DANÇANDO NO VIOLINO · Capítulo 14

Capítulo XIV

≈ 24 min de leitura

A tarde alentejana apresentava-se bonita, quando Matilde com a ajuda do GPS do carro lá conseguiu encontrar a localidade perdida no meio do nada. Conduzir pelo IP2 foi tranquilo e depois de sair na indicação certa, não foi complicado alcançar o hotel.
O lugar parecia uma planície agrícola, onde pequenos edifícios térreos compunham o hotel. Matilde entrou na ampla recepção, puxando a sua mala com rodinhas. Parou junto ao balcão e foi atendida por um funcionário muito simpático.
Logo que todo o procedimento de check-in foi completado, o rapaz entregou-lhe o cartão magnético que servia de chave do quarto e indicou-lhe o caminho.
Aquele pequeno edifício servia somente para receber os hóspedes e tinha um salão onde se poderia passar algum tempo. A arquitectura do local deixava adivinhar uma utilidade rural antes da utilização do espaço como hotel.
Ao sair do primeiro edifício, Matilde voltou a sentir o vento fresco que recordava que o Sol imponente era apenas uma miragem da real temperatura. A decoração exterior tinha alguns objectos relacionados com o trabalho no campo. À direita do seu caminho, um outro edifício escondia o SPA, a piscina coberta e o ginásio. Logo a seguir, outro espaço comum com o restaurante e o bar do hotel. Tudo muito acolhedor.
O caminho empedrado virava ligeiramente à esquerda e terminava numa porta com a indicação numérica dos quartos. Matilde confirmou que estava no rumo certo e entrou. Atravessou o longo corredor e parou em frente ao quarto que lhe fora designado.
O interior era simples e bonito com uma decoração comum de cama, cadeira e uma mesa de apoio, tendo uma das paredes as portas do roupeiro. Logo à entrada, uma segunda porta dava acesso à casa de banho. As cores variavam entre o amarelo e o azul no quarto e o mármore bege e cinza na casa de banho.
Assim que largou a mala, Matilde fez aquilo pelo qual ansiava desde que chegara ali. Sem mais demoras, pegou no telemóvel e ligou a Leonardo para lhe dizer que chegara e mandar um beijo, conforme se comprometera. Após carregar no símbolo verde, ouviu o sinal de chamar várias vezes. Não contou as muitas vezes que ele se repetiu, mas acabou por desligar quando a chamada a direcionou para o atendedor automático. Calculou que ele estaria ocupado a trabalhar e não pôde atender, por isso, largou o telemóvel na cabeceira da cama e aguardou que ele devolvesse a chamada, quando visse o número dela.
O tempo passou e Matilde aproveitou para arrumar a bagagem no roupeiro. Ligou a televisão presa na parede e ficou a ver as notícias, deitando um olho ao ecrã do telemóvel, desejando que Leonardo telefonasse. Como isso não aconteceu, acabou por ir dar um passeio pela propriedade do hotel.
Saiu pela porta por onde entrara, apesar de ter uma outra na extremidade oposta do corredor. Ficou a saber onde se localizava a piscina exterior, os campos de ténis e de minigolfe. A piscina era convidativa com dezenas de cadeiras à volta e um bar de apoio, mas a temperatura não ajudava ao convite.
A caminhada continuou até um passadiço que terminava junto a uma pequena lagoa onde se poderia praticar canoagem. Matilde parou aí e ficou a observar a água com o Sol de fim de tarde a reflectir-se no azul tranquilo. Retirou o telemóvel do bolso e constatou com desânimo que Leonardo não ligara.

Quem também aguardava um telefonema era Adriana. Zahra ficara de lhe confirmar se nessa noite passaria por sua casa ou não. Por isso, quando saiu de mais um ensaio no Teatro Camões, Adriana pegou no telemóvel e procurou o nome da amante na lista telefónica, tendo carregado no botão de chamar, logo que o encontrou.
Ao fim de dois toques, o resultado foi o sinal de chamada rejeitada. Adriana insistiu e a rejeição veio logo à primeira.
Ninguém aceita muito bem uma rejeição, muito menos da pessoa que se ama sem que haja uma razão válida. Como não valeria a pena insistir em ligar, Adriana sempre impulsiva escreveu uma mensagem a perguntar se estava tudo bem. No imediato, não houve resposta.

— Quem era? — perguntou José, ao ouvir o telemóvel da noiva a tocar.
— Uns chatos a quererem vender-me um novo serviço de televisão por cabo. — mentiu Zahra, mexendo no cacifo onde deixara a mala antes do ensaio na orquestra.
Nesse instante, o telemóvel alertou para a chegada de uma mensagem.
— São mesmo chatos. — afirmou o pianista, a seu lado.
Adivinhando que seria uma mensagem de Adriana, Zahra nem pegou no aparelho, não fosse o noivo ver o conteúdo.
— Não vais ler?
— Como tu dizes, querido, são uns chatos.
Ele anuiu.
— Encontramo-nos logo á noite?
— Sim. — concordou Zahra sem entusiasmo. — Podemos seguir já para lá.
— Tenho de tratar de um assunto antes. — explicou ele. — Passo lá mais logo.
— Como queiras.
José deu um beijo apaixonado à noiva e afastou-se.
Zahra voltou a meter a mão dentro da mala e retirou o telemóvel. Abriu a mensagem e confirmou a sua suspeita acerca do remetente da mesma. Não gostava que a bailarina lhe cobrasse as chamadas não atendidas e irritou-se com isso, apesar de o texto de Adriana somente pretender saber se estava tudo bem. Num texto curto e seco, Zahra escreveu que não atendeu porque o noivo estava com ela e que não iria ser possível encontrarem-se nessa noite.

Tal como sempre acontecia, o seu apartamento estava escuro e silencioso quando chegava. Após mais um dia desgastante de trabalho, Leonardo entrou em casa e acendeu a luz do pequeno átrio. Não conseguia abstrair-se da desilusão de Matilde ainda não lhe ter ligado, conforme combinara. Chegara preocupar-se com qualquer eventualidade infeliz que lhe pudesse ter acontecido, mas não encarou essa hipótese com realismo, optando pela justificação mais simples de que ela se esquecera. Afinal, quem era ele na vida dela para que não pudesse ser esquecido? Que esperava ele, que ela tivesse chegado ansiosa ao hotel e a primeira coisa que iria fazer era ligar-lhe? É a Matilde Leão, Leonardo, a mulher fria e calculista que se move no jornalismo como uma predadora insaciável e implacável.
Não negava que estava a gostar de a conhecer para além daquela personagem que ela mostrava a todas as pessoas, a mulher arrogante e sem escrúpulos, odiada e respeitada. No entanto, tinha de ter os pés bem assentes no chão e perceber que as suas vidas eram completamente estranhas e a mudança de emprego dela só os afastaria. A noite anterior fora bonita, umas horas bem passadas entre dois amigos, mas não passara disso. E a imponente Matilde Leão deveria estar no seu refúgio de férias a descansar e a pensar no seu futuro profissional.
Leonardo sentou-se no sofá. Pegou o telemóvel para ver as horas e decidir se já iria ligar a televisão ou se ainda faltava bastante tempo para o programa que queria ver. Ao segurar o aparelho, carregou no botão que daria luz ao ecrã com as horas. Não obteve reacção do objecto.
— Bolas! Não tem bateria. — disse ele para ninguém.
Enquanto procurava pelo carregador, tentou recordar-se da última vez em que lhe mexera. Constatou que não recebera chamadas toda a tarde, nem fizera. E as poucas vezes que precisou de saber as horas, estava no carro. Seria possível que desde o almoço que tinha o telemóvel desligado?
Assim que ficou ligado ao carregador, Leonardo ligou o aparelho. O sistema iniciou e ele aguardou a obtenção de rede. Em poucos segundos, este apitou uma mensagem, tinha duas chamadas não atendidas. Verificou as horas a que tinham acontecido e concluiu que deveria ter sido a hora a que ela chegara ao hotel. Condenou-se pelas insinuações que a sua mente fizera, ao mesmo tempo que se sentia invadido por uma estranha felicidade por ela ter cumprido o prometido. Sem hesitar, marcou o número dela e ligou-lhe.

No hotel, o quarto de Matilde estava tão escuro e silencioso quanto o apartamento de Leonardo quando este chegara. De repente, uma luz surgiu no meio do negrume e o som musical do toque de chamada ecoou pelo espaço. Tocou, tocou, tocou, tocou, tocou, tocou e… tocou até se calar e tudo voltar ao mais absoluto silêncio.
Matilde fora jantar ao restaurante do hotel e esquecera-se do aparelho no quarto.

A ilusão fora efémera, pensou Leonardo para consigo, ou a não resposta à sua chamada seria uma simples vingança ao tempo que ele demorara a perceber que ela lhe ligara. Voltou a insistir.

A tranquilidade no quarto voltou a ser fustigada pela música do telemóvel. Tocou e tocou e tocou… Só que desta vez, Matilde já vinha a regressar ao quarto. Reconhecendo o som do aparelho, apressou-se a abrir a porta, acender a luz e correr para a cabeceira da cama onde o deixara. Agarrou-o quase com sofreguidão, sorriu ao ver o nome de Leonardo no ecrã. Ia a atender quando o nome dele deu lugar ao aviso de “bateria fraca”. E o aparelho desligou-se.
Matilde soltou um grito de raiva. O olhar felino fulminou o telemóvel que não conseguira aguentar a carga suficiente para que ela pudesse ter atendido. Sem o largar, procurou o carregador na mala. Não encontrou e a sua busca foi para a grande mala onde trouxera a roupa. Também não o encontrara. Num gesto de raiva, atirou o telemóvel para a cama com a horrível constatação que se esquecera do carregador da bateria em Lisboa. Ponderou a hipótese de lhe ligar pelo telefone do hotel, mas não sabia de cor o número dele.

A segunda tentativa atirara novamente Leonardo para o atendedor automático. Aguardou algum tempo na esperança que ela devolvesse a sua tentativa. Ao fim de quinze minutos, foi tomar um banho para relaxar do cansaço. Quando regressou, confirmou que ela não lhe voltara a ligar. Por isso, voltou a tentar. Só que desta vez nem tocou, indo a chamada directamente ao atendedor automático. Triste, concluiu que ela não queria ser incomodada e desligara o telemóvel.

No anfiteatro onde a orquestra costumava ensaiar, todos os elementos já haviam saído. Magdalena ficara sentada numa das cadeiras do público, como se estivesse ocupada com alguma coisa antes de sair.
A recordação da última ida ao gabinete do maestro percorreu-lhe a mente, mais precisamente o momento que sucedeu aquele em que ela o saciara, não conseguindo evitar uma contracção do rosto, enojada com a lembrança.
Logo que terminara, Rudolph afastou-se para o interior da casa de banho privada do seu gabinete. Magdalena, aproveitou a oportunidade, pouco se importando com o facto de estar nua da cintura para cima e ter restos dele pelo rosto e peito, já para não falar no travo salgado intragável na língua. Correu para a estante e descobriu a câmara, escondida onde o cúmplice lhe dissera que estaria. Sem hesitar, pegou nela e escondeu-a no interior da mala. Nada daquilo estava combinado, pois ele apenas lhe dissera que tinha de ligar a máquina e depois bem podia esquecer que ela existia. No entanto, Magdalena era demasiado astuta para os seus quinze anos e percebeu que poderia ser importante ter aquela gravação para si.
O cúmplice ligara-lhe ainda nessa noite, já bem tarde, zangado por não ter encontrado a câmara de filmar. Magdalena explicara-lhe que teve receio de todo o seu esforço ser perdido pela eventualidade de, entre a saída dela e a ida do cúmplice para a recolha, o maestro pudesse encontrar o aparelho. A voz anónima concordou, mas exigiu a devolução do aparelho e fita imediatamente.
Por causa disso, ali estava Magdalena no anfiteatro a aguardar que a maior parte das pessoas se fosse embora do edifício. Em todo esse tempo, a sua mão mantinha-se dentro da mala, como se receasse que o pequeno aparelho pudesse fugir sozinho.
Ao fim do tempo que achou necessário, Magdalena abandonou a cadeira e caminhou para o local combinado. Saiu do anfiteatro e avançou pelos corredores solitários, ouvindo uma ou outra vez alguém que ainda se mantinha por ali. Se alguém se cruzasse no seu caminho, disfarçaria. Porém, isso não aconteceu e ela alcançou a escadaria sem que ninguém a visse.
Desceu dois pisos de escadas até à cave, um lugar sombrio com corredores ainda mais escuros. Procurou a porta que ele lhe indicara e vislumbrou uma linha ténue de luz por baixo dessa mesma porta. Não perdeu tempo a bater e entrou.
Logo que a sua cabeça passou a porta para espreitar, uma voz disse:
— Entra!
Magdalena olhou para o interior e viu um candeeiro suspenso no tecto que fornecia um foco de luz somente na zona abaixo da lâmpada, permitindo a quem estivesse fora daquele raio a protecção da escuridão. Mesmo assim, ela discerniu a localização do cúmplice sentado numa cadeira ao canto da divisão.
— Coloca-te por baixo da luz virada para a parede e põe as mãos atrás da cabeça. — ordenou a voz.
Magdalena fechou a porta e retirou a mala do ombro, pousando-a no chão. A seguir, tal como ele lhe ordenara, parou no centro da luz a olhar para a parede rugosa de aspecto inacabado e cruzou os dedos das mãos atrás da nuca.
O vulto levantou-se da cadeira e aproximou-se por trás dela.
— Que se passa? — interrogou ela sem o mínimo sinal de receio.
A aproximação fez o dono da voz anónima entrar na luz, revelando o rosto que ela já conhecia desde que ambos haviam planeado aquilo.
— Digamos que sou um pouco mais esperto que o meu pai, Magdalena. — disse José Norton Vila, colocando as mãos na cintura dela, procurando vestígios de um gravador. — Não quero ser surpreendido com uma gravação da nossa conversa. — Seguro de que não havia nada na cintura dela, as mãos dele procuraram vestígios de fios ou microfones nas costas, na barriga e no peito dela.
— Não trago microfones. Sabes bem que não te iria trair.
— Não sei. — duvidou ele. As mãos pararam nos seios dela, tacteando entre eles com a suspeita que ali se escondesse algo. — Também não era suposto teres levado a câmara.
— Já te expliquei porque o fiz. E se tudo isto é para me apalpares as mamas, estás à vontade, não precisas de inventar tretas.
A sugestão que ele se estava a aproveitar dela fê-lo largá-la imediatamente e afastar-se.
— Não sejas parva! — indignou-se. — És uma miúda. Não sou nenhum pedófilo.
Magdalena virou-se para ele e sorriu-lhe em jeito de provocação.
José ignorou a insinuação no seu olhar e interrogou com rispidez:
— Onde está a câmara?
A rapariga voltou a pegar na mala e retirou o pequeno aparelho de filmar do interior. Largou a mala e esticou o braço na direcção do pianista.
— Aí a tens.
José recebeu a máquina e confirmou que a gravação estava lá dentro.
— Viste-a?
— Que achas? — A resposta dele foi um encolher de ombros. — Claro que sim. Tinha de ter a certeza de que ter estado a chupar o nojento do teu pai tinha servido para alguma coisa.
José Norton Vila sorriu com satisfação, grato por o seu plano estar a correr como previsto. No entanto, uma dúvida lhe fez perder o sorriso:
— E fizeste alguma cópia para ti?
— Não. — mentiu ela. — Para que quereria eu uma cópia? Achas que me dá prazer rever-me nessa figura com esse asqueroso?
— Espero bem que não. — retorquiu ele num tom ameaçador. — Não quero que estas imagens possam cair em mãos alheias ou venham a público antes do tempo. Serei eu a decidir quando as usar.
Magdalena encolheu os ombros como se não lhe interessasse o fim que as imagens teriam. Claro que lhe interessava, daí ter feito uma cópia para si, pois fora com essa intensão que ela levara a câmara do esconderijo onde José a colocara.
Nos minutos seguintes, José observou rapidamente as imagens filmadas. Magdalena manteve-se imóvel em frente a ele. Não conseguia ver que imagens passavam aos olhos dele, mas ouvia os som baixo dos grunhidos de prazer do maestro.
— Merecias um óscar. — disse José num elogio sarcástico. — Quem te vir nestas imagens consegue acreditar que és uma pobre rapariga a ser abusada pelo maestro para não perder o lugar na orquestra.
— Não fiques excitado. — alertou Magdalena irónica com um travo de desdém.
— Se ficar, a minha noiva cuidará de mim. — redarguiu o pianista correspondendo ao travo de desdém com uma farpa de rejeição.
— Se não precisas de mais nada…
— Não. Podes ir!
E com aquelas palavras, Magdalena abandonou a divisão escondida na cave e refez o caminho para o piso superior para se ir embora daquele local.

No hotel alentejano, Matilde via as imagens da televisão sem reter nada do que lá passava. A sua mente engendrava uma solução para contactar Leonardo, antes que este pensasse que ela o estava a desprezar. Por um lado, não queria que uma eventualidade casual lhe prejudicasse a imagem junto do amigo. Por outro lado, irritava-se consigo própria por deixar que aquele acontecimento a afectasse tanto, logo ela que sempre vivera bem com as pessoas a pensarem mal dela.
Sentada na cama, teve uma ideia que poderia ser a solução. De súbito, levantou-se, vestiu um casaco e saiu do quarto.
Matilde Leão caminhou imponente e austera pelo corredor. Nada em si mudara na relação com as outras pessoas, desde que ali chegara. Não perdera a arrogância e os laivos de desprezo a falar.
Saiu para a noite e atravessou a propriedade até ao edifício de entrada do hotel. No amplo salão que recebia os hóspedes à chegada, Matilde parou junto do balcão, onde um jovem solícito lhe sorriu e perguntou em que a poderia ajudar.
— Tem algum carregador que me possa emprestar para carregar o meu telemóvel? — questionou a jornalista no seu tom usual de fera.
O rapaz olhou para o aparelho que ela lhe apontara e franziu o rosto.
— Infelizmente, não.
— Merda! — vociferou ela, pouco preocupada que o palavrão lhe desse um ar vulgar. — Preciso de ligar o telemóvel e não tenho bateria nem carregador.
O rapaz ficou a olhar para ela, impotente para a poder ajudar. A forma como ela falava e se comportava não lhe despertavam simpatia nenhuma, mas havia sempre o princípio de todos os funcionários em satisfazer o cliente, daí que ele tenha sugerido:
— O melhor será tentar numa loja de telecomunicações.
— E onde é que eu vou encontrar uma loja dessas a esta hora? — interrogou Matilde, não conseguindo controlar a irritação.
— Hoje não encontra. Mas, amanhã, poderá encontrar em Beja.
Perante aquela solução que nada solucionava, Matilde virou-lhe as costas e regressou ao seu quarto.
O plano inicial de férias da jornalista não previa sair da unidade hoteleira. Seria estacionar o carro e só voltar cerca de uma semana depois no fim da estadia. No entanto, o plano teve de ser alterado.
Na manhã seguinte, Matilde Leão saiu do hotel e usou o carro para se deslocar a Beja. Não era uma viagem complicada, mas seriam uns bons quilómetros desde aquele local perdido na planície alentejana até à cidade capital de distrito.
Em Lisboa, Leonardo fora trabalhar com alguma tristeza no olhar, pois voltara a tentar telefonar a Matilde, mas mais uma vez vira-se atirado para o atendedor de chamadas. Definitivamente, a jornalista não queria falar com ninguém, nem com ele.
Beja era uma cidade estranha para ela. De nada valeria o GPS para encontrar uma loja de telecomunicações, por isso, optou por conduzir devagar pelas ruas citadinas e tentar encontrar aquilo que pretendia. Lamentava não ter tido a inteligência de pedir uma morada ao funcionário do hotel.
Ao fim de uns vinte minutos a vaguear ao volante do seu carro, o seu campo de visão apercebeu-se de uma placa que parecia de uma marca operadora de telemóveis. Estacionou o automóvel no primeiro sítio que encontrou e deslocou-se a pé.
A loja era pequena, mas o símbolo do operador de telecomunicações deixava antever que talvez conseguisse ali o que pretendia. Ao entrar, o seu olhar deparou-se com um bazar chinês. Matilde desprezava lojas de chineses e não comprava nada naqueles locais. Já ia a dar a volta para se ir embora, quando viu vários carregadores na vitrina do balcão.
Sabia que se recriminaria sempre que recordasse aquilo, mas não tinha outra solução, e entrou na loja. Parou em frente à chinesa sentada atrás do balcão, como se fosse uma estátua, e indagou:
— Tem carregadores para este telemóvel?
A chinesa olhou para o pequeno aparelho como se fosse uma descoberta arqueológica. Não respondeu, testando a paciência de Matilde aos limites. Por fim, baixou-se atrás do balcão e trouxe vários carregadores que espalhou entre elas.
A entrada da ficha do carregador no telemóvel era estreita, pequena e rectangular, o que não impediu que a chinesa lhe sugerisse carregadores com pontas que se viam a quilómetros que não serviam para ali.
Matilde já soprava, irritada com a incompetência da outra mulher que nem português sabia falar. Antes que lhe atirasse com todos os carregadores à cara, Matilde optou por virar costas e ir-se embora.
Desesperada, a jornalista interpelou a primeira pessoa com que se cruzou na rua, desejando não ser reconhecida, e perguntou onde poderia encontrar uma loja de telemóveis. Essa pessoa acabou por ser uma jovem que ia a caminho do trabalho.
— Loja de telemóveis? Acho que há uma perto do castelo. Está de carro? Ainda é um bocado a pé.
Matilde sentiu que tudo parecia estar contra ela. A jovem viu o aparelho e disse:
— Engraçado. Tem um telemóvel igual ao meu.
— A sério? — interrogou Matilde, arregalando os olhos. A rapariga mostrou-lhe o seu para que ela confirmasse que era verdade. — E tem o carregador?
— Sim.
— Será que mo podia emprestar? — A voz da jornalista esforçou se em simpatia, o suficiente para cativar a outra. — Estou num hotel a alguns quilómetros daqui. Amanhã venho cá trazer-lho.
A rapariga olhou para Matilde Leão. Reconhecera-a como jornalista da televisão, mas tivera demasiada vergonha para o dizer. Tinha a certeza que uma figura pública não iria sujar a sua imagem para roubar um carregador de telemóvel, por isso concordou.
— Eu trabalho ali. — disse a rapariga, apontando para a fachada de um edifício. — Se não me vir, peça para chamar a Noélia.
— Combinado. — concordou Matilde, pegando no carregador. — Obrigado!
— De nada. — retorquiu a rapariga, vendo a outra afastar-se.
A viagem de regresso ao hotel foi percorrida de modo alucinante. Matilde Leão conduziu com a ferocidade com que enfrentava tudo na vida, ansiosa por poder voltar a dar carga ao telemóvel. Ultrapassou vários carros no IP2 e quase falhou a saída correcta para a localidade do hotel. Seguiu pela estrada solitária, desbravando os quilómetros que a separavam do destino.
Ao entrar no parque da unidade hoteleira, reparou que não tinha lugar para estacionar. Deu dois socos no volante e soltou um grito de raiva. Estava capaz de arrumar o carro no terreno irregular que cercava a estrada que a trouxera ali.
Para sua sorte, antes que magoasse mais a mão a esmurrar o volante, um carro movimentou-se no parque. Percebendo que era um dos automóveis a sair, Matilde avançou para ocupar o lugar vago.
O vento soprava forte, mais forte que quando ela saíra pela manhã. Já era hora de almoço e o Sol brilhava alto. Despenteada, a jornalista atravessou o salão da entrada como um ciclone, ignorando os dois funcionários no balcão.
Os cabelos esvoaçavam-lhe à volta do rosto, ao atravessar o terreno empedrado até à porta de acesso aos quartos. Lá dentro, passou a mão pelo cabelo, ajeitando-o, ao mesmo tempo que os seus sapatos ecoavam no silêncio do corredor.
Novamente no seu quarto de hotel, Matilde atirou o casaco para cima da cadeira e sentou-se no colchão. Abriu a mala e retirou o telemóvel e o carregador emprestado. Ligou o telemóvel ao carregador e o carregador à tomada na parede, junto à cama. Carregou no botão que ligava o aparelho e respirou fundo, procurando acalmar-se de tanta ansiedade.
Aos poucos, o sistema Windowsphone foi iniciando. Matilde batia com o pé no chão, sem dar por isso. Quando obteve rede, uma mensagem voltou a brotar do aparelho, indicando que Leonardo voltara a tentar ligar na noite anterior.
— Deves estar a odiar-me. — disse para si. Nesse instante, nova mensagem a indicar que ele lhe tentara ligar nessa manhã. — Odeias-me de certeza, Leonardo.
Abriu a lista telefónica e procurou o nome dele. Ao encontrá-lo, selecionou-o e carregou no símbolo de “chamar”. Ouviu o som no outro lado da linha, o som que indicava que o telemóvel de Leonardo estava a tocar. Sentia o coração a bater com força e a sua mente procurava as melhores palavras para se justificar. O sinal de chamada repetiu-se até ser substituído pelo atendedor automático. Ela desligou.
A tristeza e o desespero venceram-na. Parecia que uma força sobrenatural a impedia de falar com Leonardo. Pousou o telemóvel na cabeceira, deixando-o a carregar. A sua cabeça caiu sobre as mãos com os cotovelos apoiados nos joelhos. A seguir, olhou para cima, como se estivesse a falar com Deus e perguntou mentalmente “porquê”.
A tarde estava no início, mas Matilde ainda não almoçara nem tinha fome. Exausta pela manhã, permitiu que o corpo se despenhasse sobre a cama e ficou deitada de olhos fechados.

Em Lisboa, o restaurante perto da estação de televisão estava mergulhado no habitual burburinho da hora de almoço. Daquela vez, como ainda estava na estação, Leonardo optara por ir até lá com alguns colegas e comer qualquer coisa. O ruído era tal que eles mal se conseguiam ouvir uns aos outros. Porém, para ele isso era irrelevante, uma vez que a sua mente estava perdida na amargura por não ter obtido qualquer resposta de Matilde aos seus telefonemas.
Os colegas regressaram com ele ao edifício da estação. Como era o único do grupo que fumava, Leonardo ficou à porta e retirou o maço de cigarros e o isqueiro do bolso. Acendeu um cigarro e deu duas baforadas, um pequeno prazer para atenuar a decepção. Voltou a guardá-los no bolso e foi procurar o telemóvel no outro.
Quando olhou para o ecrã, o seu rosto parecia ter sido iluminado por um brilho mágico. Tinha uma chamada não atendida e antes de ver o nome, tinha certeza que era de Matilde. Sem mais demoras, ligou-lhe.

Deitada na sua cama, Matilde fechara os olhos e tentava descontrair sem pensar nos constates obstáculos para falar com Leonardo. E quando o seu espírito entrou nalgum relaxamento, o seu telemóvel tocou estridente a seu lado.
A jornalista deu um pulo com o susto e aproveitou o impulso para se levantar e alcançar o telemóvel. Viu o número no ecrã, mas não o reconheceu. Ao atender, constatou que era uma chamada do seu futuro chefe que precisava de combinar alguns pormenores com ela.

Não estava fácil. Primeiro não ouvira o toque do telemóvel no restaurante barulhento. Depois, ao tentar ligar recebera o sinal de impedido. Estava difícil. Iria tentar novamente assim que finalizasse o cigarro.

Matilde aceitou os repetidos pedidos de desculpa do seu futuro chefe por estar a incomodá-la, sabendo que estava de férias. No entanto, as linhas de programação para a estreia da sua função necessitavam de alguns ajustamentos que precisavam do acordo dela. A jornalista ouviu-o com aquele seu tom neutro e sério, acabando por concordar com as indicações dele. O telefonema não se prolongou muito tempo.
De novo estendida na cama, Matilde voltou a repousar o espírito. E de novo o telemóvel tocou, o que lhe provocou um grito de raiva. Vociferou vários impropérios contra o chefe que lhe deveria estar a ligar por se ter esquecido de dizer algo. Levantou-se e segurou o aparelho com irritação. Porém, ao ver o nome de Leonardo no ecrã, toda a sua fúria se esfumou.
— Olá Leonardo! — atendeu ela com a voz mais doce que conseguiu.
— Olá Matilde! — retribuiu ele com simpatia. — Pensei que te tivesses esquecido de mim.
— Não sejas tonto. Não imaginas o que já passei com o telemóvel para conseguir ligar-te.
— Não precisas de te justificar.
— Não me estou a justificar, só não quero que penses mal de mim.
— Não estou a pensar mal de ti, Matilde. Eu também não ouvi a tua chamada, há pouco.
— Ontem fiquei sem bateria. — relatou ela, falando atenta à voz dele, procurando algo que lhe revelasse se estava aborrecido ou não. — E a parva desta tua amiga esqueceu-se do carregador em casa.
— Acontece. — retorquiu ele, denotando humor na voz.
— Consegui que me emprestassem um carregador. — continuou, abreviando a história. Fez uma pausa. — Fiquei preocupada.
— Com o quê?
— Que pensasses que eu não te queria atender.
— Passou-me pela cabeça, confesso.
— Não foi isso que aconteceu.
— Eu sei.
— Deverias ter tido mais confiança em mim. Se te disse que gostava que ligasses todos os dias, é porque queria mesmo falar todos os dias contigo.
— Eu disse que me passou pela cabeça, Matilde. Não disse que colei a tua fotografia na parede e lhe atirei dardos.
No outro lado da linha, ela deu uma gargalhada, tendo dito a seguir:
— Estúpido.
Leonardo percebeu o tom meloso dela, revelando que não pretendia ofender, apenas espicaçar.
— Como está a correr o descanso?
— Espero que comece agora. Esta treta do carregador deixou-me mais stressada que o trabalho.
— Aproveita, Matilde.
— Leonardo! — chamou ela com alguma insegurança. — Não voltes a pensar que eu não quero falar contigo. Não nos conhecemos assim tão bem, mas acho que não tens dúvidas de como reagiria se não quisesse mesmo falar contigo.
— A ca… mulher arrogante.
— Sim, a cabra arrogante.
Os dois riram com agrado.
— Tenho de ir trabalhar, Matilde. E tu aproveita para descansar. — A concordância dela serviu para ele fazer uma pausa no discurso. — Sabes? Nunca pensei dizer isto, mas dou por mim a entrar aqui no prédio da estação e a sentir a tua falta.
— Me engana que eu gosto. — contrariou ela, sorrindo agradada por ele estar a dizer aquilo. — O que tu queres dizer é que reparas que não está aí aquela víbora do jornalismo com quem tu te pegas, que tantas vezes discutiu contigo estupidamente e que…
— Não. — interrompeu ele. — Estás enganada. Tenho mesmo saudades tuas. E não é por essas tretas que acabaste de dizer. É porque tu escondes uma pessoa bonita dentro de ti. Mostraste-ma e agora eu tenho saudades dela.
No seu quarto, Matilde emocionou-se com as palavras dele. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto. No entanto, esforçou-se para que nada na sua voz a denunciasse.
— Deixaste-me sem palavras.
— Desculpa. — pediu ele sem que realmente lamentasse.
— Quando voltar, combinamos outro jantar.
— Parece-me bem.
— Até lá, falamos ao telefone?
— Se não te fartares de me ouvir.
— É pouco provável.
— Tenho de ir. Beijinhos.
— Beijinhos.
Fim do capítulo

📚 Gostaste desta história?

Descobre outro livro completo da Biblioteca NST.

Ver Livros Completos

O que achaste deste capítulo?

Sê a primeira pessoa a avaliar.

← Capítulo anterior Todos os capítulos Capítulo seguinte →