Capítulo XXV
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Não subi ao relvado durante o aquecimento que antecedeu o jogo com o Paúle. O dia não trouxera chuva, mas estava um frio de gelar os ossos. Contudo, isso não impediu a maioria dos paulenses de virem assistir ao jogo. O estádio estava cheio.
Nessa manhã, deixei as jogadoras a cargo do Prof. Nogueira que se encarregou de orientar o treino físico no ginásio do hotel. Eu reuni-me com Laurinda e escutei a sua opinião sobre o onze titular para o jogo. Claro que ela não alterara a sua ideia do absurdo que era fazer aquele jogo, correndo o risco de perder alguma jogadora numa lesão grave.
Ninguém ficou comigo no balneário. Senti a cabeça a latejar, pois mal dormira nessa noite e não conseguia tirar Márcia da cabeça. Preferi ficar sozinho a reflectir no jogo, na equipa, em Márcia, em Susana… Que estava eu a fazer, ao pensar daquela forma em Márcia?
Os meus pensamentos foram interrompidos pelo regresso das jogadoras. Lá fora, era audível o barulho dos espectadores que pela primeira vez veriam um jogo entre homens e mulheres.
As jogadoras envergavam o equipamento de treino, camisola e calções verdes com vivos vermelhos, e era com ele que iriam jogar. Não tinham nomes nem números. Seria apenas um treino mais competitivo. Laurinda frisou-me com firmeza o seu desacordo pela minha escolha do onze titular, mas apoiou-me quando o revelei às eleitas. Iria pela primeira vez testar o meu sistema de jogo contra outra equipa, por isso fiz alinhar as potenciais titulares que defrontariam a Holanda: Tita, Cati, Lila, Tuxa, Eva, Carly, Mara, Ariela, Fabiana, Mila e Patrícia Raquel.
Antes de deixarmos o balneário, olhei para todas e disse:
─ Todas vocês sabem aquilo que pretendo. Todas já têm noção das tácticas que quero em campo. Estes treinos têm servido para assimilarem isso mesmo. Já conversámos hoje quando aqui chegámos, por isso… ─ Fiz uma pausa, percebendo que elas me escutavam com atenção. ─ O futebol é para divertir quem joga e quem vê. Não tenho nada a adicionar ao que já disse. Resta-me dizer que aproveitem cada minuto e façam valer a pena a quem assiste.
Logo que terminei, as jogadoras aplaudiram e gritaram incentivos entre si.
Tita encabeçou o grupo que iniciou a caminhada pelo corredor até ao relvado. As suplentes seguiram atrás e a equipa técnica fechou o conjunto. Eu deixei-me ficar para último.
Quando elas entraram no relvado receberam aplausos do público que as saudou com cortesia. Contudo, para minha surpresa, quando fui eu a aparecer na saída do corredor, o público brindou-me com uma ruidosa ovação e gritaram o meu nome em todo o trajecto até ao banco de suplentes. Eu retribuí, batendo palmas em agradecimento a todo aquele povo que nunca me esquecera. Não pude evitar de cumprimentar algumas pessoas nas bancadas que se debruçaram para me apertar a mão e dizer de viva voz o quanto eu era especial para Paúle. Não consigo descrever a emoção que senti ao ver todas aquelas pessoas de pé a ovacionarem-me. Até os jogadores do G. D. Paúle o fizeram e Freitas não se coibiu de me abraçar quando passei por ele. Barnabé permaneceu sentado, ignorando-me.
Do relvado, Augusto, Joselino, Reis, Albertino e Ramalho, meus ex-colegas do tempo em que ali jogava, vieram a correr para me cumprimentar e aumentar a ênfase do momento.
Agradeci diversas vezes todo aquele carinho e só passados alguns minutos, o público se silenciou.
Tita e Ramalho aproximaram-se na linha central, após o chamamento do árbitro, um indivíduo da Associação Distrital de Futebol de Coimbra que fora convidado para o efeito. Moeda ao ar e escolha de bola e campo.
Freitas e eu combinámos previamente que cada metade do jogo só tivesse trinta minutos, uma vez que o Paúle jogaria para o campeonato no dia seguinte.
O jogo começou numa toada calma. Apesar de se notarem alguns efeitos da preparação física dos últimos dias, elas mantinham as dificuldades perante os jogadores do Paúle que eram mais fortes e corriam mais.
Sofremos ataques constantes e raramente conseguíamos chegar ao meio-campo adversário. Até o vento soprava contra nós.
As três defesas centrais atrapalhavam-se algumas vezes nas suas posições, pois ainda não tinham treinado o suficiente para se posicionarem bem entre elas. Quem mais sofria era a Tuxa que tinha de ouvir constantes reclamações das outras duas. Porém, Tita em vez de barafustar com quem reclamava com a sua colega de clube, optava por uma postura conciliadora, denotando que assimilara o conceito de espírito de equipa que eu tanto apregoava.
O meio-campo funcionava ligeiramente melhor, mesmo que uma vez ou outra também se atrapalhassem e falhassem algumas marcações. Tanto Eva como Ariela revelavam falta de preparação para correr toda uma ala do campo e eram constantemente batidas pelos adversários.
Aos dez minutos, o Paúle marcou o primeiro golo e no minuto seguinte marcou o segundo. O jogo ficava tão negro como o céu que nos cobria.
Sempre que Fabiana tocava na bola via-se cercada por dois ou três jogadores. Por isso, a bola nunca chegava a Mila ou a Patrícia Raquel. Estas, para tocarem na bola, tinham que recuar quase ao seu meio-campo.
─ Talvez fosse melhor retirar uma atacante e colocar mais uma na defesa. ─ sugeriu Laurinda.
Eu abanei negativamente a cabeça.
Tita era uma guarda-redes esforçada, mas ficou muito aquém nas jogadas que deram o terceiro e o quarto golo ao Paúle.
Em diversas jogadas, notei que alguns jogadores aproveitavam para agarrar as adversárias, fazendo faltas, mas com o intuito de as apalpar. Reparei nos protestos de Ariela, umas das mais visadas pelos dedos adversários, bem como de outras.
O intervalo chegou com quatro a zero a nosso desfavor.
Não houve lugar a regresso aos balneários. Ambos os lados se reuniram juntos dos seus bancos técnicos. Eu incentivei as jogadoras, tentando que não ficassem muito abatidas com o resultado.
Para a segunda parte efectuei algumas alterações. Retirei Tita e dei oportunidade a Paula Rita. Na defesa dei descanso a Lila e coloquei no seu lugar Gisela.
─ Posso ser substituída? ─ perguntou Ariela.
─ Porquê? ─ questionei. ─ Estás lesionada?
─ Não. Mas, estou farta de ser apalpada. ─ desabafou.
Eu assenti com a cabeça e, pedindo-lhes que aguardassem, dirigi-me ao outro banco. Quando falei no sucedido a Freitas, este pediu-me desculpa e disse-me que iria repreender os seus jogadores.
Não sabia se a reprimenda lhes iria pôr fim. Mesmo assim, não substituí Ariela para não dar a noção que a vontade de uma jogadora se poderia sobrepor aos interesses da equipa. Ela não gostou, mas não se manifestou.
A segunda parte começou com a mesma história da primeira. No entanto, a diferença estava na baliza. O Paúle continuava a atacar com força, mesmo com um novo onze em campo, porém Paula Rita brindava-nos com defesas de elite.
Aos quinze minutos da etapa complementar, decidi experimentar uma mudança no sistema. Retirei Tuxa e coloquei em campo Beta. Seguidamente, saiu Eva e entrou Nandinha, passando a ter quatro jogadoras na linha defensiva, duas centrais e duas laterais.
No meio-campo troquei Ariela por Vanda e Mara por Ery, deixando a função defensiva do meio-campo unicamente a Carly.
A última substituição foi a saída de Mila, completamente cansada, para a entrada de Manelinha.
O sistema de quatro defesas, quatro médios e duas avançadas não revelou grandes trunfos, somente uma menor vulnerabilidade aos ataques adversários. Isso não evitou que sofrêssemos mais um golo.
O jogo de treino chegou ao fim com o saldo de cinco golos do G. D. Paúle contra nenhum nosso. Barnabé comemorou como se tivesse ganho a Liga do Campeões.
Freitas veio ao meu encontro, cumprimentar-me e dizer:
─ Isto não significa nada. Não quero dar lições sobre o teu trabalho, mas acho que deves lembrar as tuas jogadoras das diferenças entre um grupo que só agora treina com profissionalismo contra outro que treina e joga regularmente nos últimos anos. É importante que percebam isso. ─ Eu concordei e agradeci o seu conselho. Ele deu-me um forte abraço. ─ Desejo-te toda a sorte nos jogos oficiais.
─ Espero vê-lo lá. ─ convidei.
─ Sim, eu estarei lá a torcer por vocês.
Mais uma vez, o público brindou-me com aplausos, enquanto eu seguia as jogadoras no regresso ao balneário. Todas elas caminhavam vagarosamente de cabeça baixa. Entraram no balneário e espalharam-se pelos seus lugares. Sentadas, umas com a cabeça escondida no apoio das mãos, outras com a cabeça encostada à parede e de olhos fechados… O ambiente era pesado e silencioso. O seu desalento parecia maior que quando foram derrotadas pelas germânicas.
─ Então? ─ questionei, fechado a porta. ─ Não é o fim do mundo.
Nenhuma se pronunciou. Contudo, Laurinda, que as conhecia bem, respondeu por elas:
─ Estão assim por terem perdido.
─ Por termos sido goleadas novamente. ─ corrigiu Tita.
─ Vocês só estão a ver o lado negativo. ─ alertei. ─ Isto foi um treino… Ou melhor, a disputa de dois machos orgulhosos. ─ As minhas palavras apanharam-nas de surpresa, talvez por esperarem alguma reacção zangada como acontecera nos quinze a zero. Já Laurinda espantara-se com a minha súbita confissão. ─ Eu quis enfrentar um “inimigo” antigo e usei-vos como peões nesse embate. Não tinha esse direito. Eles são uma equipa semiprofissional, alguns deles venceram comigo a Taça de Portugal. Mesmo estando na 3ª Divisão, têm um ritmo competitivo muito superior a nós. ─ Fiz uma pequena pausa, sentindo os seus olhares curiosos, espantados e até indignados. ─ Se quiserem ver só os aspectos negativos, sofremos cinco golos, não marcámos nenhum… Podemos ir para casa. ─ Nova pausa, esperando reacções. Não houve. ─ Mas eu prefiro ver para além disso. Vejo os positivos. ─ Maria João abanou a cabeça, dando-me descrédito. Eu ignorei-a. ─ Vi que a vossa condição física está melhor, já perceberam algumas tácticas que vos ensinei e pela primeira vez pareceram uma equipa. Vocês como equipa são como um bloco de pedra que precisa de ser esculpido. E só com trabalho de todos conseguiremos transformar esse bloco numa obra de arte.
─ Você é um filósofo do caraças.
─ Maria João… ─ repreendeu Laurinda.
─ Deixe. ─ pedi, olhando para a capitã da equipa. ─ A Maria João é a capitã, mas é um exemplo muito franco para as suas colegas.
─ Olhe…
─ Cale-se! ─ ordenei, irritado. ─ Eu não me importo de ser questionado nas escolhas ou nas minhas ideias sobre como treinar esta equipa. Mas quem o quiser fazer tem de ter galões para isso. Só ser capitã porque se é a mais velha não lhe dá esse direito. Alguém que tem uma postura tão miserável nos treinos e por isso fica de fora nos jogos, tal como aconteceu hoje, não pode depois vir contestar o trabalho dos outros e vir fazer piadinhas perante atletas que dão tudo em campo para orgulhar a camisola que vestem. E esse orgulho é algo que VOCÊ ESTÁ A ANOS LUZ DE MERECER!
Maria João ficou petrificada a olhar para mim e não conseguiu responder uma sílaba. As restantes mantiveram um silêncio revelador da concordância comigo e da decepção com a postura da sua capitã.
Antes de sair do balneário, olhei para todas e agradeci o empenho mostrado no jogo.
Nessa noite, depois de todas as jogadoras terem recolhido aos respectivos quartos, Laurinda reuniu-se comigo bar do hotel para conversarmos sobre o jogo.
─ Ainda está chateada por eu ter colocado as titulares a jogar? ─ indaguei, sentindo eu próprio essa zanga comigo.
─ Não estou zangada, nem nunca estive. ─ respondeu, olhando para a chávena do café. ─ Achei que talvez não fosse a melhor opção, mas confio no seu trabalho.
Eu sorri, agradado com a sua fé em mim que chegava a ser superior à minha.
─ Estou a pensar colocar as mesmas onze que começaram hoje o jogo, à excepção… ─ Fiz uma pausa para analisar a reacção da minha adjunta. ─ … da Tita. Vou arriscar-me a dar a titularidade à Paula Rita.
A reacção de Laurinda foi nula. Equacionou por instantes a possibilidade e disse:
─ Não há dúvida de que ela sobressaí tecnicamente em relação à Maria João e à Tita. Mas, como será num jogo oficial?
─ Não sei… Ela tem-se saído bem. ─ argumentei. ─ Sinto que posso confiar-lhe a baliza.
─ Sou obrigada a concordar consigo, Ivan. E confesso que no seu lugar teria a vontade de fazer o mesmo. Mas, duvido que tivesse coragem para o fazer. Bom… É por isso que você é o treinador principal e eu a adjunta. ─ rematou com um sorriso.
─ Por outras palavras, se correr mal é a minha cabeça que rola. ─ retorqui, correspondendo ao sorriso.
─ Esperemos que a Tita o aceite bem.
─ Assim espero. ─ concordei. ─ Caso contrário, será igual. Os interesses da equipa estão acima de tudo.
─ E ficando a Tita e a Maria João fora, quem será a capitã?
─ Pensei na Lila.
Laurinda assentiu com a cabeça, concluindo:
─ É uma decisão acertada, ela tem experiência e carisma. Penso que pode ser uma boa voz de comando para a equipa no eixo da defesa.
A nossa conversa não se prolongou por muito mais tempo, até porque eu tinha agendado com Márcia uma nova conversa online nessa noite. Despedi-me de Laurinda que ainda ficou à conversa com Salomão que, entretanto, chegara ao bar do hotel.
Subi no elevador com a ansiedade a tomar conta de mim. A combinação fora feita por email, antes do jantar, pouco depois de ter estado ao telefone com Susana e com a minha filha. Recriminava-me por me sentir mais ansioso por estes “encontros” na Internet que pelos telefonemas a Susana. Mas, por mais que o sentisse, não conseguia deixar que a razão se sobrepusesse àquele sentimento de desejo por uma desconhecida.
Tal como lhe prometera, criara um perfil nesse sítio virtual tão conhecido que dá pelo nome de Facebook. Uma rede social com milhões de desconhecidos a conhecerem-se e a tornarem-se amigos. Limitei as informações ao máximo e coloquei algumas fotos minhas do tempo em que jogava futebol, aquelas que me pareciam ter um aspecto físico mais apelativo. Por fim, mandei um email a Márcia com o endereço do meu perfil. Assim, quando voltássemos a estar online, já poderia ter a sua opinião sobre mim.
Quando abri o Messenger, Márcia ainda estava offline. Levantei-me da cadeira e caminhei até à janela. Tábua era uma vila sem movimento nocturno, tal como no tempo em que pela primeira vez a observara à noite pela janela do meu quarto de hotel. As luzes da rua e do interior da escola defronte do hotel eram os únicos focos de claridade. O céu estava carregado de nuvens, tal como sucedera à tarde e seria quase certo que a chuva chegaria em breve.
O som de entrada online de Márcia fez-me regressar ao computador. Abri uma nova janela no Messenger e digitei um “olá”.
“Olá amigo, só um minuto!”, surgiu em resposta.
Eu aguardei um pouco, sentindo uma ansiedade cada vez maior. Os segundos de espera pareciam horas…
“Fui buscar qualquer coisa para comer.”, foi a mensagem que se seguiu, “ainda não comi nada desde que cheguei”
“Estás em casa?”
“Sim. E sozinha”, adicionou, juntando um smile matreiro.
“Recebeste o meu email?”
“Claro”, confirmou com novo smile, “E vi o teu perfil. És um amigo todo giro”
Respondo com um smile de “envergonhado”, como se tivesse ficado assim com a sua opinião. Logo de seguida, teclei:
“Estava com saudades tuas, amiga”
Márcia ripostou com mais um smile.
“Já não estava habituado a passar tanto tempo sem conversarmos”. Desta feita, a resposta veio num smile envergonhado como o que lhe enviara. “É verdade, gosto muito de conversar contigo”. E recriminei-me por gostar mais, desde que vira as suas fotos.
“Hoje estou mesmo a precisar de conversar um pouco. Tive um dia estafante. E quando cheguei a casa, enfim…”
“Então?”, questionei com curiosidade.
“Esperava ter o meu marido aqui.”
“Aconteceu alguma coisa?”
“O habitual. Teve de se ausentar para uma reunião no estrangeiro. Ligou-me à tarde, a dizer que iria partir e só volta daqui a uns dias.”
“Sentes-te sozinha?”. Pergunta parva.
“Queria que ele estivesse comigo”, confidenciou. “Ele tem estado ausente. E eu… Sinto falta… Tu sabes…”
Compreendi ao que ela se referia, mas pareceu-me ser um abuso de confiança dizê-lo. Percebi que ela falava de sexo, contudo optei pela hipótese ingénua de que ela falava de…
“Falta de companhia”
“Não! Sexo! Falo de sexo”, escreveu com toda a frontalidade.
“Percebo”, teclei um pouco atónito. “É perfeitamente natural que sintas isso.”
“Hoje estava a contar com isso”, prosseguiu sem complexos de partilhar um assunto tão íntimo com um desconhecido. “Fiquei com uns nervos”
“Acredito”
“Tive vontade de saltar para cima do primeiro gajo que me aparecesse à frente”, desabafou, fazendo-me desejar ser essa pessoa. Que raio, que ideias eram aquelas que me iam na cabeça? Estava a esquecer-me que era um homem casado?
Márcia continuou:
“Estou com os olhos inchados de tanto chorar”
“Não chores, amiga.”, digitei eu procurando confortá-la. “Não fiques triste, senão também fico.”, foi uma frase bonita para se reconfortar uma mulher linda como ela.
Na verdade, eu estava a entrar num jogo perigoso. Um perigo que parece sempre distante quando se está com a protecção de um ecrã, de um teclado e de uma distância abstracta. Resumindo, estava a brincar com o fogo.
“Sinto raiva de mim mesma. Já devia ter posto fim a este casamento. Isto só existe no papel.”
“Não sintas raiva, ninguém manda no coração”, ripostei como bom ombro amigo que me propusera ser.
“Pois mas na cabeça mando!”, redarguiu, quase fazendo transparecer a irritação que sentia nas palavras que enviava.
“Mas por vezes o coração fala mais alto”
Como diria a Maria João, eu estava um filósofo do caraças. Talvez o estivesse a fazer inconscientemente, dar as respostas que ela queria ouvir. Percebia que ela procurava alguém que escutasse os seus desabafos sem o ónus de ter de confrontar esse alguém na realidade.
“A vida é assim mesmo, deixa lá”, concluiu. E depois, antes de um enorme “LOL”, escreveu “Vou arranjar um amante!”
Antes de ter lido a última frase, teclei:
“Não deixo, porque és minha amiga.”
“Não deixas?”, interrogou ela com vários pontos de interrogação. “Porque é que não me deixas arranjar um amante?”
Só nesse momento tomei consciência da frase do amante e a implicações que a minha resposta tivera, fora do contexto. Apressei-me a explicar:
“Referia-me ao deixa lá que escreveste. Nem tinha visto o amante… És livre de fazer o que quiseres”. E adicionei novo smile.
“Mas não achas correcto”, tentou adivinhar.
Não sabia muito bem o que responder, porém tive a inspiração de mais uma frase bonita:
“Eu não julgo as pessoas. Sinto é que estás triste. E o que te faz ficar triste, também me deixa triste”.
“Tenho dias bons e dias maus”.
“Podes contar comigo em ambos. Tens aqui um amigo para sempre”.
Por instantes, houve uma pausa nas mensagens. Penso que Márcia estaria a pensar o que deveria escrever. Por fim, surgiu no ecrã a seguinte:
“Obrigada! É sempre bom saber que podemos contar com boas pessoas.”
Percebendo o elogio, escrevi de imediato:
“Tu também és uma excelente pessoa, o privilégio é meu”.
Márcia contrapôs no segundo seguinte com um “é nosso” e juntou um sorridente smile.
A troca de galhardetes dava-me a oportunidade para mais uma frase de charme, por isso o que enviei foi “quero esse sorriso que mandaste, no teu rosto”.
Novo smile.
A conversa parecia ter chegado a um impasse. De súbito, parecia que tínhamos perdido tema para assunto. A pausa foi quebrada por Márcia.
“Então como foi teu dia?”
“Tive jogo.”
“Ganharam?”
“Perdemos.”
Recebi um smile triste da sua parte.
“Não te preocupes, nada a que não esteja habituado”.
“Pena não estares mais perto. Desafiavas-me para um copo e íamos afogar as mágoas do nosso dia.”
“Parece-me bem”, contrapus sem realmente o pensar. Se ela estivesse mais perto, eu não a desafiaria para sair, pois era um homem casado e não seria correcto fazê-lo. Contudo, só a ideia de poder estar no mesmo espaço físico que ela deixou-me excitado.
A mensagem que Márcia enviou a seguir foi um balde de água fria.
“Hoje vou dormir mais cedo. Vou tomar um calmante e aterrar na cama.”
“Oh… Tudo bem, eu compreendo.”
“Preciso de descansar.”, justificou.
“Gostava de poder fazer alguma coisa para te animar.”
“Hoje irritei-me muito com tudo isto.”
“Acredito.”
“Se morasses aqui perto podias ficar ao meu lado até eu dormir.”, sugeriu de forma marota e com um smile de língua de fora.
“E ficava com todo o gosto, acredita.”
A minha resposta era uma irresponsabilidade. Sabia que era tudo um jogo, um flirt virtual sem resultados efectivos. Incorrecto era o mínimo que se podia dizer daquilo que eu estava a fazer para com Susana. Um jogo de sedução entre duas pessoas casadas que se escudavam na protecção do mundo virtual da Internet.
Sinceramente, não sei o que me levou a esquecer o bom senso e a continuar com o diálogo naquele sentido. Parecia que tinha encarnado numa personagem e continuava a interpretar o meu papel.
“Dava-te uns beijinhos na testa para ajudar a adormecer.”
A frase era ousada para dizer a alguém que não se conhecia para além de meia dúzia de conversas virtuais. Contudo, volto a referir, a protecção do mundo virtual permite estes riscos. E o prémio tinha a forma de uma bela loura.
Se Márcia não quisesse entrar no jogo, recriminar-me-ia pelo que dissera. Mas, ao invés disso, li:
“Pois, bons amigos é para isso”.
Era inconclusivo. Seria aquela uma forma de me fazer voltar ao meu lugar e travar qualquer que fossem os meus intentos? Ou estaria também ela a avançar, mas jogando pelo seguro. Decidi arriscar, escrevendo:
“Só dava na testa, prometo.”
“Por mim, até poderias dormir aqui comigo, como um irmão.”
Apesar de não ser conclusiva, era uma resposta interessante. Tenho a certeza que tinha noção do que valia como mulher e o que despertava num homem. Mas, mesmo assim, referi na mensagem seguinte:
“Amiga, também não sou de ferro. Podia dormir no sofá.”
Márcia respondeu com novo “LOL” e acrescentou “essa foi boa.”
“Mas antes dava-te um abraço muito apertado e um beijinho confortável para dormires.”
“Não conseguias dormir ao meu lado?”, questionou como se fosse a coisa mais natural do mundo.
“Não sei...”, interroguei-me como se não soubesse, continuando o jogo, “poderia começar a abraçar-te...”
“E então? Somos amigos. Podíamos dormir abraçados.”
“Está bem, mas colocávamos uma almofada no meio, ok?”
Márcia enviou a resposta num smile. De seguida, escreveu que “os amigos até tomam banho juntos”.
“Eu sei.”
“Então?”
“É melhor não arriscar.”
“Andas assim tão carente?”, questionou sem que eu soubesse muito bem se a pergunta era feita de forma séria ou como parte do jogo.
“Como assim?”
“Com falta de.....................”
“Com falta de pontinhos?”, interroguei fazendo-me de desentendido.
“Sexo!!!!!”, ripostou Márcia com enorme frontalidade.
Eu correspondi à frontalidade, enviando um “pode dizer-se que sim...”
“Olha, eu também!”
Era tudo um jogo, dizia eu a mim mesmo, era tudo um jogo e havia que continuar a jogá-lo.
“Ai se estivesses mais perto...”
A minha frase não obteve resposta, pelo que pensei que tinha ido longe demais. Por isso, realinhei o discurso:
“Ainda ficas a pensar que sou tarado.”
“Não pensava nada.”
“Por isso, como não sou de ferro e tu és muito bonita, é melhor eu ficar no sofá.”
Para minha surpresa ou talvez não, Márcia correspondia àquele flirt virtual, elevando a fasquia de intensidade.
“Nada disso. Eu queria que ficasses ao meu lado.”
Não sabia muito bem o que dizer. Resumindo, estava a dizer-lhe que se estivesse deitado ao lado dela quereria ter sexo com ela. E Márcia não se importava. A excitação crescia ainda mais…
“Até seria muito giro”, continuou, “ter um amigo para falar. Tu contavas-me os pontos fracos dos homens e eu os das mulheres.”
“Mas conversar podemos sempre. E espero um dia conhecer-te pessoalmente.”
Eu sentiria mesmo isso? Quereria mesmo conhecê-la pessoalmente? Na verdade, queria! Só que isso seria impossível, a menos que eu quisesse… Não! Isso seria uma traição para Susana. Contudo, o desejo ardente crescia em mim.
Márcia correspondeu ao meu desejo de nos conhecermos pessoalmente, um dia, na mensagem seguinte.
“Seria engraçado, partilhar coisas mais íntimas.”
“Conversar sobre coisas mais íntimas?”, interroguei com a percepção que era isso que ela queria. Mas, a resposta deixou-me completamente perplexo.
“Não! Fazer!”
Fiquei confuso e sem saber o que escrever. Olhava para o ecrã, para as suas mensagens e pensava nas fotos que vira dela. Comecei a imaginar como seria estar com ela, despi-la, acariciá-la, beijá-la, fazer sexo com ela… Sentia uma excitação enorme. Tinha noção que aquilo era tudo errado, não podia estar a avançar daquela forma, sendo eu um homem casado… Mas, subitamente, dei comigo a justificar a minha atitude com a falta de disposição sexual de Susana, as minhas necessidades às quais ela não correspondia. E de um momento para o outro, parecia que o amor dela pouco valia perante a possibilidade de partilhar sexo com uma desconhecida. Eu sabia que era errado. Devia colocar um travão naquela conversa… Só que sabia tão bem, só a ideia de o poder fazer, sabia tão bem aquela excitação, sabia tão bem aquele jogo… Pois, era um jogo e não havia mal em continuar a jogá-lo.
“Então? Que dizes?”
Continuei sem saber o que digitar, tropecei nas teclas e Márcia antecipou-se com nova mensagem:
“Dormir, comer, tomar banho.”
“Parece-me bem”, escrevi por fim. “Mas ao contrário, tomar banho, comer e dormir... tudo juntos.”
“Como assim?”
“Começámos pelo banho, não pelo dormir.”
“A ordem não altera os factores.”
“Eu sei”
Se tudo aquilo era um jogo, o vencedor seria o último a desistir. A excitação e desejo aumentavam a cada mensagem, como forma de ver até onde aguentávamos. E Márcia elevou ainda mais a fasquia:
“Se tu estivesses sozinho, eu podia ir ter contigo e estarmos juntos.”
Eu respondi que seria “interessante”.
Márcia, astuta naqueles diálogos e numa espécie de toca-e-foge, cortou com “como amigos sem sexo”.
A única coisa que me lembrei de escrever foi “havemos de arranjar maneira de passar algum tempo juntos”.
Márcia voltou a acentuar a parte do “sem sexo” enviando a expressiva frase de que “um amigo não come uma amiga, certo?”
Eu mandei-lhe um smile, escrevi que “só os amigos coloridos” e rematei com novo smile.
A sua resposta deixou-me sérias dúvidas das suas reais intenções, escrevendo que “ esses não são amigos leais”.
Eu concordei com o argumento de que a amizade deve ser incondicional.
“Acabam por se envolver sentimentalmente. E depois só dá chatices.”
Temendo que o jogo tivesse ido longe demais e que isso pudesse danificar a nossa recente e virtual amizade, teclei:
“Podes contar com a minha amizade pura, sincera e incondicional.”
A sua astúcia era brutal. Perante esta frase, Márcia retorquiu:
“Então não há problema. Conseguirias dormir comigo toda nua ao teu lado? Eu durmo sempre nua.”
Só de a imaginar nua, senti toda a tesão crescer em mim.
“Eu também só durmo nu.”, partilhei.
“E conseguirias?”
Claro que não, pensei. No entanto, acabei por escrever “temos de experimentar, depois te direi”.
“Não pode ser.”, recusou com falsa sensatez, “Tens de garantir. Eu conseguiria dormir ao teu lado nua.”
“Pois… eu não garanto.”
Márcia enviou um smile triste como se estivesse decepcionada.
“Estou a ser sincero”, acrescentei, “E então se fizeres esse sorrisinho triste, é que não garanto mesmo.”
Márcia respondeu com um smile de língua de fora e escreveu:
“Já vi que se me encostasse a ti, já era…”
“Não comento...”, teclei finalizando com um smile a piscar o olho.
Márcia escreveu “que pena”, parecendo triste por não conseguirmos estar juntos, nus e sem fazer sexo, como se isso fosse muito importante para a nossa amizade. Eu retorqui que ia “tentar” e completei que “tens de concordar que fica difícil os dois nus”.
“Os dois nus e abraçados”, corrigiu.
“Aaaiiiiiiiiiiiiiiii”, enviei à beira de um colapso só de pensar em semelhante cenário.
E Márcia não se ficou por aí, ainda adicionou que “gosto que me abracem por trás”.
“Eu também gosto de abraçar por trás e ficar bem agarradinho.”
Era a minha vez de aumentar o nível de intensidade sexual do diálogo, pelo que continuei:
“Envolver-te com os meus braços. Isto está a ficar quente... Daqui a pouco tenho de ir tomar um duche frio.”
“Huumm…”, escreveu ela.
De novo fiquei intrigado se era uma expressão de interesse ou de interrogação perante as minhas palavras. Estaria eu a ir longe demais? Na verdade, estava, mas não para Márcia. Contudo, voltei a escrever:
“O facto de seres muito bonita e atraente, não impede que eu seja teu amigo sincero. E espero que nunca duvides disso, amiga.”
“Não duvido. E sei que seria complicado dormir ao meu lado, até porque eu iria seduzir-te.”
Nova volta naquele jogo de sedução virtual. Márcia regressara à postura do quero, um novo toque. Será que iria fugir, novamente?
“O quê? Então, como queres que resista?”
“Fá-lo-ia de propósito. Gosto de me sentir desejada.”
“Tu és demais.”, confessei. E ela retribuiu com um smile muito sorridente. Desta vez, ela avançou de forma ousada e não desistiu. Penso que estava decidida a ir até ao fim do jogo e ver o que acontecia.
Naquele momento não pensei muito nisso, até porque a minha cabeça e o meu corpo borbulhavam em excitação. A vontade de a ter e de fazer sexo com ela era tal que pouco me importavam as consequências desse acto.
O diálogo prosseguiu pelo teclado de Márcia:
“Mas… voltando ao nosso assunto. Também gostava de tomar banho contigo.”
“Eu também. E aí é mais fácil resistir.”
“Imagina: Nós na banheira, tu a esfregares gel de banho no meu corpo e eu no teu.”
“Pelo corpo todo?”
“Não, só nas costas. Íamos conversando sobre o dia e sorriamos um para o outro. Os dois sentados, eu na frente tu atrás de mim.”
“Esse banho parece-me maravilhoso.”
Márcia enviou um sorriso e interrogou “aguentavas ou não?”
“Se não aguentasse, abria a água fria. Mas, cá para mim, tu é que não resistias.”
“Resistia sim.”
“Não acredito.”
Márcia atirou-me com mais um smile de língua de fora.
“Olha, um amigo também dá beijos na boca. Não digo um beijo de língua, mas beija.”
Onde queres tu chegar, interroguei-me para os meus botões. Segui o jogo, escrevendo “beijo carinhoso nos lábios”. Ela concordou, acrescentando astutamente que “um amigo também faz carinhos com as mãos”.
“Era o que ia a dizer...”, menti, “Vejo que adivinhas pensamentos. E carícias no rosto”.
“Não”, corrigiu, “carícias no corpo. Gosto nas costas e...”
“E…”, instiguei quase a explodir de tesão.
“Nos seios.”
“Ui…”
“Ivan! Não é apalpar. É só com as pontas dos dedos ao de leve quase sem encostar.”
Sim, sim, disse em pensamento, recordando as fotos em biquíni e o seu generoso peito. Tocar com as pontas dos dedos… Está bem, está. Eu agarrava-os e apertava-os e… Meu Deus, estava possesso de paixão.
“Eu também te faria o mesmo”, ofereceu.
Se o objectivo era ver quem é que era mais imaginativo, eu avancei com a sugestão:
“Pode ser um abraço por trás, um beijinho no pescoço e umas carícias com as pontas dos dedos nos seios?”
“Isso é que seria dormir consolada. E tu?”
“Eu também dormiria consolado.”
Nos segundos seguintes, houve uma pausa nas mensagens. Eu aguardei, ansiando a jogada seguinte dela. As peças daquele jogo estavam todas no tabuleiro e a avançar cada vez mais em território perigoso.
“E tu? O que gostavas que te fizesse? Já disse do que eu gosto, agora é a tua vez.”
“Gosto de ser surpreendido. Gosto de carícias e beijos.”
“Beijos onde?”
“No pescoço, na boca, pelo corpo, muito ao de leve.”
“Eu gosto no umbigo.”, confidenciou com um smile envergonhado. Eu quis mais pormenores.
“Só beijo ou um toque com a ponta da língua no centro do umbigo?
“Ambos”
“Já experimentaste com um cubo de gelo?”
“Ui…”
“E ser tocada num mamilo com a ponta da língua e no outro com um cubo de gelo em simultâneo?”
“Bom… aí acho que a amizade ficava em risco”, constatou com um enorme smile, “Mas em compensação deixas-me cheia de vontade”.
“Vontade de...”
Márcia respondeu-me com uma mensagem cheia de pontinhos. Eu percebi ao que ela se referia. E qual vencedor de duelo, concluí:
“Estás a ver, quem é que não ia resistir?”
“É melhor ficarmos por aqui”, atalhou, “é tarde, vamos dormir”.
O jogo tinha chegado ao fim. O flirt virtual fora um jogo que permitira boas sensações, deixara-me cheio de tesão e sozinho no quarto sem ter com quem a partilhar. Aquela frase fora como o apito do árbitro ao fim dos noventa minutos de um jogo de futebol. Em despedida, escrevi “vamos para a caminha”.
Só que o jogo não acabara, ia ter prolongamento.
“Anda cá fazer o que disseste”, desafiou ela, sabendo que tal não era possível. Eu respondi com um smile. “Confesso que não resistia. E tu resistias?”
“Não”
“Sentes alguma coisa?”
“Como assim?”
“Sentes alguma coisa com a conversa?”
“Foi muito boa.”
“Não é isso.”
“Então?”
“Quero saber se ficaste com vontade.”
“É preciso responder?”
“Sim. Quero lê-lo.”
“Claro! Ficaram dúvidas? Agora vou tomar um duche frio.”
Márcia sabia bem o resultado de uma conversa daquelas. Parecia que ao querer que o admitisse, isso seria o seu prémio de vitória naquele jogo. Como boa advogada que era, Márcia não se limitava a ganhar, tinha de desfrutar do momento.
“Já passou?”, inquiriu.
“Passa depois do duche. Bem frio.”
“Vê lá não te constipes.”
“Vou arriscar.”
E para além disso tudo, Márcia era também insaciável.
“Queres falar mais sobre o assunto?”
“Noutra altura, agora temos de descansar.”
“De certeza?”
“Não sejas má, queres que tenha um ataque?”
“Não! Só quero saber do que gostas.”
“Gosto de muita coisa, quase tudo.”
“Conta!”
“Noutro dia, pode ser?”
“Tudo bem.”
“Combinamos nova conversa por email.”, sugeri, sentindo que ela ficara decepcionada por não continuarmos aquela conversa.
“Sim, vamos trocando emails. Estes dias não sei se poderei estar online.”
“Ficaste chateada?”
“Não, tonto. Estava a saber-me bem. Mas compreendo e é melhor irmos dormir. Já é bem tarde.”
“Adorei falar contigo hoje.”, confessei, completamente caidinho por ela.
“Eu também. E desculpa se fui longe demais.”
“Não peças desculpa, adorei.”
Despedimo-nos com beijinhos e bons sonhos. E eu fui tomar um belo banho para descarregar toda a excitação que ela me provocara.
Nessa manhã, deixei as jogadoras a cargo do Prof. Nogueira que se encarregou de orientar o treino físico no ginásio do hotel. Eu reuni-me com Laurinda e escutei a sua opinião sobre o onze titular para o jogo. Claro que ela não alterara a sua ideia do absurdo que era fazer aquele jogo, correndo o risco de perder alguma jogadora numa lesão grave.
Ninguém ficou comigo no balneário. Senti a cabeça a latejar, pois mal dormira nessa noite e não conseguia tirar Márcia da cabeça. Preferi ficar sozinho a reflectir no jogo, na equipa, em Márcia, em Susana… Que estava eu a fazer, ao pensar daquela forma em Márcia?
Os meus pensamentos foram interrompidos pelo regresso das jogadoras. Lá fora, era audível o barulho dos espectadores que pela primeira vez veriam um jogo entre homens e mulheres.
As jogadoras envergavam o equipamento de treino, camisola e calções verdes com vivos vermelhos, e era com ele que iriam jogar. Não tinham nomes nem números. Seria apenas um treino mais competitivo. Laurinda frisou-me com firmeza o seu desacordo pela minha escolha do onze titular, mas apoiou-me quando o revelei às eleitas. Iria pela primeira vez testar o meu sistema de jogo contra outra equipa, por isso fiz alinhar as potenciais titulares que defrontariam a Holanda: Tita, Cati, Lila, Tuxa, Eva, Carly, Mara, Ariela, Fabiana, Mila e Patrícia Raquel.
Antes de deixarmos o balneário, olhei para todas e disse:
─ Todas vocês sabem aquilo que pretendo. Todas já têm noção das tácticas que quero em campo. Estes treinos têm servido para assimilarem isso mesmo. Já conversámos hoje quando aqui chegámos, por isso… ─ Fiz uma pausa, percebendo que elas me escutavam com atenção. ─ O futebol é para divertir quem joga e quem vê. Não tenho nada a adicionar ao que já disse. Resta-me dizer que aproveitem cada minuto e façam valer a pena a quem assiste.
Logo que terminei, as jogadoras aplaudiram e gritaram incentivos entre si.
Tita encabeçou o grupo que iniciou a caminhada pelo corredor até ao relvado. As suplentes seguiram atrás e a equipa técnica fechou o conjunto. Eu deixei-me ficar para último.
Quando elas entraram no relvado receberam aplausos do público que as saudou com cortesia. Contudo, para minha surpresa, quando fui eu a aparecer na saída do corredor, o público brindou-me com uma ruidosa ovação e gritaram o meu nome em todo o trajecto até ao banco de suplentes. Eu retribuí, batendo palmas em agradecimento a todo aquele povo que nunca me esquecera. Não pude evitar de cumprimentar algumas pessoas nas bancadas que se debruçaram para me apertar a mão e dizer de viva voz o quanto eu era especial para Paúle. Não consigo descrever a emoção que senti ao ver todas aquelas pessoas de pé a ovacionarem-me. Até os jogadores do G. D. Paúle o fizeram e Freitas não se coibiu de me abraçar quando passei por ele. Barnabé permaneceu sentado, ignorando-me.
Do relvado, Augusto, Joselino, Reis, Albertino e Ramalho, meus ex-colegas do tempo em que ali jogava, vieram a correr para me cumprimentar e aumentar a ênfase do momento.
Agradeci diversas vezes todo aquele carinho e só passados alguns minutos, o público se silenciou.
Tita e Ramalho aproximaram-se na linha central, após o chamamento do árbitro, um indivíduo da Associação Distrital de Futebol de Coimbra que fora convidado para o efeito. Moeda ao ar e escolha de bola e campo.
Freitas e eu combinámos previamente que cada metade do jogo só tivesse trinta minutos, uma vez que o Paúle jogaria para o campeonato no dia seguinte.
O jogo começou numa toada calma. Apesar de se notarem alguns efeitos da preparação física dos últimos dias, elas mantinham as dificuldades perante os jogadores do Paúle que eram mais fortes e corriam mais.
Sofremos ataques constantes e raramente conseguíamos chegar ao meio-campo adversário. Até o vento soprava contra nós.
As três defesas centrais atrapalhavam-se algumas vezes nas suas posições, pois ainda não tinham treinado o suficiente para se posicionarem bem entre elas. Quem mais sofria era a Tuxa que tinha de ouvir constantes reclamações das outras duas. Porém, Tita em vez de barafustar com quem reclamava com a sua colega de clube, optava por uma postura conciliadora, denotando que assimilara o conceito de espírito de equipa que eu tanto apregoava.
O meio-campo funcionava ligeiramente melhor, mesmo que uma vez ou outra também se atrapalhassem e falhassem algumas marcações. Tanto Eva como Ariela revelavam falta de preparação para correr toda uma ala do campo e eram constantemente batidas pelos adversários.
Aos dez minutos, o Paúle marcou o primeiro golo e no minuto seguinte marcou o segundo. O jogo ficava tão negro como o céu que nos cobria.
Sempre que Fabiana tocava na bola via-se cercada por dois ou três jogadores. Por isso, a bola nunca chegava a Mila ou a Patrícia Raquel. Estas, para tocarem na bola, tinham que recuar quase ao seu meio-campo.
─ Talvez fosse melhor retirar uma atacante e colocar mais uma na defesa. ─ sugeriu Laurinda.
Eu abanei negativamente a cabeça.
Tita era uma guarda-redes esforçada, mas ficou muito aquém nas jogadas que deram o terceiro e o quarto golo ao Paúle.
Em diversas jogadas, notei que alguns jogadores aproveitavam para agarrar as adversárias, fazendo faltas, mas com o intuito de as apalpar. Reparei nos protestos de Ariela, umas das mais visadas pelos dedos adversários, bem como de outras.
O intervalo chegou com quatro a zero a nosso desfavor.
Não houve lugar a regresso aos balneários. Ambos os lados se reuniram juntos dos seus bancos técnicos. Eu incentivei as jogadoras, tentando que não ficassem muito abatidas com o resultado.
Para a segunda parte efectuei algumas alterações. Retirei Tita e dei oportunidade a Paula Rita. Na defesa dei descanso a Lila e coloquei no seu lugar Gisela.
─ Posso ser substituída? ─ perguntou Ariela.
─ Porquê? ─ questionei. ─ Estás lesionada?
─ Não. Mas, estou farta de ser apalpada. ─ desabafou.
Eu assenti com a cabeça e, pedindo-lhes que aguardassem, dirigi-me ao outro banco. Quando falei no sucedido a Freitas, este pediu-me desculpa e disse-me que iria repreender os seus jogadores.
Não sabia se a reprimenda lhes iria pôr fim. Mesmo assim, não substituí Ariela para não dar a noção que a vontade de uma jogadora se poderia sobrepor aos interesses da equipa. Ela não gostou, mas não se manifestou.
A segunda parte começou com a mesma história da primeira. No entanto, a diferença estava na baliza. O Paúle continuava a atacar com força, mesmo com um novo onze em campo, porém Paula Rita brindava-nos com defesas de elite.
Aos quinze minutos da etapa complementar, decidi experimentar uma mudança no sistema. Retirei Tuxa e coloquei em campo Beta. Seguidamente, saiu Eva e entrou Nandinha, passando a ter quatro jogadoras na linha defensiva, duas centrais e duas laterais.
No meio-campo troquei Ariela por Vanda e Mara por Ery, deixando a função defensiva do meio-campo unicamente a Carly.
A última substituição foi a saída de Mila, completamente cansada, para a entrada de Manelinha.
O sistema de quatro defesas, quatro médios e duas avançadas não revelou grandes trunfos, somente uma menor vulnerabilidade aos ataques adversários. Isso não evitou que sofrêssemos mais um golo.
O jogo de treino chegou ao fim com o saldo de cinco golos do G. D. Paúle contra nenhum nosso. Barnabé comemorou como se tivesse ganho a Liga do Campeões.
Freitas veio ao meu encontro, cumprimentar-me e dizer:
─ Isto não significa nada. Não quero dar lições sobre o teu trabalho, mas acho que deves lembrar as tuas jogadoras das diferenças entre um grupo que só agora treina com profissionalismo contra outro que treina e joga regularmente nos últimos anos. É importante que percebam isso. ─ Eu concordei e agradeci o seu conselho. Ele deu-me um forte abraço. ─ Desejo-te toda a sorte nos jogos oficiais.
─ Espero vê-lo lá. ─ convidei.
─ Sim, eu estarei lá a torcer por vocês.
Mais uma vez, o público brindou-me com aplausos, enquanto eu seguia as jogadoras no regresso ao balneário. Todas elas caminhavam vagarosamente de cabeça baixa. Entraram no balneário e espalharam-se pelos seus lugares. Sentadas, umas com a cabeça escondida no apoio das mãos, outras com a cabeça encostada à parede e de olhos fechados… O ambiente era pesado e silencioso. O seu desalento parecia maior que quando foram derrotadas pelas germânicas.
─ Então? ─ questionei, fechado a porta. ─ Não é o fim do mundo.
Nenhuma se pronunciou. Contudo, Laurinda, que as conhecia bem, respondeu por elas:
─ Estão assim por terem perdido.
─ Por termos sido goleadas novamente. ─ corrigiu Tita.
─ Vocês só estão a ver o lado negativo. ─ alertei. ─ Isto foi um treino… Ou melhor, a disputa de dois machos orgulhosos. ─ As minhas palavras apanharam-nas de surpresa, talvez por esperarem alguma reacção zangada como acontecera nos quinze a zero. Já Laurinda espantara-se com a minha súbita confissão. ─ Eu quis enfrentar um “inimigo” antigo e usei-vos como peões nesse embate. Não tinha esse direito. Eles são uma equipa semiprofissional, alguns deles venceram comigo a Taça de Portugal. Mesmo estando na 3ª Divisão, têm um ritmo competitivo muito superior a nós. ─ Fiz uma pequena pausa, sentindo os seus olhares curiosos, espantados e até indignados. ─ Se quiserem ver só os aspectos negativos, sofremos cinco golos, não marcámos nenhum… Podemos ir para casa. ─ Nova pausa, esperando reacções. Não houve. ─ Mas eu prefiro ver para além disso. Vejo os positivos. ─ Maria João abanou a cabeça, dando-me descrédito. Eu ignorei-a. ─ Vi que a vossa condição física está melhor, já perceberam algumas tácticas que vos ensinei e pela primeira vez pareceram uma equipa. Vocês como equipa são como um bloco de pedra que precisa de ser esculpido. E só com trabalho de todos conseguiremos transformar esse bloco numa obra de arte.
─ Você é um filósofo do caraças.
─ Maria João… ─ repreendeu Laurinda.
─ Deixe. ─ pedi, olhando para a capitã da equipa. ─ A Maria João é a capitã, mas é um exemplo muito franco para as suas colegas.
─ Olhe…
─ Cale-se! ─ ordenei, irritado. ─ Eu não me importo de ser questionado nas escolhas ou nas minhas ideias sobre como treinar esta equipa. Mas quem o quiser fazer tem de ter galões para isso. Só ser capitã porque se é a mais velha não lhe dá esse direito. Alguém que tem uma postura tão miserável nos treinos e por isso fica de fora nos jogos, tal como aconteceu hoje, não pode depois vir contestar o trabalho dos outros e vir fazer piadinhas perante atletas que dão tudo em campo para orgulhar a camisola que vestem. E esse orgulho é algo que VOCÊ ESTÁ A ANOS LUZ DE MERECER!
Maria João ficou petrificada a olhar para mim e não conseguiu responder uma sílaba. As restantes mantiveram um silêncio revelador da concordância comigo e da decepção com a postura da sua capitã.
Antes de sair do balneário, olhei para todas e agradeci o empenho mostrado no jogo.
Nessa noite, depois de todas as jogadoras terem recolhido aos respectivos quartos, Laurinda reuniu-se comigo bar do hotel para conversarmos sobre o jogo.
─ Ainda está chateada por eu ter colocado as titulares a jogar? ─ indaguei, sentindo eu próprio essa zanga comigo.
─ Não estou zangada, nem nunca estive. ─ respondeu, olhando para a chávena do café. ─ Achei que talvez não fosse a melhor opção, mas confio no seu trabalho.
Eu sorri, agradado com a sua fé em mim que chegava a ser superior à minha.
─ Estou a pensar colocar as mesmas onze que começaram hoje o jogo, à excepção… ─ Fiz uma pausa para analisar a reacção da minha adjunta. ─ … da Tita. Vou arriscar-me a dar a titularidade à Paula Rita.
A reacção de Laurinda foi nula. Equacionou por instantes a possibilidade e disse:
─ Não há dúvida de que ela sobressaí tecnicamente em relação à Maria João e à Tita. Mas, como será num jogo oficial?
─ Não sei… Ela tem-se saído bem. ─ argumentei. ─ Sinto que posso confiar-lhe a baliza.
─ Sou obrigada a concordar consigo, Ivan. E confesso que no seu lugar teria a vontade de fazer o mesmo. Mas, duvido que tivesse coragem para o fazer. Bom… É por isso que você é o treinador principal e eu a adjunta. ─ rematou com um sorriso.
─ Por outras palavras, se correr mal é a minha cabeça que rola. ─ retorqui, correspondendo ao sorriso.
─ Esperemos que a Tita o aceite bem.
─ Assim espero. ─ concordei. ─ Caso contrário, será igual. Os interesses da equipa estão acima de tudo.
─ E ficando a Tita e a Maria João fora, quem será a capitã?
─ Pensei na Lila.
Laurinda assentiu com a cabeça, concluindo:
─ É uma decisão acertada, ela tem experiência e carisma. Penso que pode ser uma boa voz de comando para a equipa no eixo da defesa.
A nossa conversa não se prolongou por muito mais tempo, até porque eu tinha agendado com Márcia uma nova conversa online nessa noite. Despedi-me de Laurinda que ainda ficou à conversa com Salomão que, entretanto, chegara ao bar do hotel.
Subi no elevador com a ansiedade a tomar conta de mim. A combinação fora feita por email, antes do jantar, pouco depois de ter estado ao telefone com Susana e com a minha filha. Recriminava-me por me sentir mais ansioso por estes “encontros” na Internet que pelos telefonemas a Susana. Mas, por mais que o sentisse, não conseguia deixar que a razão se sobrepusesse àquele sentimento de desejo por uma desconhecida.
Tal como lhe prometera, criara um perfil nesse sítio virtual tão conhecido que dá pelo nome de Facebook. Uma rede social com milhões de desconhecidos a conhecerem-se e a tornarem-se amigos. Limitei as informações ao máximo e coloquei algumas fotos minhas do tempo em que jogava futebol, aquelas que me pareciam ter um aspecto físico mais apelativo. Por fim, mandei um email a Márcia com o endereço do meu perfil. Assim, quando voltássemos a estar online, já poderia ter a sua opinião sobre mim.
Quando abri o Messenger, Márcia ainda estava offline. Levantei-me da cadeira e caminhei até à janela. Tábua era uma vila sem movimento nocturno, tal como no tempo em que pela primeira vez a observara à noite pela janela do meu quarto de hotel. As luzes da rua e do interior da escola defronte do hotel eram os únicos focos de claridade. O céu estava carregado de nuvens, tal como sucedera à tarde e seria quase certo que a chuva chegaria em breve.
O som de entrada online de Márcia fez-me regressar ao computador. Abri uma nova janela no Messenger e digitei um “olá”.
“Olá amigo, só um minuto!”, surgiu em resposta.
Eu aguardei um pouco, sentindo uma ansiedade cada vez maior. Os segundos de espera pareciam horas…
“Fui buscar qualquer coisa para comer.”, foi a mensagem que se seguiu, “ainda não comi nada desde que cheguei”
“Estás em casa?”
“Sim. E sozinha”, adicionou, juntando um smile matreiro.
“Recebeste o meu email?”
“Claro”, confirmou com novo smile, “E vi o teu perfil. És um amigo todo giro”
Respondo com um smile de “envergonhado”, como se tivesse ficado assim com a sua opinião. Logo de seguida, teclei:
“Estava com saudades tuas, amiga”
Márcia ripostou com mais um smile.
“Já não estava habituado a passar tanto tempo sem conversarmos”. Desta feita, a resposta veio num smile envergonhado como o que lhe enviara. “É verdade, gosto muito de conversar contigo”. E recriminei-me por gostar mais, desde que vira as suas fotos.
“Hoje estou mesmo a precisar de conversar um pouco. Tive um dia estafante. E quando cheguei a casa, enfim…”
“Então?”, questionei com curiosidade.
“Esperava ter o meu marido aqui.”
“Aconteceu alguma coisa?”
“O habitual. Teve de se ausentar para uma reunião no estrangeiro. Ligou-me à tarde, a dizer que iria partir e só volta daqui a uns dias.”
“Sentes-te sozinha?”. Pergunta parva.
“Queria que ele estivesse comigo”, confidenciou. “Ele tem estado ausente. E eu… Sinto falta… Tu sabes…”
Compreendi ao que ela se referia, mas pareceu-me ser um abuso de confiança dizê-lo. Percebi que ela falava de sexo, contudo optei pela hipótese ingénua de que ela falava de…
“Falta de companhia”
“Não! Sexo! Falo de sexo”, escreveu com toda a frontalidade.
“Percebo”, teclei um pouco atónito. “É perfeitamente natural que sintas isso.”
“Hoje estava a contar com isso”, prosseguiu sem complexos de partilhar um assunto tão íntimo com um desconhecido. “Fiquei com uns nervos”
“Acredito”
“Tive vontade de saltar para cima do primeiro gajo que me aparecesse à frente”, desabafou, fazendo-me desejar ser essa pessoa. Que raio, que ideias eram aquelas que me iam na cabeça? Estava a esquecer-me que era um homem casado?
Márcia continuou:
“Estou com os olhos inchados de tanto chorar”
“Não chores, amiga.”, digitei eu procurando confortá-la. “Não fiques triste, senão também fico.”, foi uma frase bonita para se reconfortar uma mulher linda como ela.
Na verdade, eu estava a entrar num jogo perigoso. Um perigo que parece sempre distante quando se está com a protecção de um ecrã, de um teclado e de uma distância abstracta. Resumindo, estava a brincar com o fogo.
“Sinto raiva de mim mesma. Já devia ter posto fim a este casamento. Isto só existe no papel.”
“Não sintas raiva, ninguém manda no coração”, ripostei como bom ombro amigo que me propusera ser.
“Pois mas na cabeça mando!”, redarguiu, quase fazendo transparecer a irritação que sentia nas palavras que enviava.
“Mas por vezes o coração fala mais alto”
Como diria a Maria João, eu estava um filósofo do caraças. Talvez o estivesse a fazer inconscientemente, dar as respostas que ela queria ouvir. Percebia que ela procurava alguém que escutasse os seus desabafos sem o ónus de ter de confrontar esse alguém na realidade.
“A vida é assim mesmo, deixa lá”, concluiu. E depois, antes de um enorme “LOL”, escreveu “Vou arranjar um amante!”
Antes de ter lido a última frase, teclei:
“Não deixo, porque és minha amiga.”
“Não deixas?”, interrogou ela com vários pontos de interrogação. “Porque é que não me deixas arranjar um amante?”
Só nesse momento tomei consciência da frase do amante e a implicações que a minha resposta tivera, fora do contexto. Apressei-me a explicar:
“Referia-me ao deixa lá que escreveste. Nem tinha visto o amante… És livre de fazer o que quiseres”. E adicionei novo smile.
“Mas não achas correcto”, tentou adivinhar.
Não sabia muito bem o que responder, porém tive a inspiração de mais uma frase bonita:
“Eu não julgo as pessoas. Sinto é que estás triste. E o que te faz ficar triste, também me deixa triste”.
“Tenho dias bons e dias maus”.
“Podes contar comigo em ambos. Tens aqui um amigo para sempre”.
Por instantes, houve uma pausa nas mensagens. Penso que Márcia estaria a pensar o que deveria escrever. Por fim, surgiu no ecrã a seguinte:
“Obrigada! É sempre bom saber que podemos contar com boas pessoas.”
Percebendo o elogio, escrevi de imediato:
“Tu também és uma excelente pessoa, o privilégio é meu”.
Márcia contrapôs no segundo seguinte com um “é nosso” e juntou um sorridente smile.
A troca de galhardetes dava-me a oportunidade para mais uma frase de charme, por isso o que enviei foi “quero esse sorriso que mandaste, no teu rosto”.
Novo smile.
A conversa parecia ter chegado a um impasse. De súbito, parecia que tínhamos perdido tema para assunto. A pausa foi quebrada por Márcia.
“Então como foi teu dia?”
“Tive jogo.”
“Ganharam?”
“Perdemos.”
Recebi um smile triste da sua parte.
“Não te preocupes, nada a que não esteja habituado”.
“Pena não estares mais perto. Desafiavas-me para um copo e íamos afogar as mágoas do nosso dia.”
“Parece-me bem”, contrapus sem realmente o pensar. Se ela estivesse mais perto, eu não a desafiaria para sair, pois era um homem casado e não seria correcto fazê-lo. Contudo, só a ideia de poder estar no mesmo espaço físico que ela deixou-me excitado.
A mensagem que Márcia enviou a seguir foi um balde de água fria.
“Hoje vou dormir mais cedo. Vou tomar um calmante e aterrar na cama.”
“Oh… Tudo bem, eu compreendo.”
“Preciso de descansar.”, justificou.
“Gostava de poder fazer alguma coisa para te animar.”
“Hoje irritei-me muito com tudo isto.”
“Acredito.”
“Se morasses aqui perto podias ficar ao meu lado até eu dormir.”, sugeriu de forma marota e com um smile de língua de fora.
“E ficava com todo o gosto, acredita.”
A minha resposta era uma irresponsabilidade. Sabia que era tudo um jogo, um flirt virtual sem resultados efectivos. Incorrecto era o mínimo que se podia dizer daquilo que eu estava a fazer para com Susana. Um jogo de sedução entre duas pessoas casadas que se escudavam na protecção do mundo virtual da Internet.
Sinceramente, não sei o que me levou a esquecer o bom senso e a continuar com o diálogo naquele sentido. Parecia que tinha encarnado numa personagem e continuava a interpretar o meu papel.
“Dava-te uns beijinhos na testa para ajudar a adormecer.”
A frase era ousada para dizer a alguém que não se conhecia para além de meia dúzia de conversas virtuais. Contudo, volto a referir, a protecção do mundo virtual permite estes riscos. E o prémio tinha a forma de uma bela loura.
Se Márcia não quisesse entrar no jogo, recriminar-me-ia pelo que dissera. Mas, ao invés disso, li:
“Pois, bons amigos é para isso”.
Era inconclusivo. Seria aquela uma forma de me fazer voltar ao meu lugar e travar qualquer que fossem os meus intentos? Ou estaria também ela a avançar, mas jogando pelo seguro. Decidi arriscar, escrevendo:
“Só dava na testa, prometo.”
“Por mim, até poderias dormir aqui comigo, como um irmão.”
Apesar de não ser conclusiva, era uma resposta interessante. Tenho a certeza que tinha noção do que valia como mulher e o que despertava num homem. Mas, mesmo assim, referi na mensagem seguinte:
“Amiga, também não sou de ferro. Podia dormir no sofá.”
Márcia respondeu com novo “LOL” e acrescentou “essa foi boa.”
“Mas antes dava-te um abraço muito apertado e um beijinho confortável para dormires.”
“Não conseguias dormir ao meu lado?”, questionou como se fosse a coisa mais natural do mundo.
“Não sei...”, interroguei-me como se não soubesse, continuando o jogo, “poderia começar a abraçar-te...”
“E então? Somos amigos. Podíamos dormir abraçados.”
“Está bem, mas colocávamos uma almofada no meio, ok?”
Márcia enviou a resposta num smile. De seguida, escreveu que “os amigos até tomam banho juntos”.
“Eu sei.”
“Então?”
“É melhor não arriscar.”
“Andas assim tão carente?”, questionou sem que eu soubesse muito bem se a pergunta era feita de forma séria ou como parte do jogo.
“Como assim?”
“Com falta de.....................”
“Com falta de pontinhos?”, interroguei fazendo-me de desentendido.
“Sexo!!!!!”, ripostou Márcia com enorme frontalidade.
Eu correspondi à frontalidade, enviando um “pode dizer-se que sim...”
“Olha, eu também!”
Era tudo um jogo, dizia eu a mim mesmo, era tudo um jogo e havia que continuar a jogá-lo.
“Ai se estivesses mais perto...”
A minha frase não obteve resposta, pelo que pensei que tinha ido longe demais. Por isso, realinhei o discurso:
“Ainda ficas a pensar que sou tarado.”
“Não pensava nada.”
“Por isso, como não sou de ferro e tu és muito bonita, é melhor eu ficar no sofá.”
Para minha surpresa ou talvez não, Márcia correspondia àquele flirt virtual, elevando a fasquia de intensidade.
“Nada disso. Eu queria que ficasses ao meu lado.”
Não sabia muito bem o que dizer. Resumindo, estava a dizer-lhe que se estivesse deitado ao lado dela quereria ter sexo com ela. E Márcia não se importava. A excitação crescia ainda mais…
“Até seria muito giro”, continuou, “ter um amigo para falar. Tu contavas-me os pontos fracos dos homens e eu os das mulheres.”
“Mas conversar podemos sempre. E espero um dia conhecer-te pessoalmente.”
Eu sentiria mesmo isso? Quereria mesmo conhecê-la pessoalmente? Na verdade, queria! Só que isso seria impossível, a menos que eu quisesse… Não! Isso seria uma traição para Susana. Contudo, o desejo ardente crescia em mim.
Márcia correspondeu ao meu desejo de nos conhecermos pessoalmente, um dia, na mensagem seguinte.
“Seria engraçado, partilhar coisas mais íntimas.”
“Conversar sobre coisas mais íntimas?”, interroguei com a percepção que era isso que ela queria. Mas, a resposta deixou-me completamente perplexo.
“Não! Fazer!”
Fiquei confuso e sem saber o que escrever. Olhava para o ecrã, para as suas mensagens e pensava nas fotos que vira dela. Comecei a imaginar como seria estar com ela, despi-la, acariciá-la, beijá-la, fazer sexo com ela… Sentia uma excitação enorme. Tinha noção que aquilo era tudo errado, não podia estar a avançar daquela forma, sendo eu um homem casado… Mas, subitamente, dei comigo a justificar a minha atitude com a falta de disposição sexual de Susana, as minhas necessidades às quais ela não correspondia. E de um momento para o outro, parecia que o amor dela pouco valia perante a possibilidade de partilhar sexo com uma desconhecida. Eu sabia que era errado. Devia colocar um travão naquela conversa… Só que sabia tão bem, só a ideia de o poder fazer, sabia tão bem aquela excitação, sabia tão bem aquele jogo… Pois, era um jogo e não havia mal em continuar a jogá-lo.
“Então? Que dizes?”
Continuei sem saber o que digitar, tropecei nas teclas e Márcia antecipou-se com nova mensagem:
“Dormir, comer, tomar banho.”
“Parece-me bem”, escrevi por fim. “Mas ao contrário, tomar banho, comer e dormir... tudo juntos.”
“Como assim?”
“Começámos pelo banho, não pelo dormir.”
“A ordem não altera os factores.”
“Eu sei”
Se tudo aquilo era um jogo, o vencedor seria o último a desistir. A excitação e desejo aumentavam a cada mensagem, como forma de ver até onde aguentávamos. E Márcia elevou ainda mais a fasquia:
“Se tu estivesses sozinho, eu podia ir ter contigo e estarmos juntos.”
Eu respondi que seria “interessante”.
Márcia, astuta naqueles diálogos e numa espécie de toca-e-foge, cortou com “como amigos sem sexo”.
A única coisa que me lembrei de escrever foi “havemos de arranjar maneira de passar algum tempo juntos”.
Márcia voltou a acentuar a parte do “sem sexo” enviando a expressiva frase de que “um amigo não come uma amiga, certo?”
Eu mandei-lhe um smile, escrevi que “só os amigos coloridos” e rematei com novo smile.
A sua resposta deixou-me sérias dúvidas das suas reais intenções, escrevendo que “ esses não são amigos leais”.
Eu concordei com o argumento de que a amizade deve ser incondicional.
“Acabam por se envolver sentimentalmente. E depois só dá chatices.”
Temendo que o jogo tivesse ido longe demais e que isso pudesse danificar a nossa recente e virtual amizade, teclei:
“Podes contar com a minha amizade pura, sincera e incondicional.”
A sua astúcia era brutal. Perante esta frase, Márcia retorquiu:
“Então não há problema. Conseguirias dormir comigo toda nua ao teu lado? Eu durmo sempre nua.”
Só de a imaginar nua, senti toda a tesão crescer em mim.
“Eu também só durmo nu.”, partilhei.
“E conseguirias?”
Claro que não, pensei. No entanto, acabei por escrever “temos de experimentar, depois te direi”.
“Não pode ser.”, recusou com falsa sensatez, “Tens de garantir. Eu conseguiria dormir ao teu lado nua.”
“Pois… eu não garanto.”
Márcia enviou um smile triste como se estivesse decepcionada.
“Estou a ser sincero”, acrescentei, “E então se fizeres esse sorrisinho triste, é que não garanto mesmo.”
Márcia respondeu com um smile de língua de fora e escreveu:
“Já vi que se me encostasse a ti, já era…”
“Não comento...”, teclei finalizando com um smile a piscar o olho.
Márcia escreveu “que pena”, parecendo triste por não conseguirmos estar juntos, nus e sem fazer sexo, como se isso fosse muito importante para a nossa amizade. Eu retorqui que ia “tentar” e completei que “tens de concordar que fica difícil os dois nus”.
“Os dois nus e abraçados”, corrigiu.
“Aaaiiiiiiiiiiiiiiii”, enviei à beira de um colapso só de pensar em semelhante cenário.
E Márcia não se ficou por aí, ainda adicionou que “gosto que me abracem por trás”.
“Eu também gosto de abraçar por trás e ficar bem agarradinho.”
Era a minha vez de aumentar o nível de intensidade sexual do diálogo, pelo que continuei:
“Envolver-te com os meus braços. Isto está a ficar quente... Daqui a pouco tenho de ir tomar um duche frio.”
“Huumm…”, escreveu ela.
De novo fiquei intrigado se era uma expressão de interesse ou de interrogação perante as minhas palavras. Estaria eu a ir longe demais? Na verdade, estava, mas não para Márcia. Contudo, voltei a escrever:
“O facto de seres muito bonita e atraente, não impede que eu seja teu amigo sincero. E espero que nunca duvides disso, amiga.”
“Não duvido. E sei que seria complicado dormir ao meu lado, até porque eu iria seduzir-te.”
Nova volta naquele jogo de sedução virtual. Márcia regressara à postura do quero, um novo toque. Será que iria fugir, novamente?
“O quê? Então, como queres que resista?”
“Fá-lo-ia de propósito. Gosto de me sentir desejada.”
“Tu és demais.”, confessei. E ela retribuiu com um smile muito sorridente. Desta vez, ela avançou de forma ousada e não desistiu. Penso que estava decidida a ir até ao fim do jogo e ver o que acontecia.
Naquele momento não pensei muito nisso, até porque a minha cabeça e o meu corpo borbulhavam em excitação. A vontade de a ter e de fazer sexo com ela era tal que pouco me importavam as consequências desse acto.
O diálogo prosseguiu pelo teclado de Márcia:
“Mas… voltando ao nosso assunto. Também gostava de tomar banho contigo.”
“Eu também. E aí é mais fácil resistir.”
“Imagina: Nós na banheira, tu a esfregares gel de banho no meu corpo e eu no teu.”
“Pelo corpo todo?”
“Não, só nas costas. Íamos conversando sobre o dia e sorriamos um para o outro. Os dois sentados, eu na frente tu atrás de mim.”
“Esse banho parece-me maravilhoso.”
Márcia enviou um sorriso e interrogou “aguentavas ou não?”
“Se não aguentasse, abria a água fria. Mas, cá para mim, tu é que não resistias.”
“Resistia sim.”
“Não acredito.”
Márcia atirou-me com mais um smile de língua de fora.
“Olha, um amigo também dá beijos na boca. Não digo um beijo de língua, mas beija.”
Onde queres tu chegar, interroguei-me para os meus botões. Segui o jogo, escrevendo “beijo carinhoso nos lábios”. Ela concordou, acrescentando astutamente que “um amigo também faz carinhos com as mãos”.
“Era o que ia a dizer...”, menti, “Vejo que adivinhas pensamentos. E carícias no rosto”.
“Não”, corrigiu, “carícias no corpo. Gosto nas costas e...”
“E…”, instiguei quase a explodir de tesão.
“Nos seios.”
“Ui…”
“Ivan! Não é apalpar. É só com as pontas dos dedos ao de leve quase sem encostar.”
Sim, sim, disse em pensamento, recordando as fotos em biquíni e o seu generoso peito. Tocar com as pontas dos dedos… Está bem, está. Eu agarrava-os e apertava-os e… Meu Deus, estava possesso de paixão.
“Eu também te faria o mesmo”, ofereceu.
Se o objectivo era ver quem é que era mais imaginativo, eu avancei com a sugestão:
“Pode ser um abraço por trás, um beijinho no pescoço e umas carícias com as pontas dos dedos nos seios?”
“Isso é que seria dormir consolada. E tu?”
“Eu também dormiria consolado.”
Nos segundos seguintes, houve uma pausa nas mensagens. Eu aguardei, ansiando a jogada seguinte dela. As peças daquele jogo estavam todas no tabuleiro e a avançar cada vez mais em território perigoso.
“E tu? O que gostavas que te fizesse? Já disse do que eu gosto, agora é a tua vez.”
“Gosto de ser surpreendido. Gosto de carícias e beijos.”
“Beijos onde?”
“No pescoço, na boca, pelo corpo, muito ao de leve.”
“Eu gosto no umbigo.”, confidenciou com um smile envergonhado. Eu quis mais pormenores.
“Só beijo ou um toque com a ponta da língua no centro do umbigo?
“Ambos”
“Já experimentaste com um cubo de gelo?”
“Ui…”
“E ser tocada num mamilo com a ponta da língua e no outro com um cubo de gelo em simultâneo?”
“Bom… aí acho que a amizade ficava em risco”, constatou com um enorme smile, “Mas em compensação deixas-me cheia de vontade”.
“Vontade de...”
Márcia respondeu-me com uma mensagem cheia de pontinhos. Eu percebi ao que ela se referia. E qual vencedor de duelo, concluí:
“Estás a ver, quem é que não ia resistir?”
“É melhor ficarmos por aqui”, atalhou, “é tarde, vamos dormir”.
O jogo tinha chegado ao fim. O flirt virtual fora um jogo que permitira boas sensações, deixara-me cheio de tesão e sozinho no quarto sem ter com quem a partilhar. Aquela frase fora como o apito do árbitro ao fim dos noventa minutos de um jogo de futebol. Em despedida, escrevi “vamos para a caminha”.
Só que o jogo não acabara, ia ter prolongamento.
“Anda cá fazer o que disseste”, desafiou ela, sabendo que tal não era possível. Eu respondi com um smile. “Confesso que não resistia. E tu resistias?”
“Não”
“Sentes alguma coisa?”
“Como assim?”
“Sentes alguma coisa com a conversa?”
“Foi muito boa.”
“Não é isso.”
“Então?”
“Quero saber se ficaste com vontade.”
“É preciso responder?”
“Sim. Quero lê-lo.”
“Claro! Ficaram dúvidas? Agora vou tomar um duche frio.”
Márcia sabia bem o resultado de uma conversa daquelas. Parecia que ao querer que o admitisse, isso seria o seu prémio de vitória naquele jogo. Como boa advogada que era, Márcia não se limitava a ganhar, tinha de desfrutar do momento.
“Já passou?”, inquiriu.
“Passa depois do duche. Bem frio.”
“Vê lá não te constipes.”
“Vou arriscar.”
E para além disso tudo, Márcia era também insaciável.
“Queres falar mais sobre o assunto?”
“Noutra altura, agora temos de descansar.”
“De certeza?”
“Não sejas má, queres que tenha um ataque?”
“Não! Só quero saber do que gostas.”
“Gosto de muita coisa, quase tudo.”
“Conta!”
“Noutro dia, pode ser?”
“Tudo bem.”
“Combinamos nova conversa por email.”, sugeri, sentindo que ela ficara decepcionada por não continuarmos aquela conversa.
“Sim, vamos trocando emails. Estes dias não sei se poderei estar online.”
“Ficaste chateada?”
“Não, tonto. Estava a saber-me bem. Mas compreendo e é melhor irmos dormir. Já é bem tarde.”
“Adorei falar contigo hoje.”, confessei, completamente caidinho por ela.
“Eu também. E desculpa se fui longe demais.”
“Não peças desculpa, adorei.”
Despedimo-nos com beijinhos e bons sonhos. E eu fui tomar um belo banho para descarregar toda a excitação que ela me provocara.