AS MAGRIÇAS · Capítulo 33

Capítulo XXXIII

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Quarteira foi o palco para o confronto entre alemãs e portuguesas. Num dia de Sol envergonhado e onde as nuvens também quiseram assistir ao jogo, poucas centenas de pessoas ocupavam as bancadas, entre elas muitos turistas alemães que passavam férias no Algarve.
Desta vez, nenhum canal televisivo demonstrou interesse na transmissão do jogo. Talvez por causa da goleada sofrida na Alemanha, ninguém considerasse o investimento num jogo que poderia ser uma nova humilhação, já que os resultados entre elas e nós significavam sempre goleadas. Seja como for, a comunicação social não dava grande atenção ao futebol feminino e tudo o que fazíamos passava-lhes ao lado.
Beta e Nandinha foram as eleitas para as laterais da defesa. Com este sistema táctico, para não retirar consistência ao meio-campo, optei por só jogar com uma atacante, ficando a Fabiana a apoiar Mila no ataque. No resto não houve alterações.
As portuguesas que enfrentaram as alemãs, apesar de quase todas serem as mesmas do jogo em Wolfburgo, não tinham qualquer semelhança com essas que foram humilhantemente derrotadas por quinze golos sem resposta. E lutaram olhos nos olhos com algumas das melhores jogadoras de futebol do Mundo. Ariela deu um festival de futebol, deixando a sua marcadora quase desesperada para travar as suas investidas. No lado direito, Ery dava boa conta da sua função, controlava o temperamento e correspondia bem à responsabilidade que trazia no braço.
Mesmo assim, as alemãs controlavam o jogo e tinham mais posse de bola que nós. Apesar de não terem a mesma facilidade que no último confronto, elas chegavam à nossa defesa e criavam muito lances de perigo que felizmente não conseguiam converter em golo, pois as defesas Cati e Tuxa mantinham-se à altura e cortavam todas as jogadas. E das poucas vezes que não o conseguiram, estava lá Paula Rita para segurar a bola.
Na frente, Mila não tinha hipóteses contra a defesa alemã, nem mesmo nas vezes em que tanto Fabiana, como Ariela ou Ery surgiam para a apoiar. Contudo, a meio da primeira parte, Mila ganhou uma bola de cabeça a uma adversária e passou-a a Fabiana. Esta rematou, mas a bola embateu nas pernas da sua marcadora directa. Porém, na recarga, Ariela rematou e a bola embateu violentamente na barra da baliza alemã. Estivemos tão perto de marcar…
E para surpresa geral, perante sucessivas vagas de ataque germânico, foi mais uma vez Ariela que esteve perto de inaugurar o marcador, ao rematar à entrada da grande área, obrigando a guardiã adversária a uma defesa fenomenal.
O intervalo chegou e estava tudo como no início.
A segunda parte do jogo trouxe mais do mesmo, a Alemanha a dominar e nós a defender o melhor que podíamos. As nossas tentativas de ataque reduziram-se imenso, devido ao cansaço. Mesmo assim, as portuguesas jogavam bem e, a vinte minutos do fim, parecia possível o escândalo internacional que seria a Alemanha não vencer uma formação amadora.
Ganhar seria um sonho, mas o empate era excelente para as nossas tímidas ambições de chegar às eliminatórias para o Campeonato do Mundo.
Esse pontinho colocava-nos em igualdade pontual com as inglesas à entrada da última jornada do grupo. Só que aos setenta e cinco minutos de jogo, a Alemanha conseguiu finalmente fazer a bola entrar na nossa baliza. Tanto eu, como Laurinda e as suplentes gritámos incentivos para dentro do relvado, após o golo, mas o cansaço e a desmoralização por terem estado tão perto de um feito histórico destroçou-as por completo. E até ao fim, as alemãs marcaram por mais duas vezes e a partida terminou com três golos a zero para a Alemanha.
Ao fim de cinco jogos, a Alemanha estava mais que qualificada com quinze pontos, a Inglaterra em segundo com sete pontos, nós em terceiro com seis e em último a Holanda com um único ponto. Na última jornada, aquela que decidiria quem iria às eliminatórias para a última vaga do Mundial, a Inglaterra receberia a Alemanha e nós viajaríamos até à Holanda.
As jogadoras portuguesas tinham tido uma boa evolução e apresentavam-se como uma equipa com mais hipóteses competitivas que quando eu chegara. No entanto, todos tínhamos consciência de que mesmo não sendo um colosso do futebol mundial, a Holanda era um adversário complicado e difícil de vencer na sua casa. A Inglaterra empatara lá e, se nós conseguíssemos fazer o mesmo, de nada serviria nem que a Alemanha as vencesse, pois a igualdade pontual entre nós e as inglesas dava-lhes vantagem.
A minha cabeça ia envolvida nestes pensamentos, durante a viagem entre o Algarve e Lisboa. A Federação colocara à disposição da comitiva o autocarro que nos conduzira entre o hotel e o estádio para que viajássemos até à capital. Daí, cada um seguiria o seu caminho até casa. Nem me apercebi muito da viagem, pois uma ideia importante me assolou o espírito: após o jogo com a Holanda eu estaria desempregado.
Acredito que os dirigentes da Federação me renovassem o contrato, pois o senhor Simões já tinha aflorado essa possibilidade tempos antes, uma vez que estavam satisfeitos com o meu trabalho. Só que treinar a equipa nacional feminina representava poucos jogos, pouca competição, fracas hipóteses de sucesso e nenhuma projecção para a minha carreira como treinador.
A viagem acontecera no dia seguinte ao jogo e a chegada a Lisboa ao fim dessa manhã. Todos os elementos se despediram em frente ao edifício da Federação, local onde o autocarro nos deixou. As jogadoras formaram alguns grupos, juntando-se as que viajariam para os mesmos locais, como aconteceu com Ariela que de comboio seguiria com as colegas do Norte.
O meu voo estava marcado para o fim dessa tarde. Na noite anterior telefonara a Márcia e convidara-a a encontrarmo-nos antes da partida. Quando lhe disse, mais ou menos, a que horas chegava, ela sugeriu que almoçássemos juntos.
Após as despedidas das jogadoras e restante equipa, afastei-me do local e peguei no telemóvel. Caminhando tranquilamente em direcção ao Marquês de Pombal, marquei o número e aguardei que Márcia atendesse.
─ Olá querido! ─ atendeu ela com uma voz doce.
─ Já cheguei. ─ informei, prestando atenção aos carros para poder atravessar uma rua. ─ Onde nos encontramos?
─ Vou sair agora. Vai ter comigo à entrada do parque onde tenho o carro. ─ Fez uma pausa e colocou um tom ainda mais sedutor. ─ O mesmo onde nos beijámos.
Márcia excitava-me, deixava-me ansioso e desejava-a. Sabia que o que estava a fazer era incorrecto, mas parecia que o tempo que decorrera desde os beijos que trocáramos me fizera acreditar que aquela relação nada tinha de mal. Ela era apenas uma amiga com quem podia passar bons momentos. Estava a trair Susana, mas perante o prazer que era ter uma amante como Márcia, essa traição era irrelevante. E para mais, dizia a mim próprio, nem era nada de grave, pois só trocávamos alguns beijos na boca.
Aguardei junto à entrada do parque automóvel subterrâneo do Parque Eduardo VII. Alguns minutos mais tarde, Márcia surgiu do lado contrário ao meu. Tal como da última vez que a vira, vestia-se de forma formal, típica de uma ocupada advogada. Desta vez não desprendera os cabelos, mantendo-os presos na nuca. Ao ver-me, sorriu e cumprimentou-me com um beijo suave nos lábios, enquanto nos abraçámos.
Tive o cuidado de não lhe amarrotar o fato, mas ela apertou tanto o seu abraço que eu pude sentir o seu peito comprimir-se contra o meu.
─ Que saudades. ─ disse ela junto do meu ouvido.
─ Muitas mesmo. ─ confessei, sentindo que tivera mais saudades dela que aquilo que imaginara.
Márcia abriu o abraço e eu soltei a sua cintura do meu. Ela olhava-me deliciada e parecia querer voltar a beijar-me, mas não o fez. Parecia preocupada que alguém conhecido a visse, pois olhava muitas vezes em volta do local onde estávamos.
─ Onde vamos almoçar? ─ indaguei.
Com a mão no meu peito de forma inconsciente, Márcia sugeriu que almoçássemos por ali perto. Eu concordei e preparava-me para a seguir, quando ela disse:
─ Mas antes, vem comigo.
Dando-me a mão, encaminhou-me pela entrada do parque. Caminhámos sem dizer nada, até eu ver que nos dirigíamos para o carro dela.
─ Mudaste de opinião? Queres ir a outro sítio? ─ interroguei, vendo-a puxar do comando do carro para abrir as portas.
─ Não. ─ negou ela, fazendo soar pelo silêncio do parque o som dos fechos das portas. Abriu uma das portas de trás. ─ Anda.
Aceitei o convite, largando a mochila que trazia e entrando atrás dela para o banco traseiro do seu Audi. Fechei a porta, enquanto Márcia despia o casaco. Mal me encostei, ela envolveu-me o pescoço com os braços e beijou-me.
Tal como eu, Márcia sentia um enorme desejo acentuado pelo longo período que estivemos afastados desde que nos conhecemos. No entanto, no jardim do Parque Eduardo VII à entrada do parque automóvel não havia privacidade para trocar alguns beijos que pudessem saciar aquele desejo que pairava no ar sempre que estávamos juntos.
No banco traseiro do seu carro, abraçámo-nos e beijámo-nos com enorme paixão e fogosidade. As nossas línguas dançavam ao ritmo do desejo, a nossa saliva misturava-se, os nossos lábios empurravam-se e saboreava-se. No auge de toda a tesão, meti a minha mão dentro da sua saia. Márcia travou-me com a sua mão e, entre beijos, disse:
─ Não. Aqui não.
Não insisti e continuámos a saborear-nos com beijos carregados de desejo um pelo outro.
Quando parámos, ficámos ambos encostados ao banco a olhar olhos nos olhos.
─ Tu és linda!
─ Ainda não viste nada. ─ retorquiu de forma trocista.
Eu sorri e acariciei-lhe o rosto com a mão que fiz descer até ao pescoço. Márcia segurou-a com a sua, pressionando-a mais contra o seu rosto e fechando os olhos para sentir todo o carinho do toque. Depois, sem abrir os olhos, confessou:
─ Gosto muito de estar contigo.
─ Eu também.
Márcia abriu os olhos, ofereceu-me um sorriso quase enamorado e voltou a beijar-me, desta vez com mais carinho que paixão.
─ É melhor irmos almoçar.
Concordei.
Vestindo o casaco e arranjando o cabelo, ela saiu do carro e eu fiz o mesmo no lado oposto. Márcia contornou o carro até mim e deu-me a mão. Eu pequei na mochila de viagem que deixara junto da roda e juntos seguimos para o exterior, rumo ao restaurante.
Já no meu lugar em pleno voo com destino à Suíça, ainda sentia na boca o doce sabor da sua língua. Até nos separarmos, só trocámos mais um beijo antes de eu apanhar o táxi que me levou ao Aeroporto.
O almoço fora muito agradável e conversámos bastante. Por vezes dávamos por nós a acariciar a mão um do outro ou a encostar as pernas por baixo da mesa. Porém, preocupámo-nos em não revelar muito o que partilhávamos, pois poderia aparecer alguém conhecido, principalmente de Márcia. Algo que ela não conseguia disfarçar era a forma como me olhava, um olhar que parecia despir-me, um olhar que queria mais que beijos, queria o mesmo que eu queria.
A relação com Márcia parecia ideal, sem compromissos, suficientemente discreta, uma amizade com benefícios. Só era pena que nos encontrássemos tão pouco devido à distância, mas isso era também a minha segurança, saber que Susana estava longe nesses momentos.
Desta vez, seria uma separação curta, pois dentro de menos de duas semanas estaria de volta a Portugal.
Nos dias que se seguiram na Suíça, para além das adoráveis recordações dos momentos com Márcia, a minha mente não esqueceu as perspectivas de futuro profissional.
─ Devias aconselhar-te com o Jorge. ─ sugeriu Susana, quando conversara com ela sobre o assunto.
A conversa acontecera quando Susana chegou do trabalho e me encontrou de semblante preocupado. Trocámos um beijo carinhoso e ela perguntou-me o que se passava. Expliquei-lhe que após o próximo jogo, a minha carreira chegaria a um impasse, pois não pretendia continuar a treinar a equipa feminina de Portugal.
─ Nós vamos mudar-nos no Verão. ─ lembrou ela. ─ Por isso, podes pensar em encontrar um clube para treinar perto de casa. Já não tens o problema da distância, como acontecia até aqui. E o Jorge tem muitos conhecimentos.
─ Sim. ─ concordei. ─ E nesta altura, é mais fácil aparecerem hipóteses de clubes à procura de treinador que em Agosto passado.
Susana despiu o casaco e desapertou alguns botões da camisa, dizendo:
─ Ele próprio te disse isso. Em Agosto já os clubes estão em início de época. Agora em Maio, é quando planeiam a próxima e quando mudam algumas coisas, inclusive técnicos. Olha, vou tomar um banho.
─ Posso ir contigo? ─ indaguei, dando a entender pelo olhar o que realmente pretendia.
─ Se quiseres mesmo “só” tomar banho. ─ concordou em tom de aviso.
O meu semblante revelou toda a decepção por ver os meus intentos frustrados. Susana continuava a evitar o sexo entre nós e eu, cansado das recusas, insistia cada vez mais raramente, só mesmo quando o corpo já não aguentava. Eu adorava Susana, amava-a tanto como no primeiro dia e desejava-a muito, pois para além de todo o amor que lhe tinha, ela continuava a ser muito bonita e atraente.
Nos últimos tempos, Susana percebera que eu deixara de a procurar tantas vezes como antes. Sabia que quando insistia era porque sentia essa necessidade e mesmo sem vontade, ela tinha consciência de que não era justo da sua parte vedar o sexo a alguém que lhe era fiel. Pois… Sexualmente eu continuava fiel, mas já fazia coisas que traiam em muito o amor de Susana. Ela sabia também que a recusa ali significava nova tentativa mais tarde ou no dia seguinte até ela corresponder, normalmente contornando o sexo com outras formas de satisfação.
Naquele momento, não pensei em insistir. Contudo, Susana viu uma oportunidade de contornar novamente o sexo.
─ A Ivana? ─ questionou.
─ Está no quarto a brincar.
─ Vou lá dar-lhe um beijinho. ─ disse ela. Depois, sorrindo-me e dando-me um beijo nos lábios, sussurrou. ─ Vai andando para o banho que eu já lá vou ter.
A sua frase foi uma ignição para que a minha tesão por si reflorescesse. Sem hesitar, fui para a casa de banho, despi-me e entrei no poliban.
Passaram-se poucos minutos. Só que eu estava tão habituado a que Susana frustrasse o meu desejo que comecei a suspeitar que ela iria demorar até me fazer desistir. Porém, desta vez estava enganado.
Susana entrou na casa de banho a desabotoar a camisa. Já largara a saia e os sapatos e caminhava descalça. Trancou a porta da casa de banho, dizendo:
─ Ainda não ligaste a água?
Acto contínuo, abri a água e o som dela a sair do chuveiro alastrou pelo ambiente. Temperei a temperatura da água, vendo Susana despir a camisa e a levar os braços atrás das costas para desapertar o fecho do soutien. Quando o fez, as alças perderam a força e caíram pelos seus braços, revelando-me os seus seios que continuavam bem firmes. Susana abriu um enorme sorriso ao olhar para mim, percebendo pelo meu corpo como vê-la me estava a deixar excitado. Por fim, levou as mãos ao elástico das cuecas e despiu-as, ficando completamente nua. Nos seus quarenta anos, Susana tinha um corpo de fazer inveja, firme, curvilíneo e atraente.
Para além da excitação, eu sentia a água a escorrer pelo meu corpo. Susana abriu a porta do poliban e entrou. Tentei abraçá-la, mas ela recuou.
─ Calma! ─ exclamou num tom trocista. ─ Eu disse que era só para tomar banho.
─ Não brinques… ─ disse eu, meio desesperado.
Susana afastou-me da água para que ela pudesse molhar-se sob o chuveiro. Não disse nada e limitou-se a molhar-se bem. Depois, olhou-me com um sorriso e deixou propositadamente que os fios de água caíssem suavemente pelos seus ombros e pelas curvas dos seus seios. Acariciou-os como se estivesse ingenuamente a lavá-los e perante o meu olhar e mantendo o tom trocista, inquiriu:
─ Que queres?
─ Tu sabes bem o que eu quero.
Susana saiu debaixo do chuveiro e aproximou-se de mim. Abraçou-me, fazendo a minha rigidez esmagar-se contra a sua barriga e beijou-me a boca. De seguida, afastou-se ligeiramente e começou a ajoelhar-se. Foi aí que percebi, que mais uma vez, Susana iria contornar o sexo.
Foi na manhã posterior que telefonei a Jorge.
─ O teu contrato é válido para a fase de qualificação. ─ disse ele, quando lhe falei no assunto. ─ Se fores às eliminatórias, ele prolonga-se automaticamente.
─ Eu sei, Jorge. Mas isso é muito improvável. ─ constatei.
Jorge fez uma pausa para pensar.
─ Tenho a certeza que eles estão satisfeitos com o teu trabalho. Se não passares esta fase de qualificação, penso que terão interesse em renovar o contrato para a próxima competição.
─ Mas isso não me interessa. ─ expliquei. ─ Se falharmos a qualificação, elas só voltarão a competir daqui a um ano. Quero trabalhar a tempo inteiro como treinador, não é ter um jogo de tempos a tempos.
─ Compreendo. ─ concordou Jorge, pensando numa solução.
─ Este Verão vamos regressar a Portugal em definitivo. ─ relatei, antes que ele desse alguma sugestão. ─ Sendo assim, já não estou limitado à procura de clube na Suíça para poder treinar a tempo inteiro. E como ainda estamos com tempo, pensei que pudesses encontrar-me uma equipa para a próxima época.
─ Ok, Ivan. ─ comprometeu-se, sempre disponível a ajudar-me. ─ Mas, não penses que será fácil. Talvez te consiga uma equipa feminina…
─ Não, Jorge! ─ recusei de forma abrupta. ─ Já chega de futebol feminino. Já fiz a minha parte. Quero algo mais competitivo.
─ Não esperes milagres. ─ avisou com realismo. ─ No teu currículo só tens o estágio na Suíça como adjunto e agora o cargo de treinador de Portugal em futebol feminino. E o futebol feminino não é grande referência como atributo para treinar no futebol profissional.
Jorge tinha razão e eu concordei com ele. Encontrar um lugar de treinador principal numa equipa profissional de futebol não seria tão fácil como parecia à partida. Aliás, foi mesmo muito difícil. Ele usou os seus contactos para me encontrar alguma proposta de trabalho que fosse ao encontro da minha ambição, só que esbarrou no desinteresse total dos clubes profissionais em me contratarem. Quando regressei a Portugal, antes do jogo com a Holanda, as únicas propostas que ele tinha era de duas equipas da primeira divisão distrital de Lisboa e talvez uma da terceira divisão nacional, mas que só poderia confirmar esse interesse no fim da época.
Eu já estava no hotel habitual em Lisboa, quando Jorge me telefonara com essas propostas. Ligara pouco depois de eu desligar o telefonema de Márcia, a quem ligara logo que chegara para combinar um encontro. E dessa vez, ela viria ter comigo ao hotel, ao quarto do hotel. Sabia que aquilo que fora um jogo de sedução virtual se tornara em algo bastante real e que avançava cada vez mais por um caminho perigoso de traição que poderia não ficar pelos beijos. Eu tinha noção dos riscos, sabia que era errado, mas naquele momento não me importei, pois o encanto que tinha em Márcia parecia justificar tudo.
Não me orgulho nada de mim, quando me lembro daquela noite. Tendo consciência do que iria fazer, ainda tive a frieza de ligar a Susana como sempre fazia quando estava ausente. Falei com a minha filha, mandei-lhe um beijo de boa noite e depois despedi-me de Susana com muito beijos e juras de amor, sentindo a enorme ansiedade pela chegada de Márcia. Por mais estranho que possa parecer, não fui falso ao falar com a mãe da minha filha. Susana era amor, Márcia era sexo. E naquele instante, o meu corpo queria sexo.
Fiquei a olhar pela janela do quarto para a noite escura sobre Lisboa. Lá em baixo, os carros circulavam nas ruas junto ao hotel e à Estação Oriente. Os sons dos carros eram a única coisa que eu ouvia, pois deixara o quarto no mais absoluto silêncio.
Despertei da minha hipnose de observação de carros com um bater leve na porta. Virei-me e caminhei pelo quarto até ao corredor que ligava a zona onde ficava a cama até à porta. O corredor tinha a mesma luz do quarto, iluminando o espaço estreito com um roupeiro numa parede e a porta da casa de banho na oposta.
Abri a porta e vi Márcia a sorrir-me. Olhei para ela, percebendo que o meu coração batia acelerado com a excitação a aumentar. Márcia vestia o seu sobretudo formal que trazia sempre que vinha ao meu encontro, vinda do escritório. No entanto, sabia que ela não viera do trabalho, mas sim de casa. O cabelo louro caia-lhe liso pelos ombros, bem penteado e informal. Reparei que calçava sandálias com uns saltos bem altos.
─ Entra. ─ convidei.
Ela entrou e cumprimentou-me com um beijo, enquanto eu fechava a porta. Ao sentir o trinco trancar, abraçou-me e beijou-me com mais intensidade, ao que eu retribuí com a mesma fogosidade.
Os seus lábios sabiam a cereja e a sua língua dançava com a minha ao ritmo da paixão. Entre beijos, atirou a mala para o chão e suspirava, confessando as saudades que tinha de estar comigo.
Após alguns minutos de beijos, Márcia afastou-se e ficou a olhar para mim, sorrindo-me e provocando-me. Levou as mãos aos botões do sobretudo e começou a desapertar.
─ Tenho algo para ti. ─ Desapertou todos os botões e abriu o sobretudo, deixando-o cair pelos braços até este se despenhar no chão. ─ Espero que gostes do que vês.
Márcia vestia um casaco de tecido elástico que lhe apertava todas as formas do tronco e tinha um fecho de alto a baixo. O casaco era roxo, tal como a saia curta.
─ Gosto. E muito! ─ respondi, olhando para as suas longas pernas. Já vira fotos dela em biquíni, mas não me excitaram tanto como a forma como ela estava vestida naquele momento.
Dei um passo para a voltar a abraçar, mas ela esticou o braço para que eu não avançasse mais e permanecesse em frente a ela.
─ Lembras-te daquela vez que falámos na Net? Quando te mostrei a tatuagem? ─ Abanei afirmativamente a cabeça. Márcia levou a mão ao fecho do casaco e puxou-o devagarinho, deixando as abas afastarem-se ao mesmo ritmo. Parou quando a abertura revelou a cova entre os seus seios. Não pude deixar de constatar que não trazia mais nenhuma peça de roupa por baixo do casaco. ─ Ainda te lembras onde a tenho?
─ No ombro esquerdo. ─ respondi de imediato.
Márcia puxou o casaco para revelar o ombro e confirmou que eu estava certo. Depois, olhou para mim com um sorriso lânguido e continuou:
─ Fiquei com a sensação que não era a tatuagem que esperavas ver naquela noite.
─ Sabes bem que não. ─ retorqui, jogando o seu jogo. Olhei para o peito coberto. ─ Tu sabes bem o que eu queria ver.
─ Queres que abra o resto do fecho? ─ Sorri como se fosse preciso responder para ela saber a resposta. ─ Eu abro, mas quero a tua t-shirt em troca.
Acto contínuo, despi a minha t-shirt e estendi-lha. Ela ofereceu-me um sorriso escarninho, pois não queria vesti-la, queria que eu a despisse para me ver o tronco nu. Eu atirei a peça de roupa para o chão.
Márcia puxou o fecho até ao fim, ficando com o umbigo a descoberto. Contudo, o tecido elástico ficou a envolver o volume dos seus seios. Com enorme sensualidade, ela abriu o casaco e despiu-o até aos cotovelos, ficando a segurar as pontas na cintura. Ficou a olhar-me olhos nos olhos, sorriso provocante e a morder o lábio inferior.
Aproximei-me sem que ela reagisse. Levei os meus lábios até aos dela e com ambas as mãos envolvi os seus seios, apalpando-os com a mesma intensidade com que a minha língua investia na sua boca. Ela largou as pontas do casaco e envolveu-me o pescoço com os braços. Beijos e mais beijos, apertando-a bem contra a parede. Senti as suas mãos deslizarem até às minhas calças e desapertarem os botões. Suspendemos os beijos e olhámo-nos novamente. As suas mãos nas minhas calças, as minhas nos seus seios.
─ Gostas das minhas mamas? ─ questionou em jeito de troça.
─ São lindas.
Márcia abriu as minhas calças e fê-las cair pelas minhas pernas. Eu descalcei os chinelos de quarto e libertei-me das calças, chutando-as para longe. As minhas mãos desceram pelo corpo dela e estacionaram no seu rabo. Os seus braços envolveram-me novamente o pescoço e ela deu um pequeno pulo de forma a ficar ao meu colo com as pernas à volta da minha cintura.
Mantendo-a encostada à parede, beijei-lhe os lábios. Ela lambeu-me a língua, o rosto, beijou-me a orelha, mordeu-a e, junto do ouvido, sussurrou:
─ Fode-me! Fode-me, Ivan! Sou toda tua.
Naquela posição, levei-a ao colo até à cama, onde a sentei. Márcia atirou-se para trás e aguardou que lhe fizesse companhia no colchão. A sua saia já estava enrolada na cintura, fruto do envolvimento das suas pernas quando lhe pegara ao colo. Confesso que fiquei surpreso, ao ver que ela não tinha cuecas. Rapidamente despi as minhas e deitei-me sobre ela, encaixando-me entre as suas pernas.
A loucura sexual era tanta que não pensei em mais nada. Não houve lucidez, razão, consciência… Não houve nada, para além de um enorme instinto quase animal de satisfação sexual.
Estávamos tão loucos de desejo que mal os nossos corpos se reencontraram, eu me senti a entrar nela. Márcia ofegava de prazer, apertando-me as nádegas para que cada vez investisse mais dentro dela. Gemia como se a estivessem a torturar, mas eram gemidos orgásmicos. Eu investia nela e apoiava-me nos seus seios, apertando-os, quase maltratando-os. Partilhávamos uma tesão tão brutal que quase parecia que nos estávamos a bater. Ela arranhava-me as costas, eu puxava-lhe os cabelos.
Nunca conheci uma mulher tão louca na cama quanto Márcia. No meio de toda aquela intensidade, quis mudar de posição e ficar por cima. Cavalgou sobre mim como se eu fosse um cavalo de corrida.
─ Fode-me, Ivan! Fode-me toda! ─ exclamava por entre a respiração cada vez mais ofegante. ─ Gostas das minhas mamas?
Eu respondi agarrando-as e apertando-as.
─ Puxa-me os mamilos! ─ ordenou em êxtase.
Acatei a ordem, tentando ser carinhoso.
─ Mais! Mais! Com força! ─ ordenava ela com violência, a cada salto que dava.
Eu estava quase a atingir o auge. Puxei mais, mas recebi como resposta um esgar de dor e a sua voz condenatória:
─ Só consegues isso? Puxa! Fode-me! Puxa como um homem.
Segurando cada mamilo com os indicadores e os polegares, puxei-os de tal maneira que pensei que se iriam rasgar. Em troca, recebi um grito de quem atingira o ponto mais alto do prazer e também eu acabei por me vir.
Exausta, Márcia deixou-se cair sobre mim.
Confesso que fora um pouco estranho… Ou melhor, fora surpreendente. No entanto, fora também delicioso, orgásmico… Sexo como havia muito tempo eu não tinha. Sexo com um orgasmo que me arrepiara até à espinha.
Quando ficou com a respiração mais calma, Márcia levantou a cabeça e ofereceu-me um sorriso e um beijo.
─ Foste fenomenal! ─ elogiei, recebendo de presente mais um beijo e um sorriso.
─ Tu também foste muito bom. ─ Com aquelas palavras, Márcia levantou-se e permaneceu montada sobre mim. Inconscientemente, acariciou os seios e os mamilos que, a frio, deveria estar doridos. ─ Deves achar-me doida…
─ Porquê?
─ Pela forma como falo, durante o sexo.
Franzi o rosto, desvalorizando isso.
─ Acho bastante excitante. ─ retorqui. ─ Só tive receio de te aleijar.
─ Eu gosto. ─ confessou com um semblante misturado de vergonha e excitação. ─ Gosto de sentir dor durante o sexo. ─ Não escondi a minha surpresa com aquela revelação. ─ Deves achar-me louca.
─ Nem doida, nem louca. ─ Sorri-lhe e soprei-lhe um beijo. ─ Deliciosamente maluquinha.
Márcia sorriu, talvez mais descansada por eu compreender os seus fetiches. Fez-me sair dela e levantou-se da cama, convidando-me a acompanhá-la no banho.
Quando entrei na casa de banho, já a água corria. Vi as sandálias largadas para um canto e a saia caída noutro. Olhei para a cortina ao longo da banheira, vendo a imagem de Márcia esbatida. Pensei como fora bom, o sexo com ela, como fora excitante, orgásmico e… completamente irracional. Só naquele momento me lembrei que não tivera o discernimento de usar preservativo.
─ Anda, Ivan! ─ convidou, quebrando-me os pensamentos.
Entrei na banheira e vi-a completamente molhada, o cabelo encharcado com a água do chuveiro e o corpo polvilhado de gotinhas. Ela saiu do chuveiro e abraçou-me, beijando-me e encostando bem o corpo quente ao meu. Trocámos de posição e eu banhei-me na água a correr.
─ Lembras-te das nossas conversas, a fantasia da banheira? ─ Soltei um ruído de concordância. ─ Foste demais. Deixaste-me louca.
─ E tu a mim. ─ Tão molhado quanto ela, abri os olhos e vi-a de braços cruzados sobre a cabeça, empinando o peito de forma casual para mim. ─ As nossas cenas de sexo virtual eram muito boas, mas não se comparam ao que és na realidade.
─ Sou melhor na realidade? ─ questionou, simulando algum temor de que a resposta fosse contrária.
─ Sabes bem que sim. ─ confirmei, relaxando com a água quente.
Márcia deu dois passos até mim e abraçou-me. Mesmo depois do que tínhamos feito na cama, o novo contacto com o seu corpo não evitou nova excitação. Ela sentiu-o e começou a acariciar-me, estimulando-me ainda mais. Eu dei-lhe um beijo, mas ela afastou-se.
Sem dizer nada, puxou as toalhas do toalheiro ao fundo da banheira. Pensei que se ia limpar e sair do banho, mas ao invés disso, atirou-as para o chão. Agarrou no varão do toalheiro, de costas para mim, e esticou os braços. Perante o meu olhar, debruçou-se um pouco, colocou os pés procurando uma posição de equilíbrio e voltou a endireitar-se. Passou as mãos pelas nádegas e olhou para trás.
─ O que achas do meu rabo?
─ É bonito.
─ Não te parece caído? ─ inquiriu, puxando as nádegas para cima e afastando-as um pouco.
─ Não digas tolices.
Ela virou o tronco ligeiramente para trás, sem perder a posição dos pés, e sorriu. Parecia brincar com todos os momentos, falseando uma insegurança que não tinha.
─ Gostas do meu cu? ─ voltou a interrogar.
─ Outra vez?
Com os dedos entre as nádegas, ela insistiu:
─ Gostas do meu cu?
─ Sim.
─ Gostavas de foder o meu cu? ─ interrogou, olhando para a minha excitação. Antes que eu proferisse um som, ela voltou a olhar para a frente e a agarrar a barra do toalheiro, o que a fazia ter uma posição mais debruçada.
A única vez que fizera algo semelhante fora com Susana e não fora nada agradável para ela. Tive receio de poder estragar aqueles bons momentos.
─ Anda, Ivan! ─ exclamou, abanando o rabo como convite. ─ Estou à espera.
─ Não te quero magoar. ─ alertei.
─ Ivan! ─ chamou, impaciente. ─ Sexo, dor… Que te disse eu? Não te preocupes.
Desliguei a água e fui até ela, encostando a minha excitação entre as suas nádegas. Ao sentir-me, Márcia retirou uma das mãos da barra e começou a estimular-se. Eu fui entrando aos poucos, devagarinho. Márcia gemia e o seu semblante parecia mais de sofrimento que de prazer. Eu não liguei e continuei até ao fim, momento em que coloquei as mãos nas suas ancas e por mais que ela gemesse, sofresse, doesse, não parei.
─ Ai, ai… Isso, não pares. ─ dizia ela, agarrando a barra para se apoiar e masturbando-se com a outra mão. ─ Isso, Ivan… Ai… Enraba-me… Ai, ai… Fode-me o cu todo!
Foi mais um orgasmo brutal de ambos. Muita loucura. Muita tesão. Quando terminei, pensei que não tivesse sido satisfatório para ela, mas a sua retribuição foi um sorriso deliciado ainda com a respiração acelerada e um longo beijo com muita saliva.
Estava a ser uma noite estonteante. Demos banho um ao outro com muita espuma, lavando bem os corpos, que o mesmo seria dizer que nos acariciámos muito. Poder-se-á pensar que toda a acção e o relaxamento do banho nos deixavam a ambos prontos para nos deitarmos na cama e dormir.
Quando saímos do banho, já lavados e secos, fomos repousar na cama. É certo que uns minutos depois eu estava deitado ao comprido nos lençóis, mas Márcia estava ajoelhada ao meu lado, toda nua como eu, sobre a minha cintura, com uma mão apoiada na cama, a outra a acariciar-me e com a boca atarefada. A tesão parecia não ter fim.
Bom, mas chega de relato daquela noite. Ela ainda durou bastante. Márcia deixou o hotel ao amanhecer e nós não dormimos um minuto que fosse. Houve muito sexo naquele quarto, muita loucura, muita tesão, paixão, excitação, luxúria… Enfim…
Quando adormeci sozinho ao nascer do dia, estava completamente exausto e muito saciado. Nem pensei que cometera um dos actos mais vergonhosos da minha vida, pois traíra totalmente o amor de Susana.
Fim do capítulo

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