Capítulo V
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A chuva caía com abundancia pelas ruas da capital. No Parque das Nações, junto ao Teatro Camões, Adriana saiu do edifício empunhando o guarda-chuva. Tivera mais uma tarde de ensaios para a peça de bailado e tudo corria como previsto para uma boa estreia dentro de algumas semanas.
Ali junto ao rio, algumas pessoas enfrentavam o mau tempo por necessidade, mas outras havia que não abdicavam da sua corrida de fim de tarde pela zona ribeirinha.
Adriana caminhou sem dar grande atenção ao percurso, pois a sua mente perdia-se na imagem de Zahra e no facto de a outra ainda não lhe ter ligado conforme disse que faria. E por muita vontade que tivesse, Adriana não iria insistir. Pelo menos, por enquanto.
Na sua passada deslizada, quase como se não tocasse o chão, a bailarina passou em frente ao Oceanário, tendo depois desviado para o Pavilhão de Portugal, atravessando a gigante pala que lhe deu cobertura da chuva por alguns metros. Naquele fim de tarde, ela decidira ir até ao Centro Comercial Vasco da Gama ver as montras, antes de apanhar o transporte para casa.
A chuva pareceu abrandar, quando Adriana atravessou a rua mesmo em frente ao Casino Lisboa e seguiu pelas arcadas até à entrada do Centro Comercial.
Gente entrava e gente saía pelas portas de vidro do espaço comercial. Havia sempre muitas pessoas por ali, o que não representava o volume de negócios para as lojas condizente, pois a crise continuava a refrear o espírito consumista dos portugueses.
Adriana entrou e abrandou o passo, virando à esquerda para as lojas de vestuário. Parou na primeira montra e entrou na primeira loja. Estava com tempo, sem stress, sem obrigatoriedade de estar a determinada hora em determinado sítio.
Nas três primeiras lojas não encontrou nada que quisesse experimentar. E quando se preparava para entrar na quarta, os seus olhos captaram algo que a paralisou.
No lado oposto daquele corredor de lojas, Adriana reconheceu Zahra a observar uma montra. Impulsiva como sempre, a bailarina atravessou os metros que a separavam.
— Olá, Zahra! — cumprimentou.
Zahra quase deu um pulo ao ouvir o seu nome e os seus olhos não esconderam a surpresa por a ver.
— Olá, Adriana! — retribuiu num tom neutro.
A bailarina ofereceu-lhe dois beijos no rosto e disse:
— Por aqui? Que bela surpresa. Andas às compras?
— Sim. E tu?
— Eu vim passear um pouco, depois do ensaio. — relatou animada.
— Estás a ensaiar?
— Sim. Vamos estrear um bailado novo, daqui a algumas semanas. — Abriu ainda mais o sorriso. — Espero que me venhas ver.
Zahra assentiu, consciente que depois de Adriana se afastar já não se lembraria mais disso.
— Queres tomar um café? — convidou Adriana. Zahra ia a inventar uma desculpa, mas não teve tempo. — Anda.
— Não posso demorar, fiquei de ir jantar com o meu noivo. — avisou, deixando-se levar para as escadas rolantes.
Chegadas ao último piso, as duas caminharam até um balcão que servia cafés. Adriana pediu dois. Assim que o empregado entregou as chávenas, ela segurou ambas e levou-as para uma mesa livre.
Sentadas frente a frente, Adriana prosseguiu a conversa:
— Gostei muito de te ver no outro dia. Continuas a tocar violino divinalmente. — Zahra deu um golo no café e encolheu os ombros, fazendo um ar de modéstia. — Há tanto tempo que não nos víamos.
— Sim. Alguns anos.
— Eu continuo a dançar. — respondeu Adriana sem que a outra tivesse perguntado. Fora mais uma maneira de manter a conversa com alguém que não falava muito. — Na Companhia Nacional de Bailado.
Zahra percebia o olhar fascinado da outra a encará-la. E isso não lhe era indiferente, apesar de se manter distante.
Antes de terminarem o café, o telemóvel de Zahra tocou. Ela atendeu:
— Olá, amor! Sim… A sério? Pois… Sim… Eu sei. Não, não fico triste. Sim… Estou no Vasco da Gama. Deixa lá. Sim… Eu também te amo. Beijos… Até amanhã.
— Está tudo bem? — perguntou Adriana, quando Zahra desligou.
— Sim. Era o José. Não pode vir jantar comigo.
Mal acabou a frase, Zahra arrependeu-se, pois a sua mente adivinhou as palavras que Adriana proferiu:
— Eu posso jantar contigo.
— Não quero estar a incomodar-te.
— Não sejas parva. Não é incómodo nenhum. E sempre temos mais tempo para conversar.
Zahra não queria aceitar, não queria aceitar a companhia para o jantar, nem o facto de que a companhia de Adriana ainda mexia com ela e fazia-a temer uma recaída ao que as unira na adolescência. Contudo, seria antipático e sem sentido insistir na recusa, por isso, acabou por aceitar.
O local escolhido para o jantar foi um restaurante italiano no último piso com vista para o Pavilhão Atlântico, para a imensidão do Parque, para o rio e para os primeiros andares da grande torre habitacional que ladeava o centro comercial. Aliás, do restaurante era possível ver o interior dos primeiros pisos que ainda não tivessem corrido os cortinados.
A empregada que as recebera oferecera-lhes uma das mesas junto ao vidro. Sendo um dia a meio da semana e uma hora de menor afluência para jantares, isso fazia com que não houvesse muitos clientes.
— Não chegaste a ligar. — lembrou Adriana, olhando para as hipóteses que a ementa apresentava.
— Tenho andado muito ocupada. — justificou Zahra sem intensão de alongar a justificação.
— Não faz mal. — desvalorizou a bailarina num tom animado. — Temos este jantar para pôr a conversa em dia.
A funcionária do restaurante aproximou-se assim que elas pousaram as ementas na mesa. Com simpatia, recolheu os pedidos de ambas.
— Que tens feito? — perguntou Adriana, sempre com a preocupação de quebrar os silêncios.
Zahra observou o exterior escuro e depois olhou para a bailarina, dizendo:
— Nada de especial. A orquestra ocupa-me muito tempo.
— Já tocas lá há muito?
— Faz quatro anos no Verão.
— Foi lá que conheceste o teu noivo?
— Sim.
— Já namoram há quanto tempo?
— Dois anos.
Zahra não parecia querer falar mais que o necessário e Adriana parecia uma advogada a questionar o réu.
O parco diálogo foi suspenso pela chegada das bebidas.
— Tenho pena que nos tivéssemos afastado. — lamentou Adriana.
— As nossas vidas seguiram rumos diferentes, é normal.
Até poderia ser normal, mas na cabeça de Adriana ainda estava bem presente a recordação da forma fria como a outra a afastara da sua vida.
— Mesmo assim, podíamos ter mantido o contacto. Nunca mais tive uma amiga como tu.
Zahra olhou para os olhos da outra e retorquiu:
— Ambas sabemos que não era possível continuarmos a ser amigas como éramos, uma vez que… — Interrompeu-se, procurando a melhor forma de se expressar.
Adriana deu uma ajuda, completando:
— Uma vez que não gostavas de mim como eu de ti.
A frase não obteve resposta imediata, pois a chegada dos pratos aconteceu nesse momento. Assim que a funcionária se afastou, Zahra disse:
— Sei que não nos afastámos da melhor forma. Sei que talvez não tenha agido da maneira mais correcta contigo. Mas, naquela altura, sentia-me cercada por ti. E a cada dia sentia que…
— Sim…
— Aqueles nossos momentos eram bons. Mas, não era aquilo que eu queria para o futuro. — Baixou o tom de voz, receosa de ser ouvida por terceiros. — Eu não sou lésbica, Adriana.
— Se tu o dizes… — suspirou a outra, pouco convicta.
— A sério, Adriana. — insistiu num tom fraternal. — Se tinha dúvidas acerca disso, quando perdi a virgindade com um homem, eu deixei de me questionar e passei a ter certeza da minha orientação sexual.
E de facto, Zahra não estava a mentir, pois após a sua primeira relação sexual com um homem, ela percebeu que aquilo não lhe dava o mínimo prazer. Inconscientemente, Zahra sempre soube que era homossexual, mas só quando fez sexo pela primeira é que o assumiu a si própria. Claro que isso não impediu de continuar a escondê-lo dos outros e insistir em ter uma vida heterossexual, mesmo que isso não a realizasse minimamente.
— Eu não tenho problemas em assumir que sou. — afirmou Adriana orgulhosa. — Lamento que também não sejas, pois podíamos ter sido muito felizes.
Zahra riu como se a ideia fosse ridícula.
— Desculpa! — pediu, consciente que a outra poderia ficar magoada. — Não quis ofender-te.
— Não ofendeste, Zahra. Além disso, não tenho vergonha de confessar que acreditei que o nosso futuro seria vivido juntas.
— Sim, eu sei. Talvez por isso é que eu fui tão… rude. Não havia maneira de terminar a nossa relação sem feridas. Acho que foi melhor assim, um golpe duro, mas ambas sobrevivemos.
— Se te interessa saber, eu tive mais dificuldade em sobreviver. — lamentou Adriana. — Tu quiseste que eu me afastasse e nunca mais falaste comigo. Passámos um ano a vermo-nos na escola e sem trocar uma palavra. Era preciso tanto?
— Não. — respondeu Zahra, prontamente. — Não havia necessidade de ser tão intransigente. Erros da juventude. Desculpa, ter-te magoado. E tenho a certeza que tudo isso já pertence ao passado.
Para Adriana, o assunto não estava assim tão terminado. A mágoa ainda residia no seu coração, já para não falar na paixão que ainda nutria por Zahra. Contudo, assentiu com a cabeça.
Terminado o prato principal, a funcionária solícita indagou se pretendiam sobremesa. Ambas declinaram e pediram a conta.
Quando saíram do restaurante, fizeram juntas a descida até ao piso térreo do centro comercial. Pararam a poucos metros das portas de vidro. Lá fora, a chuva caía com força.
— Onde tens o carro? — perguntou Zahra.
— Eu não tenho carro. — informou Adriana. — Ando sempre de transportes públicos. Vou apanhar o autocarro para casa.
— Vives muito longe?
— Mais ou menos. Pelo menos, não vivo fora de Lisboa. Aí sim, seria uma viagem mais cansativa para chegar a casa.
— Eu tenho carro, Adriana. Se quiseres, posso deixar-te em casa.
— Se não te der muito trabalho, aceito.
— Está a chover imenso. — constatou Zahra. — Não deve ser um desvio muito grande que justifique ires molhar-te toda.
Adriana e Zahra já não saíram para a rua e desviaram o seu rumo para o parque de estacionamento subterrâneo do centro comercial, onde a segunda deixara o seu carro.
O trânsito em Lisboa estava caótico com a chuva que caía sem parar. Adriana explicou a Zahra onde ficava a sua casa. A violinista sabia o caminho sem precisar de grandes indicações.
A viagem durou quase uma hora. Zahra quase se arrependera de se ter oferecido para levar Adriana a casa, pois conduzir até ao centro da capital revelou-se um pandemónio.
Ao entrar na rua, Adriana indicou o seu prédio. Zahra parou em frente à porta.
— Queres subir? — convidou Adriana.
Zahra recusou, abanando a cabeça.
— Vá lá, faço-te um café ou um chá. — insistiu a bailarina. — Só um bocadinho para deixares o trânsito desanuviar um pouco.
— Fica para a próx…
— Olha! — apontou Adriana, interrompendo-a. — Até tens ali um lugar para estacionar. E olha que estacionar aqui é de loucos.
Zahra hesitou.
— Não ganhas nada em ir para o meio do trânsito agora. — continuou a insistir. — Vens conhecer a minha casa, faço-te um café ou um chá e depois vais. Verás que apanhas menos carros na estrada.
Zahra acabou por concordou e estacionou o carro no lugar vago.
Habituada a um nível de vida com alguns luxos, Zahra ficou chocada com a pequenez e antiguidade do apartamento da bailarina.
Adriana convidou-a a sentar no sofá e ofereceu-se para lhe fazer um café.
— Se tiveres, prefiro chá. — disse Zahra para a cozinha.
Na sua pequena cozinha, Adriana preparou o chá com genuína alegria por ter a ex-namorada ali em sua casa.
Zahra despiu o casaco e colocou-o ao lado do casaco de Adriana, onde também ficara a mala. Observava tudo em seu redor, questionando se como era possível viver ali.
Passados alguns minutos, Adriana surgiu da cozinha com um tabuleiro que continha um bule e duas chávenas. Sentou-se ao lado da amiga e colocou o tabuleiro entre elas.
— Desculpa, não tenho uma mesinha aqui na sala.
— Não faz mal, assim está bem.
Adriana serviu-lhe uma chávena e, a seguir, serviu a outra para si.
— Já vives aqui há muito tempo?
— Vim para cá morar, quando decidi viver sozinha.
Zahra bebeu um pouco de chá, com cuidado para não queimar os lábios, e indagou:
— O teu amigo não vive contigo?
— Quem? O Leonardo? Não. — Deu um golo no chá. — Eu vivo sozinha. E tu?
— Eu também, mas isso em breve vai mudar.
— O casamento.
— Sim.
Adriana olhou para as paredes que as rodeavam e confidenciou:
— Não sei se conseguiria partilhar o meu espaço. Já vivo sozinha há tanto tempo que acho que iria estranhar ter alguém aqui.
— Não é “ter alguém aqui”, é casares. — Zahra sorriu meio trocista. — Sim, tu também podes casar. A lei já o permite.
— Sim, eu sei. — respondeu a outra com naturalidade. — Mas, não é algo que esteja nos meus planos.
— Não tens ninguém? — perguntou Zahra sem pensar, apressando-se a emendar arrependida. — Desculpa, não tenho nada com isso.
— Não tem problema nenhum teres perguntado. Não, não tenho ninguém. Não sou um coração fácil.
— Mas, és boa rapariga. Tenho a certeza que encontrarás alguém.
Adriana não se manifestou. Preferiu não tecer nenhum comentário de circunstância, pois a única coisa que tinha vontade de dizer é que esse alguém só poderia ser Zahra. Apesar de impulsiva, dessa vez retraiu-se.
— Posso fazer-te uma pergunta? — questionou Zahra, pousando a chávena vazia no tabuleiro. — Uma pergunta pessoal, íntima.
— Sim, claro. — concordou Adriana sem problemas.
— Já tiveste relações sexuais com homens?
A pergunta desencadeou uma gargalhada em Adriana. No entanto, antes que Zahra corrigisse ou já não quisesse a resposta, ela disse:
— Sei o que estás a pensar, Zahra. Estás a pensar se sou lésbica porque nunca tive relações sexuais com homens.
Não era bem isso, mas também não interessava a Zahra revelar o verdadeiro motivo da questão. Zahra pretendia saber se, tal como ela, Adriana também não tinha qualquer prazer com homens.
— Sim, já tive relações sexuais. Por isso, não é por não ter experimentado com homens que gosto de mulheres.
— E foi bom?
Na sede de saber, Zahra nem se preocupou com a curiosidade descarada.
— A primeira vez não. A primeira vez aconteceu naquele ano em que nos afastámos. — relatou Adriana. — Não me sentia atraída pelo sexo oposto, mas caí nesse mar de dúvidas em relação à minha sexualidade e decidi experimentar. — Deu mais um golo no chá, indicando que iria continuar o relato. — Lembraste daquele puto do surf que tinha a mania que era bom? — Zahra confirmou que sim. — Soube que estava interessado em mim, mas só lhe dei bola quando as aulas acabaram. Fui com ele à praia, curtimos e aconteceu. — Adriana sorriu com a recordação ridícula. — Foi uma merda, Zahra. Ele não tinha jeito nenhum, preliminares nem vê-los e veio-se em dois minutos. Aliás, quase que se veio a pôr o preservativo.
Zahra partilhou o sorriso, contente por não ser só ela a não ter prazer com homens. Porém, Adriana continuou:
— Mais tarde, voltei a fazer. Não com ele, claro. Dessa vez foi com um homem mais velho, talvez uns dez anos. Sabes como é, aquela ideia que os homens mais velhos sabem fazer melhor as coisas… Nãããã… Não foi tão mau como na primeira, mas não deixou grandes recordações.
— Mas, sentias-te atraída por eles?
Adriana encolheu os ombros.
— Naquela altura, foi curiosidade. Não havia atracção. Mas, depois…
— Depois? — questionou Zahra, percebendo que a outra hesitara no relato.
— Não sei se te deva contar isto, vais achar-me uma… sei lá.
— Agora estou curiosa.
— Quando conheci o Leonardo, surgiu uma grande empatia entre nós. Somos muito amigos, ele é um homem excelente. É um confidente, está sempre presente para me aturar. Enfim… Para além disto tudo, um dia senti-me atraída por ele e… aconteceu.
— Ahh… Então vocês…
— Não, não é nada disso que estás a pensar. — apressou-se Adriana a explicar. — É uma espécie de perversão minha. Eu adoro mulheres. Não me sinto atraída por homens, apenas pelo Leo. E só pelo prazer que partilhamos no sexo. Não é amor, não é uma relação onde se pretenda construir um futuro. É sexo pelo sexo. Aliás, tanto ele como eu já estivemos comprometidos e nunca nos envolvemos nessas alturas.
O rosto confuso de Zahra era revelador de quão estranho era aquele tipo de relação entre duas pessoas.
— E tu? — interrogou Adriana. — Como foi a tua primeira vez com os homens?
A pergunta apanhou Zahra de surpresa. Contudo, não se podia furtar à resposta depois de ela própria ter tido aquela curiosidade.
Uma merda, pensou. E respondeu:
— Fenomenal.
— A sério? — duvidou Adriana. — Dizem que a primeira nunca é grande coisa. Mesmo para mulheres heterossexuais.
— Para mim foi muito bom. — continuou a mentir. Olhou para a outra bem nos olhos e estabeleceu uma comparação que não deixaria dúvidas. — Os nossos momentos foram agradáveis, mas nada se compara a sexo com um homem.
— Eu continuo a preferir com mulheres. — atalhou Adriana. — Mas, não somos todas iguais. E, infelizmente, ao que parece nesse campo, somos completamente opostas.
— Sim, concordo contigo. — disse Zahra sem remorsos pela mentira e com uma sensação de vitória por falar daquilo como se fosse verdade.
Adriana continuou:
— E acredita que lamento muito isso, pois nunca mais existiu ninguém na minha vida como tu.
— Acredito. — concordou Zahra com indiferença e num tom a roçar o arrogante. — O José diz-me isso constantemente.
Mesmo consciente que a mulher que estava perante si nada tinha em comum com a adolescente com que namorara, Adriana atirou uma última questão:
— Não sentes saudades?
— De quê?
— Daqueles nossos momentos íntimos.
— Não. — voltou a mentir.
A resposta foi tão fria que não deixava qualquer dúvida. Mesmo assim, Zahra foi mais longe:
— Se pudesse, até os apagava da minha memória. Acho que, tal como deve acontecer a muitas raparigas, andava confusa com a minha sexualidade. Aconteceu. Se pudesse voltar atrás, não teria acontecido.
— Compreendo. — sussurrou Adriana, procurando esconder o quanto aquelas palavras a magoavam.
Zahra tomou consciência que o seu empenho de construir uma mentira credível poderia ter magoado a outra sem necessidade.
— Mas, não me arrependo da amizade que partilhámos. — disse ela como se fosse um curativo para as feridas que provocara. — Sempre foste uma grande amiga. E tenho a certeza que se não nos tivéssemos envolvido para além da amizade, nunca teríamos deixado de o ser.
— Ainda estamos a tempo de voltar a ser amigas. — sugeriu Adriana.
Zahra olhou para o relógio e, ignorando a sugestão, lembrou:
— Tenho de ir.
As duas levantaram-se do sofá. Adriana olhou para Zahra, encarando-lhe o olhar que a outra teve dificuldade em aguentar.
— Gostava de te voltar a ver, Zahra. Gostava que voltássemos a ser amigas.
A violinista desviou o olhar para se escudar, receosa que o seu olhar pudesse dizer mais que as palavras que dissesse.
— Não quero que isso te crie ilusões.
— Porque me haveria de criar ilusões? — questionou Adriana. — Já percebi que não és lésbica. Porque haveria de criar ilusões?
— Não sei, Adriana. Só não quero que te magoes por teres expectativas acerca de mim.
— Só quero a minha amiga! Aquela amiga que conheci quando tinha treze anos.
— Nós já não somos umas rapariguinhas na escola.
— Afinal, do que tens medo? — interrogou Adriana, quase perdendo a paciência. — Cada tentativa minha de aproximação, cada tentativa sem nenhuma segunda intensão obtém de ti sempre um muro de reticências. Eu sei que já não somos nenhumas rapariguinhas ingénuas no 7º ano. Somos duas mulheres perfeitamente conscientes das suas orientações. Isso será impeditivo de sermos amigas? Ou será que tens problemas em ter uma amiga lésbica?
— Que disparate. — insurgiu-se Zahra. — Sabes bem que não sou homofóbica.
— Então?
— Não quero que a minha presença te faça sofrer por aquilo que já houve entre nós.
— Isso não vai acontecer.
— Então não vejo nada que nos impeça de ser amigas.
Adriana sorriu, feliz por voltar a ter Zahra na sua vida como amiga.
Olhando de novo para o relógio, Zahra reafirmou que tinha mesmo de ir. As duas despediram-se com dois beijos na face e a violinista abandonou o apartamento da bailarina.
Ali junto ao rio, algumas pessoas enfrentavam o mau tempo por necessidade, mas outras havia que não abdicavam da sua corrida de fim de tarde pela zona ribeirinha.
Adriana caminhou sem dar grande atenção ao percurso, pois a sua mente perdia-se na imagem de Zahra e no facto de a outra ainda não lhe ter ligado conforme disse que faria. E por muita vontade que tivesse, Adriana não iria insistir. Pelo menos, por enquanto.
Na sua passada deslizada, quase como se não tocasse o chão, a bailarina passou em frente ao Oceanário, tendo depois desviado para o Pavilhão de Portugal, atravessando a gigante pala que lhe deu cobertura da chuva por alguns metros. Naquele fim de tarde, ela decidira ir até ao Centro Comercial Vasco da Gama ver as montras, antes de apanhar o transporte para casa.
A chuva pareceu abrandar, quando Adriana atravessou a rua mesmo em frente ao Casino Lisboa e seguiu pelas arcadas até à entrada do Centro Comercial.
Gente entrava e gente saía pelas portas de vidro do espaço comercial. Havia sempre muitas pessoas por ali, o que não representava o volume de negócios para as lojas condizente, pois a crise continuava a refrear o espírito consumista dos portugueses.
Adriana entrou e abrandou o passo, virando à esquerda para as lojas de vestuário. Parou na primeira montra e entrou na primeira loja. Estava com tempo, sem stress, sem obrigatoriedade de estar a determinada hora em determinado sítio.
Nas três primeiras lojas não encontrou nada que quisesse experimentar. E quando se preparava para entrar na quarta, os seus olhos captaram algo que a paralisou.
No lado oposto daquele corredor de lojas, Adriana reconheceu Zahra a observar uma montra. Impulsiva como sempre, a bailarina atravessou os metros que a separavam.
— Olá, Zahra! — cumprimentou.
Zahra quase deu um pulo ao ouvir o seu nome e os seus olhos não esconderam a surpresa por a ver.
— Olá, Adriana! — retribuiu num tom neutro.
A bailarina ofereceu-lhe dois beijos no rosto e disse:
— Por aqui? Que bela surpresa. Andas às compras?
— Sim. E tu?
— Eu vim passear um pouco, depois do ensaio. — relatou animada.
— Estás a ensaiar?
— Sim. Vamos estrear um bailado novo, daqui a algumas semanas. — Abriu ainda mais o sorriso. — Espero que me venhas ver.
Zahra assentiu, consciente que depois de Adriana se afastar já não se lembraria mais disso.
— Queres tomar um café? — convidou Adriana. Zahra ia a inventar uma desculpa, mas não teve tempo. — Anda.
— Não posso demorar, fiquei de ir jantar com o meu noivo. — avisou, deixando-se levar para as escadas rolantes.
Chegadas ao último piso, as duas caminharam até um balcão que servia cafés. Adriana pediu dois. Assim que o empregado entregou as chávenas, ela segurou ambas e levou-as para uma mesa livre.
Sentadas frente a frente, Adriana prosseguiu a conversa:
— Gostei muito de te ver no outro dia. Continuas a tocar violino divinalmente. — Zahra deu um golo no café e encolheu os ombros, fazendo um ar de modéstia. — Há tanto tempo que não nos víamos.
— Sim. Alguns anos.
— Eu continuo a dançar. — respondeu Adriana sem que a outra tivesse perguntado. Fora mais uma maneira de manter a conversa com alguém que não falava muito. — Na Companhia Nacional de Bailado.
Zahra percebia o olhar fascinado da outra a encará-la. E isso não lhe era indiferente, apesar de se manter distante.
Antes de terminarem o café, o telemóvel de Zahra tocou. Ela atendeu:
— Olá, amor! Sim… A sério? Pois… Sim… Eu sei. Não, não fico triste. Sim… Estou no Vasco da Gama. Deixa lá. Sim… Eu também te amo. Beijos… Até amanhã.
— Está tudo bem? — perguntou Adriana, quando Zahra desligou.
— Sim. Era o José. Não pode vir jantar comigo.
Mal acabou a frase, Zahra arrependeu-se, pois a sua mente adivinhou as palavras que Adriana proferiu:
— Eu posso jantar contigo.
— Não quero estar a incomodar-te.
— Não sejas parva. Não é incómodo nenhum. E sempre temos mais tempo para conversar.
Zahra não queria aceitar, não queria aceitar a companhia para o jantar, nem o facto de que a companhia de Adriana ainda mexia com ela e fazia-a temer uma recaída ao que as unira na adolescência. Contudo, seria antipático e sem sentido insistir na recusa, por isso, acabou por aceitar.
O local escolhido para o jantar foi um restaurante italiano no último piso com vista para o Pavilhão Atlântico, para a imensidão do Parque, para o rio e para os primeiros andares da grande torre habitacional que ladeava o centro comercial. Aliás, do restaurante era possível ver o interior dos primeiros pisos que ainda não tivessem corrido os cortinados.
A empregada que as recebera oferecera-lhes uma das mesas junto ao vidro. Sendo um dia a meio da semana e uma hora de menor afluência para jantares, isso fazia com que não houvesse muitos clientes.
— Não chegaste a ligar. — lembrou Adriana, olhando para as hipóteses que a ementa apresentava.
— Tenho andado muito ocupada. — justificou Zahra sem intensão de alongar a justificação.
— Não faz mal. — desvalorizou a bailarina num tom animado. — Temos este jantar para pôr a conversa em dia.
A funcionária do restaurante aproximou-se assim que elas pousaram as ementas na mesa. Com simpatia, recolheu os pedidos de ambas.
— Que tens feito? — perguntou Adriana, sempre com a preocupação de quebrar os silêncios.
Zahra observou o exterior escuro e depois olhou para a bailarina, dizendo:
— Nada de especial. A orquestra ocupa-me muito tempo.
— Já tocas lá há muito?
— Faz quatro anos no Verão.
— Foi lá que conheceste o teu noivo?
— Sim.
— Já namoram há quanto tempo?
— Dois anos.
Zahra não parecia querer falar mais que o necessário e Adriana parecia uma advogada a questionar o réu.
O parco diálogo foi suspenso pela chegada das bebidas.
— Tenho pena que nos tivéssemos afastado. — lamentou Adriana.
— As nossas vidas seguiram rumos diferentes, é normal.
Até poderia ser normal, mas na cabeça de Adriana ainda estava bem presente a recordação da forma fria como a outra a afastara da sua vida.
— Mesmo assim, podíamos ter mantido o contacto. Nunca mais tive uma amiga como tu.
Zahra olhou para os olhos da outra e retorquiu:
— Ambas sabemos que não era possível continuarmos a ser amigas como éramos, uma vez que… — Interrompeu-se, procurando a melhor forma de se expressar.
Adriana deu uma ajuda, completando:
— Uma vez que não gostavas de mim como eu de ti.
A frase não obteve resposta imediata, pois a chegada dos pratos aconteceu nesse momento. Assim que a funcionária se afastou, Zahra disse:
— Sei que não nos afastámos da melhor forma. Sei que talvez não tenha agido da maneira mais correcta contigo. Mas, naquela altura, sentia-me cercada por ti. E a cada dia sentia que…
— Sim…
— Aqueles nossos momentos eram bons. Mas, não era aquilo que eu queria para o futuro. — Baixou o tom de voz, receosa de ser ouvida por terceiros. — Eu não sou lésbica, Adriana.
— Se tu o dizes… — suspirou a outra, pouco convicta.
— A sério, Adriana. — insistiu num tom fraternal. — Se tinha dúvidas acerca disso, quando perdi a virgindade com um homem, eu deixei de me questionar e passei a ter certeza da minha orientação sexual.
E de facto, Zahra não estava a mentir, pois após a sua primeira relação sexual com um homem, ela percebeu que aquilo não lhe dava o mínimo prazer. Inconscientemente, Zahra sempre soube que era homossexual, mas só quando fez sexo pela primeira é que o assumiu a si própria. Claro que isso não impediu de continuar a escondê-lo dos outros e insistir em ter uma vida heterossexual, mesmo que isso não a realizasse minimamente.
— Eu não tenho problemas em assumir que sou. — afirmou Adriana orgulhosa. — Lamento que também não sejas, pois podíamos ter sido muito felizes.
Zahra riu como se a ideia fosse ridícula.
— Desculpa! — pediu, consciente que a outra poderia ficar magoada. — Não quis ofender-te.
— Não ofendeste, Zahra. Além disso, não tenho vergonha de confessar que acreditei que o nosso futuro seria vivido juntas.
— Sim, eu sei. Talvez por isso é que eu fui tão… rude. Não havia maneira de terminar a nossa relação sem feridas. Acho que foi melhor assim, um golpe duro, mas ambas sobrevivemos.
— Se te interessa saber, eu tive mais dificuldade em sobreviver. — lamentou Adriana. — Tu quiseste que eu me afastasse e nunca mais falaste comigo. Passámos um ano a vermo-nos na escola e sem trocar uma palavra. Era preciso tanto?
— Não. — respondeu Zahra, prontamente. — Não havia necessidade de ser tão intransigente. Erros da juventude. Desculpa, ter-te magoado. E tenho a certeza que tudo isso já pertence ao passado.
Para Adriana, o assunto não estava assim tão terminado. A mágoa ainda residia no seu coração, já para não falar na paixão que ainda nutria por Zahra. Contudo, assentiu com a cabeça.
Terminado o prato principal, a funcionária solícita indagou se pretendiam sobremesa. Ambas declinaram e pediram a conta.
Quando saíram do restaurante, fizeram juntas a descida até ao piso térreo do centro comercial. Pararam a poucos metros das portas de vidro. Lá fora, a chuva caía com força.
— Onde tens o carro? — perguntou Zahra.
— Eu não tenho carro. — informou Adriana. — Ando sempre de transportes públicos. Vou apanhar o autocarro para casa.
— Vives muito longe?
— Mais ou menos. Pelo menos, não vivo fora de Lisboa. Aí sim, seria uma viagem mais cansativa para chegar a casa.
— Eu tenho carro, Adriana. Se quiseres, posso deixar-te em casa.
— Se não te der muito trabalho, aceito.
— Está a chover imenso. — constatou Zahra. — Não deve ser um desvio muito grande que justifique ires molhar-te toda.
Adriana e Zahra já não saíram para a rua e desviaram o seu rumo para o parque de estacionamento subterrâneo do centro comercial, onde a segunda deixara o seu carro.
O trânsito em Lisboa estava caótico com a chuva que caía sem parar. Adriana explicou a Zahra onde ficava a sua casa. A violinista sabia o caminho sem precisar de grandes indicações.
A viagem durou quase uma hora. Zahra quase se arrependera de se ter oferecido para levar Adriana a casa, pois conduzir até ao centro da capital revelou-se um pandemónio.
Ao entrar na rua, Adriana indicou o seu prédio. Zahra parou em frente à porta.
— Queres subir? — convidou Adriana.
Zahra recusou, abanando a cabeça.
— Vá lá, faço-te um café ou um chá. — insistiu a bailarina. — Só um bocadinho para deixares o trânsito desanuviar um pouco.
— Fica para a próx…
— Olha! — apontou Adriana, interrompendo-a. — Até tens ali um lugar para estacionar. E olha que estacionar aqui é de loucos.
Zahra hesitou.
— Não ganhas nada em ir para o meio do trânsito agora. — continuou a insistir. — Vens conhecer a minha casa, faço-te um café ou um chá e depois vais. Verás que apanhas menos carros na estrada.
Zahra acabou por concordou e estacionou o carro no lugar vago.
Habituada a um nível de vida com alguns luxos, Zahra ficou chocada com a pequenez e antiguidade do apartamento da bailarina.
Adriana convidou-a a sentar no sofá e ofereceu-se para lhe fazer um café.
— Se tiveres, prefiro chá. — disse Zahra para a cozinha.
Na sua pequena cozinha, Adriana preparou o chá com genuína alegria por ter a ex-namorada ali em sua casa.
Zahra despiu o casaco e colocou-o ao lado do casaco de Adriana, onde também ficara a mala. Observava tudo em seu redor, questionando se como era possível viver ali.
Passados alguns minutos, Adriana surgiu da cozinha com um tabuleiro que continha um bule e duas chávenas. Sentou-se ao lado da amiga e colocou o tabuleiro entre elas.
— Desculpa, não tenho uma mesinha aqui na sala.
— Não faz mal, assim está bem.
Adriana serviu-lhe uma chávena e, a seguir, serviu a outra para si.
— Já vives aqui há muito tempo?
— Vim para cá morar, quando decidi viver sozinha.
Zahra bebeu um pouco de chá, com cuidado para não queimar os lábios, e indagou:
— O teu amigo não vive contigo?
— Quem? O Leonardo? Não. — Deu um golo no chá. — Eu vivo sozinha. E tu?
— Eu também, mas isso em breve vai mudar.
— O casamento.
— Sim.
Adriana olhou para as paredes que as rodeavam e confidenciou:
— Não sei se conseguiria partilhar o meu espaço. Já vivo sozinha há tanto tempo que acho que iria estranhar ter alguém aqui.
— Não é “ter alguém aqui”, é casares. — Zahra sorriu meio trocista. — Sim, tu também podes casar. A lei já o permite.
— Sim, eu sei. — respondeu a outra com naturalidade. — Mas, não é algo que esteja nos meus planos.
— Não tens ninguém? — perguntou Zahra sem pensar, apressando-se a emendar arrependida. — Desculpa, não tenho nada com isso.
— Não tem problema nenhum teres perguntado. Não, não tenho ninguém. Não sou um coração fácil.
— Mas, és boa rapariga. Tenho a certeza que encontrarás alguém.
Adriana não se manifestou. Preferiu não tecer nenhum comentário de circunstância, pois a única coisa que tinha vontade de dizer é que esse alguém só poderia ser Zahra. Apesar de impulsiva, dessa vez retraiu-se.
— Posso fazer-te uma pergunta? — questionou Zahra, pousando a chávena vazia no tabuleiro. — Uma pergunta pessoal, íntima.
— Sim, claro. — concordou Adriana sem problemas.
— Já tiveste relações sexuais com homens?
A pergunta desencadeou uma gargalhada em Adriana. No entanto, antes que Zahra corrigisse ou já não quisesse a resposta, ela disse:
— Sei o que estás a pensar, Zahra. Estás a pensar se sou lésbica porque nunca tive relações sexuais com homens.
Não era bem isso, mas também não interessava a Zahra revelar o verdadeiro motivo da questão. Zahra pretendia saber se, tal como ela, Adriana também não tinha qualquer prazer com homens.
— Sim, já tive relações sexuais. Por isso, não é por não ter experimentado com homens que gosto de mulheres.
— E foi bom?
Na sede de saber, Zahra nem se preocupou com a curiosidade descarada.
— A primeira vez não. A primeira vez aconteceu naquele ano em que nos afastámos. — relatou Adriana. — Não me sentia atraída pelo sexo oposto, mas caí nesse mar de dúvidas em relação à minha sexualidade e decidi experimentar. — Deu mais um golo no chá, indicando que iria continuar o relato. — Lembraste daquele puto do surf que tinha a mania que era bom? — Zahra confirmou que sim. — Soube que estava interessado em mim, mas só lhe dei bola quando as aulas acabaram. Fui com ele à praia, curtimos e aconteceu. — Adriana sorriu com a recordação ridícula. — Foi uma merda, Zahra. Ele não tinha jeito nenhum, preliminares nem vê-los e veio-se em dois minutos. Aliás, quase que se veio a pôr o preservativo.
Zahra partilhou o sorriso, contente por não ser só ela a não ter prazer com homens. Porém, Adriana continuou:
— Mais tarde, voltei a fazer. Não com ele, claro. Dessa vez foi com um homem mais velho, talvez uns dez anos. Sabes como é, aquela ideia que os homens mais velhos sabem fazer melhor as coisas… Nãããã… Não foi tão mau como na primeira, mas não deixou grandes recordações.
— Mas, sentias-te atraída por eles?
Adriana encolheu os ombros.
— Naquela altura, foi curiosidade. Não havia atracção. Mas, depois…
— Depois? — questionou Zahra, percebendo que a outra hesitara no relato.
— Não sei se te deva contar isto, vais achar-me uma… sei lá.
— Agora estou curiosa.
— Quando conheci o Leonardo, surgiu uma grande empatia entre nós. Somos muito amigos, ele é um homem excelente. É um confidente, está sempre presente para me aturar. Enfim… Para além disto tudo, um dia senti-me atraída por ele e… aconteceu.
— Ahh… Então vocês…
— Não, não é nada disso que estás a pensar. — apressou-se Adriana a explicar. — É uma espécie de perversão minha. Eu adoro mulheres. Não me sinto atraída por homens, apenas pelo Leo. E só pelo prazer que partilhamos no sexo. Não é amor, não é uma relação onde se pretenda construir um futuro. É sexo pelo sexo. Aliás, tanto ele como eu já estivemos comprometidos e nunca nos envolvemos nessas alturas.
O rosto confuso de Zahra era revelador de quão estranho era aquele tipo de relação entre duas pessoas.
— E tu? — interrogou Adriana. — Como foi a tua primeira vez com os homens?
A pergunta apanhou Zahra de surpresa. Contudo, não se podia furtar à resposta depois de ela própria ter tido aquela curiosidade.
Uma merda, pensou. E respondeu:
— Fenomenal.
— A sério? — duvidou Adriana. — Dizem que a primeira nunca é grande coisa. Mesmo para mulheres heterossexuais.
— Para mim foi muito bom. — continuou a mentir. Olhou para a outra bem nos olhos e estabeleceu uma comparação que não deixaria dúvidas. — Os nossos momentos foram agradáveis, mas nada se compara a sexo com um homem.
— Eu continuo a preferir com mulheres. — atalhou Adriana. — Mas, não somos todas iguais. E, infelizmente, ao que parece nesse campo, somos completamente opostas.
— Sim, concordo contigo. — disse Zahra sem remorsos pela mentira e com uma sensação de vitória por falar daquilo como se fosse verdade.
Adriana continuou:
— E acredita que lamento muito isso, pois nunca mais existiu ninguém na minha vida como tu.
— Acredito. — concordou Zahra com indiferença e num tom a roçar o arrogante. — O José diz-me isso constantemente.
Mesmo consciente que a mulher que estava perante si nada tinha em comum com a adolescente com que namorara, Adriana atirou uma última questão:
— Não sentes saudades?
— De quê?
— Daqueles nossos momentos íntimos.
— Não. — voltou a mentir.
A resposta foi tão fria que não deixava qualquer dúvida. Mesmo assim, Zahra foi mais longe:
— Se pudesse, até os apagava da minha memória. Acho que, tal como deve acontecer a muitas raparigas, andava confusa com a minha sexualidade. Aconteceu. Se pudesse voltar atrás, não teria acontecido.
— Compreendo. — sussurrou Adriana, procurando esconder o quanto aquelas palavras a magoavam.
Zahra tomou consciência que o seu empenho de construir uma mentira credível poderia ter magoado a outra sem necessidade.
— Mas, não me arrependo da amizade que partilhámos. — disse ela como se fosse um curativo para as feridas que provocara. — Sempre foste uma grande amiga. E tenho a certeza que se não nos tivéssemos envolvido para além da amizade, nunca teríamos deixado de o ser.
— Ainda estamos a tempo de voltar a ser amigas. — sugeriu Adriana.
Zahra olhou para o relógio e, ignorando a sugestão, lembrou:
— Tenho de ir.
As duas levantaram-se do sofá. Adriana olhou para Zahra, encarando-lhe o olhar que a outra teve dificuldade em aguentar.
— Gostava de te voltar a ver, Zahra. Gostava que voltássemos a ser amigas.
A violinista desviou o olhar para se escudar, receosa que o seu olhar pudesse dizer mais que as palavras que dissesse.
— Não quero que isso te crie ilusões.
— Porque me haveria de criar ilusões? — questionou Adriana. — Já percebi que não és lésbica. Porque haveria de criar ilusões?
— Não sei, Adriana. Só não quero que te magoes por teres expectativas acerca de mim.
— Só quero a minha amiga! Aquela amiga que conheci quando tinha treze anos.
— Nós já não somos umas rapariguinhas na escola.
— Afinal, do que tens medo? — interrogou Adriana, quase perdendo a paciência. — Cada tentativa minha de aproximação, cada tentativa sem nenhuma segunda intensão obtém de ti sempre um muro de reticências. Eu sei que já não somos nenhumas rapariguinhas ingénuas no 7º ano. Somos duas mulheres perfeitamente conscientes das suas orientações. Isso será impeditivo de sermos amigas? Ou será que tens problemas em ter uma amiga lésbica?
— Que disparate. — insurgiu-se Zahra. — Sabes bem que não sou homofóbica.
— Então?
— Não quero que a minha presença te faça sofrer por aquilo que já houve entre nós.
— Isso não vai acontecer.
— Então não vejo nada que nos impeça de ser amigas.
Adriana sorriu, feliz por voltar a ter Zahra na sua vida como amiga.
Olhando de novo para o relógio, Zahra reafirmou que tinha mesmo de ir. As duas despediram-se com dois beijos na face e a violinista abandonou o apartamento da bailarina.