AS MAGRIÇAS · Capítulo 24

Capítulo XXIV

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Desde que iniciara o estágio, só permanecia em Paúle para os treinos. O trabalho, fosse no ginásio em Tábua ou no complexo desportivo em Paúle, ocupava-me a manhã e a tarde. Porém, a noite deixava-me livre para descansar. Por vezes estudava as minhas tácticas, os planos de treino e as informações que tinha das nossas adversárias. No meu email tinha algumas mensagens de Márcia a querer saber de mim, respondi à terceira dizendo que estava bem, apenas demasiado ocupado para aparecer online para conversar.
Augusto convidara-me várias vezes para passar pelo café da mãe para conversarmos um pouco. No entanto, não queria estar em Paúle mais que o tempo necessário, pois não desejava cruzar-me com a minha irmã. Recusava sempre sem lhe dar a razão que sei que ele sabia.
Na véspera do jogo para o qual desafiara o G. D. Paúle na pessoa do irritante Barnabé, Augusto apareceu no hotel. Uma noite de Sexta bem fria, após o jantar e o recolher das jogadoras aos quartos, eu fiquei pelo bar. Tomei um capuccino e liguei para casa para falar com Susana e Ivana. A conversa era quase sempre a mesma de todos os dias e servia para atenuar a saudade. Não havia muita gente por ali e o cantinho que escolhera no salão era suficientemente tranquilo para uma conversa telefónica.
Augusto ligara-me ao fim da tarde, logo que tomou conhecimento da disputa entre mim e Barnabé. Nem queria acreditar que era verdade e que iria defrontar as minhas jogadoras. Homens contra mulheres, disse-me por entre gargalhadas, como se fosse ridículo. Talvez fosse… Convidou-me novamente para ir ao café e eu, de novo, recusei. Sem aceitar desculpas, avisou-me que passaria pelo hotel nessa noite.
Sendo assim, esperei-o no bar.
Fiquei a olhar para o interior tranquilo, rodeado de uma decoração semi-rústica. Sem conseguir evitar, recordei as poucas vezes que me encontrei ali com Raquel, na primeira época ao serviço do G. D. Paúle. Não era sítio que ela gostasse de frequentar, mas como na altura estava interessada em mim, acho que até ao café do clube ela iria.
As minhas recordações foram interrompidas pela entrada de Salomão no bar. O seu olhar revelou a surpresa por me encontrar ali, mas rapidamente disfarçou com um aceno simpático e um sorriso. Eu retribuí. Notei que havia uma certa familiaridade entre ele e o empregado do bar, o qual lhe serviu de imediato um whisky. Salomão ficou sentado de costas para mim junto ao balcão, enquanto eu observava do fundo do salão.
Poucos minutos passados, Augusto apareceu, cumprimentando todas as pessoas por quem passava, funcionários do hotel que ele conhecia bem. O olhar perdido procurou-me pelo amplo espaço e encontrou-me quando lhe acenei.
─ Não há quem te veja por Paúle. ─ disse ele, abraçando-me.
─ Os treinos ocupam-me o tempo todo.
─ Tretas. ─ protestou. ─ Ambos sabemos que evitas qualquer possibilidade de te cruzares com a Manuela.
─ Talvez… Como está ela? ─ inquiri, levantando o braço para chamar o funcionário. ─ Que bebes?
─ Um licor Beirão. ─ respondeu, sentando-se. ─ A tua irmã está bem. Tu sabes como ela é, mesmo mal não diz a ninguém. Para mim, ela sofre com este desentendimento entre vós, mas nem quer que se fale do assunto.
Eu voltei a sentar-me no momento em que o empregado chegou junto de nós.
─ Um licor Beirão e um Porto. ─ pedi. Olhei para Augusto. ─ A Manuela tem um feitio lixado, não admite que está errada.
─ O vosso desentendimento foi sério. ─ lembrou o meu cunhado. ─ Ela diz que só volta a falar contigo se lhe pedires desculpa.
─ Eu? ─ questionei num tom de quem ouvia a coisa mais absurda. ─ Depois do que ela me disse? Tu bem ouviste as ofensas dela.
─ Sim… Mas um de vocês tem de dar o braço a torcer.
─ Vai ter de ser ela.
─ Dois casmurros. ─ ripostou Augusto. ─ São dois casmurros a portar-se como crianças amuadas. Pelo menos podiam fazê-lo pelos vossos pais. Já imaginaste o que sofrem por ver os filhos de relações cortadas?
─ Eu sei. ─ concordei, bebendo um golo de Porto. ─ Mas… Como está a Cibele?
─ Num colégio em Coimbra. ─ informou, olhando-me de modo desaprovador por estar a mudar de assunto. ─ A tua irmã quis colocá-la num colégio interno com vigilância vinte e quatro horas por dia. Continua com a mania que a Lívia vai atrás da tua sobrinha.
─ Ela tem aparecido por cá?
─ A fufa? Não! Desde aquela altura desapareceu sem deixar rasto. Se aparecesse por cá, a engenheira e a tua irmã metiam toda a gente atrás dela.
─ A Cibele foi um brinquedo para essa gaja.
Augusto assentiu com a cabeça, enquanto bebia o seu licor.
Voltei a olhar para o balcão, Salomão ia no segundo copo e conversava com o homem que o servia.
─ Que história é essa de as tuas miúdas jogarem contra nós amanhã?
─ Não digas as “minhas miúdas”, Augusto. ─ corrigi, meio divertido. ─ Faz-me parecer um chulo.
─ Não disse isso…
─ Eu sei, estou a brincar contigo. ─ esclareci, bebendo mais um pouco de vinho. ─ A culpa é daquele palhaço do teu treinador adjunto. Não sei como o Freitas o atura.
─ Da mesma forma que todos nós. Não temos outro remédio.
─ Quando falei com o Freitas, pareceu-me abatido. ─ relatei a Augusto que me olhou com maior interesse. ─ Falou-me na falta de ambição, que queria lutar por mais vitórias…
─ O Freitas? ─ interrogou incrédulo. ─ Se não há ambição, a culpa é dele, ele é o treinador, é ele que faz as tácticas.
─ Será? ─ questionei pouco convencido. ─ Desde que fui treinado por ele que sentia que era o “Bagnabé” que dava leis. ─ Augusto sorriu com a minha imitação da pronuncia de Barnabé. Depois, encolheu os ombros, ficando na dúvida. ─ Acho que o vosso adjunto movimenta-se na direcção contrária aos interesses da equipa.
─ Não sei…
Por alguns momentos, ficámos em silêncio, o qual foi quebrado pelo meu cunhado:
─ E a Susana? Como está ela? E a minha sobrinha?
─ Estão bem. Com tantas saudades quanto eu.
─ Está ser difícil, não é, amigo? ─ Franzi o rosto em resposta. Qualquer um perceberia a evidência do sofrimento que é estar separado de quem se ama. ─ E tem valido a pena?
─ Como assim?
─ Tu sabes. Nunca escondeste que este não é o teu ideal de trabalho no futebol. E as tuas jogadoras têm muito que treinar ainda… Desculpa, não quero estar a desmoralizar.
─ Não estás, Augusto. Até certo ponto tens razão, mas não me posso queixar. Afinal, eles deram-me as condições que pedi. Agora resta-me ganhar os dois próximos jogos.
─ E se não…
─ Demito-me! ─ respondi, adivinhando a pergunta.
─ A sério?
Confirmei, abanando a cabeça. Augusto ficou sem saber o que dizer.
Uma gargalhada ecoou pelo salão. Salomão ria de algo que conversava com o empregado de balcão. Reparei que já ia no quarto copo.
─ Aquele não é da tua equipa técnica? ─ indagou Augusto.
─ É o Salomão, o massagista.
─ Bebe bem, ele…
─ Estou a ver que sim. ─ constatei com desagrado.
Augusto olhou para o relógio e, puxando da carteira, disse:
─ Já é tarde, tenho de ir.
─ Deixa, eu pago!
─ Não, nada disso.
─ Cala-te lá, Augusto, esta é por minha conta.
O meu cunhado sorriu e agradeceu, desejando:
─ Boa sorte para amanhã.
─ Vais jogar?
─ Não faço ideia. Nem o Freitas, nem o anão falaram nisso.
Abraçámo-nos em despedida e ele deixou o hotel. Eu subi para o meu quarto, mas não sem antes passar por Salomão e recordar-lhe que havia treino na manhã seguinte.
Quando entrei no quarto e acendi a luz, a minha primeira visão foram os papéis dos apontamentos sobre o jogo do dia seguinte. Estivera a trocar ideias com Laurinda sobre isso, apesar de ela não esconder que era contra a realização desse jogo. Na verdade, era uma casmurrice minha e podia arriscar-me a perder alguma jogadora por lesão para os jogos oficiais. A minha adjunta sugerira a colocação de uma segunda linha para jogar, poupando as prováveis titulares. Contudo, isso significava maior probabilidade de perder o jogo.
Eu ainda não tomara uma decisão e optei por ir para o computador, pois não tinha sono nenhum. Preferi navegar um pouco pela informação da Internet que andar a dar voltas na cama com insónias. Abri o email e vi que tinha uma mensagem nova de Márcia a relatar que estava bem, que tinha saudades de conversar comigo e a perguntar quando estaria online. Carreguei em “responder”, mas antes de escrever uma letra que fosse, abri uma nova janela e fui até ao chat. Ela estava online.
“Olá!”, escrevi.
“Olá! Que saudades… Já não te via por aqui desde… sei lá”, escreveu ela em três linhas.
“Muito trabalho”, expliquei.
“Olha! Conheces o MSN?”
“O que é isso?”, interroguei sem saber do que ela falava.
“Espera, vou mandar-te um link.”
Passados poucos segundos, apareceu na mensagem que ela me enviou o endereço de uma página de internet. Era o sítio virtual com a informação do MSN, um programa de conversação online para instalar no computador.
Márcia escreveu seguidamente “Instala no teu PC”.
Pedi-lhe uns minutos e li a explicação de como fazer a instalação. Segui todos os passos para um processo bem-sucedido e instalei o programa no meu computador. Não havia dúvidas de que o sistema era muito melhor que aquelas salas de chat de browser. Claro que isso só constatei quando utilizei o programa.
“E agora? Já instalei.”
“Clica em adicionar contacto e coloca o meu email.”
Eu assim fiz. Após escrever o endereço dela, cliquei no botão com as letras “Enviar Convite”. Dois segundos passados, apareceu um aviso com a indicação “Márcia está Online”. E antes que eu tivesse reacção, uma janela abriu-se no computador e li “Olá novamente” com um smile. A janela tinha um espaço grande para o desenvolvimento das mensagens e dois quadrados do lado esquerdo, um em cima e outro em baixo. O inferior tinha o boneco do programa, pois eu não tinha foto definida. Porém, o de cima, para minha estupefacção, tinha a foto de rosto de uma mulher sensual com cabelos louros e olhos verdes.
“És tu, na foto?”, inquiri, ainda a recuperar do choque.
“Sim, porquê?”
“Curiosidade”, justifiquei a engolir em seco. Com que então, gorda de toga e óculos com lentes semelhantes ao fundo das garrafas. Por esta não esperavas, Ivan Pedro, disse para mim.
“Tens de colocar uma também, para eu te conhecer.”
“Não tenho nenhuma aqui.”, respondi com receio de me dar a conhecer, pois poderia ser facilmente reconhecido.
“Prometes que vais arranjar?”
Não tinha vontade de o fazer, mas ao olhar para foto não consegui contrariá-la e acabei por concordar em encontrar uma foto para lá pôr.
“Sou muito diferente do que imaginavas?”
“Um bocadinho.”, disfarcei, sentindo que repentinamente Márcia deixara de ser um ser vago da net com quem conversava, passando a ser uma bela e atraente figura que não me saía da cabeça.
“Estás na Suíça?”
“Não. Estou em Portugal.”
“Pena.”
“Porquê?”
“Eu estou.”, informou sem que eu evitasse a surpresa. “Vim a uma reunião com os meus sócios. Pensei que pudéssemos tomar um café por aqui.”
“É pena. Teria todo o gosto.”
Tinha todo o gosto, naquele momento depois de ver a foto dela. Antes, a ideia de a conhecer pessoalmente era tão interessante como ler as instruções de montagem de um móvel. E ela nunca se mostrara muito interessada ou pelo menos fora o que eu pensara.
Contudo, apesar de a foto me mostrar um rosto sedutor, tudo não passava de uma fantasia momentânea. Eu era um homem casado e jamais trairia a minha mulher.
“Talvez quando voltar?”
Li a pergunta ainda envolto em pensamentos.
“Que achas?”
Meio zonzo, escrevi algo como:
“Sim, depois combinamos.”
Tinha perfeita noção do risco que seria fazê-lo. Não, estava a ser parvo, era perfeitamente capaz de me encontrar com uma mulher bonita e ter com ela uma boa amizade. Boa era ela, se o corpo estivesse ao nível do rosto. A minha consciência debatia-se e penalizava-se pelos pensamentos.
Para tentar distrair-me, perguntei-lhe o que estava a fazer na Suíça. Márcia relatou-me que a sua firma de advogados fora contactada por uma multinacional suíça que pretendia abrir filial em Portugal e procurava neles os representantes legais para tratar de toda a burocracia portuguesa. Já se encontrava lá desde meio dessa semana e iria regressar a Portugal no Domingo seguinte.
Deviam ter passado algumas semanas, desde que falara com ela na Internet. Nesse espaço de tempo, segundo as suas mensagens, descobrira o MSN e os sites de redes sociais. Sempre soubera que existiam, mas uma amiga instigara-a a experimentar. Falou do Facebook e do Hi5 que para mim eram completamente desconhecidos, desafiando-me a registar-me e a criar um perfil. A ideia não me entusiasmou até ela dizer:
“Depois podes adicionar-me como amiga. Tenho lá muitas fotos.”
Não estava minimamente preparado para criar perfis em sites de redes sociais, mas a curiosidade de ver fotos dela fervilhava dentro de mim.
“E não posso ver agora?”, indaguei.
Márcia respondeu que sim e nas duas mensagens seguintes enviou os endereços das páginas com os seus perfis.
Mas que fera, pensei, quando vi as fotos de Márcia de corpo inteiro. Para arreliar mais a excitação, continha diversas fotos suas em biquíni, nas suas férias desse ano na Tailândia. Não sabia o que dizer, mas não tinha dúvidas do que me apetecia fazer com ela. Nunca imaginara que Márcia fosse uma mulher tão bonita, tão sensual, tão sedutora… Possuía uma mistura de mistério desafiando à descoberta com um ar sério e impenetrável. Toda ela era curvas e bem perigosas… para mim, um homem casado. Todas as fotos a mostravam loura e bronzeada, sempre com um biquíni diferente mas todos bem reduzidos que pareciam debater-se ingloriamente para segurar os seus seios. Não, não eram de silicone nem demasiado grandes, eram… perfeitos. Cada centímetro de pele parecia cuidadosamente tratado sem um centímetro fora do sítio, barriga lisa, rabo curvilíneo, pernas longas bem delineadas…
Reparei no botão a piscar no rodapé do ecrã. Era a sua janela de mensagens. Cliquei e vi que escrevera três vezes “estás aí?”
“Desculpa, perdi-me nas tuas fotos”, foi o que me lembrei de responder.
“Gostaste do que viste?”
“Sim”
“Ainda bem”, congratulou-se juntando mais um smile sorridente.
E logo de seguida, questionou como estava a correr o meu trabalho. Mantive a história da equipa desconhecida e fiz um pequeno relato dos acontecimentos.
“E estás a gostar?”
Não sabia bem o que responder, por isso escrevi:
“Para já, não está a ser mau de todo.”
“Espero que tenhas muito sucesso, amigo.”
“Obrigado.”
“Considero-te uma óptima pessoa. Mereces ter sucesso.”
“Tu também és boa”. Merda, fugiram-me os dedos para a verdade, condenei-me em pensamento. Tentei logo emendar, escrevendo “Boa pessoa.”
“LOL”, foi a resposta dela. Contudo, a mensagem seguinte foi “Eu sei, tenho espelhos em casa.”
“Não me referia a isso.”
“Mas pensaste,” digitou, finalizando com novo sorriso.
Não consegui escrever nada. Senti-me um puto com as hormonas ao rubro a ser descoberto e envergonhado. Por isso, foi ela quem escreveu a mensagem seguinte.
“Não tem mal nenhum, amigo. Por sermos amigos, não quer dizer que não possamos achar-nos bonitos. Só tenho pena de não poder fazer comentários iguais sobre ti. Mas espero que resolvas isso em breve.”
“Sim, já te prometi, vou arranjar fotos minhas.”
E naquele instante já o dizia mesmo com vontade. Já não interessava se ela me pudesse identificar com a Selecção, quando as visse. Sem perceber, tinha a tesão a comandar-me, em vez da razão. Queria encontrar as minhas melhores fotos e mostrar-lhe. E queria que ela me achasse tão apelativo quanto eu a achara a ela.
Fim do capítulo

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