Capítulo VIII
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Os dias pareciam terminar cada vez mais tarde, da mesma forma que a Primavera se aproximava para ocupar o lugar do Inverno que naquele ano estava a ser terrivelmente frio. E naquele fim de tarde, apesar de o Sol ter estado presente ao longo do dia, o frio permanecia uma constante.
Adriana terminara mais um ensaio da peça de bailado que iria estrear dentro de poucas semanas. Quando abriu a porta de vidro para sair do Teatro Camões, sentiu a brisa austera e o cheiro do rio Tejo. Com o encontro combinado com Zahra, Adriana não fez por menos e empenhou-se em surgir linda e sensual. Nessa tarde, levara na mochila que a acompanhava aos ensaios a roupa que usaria para Zahra. E assim, ao sair do edifício, Adriana desfilou pelas escadas com um vestido quente que terminava bem acima dos joelhos e lhe apertava as curvas do corpo. A imponência no andar era realçada pelas botas de cano alto e optara por não usar meias, suportando o frio, para que todo o esplendor das suas pernas pudesse cativar a amiga.
Zahra aguardava junto ao carro estacionado a poucos metros do edifício. Esforçou-se para nem reparar, mas a imagem de Adriana deixou-a completamente excitada. E até os cabelos pretos a esvoaçar desordenados davam um ar sedutoramente selvagem à bailarina.
Encostada ao automóvel, a violinista sentiu-se aquém da figura da amiga de outrora. Não se preocupara em vestir nada fora do normal para os dias de ensaio, calças de ganga, camisola coberta por um casaco quente e os sapatos de salto alto.
Adriana podia sentir a pele a arrepiar-se com o frio, enquanto caminhava na direcção de Zahra. Porém, não sucumbiu ao desejo de vestir o casaco comprido que trazia pendurado no braço que certamente esconderia grande parte da sedução da sua imagem.
Adriana e Zahra cumprimentaram-se com um beijo na face. A segunda convidou a primeira a entrar no carro e também ela entrou para o seu lugar na condução.
— Fiquei muito feliz com o teu convite. — confessou Adriana, sentindo com agrado o ambiente menos frio do interior do automóvel.
— Ainda bem. — disse Zahra, ligando a ignição.
— Que vamos fazer?
— Pensei em levar-te a conhecer a minha casa. — sugeriu a violinista com um sorriso sincero. — Tu já me mostraste a tua, por isso, seria indelicado não retribuir.
— Parece-me bem.
— Podemos jantar lá. — continuou Zahra. — Isto, se não te importares que eu cozinhe.
— Claro que não me importo. — concordou Adriana. — E até te posso ajudar.
O automóvel arrancou junto ao Teatro Camões e a viagem seguiu pelas ruas do Parque das Nações, avançando pacientemente pelo trânsito.
A noite já caíra por completo no momento em que Zahra conduzia pela CRIL, procurando contornar a cidade de Lisboa, fugindo ao maior fluxo de trânsito das ruas citadinas. Durante o percurso, as duas amigas conversavam alegres por recuperarem a amizade e falavam sobre os seus trabalhos, interrompendo uma ou outra vez para ouvir uma música que passava no rádio.
O número de carros que circulavam por ali era muito intenso, pois estavam a apanhar a hora em que muitas pessoas saiam dos empregos e regressavam a casa. No entanto, não havia grandes paragens, apenas alguns abrandamentos. E era sem dúvida o melhor caminho para chegar a Algés.
— Apanharíamos muito mais trânsito para chegar a minha casa. — constatou Adriana, consciente que viver no centro de Lisboa provocava um regresso a casa ainda mais complicado.
Zahra conduziu pela CRIL até ao fim, uma vez que esta via terminava exactamente em Algés. A partir daí, teve de enfrentar algumas paragens mais prolongadas devido aos semáforos e ao engarrafamento caótico habitual daquelas ruas. Pelo menos, chegada à sua rua, o estacionamento não era complicado.
As duas amigas saíram do carro e vestiram os seus casacos. Zahra segurou a sua pequena mala e o estojo que guardava o violino, enquanto Adriana pegou na mochila por uma das alças. Zahra trancou o carro e ambas entraram no edifício.
A violinista seguia na frente, indicando o caminho à bailarina que caminhava atrás, olhando para as costas da amiga. Entraram no elevador que as levou ao piso do apartamento.
— Entra! — convidou Zahra, ao abrir a porta e acendendo a luz.
Adriana entrou e observou o interior, espantando-se com a configuração e amplitude de espaço.
Zahra pousou o violino no lugar habitual e largou a mala no sofá que tinha as costas viradas para a porta.
— Fica à vontade. — ofereceu. — Vou só ali trocar de roupa.
Adriana concordou, despindo o casaco e pendurando-o num bengaleiro posicionado atrás da porta do apartamento.
Zahra desapareceu atrás dos biombos que marcavam a zona do quarto. Só se via a sua cabeça a mover-se de um lado para o outro por cima deles.
Adriana resistiu à tentação de ficar a observá-la e sentou-se no sofá que tinha as costas viradas para o quarto.
Passado algum tempo, Zahra regressou à zona da sala tendo substituído as calças de ganga por umas de algodão, a camisola quente por uma mais fina e os sapatos por chinelos.
— Espero que não te importes que esteja assim mais à vontade. Mas, não gosto de cozinhar com a roupa com que venho da rua. — justificou a violinista. — Mas, não te preocupes que depois eu levo-te a casa.
— Não precisas de te incomodar. — retorquiu Adriana, sorrindo. — Eu posso apanhar um táxi, logo. Não há necessidade de estares a ir para a rua outra vez só para me levares a casa.
Zahra encolheu os ombros e respondeu:
— Como queiras.
Enquanto passava atrás da bailarina, Zahra cedeu à tentação de lhe olhar para as pernas cruzadas que a saia curta do vestido revelava. Obrigara-se a não olhar durante toda a viagem, de maneira a não ser atraiçoada pela excitação que isso lhe provocava.
Quando Zahra se deslocou para a cozinha, Adriana levantou-se do sofá e acompanhou-a.
— Posso ajudar-te?
Zahra voltou-se no lado oposto do balcão que separava a cozinha da sala e concordou, indicando-lhe um avental pendurado numa das portas dos armários.
Adriana foi buscá-lo e protegeu o vestido com ele. Ao fazê-lo, olhou para a amiga que cortava legumes de forma concentrada. Ia jurar que, debaixo da camisola, Zahra não deveria ter mais nenhuma peça de roupa, pois os seios baloiçavam a qualquer movimento da violinista. Contudo, afastou as fantasias da mente, pois não deveria alimentar esperanças de algo mais que uma amizade com Zahra.
Ao aproximar-se do balcão, Adriana incomodou-se com o som dos seus próprios passos provocado pelos tacões das botas.
— Importas-te que me descalce? — indagou.
Zahra abanou a cabeça e disse:
— Tens uns chinelos ali no quarto.
Adriana caminhou até ao sector cercado pelos biombos. Zahra olhou-a lamentando que nenhum homem fosse capaz de lhe provocar as sensações que a bailarina despertava no seu corpo só com a sua presença.
Sentada na cama, Adriana abriu os fechos das botas e descalçou as. Fez tudo com os olhos nos objectos pessoais que se espalhavam pela cabeceira da cama.
— Encontraste? — perguntou a outra da cozinha.
— Sim. — confirmou, vendo um par de havaianas junto a um dos biombos.
As botas ficaram no lugar dos chinelos e Adriana regressou à cozinha.
— Que queres que faça?
— Podes tirar os pimentos e os tomates que estão ali no frigorífico e cortar tudo em pedaços. — pediu Zahra. — Vou fazer um salteado de legumes. Está bem para ti?
— Claro. — concordou a bailarina com um sorriso feliz no rosto.
Lado a lado, as duas cortaram os legumes sem tirar os olhos das facas, pois uma distracção poderia valer um corte num dedo.
— Tens uma casa muito bonita. — elogiou Adriana.
— Obrigado. É o meu cantinho, o meu refúgio para descansar. — Zahra afastou-se do balcão e foi a um dos armários buscar o wok para cozinhar os legumes. — Vou ter pena de a deixar, quando casar.
— Podes alugá-la. — sugeriu Adriana. — Assim, seria sempre tua.
Zahra encolheu os ombros, pois não tinha pensado muito bem o que faria com o apartamento depois de casar. Com o wok na mão, parou junto da placa eléctrica e colocou-o num dos círculos de calor. Despejou um pouco de azeite para o interior e deixou aquecer.
No balcão, Adriana finalizava o corte dos cogumelos.
— Quando é que é o casamento? — questionou Adriana, sentindo a língua enrolar na boca. Zahra respondeu com a data exacta. — Espero que sejas muito feliz.
— Vou ser! — afirmou convicta. — O casamento é uma mera formalização da relação com o José. Já somos muito felizes.
— Mas, ainda não vivem juntos. — lembrou Adriana, arrependendo-se por parecer que estava a azarar. — Desculpa, não quis…
— Eu percebo, Adriana. — Zahra sorriu, revelando que não a interpretara mal. — É normal que se pense sempre na questão de viver juntos. Mas, repara! Nós vemo-nos todos os dias. Quando temos digressões, ficamos no mesmo quarto de hotel. Acho que depois de casados, não será muito diferente.
Adriana entregou a taça com os legumes cortados a Zahra que os despejou para o azeite a ferver. Com a ajuda de uma colher-de-pau, a violinista foi mexendo o conteúdo do wok para que este não se queimasse.
— Podes pôr a mesa? — pediu. — A toalha, os pratos e os talheres estão naquele móvel.
Enquanto Zahra cozinhava o jantar, Adriana empenhava-se em preparar uma mesa bonita para a refeição. Sem o pretender, deu consigo a imaginar que se casasse com Zahra, aquela poderia ser uma amostra de como seria a vida comum de ambas.
Concentrada em não deixar que os legumes tostassem mais que o necessário, Zahra ia deitando o olho às movimentações de Adriana. Sentia uma ténue irritação pela forma como o seu corpo reagia à imagem da bailarina, uma excitação que Zahra tentava conter e ignorar.
Quando o jantar ficou pronto, Zahra deitou o conteúdo do wok numa taça de vidro, a qual transportou para a mesa que a amiga compusera de forma a ficarem frente a frente.
— Que queres beber?
— O que tiveres.
— Está a apetecer-me um vinho branco para acompanhar. Alinhas?
— Sim.
Zahra regressou à cozinha e retirou uma garrafa de Ermelinda Freitas do frigorífico. Com o auxílio do saca-rolhas, possibilitou ao vinho respirar antes de o levar para a mesa.
— Espero que gostes. — desejou a violinista, deitando um pouco do vinho branco no copo da amiga e depois no seu.
A seguir, sentaram-se nos seus lugares e cada uma serviu o seu prato.
— Está delicioso! — congratulou Adriana na primeira garfada.
— Não é nada de especial. — retorquiu a outra com humildade. — Não sou grande cozinheira, mas safo-me nos salteados.
Nos minutos que se seguiram, gerou-se um silêncio para saborear a refeição. Não durou muito, pois parecia haver um receio de ambas as partes em perder assunto de conversa.
— Quando estreia o teu bailado?
— Dentro de um mês e pouco. Espero que vás assistir.
— Sim. É uma questão de combinar com o José.
Adriana engoliu mais um pedaço de legumes e confidenciou:
— Os ensaios têm sido arrasadores.
— Não tem corrido bem?
— Eles correm bem. Só que dão cabo do corpo. — Adriana ofereceu um sorriso à amiga. — Ou então sou eu que estou a ficar velha.
— Não digas disparates. Estás óptima.
— Achas? — duvidou a bailarina, deliciada com o elogio.
— Claro que sim. — confirmou Zahra com naturalidade. — Mais um pouco de vinho?
Adriana aceitou e a garrafa chegou ao fim.
Zahra não perdeu tempo e foi buscar outra.
— O vinho é bom. — disse ela, colocando a garrafa cheia no lugar da vazia.
— Demasiado. — adicionou Adriana. — Ainda fico bêbeda.
Novamente sentada, Zahra retorquiu:
— Disseste que não era preciso levar-te a casa, por isso estou a beber à vontade.
— Não te preocupes. Eu vou de táxi.
A refeição continuou e a conversa prosseguiu no relato da vida profissional. Zahra falava nos ensaios da orquestra, recordava algumas digressões e a sua mente desejava ardentemente beijar os lábios da amiga. Por sua vez, Adriana ouvia e relatou posteriormente a sua passagem por Nova Iorque e as provas que fizera para integrar um elenco na Broadway, imaginando sempre como seria magnífico tirar a camisola da amiga e voltar a chupar-lhe os mamilos como tanta vez lhe fizera na adolescência.
Quando terminaram, Zahra levantou-se para retirar os pratos. Adriana tentou ajudá-la, mas desequilibrou-se.
— Estou tonta. — confessou com um sorriso nervoso.
— Senta-te ali no sofá, Adriana. Eu levo isto para a cozinha.
A bailarina ficou envergonhada pelo efeito do vinho. Porém, fez o que a amiga lhe dissera e foi sentar-se no sofá central.
Zahra voltou à mesa, pegou na garrafa de vinho branco e dividiu o que sobrou pelos dois copos. A seguir, sentou-se no sofá ao lado da amiga e entregou-lhe o copo.
— Não posso beber mais. — recusou Adriana. — Daqui a pouco não consigo levantar-me.
— Vá lá. — insistiu Zahra, também ela já tocada pelo álcool. — É um crime deitar um vinho tão bom fora.
Adriana acabou por aceitar o copo e as duas brindaram à amizade.
No sofá central, diante do plasma desligado, as duas amigas ficaram sentadas, quase encostadas uma à outra. Adriana tinha a cabeça a andar à roda, mas consciente de tudo. Não estava bêbeda, apenas alegre e descontraída. Zahra estava igual.
— Tenho pena que a nossa amizade tivesse terminado. — disse subitamente a violinista. — A nossa amizade era única.
— Era mais que uma amizade. — recordou Adriana sem pensar.
A frase fê-la temer uma reação zangada da outra por trazer ao assunto aquilo que ela não queria recordar. No entanto, a resposta de Zahra foi:
— Foram momentos maravilhosos.
— Nunca mais existiu ninguém na minha vida como tu, Zahra.
Zahra pareceu nem ouvir o que ela dissera, continuando:
— Fico muito feliz de poder recuperar uma amiga como tu.
— Eu também.
Zahra olhou para Adriana. Parecia ter um olhar perdido pelo efeito inebriante do álcool. No entanto, quando a olhou nos olhos, algo garantiu a Adriana que Zahra estava bem consciente da realidade. Ou seria a sua consciência que estaria num estado ébrio que a fazia acreditar no surreal?
— Tenho saudades tuas. — confessou Zahra por fim.
— Estamos a matá-las. — contrapôs Adriana com humor.
Zahra continuava a parecer não a ouvir. Colocou a mão no rosto da amiga e repetiu:
— Tenho saudades tuas.
Antes que Adriana proferisse qualquer palavra e para seu espanto, Zahra aproximou o rosto do seu e beijou-lhe os lábios. A bailarina recebeu o beijo e retribuiu-o com enorme paixão, uma paixão contida ao longo de todos os anos que estiveram afastadas.
As bocas esborracharam-se, as línguas dançaram, as mãos avançaram pelo corpo uma da outra. A respiração misturava-se ofegante, a saliva era saboreada reavivando as memórias das sensações outrora partilhadas.
Zahra deitou Adriana no sofá. E Adriana aproveitou o movimento para despir a camisola da amiga. Estava correcta, não havia mais roupa por baixo. Sentiu o peito generoso de Zahra encostar-se ao seu e agarrou ambos os seios com as mãos.
A violinista tocava a amiga com o mesmo cuidado e prazer que fazia com o seu instrumento, transformando-a no seu violino, um violino onde queria dançar ao sabor da paixão.
Zahra parou os beijos e olhou Adriana com excitação.
— Anda! — ouviu-se como uma ordem que Adriana acataria com prazer.
Nua da cintura para cima, Zahra trouxe Adriana pela mão até ao quarto. Colocou-a de frente para a cama e fez um movimento para que ali ficasse. Depois, ficou atrás dela. Levantou-lhe o cabelo comprido e beijou lhe o pescoço. Adriana tremia de excitação. A seguir, acariciou o vestido da bailarina nos flancos, descendo até ao fim da saia curta e segurando a bainha. As mãos voltaram a subir, trazendo o vestido consigo, puxando o tecido até o retirar pela cabeça da outra.
Adriana deixava-se tocar e acatava a recusa da outra em que se mexesse. Sentiu as mãos de Zahra acariciarem-lhe os ombros e voltarem a afastar o cabelo para lhe beijar e lamber o pescoço. As mãos voltaram a descer, dedilhando agora o peito como se fosse um contrabaixo, pousando sobre os seios e apertando-os gentilmente.
Como também a queria acariciar, Adriana levou as mãos atrás para agarrar a amiga. Porém, a outra impediu-a e conduziu-lhe as mãos para o fecho do soutien.
— Tira-o. — sussurrou-lhe.
Enquanto se livrava do soutien, o corpo de Adriana foi novamente acariciado nos flancos até à cintura. As mãos de Zahra continuaram a descida, mas trouxeram com elas as cuecas da bailarina, puxando o elástico até as largar nos tornozelos da outra. Tudo feito com acompanhamento de beijos nas coxas.
Adriana estava em delírio e o seu corpo estava perto do primeiro orgasmo. Na juventude sempre fora mais ela que a amiga a comandar o sexo. Porém, estava a adorar ser “usada”.
O toque carinhoso nas costas indicou a Adriana que deveria avançar para a cama. Esta ajoelhou-se no colchão.
Zahra ajoelhou-se atrás dela e abraçou-a por trás. Fustigou-lhe o pescoço com beijos e chupões, enquanto as suas mãos acariciavam os seios de Adriana. Apesar de alguma relutância, Zahra deixou que as mãos da bailarina puxassem as suas calças e as suas cuecas ligeiramente para baixo.
A mão esquerda de Zahra ficou no seio de Adriana, tendo a outra descido para tocar a intimidade da amiga. Adriana arfava de prazer, estimulando o mamilo direito com a mão desse lado e usando a outra mão para acariciar a amiga entre as pernas.
Os gemidos de ambas intensificaram-se, misturando-se numa sede de prazer quase selvagem. Perto do auge, Zahra largou o seio da outra e puxou-lhe a cabeça para conseguir beijar-lhe os lábios.
Adriana e Zahra explodiram num orgasmo louco, numa sensação de prazer que nunca mais haviam tido desde a última vez que tinham feito amor.
Adriana caiu para a frente, quando Zahra a largou para se contorcer com os espasmos de prazer provocados pelo orgasmo.
Caída no colchão da cama, Adriana rodopiou sobre si e ficou a olhar deliciada para o rosto extasiado de Zahra. Lançou-lhe um semblante de provocação, revelando que a sua líbido estava longe de ser saciada.
Zahra sorriu ainda com o corpo a tremer e a respiração acelerada.
Sem trocarem uma palavra, Adriana levantou-se e invadiu a boca de Zahra com a sua língua. Quase de forma violenta, atirou-a para o colchão e arrancou-lhe as calças e as cuecas esquecidas a meio das pernas.
Zahra deixou-se ficar, estendida na cama, desfrutando das sensações que lhe percorriam o corpo.
Adriana deitou-se sobre ela, amassando-lhe o corpo com o seu. Foi a sua vez de tomar o comando, empurrando os braços da outra para cima, sem deixar de lhe beijar os lábios. Levantou-se para lhe cercar a cintura com as pernas. Parou um instante para a observar, para contemplar toda a beleza da nudez de Zahra, o rosto meio juvenil que se escondia num emaranhado de cabelos ruivos despenteados pela intensidade do momento. Sorriu quase com dificuldade em acreditar se tudo não passaria de um sonho.
Zahra segurou-lhe as mãos com carinho. Deu um beijo a cada uma e estacionou-as nos seus seios. Adriana percebeu o intuito e não a desiludiu, apertando-lhe o peito com paixão. Depois, debruçou-se e lambeu os mamilos apertados entre os dedos. Mordiscou a pele e lambeu a amiga até à barriga.
O “sim” sussurrado num gemido confirmou a Adriana o que deveria fazer. Continuou a beijar, descendo pelo corpo de Zahra, afastando-lhe as pernas para se posicionar entre elas. O toque dos pelos púbicos no seu queixo confirmou que estava no caminho certo. Olhou-os para contemplar a beleza igualmente ruiva. Beijou-os e prosseguiu a descida para que os lábios tocassem os outros lábios da amiga e a sua língua entrasse no espaço mais íntimo e profundo de Zahra.
Olhos fechados, corpo pressionado contra o colchão, mãos a agarrar furiosamente os lençóis, Zahra contorcia-se ao sabor das investidas da língua de Adriana. Maldição, pensava para si, a sua amiga era brutalmente eficiente a provocar-lhe orgasmos.
Zahra não retribuiu aquele último momento. Estavam ambas exaustas.
Deitadas lado a lado na cama, nuas, ficaram a observar o tecto neutral. Não disseram uma palavra, mas estavam de mão dada.
— É melhor ir andando. — disse Adriana por fim.
Zahra apertou a mão da amiga.
— Não vás! Dorme comigo, esta noite.
Adriana voltou o rosto para o da amiga que também se voltou para si.
— Gosto tanto de ti que até dói, Zahra. — Zahra fechou os olhos, não conseguindo corresponder às palavras. Adriana percebeu. — Não precisas de sentir o mesmo.
— Gosto de estar contigo.
— Nada nos impede de estarmos juntas.
— A vida impede-nos.
— Zahra…
— Adriana! Não quero falar sobre isso, agora. Só quero desfrutar desta noite contigo. Ficas?
A bailarina concordou. Seria maravilhoso dormir com a amiga, recordando as muitas noites que partilharam o sono abraçadas uma à outra.
Zahra puxou o lençol e tapou as duas. Acariciou o cabelo de Adriana e trocaram mais alguns beijos até a primeira apagar a luz. Adriana deixou-se abraçar por Zahra e ambas adormeceram.
Na manhã seguinte, Adriana acordou sobressaltada. A cabeça doía e tinha dificuldade em perceber se tudo não passara de um sonho. Porém, ao rodar na cama encontrou a sua amada a dormir tranquilamente. Olhou-a apaixonada e passou a mão pelo seu cabelo. Percebeu que era cedo e deixou-se adormecer novamente.
O sono levou-a a sonhar uma mistura de recordações da adolescência, recordações com Zahra que subitamente saltaram para a actualidade. A sua mente repassou os momentos de amor partilhados nessa noite.
A cabeça já não doía, mas uma estranha sensação de prazer parecia percorrer-lhe o corpo com uma intensidade crescente. Estava a sonhar, mas a sensação de sonho ia desaparecendo na proporção inversa ao prazer que sentia. Abriu os olhos com a mente a tentar tomar consciência da realidade.
Um espasmo percorreu-lhe o corpo. Não viu Zahra a seu lado. Sentia umas mãos afastarem-lhe as coxas e um volume elevar-se abaixo da sua cintura. Novo espasmo. Soltou um palavrão mentalmente… Como era bom. Aos poucos a mente encontrou a realidade. Abriu mais as pernas e deixou que Zahra lhe retribuísse o último orgasmo que lhe oferecera na noite anterior.
Adriana terminara mais um ensaio da peça de bailado que iria estrear dentro de poucas semanas. Quando abriu a porta de vidro para sair do Teatro Camões, sentiu a brisa austera e o cheiro do rio Tejo. Com o encontro combinado com Zahra, Adriana não fez por menos e empenhou-se em surgir linda e sensual. Nessa tarde, levara na mochila que a acompanhava aos ensaios a roupa que usaria para Zahra. E assim, ao sair do edifício, Adriana desfilou pelas escadas com um vestido quente que terminava bem acima dos joelhos e lhe apertava as curvas do corpo. A imponência no andar era realçada pelas botas de cano alto e optara por não usar meias, suportando o frio, para que todo o esplendor das suas pernas pudesse cativar a amiga.
Zahra aguardava junto ao carro estacionado a poucos metros do edifício. Esforçou-se para nem reparar, mas a imagem de Adriana deixou-a completamente excitada. E até os cabelos pretos a esvoaçar desordenados davam um ar sedutoramente selvagem à bailarina.
Encostada ao automóvel, a violinista sentiu-se aquém da figura da amiga de outrora. Não se preocupara em vestir nada fora do normal para os dias de ensaio, calças de ganga, camisola coberta por um casaco quente e os sapatos de salto alto.
Adriana podia sentir a pele a arrepiar-se com o frio, enquanto caminhava na direcção de Zahra. Porém, não sucumbiu ao desejo de vestir o casaco comprido que trazia pendurado no braço que certamente esconderia grande parte da sedução da sua imagem.
Adriana e Zahra cumprimentaram-se com um beijo na face. A segunda convidou a primeira a entrar no carro e também ela entrou para o seu lugar na condução.
— Fiquei muito feliz com o teu convite. — confessou Adriana, sentindo com agrado o ambiente menos frio do interior do automóvel.
— Ainda bem. — disse Zahra, ligando a ignição.
— Que vamos fazer?
— Pensei em levar-te a conhecer a minha casa. — sugeriu a violinista com um sorriso sincero. — Tu já me mostraste a tua, por isso, seria indelicado não retribuir.
— Parece-me bem.
— Podemos jantar lá. — continuou Zahra. — Isto, se não te importares que eu cozinhe.
— Claro que não me importo. — concordou Adriana. — E até te posso ajudar.
O automóvel arrancou junto ao Teatro Camões e a viagem seguiu pelas ruas do Parque das Nações, avançando pacientemente pelo trânsito.
A noite já caíra por completo no momento em que Zahra conduzia pela CRIL, procurando contornar a cidade de Lisboa, fugindo ao maior fluxo de trânsito das ruas citadinas. Durante o percurso, as duas amigas conversavam alegres por recuperarem a amizade e falavam sobre os seus trabalhos, interrompendo uma ou outra vez para ouvir uma música que passava no rádio.
O número de carros que circulavam por ali era muito intenso, pois estavam a apanhar a hora em que muitas pessoas saiam dos empregos e regressavam a casa. No entanto, não havia grandes paragens, apenas alguns abrandamentos. E era sem dúvida o melhor caminho para chegar a Algés.
— Apanharíamos muito mais trânsito para chegar a minha casa. — constatou Adriana, consciente que viver no centro de Lisboa provocava um regresso a casa ainda mais complicado.
Zahra conduziu pela CRIL até ao fim, uma vez que esta via terminava exactamente em Algés. A partir daí, teve de enfrentar algumas paragens mais prolongadas devido aos semáforos e ao engarrafamento caótico habitual daquelas ruas. Pelo menos, chegada à sua rua, o estacionamento não era complicado.
As duas amigas saíram do carro e vestiram os seus casacos. Zahra segurou a sua pequena mala e o estojo que guardava o violino, enquanto Adriana pegou na mochila por uma das alças. Zahra trancou o carro e ambas entraram no edifício.
A violinista seguia na frente, indicando o caminho à bailarina que caminhava atrás, olhando para as costas da amiga. Entraram no elevador que as levou ao piso do apartamento.
— Entra! — convidou Zahra, ao abrir a porta e acendendo a luz.
Adriana entrou e observou o interior, espantando-se com a configuração e amplitude de espaço.
Zahra pousou o violino no lugar habitual e largou a mala no sofá que tinha as costas viradas para a porta.
— Fica à vontade. — ofereceu. — Vou só ali trocar de roupa.
Adriana concordou, despindo o casaco e pendurando-o num bengaleiro posicionado atrás da porta do apartamento.
Zahra desapareceu atrás dos biombos que marcavam a zona do quarto. Só se via a sua cabeça a mover-se de um lado para o outro por cima deles.
Adriana resistiu à tentação de ficar a observá-la e sentou-se no sofá que tinha as costas viradas para o quarto.
Passado algum tempo, Zahra regressou à zona da sala tendo substituído as calças de ganga por umas de algodão, a camisola quente por uma mais fina e os sapatos por chinelos.
— Espero que não te importes que esteja assim mais à vontade. Mas, não gosto de cozinhar com a roupa com que venho da rua. — justificou a violinista. — Mas, não te preocupes que depois eu levo-te a casa.
— Não precisas de te incomodar. — retorquiu Adriana, sorrindo. — Eu posso apanhar um táxi, logo. Não há necessidade de estares a ir para a rua outra vez só para me levares a casa.
Zahra encolheu os ombros e respondeu:
— Como queiras.
Enquanto passava atrás da bailarina, Zahra cedeu à tentação de lhe olhar para as pernas cruzadas que a saia curta do vestido revelava. Obrigara-se a não olhar durante toda a viagem, de maneira a não ser atraiçoada pela excitação que isso lhe provocava.
Quando Zahra se deslocou para a cozinha, Adriana levantou-se do sofá e acompanhou-a.
— Posso ajudar-te?
Zahra voltou-se no lado oposto do balcão que separava a cozinha da sala e concordou, indicando-lhe um avental pendurado numa das portas dos armários.
Adriana foi buscá-lo e protegeu o vestido com ele. Ao fazê-lo, olhou para a amiga que cortava legumes de forma concentrada. Ia jurar que, debaixo da camisola, Zahra não deveria ter mais nenhuma peça de roupa, pois os seios baloiçavam a qualquer movimento da violinista. Contudo, afastou as fantasias da mente, pois não deveria alimentar esperanças de algo mais que uma amizade com Zahra.
Ao aproximar-se do balcão, Adriana incomodou-se com o som dos seus próprios passos provocado pelos tacões das botas.
— Importas-te que me descalce? — indagou.
Zahra abanou a cabeça e disse:
— Tens uns chinelos ali no quarto.
Adriana caminhou até ao sector cercado pelos biombos. Zahra olhou-a lamentando que nenhum homem fosse capaz de lhe provocar as sensações que a bailarina despertava no seu corpo só com a sua presença.
Sentada na cama, Adriana abriu os fechos das botas e descalçou as. Fez tudo com os olhos nos objectos pessoais que se espalhavam pela cabeceira da cama.
— Encontraste? — perguntou a outra da cozinha.
— Sim. — confirmou, vendo um par de havaianas junto a um dos biombos.
As botas ficaram no lugar dos chinelos e Adriana regressou à cozinha.
— Que queres que faça?
— Podes tirar os pimentos e os tomates que estão ali no frigorífico e cortar tudo em pedaços. — pediu Zahra. — Vou fazer um salteado de legumes. Está bem para ti?
— Claro. — concordou a bailarina com um sorriso feliz no rosto.
Lado a lado, as duas cortaram os legumes sem tirar os olhos das facas, pois uma distracção poderia valer um corte num dedo.
— Tens uma casa muito bonita. — elogiou Adriana.
— Obrigado. É o meu cantinho, o meu refúgio para descansar. — Zahra afastou-se do balcão e foi a um dos armários buscar o wok para cozinhar os legumes. — Vou ter pena de a deixar, quando casar.
— Podes alugá-la. — sugeriu Adriana. — Assim, seria sempre tua.
Zahra encolheu os ombros, pois não tinha pensado muito bem o que faria com o apartamento depois de casar. Com o wok na mão, parou junto da placa eléctrica e colocou-o num dos círculos de calor. Despejou um pouco de azeite para o interior e deixou aquecer.
No balcão, Adriana finalizava o corte dos cogumelos.
— Quando é que é o casamento? — questionou Adriana, sentindo a língua enrolar na boca. Zahra respondeu com a data exacta. — Espero que sejas muito feliz.
— Vou ser! — afirmou convicta. — O casamento é uma mera formalização da relação com o José. Já somos muito felizes.
— Mas, ainda não vivem juntos. — lembrou Adriana, arrependendo-se por parecer que estava a azarar. — Desculpa, não quis…
— Eu percebo, Adriana. — Zahra sorriu, revelando que não a interpretara mal. — É normal que se pense sempre na questão de viver juntos. Mas, repara! Nós vemo-nos todos os dias. Quando temos digressões, ficamos no mesmo quarto de hotel. Acho que depois de casados, não será muito diferente.
Adriana entregou a taça com os legumes cortados a Zahra que os despejou para o azeite a ferver. Com a ajuda de uma colher-de-pau, a violinista foi mexendo o conteúdo do wok para que este não se queimasse.
— Podes pôr a mesa? — pediu. — A toalha, os pratos e os talheres estão naquele móvel.
Enquanto Zahra cozinhava o jantar, Adriana empenhava-se em preparar uma mesa bonita para a refeição. Sem o pretender, deu consigo a imaginar que se casasse com Zahra, aquela poderia ser uma amostra de como seria a vida comum de ambas.
Concentrada em não deixar que os legumes tostassem mais que o necessário, Zahra ia deitando o olho às movimentações de Adriana. Sentia uma ténue irritação pela forma como o seu corpo reagia à imagem da bailarina, uma excitação que Zahra tentava conter e ignorar.
Quando o jantar ficou pronto, Zahra deitou o conteúdo do wok numa taça de vidro, a qual transportou para a mesa que a amiga compusera de forma a ficarem frente a frente.
— Que queres beber?
— O que tiveres.
— Está a apetecer-me um vinho branco para acompanhar. Alinhas?
— Sim.
Zahra regressou à cozinha e retirou uma garrafa de Ermelinda Freitas do frigorífico. Com o auxílio do saca-rolhas, possibilitou ao vinho respirar antes de o levar para a mesa.
— Espero que gostes. — desejou a violinista, deitando um pouco do vinho branco no copo da amiga e depois no seu.
A seguir, sentaram-se nos seus lugares e cada uma serviu o seu prato.
— Está delicioso! — congratulou Adriana na primeira garfada.
— Não é nada de especial. — retorquiu a outra com humildade. — Não sou grande cozinheira, mas safo-me nos salteados.
Nos minutos que se seguiram, gerou-se um silêncio para saborear a refeição. Não durou muito, pois parecia haver um receio de ambas as partes em perder assunto de conversa.
— Quando estreia o teu bailado?
— Dentro de um mês e pouco. Espero que vás assistir.
— Sim. É uma questão de combinar com o José.
Adriana engoliu mais um pedaço de legumes e confidenciou:
— Os ensaios têm sido arrasadores.
— Não tem corrido bem?
— Eles correm bem. Só que dão cabo do corpo. — Adriana ofereceu um sorriso à amiga. — Ou então sou eu que estou a ficar velha.
— Não digas disparates. Estás óptima.
— Achas? — duvidou a bailarina, deliciada com o elogio.
— Claro que sim. — confirmou Zahra com naturalidade. — Mais um pouco de vinho?
Adriana aceitou e a garrafa chegou ao fim.
Zahra não perdeu tempo e foi buscar outra.
— O vinho é bom. — disse ela, colocando a garrafa cheia no lugar da vazia.
— Demasiado. — adicionou Adriana. — Ainda fico bêbeda.
Novamente sentada, Zahra retorquiu:
— Disseste que não era preciso levar-te a casa, por isso estou a beber à vontade.
— Não te preocupes. Eu vou de táxi.
A refeição continuou e a conversa prosseguiu no relato da vida profissional. Zahra falava nos ensaios da orquestra, recordava algumas digressões e a sua mente desejava ardentemente beijar os lábios da amiga. Por sua vez, Adriana ouvia e relatou posteriormente a sua passagem por Nova Iorque e as provas que fizera para integrar um elenco na Broadway, imaginando sempre como seria magnífico tirar a camisola da amiga e voltar a chupar-lhe os mamilos como tanta vez lhe fizera na adolescência.
Quando terminaram, Zahra levantou-se para retirar os pratos. Adriana tentou ajudá-la, mas desequilibrou-se.
— Estou tonta. — confessou com um sorriso nervoso.
— Senta-te ali no sofá, Adriana. Eu levo isto para a cozinha.
A bailarina ficou envergonhada pelo efeito do vinho. Porém, fez o que a amiga lhe dissera e foi sentar-se no sofá central.
Zahra voltou à mesa, pegou na garrafa de vinho branco e dividiu o que sobrou pelos dois copos. A seguir, sentou-se no sofá ao lado da amiga e entregou-lhe o copo.
— Não posso beber mais. — recusou Adriana. — Daqui a pouco não consigo levantar-me.
— Vá lá. — insistiu Zahra, também ela já tocada pelo álcool. — É um crime deitar um vinho tão bom fora.
Adriana acabou por aceitar o copo e as duas brindaram à amizade.
No sofá central, diante do plasma desligado, as duas amigas ficaram sentadas, quase encostadas uma à outra. Adriana tinha a cabeça a andar à roda, mas consciente de tudo. Não estava bêbeda, apenas alegre e descontraída. Zahra estava igual.
— Tenho pena que a nossa amizade tivesse terminado. — disse subitamente a violinista. — A nossa amizade era única.
— Era mais que uma amizade. — recordou Adriana sem pensar.
A frase fê-la temer uma reação zangada da outra por trazer ao assunto aquilo que ela não queria recordar. No entanto, a resposta de Zahra foi:
— Foram momentos maravilhosos.
— Nunca mais existiu ninguém na minha vida como tu, Zahra.
Zahra pareceu nem ouvir o que ela dissera, continuando:
— Fico muito feliz de poder recuperar uma amiga como tu.
— Eu também.
Zahra olhou para Adriana. Parecia ter um olhar perdido pelo efeito inebriante do álcool. No entanto, quando a olhou nos olhos, algo garantiu a Adriana que Zahra estava bem consciente da realidade. Ou seria a sua consciência que estaria num estado ébrio que a fazia acreditar no surreal?
— Tenho saudades tuas. — confessou Zahra por fim.
— Estamos a matá-las. — contrapôs Adriana com humor.
Zahra continuava a parecer não a ouvir. Colocou a mão no rosto da amiga e repetiu:
— Tenho saudades tuas.
Antes que Adriana proferisse qualquer palavra e para seu espanto, Zahra aproximou o rosto do seu e beijou-lhe os lábios. A bailarina recebeu o beijo e retribuiu-o com enorme paixão, uma paixão contida ao longo de todos os anos que estiveram afastadas.
As bocas esborracharam-se, as línguas dançaram, as mãos avançaram pelo corpo uma da outra. A respiração misturava-se ofegante, a saliva era saboreada reavivando as memórias das sensações outrora partilhadas.
Zahra deitou Adriana no sofá. E Adriana aproveitou o movimento para despir a camisola da amiga. Estava correcta, não havia mais roupa por baixo. Sentiu o peito generoso de Zahra encostar-se ao seu e agarrou ambos os seios com as mãos.
A violinista tocava a amiga com o mesmo cuidado e prazer que fazia com o seu instrumento, transformando-a no seu violino, um violino onde queria dançar ao sabor da paixão.
Zahra parou os beijos e olhou Adriana com excitação.
— Anda! — ouviu-se como uma ordem que Adriana acataria com prazer.
Nua da cintura para cima, Zahra trouxe Adriana pela mão até ao quarto. Colocou-a de frente para a cama e fez um movimento para que ali ficasse. Depois, ficou atrás dela. Levantou-lhe o cabelo comprido e beijou lhe o pescoço. Adriana tremia de excitação. A seguir, acariciou o vestido da bailarina nos flancos, descendo até ao fim da saia curta e segurando a bainha. As mãos voltaram a subir, trazendo o vestido consigo, puxando o tecido até o retirar pela cabeça da outra.
Adriana deixava-se tocar e acatava a recusa da outra em que se mexesse. Sentiu as mãos de Zahra acariciarem-lhe os ombros e voltarem a afastar o cabelo para lhe beijar e lamber o pescoço. As mãos voltaram a descer, dedilhando agora o peito como se fosse um contrabaixo, pousando sobre os seios e apertando-os gentilmente.
Como também a queria acariciar, Adriana levou as mãos atrás para agarrar a amiga. Porém, a outra impediu-a e conduziu-lhe as mãos para o fecho do soutien.
— Tira-o. — sussurrou-lhe.
Enquanto se livrava do soutien, o corpo de Adriana foi novamente acariciado nos flancos até à cintura. As mãos de Zahra continuaram a descida, mas trouxeram com elas as cuecas da bailarina, puxando o elástico até as largar nos tornozelos da outra. Tudo feito com acompanhamento de beijos nas coxas.
Adriana estava em delírio e o seu corpo estava perto do primeiro orgasmo. Na juventude sempre fora mais ela que a amiga a comandar o sexo. Porém, estava a adorar ser “usada”.
O toque carinhoso nas costas indicou a Adriana que deveria avançar para a cama. Esta ajoelhou-se no colchão.
Zahra ajoelhou-se atrás dela e abraçou-a por trás. Fustigou-lhe o pescoço com beijos e chupões, enquanto as suas mãos acariciavam os seios de Adriana. Apesar de alguma relutância, Zahra deixou que as mãos da bailarina puxassem as suas calças e as suas cuecas ligeiramente para baixo.
A mão esquerda de Zahra ficou no seio de Adriana, tendo a outra descido para tocar a intimidade da amiga. Adriana arfava de prazer, estimulando o mamilo direito com a mão desse lado e usando a outra mão para acariciar a amiga entre as pernas.
Os gemidos de ambas intensificaram-se, misturando-se numa sede de prazer quase selvagem. Perto do auge, Zahra largou o seio da outra e puxou-lhe a cabeça para conseguir beijar-lhe os lábios.
Adriana e Zahra explodiram num orgasmo louco, numa sensação de prazer que nunca mais haviam tido desde a última vez que tinham feito amor.
Adriana caiu para a frente, quando Zahra a largou para se contorcer com os espasmos de prazer provocados pelo orgasmo.
Caída no colchão da cama, Adriana rodopiou sobre si e ficou a olhar deliciada para o rosto extasiado de Zahra. Lançou-lhe um semblante de provocação, revelando que a sua líbido estava longe de ser saciada.
Zahra sorriu ainda com o corpo a tremer e a respiração acelerada.
Sem trocarem uma palavra, Adriana levantou-se e invadiu a boca de Zahra com a sua língua. Quase de forma violenta, atirou-a para o colchão e arrancou-lhe as calças e as cuecas esquecidas a meio das pernas.
Zahra deixou-se ficar, estendida na cama, desfrutando das sensações que lhe percorriam o corpo.
Adriana deitou-se sobre ela, amassando-lhe o corpo com o seu. Foi a sua vez de tomar o comando, empurrando os braços da outra para cima, sem deixar de lhe beijar os lábios. Levantou-se para lhe cercar a cintura com as pernas. Parou um instante para a observar, para contemplar toda a beleza da nudez de Zahra, o rosto meio juvenil que se escondia num emaranhado de cabelos ruivos despenteados pela intensidade do momento. Sorriu quase com dificuldade em acreditar se tudo não passaria de um sonho.
Zahra segurou-lhe as mãos com carinho. Deu um beijo a cada uma e estacionou-as nos seus seios. Adriana percebeu o intuito e não a desiludiu, apertando-lhe o peito com paixão. Depois, debruçou-se e lambeu os mamilos apertados entre os dedos. Mordiscou a pele e lambeu a amiga até à barriga.
O “sim” sussurrado num gemido confirmou a Adriana o que deveria fazer. Continuou a beijar, descendo pelo corpo de Zahra, afastando-lhe as pernas para se posicionar entre elas. O toque dos pelos púbicos no seu queixo confirmou que estava no caminho certo. Olhou-os para contemplar a beleza igualmente ruiva. Beijou-os e prosseguiu a descida para que os lábios tocassem os outros lábios da amiga e a sua língua entrasse no espaço mais íntimo e profundo de Zahra.
Olhos fechados, corpo pressionado contra o colchão, mãos a agarrar furiosamente os lençóis, Zahra contorcia-se ao sabor das investidas da língua de Adriana. Maldição, pensava para si, a sua amiga era brutalmente eficiente a provocar-lhe orgasmos.
Zahra não retribuiu aquele último momento. Estavam ambas exaustas.
Deitadas lado a lado na cama, nuas, ficaram a observar o tecto neutral. Não disseram uma palavra, mas estavam de mão dada.
— É melhor ir andando. — disse Adriana por fim.
Zahra apertou a mão da amiga.
— Não vás! Dorme comigo, esta noite.
Adriana voltou o rosto para o da amiga que também se voltou para si.
— Gosto tanto de ti que até dói, Zahra. — Zahra fechou os olhos, não conseguindo corresponder às palavras. Adriana percebeu. — Não precisas de sentir o mesmo.
— Gosto de estar contigo.
— Nada nos impede de estarmos juntas.
— A vida impede-nos.
— Zahra…
— Adriana! Não quero falar sobre isso, agora. Só quero desfrutar desta noite contigo. Ficas?
A bailarina concordou. Seria maravilhoso dormir com a amiga, recordando as muitas noites que partilharam o sono abraçadas uma à outra.
Zahra puxou o lençol e tapou as duas. Acariciou o cabelo de Adriana e trocaram mais alguns beijos até a primeira apagar a luz. Adriana deixou-se abraçar por Zahra e ambas adormeceram.
Na manhã seguinte, Adriana acordou sobressaltada. A cabeça doía e tinha dificuldade em perceber se tudo não passara de um sonho. Porém, ao rodar na cama encontrou a sua amada a dormir tranquilamente. Olhou-a apaixonada e passou a mão pelo seu cabelo. Percebeu que era cedo e deixou-se adormecer novamente.
O sono levou-a a sonhar uma mistura de recordações da adolescência, recordações com Zahra que subitamente saltaram para a actualidade. A sua mente repassou os momentos de amor partilhados nessa noite.
A cabeça já não doía, mas uma estranha sensação de prazer parecia percorrer-lhe o corpo com uma intensidade crescente. Estava a sonhar, mas a sensação de sonho ia desaparecendo na proporção inversa ao prazer que sentia. Abriu os olhos com a mente a tentar tomar consciência da realidade.
Um espasmo percorreu-lhe o corpo. Não viu Zahra a seu lado. Sentia umas mãos afastarem-lhe as coxas e um volume elevar-se abaixo da sua cintura. Novo espasmo. Soltou um palavrão mentalmente… Como era bom. Aos poucos a mente encontrou a realidade. Abriu mais as pernas e deixou que Zahra lhe retribuísse o último orgasmo que lhe oferecera na noite anterior.