AS MAGRIÇAS · Capítulo 32

Capítulo XXXII

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A meio de Abril, a Alemanha recebeu e venceu a Holanda, elevando para doze pontos em quatro jogos a sua liderança no grupo. Em segundo lugar estava a Inglaterra com sete pontos em cinco jogos. Nós tínhamos quatro jogos como a Alemanha e seis pontos. E em último, sem qualquer hipótese de qualificação, a Holanda com um ponto em cinco jogos.
Pela matemática, só nós poderíamos impedir a qualificação directa das germânicas, mas para isso era necessário vencer o jogo contra elas, vencer na Holanda e esperar que a Inglaterra as vencesse em Londres. Tudo demasiado improvável.
Assim, restava-nos lutar pelo segundo lugar com as inglesas, o qual nos permitia a participação numa eliminatória de acesso ao Campeonato do Mundo.
Duas semanas separavam a recepção à Alemanha da deslocação à Holanda. Por isso, quando regressei à Suíça após o jogo em Inglaterra, contactei o senhor Simões para propor um novo estágio em Paúle como sucedera em finais do ano anterior. A minha ideia era simples, um estágio com início uma semana antes da recepção à Alemanha e que se prolongaria até regressarmos da Holanda.
O senhor Simões levou a proposta ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol e eu tive esperança de que fosse aceite. No entanto, ela foi recusada, uma vez que a garantia do terceiro lugar já era bastante positivo e não havia necessidade de aumentar os encargos com aquela secção da Federação. Assim, a concentração das jogadoras ficou agendada para o primeiro dia do mês de Maio.
Ao longo deste tempo, entre o regresso à Suíça em Fevereiro e nova partida em Maio, os contactos com Márcia foram poucos e quase sempre por email. Não houve possibilidade de conversas virtuais, mas falámos algumas vezes por telefone. Os meus sentimentos por Márcia eram paradoxais, pois se por um lado a desejava ardentemente, por outro a culpa assolava-me sem descanso pela traição que estava a fazer a Susana. E com Susana as coisas também não se tinham alterado e fui deixando de a procurar para fazer amor. Acho que naqueles dois meses só o fizemos por três ou quatro vezes, sempre sem grande satisfação, apenas porque o corpo pedia.
Ivana continuava a ser a criança alegre de sempre e a boa aluna dos anos anteriores. Quando lhe contámos que nos iríamos mudar para Portugal no Verão, ela ficou triste por se afastar das amigas. Seria a sua primeira grande mudança de ambiente diário, uma nova casa, uma nova escola, novos colegas… Sei que não iria ser fácil.
A Federação escolhera para palco do jogo com a Alemanha, o Complexo Desportivo de Quarteira, ignorando por completo o meu desejo de voltar a jogar em Tábua que me daria garantias de muitas pessoas a apoiar. Nesse ano não se disputara a Algarve Cup, o mundialito de futebol feminino, e houve a necessidade de compensar a região com a realização daquele jogo oficial.
Durante a minha ausência, Laurinda manteve-me informado do que se ia passando no campeonato português, onde o 1º Dezembro continuava a ganhar. A minha esperança era que ela descobrisse um novo talento que pudéssemos convocar para a equipa nacional, mas tal nunca aconteceu. O facto mais significativo foi o convite que Vanda recebeu para treinar no Ponte Frielas, clube da segunda divisão sediado na região de Lisboa.
A concentração das jogadoras estava marcada para um hotel em Vilamoura durante o primeiro dia de Maio. Desta vez não haveria encontro junto ao edifício da Federação, de forma a dar mais liberdade de horário para as deslocações das jogadoras desde casa até Vilamoura. Sendo assim, fiz a viagem de avião entre Genebra e Lisboa nessa manhã.
Susana deixara-me no Aeroporto de Genebra por volta das seis da manhã, cerca de uma hora antes da partida do voo. Era um voo cedo, mas eu pretendia chegar o quanto antes ao local de estágio. No último ano fizera aquele trajecto algumas vezes, as suficientes para se tornar uma viagem monótona. Conforme o meu plano, o avião aterrou na Portela pouco depois das oito e meia, hora de Portugal.
Saí do Aeroporto irradiado pelo Sol lusitano primaveril. Entrei dentro de um táxi e pedi ao motorista que me levasse até à Estação Oriente, onde iria comprar bilhete para viajar no comboio Intercidades até Faro. Entre procedimentos com a chegada do voo, recolha de bagagem, fila para o táxi e respectivo trajecto, só quase uma hora depois de aterrar é que cheguei à estação ferroviária.
Como tinha feito um apontamento com os horários dos comboios para Faro, sabia que o que pretendia só partiria depois das dez da manhã, por isso dirigi-me calmamente até à bilheteira, carregando a minha bagagem. Enquanto subia as escadas rolantes, ouvi o aviso da chegada do comboio Intercidades proveniente de Braga.
Na Estação Oriente, as bilheteiras estão localizadas no piso abaixo das linhas ferroviárias. Era curioso sentir o chão a tremer à passagem das composições. Caminhando por esse piso, vi algumas pessoas descerem as escadas, vindas do comboio que acabara de chegar, quase todas seguiam para a saída, excepto uma meia dúzia que seguiu na mesma direcção que eu. Uma dessas pessoas chamou a minha atenção, pois para além de ser portadora de uma elegância e beleza fora do normal, era também minha conhecida. Vi-a parar atrás das duas pessoas que faziam fila para a bilheteira e parei atrás dela.
─ Olá Ariela! ─ cumprimentei, surpreendendo-a.
Por instantes, o seu rosto revelou um enorme espanto, depois ficou sem saber muito bem o que dizer tal fora o inesperado da situação.
─ Olá mister! ─ acabou por dizer, meia engasgada.
Senti a corrente de ar forte que atravessava o interior da estação e olhei para a fila.
─ Também vai comprar bilhete para Faro?
─ Sim, mister.
─ Trate-me por Ivan, Ariela. ─ pedi, incomodado com aquela forma formal como as jogadoras me tratavam. ─ Podemos viajar juntos. ─ sugeri, percebendo que isso não a deixava muito à vontade e talvez fosse um incómodo para si. Calculo que preferisse viajar sozinha, uma vez que não existia grande proximidade entre nós.
─ Sim… ─ concordou, meio a contragosto.
─ Peço desculpa, Ariela. ─ disse eu com simpatia e sorrindo. ─ Estou a ser intrometido, se calhar prefere viajar sozinha.
─ Não. ─ retorquiu retribuindo o sorriso. ─ Tenho todo o gosto que me faça companhia. Estou só um pouco surpresa por o encontrar aqui.
Não pude evitar de a olhar com atenção. Ariela parecia mais uma modelo que uma jogadora de futebol, vestindo uma camisola rosa bem justa, com as letras Guess esticadas sobre o peito, e calças de ganga azul-claras que lhe contornavam a pele com rigor. Parecia mais baixa que o costume, por causa das sapatilhas rasas da cor da camisola. O seu cabelo louro estava penteado e caído sobre os ombros, sem estar preso em rabo-de-cavalo como nos momentos dos treinos e jogos. Trazia uma pequena mochila às costas e uma mala de viagem com rodas que puxava atrás de si.
─ Vieram mais jogadoras consigo? ─ indaguei, quando só uma pessoa nos separava da bilheteira.
─ Não. Eu vim sozinha. Apanhei o comboio em Aveiro até aqui.
A última pessoa afastou-se e eu aproximei-me do funcionário da CP que vendia os títulos de transporte.
─ Dois bilhetes no Intercidades para Faro. ─ Olhei para Ariela que procurava a carteira dentro da mochila. ─ Depois fazemos contas, Ariela, não precisa de pagar já.
Eu teria preferido viajar no Alfapendular, uma vez que teria muito menos paragens e seria uma viagem mais rápida. No entanto, só existiam duas ligações por dia, uma muito cedo e outra muito tarde para mim. Assim, esperava-nos uma viagem de cerca de quatro horas.
─ Posso oferecer-lhe um café? ─ convidei.
Ariela aceitou e fomos beber um café num pequeno snack-bar ali mesmo.
Apesar de só partir daí a uns vinte minutos, a locomotiva com as carruagens já se encontrava parada na linha 3 da estação. Subimos as escadas rolantes e sentimos o vento a soprar forte nos apeadeiros. Ariela não falou quase nada até entrarmos no comboio, talvez por falta de assunto comigo ou mera timidez. Escolheu ficar do lado da janela, deixando-me o lugar do lado do corredor. A nossa carruagem estava praticamente vazia.
─ Como estão as coisas no seu clube? ─ perguntei, procurando um motivo de conversa.
─ Bem. ─ respondeu, mantendo o olhar no exterior.
─ Parece que vamos ter bom tempo. ─ constatei, olhando na mesma direcção.
─ Esperemos que sim. Nos últimos dias tem chovido muito na Murtosa. Mas o Algarve é o Algarve, por isso não deve chover.
─ Já estive no Algarve com muita chuva. ─ alertei.
Ouvimos o aviso sonoro da locomotiva a preparar-se para rolar nos carris. Mais algumas pessoas tinham ocupado os seus lugares no interior da carruagem e na estação soou a voz gravada que indicava que o comboio iria partir.
Ariela pegou na revista que comprara nessa manhã para ler, enquanto eu retirei o meu bloco de apontamentos para rever algumas ideias acerca do jogo com a Alemanha. Continuava a ter sérias dúvidas acerca da táctica para defrontar as alemãs, se manteria as três defesas ou colocaria mais uma. Era importante conseguir pontuar para nos deixar em igualdade pontual com as inglesas e manter a esperança de poder chegar aos play-offs de apuramento. A História dizia que os jogos com a Alemanha só nos traziam derrotas e goleadas, por isso, a missão era quase… impossível.
─ Já escolheu as eleitas? ─ questionou Ariela, despertando-me dos meus pensamentos. ─ Desculpe… Não tenho nada com isso.
─ Ainda não. ─ respondi, ignorando as desculpas. ─ Vai tudo depender da táctica.
─ Elas são muito fortes.
Eu ia rebater aquela ideia de invencibilidade patente no tom de Ariela, quando o meu telemóvel tocou.
─ Olá, querido! ─ cumprimentou Márcia, quando atendi. ─ Já chegaste?
─ Estou a caminho de Faro. ─ Nas nossas trocas de email, informei-a de que estaria em Portugal alguns dias e que chegaria naquele, mas sem mais pormenores. ─ Volto a Lisboa no início da próxima semana.
─ Podemos combinar alguma coisa…
─ Sim, claro.
─ Estou ansiosa por te voltar a ver.
─ E eu a ti.
─ Adoro-te, meu querido.
─ Eu também.
─ Vais estar na Net, logo?
Não fazia a mínima ideia se sim ou não, tinha muitas coisas para planear para esses dias até ao jogo. Respondi que se fosse possível, estaria online à noite.
─ Um beijo bem doce na tua boca. ─ ofereceu em jeito de despedida.
Quando desliguei, senti-me pouco à vontade perante Ariela, como se ela tivesse estado a ouvir a conversa e de alguma forma me condenasse. Contudo, quem me condenava era a minha consciência, pois se Ariela ouvira alguma coisa, não o revelou nem saberia quem era ou qual a relação entre nós, e manteve-se atenta à revista.
O comboio atravessou a ponte 25 de Abril, presenteando-nos com uma vista fabulosa sobre Lisboa, o rio reflectindo os raios solares brilhantes com vários barcos a navegar e a encosta da margem sul até tudo desaparecer na escuridão do túnel que antecedia o Pragal.
Pelo menos até Setúbal, todas as estações forneceram passageiros àquela composição de carruagens. Logo que entrávamos, víamos muitas pessoas com malas que aguardavam para se juntarem a nós na viagem. Ainda pensei que em Setúbal, Mara fosse uma das passageiras a entrar para seguir também para o Algarve, uma vez que também estava convocada e vivia naquela cidade ribeirinha do Sado. Se fez a viagem de comboio, não ia naquele.
A partir daí, as paragens nas estações quase não traziam passageiros novos, servindo só para tornar a viagem mais morosa.
Durante esse tempo, Ariela e eu fomos conversando sobre o que de mais comum existia entre nós, futebol. Falei sobre a minha carreira desportiva, os clubes que representara, a ida para Paúle… Claro que não falei em Camila nem na minha vida pessoal. Contei-lhe as duas idas fracassadas para o Benfica, a forma como o empresário Ambrósio me prejudicara, não referindo que viria a partilhar a minha vida com a sua ex-mulher de quem tenho uma filha.
─ Nunca poderia trair o meu empresário. ─ afirmei com convicção. ─ É um grande amigo e nunca me abandonou, nem quando a minha carreira terminou.
─ Já ouvi falar nele. ─ disse ela. ─ Chama-se Jorge, não é?
─ Sim. Ficou famoso com a transferência do José Luís depois de termos vencido a Taça de Portugal.
Ariela escutava-me com atenção e parecia agradada com o facto de estarmos a falar normalmente sem aqueles silêncios incómodos. Recordava-se da vitória do Paúle e das notícias da época.
─ Sempre me pareceu um excelente profissional. ─ constatou. ─ Quem me dera poder ser representada por alguém assim.
─ Posso falar com ele. ─ ofereci.
─ Obrigado. ─ agradeceu Ariela, sabendo que isso poderia catapultar a sua carreira de futebolista. Eu achei difícil que isso pudesse acontecer, pois em Portugal não poderia evoluir muito e naquela altura ainda só havia uma jogadora de futebol no estrangeiro e os clubes estrangeiros não davam importância às nossas jogadoras. Jorge, quando lhe pedisse, iria certamente ajudá-la a encontrar um bom clube estrangeiro, mas seria muito difícil colocá-la. ─ Sempre achei muito injusto aqueles artigos sobre ele nas revistas cor-de-rosa.
Sabia ao que Ariela se referia. O sucesso de Jorge era alvo de inveja e a forma cobarde que muitas pessoas tinham de o atingir era escreverem artigos acerca da sua homossexualidade.
─ Nunca tive nada a dizer da sua sexualidade. ─ expliquei a Ariela. ─ O Jorge e o seu companheiro já têm uma relação de muitos anos e partilham um amor que faz inveja a muitos casais heterossexuais.
─ Infelizmente, ainda há muita homofobia na nossa sociedade. ─ constatou Ariela com pesar.
─ Para lhe ser sincero, Ariela, a sexualidade das pessoas é indiferente. O que interessa é o seu carácter. Mas, concordo consigo, a homossexualidade é muito mal-aceite na nossa sociedade. Bem vejo pela minha irmã…
Aquele último desabafo provocou curiosidade em Ariela.
─ A sua irmã? Ela não gosta do seu empresário?
─ Não, nada disso. ─ recusei a ideia, sabendo que as vezes que Manuela estivera na presença de Jorge sempre o tratara com toda a simpatia. ─ A Manuela, a minha irmã, descobriu no Verão passado que a minha sobrinha é lésbica.
Ariela abanou a cabeça de uma forma condenatória e disse:
─ Deveria ser a primeira a apoiá-la.
Notei que havia algo de pessoal naquela frase. Apesar da minha curiosidade, não aprofundei isso e continuei:
─ A minha irmã vive em Paúle, mudou-se para lá quando eu lá jogava por causa do ex-marido e acabou por se apaixonar pelo meu cunhado que é de lá. No Verão passado, eu regressei a Paúle para passar uns dias de férias. Ela andava com suspeitas de que a filha andasse a esconder alguma coisa, por isso pediu-me que a seguisse e descobrisse. Não era algo que me apetecesse, mas certo dia vi-a passar e segui-a. Acabei por descobrir que ela se encontrava às escondidas com uma mulher que trabalhava no clube e que tinham uma relação.
─ Que idade tem ela? ─ interrompeu Ariela.
─ Dezasseis anos. ─ respondi. ─ E a outra deve ter a minha.
─ E contou à sua irmã.
─ Não. ─ neguei, pensando sempre que quem me ouvisse considerasse que fizera mal. ─ Optei por falar com a minha sobrinha. ─ Ariela assentiu como se concordasse com a atitude. ─ Na verdade, o facto de a minha sobrinha ser lésbica deixava-me algo… Não sei explicar, era estranho. Mas a minha preocupação era aquele relacionamento com uma mulher uns vinte anos mais velha. Para mim era claro que a outra se estava a aproveitar dos sentimentos da minha sobrinha. E a prova é que quando isso se descobriu, ela desapareceu. ─ Ariela abanou a cabeça, considerando isso um mau acto. ─ Falei com a Cibele, a minha sobrinha, e ela comprometeu-se a afastar-se da outra tipa.
─ E o Ivan acreditou. ─ adivinhou ela, fazendo-me sentir ingénuo. ─ Ela estava apaixonada, não iria desistir assim. E pelos vistos, só ela é que estava, se a outra a abandonou.
─ Eu quis acreditar. E estava certo que ela o fizera até termos descoberto as duas, no quarto da minha sobrinha a… Bom, a Ariela pode imaginar.
Ariela assentiu, revelando que não era preciso dar-lhe mais pormenores.
─ A minha irmã ficou em choque. ─ prossegui, revendo o momento na minha mente. ─ Mas a minha sobrinha desviou as atenções sobre ela, dizendo que eu sabia e que a apoiava. Foi o suficiente para a Manuela se virar contra mim e me responsabilizar pelo sucedido. Enfim… gerou-se uma discussão e até hoje não nos falamos.
Ariela lamentou o facto e inquiriu:
─ E depois? A sua sobrinha?
─ A minha irmã mandou-a para um colégio interno. ─ relatei. ─ A outra tipa desapareceu completamente, mas nem assim a Manuela dá espaço à filha. A pobre Cibele é quase uma presidiária.
O rosto de Ariela revelou bem a sua indignação perante o que lhe contara. Por momentos ficou em silêncio e depois acabou por dizer:
─ Isso não é forma de resolver o problema. Recordo-me bem quando pela primeira vez falei com os meus pais sobre a minha sexualidade e do facto de ser lésbica.
Fiquei de queixo caído e não consegui disfarçar o meu espanto.
─ O Ivan não sabia? ─ perguntou ela. Eu abanei negativamente a cabeça. ─ Não é algo que ande aí a fazer publicidade, mas a Laurinda e a maior parte das jogadoras sabem.
─ Ela nunca me disse. ─ informei, recuperando lentamente da surpresa.
─ Acredito. A Laurinda é muito discreta. Mas, poderia ter comentado isso consigo.
─ Nunca pensei, sinceramente.
─ Parece chocado, Ivan. ─ reparou Ariela, quase arrependida por me ter contado.
─ Surpreso. ─ corrigi. ─ E peço desculpa por isso. Mas, confesso que seria a última jogadora de quem esperaria uma revelação dessas.
─ Porquê?
─ Não me leve a mal, Ariela, mas de todas as jogadoras, a Ariela é a que aparenta ser mais feminina. Talvez pudesse esperar isso da… ─ Optei por não dar nenhum exemplo, apesar de pensar logo na Maria João. ─ Não sei. Mas, como lhe disse, peço desculpa pela reacção.
─ Não tem importância. ─ disse ela com um enorme sorriso. ─ E obrigado pelo elogio. O facto de gostar de mulheres não faz com que não goste de ser mulher. ─ Ajeitou ligeiramente o cabelo. ─ Não sei de quem poderia esperar uma “revelação” destas, mas acredite que todas as minhas colegas, por mais “masculinas” que lhe possam parecer, são heterossexuais.
─ Fui preconceituoso. ─ constatei, penitenciando-me por isso.
─ Deixe lá. É uma reacção natural. ─ retorquiu. ─ Isso não faz de si má pessoa. Aliás, o Ivan até parece ser uma pessoa de bom carácter.
Agradeci o elogio e, recordando a sua frase reveladora, convidei ao relato da sua história.
─ Todos nós passamos por uma idade em que temos dúvidas sobre a nossa sexualidade. ─ prosseguiu ela, considerando que eu era confiável para partilhar aquilo ─ Na adolescência, senti-a atracção pelas raparigas da minha idade e os rapazes não me diziam nada. Mesmo assim, comecei a namorar com um, mas não durou uma semana. O Ivan pode achar-me anormal, mas o contacto com ele metia-me nojo.
─ Jamais acharia isso, Ariela.
─ Mais tarde, na brincadeira com uma amiga, daquelas brincadeiras de quem procura descobrir sensações novas, beijámo-nos e eu senti um grande prazer nisso. ─ Sorriu, pois, o seu olhar perdera-se no vazio, enquanto a sua mente vislumbrava essa recordação, tendo recuperado a atenção de súbito. ─ Bom, mas ela nem por isso.
─ Partiu-lhe o coração. ─ pensei alto.
─ Nada disso. ─ negou, oferecendo-me mais um sorriso. ─ Foi uma experiência que serviu para eu perder as dúvidas.
─ E como reagiram os seus pais?
─ A princípio mal. Mas depois fizeram aquilo que os pais devem sempre fazer que é apoiar os filhos, independentemente das consequências, desde que isso signifique a felicidade dos filhos. ─ Assenti com a cabeça, concordando com a sua ideia. ─ Sempre achei curiosa essa ideia de que a lésbica é uma mulher com aspecto másculo como se procurasse parecer um homem.
─ É um preconceito parvo. E eu penitencio-me por ele.
Ariela perdera toda a timidez, todo o desconforto inicial com a minha presença. Irradiava simpatia e distribuía-me sorrisos generosos. E com mais um desses sorrisos, concluiu:
─ Eu sou a contradição total dessa ideia. Não só porque, como diz sou muito feminina, como pelo facto de namorar uma modelo que de masculinidade não tem nada.
A nossa conversa foi interrompida pelo anúncio da chegada ao nosso destino. Todos os passageiros que restavam na carruagem pegaram nas suas malas e começaram a dirigir-se para a porta.
A temperatura no Algarve estava bastante agradável, quase como se fosse Verão. Um táxi aguardava a nossa chegada para nos levar até ao hotel onde a equipa se iria concentrar, um serviço que fora contratado pela Federação.
Ariela sentia-se algo constrangida a chegar ao hotel na minha companhia, uma vez que poderia transparecer no futuro que ela beneficiava de algum tipo de favoritismo. No entanto, ninguém nos viu chegar no táxi e entrámos no edifício afastados.
O hotel situava-se em Vilamoura, tinha vista para a marina e para o mar para lá da marina. Não era nenhum dos imponentes edifícios em primeira linha de costa e nem todos os quartos tinham a vista que eu tinha do meu. Todos os alojamentos destinados às jogadoras e equipa técnica ficavam no quarto andar. Subi sozinho no elevador e encontrei o meu quarto ao ver o número que me fora atribuído. Entrei, pousei a bagagem e dirigi-me à varanda para apreciar a vista que, para além do que já referira, permitia observar a piscina do hotel.
O meu dia corria bem. Apreciara bastante a companhia de Ariela durante a viagem e gratificado pela confiança que lhe ganhara ao ponto de me confidenciar algo tão íntimo quanto a sua sexualidade. Abandonei a varanda e arrumei as poucas coisas que trazia na mala.
De súbito, o bater na porta do quarto interrompeu a minha tarefa. Abri a porta e recebi Laurinda que me cumprimentou com um semblante carregado. O meu dia corria bem, mas deixou de correr a partir daquele momento.
─ A Lila está lesionada. ─ informou Laurinda quase num suspiro. ─ Teve uma queda ontem, quando ia para o emprego. Foi ao hospital, ainda se pensou que pudesse ter uma fractura, mas foi só um traumatismo. Só que não pode jogar.
Abanei a cabeça, lamentando este azar da capitã da minha equipa. Perdia uma peça importante para o confronto com a Alemanha e a voz de comando dentro de campo.
─ Temos de pensar em quem vamos escolher para o lugar dela. ─ lembrei, fazendo esquemas mentais das possibilidades.
─ Na minha opinião, acho que deveria abdicar da segunda atacante e jogar com duas laterais tradicionais. ─ sugeriu a minha adjunta. Apesar de não ser essa a minha ideia para o jogo, não exprimi qualquer resposta. ─ A Alemanha é muito forte. Seria importante tomarmos muitas precauções defensivas para evitar nova goleada.
─ Não é com dez defesas que se evitam goleadas.
─ Sim, mas… O nosso actual esquema táctico parece-me demasiado arriscado.
Assenti com a cabeça, concordando com os riscos inerentes àquela táctica. Mais uma vez não concordei nem discordei, disse apenas:
─ Qual é a sua ideia acerca de quem as deve capitanear?
Laurinda encolheu os ombros, revelando que não pensara nisso. Tal como eu, era da opinião que quem enverga a braçadeira tem de ter uma personalidade carismática e seja uma voz de comando dentro de campo. Tivesse ou não alguém em mente, a minha adjunta não se quis comprometer com uma sugestão, limitando-se a dizer:
─ Tenho a certeza que o Ivan fará uma boa escolha.
As decisões a tomar ocuparam-me parte da noite, antes de dormir. Não houve tempo para conversas na Internet, mas não deixei de ligar a Márcia para ouvir a sua voz e lhe mandar um beijo. Antes, ligara a Susana para lhe dizer que as viagens tinham corrido bem e para dar um beijo à nossa filha.
Não dormi mal, só que dormi com a tormenta da escolha da táctica e da capitã a assolarem-me os sonhos.
No dia seguinte, o primeiro treino no Algarve não foi táctico, somente físico para que as jogadoras descontraíssem um pouco, mas sem descurar a forma. Nogueira orientou a sessão, exigindo delas o esforço necessário a atletas que se querem bater com as melhores.
O segundo treino decorreu nesse fim de tarde, mais algum tempo de preparação física e depois treino de bolas paradas e posicionamento em lances ofensivos. Durante todo o dia, ponderei todas as opções. Tinha vontade de jogar de igual para igual com a Alemanha e manter somente três jogadoras na defesa. No entanto, a Alemanha era demasiado forte para corrermos esse risco e uma nova goleada podia deitar por terra toda a confiança que a minha equipa adquirira, mesmo após a derrota em Inglaterra. Assim, no final do treino, reuni as jogadoras à minha volta do relvado e partilhei com elas a minha decisão.
Penso que houve algum desapontamento nelas, quando comuniquei que jogaríamos com quatro defesas, tal como Laurinda me sugerira, colocando duas defesas laterais e duas defesas centrais. Desapontadas e conscientes de que a Alemanha era mesmo muito forte, as atletas acompanharam o assentimento expresso pela minha adjunta.
─ Como a Lila está lesionada, decidimos que a capitã para este jogo será a Ery.
Eu disse “decidimos”, mas Laurinda não conseguiu esconder a surpresa no seu rosto. Voltou a assentir com a cabeça e sorriu a Ery como que a felicitá-la. Contudo, sei que ela não a escolheria, pois lamentava sempre a forma temperamental como Ery jogava e que lhe valia mais cartões vermelhos que qualquer outra colega de equipa. Porém, a minha decisão pretendia reverter essa tendência em Ery, pois ela era boa jogadora e se contornasse o seu temperamento poderia ser muito mais valiosa para a equipa.
Perante os olhares de todas, dirigi o meu para Ery e disse:
─ Para mim, um capitão de equipa sempre foi um exemplo em campo para os colegas. É uma voz de comando e uma extensão do treinador. A Lila tem feito esse papel na perfeição. Calculo que todos aqui estejam a equacionar se estarás à altura da função que te estou a dar. Eu acredito que sim, acredito numa Ery com menos nervos à flor da pele e mais cabeça, jogando a pensar nas colegas e não em pontapear uma qualquer adversária que empurrou ou ofendeu. Eu acredito nessa Ery, com algumas dúvidas penso que as tuas colegas também acreditam. Só falta tu acreditares.
Todas as jogadoras assentiram e aplaudiram a entrega da braçadeira a Ery, incentivando-a e a revelarem que naquele grupo havia cada vez mais um espírito de equipa.
Fim do capítulo

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