DANÇANDO NO VIOLINO · Capítulo 6

Capítulo VI

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Quinta da Asseca, Palmela, Sábado à tarde e o ambiente estava tranquilo. De súbito, saindo pela porta de uma moradia isolada, um jovem correu para a estrada. Vestia de escuro e o capacete escondia-lhe o rosto. Saltou para cima da mota deixada uns metros mais à frente e arrancou como o Diabo a fugir da cruz.
O som do motor da mota que destabilizara a calma do local dissipou-se aos poucos. E tudo teria voltado a cair no silêncio, não fosse a voz de uma senhora idosa surgir pela mesma porta aos gritos:
— Acudam! Acudam!
Alarmados, os vizinhos mais próximos vieram à rua e encontraram a senhora de setenta e muitos anos com o rosto em sangue, implorando auxílio para o marido de oitenta e poucos anos que jazia ferido no chão da sala.
O jovem não identificado que saiu da casa, infiltrara-se lá para roubar o casal de idosos. Estivera lá durante longos quinze minutos em que espancou a mulher e o homem para os obrigar a revelar onde tinham dinheiro e objectos de valor. Tudo sem que os moradores à volta se apercebessem daquilo que estava a acontecer.
Na sua mota, o assaltante seguia a grande velocidade rumo a Setúbal, satisfeito com as centenas de euros que conseguira em dinheiro e ouro que os pobres idosos guardavam em casa. Quanto mais se afastava, mais descomprimido ficava por se sentir a salvo da captura e confiante que jamais seria identificado, pois nunca retirara o capacete, o qual até servira para dar uma cabeçada no homem.
A descompressão valeu-lhe uma falha de concentração que o fez passar um semáforo vermelho. Por sorte, não havia trânsito na rua que cruzava a sua. Só que do outro lado estava um carro da Polícia.
Vendo o motociclista a não respeitar o sinal, o carro patrulha da PSP arrancou no seu encalço.
Ao ver-se perseguido pelo veículo policial, o assaltante aumentou a velocidade. No seu pensamento, vincou-se a ideia de que alguém o vira partir na moto e conseguira dar o alarme, tendo já a polícia em sua perseguição.
Tentando não entrar em pânico, o jovem conduziu a mota de forma louca pelo trânsito, não conseguindo despistar o carro patrulha. A sua esperança era chegar ao seu bairro e tentar desaparecer num dos becos.
Os dois agentes da polícia, conscientes que daquela forma o motociclista ainda iria ferir algum inocente, optaram por uma solução de recurso. O agente ao lado do que conduzia retirou a sua pistola do coldre e, metendo a mão fora do carro, disparou dois tiros para o ar.
Seria preciso mais que isso para parar o tipo da mota. Porém, tentar disparar para os pneus seria mais difícil e poderia traduzir-se no acidente fatal para o perseguido.
A perseguição avançou por um bairro social, adjacente ao outro bairro social onde vivia o assaltante. Novamente, o agente disparou dois tiros para o ar. O motociclista estava confiante que não disparariam sobre ele e olhou para trás para analisar a distância. Foi nesse momento que percebeu que a sua velocidade era excessiva e teve a horrível consciência de que seria impossível contornar a curva que se lhe deparava.
No seu carro, os agentes viram a mota deslizar descontrolada pelo asfalto, falhando a curva e projectando o condutor contra a parede de um dos prédios do bairro. O jovem da mota teve morte imediata.
Os tiros e o chiar dos pneus da mota incontrolável chamaram a atenção dos residentes. O carro patrulha parou perto do corpo e os agentes saíram para socorrer o acidentado. Um deles pediu de imediato, pelo rádio, a vinda de uma ambulância do INEM.
Alertados pela perseguição que estava a ocorrer, mais agentes chegaram noutro carro patrulha.
Este, tal como muitos bairros nos arredores das grandes cidades, era conhecido pelo seu vínculo à criminalidade. E por isso, a polícia nunca era bem-vinda por ali. Muitos residentes começaram a aproximar-se e viram o corpo do jovem envolto numa poça de sangue.
Os polícias ordenaram às pessoas que se afastassem, mas estas começaram a insurgir-se contra eles e a protestar. Para além disso, a versão de que o jovem tinha sido abatido pela polícia correu rapidamente por todos e quase se tornou numa verdade suprema.
As sirenes da ambulância do INEM refrearam os ânimos e as pessoas ficam a ver o veículo amarelo esverdeado a parar junto da vítima.
Os médicos nada podiam fazer e limitaram-se a recolher o corpo para ser transportado para a morgue.
Com a partida da ambulância, os protestos contra a polícia aumentaram e começaram a chover pedras na direcção dos agentes, tendo algumas acertado nos carros.
Apesar de serem autoridade, os agentes viram-se obrigados a retirar para não serem agredidos ou terem de recorrer a respostas que só lhes trariam maiores problemas.
A notícia da morte do jovem rapidamente chegou ao bairro onde vivia e na versão de que fora vítima de dois tiros da polícia. Havia até quem afirmasse com toda a certeza que quando chegou ao chão, o jovem já estava morto. Até poderia ser verdade, mas a causa teria sido o forte impacto na parede e não os tiros que os agentes dispararam para o ar.
Familiares e amigos, assim que foram confrontados com a notícia, vieram para a rua chorar a sua raiva.
O bairro social onde o jovem vivia era um dos mais problemáticos da região de Setúbal. Mesmo assim, tinha uma esquadra como se isso pudesse impedir a actividade criminal dos muitos grupos de criminosos que por lá se refugiavam. Aliás, a esquadra era uma espécie de colónia inimiga cercada pelo bairro e os agentes soldados em território hostil.
Assim, perante as notícias que chegaram ao bairro, a esquadra passou a ser o alvo de todos os ódios. Familiares e amigos da vítima, acompanhados por muitos residentes do bairro, os quais pouco interesse tinham na situação para além da arruaça, avançaram para as imediações da esquadra.
A agitação urbana no bairro tomou tais proporções que os poucos agentes na esquadra tiveram de solicitar reforços para os proteger, ficando durante algum tempo barricados no interior, receosos pelos protestos exteriores.
Na rua choveram pedras para os vidros da esquadra, ouviam-se gritos de revolta e muita contestação.
Em poucos minutos, apareceram os reforços, duas carrinhas com agentes da polícia de intervenção e antimotim.
Quase em simultâneo surgiram as equipas de reportagem dos vários canais de televisão para noticiar o que estava a acontecer às portas de Setúbal.
Aos jornalistas era dado o espectáculo da mãe destroçada pela morte do filho às mãos dos polícias, vítima da brutalidade policial. Com ela, vários amigos de conduta duvidosa a afirmar que ele era bom rapaz, trabalhador e que nunca dera problemas.
Com o cair da noite, intensificaram-se as manifestações contra a polícia. Diversos jovens do bairro incendiaram caixotes do lixo e continuavam a atirar pedras à barreira policial que protegia a entrada da esquadra.
Apesar de mais calma, a tensão prolongou-se por toda a noite. E no amanhecer de Domingo a polícia de intervenção mantinha-se no local, bem como os jovens arruaceiros em gestos de provocação.
Toda a informação divulgada pelos jornalistas recaía numa inclinação para a versão da morte por tiros. Muito por culpa da falta de informação que o Comando Geral da PSP fornecia, ainda à espera de confirmações do médico legista. Essa inclinação só servia para dar força aos protestos que se mantinham na rua a querer fazer mossa nos agentes.
Nesse Domingo, a meio da manhã, Matilde e Leonardo chegaram ao bairro para substituir os colegas que lá se encontravam desde a noite anterior.
— Que mal terei eu feito para aturar isto? — questionava Matilde, após mais uma discussão entre eles durante a viagem de Lisboa até Setúbal.
— Também posso perguntar o mesmo. — retorquiu Leonardo, estacionando o carro ao lado dos restantes carros dos outros jornalistas.
— Quando voltarmos, vou pedir para nunca mais trabalhar consigo.
— Ainda bem. — concordou ele. — Não tenho especial simpatia por pessoas homofóbicas.
O assunto voltara a versar sobre a homossexualidade e Leonardo caíra no erro de lhe dizer que tinha uma amiga lésbica. A partir daí, sem a conhecer, Matilde tecera os comentários mais enxovalhantes acerca de Adriana, insistindo que amor entre mulheres era nojento e só possível entre mentes deficientes.
A tensão continuava no bairro.
Matilde, no seu traje tradicional de calças de ganga e casaco formal, ignorou Leonardo e aproximou-se dos colegas de estação que haviam feito a cobertura dos acontecimentos durante a noite.
O jornalista colega de Matilde relatara-lhe em traços gerais o que acontecera. Não havia grandes novidades e o objectivo informativo seria dar enfase à dor da família e à contestação no bairro.
Quando os colegas deles partiram, Matilde avançou na direcção dos residentes, acompanhada por Leonardo que empunhava a câmara de filmar.
Sedentos de protagonismo e sôfregos por minutos de tempo de antena, os residentes mostraram-se muito disponíveis para falar para a câmara e prosseguir na divulgação da versão da vítima inocente que morrera às mãos da polícia, um rapaz trabalhador, único sustento da casa e que regressava de mais um dia de trabalho.
Enquanto os agentes policiais tinham de manter a calma perante as contastes provocações da população juvenil envolvente, os jornalistas eram bem acolhidos, pois permitiam-lhes serem ouvidos, por mais estapafúrdias que fossem as suas declarações.
Com o aproximar da hora do almoço, o Comando Geral da PSP entregou a todas as redações um comunicado acerca do sucedido, tendo como base o relatório do médico legista. E esse comunicado informava que o jovem na mota se recusara a parar, após a ordem dos agentes no carro patrulha, quando não respeitou um sinal vermelho, e que o uso dos tiros para o ar pretendia demover o indivíduo a continuar com a condução imprudente que poderia resultar em vítimas inocentes. Por fim, segundo o relatório do médico legista, a causa da morte fora o impacto contra a parede após o despiste da mota.
Os blocos informativos da hora do almoço abriram com esta informação e com uma reportagem em directo das equipas de jornalistas no bairro.
O canal televisivo de Matilde e Leonardo fora ainda mais longe, pois obtiveram a informação do assalto da tarde anterior, perto de Palmela, e ligaram ambos os casos com base no testemunho do casal de idosos e na descrição que fizeram do assaltante à polícia, a qual coincidia com a do jovem.
Matilde foi informada disso e referiu-o durante o directo:
— Não está confirmado, mas tudo aponta que o jovem não tivesse parado por se encontrar em fuga, após ter assaltado uma casa.
Nos prédios à volta, as pessoas acompanhavam os noticiários e as novas informações foram muito mal recebidas.
— Mentirosa! — gritavam algumas das pessoas nas janelas.
— Puta! Vaca! — gritavam outros na rua, vindos dos cafés.
A situação para os jornalistas tornou-se tão tensa que a polícia recomendou que eles passassem para trás da barreira policial para evitar a fúria dos residentes.
Matilde, que não gostava de se deixar vencer, aproveitou o directo para dizer:
— Neste momento, as pessoas que devem estar a acompanhar as notícias, perante os novos factos, parecem querer dirigir a sua raiva para os jornalistas. São audíveis as palavras injuriosas contra mim e contra os meus colegas aqui presentes.
Leonardo, sem parar de filmar, fez-lhe sinal para que ela abrandasse o tom das palavras. Porém…
— Peço ao Leonardo que foque alguns dos jovens ali ao fundo que desde ontem têm provocado as forças de autoridade para que possamos perceber que longe de um grupo de injustiçados, eles assemelham-se mais ao espírito da arruaça e…
A sua voz foi interrompida pela do colega no estúdio, através do auricular, questionando a que ponto estava a tensão no bairro.
— És uma puta! — ouviu-se nitidamente numa das janelas. — Mentirosa do car…
Os insultos multiplicaram-se no grupo mais visível que provocava a polícia na rua.
Matilde prosseguiu, respondendo a uma questão do colega em estúdio:
— Sim. Os jornalistas estão agora a ser visados nos insultos. Mas, como referi, são arruaceiros. Penso que não podemos julgar o bairro pelas pessoas que se mostram nas provocações e nos insultos.
A emissão ao vivo do local terminou pouco depois.
— Você é maluca? — questionou Leonardo, irritado. — Quer que nos linchem aqui?
— Já vi que para além de todos os defeitos, também é cobarde. — constatou ela com naturalidade.
— As suas palavras só vieram incendiar mais os ânimos.
— Limitei-me a relatar os acontecimentos.
— Podia tê-lo feito de forma mais branda. Agora colocou-nos debaixo de fogo da fúria deles.
— Não passam de arruaceiros a querer aparecer na televisão.
Nesse momento, ouviu-se um petardo a rebentar na rua. Voltaram a ser incendiados caixotes do lixo e até um carro que se encontrava estacionado ali perto.
Para evitar o descontrolo total dos acontecimentos, os polícias armados de bastões, capacetes e escudos permaneceram parados em frente à esquadra. No entanto, tiveram de recorrer a alguns disparos de balas de borracha para afugentar alguns grupos de se aproximavam perigosamente do local.
A situação acalmou nas horas seguintes, apesar de os jovens contestatários manterem as suas posições nas ruas adjacentes à principal onde estava a polícia.
O ponto da situação ia sendo feito nos blocos informativos, hora a hora, nos canais de informação. Ora em directo, ora em reposição desses mesmos directos, a imagem de Matilde repetiu-se durante a tarde nas televisões.
Leonardo já nem falava com Matilde. Desde que começara a trabalhar com a jornalista que tinha a pior das opiniões acerca dela e jamais voltaria a trabalhar com alguém assim. Quando voltasse ao edifício do canal de televisão, iria fazer chegar o seu descontentamento ao seu chefe e pedir para não voltar a trabalhar com ela.
A tarde avançou sem grandes alterações. Contudo, o anoitecer intensificou o número de pessoas que provocavam os agentes em frente à esquadra. Quando deram por isso, estavam completamente cercados por residentes do bairro.
O comandante dos agentes que mantinham a barreira de escudos defronte da esquadra aconselhou calma.
Os gritos aumentaram, tal como as provocações e insultos. Foram arremessadas pedras e cocktails molotov contra a polícia que se protegeu o melhor que pôde.
Perante o aumento do perigo, os jornalistas foram aconselhados a refugiarem-se no interior da esquadra, uma vez que já nem era hipótese tentarem chegar aos carros e sair do bairro sem serem vítimas de uma emboscada.
No entanto, ao invés disso, o acontecimento foi visto como uma oportunidade para uma emissão em directo do local.
Já noite cerrada, os canais televisivos mostravam o que estava a acontecer no bairro, a forma como a autoridade procurava controlar a situação sem medidas drásticas. Só que a onda de arruaça era tal que a opção foi disparar gás lacrimogéneo para dispersar as pessoas. Não resultou.
Atrás da barreira policial, os jornalistas comentavam os acontecimentos na hora. Em fundo, quase abafada pelas vozes em fúria, a voz do comandante lançou o aviso de que a polícia avançaria sobre os manifestantes, caso eles não dispersassem em dez minutos.
Os dez minutos tornaram-se quinze e depois vinte. Aos vinte e cinco, a barreira policial avançou lentamente.
— Vamos! — ordenou Matilde a Leonardo.
— O quê? — interrogou ele, incrédulo.
— Vamos atrás da barreira.
Leonardo tentou impedi-la, mas Matilde quis manter-se a poucos metros atrás da barreira, seguindo a passada deles. Alguns agentes tentaram impedi-la de os seguir, mas sem sucesso.
Os jovens provocadores acentuavam os insultos e os arremessos de tudo o que pudesse servir para ser atirado. Protegeram-se atrás de barreiras feitas com caixotes do lixo e outros grandes objectos a arder.
Matilde manteve-se firme a relatar tudo atrás dos polícias, perante o desespero de Leonardo que se via cada vez mais dentro de território perigoso.
O comandante continuava os avisos para que as pessoas dispersassem, mas ninguém lhe dava ouvidos. Ao fim de quase uma hora, foi dada ordem para que a polícia avançasse sobre os manifestantes. E foi o caos.
Os muitos residentes na rua começaram a fugir. A investida dos polícias armados de bastões e escudos provocou uma onda de fuga por ruas e ruelas do bairro.
Falando para a câmara, Matilde relatava o que via, percebendo que ficara isolada na rua e optando por não ir a correr atrás dos agentes. Estava a falar da forma como choviam pedras e coisas a arder, quando foi atingida por um jovem que aparecera do nada e a empurrara para o chão.
Leonardo, num acto reflexo, desviou o rosto da câmara para ver, altura em que sentiu um forte impacto nas costas. Um outro jovem agredira-o com um pau, fazendo-o cair ao chão também.
Atordoado, Leonardo ouviu a voz de Matilde a gritar e a dos jovens a insultá-la, dizendo:
— Agora vais pagá-las, puta!
Ao abrir os olhos, ele viu a câmara de filmar partida no chão. Uns vinte metros mais à frente, Matilde era arrastada por dois homens para um prédio ali perto.
Ao levantar-se, Leonardo quase caiu com dor que sentiu. Os agentes da polícia haviam-se dispersado atrás dos manifestantes e os restantes repórteres, apesar de testemunharem a cena, não tiveram coragem de abandonar o refúgio da esquadra para os ajudar.
Matilde viu-se arrastada para um interior escuro. Não conseguia ver nada, mas ouvia os constantes insultos e sentia as mãos que a agarravam. Foi puxada pelas escadas para um piso superior e quase vomitou ao sentir o odor podre do local.
Alcançado o cimo das escadas, alguém lhe enfiou um barrete na cabeça que lhe obstruiu totalmente a visão, conseguindo apenas perceber que uma luz se acendera à sua volta.
— Puta mentirosa! — insultou outra voz.
As mãos que a arrastaram para ali imobilizaram-lhe os braços. Um outro par de mãos agarrou-lhe as abas do casaco e despiu-lho como forma de lhe prender os movimentos das mãos.
O medo apoderou-se dela, tal como o arrependimento pela forma displicente com que encarara a situação. Continuou a ser arrastada até um pé a obrigar a tropeçar e a cair de costas. Sempre ao som de insultos, as mãos que lhe ampararam a queda avançaram para o seu peito.
Com o pânico a invadi-la, Matilde sentiu-se na pele daquela jornalista americana que fora violada no meio de uma manifestação no Egipto.
A dor nas costas era horrível, mas isso não impediu que Leonardo copiasse o percurso pelo qual a colega fora arrastada. Na entrada do prédio, segurou uma barra de ferro esquecida no chão. Quando perdeu Matilde de vista, seguiu os gritos que se ouviam no interior. Subiu as escadas às apalpadelas até ver uma luz ténue por baixo de uma porta no piso superior.
Sem pensar nas consequências, Leonardo encostou-se à porta e ouviu os gritos de Matilde para que a largassem. Só havia um caminho a seguir. Nem por um momento, a sua mente pensou na jornalista como antipática ou arrogante ou ofensiva ou desagradável. A sua mente só via uma pessoa a necessitar de auxílio.
Com a barra de ferro bem presa nas mãos, Leonardo deu um pontapé na porta para a abrir e deparou-se com dois jovens a prender Matilde no chão, estando um deles a tentar abrir a camisa dela.
Sem reacção perante a surpresa, os jovens viram a barra atingi-los sem piedade. Leonardo agrediu ambos o suficiente para que ficassem a contorcer-se com dores. De seguida, tirou o barrete da cabeça de Matilde e levantou-a do chão, puxando-lhe o casaco para a posição original. Sem dizer uma palavra, agarrou-lhe a mão e conduziu-a pelas escadas escuras até à rua.
O seu grande receio era que mais marginais surgissem no seu caminho e dos quais seria impossível fugir. E a sua vingança seria violenta. No entanto, para sua sorte, ao alcançarem o exterior, foram vistos por dois polícias que rapidamente correram em seu socorro.
A confusão no bairro era tanta que a preocupação dos agentes foi levar ambos para um sítio seguro, não perdendo tempo a tentar fazer a detenção dos agressores. E esse sítio seguro foi o interior da esquadra.
Os elementos do INEM presentes no local auxiliaram Matilde que apresentava alguns arranhões e escoriações devido às agressões, encaminhando-a para a ambulância. Leonardo foi para junto dos outros jornalistas, pois as dores nas costas haviam desaparecido.
Com o avançar da noite e a chegada de reforços, a tensão no bairro foi completamente controlada, sendo permitido aos bombeiros extinguir os focos de incêndio.
Quando Matilde saiu da ambulância, Leonardo esperava-a.
— Como se sente? — perguntou ele, forçando alguma simpatia.
— Já passou. — respondeu ela, secamente.
— A câmara de filmar ficou destruída, por isso, já não podemos fazer mais nada. Vão mandar uma equipa para nos render.
Matilde parecia nem o ouvir, mas acabou por assentir com a cabeça. Depois, encarou-lhe o olhar e disse:
— Obrigado, Leonardo! Se não…
— Não pense mais nisso. — interrompeu ele. — Fiz o que qualquer um faria no meu lugar.
Lado a lado, caminharam em silêncio até ao carro dele.
A viagem de regresso à capital começou em silêncio. Matilde parecia ter erigido uma barreira invisível à sua volta onde não pretendia ser incomodada, daí que ele não tivesse feito qualquer tentativa de falar com ela.
No entanto, para surpresa dele, foi ela quem começou a falar:
— Pensei que iam… — interrompeu-se, arrepiando-se com a ideia. — Sei lá o que me iriam fazer.
— Não pense mais nisso. — aconselhou Leonardo, mantendo o olhar na estrada. — Já passou e felizmente as consequências foram mínimas.
— Graças a ti. — recordou ela, alterando a forma como se dirigia a ele, largando o “você” para dar lugar a um “tu” informal. Isso surpreendeu Leonardo, mas não se manifestou. — Se não tens aparecido em meu socorro, eles tinham… tinham feito o que quisessem.
— Já lhe disse. — insistiu ele, mantendo o tratamento formal. — Tente esquecer o que aconteceu.
— Podes tratar-me por tu. — pediu ela num tom vulnerável. — Somos colegas e tu foste verdadeiramente heroico quando me socorreste. Acho que podemos deixar as formalidades de lado.
— Como queiras. — concordou sem especial interesse e sem esquecer todos os defeitos que ela lhe dera a conhecer nos últimos dias.
A noite estava escura e a chuva começou a cair no momento em que atravessaram o rio Tejo pela ponte Vasco da Gama. Na chegada a Lisboa, Matilde indicou o caminho para a rua onde ela vivia. Dentro da cidade, a viagem não durou mais de dez minutos até Leonardo parar o carro à porta do prédio dela.
— Posso pedir-te um favor? — perguntou Matilde, olhando para Leonardo que aguardava que ela saísse do carro para partir rumo a sua casa. — Podes subir comigo? — Leonardo franziu o rosto. — Estou ainda em choque com o que aconteceu. Só peço que me acompanhes até entrar em casa, só até me ambientar. Por favor!
Apesar de enorme relutância, Leonardo concordou em aceder ao seu pedido.
A rua não tinha muito movimento, nem muitos carros, pelo que foi fácil estacionar. Leonardo e Matilde saíram do automóvel e atravessaram o passeio até à porta do prédio. Entraram e subiram no elevador sem trocar qualquer palavra.
Enquanto seguiram pelo corredor do piso do apartamento dela, Matilde procurou a chave de casa na bolsa e encontrou-a assim que chegou à sua porta, levando-a logo à fechadura.
Leonardo observava-a. Viu-a abrir a porta e acender a luz do singelo átrio.
— Entra! — convidou ela.
Leonardo deu dois passos para o interior, dizendo:
— Não quero demorar.
— Entra só um pouco. Queres beber alguma coisa?
— Não, deixa estar.
— Vá lá. — insistiu ela, acendendo mais uma luz.
O apartamento de Matilde não era muito grande, um pequeno átrio com uma porta para a cozinha, uma porta para a sala e outra porta para um segundo átrio de acesso à casa de banho e ao quarto. Seguindo a jornalista, Leonardo entrou na sala e sentou-se no sofá de linhas modernas, enquanto ela se dirigiu ao bar estruturado num móvel extenso que cobria toda uma parede.
— Vives sozinha? — indagou ele, olhando para a decoração.
— Sim. — confirmou ela, vindo do bar com dois copos de Vinho do Porto. Entregou-lhe um. — Desculpa, é só o que tenho em casa.
Matilde sentou-se a seu lado, suspirou e deu um golo no líquido. A seguir, confessou:
— Fiquei em pânico. Dava para sentir o ódio no ar. Acho que nunca esquecerei as vozes deles.
Leonardo ouvia-a sem se pronunciar, aguardando uma oportunidade para sair dali e seguir para a sua casa. Apesar de a ter ajudado, continuava a não sentir qualquer simpatia por ela.
— Foste demais. Salvaste-me. E eu não tenho sido nada simpática para ti.
— Isso é verdade. — concordou ele, bebendo mais um pouco.
— Eu mereço isso. — retorquiu, revelando um sorriso. — Mereço essa condenação do teu olhar.
Ele encolheu os ombros e disse:
— Seja como for, por mais defeitos que tenhas, nunca te deixaria para trás sem te tentar ajudar. Nem a ti nem a ninguém.
— Espero que reconsideres a decisão de não voltarmos a trabalhar juntos. Eu gostava de continuar a ter-te como meu operador de câmara.
— Estás a pedir uma segunda oportunidade?
— Se quiseres pôr nesses moldes, sim.
— Tudo bem. — concordou ele sem que a ideia lhe desse especial entusiasmo. Porém, não iria ser tão intransigente. Mas, fez o aviso. — Só que se voltares a ser a antipática que tens sido, não voltamos a trabalhar juntos.
— Combinado. — disse ela, estendendo-lhe a mão para selar o acordo.
Leonardo apertou-lhe a mão e gostou do toque suave dos seus dedos.
— Queria pedir-te mais uma coisa. — continuou ela, revelando um semblante envergonhado.
— Não tens feito outra coisa, desde que chegámos. — constatou Leonardo.
— Estou com medo de ficar sozinha, esta noite. — confessou ela. — Será que podias passar cá a noite?
— O quê? — espantou-se ele.
— Não é nada disso que estás a pensar. — apressou-se ela a explicar. — Só peço que fiques cá em casa. Ainda me sinto assustada e dormiria mais tranquila se soubesse que estavas cá. Podias dormir aqui no sofá…
— É melhor não, Matilde.
— Por favor…
— Não quero mal-entendidos.
— Estou mesmo muito assustada, Leonardo. Não me obrigues a implorar.
Leonardo olhou para ela, olhos nos olhos. Não podia negar que ela era uma mulher muito atraente, mas continuava a sentir uma repulsa grande pela Matilde Leão que conhecera e que não se iria esconder por muito tempo atrás daquela Matilde ainda em choque com o que acontecera nessa noite.
— Já percebi. — afirmou ela, antes de ele responder. — Que estúpida que eu sou. Claro que deves ter alguém em casa à tua espera. Desculpa, eu nem me lembrei…
— Não, não tenho ninguém à espera. — informou ele, sendo atingido pelo arrependimento de não aproveitar a deixa para sair dali.
— Então ficas? — insistiu ela, olhando-o com ansiedade.
— Está bem.
— Obrigado.
Matilde levantou-se do sofá e desapareceu pelo outro átrio. Regressou vinda do quarto, trazendo lençóis e um cobertor para ele se acomodar no sofá. Ajudou-o a preparar a cama e despediu-se dele, agradecendo:
— Mais uma vez, obrigado.
Sem se demorar mais, Matilde deixou-o sozinho na sala e recolheu ao seu quarto. Leonardo despiu toda a roupa e deitou-se na cama improvisada, recriminando-se por ser tão estúpido ao ser agradável para uma mulher que tinha tanto de bonita como de má, intragável e homofóbica, quanto a jornalista Matilde Leão.
Fim do capítulo

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