Capítulo XIII
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Naquela manhã, Leonardo não vira Matilde Leão na estação de televisão, nem mesmo quando foi ao departamento de informação para lhe ser indicada a tarefa daquele dia. Havia combinado com ela que se veriam no trabalho, mas fora uma combinação abstracta feita por duas pessoas que trabalham no mesmo local, não era uma combinação para se encontrarem. Mesmo assim, sentiu-se desiludido por não a ver.
O canal pretendia fazer a cobertura da visita de um Chefe de Estado a Portugal. Seria uma visita relâmpago, pois o poderoso governante aterraria em Lisboa pela manhã, visitaria o palácio de São Bento e depois seguiria para o Palácio de Belém onde almoçaria com o Presidente da República. Por fim, uma curta conferência de imprensa e a partida para o destino seguinte.
Leonardo estranhou que Matilde Leão não tivesse sido destacada para aquele trabalho.
Assim, acompanhou os jornalistas, técnicos e outros operadores que iriam fazer com que nenhum pormenor escapasse.
Tudo isso fez com que só regressasse ao edifício da estação de televisão ao fim da tarde, quando a noite já cobria os céus. E foi nessa altura que encontrou Matilde.
— Olá! — disse-lhe, recebendo o tradicional sorriso dela.
No entanto, Matilde não se limitou a sorrir e a retribuir o cumprimento. Aproximou-se dele e pediu:
— Podemos conversar um bocado?
— Claro.
O local escolhido para a conversa foi, mais uma vez, a cafetaria do edifício.
— Estava à espera de te ver na equipa de jornalistas, hoje. — partilhou ele, mexendo o café na chávena e olhando para o rosto dela que parecia ter ganho uma estranha doçura, cada vez que o encarava.
Sentada no lado oposto da mesa, Matilde abanou a cabeça e bebeu o seu café. Pousando a chávena, disse:
— Tenho uma coisa para te contar.
— O que é?
— Se calhar até vais ficar feliz. — tentou ela adivinhar, mas com a esperança que isso não acontecesse. — Eu demiti-me.
A informação apanhou Leonardo totalmente desprevenido. Tentou dizer algo, mas o que lhe saiu, foi:
— Porquê?
— Ofereceram-me uma proposta para apresentar o noticiário num canal informativo novo que vai iniciar as emissões por cabo na próxima semana.
Leonardo encolheu os ombros e disse:
— Fizeste bem. É uma boa oportunidade.
Matilde assentiu e, num receio tão atípico dela, inquiriu:
— E então?
— Então, o quê?
— Ficas feliz por me ir embora? Já não terás que aturar a cabra arrogante.
— Nunca te chamei cabra.
— Eu sei, estou a brincar. Mas, já me chamaste arrogante e…
— Não vais repetir tudo o que disse, pois não? — Matilde abanou a cabeça. Leonardo suspirou. — Vou sentir a tua falta.
— Isso é uma novidade. — constatou ela com enorme sorriso no rosto.
— Podes ter muitos defeitos, podes ser intragável para as pessoas. Mas, temo-nos dado bem, ultimamente.
Matilde colocou a sua mão sobre a dele.
Leonardo não conseguiu evitar olhar em volta com receio que alguém visse aquele gesto de carinho tão improvável nela.
— Estava saturada do trabalho aqui. — explicou a jornalista. — Acho que já há algum tempo que tentam fazer com que eu me vá embora. Só que para te ser franca, cheguei a hesitar.
— Seria uma burrice não aceitar. E a astuta Matilde Leão não é burra.
— Não digas isso assim. — pediu ela num tom meigo. — Sei que sou assim, mas não o digas. Pelo menos, gostava que tu não o dissesses. Dito assim faz com que pareça uma mulher fria e distante. E eu não queria que tu me visses assim.
— Já te vi assim, mas também já me tens mostrado uma Matilde mais simpática. — Sorriu-lhe com ternura. — Aquela Matilde que não mostras a ninguém.
— Só mostro a quem merece.
— Obrigado pela parte que me toca.
Nos instantes seguintes, os olhos de ambos observaram-se em silêncio. Quase parecia que haveria muitas mais coisas a dizer, mas nada se ouviu. Em segundos que pareceram minutos, os olhos dialogaram num silêncio com um significado que nenhum deles assumiria naquele momento.
— Quando é o teu último dia de trabalho aqui? — quebrou Leonardo o silêncio.
— Hoje. — respondeu Matilde.
Mais uma informação que atingiu Leonardo com mais intensidade que a esperada.
— Bolas… — suspirou ele. — Vais começar já?
— Não. Vou tirar uns dias de férias a que tenho direito aqui. Descansar um pouco, estou a precisar, para depois me atirar em força às novas funções.
— Vou ter saudades tuas. — confessou o operador de câmara, arrependendo-se logo de seguida por estar a ser tão honesto e por de facto saber que iria senti-las.
Matilde ofereceu-lhe um sorriso tão amistoso que quase nem parecia a felina jornalista implacável.
— Estou a demitir-me do emprego, Leonardo. Não me estou a demitir de ti. — A mão que continuava sobre a dele tacteou suavemente. — Gostava que continuássemos a ver-nos. Gostava que pudéssemos dar continuidade a esta amizade que temos descoberto ultimamente.
— Eu também gostava. — Leonardo abanou a cabeça confuso. — Até me custa a acreditar que esteja a dizer isto. Quando te conheci, tu serias…
— …o tipo de pessoa com quem tu não quererias falar nem se estivesses sozinho numa ilha deserta. — completou ela.
O rosto vencido pela adivinhação dela sorriu com agrado.
— Isso de completar frases pode significar muita coisa. — disse ele em tom de brincadeira.
— Parvo.
— Agora a sério. — corrigiu Leonardo. — Nessa altura, seria isso que pensaria. Mas, agora, gosto de estar contigo. — A confissão valeu-lhe um sorriso feliz de Matilde. — E como este é o teu último dia aqui e vais para um emprego melhor, que me dizes a irmos jantar os dois para comemorar.
— Parece-me uma ideia maravilhosa.
Leonardo e Matilde saíram da cafetaria e desceram as escadas até à rua. Caminharam lado a lado, comentando uma notícia que havia sido publicada num jornal e que ela lera de manhã.
Como ambos tinham levado o carro para o trabalho, separaram-se e cada um seguiu para o seu.
— Onde queres ir? — perguntou Matilde.
Leonardo, três carros mais à esquerda, antes de entrar para o seu, sugeriu:
— Conheço um sítio bem agradável, perto do rio. Vem atrás de mim.
Matilde concordou.
Uma noite a meio da semana nunca traz muitos clientes a um restaurante, a menos que seja uma bela noite de Verão, o que não era o caso. O estabelecimento ficava perto de Belém, frontal ao rio, uma paisagem pouco apelativa para uma noite de Inverno. No lado contrário ao edifício térreo, existia um parque para os automóveis dos clientes. Leonardo e Matilde encontraram lugares de estacionamento lado a lado.
— Gosto deste espaço. — comentou Leonardo, quando se sentou na sua cadeira.
Matilde, tal como na partilha dos cafés, sentou-se defronte para ele.
— Vens cá muitas vezes?
— Algumas. — respondeu, pensando em Adriana, a pessoa que normalmente o acompanhava ali. — Costumava vir cá com uma amiga minha.
— Uma amiga?
— Sim, uma amiga.
Uma empregada aproximou-se deles com as ementas, entregando uma a cada um. Sugeriu uma entrada e um aperitivo. Eles optaram só pelo aperitivo.
— Uma amiga… — troçou Matilde.
— Não vás por aí. — avisou Leonardo. — Já te falei nela e tu não foste nada correcta no que disseste sobre ela. — Matilde revelou um semblante completamente ignorante ao que ele se referia. — A minha amiga Adriana?
— A fuf… — Matilde interrompeu-se com enorme arrependimento. — Desculpa, Leonardo, saiu-me.
Leonardo abanou a cabeça, lamentando aquela perspectiva de Matilde. Porém, não valeria a pena insistir nesse defeito homofóbico da jornalista.
— Como é que ela está?
— Não sei. Não a tenho visto. — respondeu ele, sem tirar os olhos da ementa. — Tem andado muito ocupada.
A funcionária voltou a aproximar-se com os aperitivos e eles aproveitaram para fazer os pedidos.
— E o teu amigo? — questionou o operador de câmara, logo que a rapariga se afastou.
— Que amigo?
— Aquele que encontraste na prova de surf.
— O Kevin?
— Se é assim que ele se chama.
Matilde deu uma risada suave.
— Porque me estás a perguntar por ele?
— Tu perguntaste por uma amiga minha. Eu retribuí, perguntando por um amigo teu. O encerado foi o único que me lembrei.
— Encerado??? Agora quem é que está a ser preconceituoso?
Os dois sorriram com prazer, um para outro.
— Tens razão, Matilde.
— O Kevin é um amigo de infância, já não o via há bastante tempo.
— E têm-se visto mais vezes?
Matilde franziu o rosto e questionou:
— A que propósito vem esse interesse?
— Por nada. Aliás, não tenho nada com isso.
A jornalista não voltara a ver o amigo, mas não o disse, deixando no ar a dúvida.
Os pedidos para o jantar foram servidos. Leonardo escolhera o risoto de sempre. Matilde optara por uma salada de legumes e fruta. Acompanharam tudo com sumo de melão.
— Vais de férias, sortuda. — recordou ele.
Mantendo um rosto neutro, ela respondeu:
— Estou a precisar. Estes últimos tempos na estação têm sido desgastantes. Para além disso, sinto que nunca passaria daquelas reportagens, nunca chegaria à apresentação de um telejornal.
— Porquê?
— Porque não me deixariam.
— Estou confuso.
— O nosso chefe nunca permitiria que eu evoluísse com medo que a mulher pensasse que ele me estava a favorecer por ter um caso comigo.
— A sério? Mas tu…
— Eu? — Matilde ficou confusa até perceber a dúvida dele. — Achas?
— Não te conheço há muito tempo para saber se isso teria acontecido ou não. Nunca ouvi nada de ti, nesse campo. Mas, basta que me digas que eu acredito.
— Não, Leonardo, nunca tive um caso com ele nem com ninguém da estação.
— É lamentável que sejas prejudicada por causa de suspeitas infundadas.
Matilde encolheu os ombros e adicionou:
— Foi mais pelos ciúmes da mulher dele.
— Seja como for, agora o teu profissionalismo será valorizado.
— Assim espero.
Por entre a conversa, os pratos ficaram vazios. A rapariga simpática voltou a interpelá-los com a sugestão da sobremesa. Ambos declinaram, pedindo somente um café.
— Posso saber como vais passar as tuas férias?
— Claro que sim, Leonardo. Vou para um hotel, perto de Beja, longe de tudo. Vai ser mesmo o relaxamento total. Tem SPA para ver se fico bonita.
— Mais?
O rosto da jornalista corou com o elogio. Porém, fez-se de desentendida.
— Piscina.
— Com este tempo?
— Têm piscina interior.
— Que luxo.
— Acho que mereço.
— Claro que sim.
Os cafés chegaram e ambos o tomaram ainda bem quente. Depois, solicitaram a conta.
— Matilde!
— Sim.
— Isso é umas férias longe de tudo para não ser incomodada.
— É essa a ideia.
A rapariga trouxe o papel com o valor. Leonardo não deixou Matilde pagar um cêntimo que fosse. Ele convidara, ele pagaria.
Após o pagamento, ambos abandonaram a mesa e saíram do restaurante rumo aos respectivos carros. Ficaram a olhar um para o outro com pouca vontade de se afastarem.
— Bom, gostei muito de jantar contigo, Matilde.
— Eu também gostei muito, Leonardo.
— Temos de repetir.
— Quando quiseres.
Os olhos desafiavam-se com ternura à espera que o outro desse o primeiro passo. Um ou outro carro passava na avenida ruidosamente. No rio, a maré era instigada pelo vento. As estrelas furavam as nuvens que teimavam em permanecer no céu. O planeta girava como sempre, mas o tempo parara ali entre os dois. Para Leonardo, o olhar felino de Matilde nunca fora tão doce. Para Matilde, o olhar dele perdera a condenação com que sempre a observara.
— Temos de ir… — disse ele por fim
Matilde anuiu.
— Desejo-te umas boas férias.
— Obrigado, Leonardo.
Os seus movimentos levaram-nos a afastarem-se para os lugares do condutor de cada um dos automóveis. Não houve despedida. Não aconteceu um beijo na face sequer, nem um aperto de mão, nem um “adeus”. No entanto, ao chegar à sua porta, Leonardo chamou:
— Matilde!
— Sim.
— Sei que queres descansar, mas…
— Sim…
— Posso ligar-te?
— Gostava muito que o fizesses.
— Não quero ser intrometido, nem chato.
— Liga-me todos os dias, se quiseres.
Leonardo ia a dizer outra coisa, mas hesitou. Matilde percebeu e esperou que ele falasse. Ele acabou por dizer, meio aos soluços:
— Estou a gostar muito de conhecer esta Matilde Leão.
— Fico feliz. — retorquiu ela com um sorriso sincero.
— Assim vale a pena ser teu amigo.
Matilde ficou emocionada com as palavras dele.
— Obrigada, Leonardo!
Ele sorriu-lhe com ternura.
— Quando é que vais?
— Amanhã.
— Ligas-me quando chegares? — pediu com receio. — Só para saber que chegaste bem.
— Combinado. — concordou ela, abrindo a porta do carro. — Ligo-te e mando-te um beijo.
Leonardo assentiu com a cabeça.
Matilde acenou-lhe uma última vez e entrou no carro. Ele fez o mesmo. No interior do seu automóvel, a jornalista voltou a olhar para o ex-colega e disse sem que ele pudesse ouvir:
— Mando-te o beijo que tu não me deste agora.
Leonardo ficou a vê-la ligar a ignição e a sair do seu lugar de estacionamento. Retribuiu o último aceno e ligou a ignição do seu, quando ela já virava para a avenida. Tivera muita vontade de lhe dar um beijo, mas tinha a certeza que ela não iria achar muita piada e isso poderia colocar em causa aquela amizade que ele estava a gostar muito de descobrir.
Mal sabia ele que um beijo era tudo o que o olhar dela desejava.
O canal pretendia fazer a cobertura da visita de um Chefe de Estado a Portugal. Seria uma visita relâmpago, pois o poderoso governante aterraria em Lisboa pela manhã, visitaria o palácio de São Bento e depois seguiria para o Palácio de Belém onde almoçaria com o Presidente da República. Por fim, uma curta conferência de imprensa e a partida para o destino seguinte.
Leonardo estranhou que Matilde Leão não tivesse sido destacada para aquele trabalho.
Assim, acompanhou os jornalistas, técnicos e outros operadores que iriam fazer com que nenhum pormenor escapasse.
Tudo isso fez com que só regressasse ao edifício da estação de televisão ao fim da tarde, quando a noite já cobria os céus. E foi nessa altura que encontrou Matilde.
— Olá! — disse-lhe, recebendo o tradicional sorriso dela.
No entanto, Matilde não se limitou a sorrir e a retribuir o cumprimento. Aproximou-se dele e pediu:
— Podemos conversar um bocado?
— Claro.
O local escolhido para a conversa foi, mais uma vez, a cafetaria do edifício.
— Estava à espera de te ver na equipa de jornalistas, hoje. — partilhou ele, mexendo o café na chávena e olhando para o rosto dela que parecia ter ganho uma estranha doçura, cada vez que o encarava.
Sentada no lado oposto da mesa, Matilde abanou a cabeça e bebeu o seu café. Pousando a chávena, disse:
— Tenho uma coisa para te contar.
— O que é?
— Se calhar até vais ficar feliz. — tentou ela adivinhar, mas com a esperança que isso não acontecesse. — Eu demiti-me.
A informação apanhou Leonardo totalmente desprevenido. Tentou dizer algo, mas o que lhe saiu, foi:
— Porquê?
— Ofereceram-me uma proposta para apresentar o noticiário num canal informativo novo que vai iniciar as emissões por cabo na próxima semana.
Leonardo encolheu os ombros e disse:
— Fizeste bem. É uma boa oportunidade.
Matilde assentiu e, num receio tão atípico dela, inquiriu:
— E então?
— Então, o quê?
— Ficas feliz por me ir embora? Já não terás que aturar a cabra arrogante.
— Nunca te chamei cabra.
— Eu sei, estou a brincar. Mas, já me chamaste arrogante e…
— Não vais repetir tudo o que disse, pois não? — Matilde abanou a cabeça. Leonardo suspirou. — Vou sentir a tua falta.
— Isso é uma novidade. — constatou ela com enorme sorriso no rosto.
— Podes ter muitos defeitos, podes ser intragável para as pessoas. Mas, temo-nos dado bem, ultimamente.
Matilde colocou a sua mão sobre a dele.
Leonardo não conseguiu evitar olhar em volta com receio que alguém visse aquele gesto de carinho tão improvável nela.
— Estava saturada do trabalho aqui. — explicou a jornalista. — Acho que já há algum tempo que tentam fazer com que eu me vá embora. Só que para te ser franca, cheguei a hesitar.
— Seria uma burrice não aceitar. E a astuta Matilde Leão não é burra.
— Não digas isso assim. — pediu ela num tom meigo. — Sei que sou assim, mas não o digas. Pelo menos, gostava que tu não o dissesses. Dito assim faz com que pareça uma mulher fria e distante. E eu não queria que tu me visses assim.
— Já te vi assim, mas também já me tens mostrado uma Matilde mais simpática. — Sorriu-lhe com ternura. — Aquela Matilde que não mostras a ninguém.
— Só mostro a quem merece.
— Obrigado pela parte que me toca.
Nos instantes seguintes, os olhos de ambos observaram-se em silêncio. Quase parecia que haveria muitas mais coisas a dizer, mas nada se ouviu. Em segundos que pareceram minutos, os olhos dialogaram num silêncio com um significado que nenhum deles assumiria naquele momento.
— Quando é o teu último dia de trabalho aqui? — quebrou Leonardo o silêncio.
— Hoje. — respondeu Matilde.
Mais uma informação que atingiu Leonardo com mais intensidade que a esperada.
— Bolas… — suspirou ele. — Vais começar já?
— Não. Vou tirar uns dias de férias a que tenho direito aqui. Descansar um pouco, estou a precisar, para depois me atirar em força às novas funções.
— Vou ter saudades tuas. — confessou o operador de câmara, arrependendo-se logo de seguida por estar a ser tão honesto e por de facto saber que iria senti-las.
Matilde ofereceu-lhe um sorriso tão amistoso que quase nem parecia a felina jornalista implacável.
— Estou a demitir-me do emprego, Leonardo. Não me estou a demitir de ti. — A mão que continuava sobre a dele tacteou suavemente. — Gostava que continuássemos a ver-nos. Gostava que pudéssemos dar continuidade a esta amizade que temos descoberto ultimamente.
— Eu também gostava. — Leonardo abanou a cabeça confuso. — Até me custa a acreditar que esteja a dizer isto. Quando te conheci, tu serias…
— …o tipo de pessoa com quem tu não quererias falar nem se estivesses sozinho numa ilha deserta. — completou ela.
O rosto vencido pela adivinhação dela sorriu com agrado.
— Isso de completar frases pode significar muita coisa. — disse ele em tom de brincadeira.
— Parvo.
— Agora a sério. — corrigiu Leonardo. — Nessa altura, seria isso que pensaria. Mas, agora, gosto de estar contigo. — A confissão valeu-lhe um sorriso feliz de Matilde. — E como este é o teu último dia aqui e vais para um emprego melhor, que me dizes a irmos jantar os dois para comemorar.
— Parece-me uma ideia maravilhosa.
Leonardo e Matilde saíram da cafetaria e desceram as escadas até à rua. Caminharam lado a lado, comentando uma notícia que havia sido publicada num jornal e que ela lera de manhã.
Como ambos tinham levado o carro para o trabalho, separaram-se e cada um seguiu para o seu.
— Onde queres ir? — perguntou Matilde.
Leonardo, três carros mais à esquerda, antes de entrar para o seu, sugeriu:
— Conheço um sítio bem agradável, perto do rio. Vem atrás de mim.
Matilde concordou.
Uma noite a meio da semana nunca traz muitos clientes a um restaurante, a menos que seja uma bela noite de Verão, o que não era o caso. O estabelecimento ficava perto de Belém, frontal ao rio, uma paisagem pouco apelativa para uma noite de Inverno. No lado contrário ao edifício térreo, existia um parque para os automóveis dos clientes. Leonardo e Matilde encontraram lugares de estacionamento lado a lado.
— Gosto deste espaço. — comentou Leonardo, quando se sentou na sua cadeira.
Matilde, tal como na partilha dos cafés, sentou-se defronte para ele.
— Vens cá muitas vezes?
— Algumas. — respondeu, pensando em Adriana, a pessoa que normalmente o acompanhava ali. — Costumava vir cá com uma amiga minha.
— Uma amiga?
— Sim, uma amiga.
Uma empregada aproximou-se deles com as ementas, entregando uma a cada um. Sugeriu uma entrada e um aperitivo. Eles optaram só pelo aperitivo.
— Uma amiga… — troçou Matilde.
— Não vás por aí. — avisou Leonardo. — Já te falei nela e tu não foste nada correcta no que disseste sobre ela. — Matilde revelou um semblante completamente ignorante ao que ele se referia. — A minha amiga Adriana?
— A fuf… — Matilde interrompeu-se com enorme arrependimento. — Desculpa, Leonardo, saiu-me.
Leonardo abanou a cabeça, lamentando aquela perspectiva de Matilde. Porém, não valeria a pena insistir nesse defeito homofóbico da jornalista.
— Como é que ela está?
— Não sei. Não a tenho visto. — respondeu ele, sem tirar os olhos da ementa. — Tem andado muito ocupada.
A funcionária voltou a aproximar-se com os aperitivos e eles aproveitaram para fazer os pedidos.
— E o teu amigo? — questionou o operador de câmara, logo que a rapariga se afastou.
— Que amigo?
— Aquele que encontraste na prova de surf.
— O Kevin?
— Se é assim que ele se chama.
Matilde deu uma risada suave.
— Porque me estás a perguntar por ele?
— Tu perguntaste por uma amiga minha. Eu retribuí, perguntando por um amigo teu. O encerado foi o único que me lembrei.
— Encerado??? Agora quem é que está a ser preconceituoso?
Os dois sorriram com prazer, um para outro.
— Tens razão, Matilde.
— O Kevin é um amigo de infância, já não o via há bastante tempo.
— E têm-se visto mais vezes?
Matilde franziu o rosto e questionou:
— A que propósito vem esse interesse?
— Por nada. Aliás, não tenho nada com isso.
A jornalista não voltara a ver o amigo, mas não o disse, deixando no ar a dúvida.
Os pedidos para o jantar foram servidos. Leonardo escolhera o risoto de sempre. Matilde optara por uma salada de legumes e fruta. Acompanharam tudo com sumo de melão.
— Vais de férias, sortuda. — recordou ele.
Mantendo um rosto neutro, ela respondeu:
— Estou a precisar. Estes últimos tempos na estação têm sido desgastantes. Para além disso, sinto que nunca passaria daquelas reportagens, nunca chegaria à apresentação de um telejornal.
— Porquê?
— Porque não me deixariam.
— Estou confuso.
— O nosso chefe nunca permitiria que eu evoluísse com medo que a mulher pensasse que ele me estava a favorecer por ter um caso comigo.
— A sério? Mas tu…
— Eu? — Matilde ficou confusa até perceber a dúvida dele. — Achas?
— Não te conheço há muito tempo para saber se isso teria acontecido ou não. Nunca ouvi nada de ti, nesse campo. Mas, basta que me digas que eu acredito.
— Não, Leonardo, nunca tive um caso com ele nem com ninguém da estação.
— É lamentável que sejas prejudicada por causa de suspeitas infundadas.
Matilde encolheu os ombros e adicionou:
— Foi mais pelos ciúmes da mulher dele.
— Seja como for, agora o teu profissionalismo será valorizado.
— Assim espero.
Por entre a conversa, os pratos ficaram vazios. A rapariga simpática voltou a interpelá-los com a sugestão da sobremesa. Ambos declinaram, pedindo somente um café.
— Posso saber como vais passar as tuas férias?
— Claro que sim, Leonardo. Vou para um hotel, perto de Beja, longe de tudo. Vai ser mesmo o relaxamento total. Tem SPA para ver se fico bonita.
— Mais?
O rosto da jornalista corou com o elogio. Porém, fez-se de desentendida.
— Piscina.
— Com este tempo?
— Têm piscina interior.
— Que luxo.
— Acho que mereço.
— Claro que sim.
Os cafés chegaram e ambos o tomaram ainda bem quente. Depois, solicitaram a conta.
— Matilde!
— Sim.
— Isso é umas férias longe de tudo para não ser incomodada.
— É essa a ideia.
A rapariga trouxe o papel com o valor. Leonardo não deixou Matilde pagar um cêntimo que fosse. Ele convidara, ele pagaria.
Após o pagamento, ambos abandonaram a mesa e saíram do restaurante rumo aos respectivos carros. Ficaram a olhar um para o outro com pouca vontade de se afastarem.
— Bom, gostei muito de jantar contigo, Matilde.
— Eu também gostei muito, Leonardo.
— Temos de repetir.
— Quando quiseres.
Os olhos desafiavam-se com ternura à espera que o outro desse o primeiro passo. Um ou outro carro passava na avenida ruidosamente. No rio, a maré era instigada pelo vento. As estrelas furavam as nuvens que teimavam em permanecer no céu. O planeta girava como sempre, mas o tempo parara ali entre os dois. Para Leonardo, o olhar felino de Matilde nunca fora tão doce. Para Matilde, o olhar dele perdera a condenação com que sempre a observara.
— Temos de ir… — disse ele por fim
Matilde anuiu.
— Desejo-te umas boas férias.
— Obrigado, Leonardo.
Os seus movimentos levaram-nos a afastarem-se para os lugares do condutor de cada um dos automóveis. Não houve despedida. Não aconteceu um beijo na face sequer, nem um aperto de mão, nem um “adeus”. No entanto, ao chegar à sua porta, Leonardo chamou:
— Matilde!
— Sim.
— Sei que queres descansar, mas…
— Sim…
— Posso ligar-te?
— Gostava muito que o fizesses.
— Não quero ser intrometido, nem chato.
— Liga-me todos os dias, se quiseres.
Leonardo ia a dizer outra coisa, mas hesitou. Matilde percebeu e esperou que ele falasse. Ele acabou por dizer, meio aos soluços:
— Estou a gostar muito de conhecer esta Matilde Leão.
— Fico feliz. — retorquiu ela com um sorriso sincero.
— Assim vale a pena ser teu amigo.
Matilde ficou emocionada com as palavras dele.
— Obrigada, Leonardo!
Ele sorriu-lhe com ternura.
— Quando é que vais?
— Amanhã.
— Ligas-me quando chegares? — pediu com receio. — Só para saber que chegaste bem.
— Combinado. — concordou ela, abrindo a porta do carro. — Ligo-te e mando-te um beijo.
Leonardo assentiu com a cabeça.
Matilde acenou-lhe uma última vez e entrou no carro. Ele fez o mesmo. No interior do seu automóvel, a jornalista voltou a olhar para o ex-colega e disse sem que ele pudesse ouvir:
— Mando-te o beijo que tu não me deste agora.
Leonardo ficou a vê-la ligar a ignição e a sair do seu lugar de estacionamento. Retribuiu o último aceno e ligou a ignição do seu, quando ela já virava para a avenida. Tivera muita vontade de lhe dar um beijo, mas tinha a certeza que ela não iria achar muita piada e isso poderia colocar em causa aquela amizade que ele estava a gostar muito de descobrir.
Mal sabia ele que um beijo era tudo o que o olhar dela desejava.