AS MAGRIÇAS · Capítulo 26

Capítulo XXVI

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O silêncio dentro do avião era algo que me dava alguma paz, quando viajava sozinho, permitindo-me o envolvimento em pensamentos e deixar a mente divagar. O dia fora cansativo, pois partira de Lisboa pela manhã numa viagem aérea que me levou à Holanda, onde assisti ao jogo entre a equipa da casa e as poderosas alemãs. O desafio não teve grande história, já que as visitantes dominaram os noventa minutos e venceram por três golos contra nenhum das holandesas. Na minha opinião, a equipa laranja não tinha grandes argumentos, só que para nossa infelicidade, nós ainda tínhamos menos.
Nos dias que antecederam a ida à Holanda, os treinos correram bem e eu continuava esperançado que as minhas jogadoras adquirissem uma boa condição física para enfrentar o seu primeiro jogo em casa. Sabia que não poderia esperar milagres, mas almejava contrariar a tendência para a derrota daquela equipa. No fim de um desses treinos, reuni com as três guarda-redes e informei-as da minha decisão de dar a titularidade a Paula Rita. Maria João e Tita não esconderam o seu desagrado, mas também não argumentaram nada em contrário. A primeira encarou mesmo a novidade com naturalidade, pois já percebera que para mim ela era a terceira opção. E antes de partir, informei Lila que seria a nova capitã de equipa e que contava com ela para assumir com firmeza essa responsabilidade.
Em todos estes dias, com quem eu não voltei a falar foi com Márcia. A última conversa online fora potente e afectara-me ao ponto de não conseguir deixar de pensar nela. Contudo, esforcei-me para que isso não prejudicasse a concentração no meu trabalho. Márcia enviou-me um email no dia seguinte, com beijinhos e saudades, lamentando estar ocupada e não ser possível conversarmos. Só ficou livre na véspera da minha partida, mas eu não correspondi ao seu convite para o Messenger, justificando que estava cansado, não sem retribuir todos os beijos e saudades que ela escrevia em cada email.
O que não se alterara foram os telefonemas diários para casa, falando com Susana e Ivana. Tinha muitas saudades de ambas. Com Susana senti que o desejo sexual não estava apontado a si, como anteriormente, mas sim à imagem de Márcia. Amava-a muito, porém desgastado com os nossos desentendimentos cada vez que a procurava para fazer amor. Não fosse por Ivana e acho que teria havido dias em que nem teria ligado. Estava a ser muito burro na forma como via as coisas, estava enfeitiçado pela ideia de sexo poderoso e selvagem com uma loura escultural com quem falava na Internet. No entanto, as saudades de Ivana é que me dilaceravam a alma, daí não abdicar dos telefonemas. A minha filha era o que tinha de mais importante na minha vida. E era por ela que partira naquele fim de tarde da Holanda, rumo à Suíça.
Quando cheguei a casa, encontrei tudo escuro e silencioso. Não estava lá ninguém, apesar de já ser hora de jantar. Normalmente, era àquela hora que telefonava a Susana e ela já estava em casa. Porém, parece que saber da minha chegada nessa tarde a fez atrasar-se, quase como se me quisesse evitar ou adiar as minhas investidas carregadas de desejo. Fora eu quem declinara a sua oferta para me esperar no aeroporto, pois não queria ficar refém de um dos seus habituais atrasos. Acendi a luz da entrada e encontrei um papel colado na parede, perto do interruptor, escrito por ela a dizer que estavam em casa de Gabrielle. Condenei-me de imediato pelos juízos que já estava a fazer.
Larguei a parca bagagem logo ali e voltei a sair, dando dois passos e tocando à campainha da minha vizinha. Gabrielle abriu a porta com uma ansiosa Ivana pela mão, a qual largou para pular para os meus braços, saudosa do pai. Dei-lhe dois beijos e abracei-a com a força da enorme saudade que sentia. Seguidamente, cumprimentei Gabrielle e entrei no apartamento, onde Susana me esperava com o seu belo sorriso e olhar carinhoso de sempre. Larguei Ivana por uns instantes e abracei a sua mãe, beijando-a com todo o amor que partilhávamos.
Nessa noite, jantámos com Gabrielle e António em sua casa. Todos quiseram saber novidades de como corriam as coisas comigo em Portugal. Ivana era a única pouco importada com isso e insistia para que lhe desse atenção, pois queria contar-me todos os seus dias de escola na minha ausência.
O jantar não se prolongou muito para além da sobremesa, pois eu estava muito cansado. Despedimo-nos dos nossos amigos e regressámos ao nosso apartamento, ao lado do deles.
Quando entrámos, Susana deu-me um beijo e pediu-me que deitasse Ivana, enquanto ela terminava um trabalho no escritório. Sinceramente, não tinha ainda pensado na ideia de fazer amor com ela naquela noite, mas perante isto, calculei que ela não se deitaria logo e o sono não me deixaria esperá-la por muito tempo.
Aproveitei para matar saudades dos tempos em que cuidava diariamente da minha filha, levando-a até ao seu quarto e arranjando a cama, enquanto ela trocava a roupa desse dia pelo pijama. Ajudei-a a deitar, aconcheguei-lhe o lençol e o edredon e sentei-me a seu lado.
─ Tinha muitas saudades tuas, pai.
─ E eu tuas, Ivana.
─ Podes ler-me uma história?
─ Já é um bocadinho tarde…
─ Vá lá.
Estes últimos tempos tinham sido tão pouco dedicados a ela que acabei por ceder e pegar num dos vários livros de contos infantis que ela tinha. No entanto, por mais que Ivana lutasse com o sono, acabou por adormecer ao fim de três páginas. Pousei o livro na estante devagarinho, levantei-me da cama, apaguei a luz e saí do quarto, fechando a porta com cuidado.
Susana continuava no escritório. Sentia imensa saudade dela, do seu corpo, de fazer amor… No entanto, recusava-me a ir ao seu encontro e fazer o convite, farto de uma recusa camuflada num “é só acabar isto” que iria demorar umas horas. Nesse momento, pensei em Márcia, na nossa conversa e como seria delicioso tornar realidade aquelas provocações.
Caminhei até ao escritório com uma excitação crescente. Iria procurar Susana para me saciar, tendo a fantasia de Márcia na cabeça. Tão estúpido… Cada vez que me recordo desse tempo, só me apetece bater em mim.
Entrei no escritório e caminhei até Susana que trabalhava concentrada no seu computador. Sorriu-me com ternura sem parar de bater nas teclas, digitando números numa folha de cálculo. Parei atrás dela e massajei-lhe os ombros com carinho.
─ Vens para a cama? ─ convidei, apertando ligeiramente os seus braços.
─ É só acabar isto, amor. ─ respondeu, mantendo a concentração.
A frase foi um jacto de água gelada na minha libido. Afastei as mãos dos seus ombros, dei-lhe um beijo na nuca e disse:
─ Vou andando.
─ Está bem. Já lá vou ter…
As suas palavras foram ditas de forma quase robótica sem que se apercebesse disso. Eu não insisti, nem disse mais nada.
Fui para o quarto certo de que mal caísse na cama iria adormecer. Contudo, quase uma hora depois disso, eu ainda olhava o tecto na escuridão e sem posição para estar na cama. Estava excitado, queria fazer amor com Susana e a minha mente atormentava-me com fantasias de Márcia.
Ao fim de uma hora, Susana entrou no quarto. Estava escuro e ela partiu do princípio que eu já estaria a dormir e, quem sabe, congratulando-se por isso. Com o olhar já habituado ao escuro, consegui ver o vulto do seu corpo entrar, fechar a porta e começar a despir-se. Tudo no mais absoluto silêncio. Uma vez nua, vestiu a camisa de dormir e afastou o lençol para entrar na cama, fazendo-me sentir o cheiro do seu perfume e o calor do seu corpo.
─ Estava a ver que não vinhas. ─ sussurrei.
Susana pareceu assustar-se e disse:
─ Pensei que já estivesses a dormir.
Aproximei-me mais dela e envolvi-a com o braço.
─ Não há sono que vença as saudades que tenho de ti, amor. ─ sussurrei novamente, junto ao seu ouvido, acariciando a sua barriga. ─ Saudades de fazer amor contigo.
Susana não se manifestou, deixando-se acariciar e correspondendo simpaticamente aos meus beijos. Voltei-me na cama e coloquei-me sobre ela. Tenho a certeza que ela não tinha vontade, mas prossegui. A tesão quase arrebentava comigo, a excitação precisava de ser saciada, a imagem de Márcia, as fantasias que me assolavam a cabeça, o desejo por aquela loura tinha que ser aliviado. Puxei a sua camisa de dormir até à cintura, tentei alcançar os seus seios por baixo do tecido, mas não tive paciência para descobrir o caminho e apalpei-os com força mesmo escondidos pelo algodão. Beijava-lhe os lábios com paixão, ela retribuía o melhor que conseguia. Penso que se quisesse optar, teria recusado continuar, mas sabendo da minha vontade e do tempo que estávamos afastados, esforçou-se por retribuir. Uma vez entre as suas pernas, penetrei-a apressadamente. Susana gemeu e eu convenci-me que fora de prazer, apesar de ter consciência que fora de dor por ainda não estar suficientemente excitada. Movimentei-me sobre ela, procurando satisfazer-me e, acho que pela primeira vez, sem me importar se estava ser bom para ela ou não. Acabei por me vir em poucos minutos, tendo Susana obtido apenas prazer no facto de ter terminado.
Regressei ao meu lado da cama, dando-lhe um beijo com ternura nos lábios, ao qual ela mal retribuiu. Na verdade, fora um momento de sexo sem grande sabor para mim e nenhum para ela. Fazer amor era algo em declínio entre nós, já não havia a paixão de outros tempos e muito menos a intensidade e fogosidade de anos antes. Uma paixão, uma intensidade, um desejo, uma tesão que a ideia de um encontro com Márcia deixava adivinhar.
Na manhã seguinte, fui acordado por Susana que gentilmente me abanou para me despertar. Abri os olhos e vi-a já arranjada para sair. Nesse instante, Ivana entrou de rompante no quarto e saltou para cima de mim para me dar um beijo de bom dia. Eu retribuí e dei-lhe os parabéns pelo seu aniversário.
─ Vou levar a Ivana à escola. ─ informou Susana num tom neutro. ─ Preciso que vás buscar o bolo e depois o leves à escola para a festa dela.
─ Tudo bem. ─ concordei, sorrindo-lhe.
Ivana estava delirante por ser o seu dia de anos. Deu-me mais um beijo e regressou para junto da mãe.
Eu segurei a mão de Susana, o que a surpreendeu, e pedi a Ivana que esperasse a mãe na sala.
─ Porquê? ─ interrogou a minha pequenina.
─ Vai lá.
Ela acatou o meu pedido, despediu-se e saiu do quarto.
─ Que se passa, Ivan? ─ indagou Susana, após a saída da nossa filha.
─ Quero pedir-te desculpa por ontem.
─ Desculpa de quê?
─ Quando fizemos amor. ─ expliquei, acariciando os seus dedos na minha mão. ─ Não foi bom para ti e eu também não fui paciente.
Susana abriu um ligeiro sorriso e abanou a cabeça.
─ Não te preocupes. Não precisas de pedir desculpa. ─ disse, apertando-me carinhosamente a mão que segurava os dedos. ─ Já não estávamos juntos há algum tempo, é natural que tivesses vontade. Eu é que… Enfim, tu sabes.
─ Sei que és uma mulher extraordinária. Eu amo-te, Susana!
─ Eu também te amo!
Trocámos um beijo carinhoso e Susana foi ao encontro da filha, não sem antes me repetir a recomendação de que fosse buscar o bolo de aniversário e o levasse à escola para a festa da nossa filha, nessa tarde.
Tal como fizera nos anos anteriores, desde que Ivana entrara para a escola e o seu aniversário não coincidia com um Sábado ou um Domingo, a meio da tarde levei um bolo de anos comigo quando fui à escola, à sala da sua turma. Aproveitávamos a hora do lanche para reunir os miúdos à volta do bolo e cantar os parabéns. Ivana adorava o momento, pois ser o centro das atenções sempre a fascinara.
Para além do bolo, também levava um saquinho com doces para cada um dos colegas de Ivana.
Claro que os imperativos profissionais nunca permitiam que Susana estivesse presente.
A festa não se prolongava por muito tempo, apenas o suficiente para cantar os parabéns, soprar as velas, comer uma fatia de bolo e beber um copo de sumo. Por fim, distribuía os saquinhos pela turma e vinha embora, regressando ao fim da tarde para ir buscar Ivana no término da aula. Se fosse um fim-de-semana ou eu tivesse disponibilidade para isso, teria organizado uma festa lá em casa para os amiguinhos de Ivana. Contudo, naquele ano, o calendário que eu próprio definira para a minha equipa impedia-me de o fazer. Felizmente, Ivana compreendera e já ficara bastante feliz com o facto de eu ter podido estar presente.
Nessa noite, Susana e eu levámos a nossa filha a jantar fora, algo que ela também adorava e festejámos os três o seu aniversário.
Eu regressei a Portugal na manhã seguinte, bem cedo. Senti que estivera pouquíssimo tempo com Susana e principalmente com Ivana. Mas, já fora bom e em breve estaria de regresso para ficar bastante tempo, pois por muito que o transmitisse a quem me rodeava, eu não acreditava que fosse possível vencermos os dois jogos.
Em Tábua e mais especificamente nos treinos em Paúle, Laurinda comandara o grupo e seguira à risca todas as directrizes que lhe deixara. Só cheguei ao hotel após o jantar, uma vez que desde a viagem de avião até Lisboa, passando pela viagem de comboio para Coimbra e finalizando com o autocarro até Tábua, só a essa hora o consegui.
No hotel, Laurinda aguardava-me na recepção para me dar conta dos três dias de treino. Todo o plantel já recolhera aos quartos, bem como o restante staff.
Confesso que o cansaço me deixara de rastos, mas não deixei de ouvir a minha adjunta com o relatório das sessões de treino. Porém, quando por fim entrei no meu quarto, aterrei na cama e só acordei na manhã seguinte.

Dois dias antes do jogo com a Holanda, ao fim da tarde, após o regresso de mais uma sessão de treinos em Paúle, encontrei o meu pai no bar do hotel. Vinha com as minhas jogadoras, a entrar no edifício, quando Joselino me informou da presença dele lá.
A sua vinda a Paúle não era surpresa, ele próprio me dissera que partiria com a minha mãe para passar o mês de Dezembro em casa da minha irmã, tal como acontecia todos os anos. O facto de ele ter vindo ao hotel em Tábua é que me deixava curioso e até apreensivo, não fosse algo menos bom ter acontecido. Eu sabia que eles chegavam nessa tarde e eu dissera-lhe que viessem ambos ao hotel num dos dias seguintes. Porém, vê-lo logo após a chegada e sozinho, confesso que me deixou alarmado.
No bar, cumprimentei-o com um abraço e um beijo, como sempre fazia. O seu sorriso descansou-me sobre a hipótese de más notícias.
─ Não esperava a tua visita já hoje. ─ disse eu. ─ E a mãe?
─ Ficou com a tua irmã. ─ informou, baixando o olhar. ─ Precisava de falar contigo… Não sei se é boa altura.
─ Que se passa, pai? Estás a deixar-me preocupado.
O meu pai abanou a cabeça, desvalorizando o assunto que o trazia ali. Voltou a sorrir e explicou:
─ Não aconteceu nada, descansa. Vim só para conversar. ─ Fez uma pausa como se procurasse as melhores palavras. ─ Conversar sobre este desentendimento parvo entre ti e a tua irmã.
Eu encolhi os ombros, constatando:
─ Há pouco a dizer sobre isso, pai. Nós deixámos de falar um com o outro por causa do que aconteceu. Ela foi muito estúpida nas coisas que me disse.
─ Mas tu também tiveste culpa por teres encoberto a relação da tua sobrinha com a outra… Nem sei que nome lhe dar.
─ Eu não encobri nada. ─ contrapus. ─ Tentei resolver a situação sem que isso chegasse ao conhecimento da Manuela para a poupar. Jamais me passou pela cabeça que a Cibele tivesse tamanha astúcia. Além disso, nada justifica as ofensas…
─ Ivan, Ivan. ─ interrompeu o meu pai. ─ Não há maneira de vocês colocarem uma pedra sobre esse assunto? Vem aí o Natal. A vossa mãe anda muito desgostosa por os filhos não se falarem. Eu vim cá para ver se te convencia a pedir-lhe desculpa…
─ Pai! Eu não vou pedir desculpa quando fui eu o ofendido. Se alguém tem de pedir desculpa é ela. Mas, eu nem isso exijo. Se a Manuela quiser voltar a falar comigo, basta que dê o primeiro passo. Basta que me fale. Não preciso de pedidos de perdão.
─ Vocês são dois orgulhosos. ─ concluiu o meu pai. ─ Vou falar com ela, a ver se a convenço. ─ Que dois casmurros.
─ Diz à mãe para passar por cá.
─ Esperemos que não seja necessário e sejas tu a ir a casa da tua irmã.
Ainda ficámos mais algum tempo à conversa, pois ele quis saber como estava a correr o estágio. Dei-lhe uma perspectiva optimista, apesar de eu não estar tanto quando demonstrava.
Quando nos despedimos, garantiu-me que iria falar com a minha irmã. Infelizmente, Manuela tinha um orgulho que mal cabia dentro dela, o que a levou a recusar a ideia de dar o primeiro passo. Queria um pedido de desculpa por eu supostamente ter dado cobertura ao romance entre Cibele e Lívia.
A sua decisão foi-me comunicada pelo meu pai no dia seguinte, aquando da sua visita na companhia da minha mãe. Mal a vi, tive a certeza da recusa de Manuela. E a minha mãe não escondia a tristeza pelo nosso desentendimento. Mais uma vez, os meus pais tentaram convencer-me a pedir-lhe desculpa. Porém, apesar de lamentarem, respeitaram a minha recusa.
Fim do capítulo

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