Capítulo XXXIX
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O novo ano começou com muito frio e muita chuva. A meio de Janeiro até sucedeu a raridade de nevar em Lisboa. Ali perto do rio, onde eu vivia só vimos chuva, mas houve locais onde os flocos de neves espalharam o branco pela paisagem.
O apuramento para o Campeonato do Mundo continuava a trazer fama às jogadoras. Uma revista convidou as vinte e três atletas responsáveis pela brilhante campanha de qualificação para uma reportagem mais intimista, onde os leitores pudessem conhecer as mulheres atrás das atletas. Foi um trabalho muito bem feito, muito profissional que desmistificou a ideia da mulher futebolista masculinizada. A reportagem mostrou mulheres que gostam de jogar futebol, mas que ao mesmo tempo são esposas, têm os seus empregos ou estudam ou fazem as duas coisas, têm sonhos e objectivos na vida. Resumindo, são mulheres como tantas outras.
A produção fotográfica também foi muito profissional, mostrando mulheres elegantes, muito mais bonitas que aquelas que conheci à chegada do primeiro estágio da equipa nacional.
Fiquei feliz por ver que a imagem do futebol feminino estava a mudar de forma positiva.
Cerca de um mês mais tarde, numa manhã solarenga e fria, depois de ter ido levar Ivana à escola, recebi um telefonema de Susana.
─ Ivan, preciso que me faças um favor. ─ pediu ela a contragosto. ─ Esta manhã esqueci-me de uns papeis importantes aí em casa e não tenho ninguém que os possa ir aí buscar. Será que podes vir cá trazer-mos?
─ Sim, posso. Onde estão?
Susana explicou onde os deixara no seu escritório de casa e eu comprometi-me levá-los lá o mais rápido possível.
Não posso esconder que me deu algum prazer, o facto de Susana ter pedido a minha ajuda.
A pasta plástica com os documentos que necessitava estavam arrumados sobre a mesa do escritório. A sua posição deixara claro que haviam sido esquecidos e não arrumados ali. Peguei na pasta e avisei Ludovina de que iria sair novamente.
O percurso não demorou muito tempo de carro, tendo sido mais complicado encontrar um lugar para estacionar. Com o aproximar do meio-dia, o frio tornara-se menos intenso e a diferença de temperatura ao entrar dentro do edifício não foi tão radical.
A empresa, cuja filial portuguesa Susana dirigia, situava-se num quinto andar de uma torre de escritórios. Ao sair do elevador, encontrei um open space muito amplo polvilhado de secretárias com funcionários concentrados no seu trabalho. Ao ver-me, uma rapariga deixou o seu posto de trabalho e interpelou-me.
Sem dizer quem era, informei-a que trazia uns papéis para entregar a Susana.
─ A Dra. Susana está ocupada, mas eu chamo a Edite. ─ ofereceu, dirigindo-se ao telefone da sua mesa sem esperar que eu concordasse ou não.
Após o telefonema, Edite surgiu vinda de uma secretária perto da porta de um gabinete. Aliás, naquele open space observei uma meia dúzia de portas idênticas que Edite me explicou serem gabinetes dos directores.
─ Aquele junto à minha mesa é o gabinete da Dra. Susana. ─ identificou Edite, ao fazer a visita guiada ao local sem sair dali. ─ Ela está reunida com a responsável jurídica da empresa.
Nesse instante, a porta do gabinete abriu. Pensei que iria ver Susana a sair para receber pessoalmente os papéis e agradecer de viva-voz o favor. No entanto, a pessoa que saiu de lá provocou-me uma surpresa tal que quase não acreditei.
─ Quem é? ─ questionei, vendo sair uma bela e elegante loura de traje formal do gabinete de Susana.
─ É a Dra. Márcia Serrano. ─ respondeu com naturalidade. ─ É a advogada da empresa que trata de todos os assuntos jurídicos da nossa empresa.
Fiquei tão estupefacto pela surpresa que quase me denunciei. Acabei por interrogar:
─ É advogada da empresa?
─ Não. Não é da nossa empresa. A Dra. Márcia trabalha para a empresa que tem tratado da parte legal da nossa empresa. Tem sido ela que desde início colabora com a sua esposa em todos os processos relativos à firma.
Acho que nunca na vida encontrara um exemplo tão claro da típica frase “como o Mundo é pequeno”. Enquanto eu e Márcia nos seduzíamos na internet e nos envolvemos sexualmente, ela colaborava profissionalmente com Susana.
─ A Dra. Susana terminou a reunião. Quer falar com ela? ─ sugeriu Edite.
─ Sim. ─ concordei, afastando-me do elevador para que Márcia não me visse. Deixei-me conduzir na direcção oposta para ir ao encontro de Susana, até ver a porta do elevador fechar com Márcia no interior. ─ Espere! Lembrei-me que deixei poucas moedas no parquímetro e é melhor ir andando. Diga à minha mulher que lhe deixei um beijo.
Edite acatou o meu pedido e prosseguiu até ao local onde entregaria os documentos à patroa.
Sem perder tempo, alcancei o elevador e carreguei no botão para o chamar novamente àquele piso. Tive esperança que ele tivesse subido e na descida encontrasse Márcia ao entrar. Porém, este descera e levara a advogada até ao átrio do edifício.
O elevador não demorou a vir buscar-me, só que esse tempo deixava-me com um atraso considerável para alcançar Márcia. Carreguei no botão do piso 0 e desejei que ela não andasse muito depressa.
Quando saí do elevador, olhei para o átrio principal e respectiva porta da rua. Nem num sítio nem no outro encontrei Márcia. Caminhei apressadamente para o exterior. Mal pisei o passeio, vi Márcia caminhar despreocupadamente pelo empedrado. Tomei a sua direcção.
O meu telemóvel tocou. Parei e retirei-o do bolso do casaco. Vi o nome de Susana piscar no ecrã do aparelho, mas não tive vontade nenhuma de a atender. Carreguei no “silêncio” e procurei Márcia no meu campo de visão.
Não a consegui vislumbrar e quase me dera por vencido na busca, quando a vi entrar para o seu carro. Reconheci de imediato o Audi onde outrora trocáramos beijos acalorados.
Não valeria a pena tentar interpelá-la ali. Guardei o telemóvel no bolso e apressei-me a chegar ao meu carro. Sentia uma vontade quase selvagem de voltar a estar com Márcia. Conduzindo pelo meio do trânsito lisboeta, segui o automóvel de Márcia sem me importar se ela notaria que a estava a seguir ou não.
O Audi circulou tranquilamente no tráfego citadino e eu esforcei-me por não ficar parado em nenhum semáforo que não a retivesse. Quase que podia adivinhar qual seria o seu destino, o qual se confirmou quando a vi entrar para o parque subterrâneo do Parque Eduardo VII. Abrandei um pouco e dei o tempo suficiente para que a minha entrada no parque não fosse identificada por ela.
Márcia estacionou no primeiro espaço que encontrou. Eu passei pelo carro dela e estacionei a alguns lugares mais à frente. Quando saí do carro, já ela fazia ecoar os saltos dos seus sapatos por entre os automóveis.
─ Márcia! ─ chamei, sem pensar se seria ou não a melhor altura e a forma ideal de a reencontrar.
Márcia parou e olhou em volta, procurando o remetente do chamamento. Eu acenei-lhe, começando a andar na sua direcção. Só que ela, ao identificar-me, ignorou-me e voltou a caminhar em direcção à saída, desta vez de forma mais rápida. Tive de correr para a alcançar.
─ Márcia! Espera!
Numa pose austera e ciente de que não conseguiria escapar ao reencontro, ela parou e aguardou a minha aproximação, fulminando-me com o olhar.
─ Tu? Que queres? ─ inquiriu na forma mais antipática que conseguiu.
─ Olá, Márcia! ─ cumprimentei, permitindo que todas as boas recordações dos nossos momentos juntos me envolvessem a mente e me fizessem sentir uma saudade enorme de estar com ela. ─ Como estás?
─ Ao contrário dos teus desejos, estou viva e bem viva. ─ respondeu, procurando ser o mais ríspida possível. ─ Que fazes aqui?
─ Desculpa, Márcia! Esse desejo não foi sincero. Foi…
─ Não me interessa, Ivan. ─ cortou, procurando fugir à minha presença. ─ Que queres?
─ Falar contigo. ─ respondi com carinho.
─ Não temos nada para falar. ─ atalhou, procurando com o olhar a porta de saída. ─ Que te deu para me procurares? Querias que eu morresse? Para ti, eu morri. Deixa-me em paz.
─ Vi-te no escritório da minha mulher. ─ disse sem pensar e obtendo dela um olhar de profunda surpresa. ─ Sim, a directora geral com quem estiveste reunida é a minha mulher.
─ E que interessa isso agora? ─ interrogou, olhando em volta, procurando alguém a quem gritar por socorro. Claro que isso seria uma estupidez. Eu não lhe queria fazer mal. ─ Tenho de ir.
Segurei-lhe o braço, impedindo-a de se afastar.
─ Larga-me, senão começo a gritar. ─ ameaçou.
─ Espera! Só quero falar contigo.
─ Então diz o que tens a dizer e desaparece.
─ Aqui não. ─ pedi, soltando o seu braço. ─ Podemos encontrar-nos noutro local, logo à noite?
─ Deves estar a brincar?! ─ ripostou com ironia. ─ Bem podes tirar o cavalo da chuva. Se queres falar, fala!
Abanei negativamente a cabeça e disse:
─ Encontramo-nos logo à noite no bar do hotel onde estivemos da outra vez. Só quero conversar contigo, Márcia.
─ Bem podes esperar sentado. ─ respondeu.
─ Se não apareceres, conto à Susana que foi contigo que eu a traí.
Márcia soltou uma gargalhada sarcástica.
─ Pensas que eu acredito que tu vais dizer à tua mulher que a traíste?
─ Ela sabe! ─ exclamei para sua surpresa. ─ Já passámos essa fase. Só não sabe com quem foi. Mas, não tenho dúvida de que se souber, não vai querer continuar a trabalhar contigo ou até com a tua empresa. ─ Márcia percebeu a ameaça e sabia o risco que existia de eu estar correcto. ─ Só quero conversar um pouco, mais nada.
Consciente de que não tinha como fugir àquela conversa, Márcia comprometeu-se a ir ao meu encontro no hotel nessa noite. E isso confirmou-me que a tinha na mão, enquanto pudesse usar aquela ameaça.
Para ser sincero, havia uma mistura de sentimentos em relação a Márcia, pois tanto a desejava como a odiava por ser a causa do fim da minha relação com Susana. É óbvio que o principal responsável era eu, mas o desejo que sentia pela advogada cegava-me a razão.
Nessa noite, aguardei pacientemente no bar do hotel onde tantas vezes ficara hospedado nas vindas a Portugal. Saí de casa ainda antes de Susana chegar, o que não foi intencional, pois saí após Ivana ir dormir.
Márcia fez-me esperar bastante tempo. Tanto que quase comecei a pensar que a ameaça fora fútil. No entanto, ela lá apareceu.
Era difícil a sua presença não ser notada, tal era a sua beleza natural e o brilho dos seus longos cabelos louros. Abandonara o traje formal e surgira de calças de ganga, camisola de lã e sobretudo comprido capaz de proteger de um frio glaciar. Os sapatos de salto alto deram lugar a sapatilhas.
─ Cá estou. ─ disse de forma fria, quando parou junto a mim.
─ Olá, Márcia! ─ cumprimentei. ─ Ainda bem que vieste.
─ Não me deixaste grande alternativa. ─ recordou. ─ Para além de insensível, vejo que também tens jeito para chantagista.
─ Desculpa! ─ pedi com sinceridade. ─ Peço desculpa por ter feito essa ameaça. Mas, de outra forma tu não terias vindo.
─ Sim, tens razão. ─ concordou. ─ Agora, que aqui estou, diz o que tens a dizer.
─ Anda! ─ pedi, levantando-me do meu banco junto ao bar.
─ Onde? ─ interrogou com espanto.
─ Reservei um quarto…
─ Deves estar a brincar? ─ interrogou ela estupefacta. ─ Pensas que eu…
─ Não é nada disso. ─ neguei, procurando que a sua exaltação não chamasse a atenção de outras pessoas. ─ Há pessoas que me conhecem por aqui. Não quero que me vejam a falar contigo e possam contar à Susana.
─ Devias ter pensado nisso, antes.
─ Mas não pensei. E tu também não deves querer que nos vejam juntos.
Márcia percebeu a mensagem e seguiu-me até ao sector dos elevadores do hotel.
Quando cheguei ao hotel, reservei um quarto para essa noite. Não estava a contar passar lá a noite, apenas queria alguma privacidade para estar com ela. Também não sabia até onde a conversa nos levaria, mas em todo o caso, não esquecera os preservativos em casa, até porque nem sabia se ela tivera a mesma sorte que eu se tivesse feito o exame que eu fizera.
As portas do elevador abriram-se e nós entrámos. Éramos os únicos passageiros daquele transporte. Pressionei o botão do oitavo piso e as portas fecharam.
─ Fizeste o exame? ─ questionei.
─ Qual exame? ─ retribuiu.
─ Para saberes se tinhas Sida.
─ Porquê? Se disser que estou infectada, já não me violas?
─ Não sejas parva! ─ insurgi-me. ─ Não vou violar-te. Só quero conversar contigo. Foste tu que me escreveste a dizer que podias estar infectada.
As portas do elevador abriram-se e nós saímos. Ninguém disse nada até chegarmos à porta do quarto.
─ E então? ─ insisti, abrindo a porta.
─ Fiz e deu negativo. ─ respondeu, entrando no quarto. ─ Só o fiz mesmo para ter a certeza absoluta, já que antes descobri que tudo não passara de uma invenção.
─ Como assim?
Márcia depositou o sobretudo na cama, sentou-se ao fundo do colchão e ficou a ver-me fechar a porta e a sentar-me numa cadeira em frente a ela.
Não pude deixar de reparar nas semelhanças entre aquele quarto e o outro daquele mesmo hotel onde eu e ela passámos a noite juntos a fazer sexo. O quarto tinha o mesmo corredor, o qual percorri até à cadeira, com uma porta para a casa de banho de um lado e os roupeiros no oposto.
Tenho a certeza que as semelhanças da arquitectura do quarto também avivaram as memórias de Márcia que também observava a decoração. Afastando o olhar do meu, explicou:
─ Depois de termos estado juntos, um ex-amante meu procurou-me. Queria “matar saudades”. Não me olhes assim! Achavas que eras o único?
─ Cheguei a pensar que sim. ─ confessei.
─ Pois, não eras. ─ confirmou com dureza. ─ Não nos víamos já há algum tempo. Só que a nossa noite fora tão boa que eu não sentia necessidade de ter outros homens para além de ti.
─ Não inventes. Não sou parvo.
─ É a verdade. Se acreditas ou não é indiferente.
─ Pronto, continua lá…
─ Como me recusei, ele ligou-me apavorado a dizer que fizera o exame e que estava infectado. E como tínhamos estado juntos um mês antes, ele queria que eu soubesse que poderia estar também infectada. Fiquei em pânico e acabei por tomar a mesma atitude contigo, por isso escrevi-te o email que te escrevi. ─ Fez uma pausa, como se recordasse cada minuto. ─ Acho que tinha esperança que me apoiasses, que te preocupasses comigo, que pudéssemos enfrentar essa possibilidade juntos. Mas escrevi-te com a quase certeza de que te irias afastar. E não te podia censurar por isso, eu era a outra, era só uma foda, uns momentos de prazer… Só que tu foste cruel. Respondeste-me a desejar que eu morresse.
─ Desculpa!
─ Achas que as tuas desculpas fazem alguma diferença? ─ questionou. ─ Foram momentos muito difíceis. Estive à beira do suicídio, sem ninguém a quem contar.
─ Desculpa! ─ voltei a repetir.
─ Cala-te com as desculpas! ─ ordenou com irritação.
─ E o teu marido? Contaste-lhe?
─ Não. Para quê? Ele quer lá saber se estou bem ou se estou mal. ─ Levantou-se da cama tão igual àquela onde nos saciámos do corpo um do outro, quase um ano antes, e caminhou até à janela, ficando a observar a noite escura. ─ Sabes porque é que tenho amantes?
─ Não.
A resposta não veio de imediato. Márcia observou mais um pouco a noite e as luzes lá em baixo. Depois, olhou para mim de uma forma ferida e explicou:
─ Porque o meu casamento é uma fantochada. ─ Voltou calmamente ao seu lugar ao fundo da cama. ─ Quando me apaixonei pelo meu marido, tinha eu uns vinte e poucos anos, achei que ele era o homem da minha vida. Quis ir virgem para o casamento, pois dizia-se muito religioso, e casou comigo ao fim de seis meses de namoro. Na noite de núpcias, olhou para mim e disse-me que era gay e que casara para manter as aparências para a família. Disse-me que não queria que fosse infeliz e era livre de ter os amantes que quisesse, desde que isso nunca fosse do conhecimento de ninguém que o conhecesse.
─ Estou a perceber. Eu fui apenas mais um na lista.
─ Sim. ─ confirmou. ─ Foste mais um na lista. Mas foste um com quem gostei muito de estar e com quem queria repetir.
O conhecimento da história magoava-me. Eu, que ao longo da juventude e até assentar com Susana, fora mulherengo como Eduardo tanto gostava de me apelidar, via-me ali apenas como mais um da lista de uma… ninfomaníaca. Eu que sempre fora o predador, fora ali a presa.
─ Lamento ter-te magoado. ─ disse, ainda com o sentimento de culpa pelo email frio e rude que lhe enviara. ─ Foi fruto do desespero.
─ Eu compreendo. Não te perdoo, mas compreendo o teu desespero. Eu também passei por ele. Felizmente, não foi por muito tempo. ─ Não disse nada, mas o meu olhar deveria ser inquiridor. ─ Passadas duas semanas, esse meu ex envolveu-se com outra tipa. Ficou tão encantado de amores que achou que só poderia ser plenamente feliz se me libertasse da mentira que inventara. Por isso, mandou-me um email a contar verdade. Tive vontade de o matar, mas acabei por nem lhe responder.
─ Podias ter-me informado disso. ─ lembrei. ─ Tinhas-me poupado a tanto tempo de desespero e nunca teria contado nada a Susana.
─ Achas que merecias? ─ questionou com seriedade. ─ Depois da forma cruel como me respondeste, achas que merecias? ─ Não respondi, pois no lugar dela teria feito o mesmo. ─ Após o teu email, eu risquei-te da minha mente.
Aquela frase foi quase um ponto final na conversa. Não sabia que mais haveria de dizer perante uma mulher que desejava, mas que me odiava profundamente a cada olhar que me atirava.
─ Acho que não temos mais nada a dizer. ─ quebrou ela o silêncio. ─ Aquela noite foi muito boa, mas tu mataste o carinho e a atracção que eu tinha por ti. Se calhar, achas que estou a ser exagerada, que é uma reacção ridícula de mulher que, para ti, não passa de uma… sei lá… ─ Fez uma pausa e sorriu numa mistura de sarcasmo e dor. ─ Percebi pelo teu olhar quando te disse que tinha amantes. Para ti não passo de uma vadia, uma puta… ─ Sorriu com ironia. ─ Bom, puta não. Nunca cobrei dinheiro pelo sexo.
─ Não faço juízos de valor, Márcia. ─ interrompi. ─ Quem sou eu para o fazer? Alguém que traiu a mulher que ama, a mãe da sua filha, por uma noite de sexo. Não, Márcia, não te julgo. No teu lugar faria o mesmo, apesar de não perceber porque não te separas.
─ Por vezes, nem eu sei porque não o faço. ─ confidenciou, tornando a deixar o colchão para se aproximar novamente dos vidros. ─ No início era complicado e não tive força para tomar essa atitude. Mas, depois… Acho que acabei por me acomodar à vida que tenho. Não ganho nada com isso e não quero prejudicar o meu marido com um divórcio. ─ De súbito, voltou a olhar para mim. ─ E tu? Disseste que contaste à tua mulher, mas continuam juntos.
─ Mantemos as aparências por causa da nossa filha. ─ expliquei. ─ Já nem dormimos no mesmo quarto.
─ E a miúda não desconfia?
─ Não. Para ela, o pai ressona e incomoda a mãe, por isso, dorme noutro quarto. Ainda é muito nova para suspeitar que o pai e a mãe já não estão juntos como casal.
Márcia regressou à observação da noite e dos candeeiros da rua a brilhar nos seus tons alaranjados. Sentado na minha cadeira, contemplei o seu corpo esguio e curvilíneo, o cabelo caído sobre os ombros, as costas direitas, o rabo redondo, as longas pernas, os pés a tocar o chão como se fosse feito de papel de arroz. Nem eu nem ela falámos durante algum tempo. Parecia não haver nada a dizer, mas nenhum de nós se queria ir embora. Levantei-me da minha cadeira e caminhei até ela, parando atrás de si e olhando para a sua nuca.
─ Sei que não serve de nada, mas acredita que estou muito arrependido pela forma como te respondi no email. ─ Márcia não respondeu. Olhei para a noite fria e preparei-me para sugerir que abandonássemos o quarto e nos despedíssemos em definitivo. ─ Lamento, Márcia! Nunca desejei que morresses, foi uma reacção estúpida.
Márcia virou-se e ficou olhos nos olhos comigo.
─ Que desejas tu de mim, então? ─ inquiriu.
─ O mesmo que qualquer homem deseja quando olha para ti. ─ retorqui de forma espontânea.
─ E é o quê? ─ insistiu, como se não percebesse.
─ Tu sabes bem. Sempre te desejei e ainda mais depois da noite que passámos juntos.
Márcia atirou-me um sorriso incrédulo e desviou o olhar, questionando:
─ E achas que tens alguma hipótese, depois da forma como me magoaste?
Sabia que não. Porém, não respondi e vi-a afastar-se da janela e de mim. Deu alguns passos até ao corredor e entrou na casa de banho.
Enquanto esperava que ela voltasse, pensei em como gostava de ficar ali com ela, mas esgotadas as palavras, já nada havia ali para fazer, além de ir embora. Adorava voltar a ter sexo com ela. Confesso que a ideia de manter a chantagem me passou pela cabeça, mas mesmo tendo muitos defeitos, obrigar uma mulher a ter relações sexuais não era um deles. Márcia fora uma amante maravilhosa e merecia ser respeitada e não prejudicada.
─ Márcia! ─ chamei.
─ Sim. ─ respondeu ela do interior da divisão.
─ Não te preocupes que nunca direi nada à Susana. ─ descansei-a. ─ E desculpa ter-te chantageado para vires aqui. Não tive escrúpulos e fui um mau carácter. Não vais acreditar, mas se não tivesses vindo, eu não teria contado nada. Não sou de prejudicar as outras pessoas, muito menos aquelas que me deixam tão boas recordações.
─ Pena não saber isso. ─ ripostou ela, fazendo ecoar a sua voz dentro da casa de banho. ─ Teria poupado esta perda de tempo. ─ Ouvi água a correr lá dentro. ─ Espero que mantenhas essa postura, se alguma vez nos cruzarmos em frente à tua mulher.
─ Podes ficar descansada.
Peguei no telemóvel para ver as horas e reparei em duas tentativas de Susana em me contactar. Como deixara o aparelho sem som, só naquele instante tomei conhecimento disso. Contudo, pouco me interessou o que ela queria, teria tempo de saber quando chegasse.
─ Só tenho mais uma coisa para te dizer. ─ ecoou novamente a voz de Márcia. Esperei essa revelação, mas só ouvi a fechadura da porta da casa de banho a destrancar. Vi-a abrir e para meu espanto, Márcia apareceu sem roupa, apenas com as minúsculas cuecas vestidas e os braços cruzados sobre o peito nu. ─ Acho um completo desperdício pagares um quarto sem desfrutares dele.
Fiquei tão aparvalhado com a atitude dela que nem tive reacção. Márcia aproximou-se de mim, abriu os braços, encostou os seios ao meu peito e abraçou-me, procurando a minha boca com a sua. Assim que correspondi aos seus beijos, ela começou a despir-me, tirando-me a roupa com sofreguidão até me deixar só com os boxers.
─ Espera! ─ pedi. Sem abrir o abraço com que envolvia o seu corpo, deitei a mão ao bolso das calças atiradas para as costas da cadeira e retirei um preservativo. ─ Não quero repetir o mesmo erro.
─ Não tenho dúvida que o susto foi grande. ─ concluiu ela, segurando a pequena embalagem. ─ Posso?
Assenti com a cabeça e fiquei a observá-la a abri-la. Retirou a pequena moeda de borracha com os dedos e prendeu a ponta do preservativo nos lábios. Puxou-me os boxers até aos tornozelos e começou a acariciar-me até me deixar rijo. Depois… Bom, depois, a sua boca envolveu-me com a borracha na perfeição.
O apuramento para o Campeonato do Mundo continuava a trazer fama às jogadoras. Uma revista convidou as vinte e três atletas responsáveis pela brilhante campanha de qualificação para uma reportagem mais intimista, onde os leitores pudessem conhecer as mulheres atrás das atletas. Foi um trabalho muito bem feito, muito profissional que desmistificou a ideia da mulher futebolista masculinizada. A reportagem mostrou mulheres que gostam de jogar futebol, mas que ao mesmo tempo são esposas, têm os seus empregos ou estudam ou fazem as duas coisas, têm sonhos e objectivos na vida. Resumindo, são mulheres como tantas outras.
A produção fotográfica também foi muito profissional, mostrando mulheres elegantes, muito mais bonitas que aquelas que conheci à chegada do primeiro estágio da equipa nacional.
Fiquei feliz por ver que a imagem do futebol feminino estava a mudar de forma positiva.
Cerca de um mês mais tarde, numa manhã solarenga e fria, depois de ter ido levar Ivana à escola, recebi um telefonema de Susana.
─ Ivan, preciso que me faças um favor. ─ pediu ela a contragosto. ─ Esta manhã esqueci-me de uns papeis importantes aí em casa e não tenho ninguém que os possa ir aí buscar. Será que podes vir cá trazer-mos?
─ Sim, posso. Onde estão?
Susana explicou onde os deixara no seu escritório de casa e eu comprometi-me levá-los lá o mais rápido possível.
Não posso esconder que me deu algum prazer, o facto de Susana ter pedido a minha ajuda.
A pasta plástica com os documentos que necessitava estavam arrumados sobre a mesa do escritório. A sua posição deixara claro que haviam sido esquecidos e não arrumados ali. Peguei na pasta e avisei Ludovina de que iria sair novamente.
O percurso não demorou muito tempo de carro, tendo sido mais complicado encontrar um lugar para estacionar. Com o aproximar do meio-dia, o frio tornara-se menos intenso e a diferença de temperatura ao entrar dentro do edifício não foi tão radical.
A empresa, cuja filial portuguesa Susana dirigia, situava-se num quinto andar de uma torre de escritórios. Ao sair do elevador, encontrei um open space muito amplo polvilhado de secretárias com funcionários concentrados no seu trabalho. Ao ver-me, uma rapariga deixou o seu posto de trabalho e interpelou-me.
Sem dizer quem era, informei-a que trazia uns papéis para entregar a Susana.
─ A Dra. Susana está ocupada, mas eu chamo a Edite. ─ ofereceu, dirigindo-se ao telefone da sua mesa sem esperar que eu concordasse ou não.
Após o telefonema, Edite surgiu vinda de uma secretária perto da porta de um gabinete. Aliás, naquele open space observei uma meia dúzia de portas idênticas que Edite me explicou serem gabinetes dos directores.
─ Aquele junto à minha mesa é o gabinete da Dra. Susana. ─ identificou Edite, ao fazer a visita guiada ao local sem sair dali. ─ Ela está reunida com a responsável jurídica da empresa.
Nesse instante, a porta do gabinete abriu. Pensei que iria ver Susana a sair para receber pessoalmente os papéis e agradecer de viva-voz o favor. No entanto, a pessoa que saiu de lá provocou-me uma surpresa tal que quase não acreditei.
─ Quem é? ─ questionei, vendo sair uma bela e elegante loura de traje formal do gabinete de Susana.
─ É a Dra. Márcia Serrano. ─ respondeu com naturalidade. ─ É a advogada da empresa que trata de todos os assuntos jurídicos da nossa empresa.
Fiquei tão estupefacto pela surpresa que quase me denunciei. Acabei por interrogar:
─ É advogada da empresa?
─ Não. Não é da nossa empresa. A Dra. Márcia trabalha para a empresa que tem tratado da parte legal da nossa empresa. Tem sido ela que desde início colabora com a sua esposa em todos os processos relativos à firma.
Acho que nunca na vida encontrara um exemplo tão claro da típica frase “como o Mundo é pequeno”. Enquanto eu e Márcia nos seduzíamos na internet e nos envolvemos sexualmente, ela colaborava profissionalmente com Susana.
─ A Dra. Susana terminou a reunião. Quer falar com ela? ─ sugeriu Edite.
─ Sim. ─ concordei, afastando-me do elevador para que Márcia não me visse. Deixei-me conduzir na direcção oposta para ir ao encontro de Susana, até ver a porta do elevador fechar com Márcia no interior. ─ Espere! Lembrei-me que deixei poucas moedas no parquímetro e é melhor ir andando. Diga à minha mulher que lhe deixei um beijo.
Edite acatou o meu pedido e prosseguiu até ao local onde entregaria os documentos à patroa.
Sem perder tempo, alcancei o elevador e carreguei no botão para o chamar novamente àquele piso. Tive esperança que ele tivesse subido e na descida encontrasse Márcia ao entrar. Porém, este descera e levara a advogada até ao átrio do edifício.
O elevador não demorou a vir buscar-me, só que esse tempo deixava-me com um atraso considerável para alcançar Márcia. Carreguei no botão do piso 0 e desejei que ela não andasse muito depressa.
Quando saí do elevador, olhei para o átrio principal e respectiva porta da rua. Nem num sítio nem no outro encontrei Márcia. Caminhei apressadamente para o exterior. Mal pisei o passeio, vi Márcia caminhar despreocupadamente pelo empedrado. Tomei a sua direcção.
O meu telemóvel tocou. Parei e retirei-o do bolso do casaco. Vi o nome de Susana piscar no ecrã do aparelho, mas não tive vontade nenhuma de a atender. Carreguei no “silêncio” e procurei Márcia no meu campo de visão.
Não a consegui vislumbrar e quase me dera por vencido na busca, quando a vi entrar para o seu carro. Reconheci de imediato o Audi onde outrora trocáramos beijos acalorados.
Não valeria a pena tentar interpelá-la ali. Guardei o telemóvel no bolso e apressei-me a chegar ao meu carro. Sentia uma vontade quase selvagem de voltar a estar com Márcia. Conduzindo pelo meio do trânsito lisboeta, segui o automóvel de Márcia sem me importar se ela notaria que a estava a seguir ou não.
O Audi circulou tranquilamente no tráfego citadino e eu esforcei-me por não ficar parado em nenhum semáforo que não a retivesse. Quase que podia adivinhar qual seria o seu destino, o qual se confirmou quando a vi entrar para o parque subterrâneo do Parque Eduardo VII. Abrandei um pouco e dei o tempo suficiente para que a minha entrada no parque não fosse identificada por ela.
Márcia estacionou no primeiro espaço que encontrou. Eu passei pelo carro dela e estacionei a alguns lugares mais à frente. Quando saí do carro, já ela fazia ecoar os saltos dos seus sapatos por entre os automóveis.
─ Márcia! ─ chamei, sem pensar se seria ou não a melhor altura e a forma ideal de a reencontrar.
Márcia parou e olhou em volta, procurando o remetente do chamamento. Eu acenei-lhe, começando a andar na sua direcção. Só que ela, ao identificar-me, ignorou-me e voltou a caminhar em direcção à saída, desta vez de forma mais rápida. Tive de correr para a alcançar.
─ Márcia! Espera!
Numa pose austera e ciente de que não conseguiria escapar ao reencontro, ela parou e aguardou a minha aproximação, fulminando-me com o olhar.
─ Tu? Que queres? ─ inquiriu na forma mais antipática que conseguiu.
─ Olá, Márcia! ─ cumprimentei, permitindo que todas as boas recordações dos nossos momentos juntos me envolvessem a mente e me fizessem sentir uma saudade enorme de estar com ela. ─ Como estás?
─ Ao contrário dos teus desejos, estou viva e bem viva. ─ respondeu, procurando ser o mais ríspida possível. ─ Que fazes aqui?
─ Desculpa, Márcia! Esse desejo não foi sincero. Foi…
─ Não me interessa, Ivan. ─ cortou, procurando fugir à minha presença. ─ Que queres?
─ Falar contigo. ─ respondi com carinho.
─ Não temos nada para falar. ─ atalhou, procurando com o olhar a porta de saída. ─ Que te deu para me procurares? Querias que eu morresse? Para ti, eu morri. Deixa-me em paz.
─ Vi-te no escritório da minha mulher. ─ disse sem pensar e obtendo dela um olhar de profunda surpresa. ─ Sim, a directora geral com quem estiveste reunida é a minha mulher.
─ E que interessa isso agora? ─ interrogou, olhando em volta, procurando alguém a quem gritar por socorro. Claro que isso seria uma estupidez. Eu não lhe queria fazer mal. ─ Tenho de ir.
Segurei-lhe o braço, impedindo-a de se afastar.
─ Larga-me, senão começo a gritar. ─ ameaçou.
─ Espera! Só quero falar contigo.
─ Então diz o que tens a dizer e desaparece.
─ Aqui não. ─ pedi, soltando o seu braço. ─ Podemos encontrar-nos noutro local, logo à noite?
─ Deves estar a brincar?! ─ ripostou com ironia. ─ Bem podes tirar o cavalo da chuva. Se queres falar, fala!
Abanei negativamente a cabeça e disse:
─ Encontramo-nos logo à noite no bar do hotel onde estivemos da outra vez. Só quero conversar contigo, Márcia.
─ Bem podes esperar sentado. ─ respondeu.
─ Se não apareceres, conto à Susana que foi contigo que eu a traí.
Márcia soltou uma gargalhada sarcástica.
─ Pensas que eu acredito que tu vais dizer à tua mulher que a traíste?
─ Ela sabe! ─ exclamei para sua surpresa. ─ Já passámos essa fase. Só não sabe com quem foi. Mas, não tenho dúvida de que se souber, não vai querer continuar a trabalhar contigo ou até com a tua empresa. ─ Márcia percebeu a ameaça e sabia o risco que existia de eu estar correcto. ─ Só quero conversar um pouco, mais nada.
Consciente de que não tinha como fugir àquela conversa, Márcia comprometeu-se a ir ao meu encontro no hotel nessa noite. E isso confirmou-me que a tinha na mão, enquanto pudesse usar aquela ameaça.
Para ser sincero, havia uma mistura de sentimentos em relação a Márcia, pois tanto a desejava como a odiava por ser a causa do fim da minha relação com Susana. É óbvio que o principal responsável era eu, mas o desejo que sentia pela advogada cegava-me a razão.
Nessa noite, aguardei pacientemente no bar do hotel onde tantas vezes ficara hospedado nas vindas a Portugal. Saí de casa ainda antes de Susana chegar, o que não foi intencional, pois saí após Ivana ir dormir.
Márcia fez-me esperar bastante tempo. Tanto que quase comecei a pensar que a ameaça fora fútil. No entanto, ela lá apareceu.
Era difícil a sua presença não ser notada, tal era a sua beleza natural e o brilho dos seus longos cabelos louros. Abandonara o traje formal e surgira de calças de ganga, camisola de lã e sobretudo comprido capaz de proteger de um frio glaciar. Os sapatos de salto alto deram lugar a sapatilhas.
─ Cá estou. ─ disse de forma fria, quando parou junto a mim.
─ Olá, Márcia! ─ cumprimentei. ─ Ainda bem que vieste.
─ Não me deixaste grande alternativa. ─ recordou. ─ Para além de insensível, vejo que também tens jeito para chantagista.
─ Desculpa! ─ pedi com sinceridade. ─ Peço desculpa por ter feito essa ameaça. Mas, de outra forma tu não terias vindo.
─ Sim, tens razão. ─ concordou. ─ Agora, que aqui estou, diz o que tens a dizer.
─ Anda! ─ pedi, levantando-me do meu banco junto ao bar.
─ Onde? ─ interrogou com espanto.
─ Reservei um quarto…
─ Deves estar a brincar? ─ interrogou ela estupefacta. ─ Pensas que eu…
─ Não é nada disso. ─ neguei, procurando que a sua exaltação não chamasse a atenção de outras pessoas. ─ Há pessoas que me conhecem por aqui. Não quero que me vejam a falar contigo e possam contar à Susana.
─ Devias ter pensado nisso, antes.
─ Mas não pensei. E tu também não deves querer que nos vejam juntos.
Márcia percebeu a mensagem e seguiu-me até ao sector dos elevadores do hotel.
Quando cheguei ao hotel, reservei um quarto para essa noite. Não estava a contar passar lá a noite, apenas queria alguma privacidade para estar com ela. Também não sabia até onde a conversa nos levaria, mas em todo o caso, não esquecera os preservativos em casa, até porque nem sabia se ela tivera a mesma sorte que eu se tivesse feito o exame que eu fizera.
As portas do elevador abriram-se e nós entrámos. Éramos os únicos passageiros daquele transporte. Pressionei o botão do oitavo piso e as portas fecharam.
─ Fizeste o exame? ─ questionei.
─ Qual exame? ─ retribuiu.
─ Para saberes se tinhas Sida.
─ Porquê? Se disser que estou infectada, já não me violas?
─ Não sejas parva! ─ insurgi-me. ─ Não vou violar-te. Só quero conversar contigo. Foste tu que me escreveste a dizer que podias estar infectada.
As portas do elevador abriram-se e nós saímos. Ninguém disse nada até chegarmos à porta do quarto.
─ E então? ─ insisti, abrindo a porta.
─ Fiz e deu negativo. ─ respondeu, entrando no quarto. ─ Só o fiz mesmo para ter a certeza absoluta, já que antes descobri que tudo não passara de uma invenção.
─ Como assim?
Márcia depositou o sobretudo na cama, sentou-se ao fundo do colchão e ficou a ver-me fechar a porta e a sentar-me numa cadeira em frente a ela.
Não pude deixar de reparar nas semelhanças entre aquele quarto e o outro daquele mesmo hotel onde eu e ela passámos a noite juntos a fazer sexo. O quarto tinha o mesmo corredor, o qual percorri até à cadeira, com uma porta para a casa de banho de um lado e os roupeiros no oposto.
Tenho a certeza que as semelhanças da arquitectura do quarto também avivaram as memórias de Márcia que também observava a decoração. Afastando o olhar do meu, explicou:
─ Depois de termos estado juntos, um ex-amante meu procurou-me. Queria “matar saudades”. Não me olhes assim! Achavas que eras o único?
─ Cheguei a pensar que sim. ─ confessei.
─ Pois, não eras. ─ confirmou com dureza. ─ Não nos víamos já há algum tempo. Só que a nossa noite fora tão boa que eu não sentia necessidade de ter outros homens para além de ti.
─ Não inventes. Não sou parvo.
─ É a verdade. Se acreditas ou não é indiferente.
─ Pronto, continua lá…
─ Como me recusei, ele ligou-me apavorado a dizer que fizera o exame e que estava infectado. E como tínhamos estado juntos um mês antes, ele queria que eu soubesse que poderia estar também infectada. Fiquei em pânico e acabei por tomar a mesma atitude contigo, por isso escrevi-te o email que te escrevi. ─ Fez uma pausa, como se recordasse cada minuto. ─ Acho que tinha esperança que me apoiasses, que te preocupasses comigo, que pudéssemos enfrentar essa possibilidade juntos. Mas escrevi-te com a quase certeza de que te irias afastar. E não te podia censurar por isso, eu era a outra, era só uma foda, uns momentos de prazer… Só que tu foste cruel. Respondeste-me a desejar que eu morresse.
─ Desculpa!
─ Achas que as tuas desculpas fazem alguma diferença? ─ questionou. ─ Foram momentos muito difíceis. Estive à beira do suicídio, sem ninguém a quem contar.
─ Desculpa! ─ voltei a repetir.
─ Cala-te com as desculpas! ─ ordenou com irritação.
─ E o teu marido? Contaste-lhe?
─ Não. Para quê? Ele quer lá saber se estou bem ou se estou mal. ─ Levantou-se da cama tão igual àquela onde nos saciámos do corpo um do outro, quase um ano antes, e caminhou até à janela, ficando a observar a noite escura. ─ Sabes porque é que tenho amantes?
─ Não.
A resposta não veio de imediato. Márcia observou mais um pouco a noite e as luzes lá em baixo. Depois, olhou para mim de uma forma ferida e explicou:
─ Porque o meu casamento é uma fantochada. ─ Voltou calmamente ao seu lugar ao fundo da cama. ─ Quando me apaixonei pelo meu marido, tinha eu uns vinte e poucos anos, achei que ele era o homem da minha vida. Quis ir virgem para o casamento, pois dizia-se muito religioso, e casou comigo ao fim de seis meses de namoro. Na noite de núpcias, olhou para mim e disse-me que era gay e que casara para manter as aparências para a família. Disse-me que não queria que fosse infeliz e era livre de ter os amantes que quisesse, desde que isso nunca fosse do conhecimento de ninguém que o conhecesse.
─ Estou a perceber. Eu fui apenas mais um na lista.
─ Sim. ─ confirmou. ─ Foste mais um na lista. Mas foste um com quem gostei muito de estar e com quem queria repetir.
O conhecimento da história magoava-me. Eu, que ao longo da juventude e até assentar com Susana, fora mulherengo como Eduardo tanto gostava de me apelidar, via-me ali apenas como mais um da lista de uma… ninfomaníaca. Eu que sempre fora o predador, fora ali a presa.
─ Lamento ter-te magoado. ─ disse, ainda com o sentimento de culpa pelo email frio e rude que lhe enviara. ─ Foi fruto do desespero.
─ Eu compreendo. Não te perdoo, mas compreendo o teu desespero. Eu também passei por ele. Felizmente, não foi por muito tempo. ─ Não disse nada, mas o meu olhar deveria ser inquiridor. ─ Passadas duas semanas, esse meu ex envolveu-se com outra tipa. Ficou tão encantado de amores que achou que só poderia ser plenamente feliz se me libertasse da mentira que inventara. Por isso, mandou-me um email a contar verdade. Tive vontade de o matar, mas acabei por nem lhe responder.
─ Podias ter-me informado disso. ─ lembrei. ─ Tinhas-me poupado a tanto tempo de desespero e nunca teria contado nada a Susana.
─ Achas que merecias? ─ questionou com seriedade. ─ Depois da forma cruel como me respondeste, achas que merecias? ─ Não respondi, pois no lugar dela teria feito o mesmo. ─ Após o teu email, eu risquei-te da minha mente.
Aquela frase foi quase um ponto final na conversa. Não sabia que mais haveria de dizer perante uma mulher que desejava, mas que me odiava profundamente a cada olhar que me atirava.
─ Acho que não temos mais nada a dizer. ─ quebrou ela o silêncio. ─ Aquela noite foi muito boa, mas tu mataste o carinho e a atracção que eu tinha por ti. Se calhar, achas que estou a ser exagerada, que é uma reacção ridícula de mulher que, para ti, não passa de uma… sei lá… ─ Fez uma pausa e sorriu numa mistura de sarcasmo e dor. ─ Percebi pelo teu olhar quando te disse que tinha amantes. Para ti não passo de uma vadia, uma puta… ─ Sorriu com ironia. ─ Bom, puta não. Nunca cobrei dinheiro pelo sexo.
─ Não faço juízos de valor, Márcia. ─ interrompi. ─ Quem sou eu para o fazer? Alguém que traiu a mulher que ama, a mãe da sua filha, por uma noite de sexo. Não, Márcia, não te julgo. No teu lugar faria o mesmo, apesar de não perceber porque não te separas.
─ Por vezes, nem eu sei porque não o faço. ─ confidenciou, tornando a deixar o colchão para se aproximar novamente dos vidros. ─ No início era complicado e não tive força para tomar essa atitude. Mas, depois… Acho que acabei por me acomodar à vida que tenho. Não ganho nada com isso e não quero prejudicar o meu marido com um divórcio. ─ De súbito, voltou a olhar para mim. ─ E tu? Disseste que contaste à tua mulher, mas continuam juntos.
─ Mantemos as aparências por causa da nossa filha. ─ expliquei. ─ Já nem dormimos no mesmo quarto.
─ E a miúda não desconfia?
─ Não. Para ela, o pai ressona e incomoda a mãe, por isso, dorme noutro quarto. Ainda é muito nova para suspeitar que o pai e a mãe já não estão juntos como casal.
Márcia regressou à observação da noite e dos candeeiros da rua a brilhar nos seus tons alaranjados. Sentado na minha cadeira, contemplei o seu corpo esguio e curvilíneo, o cabelo caído sobre os ombros, as costas direitas, o rabo redondo, as longas pernas, os pés a tocar o chão como se fosse feito de papel de arroz. Nem eu nem ela falámos durante algum tempo. Parecia não haver nada a dizer, mas nenhum de nós se queria ir embora. Levantei-me da minha cadeira e caminhei até ela, parando atrás de si e olhando para a sua nuca.
─ Sei que não serve de nada, mas acredita que estou muito arrependido pela forma como te respondi no email. ─ Márcia não respondeu. Olhei para a noite fria e preparei-me para sugerir que abandonássemos o quarto e nos despedíssemos em definitivo. ─ Lamento, Márcia! Nunca desejei que morresses, foi uma reacção estúpida.
Márcia virou-se e ficou olhos nos olhos comigo.
─ Que desejas tu de mim, então? ─ inquiriu.
─ O mesmo que qualquer homem deseja quando olha para ti. ─ retorqui de forma espontânea.
─ E é o quê? ─ insistiu, como se não percebesse.
─ Tu sabes bem. Sempre te desejei e ainda mais depois da noite que passámos juntos.
Márcia atirou-me um sorriso incrédulo e desviou o olhar, questionando:
─ E achas que tens alguma hipótese, depois da forma como me magoaste?
Sabia que não. Porém, não respondi e vi-a afastar-se da janela e de mim. Deu alguns passos até ao corredor e entrou na casa de banho.
Enquanto esperava que ela voltasse, pensei em como gostava de ficar ali com ela, mas esgotadas as palavras, já nada havia ali para fazer, além de ir embora. Adorava voltar a ter sexo com ela. Confesso que a ideia de manter a chantagem me passou pela cabeça, mas mesmo tendo muitos defeitos, obrigar uma mulher a ter relações sexuais não era um deles. Márcia fora uma amante maravilhosa e merecia ser respeitada e não prejudicada.
─ Márcia! ─ chamei.
─ Sim. ─ respondeu ela do interior da divisão.
─ Não te preocupes que nunca direi nada à Susana. ─ descansei-a. ─ E desculpa ter-te chantageado para vires aqui. Não tive escrúpulos e fui um mau carácter. Não vais acreditar, mas se não tivesses vindo, eu não teria contado nada. Não sou de prejudicar as outras pessoas, muito menos aquelas que me deixam tão boas recordações.
─ Pena não saber isso. ─ ripostou ela, fazendo ecoar a sua voz dentro da casa de banho. ─ Teria poupado esta perda de tempo. ─ Ouvi água a correr lá dentro. ─ Espero que mantenhas essa postura, se alguma vez nos cruzarmos em frente à tua mulher.
─ Podes ficar descansada.
Peguei no telemóvel para ver as horas e reparei em duas tentativas de Susana em me contactar. Como deixara o aparelho sem som, só naquele instante tomei conhecimento disso. Contudo, pouco me interessou o que ela queria, teria tempo de saber quando chegasse.
─ Só tenho mais uma coisa para te dizer. ─ ecoou novamente a voz de Márcia. Esperei essa revelação, mas só ouvi a fechadura da porta da casa de banho a destrancar. Vi-a abrir e para meu espanto, Márcia apareceu sem roupa, apenas com as minúsculas cuecas vestidas e os braços cruzados sobre o peito nu. ─ Acho um completo desperdício pagares um quarto sem desfrutares dele.
Fiquei tão aparvalhado com a atitude dela que nem tive reacção. Márcia aproximou-se de mim, abriu os braços, encostou os seios ao meu peito e abraçou-me, procurando a minha boca com a sua. Assim que correspondi aos seus beijos, ela começou a despir-me, tirando-me a roupa com sofreguidão até me deixar só com os boxers.
─ Espera! ─ pedi. Sem abrir o abraço com que envolvia o seu corpo, deitei a mão ao bolso das calças atiradas para as costas da cadeira e retirei um preservativo. ─ Não quero repetir o mesmo erro.
─ Não tenho dúvida que o susto foi grande. ─ concluiu ela, segurando a pequena embalagem. ─ Posso?
Assenti com a cabeça e fiquei a observá-la a abri-la. Retirou a pequena moeda de borracha com os dedos e prendeu a ponta do preservativo nos lábios. Puxou-me os boxers até aos tornozelos e começou a acariciar-me até me deixar rijo. Depois… Bom, depois, a sua boca envolveu-me com a borracha na perfeição.