Capítulo XL
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O mês de Março foi menos chuvoso que os anteriores daquele ano. No entanto, o frio parecia não se querer ir embora. Em Lisboa, devido à poluição, as temperaturas nunca atingiam níveis tão baixos como em Paúle, onde segundo o meu pai chegavam a atingir graus negativos durante a noite. Eu sabia bem como era, pois o mesmo sucedera nos dois anos que lá vivera.
Este mês iria ser também importante para a minha equipa, uma vez que teríamos uma primeira fase de preparação para o Mundial com a realização do Mundialito no Algarve. Parecia estranho, mas Portugal organizava uma das competições mais prestigiantes do futebol feminino, a Algarve Cup, a qual contava sempre com selecções de topo. E nesta edição, as nossas pretensões eram maiores, embalados pelos bons resultados da qualificação para o Campeonato do Mundo.
Em casa, nada mudara. Susana continuava fria e distante, mantendo farsa da nossa relação para Ivana, mas completamente gélida na sua ausência. Contudo, isso pouco me importava, pois sempre que era possível, Márcia e eu encontrávamo-nos no hotel para sexo sem compromisso e obtinha dela todo o calor que necessitava.
Numa semana em que as competições desportivas não tinham nenhum jogo de grande rivalidade, nem havia competições europeias, os jornais procuravam notícias para encher as páginas das suas edições diárias. Apesar do interesse na equipa feminina se ter dissipado um pouco, a aproximação da Algarve Cup trouxe de novo a curiosidade da comunicação social. E um dos diários desportivos fez da sua primeira página o destaque a uma entrevista com aquela que era considerada a melhor jogadora portuguesas de todos os tempos, Helena, que sempre se recusara a representar o país que a viu nascer… até àquela entrevista.
Numa manhã como tantas outras, saí de casa para dar um passeio pela zona ribeirinha. Mesmo com frio, sabia bem caminhar junto ao rio, acolhendo os raios solares tímidos do Inverno. No meu trajecto, passei pelo quiosque de revistas e jornais, como também era habitual, para espreitar os títulos desportivos. Para meu espanto, na capa de um desses diários de desporto, vi a foto de Helena com um enorme sorriso e com o título “Estou disponível para a Portugal”, sendo que a frase era uma citação de uma das afirmações da jogadora durante a entrevista. Mais abaixo, em letras mais pequenas, podia ler-se “Ivan Pedro tem feito um grande trabalho”, “Sei que posso ajudar a equipa a alcançar glórias ainda maiores” e “A Algarve Cup será uma boa preparação e será uma honra poder participar nela com as minhas compatriotas”. Puxei de algumas moedas que trazia no bolso e comprei um exemplar para ler toda a entrevista.
Para a maioria da opinião pública que só agora tomava contacto com a nossa equipa nacional de futebol feminino, a indisponibilidade de Helena para jogar por Portugal era desconhecida. Talvez muitos se perguntassem do porquê de eu nunca a ter chamado. Contudo, o jornalista que a entrevistou fizera um bom trabalho de casa e confrontou-a exactamente com essa questão. Se sempre se negara a jogar por Portugal, porquê esta mudança de atitude? Helena justificou que a exigência do campeonato norte-americano de futebol feminino não permitia deslocações de uma jogadora fundamental para representar uma selecção sem grande ambição. Referiu também que o seu contrato a obrigava a essa renúncia, pois eram jogos que não levavam a nada para Portugal e podiam resultar numa lesão da jogadora. Tudo isto era falso, que eu saiba o clube dela nunca lhe exigira a renúncia e eu não esquecera a forma firme como ela recusou o meu convite para ser convocada, baseada na esperança de se convocada para a equipa dos Estados Unidos, candidata ao título mundial, uma vez que tinha dupla nacionalidade. Só que as americanas nunca a convocaram e este Mundial poderia bem ser a sua última oportunidade para estar presente num.
A entrevista era bastante extensa. O jornalista quis saber a opinião de Helena sobre mim. Claro que ela traçou os maiores elogios que conseguiu encontrar sobre o meu trabalho. Outra coisa não seria de esperar, ela não disse nada que não fosse do conhecimento de todos, eu provara as minhas capacidades de treinador com os resultados que a minha equipa obteve.
Helena foi convidada também a formar uma opinião acerca das nossas adversárias na fase de grupos. Como uma doutorada em futebol feminino, ela traçou virtudes e defeitos em todas as equipas e afirmou com toda a certeza que Portugal poderia muito bem passar à segunda fase do torneio. Era absurdo fazer semelhante afirmação. Nós podíamos ter ambição, mas declarar que o íamos fazer era elevar demasiado as expectativas de quem nos seguia.
Nessa tarde, Laurinda ligou-me entusiasmada com a entrevista de Helena. Se conseguimos tão bons resultados antes, com Helena seria possível ainda mais.
─ Não vou convocá-la! ─ interrompi todo o seu ânimo.
Do outro lado da linha, senti que Laurinda engoliu em seco num ligeiro silêncio. Sei que não concordava, mas jamais me criticaria depois de toda a confiança que ganhara pelo meu trabalho. No entanto, não evitou uma contestação:
─ Não vai convocá-la? Ivan, ela é a melhor jogadora portuguesa de todos os tempos. Não podemos dar-nos ao luxo de abdicar de alguém com o seu valor.
─ Laurinda! Nós conseguimos chegar onde chegámos sem ela. Podemos continuar sem ela. ─ retorqui. ─ A Laurinda testemunhou o meu convite pessoal para a convocar. Lembra-se do que ela respondeu?
─ Lembro, Ivan. Mas acho que podia ser uma mais-valia.
─ Também acredito que sim. ─ concordei, procurando que ela compreendesse a decisão. ─ Mas o desporto não é vencer a qualquer custo. Temos vinte e três jogadoras que deram tudo para esta qualificação, abdicaram de tempo importante das suas vidas para que alcançássemos este sonho. Diga-me, Laurinda! Qual delas quer sacrificar para trazer alguém que nos renegou sem qualquer hesitação?
─ Não se trata de sacrificar. ─ contrapôs ela. ─ É aproveitar todas as boas jogadoras que temos. O Ivan sabe como foi difícil encontrar vinte e três jogadoras com os níveis aceitáveis para este projecto.
─ Mas encontrámos. ─ insisti. ─ Foi duro, deu trabalho, mas construímos uma equipa. E o futebol é isso, um jogo de equipa. O futebol não é nomes, vedetas. ─ Fiz uma breve pausa, deixando que ela assimilasse onde eu queria chegar. ─ Laurinda! Sei a admiração que tem pela Helena. Mas, comigo ela não joga. Ela virou as costas ao país quando este precisou dela. Não é agora que é ela que precisa de nós que lhe vou abrir as portas.
Laurinda não escondeu a tristeza pela minha recusa, mas manteve-se sempre fiel e concordante com as minhas decisões.
Se a convocatória para a Algarve Cup já era aguardada com alguma ansiedade pela comunicação social desportiva, esta entrevista aumentou ainda mais o interesse.
Uma semana antes do início da competição, a Federação Portuguesa de Futebol convidou os jornalistas à sua sede para ouvirem de viva voz os nomes das convocadas.
A conferência de imprensa realizou-se no edifício da FPF numa sala destinada a esse efeito. Seria a primeira vez que a convocatória seria anunciada presencialmente aos jornalistas, uma vez que antes isso nunca acontecera, limitando-se a Federação a comunicar pelas vias institucionais a chamada às jogadoras escolhidas.
Se aquele evento tivesse tido lugar depois dos quinze a zero na Alemanha, a sala estaria vazia. Contudo, naquela tarde de Março, havia jornalistas de jornais, televisão, rádio, internet…
Laurinda e Simões acompanharam-me. Sentados ao meu lado, eles aguardaram os nomes da lista, sabendo já quem a compunha.
─ Maria João, Tita, Paula Rita. ─ comecei. ─ Nandinha, Paulita, Cati, Lila, Tuxa, Gisela, Beta, Ery, Eva, Carly, Mara, Ariela, Jeninha, Belinha, Vanda, Fabiana, Paula Cristina, Mila, Patrícia Raquel e Manelinha.
O “e Manelinha” provocou algum espanto nos presentes, uma vez que era o último nome da lista, uma lista que não continha o nome de Helena.
Conforme fora previamente combinado, haveria lugar a perguntas após a divulgação da convocatória. Vários jornalistas levantaram o braço com a pretensão de serem os primeiros. Simões pôs alguma ordem nas vozes que se tentavam ouvir e escolheu um primeiro interlocutor. Fosse quem fosse o primeiro a perguntar, não tenho dúvida que a pergunta seria a mesma:
─ Não convocou a Helena. Porquê?
Adivinhando que a ausência de Helena se poderia tornar no centro das atenções daquela conferência de imprensa, Simões antecipou-se a mim e respondeu:
─ Não vamos agora tentar saber porque não foram convocadas todas as outras jogadoras de futebol.
─ Mas estamos a falar da melhor jogadora portuguesa de todos os tempos. ─ recordou um outro jornalista, insistindo numa justificação.
Eu fiz sinal a Simões que iria responder.
─ A Helena sempre se recusou a jogar por Portugal. ─ justifiquei. ─ Eu próprio lhe dirigi um convite pessoalmente para que nos ajudasse a melhorar os resultados com o seu contributo. Ela sempre se recusou. Aliás, ela até se recusava a ouvir falar nesse assunto.
─ Mas os interesses do país não devem estar acima de vinganças pessoais? ─ questionou outro.
─ Não se trata de vingança. ─ corrigi, algo ofendido com a tal sugestão. ─ Trata-se de justiça para com as minhas jogadoras. Eu percebo que os nossos resultados nos tenham feito merecer o interesse da melhor jogadora portuguesa ao ponto de ela pôr termo à sua renúncia em jogar por Portugal. Só que agora, é ela que tem de merecer esse lugar entre nós.
Uma jovem jornalista de um blog desportivo inquiriu:
─ E como pode ela merecer isso, se não a convoca?
─ Se não estou em erro, a Helena anunciou a sua renúncia em jogar por Portugal há cerca de dez anos quando foi jogar para o campeonato profissional norte-americano. ─ Olhei para Laurinda para que me corrigisse se estivesse enganado. Ela assentiu com a cabeça, confirmando o que eu dissera. ─ Não lhe vou dizer que agora ela tem de esperar outros dez até ser convocada, até porque isso seria absurdo. Mas, podem ter a certeza que não será convocada nem para a Algarve Cup, nem para o Campeonato do Mundo.
Mais uma vez, as minhas palavras provocaram o espanto geral na plateia. Houve mais tentativas de prolongar as perguntas sobre Helena, mas Simões pôs um ponto final dizendo não se poderia prolongar a conferência de imprensa à volta de uma jogadora que não fora convocada. Isso fez com que a maior parte dos jornalistas se desinteressasse pelas questões e apenas mais dois se preocuparam em saber o que esperar da nossa participação na Algarve Cup.
Sem ter tido essa intenção, aquela convocatória iria abrir uma guerra entre mim e Helena. Sedentos de sangue e intriga como são os jornalistas, houve logo quem fosse procurar a reacção dela às minhas palavras. Helena não quis comentar, deixando apenas no ar a questão do porquê de eu convocar jogadoras naturalizadas ou até recém-federadas (clara alusão a Fabiana e Vanda) em detrimento de uma jogadora com o seu passado.
Helena poderia ter apagado a fogueira do conflito, mas preferiu atiçá-la com subtileza. Isso permitiu aos jornais despejar gasolina nela.
No dia seguinte, as capas dos jornais davam destaque à conferência de imprensa. “Vendetta” era o título do mesmo que publicara a sua entrevista. Outro escrevia “Ivan, o Terrível de Helena”. E um terceiro atirava “Ivan Pedro afasta Helena do Mundial”.
Constança também me telefonou para falar no assunto. O seu canal televisivo queria uma entrevista para explicar a situação aos seus espectadores. Eu recusei, não querendo prolongar a questão para que esta caísse no esquecimento antes do Campeonato do Mundo.
Eles “agradeceram” a recusa dedicando um dos seus programas desportivos de opinião a dissecar o caso. Foi curioso, para não dizer ridículo, ver meia dúzia de supostos entendidos nos assuntos do futebol a dar tanta opinião acerca disso, quando quase dois anos antes nem queriam saber se existíamos. Constança acabou por entrevistar Helena nos Estados Unidos, uma entrevista em que a jogadora dizia com toda a santidade que compreendia a minha decisão e que isso não a impediria de ter o seu coração dividido no apoio a Portugal e aos Estados Unidos durante o Mundial. Ela compreendia tudo, mas pelo meio insinuava que eu era vingativo, não sabia lidar com a realidade desportiva de atletas profissionais, entre outras coisas pouco simpáticas.
Susana chegou a casa enquanto eu via a entrevista na televisão e, percebendo que eu era o mote das críticas, não se escusou a dizer com ironia:
─ Não há dúvida que tens jeito para virar as mulheres contra ti.
Eu desejava que a controvérsia terminasse e não dava hipóteses a quem me convidava para entrevistas a alimentar o caso. No entanto, toda aquela situação me atormentava o espírito e receava que aquilo pudesse prejudicar tudo o que a minha equipa conquistara com tanto trabalho.
─ Parece que não estás cá. ─ disse-me Márcia durante um dos nossos encontros secretos.
Deitado na cama do hotel completamente nu, percebi que me perdera em pensamentos, enquanto ela trabalhava afincadamente de mãos e boca no meu membro.
─ Desculpa! ─ pedi, observando-a como viera ao mundo, deliciando-me sempre com as suas linhas corporais. ─ Esta treta dos jornalistas por causa daquela gaja…
Eu iria partir para o Algarve daí a dois dias e ligara a Márcia para que nos encontrássemos antes, uma vez que iríamos estar afastados cerca de duas semanas.
─ Não podes deixar que isso te afecte. ─ aconselhou, acariciando-me as pernas sem parar de massajar a minha tesão. ─ Com os passar do tempo, eles vão deixar isso cair no esquecimento. É só aparecer aí uma polémica com o Benfica ou com o Porto e isso passa logo para segundo plano.
─ Talvez… ─ concordei pouco crente.
─ Ivan! ─ chamou num tom sensual. ─ Anda! Esquece isso um pouco e vem. Anda! Anda castigar-me.
Márcia era uma amante fenomenal, mas nunca compreendi porque tinha de sentir dor durante o sexo. Nas primeiras vezes, queria que lhe batesse enquanto a penetrava. Descobri que o auge da sua excitação era chapada nos seios. Enfim… Houve uma vez que quis que a algemasse à cama e vertesse cera de uma vela a arder sobre o corpo. Noutra, trouxe umas molas de prender folhas de papel que colocou nos mamilos, enquanto saltava sobre mim. Doía só de olhar.
─ Que temos hoje? ─ questionei, à espera de mais uma paranóia.
Márcia colocou-se sobre mim, de costas, e apertou-me entre as suas pernas, fazendo-me escorregar para dentro de si. Começou a mover-se devagarinho, procurando algo dentro da sua mala, deixada ao lado da cama. Vi-a retirar um pequeno chicote de cabedal.
─ Toma. ─ disse com a respiração ofegante, entregando-me o objecto. ─ Eu fui muito má estes dias. Castiga-me!
Se não fosse tão boa na cama, acho que não suportava o seu masoquismo.
O dia da partida para o Algarve chegou. Tal como Márcia profetizara, o assunto Helena caiu no esquecimento, não por polémicas, mas pelo jogo entre o Sporting e o Porto que se iria disputar nesse fim-de-semana.
Na Federação, dirigentes, equipa técnica, jogadoras, todos apoiaram a minha posição. Só que no subconsciente das atletas surgiu a necessidade de provar que eram suficientemente boas para não se notar a falta de Helena entre elas.
Logo no primeiro jogo percebi a preocupação de executar todas as jogadas na perfeição. Esse jogo do torneio opôs-nos à Finlândia, uma adversária ao nosso alcance, ainda para mais a jogarmos em casa. Não sei se foram os meses sem jogos internacionais ou se de facto estavam afectadas pela novela “Helena” que as fez jogar tão mal e acabarem por perder.
Claro que a comunicação social desportiva continuava em cima de nós, acompanhavam os treinos, procuravam reacções das jogadoras e até queriam conferências de imprensa antes e depois dos jogos. Só faltou transmitirem os jogos em directo na televisão.
Antes do jogo da Finlândia, todos queriam saber qual a táctica, quem iria jogar, quais as perspectivas… O habitual. Após o jogo, voltaram as questões sobre a ausência de Helena. Fatigado com aquele tema, ameacei que não voltaria a haver conferência de imprensa se continuassem a falar em Helena.
Crentes de que eu cumpriria a ameaça, eles não voltaram a abordar o assunto. No entanto, na manhã seguinte, as capas dos jornais eram impiedosas. “Helena não faz falta?”, interrogava um, “Assim não vão a lado nenhum!”, afirmava outro e “Finlândia vulgariza geração de ouro”, concluiu o terceiro diário desportivo. Por mais que quisesse, era impossível blindar as jogadoras às críticas, as quais as passavam de bestiais a bestas num piscar de olhos.
No segundo jogo defrontámos as modestas jogadoras do País de Gales. Tenho a certeza que em condições normais teríamos vencido sem qualquer dificuldade. Contudo, a concentração das jogadoras perdia-se na tentativa de demonstrar que eu estava correcto e não precisávamos de Helena no plantel. O resultado foi mais uma derrota, desta vez por um a zero, ainda para mais com um auto-golo de Ariela. Aliás, este foi mesmo um jogo infeliz para ela que, depois do auto-golo, quis redimir-se pedindo para marcar uma grande penalidade que a juíza assinalara para castigar o derrube de Mila dentro da grande área galesa. Ariela não só falhou o golo, como falhou a própria baliza.
As portuguesas eram uma sombra da equipa que se qualificara para o Mundial.
Nessa noite, enquanto estudávamos a táctica para o próximo jogo e trocávamos opiniões acerca de mais uma derrota, Laurinda disse:
─ Isto só vem dar razão aos que o criticam por não convocar a Helena.
─ Eu sei.
─ Não seria melhor…
─ Não, Laurinda! ─ cortei com alguma rudeza. ─ Desculpe! Não queria ser bruto. Esta equipa não precisa da Helena. Não precisou para vencer os jogos que venceu. Infelizmente, elas estão a deixar-se afectar por toda a polémica.
─ A Ariela está de rastos. ─ informou a minha adjunta. ─ Fartou-se de chorar depois do jogo. Sente que só contribuiu para que o venham a criticar ainda mais.
─ Eu vou falar com ela.
Sabia como era importante não deixar que Ariela, ou qualquer outra jogadora, ficasse a massacrar os pensamentos com um jogo menos conseguido. Por isso, terminei a reunião com Laurinda e fui procurá-la.
Ariela estava no seu quarto do hotel, a mesma unidade hoteleira em Vilamoura onde estagiámos antes do jogo com a Alemanha. Bati à porta e aguardei.
Vanda era a colega de quarto de Ariela, a qual surgiu em pijama atrás da porta, quando a abriu.
─ Desculpe, Vanda! A Ariela está?
─ Sim, mister. Está ali na varanda.
─ Pode chamá-la?
─ Pode entrar, mister. ─ convidou, apontando para o interior. ─ É melhor ir lá o senhor, ela tem estado muito em baixo.
Agradeci o convite e entrei no quarto. Atravessei o pequeno corredor e passei junto às duas camas individuais até alcançar os vidros altos da varanda. Corri um dos vidros e vi Ariela sentada numa cadeira a olhar para a piscina.
─ Mister? ─ proferiu ela com surpresa, vendo-me ali. Reparei que tinha os olhos vermelhos. Levantou-se da cadeira e ajeitou o pijama como se fosse um soldado preocupado com a farda perante um General.
─ Deixe-se estar. ─ pedi, indicando-lhe a cadeira e apontando depois para a outra. ─ Posso?
─ Sim, claro.
Vanda ficou no interior, dando atenção ao que passava na televisão. Como eu fechara o vidro depois de passar, ela percebeu que eu queria conversar somente com Ariela.
─ O jogo hoje não lhe correu bem. ─ recordei. ─ Mas, não se deve deixar abater por isso. A Ariela é uma excelente jogadora. É normal termos jogos menos bons. Quantos eu não tive…
─ Eu sei, mister. Mas não podia ter sido hoje. Não podia ter sido numa altura em que nos colocam tão em causa por causa da Helena.
─ Não se preocupe com isso. Eu cá estou para lidar com eles.
Ariela levantou-se da cadeira e debruçou-se no parapeito da varanda, continuando a olhar para a piscina sem ninguém. De seguida, olhou para mim.
─ Sinto que o deixei ficar mal. ─ confidenciou, cheia de mágoa no olhar. ─ O mister que nos deu tanto… E nós deixamo-lo ficar mal em campo. Eu! Eu deixei-o ficar mal.
Levantei-me igualmente da cadeira e debrucei-me a seu lado no parapeito. Não consegui deixar de lamentar que uma mulher tão bonita não gostasse de homens, mas naquele momento isso era irrelevante. Percebia na sua voz a tristeza e apetecia-me abraçá-la e confortá-la.
─ Não se deixe afectar em demasiado com isso. ─ insisti. ─ O futebol leva-nos do Céu ao Inferno numa fracção de segundo. Cabe a nós não nos deixarmos vencer e voltar a alcançar o Céu. ─ Ariela olhou-me nos olhos. Tinha um olhar expressivo e carismático. ─ Para mim, a Ariela teve apenas um jogo mau. Não deixe que para si seja mais que isso.
E com aquelas palavras a deixei na varanda.
Claro que os jornais foram novamente impiedosos. Questionavam até quando duraria a minha teimosia. Se era tão orgulhoso que não via que Helena fazia falta à Selecção. E esqueciam sempre que tudo o que havíamos alcançado fora sem a presença de Helena.
Fizemos mais dois jogos no Mundialito. Se os dois primeiros foram uma descida aos Purgatório, os outros dois foram uma visita guiada ao Inferno. Primeiro foram as canadianas a despacharam-nos com quatro golos sem resposta. E depois vieram as norte-americanas cilindrar-nos com mais cinco a zero.
Após os últimos jogos e antes de abandonarmos o hotel, reuni todas as jogadoras para falar sobre os jogos de uma forma sumária. Pedi-lhes que não esquecessem tudo o que já tinham feito antes e que também não esquecessem o que tinham feito mal naquele torneio para que não repetissem no futuro. Afirmei que mantinha a minha confiança nas suas capacidades e que esperava que elas também.
Quando regressei a Lisboa, os jornais eram arrasadores para comigo e para com as minhas jogadoras, de tal forma que achei por bem nem contestar, optando por um black-out temporário. Os programas de pseudocomentadores de futebol também nos criticavam, davam notas negativas, colocavam-nos nos piores patamares e duvidavam que a nossa participação no Campeonato do Mundo fosse mais que uma vergonha para o país. O cepticismo sobre as nossas reais capacidades aumentou muito.
As críticas foram muitas, Helena continuava a ser um cavalo de batalha para os órgãos de comunicação social, sendo tudo posto em causa… Eu teria suportado tudo e feito o meu trabalho como sempre, não fosse a notícia que saiu alguns dias mais tarde.
Segundo um daqueles pasquins diários que com o seu sensacionalismo só dão mau nome ao jornalismo em Portugal, eu teria um caso amoroso com uma das jogadoras da equipa nacional. Esse jornal apresentava como prova a habitual “fonte anónima” que a ética profissional não permitia revelar, a mesma que eles sujavam com um jornalismo tão reles, e uma foto. Pois… Uma foto.
Como referi anteriormente, a comunicação social seguia-nos para todo o lado. Porém, nunca pensei que andassem fotógrafos atrás de nós à procura de invenções. Quando estive a conversar na varanda do hotel com Ariela, alguém nos fotografou. E o jornal publicou a foto na primeira página com o título “Sexo na Selecção” e com um artigo a dizer que eu passara a noite no quarto de hotel com Ariela e que a foto fora o captar do “momento em que o casal descontraía na varanda”. No interior de tão imunda publicação, viam-se mais duas fotos, uma delas com uma perspectiva que insinuava um beijo entre mim e Ariela, e o autor do artigo referia que a mesma “fonte anónima” o informara que eu visitava o quarto de Ariela todas as noites.
As reacções à notícia não se fizeram esperar. O senhor Simões ligou-me indignado com tamanha mentira e disse que o departamento jurídico da Federação estava à minha disposição para processar o jornal. Só que, infelizmente, perante os jornalistas, um porta-voz da Federação, em vez de dizer isto, informou que iria ser aberto um inquérito. O inquérito era para saber quem era a tal “fonte anónima”, mas no ar ficou a ideia que o inquérito era sobre mim.
Laurinda também me ligou, manifestando a sua raiva perante aquelas invenções e dando-me todo o apoio. Interpeladas sobre o assunto, algumas jogadoras vincaram bem a sua indignação pela mentira e manifestaram toda a solidariedade comigo e com Ariela. Curiosamente, ninguém encontrou Ariela.
Senti-me muito em baixo com aquela situação. Estava a ser vítima de uma grande injustiça e não tinha como provar a verdade. Ou melhor, tinha como provar porque tanto as jogadoras como todo o staff da Federação podiam testemunhar que aquilo era mentira. O que irritava era o facto de as pessoas não quererem ouvir a verdade, preferindo alimentar polémicas.
Procurando fugir um pouco a tudo aquilo, liguei a Márcia para nos encontrarmos no hotel onde era habitual. Precisava de desanuviar a mente com sexo, aquele sexo tão saboroso que praticava com ela.
─ Não! ─ foi a sua resposta ao convite. Por momentos, pensei que fosse uma reacção de ciúmes a fazer fé na notícia do jornal. Mas não era. ─ Estás doido? Os jornais andam em cima de ti. Não posso correr o risco de ser fotografada contigo.
─ No hotel ninguém nos vê. ─ contrapus.
─ Vêem-nos os funcionários. ─ lembrou ela. ─ E em troca de dinheiro, podem muito bem ir dar com a língua nos dentes aos jornalistas. Ivan! Basta só uma insinuação do meu nome com o teu.
─ Márcia! Eu preciso de estar contigo.
─ O sexo contigo é muito bom, Ivan. Mas não vale a possibilidade da perda do contrato que temos com a empresa da tua mulher. Eu não posso correr esse risco, para além que o meu nome nos jornais como tua amante arruinaria o meu casamento.
─ Aquele tal que é uma fachada. ─ lembrei-a com mágoa.
─ É fachada, mas nem isso será se a minha vida sexual vier para os jornais.
─ Isto significa o fim da nossa relação? ─ questionei, ferido pelo seu abandono.
─ Nada é definitivo. Mas, para já, vamos dar um tempo. ─ sugeriu sem hesitação. ─ Deixa a poeira assentar.
Desliguei-lhe o telefone na cara.
Alguns minutos depois, o meu telemóvel tocou, mas não reconheci o número. Calculei ser mais algum jornalista a tentar dissecar o caso, por isso, não atendi. Quem ligara deixou mensagem no voicemail. A princípio não tive interesse em ouvir, mas alguns minutos depois a curiosidade venceu.
─ Tem uma mensagem nova. ─ disse a voz impessoal do gravador de mensagens. ─ Recebida hoje às… ─ Que seca, tanta treta para me deixar ouvir a mensagem. A voz que se seguiu foi a surpresa total. ─ Olá mister! É Ariela. Liguei-lhe para… para lhe pedir desculpa por estas notícias. Não sei o que fazer para desmentir estas invenções. Espere que não leve a mal, mas preferi isolar-me e desaparecer para não ter os jornalistas atrás de mim com perguntas. A última coisa que quero é prejudicá-lo. ─ Houve uma pausa. ─ Se eu puder fazer alguma coisa… Mesmo não tendo culpa, quero pedir-lhe desculpa.
Um clique colocou fim à mensagem.
Sem pensar duas vezes, marquei o número com que me ligara. Esperei alguns toques e ouvi a sua voz:
─ Estou?
─ Olá, Ariela!
─ Olá, mister! ─ A sua voz tremia ligeiramente.
─ Acabei de ouvir a mensagem que me deixou. ─ informei, procurando parecer calmo e pouco afectado com o assunto. ─ Não tem nada que se desculpar, a Ariela é tão vítima quanto eu nesta história.
─ Eu sei. Mas sinto que estou a ser usada como arma para o atingir e não encontro forma de o evitar.
─ A verdade há-de vir ao de cima. ─ afirmei. ─ Daqui a alguns dias, tudo não passará de uma triste recordação.
Houve um silêncio do outro lado. Foi tão prolongado que me pareceu que a chamada terminaria sem mais nenhuma palavra.
─ A minha namorada deixou-me. ─ disse ela, subitamente, num desabafo. ─ Pensa que a traí consigo e acabou com a nossa relação.
─ Não sei o que dizer. ─ retorqui, completamente perdido na melhor forma de abordar aquele diálogo. Do outro lado, Ariela soluçou denunciando as lágrimas que já não conseguia conter. ─ Não fique assim.
─ Estes últimos tempos têm sido terríveis. ─ balbuciou amargurada. ─ Desde o Mundialito, desde aquele jogo…
─ Esqueça o jogo. Isso agora não importa. ─ Irritei-me interiormente por não encontrar palavras que atenuassem o seu sofrimento. ─ Lamento que a sua companheira tenho tomado essa decisão.
─ Também eu. ─ concordou com uma fungadela.
─ Pode ser que reconsidere quando a verdade…
─ Isso pouco importa. ─ interrompeu. ─ Se não é capaz de acreditar em mim, não me interessa que acredite quando os outros o disserem.
─ Nesse aspecto, sou obrigado a concordar consigo.
─ Desculpe, mister, mas vou desligar. Preciso de descansar.
─ Tudo bem, Ariela. Se pre… ─ ouvi o clique de desligar. ─ …cisar de alguma coisa.
Para piorar o meu dia, só faltava a notícia chegar ao conhecimento de Susana, a qual impulsionada por esse facto chegou a casa antes do jantar. Algo raro, nos dias que corriam.
Eu estava sentado no sofá, a preparar-me para ver os noticiários. Susana chegou com o jornal na mão. Antes de dizer o que quer que fosse, certificou-se que Ivana não estava por perto.
─ Que significa isto? ─ interrogou, atirando o jornal para o sofá.
─ Agora preocupas-te com a minha vida sexual? ─ questionei divertido pela sua cena de ciúmes.
─ Pouco me importa quem andas a foder, desde que isso não venha nos jornais.
─ Fala baixo que a Ivana está no quarto. ─ avisei, levantando-me do sofá com o jornal na mão. ─ Isto é tudo mentira.
─ Deve ser deve. ─ duvidou ela com um volume vocal menor. ─ Só quem não te conheça. Esta também pode estar infectada? Ou desta vez tiveste miolos e ao menos…
─ Não digas parvoíces. ─ interrompi irritado. ─ Não houve nada. Esta foto foi tirada quando eu estava a conversar com ela na varanda.
─ E o beijo?
─ Qual beijo? Aquele que os jornalecos insistem em ver e que não existiu?
─ Ivan! Volto a repetir: Pouco me importa quem fodes. Mas se isso se torna notícia, a nossa relação acabou.
─ Qual relação? ─ questionei sarcasticamente. ─ Esta farsa que andamos a representar todos estes meses? Vai à merda mais a relação! Estás preocupada com o que as pessoas possam pensar de ti?
─ Sim! Estou preocupada com isso. Não quero que olhem para mim como a mulher enganada pelo companheiro que não tem escrúpulos para ter sexo. ─ Susana cuspia as palavras com uma enorme raiva. ─ Tu não poupas ninguém! Basta ter uma vagina e um par de mamas.
─ E um bom cu também. ─ retorqui com sarcasmo. ─ Ah… E já agora que faça alguma coisa na cama, ao contrário de certas pessoas que acham que o sexo é abrir as pernas e deixarem-se foder.
Susana respondeu-me com um estalo na cara.
O som do estalo provocou um silêncio que se prolongou por alguns segundos, onde ficámos a olhar para os olhos um do outro numa mistura de raiva e paixão.
─ Acredites ou não, ─ quebrei eu o silêncio. ─ eu não tive sexo com esta jogadora nem com nenhuma outra.
Susana ia para dizer alguma coisa, mas o seu olhar foi atraído para a televisão. Eu segui o seu olhar e vi a imagem da porta de um prédio com a indicação da localidade no canto superior direito e a identificação “casa de Ariela”. Peguei no comando do aparelho e aumentei o volume:
─ …aqui junto ao prédio da jogadora da Selecção Nacional, Ariela, que solicitou a presença da comunicação social para uma breve declaração.
A imagem centrou-se na porta envidraçada do prédio, revelando um interior escuro, em frente à qual vários repórteres aguardavam. Passado um instante, a luz interior acendeu-se e a imagem mostrou alguém a descer os últimos degraus e a aproximar-se da porta.
Ariela abriu a porta acompanhada por uma outra mulher que mais tarde soube ser a advogada da Federação que iria processar o jornal. Com dificuldade em encarar as câmaras, a jogadora começou:
─ Quero agradecer a todos por se terem deslocado até aqui. ─ Nas suas mãos, um papel dobrado que segurava com as mãos a tremer ligeiramente. Abriu-o com pouca aptidão e dirigiu o olhar para o conteúdo. ─ Estou aqui perante vós para condenar as mentiras publicadas por um jornal, onde atentavam contra a honra e dignidade da minha pessoa e da pessoa do mister Ivan Pedro. Lamento que a mentira e a infâmia sejam a forma escolhida por alguns de fazer notícia e vender jornais. O momento retratado nas fotos do jornal são apenas uma conversa entre atleta e treinador, o qual teve a preocupação de me dar uma palavra de apoio após um jogo menos feliz da minha parte. Sim, a varanda era do meu quarto no hotel, mas isso não é prova das mentiras que se publicaram. No quarto estava a minha colega de equipa Vanda que poderá corroborar esta versão. No entanto, toda esta versão cai no absurdo junto de quem me conhece mais intimamente. Para que não restem dúvidas, venho aqui perante vós assumir a minha homossexualidade, o que só vem demonstrar o quão absurda é a notícia vinculada por este exemplo de mau jornalismo.
A revelação de Ariela provocou um aumento dos flashes e todos os jornalistas quiseram fazer perguntas assim que perceberam que a declaração terminara. Contudo, a advogada não o permitiu e tomou a palavra para informar que se iria avançar com um processo contra o jornal pelas calúnias por ele produzidas.
Inchado por ver a verdade noticiada na televisão, olhei para Susana e disse:
─ Estás a ver?
Susana abanou a cabeça e concluiu com desdém:
─ Que tristeza. Já nem as fufas te escapam.
Este mês iria ser também importante para a minha equipa, uma vez que teríamos uma primeira fase de preparação para o Mundial com a realização do Mundialito no Algarve. Parecia estranho, mas Portugal organizava uma das competições mais prestigiantes do futebol feminino, a Algarve Cup, a qual contava sempre com selecções de topo. E nesta edição, as nossas pretensões eram maiores, embalados pelos bons resultados da qualificação para o Campeonato do Mundo.
Em casa, nada mudara. Susana continuava fria e distante, mantendo farsa da nossa relação para Ivana, mas completamente gélida na sua ausência. Contudo, isso pouco me importava, pois sempre que era possível, Márcia e eu encontrávamo-nos no hotel para sexo sem compromisso e obtinha dela todo o calor que necessitava.
Numa semana em que as competições desportivas não tinham nenhum jogo de grande rivalidade, nem havia competições europeias, os jornais procuravam notícias para encher as páginas das suas edições diárias. Apesar do interesse na equipa feminina se ter dissipado um pouco, a aproximação da Algarve Cup trouxe de novo a curiosidade da comunicação social. E um dos diários desportivos fez da sua primeira página o destaque a uma entrevista com aquela que era considerada a melhor jogadora portuguesas de todos os tempos, Helena, que sempre se recusara a representar o país que a viu nascer… até àquela entrevista.
Numa manhã como tantas outras, saí de casa para dar um passeio pela zona ribeirinha. Mesmo com frio, sabia bem caminhar junto ao rio, acolhendo os raios solares tímidos do Inverno. No meu trajecto, passei pelo quiosque de revistas e jornais, como também era habitual, para espreitar os títulos desportivos. Para meu espanto, na capa de um desses diários de desporto, vi a foto de Helena com um enorme sorriso e com o título “Estou disponível para a Portugal”, sendo que a frase era uma citação de uma das afirmações da jogadora durante a entrevista. Mais abaixo, em letras mais pequenas, podia ler-se “Ivan Pedro tem feito um grande trabalho”, “Sei que posso ajudar a equipa a alcançar glórias ainda maiores” e “A Algarve Cup será uma boa preparação e será uma honra poder participar nela com as minhas compatriotas”. Puxei de algumas moedas que trazia no bolso e comprei um exemplar para ler toda a entrevista.
Para a maioria da opinião pública que só agora tomava contacto com a nossa equipa nacional de futebol feminino, a indisponibilidade de Helena para jogar por Portugal era desconhecida. Talvez muitos se perguntassem do porquê de eu nunca a ter chamado. Contudo, o jornalista que a entrevistou fizera um bom trabalho de casa e confrontou-a exactamente com essa questão. Se sempre se negara a jogar por Portugal, porquê esta mudança de atitude? Helena justificou que a exigência do campeonato norte-americano de futebol feminino não permitia deslocações de uma jogadora fundamental para representar uma selecção sem grande ambição. Referiu também que o seu contrato a obrigava a essa renúncia, pois eram jogos que não levavam a nada para Portugal e podiam resultar numa lesão da jogadora. Tudo isto era falso, que eu saiba o clube dela nunca lhe exigira a renúncia e eu não esquecera a forma firme como ela recusou o meu convite para ser convocada, baseada na esperança de se convocada para a equipa dos Estados Unidos, candidata ao título mundial, uma vez que tinha dupla nacionalidade. Só que as americanas nunca a convocaram e este Mundial poderia bem ser a sua última oportunidade para estar presente num.
A entrevista era bastante extensa. O jornalista quis saber a opinião de Helena sobre mim. Claro que ela traçou os maiores elogios que conseguiu encontrar sobre o meu trabalho. Outra coisa não seria de esperar, ela não disse nada que não fosse do conhecimento de todos, eu provara as minhas capacidades de treinador com os resultados que a minha equipa obteve.
Helena foi convidada também a formar uma opinião acerca das nossas adversárias na fase de grupos. Como uma doutorada em futebol feminino, ela traçou virtudes e defeitos em todas as equipas e afirmou com toda a certeza que Portugal poderia muito bem passar à segunda fase do torneio. Era absurdo fazer semelhante afirmação. Nós podíamos ter ambição, mas declarar que o íamos fazer era elevar demasiado as expectativas de quem nos seguia.
Nessa tarde, Laurinda ligou-me entusiasmada com a entrevista de Helena. Se conseguimos tão bons resultados antes, com Helena seria possível ainda mais.
─ Não vou convocá-la! ─ interrompi todo o seu ânimo.
Do outro lado da linha, senti que Laurinda engoliu em seco num ligeiro silêncio. Sei que não concordava, mas jamais me criticaria depois de toda a confiança que ganhara pelo meu trabalho. No entanto, não evitou uma contestação:
─ Não vai convocá-la? Ivan, ela é a melhor jogadora portuguesa de todos os tempos. Não podemos dar-nos ao luxo de abdicar de alguém com o seu valor.
─ Laurinda! Nós conseguimos chegar onde chegámos sem ela. Podemos continuar sem ela. ─ retorqui. ─ A Laurinda testemunhou o meu convite pessoal para a convocar. Lembra-se do que ela respondeu?
─ Lembro, Ivan. Mas acho que podia ser uma mais-valia.
─ Também acredito que sim. ─ concordei, procurando que ela compreendesse a decisão. ─ Mas o desporto não é vencer a qualquer custo. Temos vinte e três jogadoras que deram tudo para esta qualificação, abdicaram de tempo importante das suas vidas para que alcançássemos este sonho. Diga-me, Laurinda! Qual delas quer sacrificar para trazer alguém que nos renegou sem qualquer hesitação?
─ Não se trata de sacrificar. ─ contrapôs ela. ─ É aproveitar todas as boas jogadoras que temos. O Ivan sabe como foi difícil encontrar vinte e três jogadoras com os níveis aceitáveis para este projecto.
─ Mas encontrámos. ─ insisti. ─ Foi duro, deu trabalho, mas construímos uma equipa. E o futebol é isso, um jogo de equipa. O futebol não é nomes, vedetas. ─ Fiz uma breve pausa, deixando que ela assimilasse onde eu queria chegar. ─ Laurinda! Sei a admiração que tem pela Helena. Mas, comigo ela não joga. Ela virou as costas ao país quando este precisou dela. Não é agora que é ela que precisa de nós que lhe vou abrir as portas.
Laurinda não escondeu a tristeza pela minha recusa, mas manteve-se sempre fiel e concordante com as minhas decisões.
Se a convocatória para a Algarve Cup já era aguardada com alguma ansiedade pela comunicação social desportiva, esta entrevista aumentou ainda mais o interesse.
Uma semana antes do início da competição, a Federação Portuguesa de Futebol convidou os jornalistas à sua sede para ouvirem de viva voz os nomes das convocadas.
A conferência de imprensa realizou-se no edifício da FPF numa sala destinada a esse efeito. Seria a primeira vez que a convocatória seria anunciada presencialmente aos jornalistas, uma vez que antes isso nunca acontecera, limitando-se a Federação a comunicar pelas vias institucionais a chamada às jogadoras escolhidas.
Se aquele evento tivesse tido lugar depois dos quinze a zero na Alemanha, a sala estaria vazia. Contudo, naquela tarde de Março, havia jornalistas de jornais, televisão, rádio, internet…
Laurinda e Simões acompanharam-me. Sentados ao meu lado, eles aguardaram os nomes da lista, sabendo já quem a compunha.
─ Maria João, Tita, Paula Rita. ─ comecei. ─ Nandinha, Paulita, Cati, Lila, Tuxa, Gisela, Beta, Ery, Eva, Carly, Mara, Ariela, Jeninha, Belinha, Vanda, Fabiana, Paula Cristina, Mila, Patrícia Raquel e Manelinha.
O “e Manelinha” provocou algum espanto nos presentes, uma vez que era o último nome da lista, uma lista que não continha o nome de Helena.
Conforme fora previamente combinado, haveria lugar a perguntas após a divulgação da convocatória. Vários jornalistas levantaram o braço com a pretensão de serem os primeiros. Simões pôs alguma ordem nas vozes que se tentavam ouvir e escolheu um primeiro interlocutor. Fosse quem fosse o primeiro a perguntar, não tenho dúvida que a pergunta seria a mesma:
─ Não convocou a Helena. Porquê?
Adivinhando que a ausência de Helena se poderia tornar no centro das atenções daquela conferência de imprensa, Simões antecipou-se a mim e respondeu:
─ Não vamos agora tentar saber porque não foram convocadas todas as outras jogadoras de futebol.
─ Mas estamos a falar da melhor jogadora portuguesa de todos os tempos. ─ recordou um outro jornalista, insistindo numa justificação.
Eu fiz sinal a Simões que iria responder.
─ A Helena sempre se recusou a jogar por Portugal. ─ justifiquei. ─ Eu próprio lhe dirigi um convite pessoalmente para que nos ajudasse a melhorar os resultados com o seu contributo. Ela sempre se recusou. Aliás, ela até se recusava a ouvir falar nesse assunto.
─ Mas os interesses do país não devem estar acima de vinganças pessoais? ─ questionou outro.
─ Não se trata de vingança. ─ corrigi, algo ofendido com a tal sugestão. ─ Trata-se de justiça para com as minhas jogadoras. Eu percebo que os nossos resultados nos tenham feito merecer o interesse da melhor jogadora portuguesa ao ponto de ela pôr termo à sua renúncia em jogar por Portugal. Só que agora, é ela que tem de merecer esse lugar entre nós.
Uma jovem jornalista de um blog desportivo inquiriu:
─ E como pode ela merecer isso, se não a convoca?
─ Se não estou em erro, a Helena anunciou a sua renúncia em jogar por Portugal há cerca de dez anos quando foi jogar para o campeonato profissional norte-americano. ─ Olhei para Laurinda para que me corrigisse se estivesse enganado. Ela assentiu com a cabeça, confirmando o que eu dissera. ─ Não lhe vou dizer que agora ela tem de esperar outros dez até ser convocada, até porque isso seria absurdo. Mas, podem ter a certeza que não será convocada nem para a Algarve Cup, nem para o Campeonato do Mundo.
Mais uma vez, as minhas palavras provocaram o espanto geral na plateia. Houve mais tentativas de prolongar as perguntas sobre Helena, mas Simões pôs um ponto final dizendo não se poderia prolongar a conferência de imprensa à volta de uma jogadora que não fora convocada. Isso fez com que a maior parte dos jornalistas se desinteressasse pelas questões e apenas mais dois se preocuparam em saber o que esperar da nossa participação na Algarve Cup.
Sem ter tido essa intenção, aquela convocatória iria abrir uma guerra entre mim e Helena. Sedentos de sangue e intriga como são os jornalistas, houve logo quem fosse procurar a reacção dela às minhas palavras. Helena não quis comentar, deixando apenas no ar a questão do porquê de eu convocar jogadoras naturalizadas ou até recém-federadas (clara alusão a Fabiana e Vanda) em detrimento de uma jogadora com o seu passado.
Helena poderia ter apagado a fogueira do conflito, mas preferiu atiçá-la com subtileza. Isso permitiu aos jornais despejar gasolina nela.
No dia seguinte, as capas dos jornais davam destaque à conferência de imprensa. “Vendetta” era o título do mesmo que publicara a sua entrevista. Outro escrevia “Ivan, o Terrível de Helena”. E um terceiro atirava “Ivan Pedro afasta Helena do Mundial”.
Constança também me telefonou para falar no assunto. O seu canal televisivo queria uma entrevista para explicar a situação aos seus espectadores. Eu recusei, não querendo prolongar a questão para que esta caísse no esquecimento antes do Campeonato do Mundo.
Eles “agradeceram” a recusa dedicando um dos seus programas desportivos de opinião a dissecar o caso. Foi curioso, para não dizer ridículo, ver meia dúzia de supostos entendidos nos assuntos do futebol a dar tanta opinião acerca disso, quando quase dois anos antes nem queriam saber se existíamos. Constança acabou por entrevistar Helena nos Estados Unidos, uma entrevista em que a jogadora dizia com toda a santidade que compreendia a minha decisão e que isso não a impediria de ter o seu coração dividido no apoio a Portugal e aos Estados Unidos durante o Mundial. Ela compreendia tudo, mas pelo meio insinuava que eu era vingativo, não sabia lidar com a realidade desportiva de atletas profissionais, entre outras coisas pouco simpáticas.
Susana chegou a casa enquanto eu via a entrevista na televisão e, percebendo que eu era o mote das críticas, não se escusou a dizer com ironia:
─ Não há dúvida que tens jeito para virar as mulheres contra ti.
Eu desejava que a controvérsia terminasse e não dava hipóteses a quem me convidava para entrevistas a alimentar o caso. No entanto, toda aquela situação me atormentava o espírito e receava que aquilo pudesse prejudicar tudo o que a minha equipa conquistara com tanto trabalho.
─ Parece que não estás cá. ─ disse-me Márcia durante um dos nossos encontros secretos.
Deitado na cama do hotel completamente nu, percebi que me perdera em pensamentos, enquanto ela trabalhava afincadamente de mãos e boca no meu membro.
─ Desculpa! ─ pedi, observando-a como viera ao mundo, deliciando-me sempre com as suas linhas corporais. ─ Esta treta dos jornalistas por causa daquela gaja…
Eu iria partir para o Algarve daí a dois dias e ligara a Márcia para que nos encontrássemos antes, uma vez que iríamos estar afastados cerca de duas semanas.
─ Não podes deixar que isso te afecte. ─ aconselhou, acariciando-me as pernas sem parar de massajar a minha tesão. ─ Com os passar do tempo, eles vão deixar isso cair no esquecimento. É só aparecer aí uma polémica com o Benfica ou com o Porto e isso passa logo para segundo plano.
─ Talvez… ─ concordei pouco crente.
─ Ivan! ─ chamou num tom sensual. ─ Anda! Esquece isso um pouco e vem. Anda! Anda castigar-me.
Márcia era uma amante fenomenal, mas nunca compreendi porque tinha de sentir dor durante o sexo. Nas primeiras vezes, queria que lhe batesse enquanto a penetrava. Descobri que o auge da sua excitação era chapada nos seios. Enfim… Houve uma vez que quis que a algemasse à cama e vertesse cera de uma vela a arder sobre o corpo. Noutra, trouxe umas molas de prender folhas de papel que colocou nos mamilos, enquanto saltava sobre mim. Doía só de olhar.
─ Que temos hoje? ─ questionei, à espera de mais uma paranóia.
Márcia colocou-se sobre mim, de costas, e apertou-me entre as suas pernas, fazendo-me escorregar para dentro de si. Começou a mover-se devagarinho, procurando algo dentro da sua mala, deixada ao lado da cama. Vi-a retirar um pequeno chicote de cabedal.
─ Toma. ─ disse com a respiração ofegante, entregando-me o objecto. ─ Eu fui muito má estes dias. Castiga-me!
Se não fosse tão boa na cama, acho que não suportava o seu masoquismo.
O dia da partida para o Algarve chegou. Tal como Márcia profetizara, o assunto Helena caiu no esquecimento, não por polémicas, mas pelo jogo entre o Sporting e o Porto que se iria disputar nesse fim-de-semana.
Na Federação, dirigentes, equipa técnica, jogadoras, todos apoiaram a minha posição. Só que no subconsciente das atletas surgiu a necessidade de provar que eram suficientemente boas para não se notar a falta de Helena entre elas.
Logo no primeiro jogo percebi a preocupação de executar todas as jogadas na perfeição. Esse jogo do torneio opôs-nos à Finlândia, uma adversária ao nosso alcance, ainda para mais a jogarmos em casa. Não sei se foram os meses sem jogos internacionais ou se de facto estavam afectadas pela novela “Helena” que as fez jogar tão mal e acabarem por perder.
Claro que a comunicação social desportiva continuava em cima de nós, acompanhavam os treinos, procuravam reacções das jogadoras e até queriam conferências de imprensa antes e depois dos jogos. Só faltou transmitirem os jogos em directo na televisão.
Antes do jogo da Finlândia, todos queriam saber qual a táctica, quem iria jogar, quais as perspectivas… O habitual. Após o jogo, voltaram as questões sobre a ausência de Helena. Fatigado com aquele tema, ameacei que não voltaria a haver conferência de imprensa se continuassem a falar em Helena.
Crentes de que eu cumpriria a ameaça, eles não voltaram a abordar o assunto. No entanto, na manhã seguinte, as capas dos jornais eram impiedosas. “Helena não faz falta?”, interrogava um, “Assim não vão a lado nenhum!”, afirmava outro e “Finlândia vulgariza geração de ouro”, concluiu o terceiro diário desportivo. Por mais que quisesse, era impossível blindar as jogadoras às críticas, as quais as passavam de bestiais a bestas num piscar de olhos.
No segundo jogo defrontámos as modestas jogadoras do País de Gales. Tenho a certeza que em condições normais teríamos vencido sem qualquer dificuldade. Contudo, a concentração das jogadoras perdia-se na tentativa de demonstrar que eu estava correcto e não precisávamos de Helena no plantel. O resultado foi mais uma derrota, desta vez por um a zero, ainda para mais com um auto-golo de Ariela. Aliás, este foi mesmo um jogo infeliz para ela que, depois do auto-golo, quis redimir-se pedindo para marcar uma grande penalidade que a juíza assinalara para castigar o derrube de Mila dentro da grande área galesa. Ariela não só falhou o golo, como falhou a própria baliza.
As portuguesas eram uma sombra da equipa que se qualificara para o Mundial.
Nessa noite, enquanto estudávamos a táctica para o próximo jogo e trocávamos opiniões acerca de mais uma derrota, Laurinda disse:
─ Isto só vem dar razão aos que o criticam por não convocar a Helena.
─ Eu sei.
─ Não seria melhor…
─ Não, Laurinda! ─ cortei com alguma rudeza. ─ Desculpe! Não queria ser bruto. Esta equipa não precisa da Helena. Não precisou para vencer os jogos que venceu. Infelizmente, elas estão a deixar-se afectar por toda a polémica.
─ A Ariela está de rastos. ─ informou a minha adjunta. ─ Fartou-se de chorar depois do jogo. Sente que só contribuiu para que o venham a criticar ainda mais.
─ Eu vou falar com ela.
Sabia como era importante não deixar que Ariela, ou qualquer outra jogadora, ficasse a massacrar os pensamentos com um jogo menos conseguido. Por isso, terminei a reunião com Laurinda e fui procurá-la.
Ariela estava no seu quarto do hotel, a mesma unidade hoteleira em Vilamoura onde estagiámos antes do jogo com a Alemanha. Bati à porta e aguardei.
Vanda era a colega de quarto de Ariela, a qual surgiu em pijama atrás da porta, quando a abriu.
─ Desculpe, Vanda! A Ariela está?
─ Sim, mister. Está ali na varanda.
─ Pode chamá-la?
─ Pode entrar, mister. ─ convidou, apontando para o interior. ─ É melhor ir lá o senhor, ela tem estado muito em baixo.
Agradeci o convite e entrei no quarto. Atravessei o pequeno corredor e passei junto às duas camas individuais até alcançar os vidros altos da varanda. Corri um dos vidros e vi Ariela sentada numa cadeira a olhar para a piscina.
─ Mister? ─ proferiu ela com surpresa, vendo-me ali. Reparei que tinha os olhos vermelhos. Levantou-se da cadeira e ajeitou o pijama como se fosse um soldado preocupado com a farda perante um General.
─ Deixe-se estar. ─ pedi, indicando-lhe a cadeira e apontando depois para a outra. ─ Posso?
─ Sim, claro.
Vanda ficou no interior, dando atenção ao que passava na televisão. Como eu fechara o vidro depois de passar, ela percebeu que eu queria conversar somente com Ariela.
─ O jogo hoje não lhe correu bem. ─ recordei. ─ Mas, não se deve deixar abater por isso. A Ariela é uma excelente jogadora. É normal termos jogos menos bons. Quantos eu não tive…
─ Eu sei, mister. Mas não podia ter sido hoje. Não podia ter sido numa altura em que nos colocam tão em causa por causa da Helena.
─ Não se preocupe com isso. Eu cá estou para lidar com eles.
Ariela levantou-se da cadeira e debruçou-se no parapeito da varanda, continuando a olhar para a piscina sem ninguém. De seguida, olhou para mim.
─ Sinto que o deixei ficar mal. ─ confidenciou, cheia de mágoa no olhar. ─ O mister que nos deu tanto… E nós deixamo-lo ficar mal em campo. Eu! Eu deixei-o ficar mal.
Levantei-me igualmente da cadeira e debrucei-me a seu lado no parapeito. Não consegui deixar de lamentar que uma mulher tão bonita não gostasse de homens, mas naquele momento isso era irrelevante. Percebia na sua voz a tristeza e apetecia-me abraçá-la e confortá-la.
─ Não se deixe afectar em demasiado com isso. ─ insisti. ─ O futebol leva-nos do Céu ao Inferno numa fracção de segundo. Cabe a nós não nos deixarmos vencer e voltar a alcançar o Céu. ─ Ariela olhou-me nos olhos. Tinha um olhar expressivo e carismático. ─ Para mim, a Ariela teve apenas um jogo mau. Não deixe que para si seja mais que isso.
E com aquelas palavras a deixei na varanda.
Claro que os jornais foram novamente impiedosos. Questionavam até quando duraria a minha teimosia. Se era tão orgulhoso que não via que Helena fazia falta à Selecção. E esqueciam sempre que tudo o que havíamos alcançado fora sem a presença de Helena.
Fizemos mais dois jogos no Mundialito. Se os dois primeiros foram uma descida aos Purgatório, os outros dois foram uma visita guiada ao Inferno. Primeiro foram as canadianas a despacharam-nos com quatro golos sem resposta. E depois vieram as norte-americanas cilindrar-nos com mais cinco a zero.
Após os últimos jogos e antes de abandonarmos o hotel, reuni todas as jogadoras para falar sobre os jogos de uma forma sumária. Pedi-lhes que não esquecessem tudo o que já tinham feito antes e que também não esquecessem o que tinham feito mal naquele torneio para que não repetissem no futuro. Afirmei que mantinha a minha confiança nas suas capacidades e que esperava que elas também.
Quando regressei a Lisboa, os jornais eram arrasadores para comigo e para com as minhas jogadoras, de tal forma que achei por bem nem contestar, optando por um black-out temporário. Os programas de pseudocomentadores de futebol também nos criticavam, davam notas negativas, colocavam-nos nos piores patamares e duvidavam que a nossa participação no Campeonato do Mundo fosse mais que uma vergonha para o país. O cepticismo sobre as nossas reais capacidades aumentou muito.
As críticas foram muitas, Helena continuava a ser um cavalo de batalha para os órgãos de comunicação social, sendo tudo posto em causa… Eu teria suportado tudo e feito o meu trabalho como sempre, não fosse a notícia que saiu alguns dias mais tarde.
Segundo um daqueles pasquins diários que com o seu sensacionalismo só dão mau nome ao jornalismo em Portugal, eu teria um caso amoroso com uma das jogadoras da equipa nacional. Esse jornal apresentava como prova a habitual “fonte anónima” que a ética profissional não permitia revelar, a mesma que eles sujavam com um jornalismo tão reles, e uma foto. Pois… Uma foto.
Como referi anteriormente, a comunicação social seguia-nos para todo o lado. Porém, nunca pensei que andassem fotógrafos atrás de nós à procura de invenções. Quando estive a conversar na varanda do hotel com Ariela, alguém nos fotografou. E o jornal publicou a foto na primeira página com o título “Sexo na Selecção” e com um artigo a dizer que eu passara a noite no quarto de hotel com Ariela e que a foto fora o captar do “momento em que o casal descontraía na varanda”. No interior de tão imunda publicação, viam-se mais duas fotos, uma delas com uma perspectiva que insinuava um beijo entre mim e Ariela, e o autor do artigo referia que a mesma “fonte anónima” o informara que eu visitava o quarto de Ariela todas as noites.
As reacções à notícia não se fizeram esperar. O senhor Simões ligou-me indignado com tamanha mentira e disse que o departamento jurídico da Federação estava à minha disposição para processar o jornal. Só que, infelizmente, perante os jornalistas, um porta-voz da Federação, em vez de dizer isto, informou que iria ser aberto um inquérito. O inquérito era para saber quem era a tal “fonte anónima”, mas no ar ficou a ideia que o inquérito era sobre mim.
Laurinda também me ligou, manifestando a sua raiva perante aquelas invenções e dando-me todo o apoio. Interpeladas sobre o assunto, algumas jogadoras vincaram bem a sua indignação pela mentira e manifestaram toda a solidariedade comigo e com Ariela. Curiosamente, ninguém encontrou Ariela.
Senti-me muito em baixo com aquela situação. Estava a ser vítima de uma grande injustiça e não tinha como provar a verdade. Ou melhor, tinha como provar porque tanto as jogadoras como todo o staff da Federação podiam testemunhar que aquilo era mentira. O que irritava era o facto de as pessoas não quererem ouvir a verdade, preferindo alimentar polémicas.
Procurando fugir um pouco a tudo aquilo, liguei a Márcia para nos encontrarmos no hotel onde era habitual. Precisava de desanuviar a mente com sexo, aquele sexo tão saboroso que praticava com ela.
─ Não! ─ foi a sua resposta ao convite. Por momentos, pensei que fosse uma reacção de ciúmes a fazer fé na notícia do jornal. Mas não era. ─ Estás doido? Os jornais andam em cima de ti. Não posso correr o risco de ser fotografada contigo.
─ No hotel ninguém nos vê. ─ contrapus.
─ Vêem-nos os funcionários. ─ lembrou ela. ─ E em troca de dinheiro, podem muito bem ir dar com a língua nos dentes aos jornalistas. Ivan! Basta só uma insinuação do meu nome com o teu.
─ Márcia! Eu preciso de estar contigo.
─ O sexo contigo é muito bom, Ivan. Mas não vale a possibilidade da perda do contrato que temos com a empresa da tua mulher. Eu não posso correr esse risco, para além que o meu nome nos jornais como tua amante arruinaria o meu casamento.
─ Aquele tal que é uma fachada. ─ lembrei-a com mágoa.
─ É fachada, mas nem isso será se a minha vida sexual vier para os jornais.
─ Isto significa o fim da nossa relação? ─ questionei, ferido pelo seu abandono.
─ Nada é definitivo. Mas, para já, vamos dar um tempo. ─ sugeriu sem hesitação. ─ Deixa a poeira assentar.
Desliguei-lhe o telefone na cara.
Alguns minutos depois, o meu telemóvel tocou, mas não reconheci o número. Calculei ser mais algum jornalista a tentar dissecar o caso, por isso, não atendi. Quem ligara deixou mensagem no voicemail. A princípio não tive interesse em ouvir, mas alguns minutos depois a curiosidade venceu.
─ Tem uma mensagem nova. ─ disse a voz impessoal do gravador de mensagens. ─ Recebida hoje às… ─ Que seca, tanta treta para me deixar ouvir a mensagem. A voz que se seguiu foi a surpresa total. ─ Olá mister! É Ariela. Liguei-lhe para… para lhe pedir desculpa por estas notícias. Não sei o que fazer para desmentir estas invenções. Espere que não leve a mal, mas preferi isolar-me e desaparecer para não ter os jornalistas atrás de mim com perguntas. A última coisa que quero é prejudicá-lo. ─ Houve uma pausa. ─ Se eu puder fazer alguma coisa… Mesmo não tendo culpa, quero pedir-lhe desculpa.
Um clique colocou fim à mensagem.
Sem pensar duas vezes, marquei o número com que me ligara. Esperei alguns toques e ouvi a sua voz:
─ Estou?
─ Olá, Ariela!
─ Olá, mister! ─ A sua voz tremia ligeiramente.
─ Acabei de ouvir a mensagem que me deixou. ─ informei, procurando parecer calmo e pouco afectado com o assunto. ─ Não tem nada que se desculpar, a Ariela é tão vítima quanto eu nesta história.
─ Eu sei. Mas sinto que estou a ser usada como arma para o atingir e não encontro forma de o evitar.
─ A verdade há-de vir ao de cima. ─ afirmei. ─ Daqui a alguns dias, tudo não passará de uma triste recordação.
Houve um silêncio do outro lado. Foi tão prolongado que me pareceu que a chamada terminaria sem mais nenhuma palavra.
─ A minha namorada deixou-me. ─ disse ela, subitamente, num desabafo. ─ Pensa que a traí consigo e acabou com a nossa relação.
─ Não sei o que dizer. ─ retorqui, completamente perdido na melhor forma de abordar aquele diálogo. Do outro lado, Ariela soluçou denunciando as lágrimas que já não conseguia conter. ─ Não fique assim.
─ Estes últimos tempos têm sido terríveis. ─ balbuciou amargurada. ─ Desde o Mundialito, desde aquele jogo…
─ Esqueça o jogo. Isso agora não importa. ─ Irritei-me interiormente por não encontrar palavras que atenuassem o seu sofrimento. ─ Lamento que a sua companheira tenho tomado essa decisão.
─ Também eu. ─ concordou com uma fungadela.
─ Pode ser que reconsidere quando a verdade…
─ Isso pouco importa. ─ interrompeu. ─ Se não é capaz de acreditar em mim, não me interessa que acredite quando os outros o disserem.
─ Nesse aspecto, sou obrigado a concordar consigo.
─ Desculpe, mister, mas vou desligar. Preciso de descansar.
─ Tudo bem, Ariela. Se pre… ─ ouvi o clique de desligar. ─ …cisar de alguma coisa.
Para piorar o meu dia, só faltava a notícia chegar ao conhecimento de Susana, a qual impulsionada por esse facto chegou a casa antes do jantar. Algo raro, nos dias que corriam.
Eu estava sentado no sofá, a preparar-me para ver os noticiários. Susana chegou com o jornal na mão. Antes de dizer o que quer que fosse, certificou-se que Ivana não estava por perto.
─ Que significa isto? ─ interrogou, atirando o jornal para o sofá.
─ Agora preocupas-te com a minha vida sexual? ─ questionei divertido pela sua cena de ciúmes.
─ Pouco me importa quem andas a foder, desde que isso não venha nos jornais.
─ Fala baixo que a Ivana está no quarto. ─ avisei, levantando-me do sofá com o jornal na mão. ─ Isto é tudo mentira.
─ Deve ser deve. ─ duvidou ela com um volume vocal menor. ─ Só quem não te conheça. Esta também pode estar infectada? Ou desta vez tiveste miolos e ao menos…
─ Não digas parvoíces. ─ interrompi irritado. ─ Não houve nada. Esta foto foi tirada quando eu estava a conversar com ela na varanda.
─ E o beijo?
─ Qual beijo? Aquele que os jornalecos insistem em ver e que não existiu?
─ Ivan! Volto a repetir: Pouco me importa quem fodes. Mas se isso se torna notícia, a nossa relação acabou.
─ Qual relação? ─ questionei sarcasticamente. ─ Esta farsa que andamos a representar todos estes meses? Vai à merda mais a relação! Estás preocupada com o que as pessoas possam pensar de ti?
─ Sim! Estou preocupada com isso. Não quero que olhem para mim como a mulher enganada pelo companheiro que não tem escrúpulos para ter sexo. ─ Susana cuspia as palavras com uma enorme raiva. ─ Tu não poupas ninguém! Basta ter uma vagina e um par de mamas.
─ E um bom cu também. ─ retorqui com sarcasmo. ─ Ah… E já agora que faça alguma coisa na cama, ao contrário de certas pessoas que acham que o sexo é abrir as pernas e deixarem-se foder.
Susana respondeu-me com um estalo na cara.
O som do estalo provocou um silêncio que se prolongou por alguns segundos, onde ficámos a olhar para os olhos um do outro numa mistura de raiva e paixão.
─ Acredites ou não, ─ quebrei eu o silêncio. ─ eu não tive sexo com esta jogadora nem com nenhuma outra.
Susana ia para dizer alguma coisa, mas o seu olhar foi atraído para a televisão. Eu segui o seu olhar e vi a imagem da porta de um prédio com a indicação da localidade no canto superior direito e a identificação “casa de Ariela”. Peguei no comando do aparelho e aumentei o volume:
─ …aqui junto ao prédio da jogadora da Selecção Nacional, Ariela, que solicitou a presença da comunicação social para uma breve declaração.
A imagem centrou-se na porta envidraçada do prédio, revelando um interior escuro, em frente à qual vários repórteres aguardavam. Passado um instante, a luz interior acendeu-se e a imagem mostrou alguém a descer os últimos degraus e a aproximar-se da porta.
Ariela abriu a porta acompanhada por uma outra mulher que mais tarde soube ser a advogada da Federação que iria processar o jornal. Com dificuldade em encarar as câmaras, a jogadora começou:
─ Quero agradecer a todos por se terem deslocado até aqui. ─ Nas suas mãos, um papel dobrado que segurava com as mãos a tremer ligeiramente. Abriu-o com pouca aptidão e dirigiu o olhar para o conteúdo. ─ Estou aqui perante vós para condenar as mentiras publicadas por um jornal, onde atentavam contra a honra e dignidade da minha pessoa e da pessoa do mister Ivan Pedro. Lamento que a mentira e a infâmia sejam a forma escolhida por alguns de fazer notícia e vender jornais. O momento retratado nas fotos do jornal são apenas uma conversa entre atleta e treinador, o qual teve a preocupação de me dar uma palavra de apoio após um jogo menos feliz da minha parte. Sim, a varanda era do meu quarto no hotel, mas isso não é prova das mentiras que se publicaram. No quarto estava a minha colega de equipa Vanda que poderá corroborar esta versão. No entanto, toda esta versão cai no absurdo junto de quem me conhece mais intimamente. Para que não restem dúvidas, venho aqui perante vós assumir a minha homossexualidade, o que só vem demonstrar o quão absurda é a notícia vinculada por este exemplo de mau jornalismo.
A revelação de Ariela provocou um aumento dos flashes e todos os jornalistas quiseram fazer perguntas assim que perceberam que a declaração terminara. Contudo, a advogada não o permitiu e tomou a palavra para informar que se iria avançar com um processo contra o jornal pelas calúnias por ele produzidas.
Inchado por ver a verdade noticiada na televisão, olhei para Susana e disse:
─ Estás a ver?
Susana abanou a cabeça e concluiu com desdém:
─ Que tristeza. Já nem as fufas te escapam.