Capítulo XX
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O roncar dos motores era impressionante, quando o avião exercia todo o seu esforço para levantar da pista. Nessa manhã caíra alguma neve, mas não a suficiente para suspender o tráfego aéreo. Fora uma manhã difícil, principalmente na despedida de Ivana.
A minha pequenina, antes de sair para a escola, perguntara-me com os olhos a lacrimejar, se eu a iria visitar no seu aniversário.
Não me esquecera do seu dia de anos, pois era algo inesquecível para mim. Só que a famigerada agenda que eu próprio criara para esse mês não me deixava grande espaço para voltar à Suíça.
Nunca na minha vida lhe prometera algo que não pudesse cumprir. E Ivana sabia-o bem. Sabia que se lhe dissesse que ia, isso seria um dado adquirido, nem que viesse a pé de Portugal.
─ Não sei se posso. ─ respondi-lhe, procurando não a magoar. ─ Mas, prometo-te que irei tentar.
Ivana deu-me mais um beijo e aceitou a resposta sem dizer nada.
No avião, o sinal de que poderia desapertar o cinto permitiu-me ficar mais confortável. Levantei-me do lugar e retirei a mala com o computador portátil da bagageira por cima de mim. Tornei a sentar-me e puxei o tabuleiro preso do banco em frente ao meu.
Após todo o processamento normal à inicialização do sistema, tentei ficar conectado à internet. Demorou um pouco, mas acabei por conseguir ligação. Seguidamente, cliquei sobre o disco rígido e seleccionei o ficheiro que continha o calendário dos jogos do grupo de qualificação de Portugal. Daí a alguns dias, a Holanda iria estrear-se na competição, visitando a Inglaterra em Grimsby. Seria uma boa oportunidade para ver ao vivo as “laranjas”. Contudo, teria de me concentrar no estágio, pelo que não seria oportuno ausentar-me para as observar.
Voltei a clicar na janela do browser e escrevi o endereço da página da sala de chat. Não era provável que Márcia estivesse por ali, mas mesmo assim fui “espreitar”. Encontrei muitos desconhecidos, na sua maior parte adolescentes, ou pelo menos com assuntos de adolescentes. Não me senti motivado a interpelar ninguém e voltei ao ficheiro.
Naquela altura, a Alemanha comandava o grupo com seis pontos. A Inglaterra tinha zero, tal como a Holanda e nós. Só que a Holanda ainda não tinha jogado.
Felizmente, antes de recebermos a Holanda, esta ainda iria jogar com a Alemanha. O que até me calhava bem, pois poderia sair do estágio numa fase mais avançada. Faria uma viagem rápida à Holanda para ver o jogo e, se conseguisse, faria escala na Suíça na viagem de regresso, de forma a estar no aniversário da minha filha. Pareceu-me um bom plano, só teria de falar com o senhor Simões para confirmar a sua viabilidade.
Retornei ao browser e fiquei a olhar para os assuntos, pois seria a melhor forma de passar o tempo num voo dentro de um avião com a capacidade bastante longe de estar esgotada. Nem sequer tinha ninguém sentado no lugar ao lado do meu.
Os assuntos variavam de uma forma notável. Iam desde o engate foleiro, às tentativas sublineares de um encontro para um café, um jantar ou algo mais. Também havia quem falasse da escola e como estava “bué chateado” com a “stora”. Confesso que havia frases que nem percebia, tal era o nível de abreviações e dialecto juvenil.
Passado algum tempo, para minha surpresa, Márcia surgiu no chat. Cumprimentou-me e também estranhou a minha presença. Contei-lhe que estava em pleno voo e que fora ali para passar o tempo. Tal como sempre fazíamos, deslocámo-nos virtualmente para uma sala privada, de forma a conversar mais à vontade.
A sala privada causava-me sempre uma sensação de ironia. Estar com uma mulher numa sala privada obrigava-me a ideias mais perversas, apesar de ser virtual. Contudo, jamais haveria qualquer hipótese de existir qualquer coisa perversa com ela, pois não era o meu tipo de mulher, já para não falar que eu era comprometido. É certo que nunca vira Márcia. No entanto, ela já me fizera uma descrição sua, o que me levava sempre a associar o seu nome a uma mulher gorda, baixa, de toga vestida e com uns óculos grosseiros.
Como já não falava com ela desde a semana anterior, quando estava bastante desiludido com a equipa, foi natural que a sua primeira pergunta fosse como estavam a correr as coisas. Respondi-lhe que perdera o primeiro jogo, sem lhe dizer o resultado. Depois, expliquei-lhe que propusera algumas alterações ao clube e que me tinham ouvido e aceite. Ela felicitou-me por isso.
“Que fazes aqui, tão cedo?”, foi a minha pergunta.
“Greve dos juízes”, disse ela, adicionando que naquele dia, tanto os juízes como os oficiais judiciais tinham feito greve, o que paralisou os tribunais.
“O país está cada vez melhor”, escrevi com ironia.
“Isto vai muito mal”, subscreveu ela.
Nos momentos seguintes, ela relatou-me alguns casos relacionados com problemas para dar celeridade aos processos, falta de capacidade dos tribunais em dar vazão ao amontoado de processos que se espalhavam pelas instalações. Chegava a ter audiências em tribunais com caixotes junto a uma das paredes, a abarrotar de papelada.
“Portugal é o país dos papéis”, lembrei, conhecendo bem como o sistema funcionava no meu país de origem.
A conversa virtual desenrolou-se naturalmente, sem que eu desse pelo passar do tempo. Falou-se em diversos assuntos, muitos dos quais a minha memória já não lembra. Não sei bem porquê, demos por nós a falar nas pessoas que se poderiam conhecer pessoalmente, depois de se conhecerem numa sala de chat. Sem que tivesse realmente ideia de o fazer, acabei por levantar a hipótese de um dia nos conhecermos pessoalmente.
A resposta demorou. Demorou de tal maneira que acabei por escrever:
“Estás aí?”
“Sim. Desculpa, mas tive de atender o telemóvel”, surgiu no ecrã, alguns segundos depois.
Apesar de intrigado com a demora, aceitei a justificação. Porém, antes que eu escrevesse o que quer que fosse, Márcia enviou a seguinte mensagem:
“Tenho de ir. Até à próxima!”
Cerca de vinte minutos depois, o avião aterrava em Lisboa.
Desde pequeno que não gostava de chuva. Parecia que o céu cinzento e a água a cair atraiam azares e problemas. Só valiam para estar deitado na cama, confortavelmente enrolado nos cobertores e a ouvir as gotas a bater nos vidros.
Logo que saí do Aeroporto da Portela, apanhei um táxi. Pedi que me transportasse à morada da Federação. Parecia que a minha cabeça só tinha um objectivo, entrar no edifício, falar pessoalmente com as pessoas e começar a tratar de tudo. Deixara a Suíça sem planear onde iria ficar hospedado, mas não seria certamente no hotel, pois estava farto das estadias impessoais dos hotéis. Como não deveria permanecer muitos dias em Lisboa, optei por telefonar aos meus pais para saber se eles não se importavam que eu ficasse por lá uns dias. Claro que eles adoraram a ideia.
Após atravessar parte da cidade, desbravando as ruas por entre o trânsito citadino e a chuva abundante, o táxi parou perto do edifício da Federação. Paguei a viagem e saí do carro, dando uma corrida até á porta para evitar o máximo de gotas de chuva. No interior, caminhei apressadamente pelos corredores e escadas até chegar ao meu gabinete. Ao entrar, deparei com Laurinda sentada numa cadeira, em frente à minha secretária.
─ Olá Laurinda! ─ cumprimentei-a, lançando-lhe um sorriso.
─ Olá! ─ retribuiu. ─ Espero que não se importe que o tenha esperado no seu gabinete?!
─ Claro que não. ─ respondi, pousando a parca bagagem.
Eu telefonara-lhe à chegada a Lisboa, pedindo-lhe para nos reunirmos na Federação, logo que eu chegasse.
─ A viagem correu bem?
─ Sim.
─ Vejo que veio directamente para cá. ─ disse ela em tom de graça, olhando para a bagagem.
Correspondi à graça sorrindo e explicando:
─ Sinto que temos tanto para fazer que nem perdi tempo a deixar as malas em casa.
Sem parar e perante o olhar atento dela, sentei-me no meu lugar atrás da secretária. Liguei o computador e direccionei o olhar para ela. Percebi como me observava com atenção e expectante. Não conseguia explicar como acontecera, mas criara uma expectativa elevada em todas as pessoas. Talvez a minha atitude tivesse representado uma mudança maior que aquela que eu pretendia.
─ O senhor Simões? ─ interroguei.
─ Teve de sair, mas deve voltar em breve.
─ Também precisava de falar com ele. ─ expliquei. ─ Ele contou-lhe a minha ideia?
─ Por alto…
Nos minutos seguintes, transmiti a Laurinda todo o meu plano de preparação da equipa para os dois jogos que se seguiriam. A conversa foi acompanhada pelo som da chuva forte a bater nos vidros. Expliquei os pormenores, a ideia do melhor local para permanecermos alojados e do local para os treinos. Não consegui evitar partilhar com ela algumas histórias do tempo em que jogara no G. D. Paúle.
─ E já combinou com os dirigentes locais? ─ indagou ela.
─ Ainda não. Mas, penso que o Carrapiço não me recusará esse pedido.
─ E o hotel?
─ Estou à espera do senhor Simões para o colocar em contacto com um amigo e antigo companheiro de equipa que trabalha lá.
─ Quantas jogadoras vai convocar para o estágio?
─ Vinte e três. ─ respondi num tom que aguardava uma opinião. ─ Tinha pensado em vinte jogadoras de campo e duas guarda-redes. Só que também gostava que a Paula Rita nos acompanhasse.
─ Concordo consigo. A Paula Rita é uma jogadora com futuro. ─ disse Laurinda. ─ Só não sei se ela vai poder afastar-se tanto tempo dos estudos. Bem como não sei qual será a disponibilidade de todas para um estágio tão prolongado.
─ O senhor Simões tem o aval da Federação para lhes pagar os ordenados que não vão receber nos empregos. ─ lembrei, como se isso fosse a solução para todos os problemas.
─ Eu sei, Ivan. Só que está a esquecer-se da disponibilidade pessoal delas. Não sabe como irão encarar um afastamento tão grande das famílias.
─ Percebo, Laurinda. Só que quando queremos algo, não podemos olhar a sacrifícios. Ninguém estará mais longe da família que eu.
Laurinda assentiu com a cabeça.
Nesse instante, ouviu-se duas pancadas secas na porta do meu gabinete. Autorizei a entrada com um tom de voz mais alto para que fosse audível do lado de fora e vi o senhor Simões entrar.
─ Olá, Ivan Pedro! Como está?
─ Bem. ─ respondi, apertando-lhe a mão que me estendera. ─ Estávamos a conversar sobre o estágio.
Simões estendeu a mão a Laurinda e cumprimentou-a da mesma forma, apesar de algo distante. Seguidamente, sentou-se na única cadeira vaga e inquiriu:
─ Conclusões?
─ Gostaria que tratasse da estadia no hotel de Tábua. ─ pedi, começando a distribuir tarefas. ─ Posso pô-lo em contacto com um amigo meu que lá trabalha.
─ Tudo bem. Eu trato disso.
─ Eu vou falar com o presidente do Paúle para saber da possibilidade de estagiarmos lá. ─ prossegui. ─ Penso que não haverá problema. ─ Olhei para Laurinda. ─ Gostaria que falasse com todas as convocadas para conversarmos sobre a disponibilidade delas.
─ Considere-o feito.
O avançar da tarde e o mau tempo lá fora escureceram de tal forma o ambiente no gabinete que as luzes do tecto forneceram a totalidade da iluminação naquela divisão.
─ Já escolheu as jogadoras? ─ inquiriu Simões.
─ Faltam-me três.
─ Quantas pensa levar, Ivan?
─ Vinte e três, senhor Simões. ─ Ele franziu o rosto, mas não se pronunciou contrário à minha decisão. ─ Porém, a Laurinda pode ir conversando com as outras. ─ Voltei a olhar para ela. ─ Para já vamos englobar na lista para o estágio, as dezoito da última convocatória mais a Fabiana e a Paula Rita.
─ Eu arranjei-lhe alguns DVDs com jogos dos escalões mais jovens. ─ informou Laurinda. ─ São jogos das equipas de Sub-19 e Sub-18. Penso que lhe poderão ser úteis. E também consegui arranjar alguns de clubes. Antes de ir, entrego-lhe tudo. Olhe que tem ali muitas horas de futebol para ver.
─ Não há problema. Desde que haja matéria-prima para convocar as três que faltam.
─ Eu acredito que sim.
Simões não se pronunciou. Já me habituara ao seu pessimismo nestes assuntos. A sua intervenção surgiu numa lembrança a Laurinda:
─ Você já disse ao Ivan que castigo levou a Ery?
─ Dois jogos. ─ comunicou ela, olhando-me com apreensão. ─ A UEFA condenou-a a dois jogos de suspensão pela expulsão na Alemanha.
─ Já era de esperar. ─ concluí. ─ Um cartão vermelho por uma falta perigosa sobre uma adversária, normalmente, dá nisso.
─ Pensa convocá-la para o estágio? ─ perguntou Simões. ─ Ela não lhe vai ser útil para os dois jogos que tem pela frente.
─ Mas, pode vir a sê-lo para os outros. ─ ripostei.
Ele encolheu os ombros, pois para si, Ery era um caso perdido.
Naquele fim de tarde, não houve muito mais a conversar. Laurinda foi buscar os DVDs que guardara para mim. Enquanto ela o fazia, eu passei ao senhor Simões o contacto de Joselino para que ele tratasse das reservas no hotel.
Quando Laurinda regressou, trazia na mão cerca de dez DVDs. Simões despediu-se de nós e abandonou o gabinete com o compromisso de no dia seguinte tratar das reservas. Logo que me entregou os discos, também ela me deixou sozinho, pois tinha um compromisso para o qual já estava ligeiramente atrasada.
Antes de deixar a Federação, telefonei ao senhor Alfredo Carrapiço. Não o consegui apanhar na sede do Paúle, por isso, tive de lhe ligar para o telemóvel.
A voz do presidente do Grupo Desportivo de Paúle revelava bem a satisfação de me ouvir. Porém, eu notava que a sua voz e maneira de falar já não eram iguais ao tempo em que o conhecera.
Ao longo de um bom punhado de minutos, conversámos sobre as nossas vidas. Carrapiço relatou acontecimentos do clube, problemas financeiros, problemas com as decisões da engenheira Calheiros, problemas e mais problemas. Falou-me de si, do seu filho, das suas mágoas… Parecia que estava a lavar a alma naqueles desabafos. Por fim, perguntou-me como estava e como estava a correr a minha carreira. Mais uns largos minutos em que lhe relatei tudo o que sucedera desde que aceitara o cargo de Seleccionador Nacional da equipa sénior feminina.
─ Até foi por isso que lhe liguei. ─ rematei, após o relato. ─ Precisava de lhe pedir um favor.
─ Diz, Ivan! Sabes que no que depender de mim…
─ Gostava usar as instalações do Paúle para fazer um estágio com elas. ─ pedi eu, sentindo algum receio na recusa. ─ Se estiver de acordo, podemos combinar os valores para usar o est…
─ Valores???? ─ interrompeu Carrapiço. ─ Que valores, Ivan? Entre amigos não existe dinheiro. Traz a tua equipa e usa o estádio à vontade. Só não o podes usar, quando o Paúle precisar. Mas, de resto…
─ Obrigado, senhor Carrapiço!
Parecia algo simples, mas Alfredo Carrapiço estava a ser bastante generoso, pois não estava a cobrar nada pela utilização do humilde complexo desportivo de Paúle.
Quando deixei o meu gabinete, desci até à recepção. Carregando a bagagem, parei junto ao segurança que controlava as entradas e saídas do edifício. Tentei informar-me acerca do melhor local para apanhar um táxi. Simpaticamente, o indivíduo disponibilizou-se a chamar-me um.
Fiquei à espera alguns minutos até à altura em que chegou o veículo. Continuava a chover fortemente, apesar de o vento ser menor. Dei uma corrida até lá e entrei com a bagagem para o lugar traseiro, sem perder tempo a colocar tudo no porta-bagagem.
Logo após o usual telefonema para Susana e ainda a acabar um jantar simples que a minha mãe preparara, usei o leitor de DVD do meu pai para visionar os discos que Laurinda me entregara. Qual treinador-adjunto, o meu pai permaneceu a meu lado no sofá a olhar para as imagens e a trocar opiniões comigo. A minha mãe não tinha paciência para aquilo e, mal terminou as tarefas da casa após o jantar, despediu-se de nós e foi dormir.
Comecei com os jogos da equipa nacional de Sub-19. As imagens não deixavam dúvidas de que tinham sido gravadas por amadores. Não se tratava de nenhuma gravação de uma transmissão televisiva, mas sim de filmagens de alguém que levara uma câmara digital para registar o momento.
O DVD com o jogo das meninas Sub-19 não trouxera nada de novo ao meu trabalho. Numa partida de futebol em solo nacional com a Irlanda, as portuguesas perderam por três bolas a zero. O meu pai ainda tentou encontrar alguma mais-valia numa ou outra, mas pelo meu conhecimento da matéria-prima que tinha na equipa principal, sabia que aquelas ainda eram piores.
Passei para o DVD com outro jogo da equipa de Sub-19. Mal as imagens apareceram, constatei que o estádio ainda era mais modesto que o primeiro. Senti que de disco para disco aquilo só iria piorar. Já tinha o dedo no comando do leitor para começar a avançar mais rapidamente com as imagens como fizera com o primeiro disco, mal percebera que não ia tirar nada dali.
O jogo fazia parte de um torneio particular, disputado a sul do país. As jovens portuguesas iam defrontar a China que era só uma das maiores potências do futebol feminino. Calculo que talvez não tivessem trazido as suas melhoras jogadoras, mas mesmo uma segunda linha seria suficiente para derrotar as meninas portuguesas.
As chinesas dominavam o jogo e as portuguesas raramente conseguiam chegar ao meio-campo das adversárias. No entanto, os ataques constantes das asiáticas tiveram o dom de chamar a minha atenção para defesa central e capitã da equipa nacional júnior.
─ Espectacular! ─ exclamou o meu pai, após mais um corte de cabeça a um centro da chinesa para o coração da grande área portuguesa. ─ A miúda tem futuro.
Eu não me pronunciei, mas concordava com ele. Sim, pensei, vale a pena chamá-la à selecção! A rapariga estava a jogar tão bem que acabámos por ver o jogo todo em tempo real. A qualidade do seu jogo não evitou dois golos das chinesas, mas sem qualquer culpa da parte dela. E quando Portugal teve um pontapé de canto a seu favor, ela marcou um belo golo de cabeça, fechando o marcador em um golo para Portugal, dois para a China.
Escrevi alguns apontamentos no meu bloco, perante o olhar atento do meu pai. Seguidamente, fui até ao leitor de DVDs para trocar o disco.
─ Ainda vais ver mais? ─ perguntou o meu pai, olhando para o relógio.
─ Sim…
─ Já é tão tarde, filho.
─ Eu sei! Mas, tenho de acabar isto. ─ expliquei. ─ Tenho de entregar a lista final para o estágio e ainda me faltam duas jogadoras.
─ Gostava de te fazer companhia, mas se fico aqui mais cinco minutos no sofá, adormeço.
Sorri-lhe e dei-lhe um beijo de boa noite. O meu pai desejou-me sorte na minha busca e desapareceu no corredor escuro que o levaria até ao seu quarto.
Continuei na minha tarefa, os DVDs sucederam-se e eu, apesar de entediado com a falta de qualidade daquilo que via, nem dei pelo tempo passar. Comecei a ficar cheio de sono e com as pálpebras a fechar, no instante em que me pareceu ver uma jovem jogadora com alguns dotes técnicos. Esforcei a visão para não a perder por entre o estado de sonolência. Contudo, o adiantado da hora e o cansaço estavam a vencer-me. Só tive tempo de carregar no “pause” do comando do leitor e caí num sono profundo.
Não sei quanto tempo estive a dormir. Acordei de repente, no meio do silêncio da casa. Olhei para o relógio, pouco passava das quatro horas da manhã. Era bastante cedo e os meus pais ainda dormiam. Reparei na imagem parada no ecrã e recordei que havia algo de importante nela. Tornei a carregar no “play” e vi uma jovem do Odivelas a fintar várias adversárias com a bola e a marcar um belo golo. Decidi que também a iria chamar para estágio.
Desliguei tudo e fui descansar para o meu quarto. Estava farto de ver imagens de futebol feminino, na maior parte dos casos sem a mínima qualidade. Não havia mais para ver, mas ainda me faltava uma jogadora para completar as vinte e três que queria levar para Paúle.
Na manhã seguinte… Bom, quando acordei a manhã já terminara e o Sol estava no seu ponto mais alto. O dia estava alegre, apesar de não estar quente e soprar um vento por vezes desagradável. Eu dormira muitas horas, mas ainda me sentia cansado com a noitada a ver DVDs. Por isso optei por não ir à Federação, aproveitando o dia sem chuva para ir correr um pouco ao Estádio 1º de Maio, ao fim da tarde.
A minha corrida começou logo à porta do prédio, num ritmo lento, em direcção ao complexo desportivo. Praticamente, nem dei por percorrer o percurso até lá, pois levava a mente ocupada com a convocatória para o estágio.
Passei os portões e só parei para comprar o bilhete de entrada, obrigatório para todos os que não são sócios… Precisava de mais uma jogadora para o estágio, mas de tudo o que tinha visto, qualquer uma que escolhesse seria apenas para fazer número, pois não demonstravam qualidade para a minha equipa.
Enquanto corria à volta do estádio central, reparei que decorria um jogo de futebol no relvado. Não me despertou muita atenção, pois não passavam de vinte e dois amadores atrás de uma bola em mais um qualquer jogo de empresas. No entanto, como mais de metade do meu percurso passava junto ao topo das bancadas, não podia evitar olhar para o campo de jogo. E após duas ou três voltas, surpreendi-me ao ver que um dos jogadores era uma mulher.
Logo nesse instante, ainda mais surpreendido fiquei quando a vi dominar a bola como uma profissional. Parei dez metros mais à frente e permaneci junto à rede a observar.
Fisicamente, ela não era muito forte, evitando choques de onde sairia sempre a perder. Tinha o cabelo curto e uma magreza que olhares menos atentos a confundiriam com um homem. Porém, era veloz e sabia correr com a bola nos pés.
A minha primeira ideia foi descer até ao relvado e tentar saber o seu nome e em que equipa ela estaria filiada para a convocar para o estágio. Caminhei até à bancada central, entrei pelo topo e desci as escadarias que dividiam os dois lados da bancada. Tentei identificar qual do grupo de suplentes pertencia à equipa dela.
Um dos indivíduos de camisola amarela como a dela estava encostado ao muro frontal à bancada.
─ Joga muito bem! ─ exclamei perto dele.
O rapaz olhou para mim, algo surpreso, não percebendo muito bem o que eu dissera.
─ Como é que se chama? ─ perguntei, apontando para a rapariga em campo.
─ Quem? A Vanda? ─ interrogou ele.
Assenti com a cabeça.
─ Em que clube é que ela joga? ─ indaguei.
─ Clube? ─ tornou a interrogar, arregalando os olhos. Seguidamente, apontou para o relvado. ─ Num destes dois, dependendo de como nos dividimos.
─ Ela não é filiada?
─ Fili… quê?
─ Não joga numa equipa federada? Numa equipa de futebol feminino?
─ Não!
Por instantes não soube bem o que dizer, pois custava a acreditar que ela não jogasse regularmente numa competição.
─ Será que posso falar com ela?
O indivíduo encolheu os ombros como se não tivesse nada com o assunto.
─ Será que poderia dizer-lhe que gostava de falar com ela? Poderia chamá-la?
─ Agora está a jogar.
─ Eu sei. ─ retorqui enfadado com a falta de entendimento dele. ─ Poderia dizer-lhe que queria falar com ela… No fim do jogo?
Não proferiu qualquer palavra em resposta ao que eu dissera, optando por dar um grito para o relvado, na direcção de um outro jogador. Não insisti mais até ao final do jogo, permanecendo junto ao muro a observar o comportamento dela em campo. Notei-lhe diversas lacunas tácticas, mas sabia jogar futebol e era melhor que muitas das que vira nos DVDs na noite anterior.
Aguardei que o jogo terminasse, o que felizmente aconteceu cerca de vinte minutos depois, pois o céu cinzento adensava-se e ameaçava desabar numa forte chuvada.
Mal se ouviu o apito do árbitro, o tipo com quem falara afastou-se do muro onde eu estava. Desconfiei que já não se lembrasse do que lhe pedira, por isso, gritei-lhe:
─ Hei!!! ─ Ele voltou-se para trás, franzindo o rosto. ─ Não se esqueça de chamá-la.
A princípio julguei que me fosse ignorar, mas passados poucos segundos, ele berrou para o aglomerado de jogadores que se cumprimentava no relvado:
─ Vanda! Está ali um gajo que quer falar contigo.
Completamente incorrecto e mal-educado, pensei para mim. A rapariga terminou os cumprimentos e caminhou na minha direcção, não sem antes passar pelo indivíduo e trocar algumas palavras que não percebi. Deveria estar a questioná-lo sobre quem eu era, pois vi-o encolher os ombros enquanto ela olhava para mim. Vanda prosseguiu o seu trajecto até parar a um metro de mim.
─ Vanda? O meu nome é Ivan Pedro. ─ apresentei-me, estendendo-lhe a mão. ─ Sou treinador da equipa de futebol feminina de Portugal. ─ Vanda apertou-me a mão e franziu o rosto, revelando-se confusa. ─ Calculo que não faça a mínima ideia do que pretendo.
─ Conclusão óbvia! ─ exclamou, mantendo uma postura defensiva e observadora.
─ A Vanda joga muito bem. ─ disse eu, sorrindo-lhe. ─ Tem bom toque…
─ Desculpe lá. ─ interrompeu. ─ Pode dizer o que deseja, eu estou com alguma pressa.
Fiquei sentido por ela não ligar importância aos meus elogios. No entanto, ultrapassei isso e prossegui sem perder tempo:
─ Gostava que participasse no estágio da Selecção.
─ Selecção? Que Selecção?
─ A de Portugal! ─ afirmei, quase ofendido com a pergunta. ─ A equipa feminina na qual sou treinador.
─ Você é treinador da Selecção? ─ interrogou com toda a estranheza. ─ Nunca ouvi falar de si.
─ É natural. ─ confirmei, voltando a sorrir. ─ O futebol feminino não é tão mediático quanto o masculino. Mas garanto-lhe que sou o Seleccionador Nacional da equipa feminina.
─ E em que lhe posso ser útil? ─ questionou, não escondendo o desinteresse pelo assunto.
─ Como lhe disse anteriormente, gostava que participasse no estágio da equipa nacional.
Vanda franziu o rosto com enorme desconfiança e disse:
─ Isto parece-me tudo muito estranho.
─ Acredito que sim. ─ confirmei. ─ E compreendo perfeitamente toda a sua desconfiança. Eu também a teria no seu lugar. Porém, o importante é saber se estaria interessada nessa possibilidade.
─ Porquê eu? ─ Ela não conseguia evitar as questões. ─ Eu nem sequer sou profissional.
─ Nenhuma é, infelizmente.
─ Mas eu jogo por brincadeira, não jogo em nenhum clube, nem sou atleta federada. Deve haver muitas raparigas convocáveis.
─ Há muita quantidade, mas pouca qualidade.
─ Hum… Não sei, isso cheira-me a esturro.
Novamente, tornei a sorrir, procurando apaziguar as suas desconfianças, mas sem sucesso. Acabei por sugerir:
─ Se lhe interessar, telefone para a Federação Portuguesa de Futebol e confirme a minha identidade. Ou então, vá até lá.
Durante uns momentos, Vanda ficou a observar-me sem proferir qualquer palavra. Acabou por dizer:
─ Caso esteja interessada, quando seria isso?
Estava interessada, pensei, senão não quereria saber mais.
─ Dentro de alguns dias e dura cerca de um mês. ─ Observei a sua reacção. ─ Em relação ao emprego…
─ Não tenho emprego. ─ cortou secamente. ─ Trabalho por conta própria. ─ Abanou negativamente a cabeça. ─ É demasiado tempo para mim sem trabalhar, ou seja sem rendimento.
─ A Federação ajuda nesse aspecto. ─ expliquei. ─ Vanda! Pense na minha proposta e depois ligue para a FPF e esclareça as suas dúvidas. Se quiser fazer parte do projecto, eles dão-lhe o meu contacto.
Apertei-lhe a mão em despedida e regressei à minha corrida. Se ela aceitasse e nenhuma das outras me surpreendesse com uma recusa, eu tinha o meu plantel completo para o estágio.
A minha pequenina, antes de sair para a escola, perguntara-me com os olhos a lacrimejar, se eu a iria visitar no seu aniversário.
Não me esquecera do seu dia de anos, pois era algo inesquecível para mim. Só que a famigerada agenda que eu próprio criara para esse mês não me deixava grande espaço para voltar à Suíça.
Nunca na minha vida lhe prometera algo que não pudesse cumprir. E Ivana sabia-o bem. Sabia que se lhe dissesse que ia, isso seria um dado adquirido, nem que viesse a pé de Portugal.
─ Não sei se posso. ─ respondi-lhe, procurando não a magoar. ─ Mas, prometo-te que irei tentar.
Ivana deu-me mais um beijo e aceitou a resposta sem dizer nada.
No avião, o sinal de que poderia desapertar o cinto permitiu-me ficar mais confortável. Levantei-me do lugar e retirei a mala com o computador portátil da bagageira por cima de mim. Tornei a sentar-me e puxei o tabuleiro preso do banco em frente ao meu.
Após todo o processamento normal à inicialização do sistema, tentei ficar conectado à internet. Demorou um pouco, mas acabei por conseguir ligação. Seguidamente, cliquei sobre o disco rígido e seleccionei o ficheiro que continha o calendário dos jogos do grupo de qualificação de Portugal. Daí a alguns dias, a Holanda iria estrear-se na competição, visitando a Inglaterra em Grimsby. Seria uma boa oportunidade para ver ao vivo as “laranjas”. Contudo, teria de me concentrar no estágio, pelo que não seria oportuno ausentar-me para as observar.
Voltei a clicar na janela do browser e escrevi o endereço da página da sala de chat. Não era provável que Márcia estivesse por ali, mas mesmo assim fui “espreitar”. Encontrei muitos desconhecidos, na sua maior parte adolescentes, ou pelo menos com assuntos de adolescentes. Não me senti motivado a interpelar ninguém e voltei ao ficheiro.
Naquela altura, a Alemanha comandava o grupo com seis pontos. A Inglaterra tinha zero, tal como a Holanda e nós. Só que a Holanda ainda não tinha jogado.
Felizmente, antes de recebermos a Holanda, esta ainda iria jogar com a Alemanha. O que até me calhava bem, pois poderia sair do estágio numa fase mais avançada. Faria uma viagem rápida à Holanda para ver o jogo e, se conseguisse, faria escala na Suíça na viagem de regresso, de forma a estar no aniversário da minha filha. Pareceu-me um bom plano, só teria de falar com o senhor Simões para confirmar a sua viabilidade.
Retornei ao browser e fiquei a olhar para os assuntos, pois seria a melhor forma de passar o tempo num voo dentro de um avião com a capacidade bastante longe de estar esgotada. Nem sequer tinha ninguém sentado no lugar ao lado do meu.
Os assuntos variavam de uma forma notável. Iam desde o engate foleiro, às tentativas sublineares de um encontro para um café, um jantar ou algo mais. Também havia quem falasse da escola e como estava “bué chateado” com a “stora”. Confesso que havia frases que nem percebia, tal era o nível de abreviações e dialecto juvenil.
Passado algum tempo, para minha surpresa, Márcia surgiu no chat. Cumprimentou-me e também estranhou a minha presença. Contei-lhe que estava em pleno voo e que fora ali para passar o tempo. Tal como sempre fazíamos, deslocámo-nos virtualmente para uma sala privada, de forma a conversar mais à vontade.
A sala privada causava-me sempre uma sensação de ironia. Estar com uma mulher numa sala privada obrigava-me a ideias mais perversas, apesar de ser virtual. Contudo, jamais haveria qualquer hipótese de existir qualquer coisa perversa com ela, pois não era o meu tipo de mulher, já para não falar que eu era comprometido. É certo que nunca vira Márcia. No entanto, ela já me fizera uma descrição sua, o que me levava sempre a associar o seu nome a uma mulher gorda, baixa, de toga vestida e com uns óculos grosseiros.
Como já não falava com ela desde a semana anterior, quando estava bastante desiludido com a equipa, foi natural que a sua primeira pergunta fosse como estavam a correr as coisas. Respondi-lhe que perdera o primeiro jogo, sem lhe dizer o resultado. Depois, expliquei-lhe que propusera algumas alterações ao clube e que me tinham ouvido e aceite. Ela felicitou-me por isso.
“Que fazes aqui, tão cedo?”, foi a minha pergunta.
“Greve dos juízes”, disse ela, adicionando que naquele dia, tanto os juízes como os oficiais judiciais tinham feito greve, o que paralisou os tribunais.
“O país está cada vez melhor”, escrevi com ironia.
“Isto vai muito mal”, subscreveu ela.
Nos momentos seguintes, ela relatou-me alguns casos relacionados com problemas para dar celeridade aos processos, falta de capacidade dos tribunais em dar vazão ao amontoado de processos que se espalhavam pelas instalações. Chegava a ter audiências em tribunais com caixotes junto a uma das paredes, a abarrotar de papelada.
“Portugal é o país dos papéis”, lembrei, conhecendo bem como o sistema funcionava no meu país de origem.
A conversa virtual desenrolou-se naturalmente, sem que eu desse pelo passar do tempo. Falou-se em diversos assuntos, muitos dos quais a minha memória já não lembra. Não sei bem porquê, demos por nós a falar nas pessoas que se poderiam conhecer pessoalmente, depois de se conhecerem numa sala de chat. Sem que tivesse realmente ideia de o fazer, acabei por levantar a hipótese de um dia nos conhecermos pessoalmente.
A resposta demorou. Demorou de tal maneira que acabei por escrever:
“Estás aí?”
“Sim. Desculpa, mas tive de atender o telemóvel”, surgiu no ecrã, alguns segundos depois.
Apesar de intrigado com a demora, aceitei a justificação. Porém, antes que eu escrevesse o que quer que fosse, Márcia enviou a seguinte mensagem:
“Tenho de ir. Até à próxima!”
Cerca de vinte minutos depois, o avião aterrava em Lisboa.
Desde pequeno que não gostava de chuva. Parecia que o céu cinzento e a água a cair atraiam azares e problemas. Só valiam para estar deitado na cama, confortavelmente enrolado nos cobertores e a ouvir as gotas a bater nos vidros.
Logo que saí do Aeroporto da Portela, apanhei um táxi. Pedi que me transportasse à morada da Federação. Parecia que a minha cabeça só tinha um objectivo, entrar no edifício, falar pessoalmente com as pessoas e começar a tratar de tudo. Deixara a Suíça sem planear onde iria ficar hospedado, mas não seria certamente no hotel, pois estava farto das estadias impessoais dos hotéis. Como não deveria permanecer muitos dias em Lisboa, optei por telefonar aos meus pais para saber se eles não se importavam que eu ficasse por lá uns dias. Claro que eles adoraram a ideia.
Após atravessar parte da cidade, desbravando as ruas por entre o trânsito citadino e a chuva abundante, o táxi parou perto do edifício da Federação. Paguei a viagem e saí do carro, dando uma corrida até á porta para evitar o máximo de gotas de chuva. No interior, caminhei apressadamente pelos corredores e escadas até chegar ao meu gabinete. Ao entrar, deparei com Laurinda sentada numa cadeira, em frente à minha secretária.
─ Olá Laurinda! ─ cumprimentei-a, lançando-lhe um sorriso.
─ Olá! ─ retribuiu. ─ Espero que não se importe que o tenha esperado no seu gabinete?!
─ Claro que não. ─ respondi, pousando a parca bagagem.
Eu telefonara-lhe à chegada a Lisboa, pedindo-lhe para nos reunirmos na Federação, logo que eu chegasse.
─ A viagem correu bem?
─ Sim.
─ Vejo que veio directamente para cá. ─ disse ela em tom de graça, olhando para a bagagem.
Correspondi à graça sorrindo e explicando:
─ Sinto que temos tanto para fazer que nem perdi tempo a deixar as malas em casa.
Sem parar e perante o olhar atento dela, sentei-me no meu lugar atrás da secretária. Liguei o computador e direccionei o olhar para ela. Percebi como me observava com atenção e expectante. Não conseguia explicar como acontecera, mas criara uma expectativa elevada em todas as pessoas. Talvez a minha atitude tivesse representado uma mudança maior que aquela que eu pretendia.
─ O senhor Simões? ─ interroguei.
─ Teve de sair, mas deve voltar em breve.
─ Também precisava de falar com ele. ─ expliquei. ─ Ele contou-lhe a minha ideia?
─ Por alto…
Nos minutos seguintes, transmiti a Laurinda todo o meu plano de preparação da equipa para os dois jogos que se seguiriam. A conversa foi acompanhada pelo som da chuva forte a bater nos vidros. Expliquei os pormenores, a ideia do melhor local para permanecermos alojados e do local para os treinos. Não consegui evitar partilhar com ela algumas histórias do tempo em que jogara no G. D. Paúle.
─ E já combinou com os dirigentes locais? ─ indagou ela.
─ Ainda não. Mas, penso que o Carrapiço não me recusará esse pedido.
─ E o hotel?
─ Estou à espera do senhor Simões para o colocar em contacto com um amigo e antigo companheiro de equipa que trabalha lá.
─ Quantas jogadoras vai convocar para o estágio?
─ Vinte e três. ─ respondi num tom que aguardava uma opinião. ─ Tinha pensado em vinte jogadoras de campo e duas guarda-redes. Só que também gostava que a Paula Rita nos acompanhasse.
─ Concordo consigo. A Paula Rita é uma jogadora com futuro. ─ disse Laurinda. ─ Só não sei se ela vai poder afastar-se tanto tempo dos estudos. Bem como não sei qual será a disponibilidade de todas para um estágio tão prolongado.
─ O senhor Simões tem o aval da Federação para lhes pagar os ordenados que não vão receber nos empregos. ─ lembrei, como se isso fosse a solução para todos os problemas.
─ Eu sei, Ivan. Só que está a esquecer-se da disponibilidade pessoal delas. Não sabe como irão encarar um afastamento tão grande das famílias.
─ Percebo, Laurinda. Só que quando queremos algo, não podemos olhar a sacrifícios. Ninguém estará mais longe da família que eu.
Laurinda assentiu com a cabeça.
Nesse instante, ouviu-se duas pancadas secas na porta do meu gabinete. Autorizei a entrada com um tom de voz mais alto para que fosse audível do lado de fora e vi o senhor Simões entrar.
─ Olá, Ivan Pedro! Como está?
─ Bem. ─ respondi, apertando-lhe a mão que me estendera. ─ Estávamos a conversar sobre o estágio.
Simões estendeu a mão a Laurinda e cumprimentou-a da mesma forma, apesar de algo distante. Seguidamente, sentou-se na única cadeira vaga e inquiriu:
─ Conclusões?
─ Gostaria que tratasse da estadia no hotel de Tábua. ─ pedi, começando a distribuir tarefas. ─ Posso pô-lo em contacto com um amigo meu que lá trabalha.
─ Tudo bem. Eu trato disso.
─ Eu vou falar com o presidente do Paúle para saber da possibilidade de estagiarmos lá. ─ prossegui. ─ Penso que não haverá problema. ─ Olhei para Laurinda. ─ Gostaria que falasse com todas as convocadas para conversarmos sobre a disponibilidade delas.
─ Considere-o feito.
O avançar da tarde e o mau tempo lá fora escureceram de tal forma o ambiente no gabinete que as luzes do tecto forneceram a totalidade da iluminação naquela divisão.
─ Já escolheu as jogadoras? ─ inquiriu Simões.
─ Faltam-me três.
─ Quantas pensa levar, Ivan?
─ Vinte e três, senhor Simões. ─ Ele franziu o rosto, mas não se pronunciou contrário à minha decisão. ─ Porém, a Laurinda pode ir conversando com as outras. ─ Voltei a olhar para ela. ─ Para já vamos englobar na lista para o estágio, as dezoito da última convocatória mais a Fabiana e a Paula Rita.
─ Eu arranjei-lhe alguns DVDs com jogos dos escalões mais jovens. ─ informou Laurinda. ─ São jogos das equipas de Sub-19 e Sub-18. Penso que lhe poderão ser úteis. E também consegui arranjar alguns de clubes. Antes de ir, entrego-lhe tudo. Olhe que tem ali muitas horas de futebol para ver.
─ Não há problema. Desde que haja matéria-prima para convocar as três que faltam.
─ Eu acredito que sim.
Simões não se pronunciou. Já me habituara ao seu pessimismo nestes assuntos. A sua intervenção surgiu numa lembrança a Laurinda:
─ Você já disse ao Ivan que castigo levou a Ery?
─ Dois jogos. ─ comunicou ela, olhando-me com apreensão. ─ A UEFA condenou-a a dois jogos de suspensão pela expulsão na Alemanha.
─ Já era de esperar. ─ concluí. ─ Um cartão vermelho por uma falta perigosa sobre uma adversária, normalmente, dá nisso.
─ Pensa convocá-la para o estágio? ─ perguntou Simões. ─ Ela não lhe vai ser útil para os dois jogos que tem pela frente.
─ Mas, pode vir a sê-lo para os outros. ─ ripostei.
Ele encolheu os ombros, pois para si, Ery era um caso perdido.
Naquele fim de tarde, não houve muito mais a conversar. Laurinda foi buscar os DVDs que guardara para mim. Enquanto ela o fazia, eu passei ao senhor Simões o contacto de Joselino para que ele tratasse das reservas no hotel.
Quando Laurinda regressou, trazia na mão cerca de dez DVDs. Simões despediu-se de nós e abandonou o gabinete com o compromisso de no dia seguinte tratar das reservas. Logo que me entregou os discos, também ela me deixou sozinho, pois tinha um compromisso para o qual já estava ligeiramente atrasada.
Antes de deixar a Federação, telefonei ao senhor Alfredo Carrapiço. Não o consegui apanhar na sede do Paúle, por isso, tive de lhe ligar para o telemóvel.
A voz do presidente do Grupo Desportivo de Paúle revelava bem a satisfação de me ouvir. Porém, eu notava que a sua voz e maneira de falar já não eram iguais ao tempo em que o conhecera.
Ao longo de um bom punhado de minutos, conversámos sobre as nossas vidas. Carrapiço relatou acontecimentos do clube, problemas financeiros, problemas com as decisões da engenheira Calheiros, problemas e mais problemas. Falou-me de si, do seu filho, das suas mágoas… Parecia que estava a lavar a alma naqueles desabafos. Por fim, perguntou-me como estava e como estava a correr a minha carreira. Mais uns largos minutos em que lhe relatei tudo o que sucedera desde que aceitara o cargo de Seleccionador Nacional da equipa sénior feminina.
─ Até foi por isso que lhe liguei. ─ rematei, após o relato. ─ Precisava de lhe pedir um favor.
─ Diz, Ivan! Sabes que no que depender de mim…
─ Gostava usar as instalações do Paúle para fazer um estágio com elas. ─ pedi eu, sentindo algum receio na recusa. ─ Se estiver de acordo, podemos combinar os valores para usar o est…
─ Valores???? ─ interrompeu Carrapiço. ─ Que valores, Ivan? Entre amigos não existe dinheiro. Traz a tua equipa e usa o estádio à vontade. Só não o podes usar, quando o Paúle precisar. Mas, de resto…
─ Obrigado, senhor Carrapiço!
Parecia algo simples, mas Alfredo Carrapiço estava a ser bastante generoso, pois não estava a cobrar nada pela utilização do humilde complexo desportivo de Paúle.
Quando deixei o meu gabinete, desci até à recepção. Carregando a bagagem, parei junto ao segurança que controlava as entradas e saídas do edifício. Tentei informar-me acerca do melhor local para apanhar um táxi. Simpaticamente, o indivíduo disponibilizou-se a chamar-me um.
Fiquei à espera alguns minutos até à altura em que chegou o veículo. Continuava a chover fortemente, apesar de o vento ser menor. Dei uma corrida até lá e entrei com a bagagem para o lugar traseiro, sem perder tempo a colocar tudo no porta-bagagem.
Logo após o usual telefonema para Susana e ainda a acabar um jantar simples que a minha mãe preparara, usei o leitor de DVD do meu pai para visionar os discos que Laurinda me entregara. Qual treinador-adjunto, o meu pai permaneceu a meu lado no sofá a olhar para as imagens e a trocar opiniões comigo. A minha mãe não tinha paciência para aquilo e, mal terminou as tarefas da casa após o jantar, despediu-se de nós e foi dormir.
Comecei com os jogos da equipa nacional de Sub-19. As imagens não deixavam dúvidas de que tinham sido gravadas por amadores. Não se tratava de nenhuma gravação de uma transmissão televisiva, mas sim de filmagens de alguém que levara uma câmara digital para registar o momento.
O DVD com o jogo das meninas Sub-19 não trouxera nada de novo ao meu trabalho. Numa partida de futebol em solo nacional com a Irlanda, as portuguesas perderam por três bolas a zero. O meu pai ainda tentou encontrar alguma mais-valia numa ou outra, mas pelo meu conhecimento da matéria-prima que tinha na equipa principal, sabia que aquelas ainda eram piores.
Passei para o DVD com outro jogo da equipa de Sub-19. Mal as imagens apareceram, constatei que o estádio ainda era mais modesto que o primeiro. Senti que de disco para disco aquilo só iria piorar. Já tinha o dedo no comando do leitor para começar a avançar mais rapidamente com as imagens como fizera com o primeiro disco, mal percebera que não ia tirar nada dali.
O jogo fazia parte de um torneio particular, disputado a sul do país. As jovens portuguesas iam defrontar a China que era só uma das maiores potências do futebol feminino. Calculo que talvez não tivessem trazido as suas melhoras jogadoras, mas mesmo uma segunda linha seria suficiente para derrotar as meninas portuguesas.
As chinesas dominavam o jogo e as portuguesas raramente conseguiam chegar ao meio-campo das adversárias. No entanto, os ataques constantes das asiáticas tiveram o dom de chamar a minha atenção para defesa central e capitã da equipa nacional júnior.
─ Espectacular! ─ exclamou o meu pai, após mais um corte de cabeça a um centro da chinesa para o coração da grande área portuguesa. ─ A miúda tem futuro.
Eu não me pronunciei, mas concordava com ele. Sim, pensei, vale a pena chamá-la à selecção! A rapariga estava a jogar tão bem que acabámos por ver o jogo todo em tempo real. A qualidade do seu jogo não evitou dois golos das chinesas, mas sem qualquer culpa da parte dela. E quando Portugal teve um pontapé de canto a seu favor, ela marcou um belo golo de cabeça, fechando o marcador em um golo para Portugal, dois para a China.
Escrevi alguns apontamentos no meu bloco, perante o olhar atento do meu pai. Seguidamente, fui até ao leitor de DVDs para trocar o disco.
─ Ainda vais ver mais? ─ perguntou o meu pai, olhando para o relógio.
─ Sim…
─ Já é tão tarde, filho.
─ Eu sei! Mas, tenho de acabar isto. ─ expliquei. ─ Tenho de entregar a lista final para o estágio e ainda me faltam duas jogadoras.
─ Gostava de te fazer companhia, mas se fico aqui mais cinco minutos no sofá, adormeço.
Sorri-lhe e dei-lhe um beijo de boa noite. O meu pai desejou-me sorte na minha busca e desapareceu no corredor escuro que o levaria até ao seu quarto.
Continuei na minha tarefa, os DVDs sucederam-se e eu, apesar de entediado com a falta de qualidade daquilo que via, nem dei pelo tempo passar. Comecei a ficar cheio de sono e com as pálpebras a fechar, no instante em que me pareceu ver uma jovem jogadora com alguns dotes técnicos. Esforcei a visão para não a perder por entre o estado de sonolência. Contudo, o adiantado da hora e o cansaço estavam a vencer-me. Só tive tempo de carregar no “pause” do comando do leitor e caí num sono profundo.
Não sei quanto tempo estive a dormir. Acordei de repente, no meio do silêncio da casa. Olhei para o relógio, pouco passava das quatro horas da manhã. Era bastante cedo e os meus pais ainda dormiam. Reparei na imagem parada no ecrã e recordei que havia algo de importante nela. Tornei a carregar no “play” e vi uma jovem do Odivelas a fintar várias adversárias com a bola e a marcar um belo golo. Decidi que também a iria chamar para estágio.
Desliguei tudo e fui descansar para o meu quarto. Estava farto de ver imagens de futebol feminino, na maior parte dos casos sem a mínima qualidade. Não havia mais para ver, mas ainda me faltava uma jogadora para completar as vinte e três que queria levar para Paúle.
Na manhã seguinte… Bom, quando acordei a manhã já terminara e o Sol estava no seu ponto mais alto. O dia estava alegre, apesar de não estar quente e soprar um vento por vezes desagradável. Eu dormira muitas horas, mas ainda me sentia cansado com a noitada a ver DVDs. Por isso optei por não ir à Federação, aproveitando o dia sem chuva para ir correr um pouco ao Estádio 1º de Maio, ao fim da tarde.
A minha corrida começou logo à porta do prédio, num ritmo lento, em direcção ao complexo desportivo. Praticamente, nem dei por percorrer o percurso até lá, pois levava a mente ocupada com a convocatória para o estágio.
Passei os portões e só parei para comprar o bilhete de entrada, obrigatório para todos os que não são sócios… Precisava de mais uma jogadora para o estágio, mas de tudo o que tinha visto, qualquer uma que escolhesse seria apenas para fazer número, pois não demonstravam qualidade para a minha equipa.
Enquanto corria à volta do estádio central, reparei que decorria um jogo de futebol no relvado. Não me despertou muita atenção, pois não passavam de vinte e dois amadores atrás de uma bola em mais um qualquer jogo de empresas. No entanto, como mais de metade do meu percurso passava junto ao topo das bancadas, não podia evitar olhar para o campo de jogo. E após duas ou três voltas, surpreendi-me ao ver que um dos jogadores era uma mulher.
Logo nesse instante, ainda mais surpreendido fiquei quando a vi dominar a bola como uma profissional. Parei dez metros mais à frente e permaneci junto à rede a observar.
Fisicamente, ela não era muito forte, evitando choques de onde sairia sempre a perder. Tinha o cabelo curto e uma magreza que olhares menos atentos a confundiriam com um homem. Porém, era veloz e sabia correr com a bola nos pés.
A minha primeira ideia foi descer até ao relvado e tentar saber o seu nome e em que equipa ela estaria filiada para a convocar para o estágio. Caminhei até à bancada central, entrei pelo topo e desci as escadarias que dividiam os dois lados da bancada. Tentei identificar qual do grupo de suplentes pertencia à equipa dela.
Um dos indivíduos de camisola amarela como a dela estava encostado ao muro frontal à bancada.
─ Joga muito bem! ─ exclamei perto dele.
O rapaz olhou para mim, algo surpreso, não percebendo muito bem o que eu dissera.
─ Como é que se chama? ─ perguntei, apontando para a rapariga em campo.
─ Quem? A Vanda? ─ interrogou ele.
Assenti com a cabeça.
─ Em que clube é que ela joga? ─ indaguei.
─ Clube? ─ tornou a interrogar, arregalando os olhos. Seguidamente, apontou para o relvado. ─ Num destes dois, dependendo de como nos dividimos.
─ Ela não é filiada?
─ Fili… quê?
─ Não joga numa equipa federada? Numa equipa de futebol feminino?
─ Não!
Por instantes não soube bem o que dizer, pois custava a acreditar que ela não jogasse regularmente numa competição.
─ Será que posso falar com ela?
O indivíduo encolheu os ombros como se não tivesse nada com o assunto.
─ Será que poderia dizer-lhe que gostava de falar com ela? Poderia chamá-la?
─ Agora está a jogar.
─ Eu sei. ─ retorqui enfadado com a falta de entendimento dele. ─ Poderia dizer-lhe que queria falar com ela… No fim do jogo?
Não proferiu qualquer palavra em resposta ao que eu dissera, optando por dar um grito para o relvado, na direcção de um outro jogador. Não insisti mais até ao final do jogo, permanecendo junto ao muro a observar o comportamento dela em campo. Notei-lhe diversas lacunas tácticas, mas sabia jogar futebol e era melhor que muitas das que vira nos DVDs na noite anterior.
Aguardei que o jogo terminasse, o que felizmente aconteceu cerca de vinte minutos depois, pois o céu cinzento adensava-se e ameaçava desabar numa forte chuvada.
Mal se ouviu o apito do árbitro, o tipo com quem falara afastou-se do muro onde eu estava. Desconfiei que já não se lembrasse do que lhe pedira, por isso, gritei-lhe:
─ Hei!!! ─ Ele voltou-se para trás, franzindo o rosto. ─ Não se esqueça de chamá-la.
A princípio julguei que me fosse ignorar, mas passados poucos segundos, ele berrou para o aglomerado de jogadores que se cumprimentava no relvado:
─ Vanda! Está ali um gajo que quer falar contigo.
Completamente incorrecto e mal-educado, pensei para mim. A rapariga terminou os cumprimentos e caminhou na minha direcção, não sem antes passar pelo indivíduo e trocar algumas palavras que não percebi. Deveria estar a questioná-lo sobre quem eu era, pois vi-o encolher os ombros enquanto ela olhava para mim. Vanda prosseguiu o seu trajecto até parar a um metro de mim.
─ Vanda? O meu nome é Ivan Pedro. ─ apresentei-me, estendendo-lhe a mão. ─ Sou treinador da equipa de futebol feminina de Portugal. ─ Vanda apertou-me a mão e franziu o rosto, revelando-se confusa. ─ Calculo que não faça a mínima ideia do que pretendo.
─ Conclusão óbvia! ─ exclamou, mantendo uma postura defensiva e observadora.
─ A Vanda joga muito bem. ─ disse eu, sorrindo-lhe. ─ Tem bom toque…
─ Desculpe lá. ─ interrompeu. ─ Pode dizer o que deseja, eu estou com alguma pressa.
Fiquei sentido por ela não ligar importância aos meus elogios. No entanto, ultrapassei isso e prossegui sem perder tempo:
─ Gostava que participasse no estágio da Selecção.
─ Selecção? Que Selecção?
─ A de Portugal! ─ afirmei, quase ofendido com a pergunta. ─ A equipa feminina na qual sou treinador.
─ Você é treinador da Selecção? ─ interrogou com toda a estranheza. ─ Nunca ouvi falar de si.
─ É natural. ─ confirmei, voltando a sorrir. ─ O futebol feminino não é tão mediático quanto o masculino. Mas garanto-lhe que sou o Seleccionador Nacional da equipa feminina.
─ E em que lhe posso ser útil? ─ questionou, não escondendo o desinteresse pelo assunto.
─ Como lhe disse anteriormente, gostava que participasse no estágio da equipa nacional.
Vanda franziu o rosto com enorme desconfiança e disse:
─ Isto parece-me tudo muito estranho.
─ Acredito que sim. ─ confirmei. ─ E compreendo perfeitamente toda a sua desconfiança. Eu também a teria no seu lugar. Porém, o importante é saber se estaria interessada nessa possibilidade.
─ Porquê eu? ─ Ela não conseguia evitar as questões. ─ Eu nem sequer sou profissional.
─ Nenhuma é, infelizmente.
─ Mas eu jogo por brincadeira, não jogo em nenhum clube, nem sou atleta federada. Deve haver muitas raparigas convocáveis.
─ Há muita quantidade, mas pouca qualidade.
─ Hum… Não sei, isso cheira-me a esturro.
Novamente, tornei a sorrir, procurando apaziguar as suas desconfianças, mas sem sucesso. Acabei por sugerir:
─ Se lhe interessar, telefone para a Federação Portuguesa de Futebol e confirme a minha identidade. Ou então, vá até lá.
Durante uns momentos, Vanda ficou a observar-me sem proferir qualquer palavra. Acabou por dizer:
─ Caso esteja interessada, quando seria isso?
Estava interessada, pensei, senão não quereria saber mais.
─ Dentro de alguns dias e dura cerca de um mês. ─ Observei a sua reacção. ─ Em relação ao emprego…
─ Não tenho emprego. ─ cortou secamente. ─ Trabalho por conta própria. ─ Abanou negativamente a cabeça. ─ É demasiado tempo para mim sem trabalhar, ou seja sem rendimento.
─ A Federação ajuda nesse aspecto. ─ expliquei. ─ Vanda! Pense na minha proposta e depois ligue para a FPF e esclareça as suas dúvidas. Se quiser fazer parte do projecto, eles dão-lhe o meu contacto.
Apertei-lhe a mão em despedida e regressei à minha corrida. Se ela aceitasse e nenhuma das outras me surpreendesse com uma recusa, eu tinha o meu plantel completo para o estágio.