ Terá de ser ela. Mas, já pedi à Laurinda para a contactar e lhe dar as indicações necessárias.
Laurinda agendara a reunião com Fabiana para essa tarde, a meio da semana, aproveitando uma folga da brasileira. Algum tempo antes de ela chegar, a minha adjunta veio ter comigo ao meu gabinete.
─ Já lhe planeei o esquema de visionamento dos jogos. ─ disse ela, entregando-me uma folha com a tabela dos jogos a visitar nos fins-de-semana seguintes. ─ Só temos mais duas jornadas de jogos até ao jogo com a Alemanha. Optei por irmos ver o Murtuoense com o Várzea, no próximo Domingo, e depois, no outro Domingo, o Odivelas com o Vitória de Setúbal. Que lhe parece?
─ Concordo! ─ respondi, olhando para o quadro de jogos.
─ Claro que deveríamos ver outras equipas, mas terá de ficar para depois.
─ Pelo menos com estes, já vimos grande parte.
─ Já “vê”, grande parte. ─ emendou Laurinda com um sorriso. ─ Eu já as conheço todas.
─ Eu sei, Laurinda. ─ concordei. ─ É por isso que a sua opinião é importante.
Mudando de assunto, Laurinda lembrou:
─ A Fabiana deve chegar daqui a pouco. Assim que ela chegar, eu trago-a ao seu gabinete.
─ Obrigado, Laurinda.
Mal ela abandonou o gabinete, senti as gotas de chuva embater violentamente nos vidros das janelas do meu gabinete. Como tinha a luz interior acesa, nem me apercebera de como o ambiente exterior escurecera. Olhei para o computador portátil sobre a mesa e carreguei nas teclas, anotando alguns apontamentos. Seguidamente, abri o browser da internet e estive a ler as notícias desportivas. Sobre futebol feminino, o número de notícias era nulo. Fiz uma pesquisa pelos motores de busca, procurando páginas relacionadas com a modalidade, mas obtive poucos resultados relevantes. Para além de dois ou três sites portugueses, os restantes eram de outros países europeus, Brasil e Estados Unidos.
O meu trabalho foi interrompido por duas batidas na porta do gabinete. Autorizei a entrada e vi Laurinda abrir a porta. Atrás de si, vi entrar Fabiana.
Fabiana era de estatura média, tez ligeiramente escura e porte atlético. Fez-me lembrar uma índia da Amazónia, quer pelo seu tom de pele, quer pelos traços do seu rosto. Usava um corte de cabelo curto, muito parecido com os penteados das índias. Ela era natural do nordeste brasileiro, mas tinha de facto raízes amazonas no sangue.
O seu rosto era expressivo, mas fechado. Diferente do típico brasileiro lança sorrisos, sempre de braços abertos, mas que raramente os fecha. O olhar era frontal e não fugiu a encarar o meu, quando Laurinda lhe disse:
─ Fabiana, apresento-te o nosso Seleccionador, o senhor Ivan Pedro.
Quase sorri com a apresentação, pois não tinha mais que uns cinco anos que Fabiana e Laurinda apresentara-me como se tivesse a idade do seu pai. A minha idade era um pouco estranha para elas, pois era mais novo que Laurinda, que as duas guarda-redes e pouco mais velho que a maior parte das restantes jogadoras. Resumindo, para treinador eu era um “puto”.
─ Oi! ─ cumprimentou Fabiana, estendendo-me a mão. Apertei-lhe a mão com gentileza, mas senti um aperto firme da sua parte. ─ A Laurinda disse que queria me falar?!
─ Sentem-se! ─ convidei, voltando ao meu lugar.
A brasileira sentou-se numa das cadeiras em frente à minha secretária, enquanto Laurinda se sentou na outra. Reparei que as suas roupas estavam ligeiramente molhadas, sinal de que não conseguira evitar a chuva.
─ A Fabiana joga muito bem! ─ afirmei, esperando que isso provocasse alguma reacção em si, mas ela nem pestanejou. ─ Nós vimo-la jogar no Domingo. ─ Ela assentiu com a cabeça, confirmando que já sabia disso. ─ Onde é que aprendeu a jogar?
─ Com meus irmãos. ─ respondeu com naturalidade.
─ Eles também jogam futebol?
─ Não.
─ Também estão em Portugal?
─ Não.
Quase parecia um interrogatório policial, em vez de uma conversa tranquila.
─ Bom, Fabiana. ─ continuei, percebendo que não valeria a pena tentar fazer diálogo com perguntas, pois não iria obter mais que um sim ou não em resposta. ─ Eu penso que você tem qualidade, como jogadora de futebol. Ao que sei, nunca representou a equipa do Brasil.
─ Eu nunca joguei futebol no Brasil. ─ interrompeu. ─ Comecei jogando aqui mesmo, em Portugal.
─ Já cá está há muito tempo?
─ Faz seis anos, no fim desse ano.
─ Tem nacionalidade portuguesa? ─ interroguei, causando algum espanto em si, não entendendo o objectivo do assunto.
─ Não. ─ respondeu ela prontamente e de forma curta, como habitual. Já me preparava para continuar a falar, quando... ─ Mas, sou casada com um português.
─ Há quanto tempo?
─ Fez três anos no mês passado.
Não tinha muito conhecimento de leis do país, mas calculei que tanto o tempo de residência como o de matrimónio lhe permitissem a naturalização. Também o facto de nunca ter jogado pelo Brasil revertia a meu favor, pois perante a FIFA, ela poderia vestir a camisola portuguesa.
Contudo, antes que pudesse fazer mais alguma pergunta, Fabiana questionou:
─ Posso saber o porquê de me estar perguntando tudo isso? Está parecendo um interrogatório do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.
─ Peço desculpa! ─ pedi, lançando-lhe um sorriso para a tranquilizar. Acho que ela nem reparou. ─ Eu tenho... Ou melhor... Nós estávamos interessados em convocá-la para a Selecção, caso já estivesse naturalizada. Só que...
─ Mas, eu penso naturalizar-me. ─ interrompeu novamente. ─ Só agora, com os três anos de casamento, é que eu irei dar entrada dos papéis para o processo. Ainda vou ter que aguardar algum tempo.
─ Após esse processo, quando já for cidadã portuguesa, estaria interessada em representar Portugal?
Fabiana sorriu. Foi a primeira vez que a vi sorrir, apesar de ser um sorriso algo irónico. Encarou o meu olhar, dizendo:
─ Não me parece que algum dia me escalem para team brasileiro, por isso, não vejo nenhum inconveniente em jogar por Portugal.
A disponibilidade dela chegara-me aos ouvidos como uma aceitação por não ter opção melhor, algo muito distante de uma disponibilidade de paixão às cores nacionais. Porém, que queria eu? Convidara-a a jogar por um país que não era o seu, numa das equipas mais fracas do mundo.
Tentei não ligar ao que a movia a aceitar a minha proposta. Levantei-me da cadeira, estendendo-lhe a mão em sinal de despedida, explicando:
─ Vou falar com os responsáveis da Federação para saber o que poderemos fazer para ajudar no processo. Assim que houver novidades, eu ou a Laurinda falaremos consigo.
Fabiana retribuiu o aperto de mão e abandonou o gabinete sem dizer mais nenhuma palavra. Francamente, se jogasse à bola tão bem como falava, aquela reunião tinha sido um desperdício de tempo.
Laurinda acompanhou a brasileira e eu voltei ao meu trabalho na recolha de informações sobre futebol feminino. A minha adjunta deve ter levado Fabiana até à saída, fazendo depois o trajecto inverso e regressou ao meu gabinete.
─ Então? ─ interrogou-me com alguma ansiedade.
─ Esperava mais motivação.
─ Que queria...?
─ Eu sei. Eu sei.
─ E agora? Vai convocá-la?
─ Ela ainda não é portuguesa. ─ lembrei, continuando a olhar para o computador. ─ Não sei quanto tempo vai demorar o processo de naturalização. Vou falar com o senhor Simões acerca disso.
─ Ele está cá! ─ informou-me Laurinda, mantendo-se de pé na minha frente.
Desviei os olhos do computador para si e percebi que havia algum entusiasmo da sua parte em relação às minhas ideias.
─ Vou ligar-lhe.
─ Se precisar de mim, é só chamar. ─ disse ela, abandonando o gabinete.
Eu ainda não sabia os números de telefone e as extensões da Federação, por isso tive de me socorrer da listagem de todos eles que tinha numa folha A4, guardada numa das gavetas. Com o dedo indicador segui linha a linha até encontrar o nome do senhor Simões. Levantei o auscultador do telefone do meu gabinete e marquei os dígitos correspondentes.
─ Senhor Simões?
─ Olá, Ivan Pedro!
─ Como está?
─ Bem. E você?
─ Precisava de lhe falar num assunto.
─ Diga!
Mentalmente, procurei as melhores palavras para explicar as minhas intenções de uma forma simples. Comecei por dizer:
─ Sabia que o 1º Dezembro tem uma jogadora brasileira?
─ Sim... ─ respondeu, meio espantando sem saber a que propósito vinha a pergunta.
─ Ela joga bastante bem e eu gostava de a convocar.
─ Mas, ela é brasileira.
─ Mas, está a pensar naturalizar-se.
─ Se ela já jogou pelo Brasil, não pode jogar por outro país.
─ Eu sei. Só que ela nunca jogou pelo seu país. ─ expliquei. ─ Não sei bem como funcionam estas coisas das naturalizações, mas queria saber se a Federação não a poderia ajudar.
─ Eu também não sei, Ivan. Posso falar com o departamento jurídico, talvez os advogados tenham alguma noção sobre isso. Assim que souber alguma coisa, eu ligo-lhe.
O telefonema terminou ali. Na minha cabeça ficara a ideia de que aquele assunto seria a primeira coisa que Simões iria tratar, logo que desligou. Porém, se foi ou não, o que é certo é que a resposta não veio nesse dia.
Eu permaneci no meu gabinete mais algum tempo, envolto em apontamentos e recolha de informações acerca daquela modalidade que quase me passara incógnita ao longo da minha vida. Como já referi, informações sobre futebol feminino em Portugal eram quase nulas, o que me levou a procurar outras. Nessa mesma pesquisa, surgiu a página oficial da Deutscher Fussball-Bund, ou seja, da federação alemã de futebol, a qual continha informação sobre as nossas temíveis adversárias alemãs. Felizmente que a página tinha uma versão inglesa, pois os meus conhecimentos da língua alemã eram nulos.
Tomei os apontamentos que considerei necessários, após navegar longos minutos por aquele espaço. A descoberta daquele site, levou-me a procurar informações sobre as restantes adversárias na internet.
A página da federação inglesa também era muito rica em informações, o que deveria servir de exemplo à página da nossa federação, já que a informação sobre futebol feminino era escassa. Mais uma vez, analisei tudo o que me pareceu importante para conhecer as nossas adversárias de qualificação.
No sítio na internet da federação holandesa, apesar da tradução para inglês, foi ligeiramente mais difícil obter informações, uma vez que algumas partes não estavam traduzidas. Ainda assim, com alguma paciência, lá encontrei a secção de futebol feminino.
Com toda esta pesquisa, quando me apercebi das horas, já era tempo de regressar ao hotel e o jantar teria de ser no quarto, pois nos restaurantes já tinha passado a hora de os servirem.
A temperatura não estava muito baixa, talvez mesmo ligeiramente acima do normal para a época. O que incomodava era a chuva e todo o ambiente húmido à volta. As gotas embatiam no pára-brisas, quase em ritmo cadenciado com o movimento das escovas que o limpavam.
Não havia muito trânsito, mas ainda tive que fazer algumas manobras até chegar à Rotunda do Marquês de Pombal. Lisboa era uma cidade de obras permanentes, ora aqui, ora ali, lá havia mais um buraco, mais uma construção nova.
A iluminação da rua atribuía aquela tonalidade alaranjada característica. Contornei a rotunda e saí na direcção da Avenida Fontes Pereira de Melo. Lancei um olhar ao relógio do Ford e decidi ligar a Susana, antes de chegar ao hotel.
Como sempre, conversávamos telefonicamente todas as noites. Naquela, eu atrasara-me com todo o trabalho na Federação. E para complicar, a hora a mais do fuso horário da Suíça ainda agravava mais o atraso.
Aproveitando a paragem num dos semáforos da avenida, marquei o número dela no telemóvel. Tinha um sistema de “mãos-livres” para o telemóvel, o que possibilitava que conduzisse e falasse com ela.
Comecei a ouvir o som de chamar, ao mesmo tempo que caía o verde e eu reiniciei a minha marcha.
─ Estou? ─ surgiu no altifalante.
─ Olá amor!
─ Olá amor! ─ retribuiu com aquela voz que aumentava a minha saudade.
─ Estavas a dormir?
─ Ia agora para a cama.
─ Desculpa não ter ligado mais cedo, mas só agora saí da Federação. ─ expliquei, conduzindo com precaução e atravessando a Praça Duque de Saldanha. ─ Como estás?
─ Cansada.
─ E a Ivana?
─ Já está a dormir.
─ Já se habituou à minha ausência?
─ Não se habitua tão depressa, amor. A Gabrielle diz que ela lhe pergunta, várias vezes, quando é que voltas. Por falar nisso, quando é voltas?
─ Vou ficar até ao final do mês. ─ informei, tentando aproveitar todos os semáforos verdes da Avenida da República. ─ Só devo voltar à Suíça depois do jogo na Alemanha.
─ Ela está com muitas saudades tuas.
─ Eu sei.
─ E eu também.
─ Eu sei, amor.
Notava-se na voz de Susana como ela estava cansada. Optei por não prolongar mais o telefonema e despedi-me dela com o compromisso de novo telefonema na noite seguinte, mas mais cedo.
Continuei o meu trajecto pela cidade, rumo ao Parque das Nações. A chuva não parou até lá, mas também não passou de aguaceiros.
Assim que cheguei ao meu quarto no hotel, larguei o computador em cima da mesa e liguei para o Serviço de Quartos. Solicitei qualquer coisa que servisse de jantar, pedindo para que me entregassem tudo uns vinte minutos depois. Por fim, fui tomar um duche quente para relaxar.
A entrega foi pontual e apanhou-me com um pé fora e outro dentro do poliban da casa de banho do meu quarto. O empregado ainda teve de esperar quase um minuto até que abrisse a porta. Ele colocou tudo em cima da mesa, conforme lhe indiquei, recebendo uma gorjeta como retribuição.
Não me pareceu que tivesse sido um dia estafante, mas sentia-me muito cansado e com a cabeça a latejar, misturada com um ardor nos olhos. Não havia dúvidas que estar a olhar para um ecrã de computador durante várias horas fazia mais mazelas que correr a maratona. Mal terminei a minha pequena ceia, que passou por jantar, recolhi à minha cama e fui descansar.
Novidades acerca da naturalização de Fabiana, só as houve no dia seguinte. O senhor Simões ligou-me para me dizer que falara com o departamento jurídico da Federação, o qual o informara que Fabiana já poderia requerer a nacionalidade portuguesa, devido à sua situação de matrimónio com um português havia mais de três anos. Se não fosse isso, teria de aguardar mais alguns meses, até perfazer seis anos de residência em Portugal, para requerer a naturalização. Isto porque ela era natural de um país de língua oficial portuguesa. Caso contrário, não fosse o casamento, ainda teria de aguardar quatro anos até poder requerer a naturalização.
─ E quanto tempo demorará o processo de naturalização? Posso convocá-la para o jogo com a Alemanha?
Percebendo alguma ansiedade na minha voz, Simões respondeu em tom de brincadeira:
─ Ivan! Você deve pensar que ela é a versão feminina do Pelé.
─ Se é a versão feminina do Pelé, eu não sei. Porém, tenho a certeza que será uma mais-valia para a nossa equipa.
─ Esperemos que sim. ─ desejou o outro. ─ Só que, infelizmente, o processo demora o seu tempo. O jogo com a Alemanha está fora de questão.
─ Para quando, então?
─ Vamos fazer os possíveis para que a possa utilizar contra a Inglaterra. ─ respondeu Simões. ─ Parece que temos aqui um funcionário que é irmão da mulher de um amigo do primo de um tipo importante no SEF. Pode ser que se consiga acelerar o processo.
Tipicamente português, pensei eu. As coisas em Portugal são demasiado burocráticas e morosas. Porém, se conhecermos o amigo do tio da irmã do primo da cunhada do tipo que decide, as coisas funcionam num terço do tempo ou menos.
─ É a Federação que vai tratar do processo? ─ indaguei.
─ Não. ─ respondeu ele, imediatamente. ─ Terá de ser ela. Mas, já pedi à Laurinda para a contactar e lhe dar as indicações necessárias.