Capítulo XVI
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As férias de Matilde no Alentejo estavam a chegar ao fim. Naquele último dia de estadia no hotel, a jornalista repetiu as actividades dos dias anteriores.
O despertar nunca era muito cedo, mas também não demasiado tarde, fazendo-a abandonar a cama a meio da manhã.
Tirando os dois primeiros dias, nunca saiu do hotel, uma vez que a última em que o fizera fora para devolver o carregador do telemóvel à jovem alentejana simpática que vivia e trabalhava em Beja.
Ao sair da cama, abria os cortinados grossos e mantinha as cortinas finas corridas, não fosse alguém passar em frente às janelas do seu quarto térreo. Largava a camisa de dormir sobre o colchão e ia tomar um duche morno que terminava sempre com água fria para espevitar a circulação e a deixar com os sentidos bem despertos. Era um hábito que vinha da adolescência e que nunca perdera.
Após o banho, enrolava o cabelo molhado numa toalha pequena e secava o corpo com outra mais comprida. A seguir, circulava pelo quarto nua até ficar em frente ao alto espelho preso na parede para se observar e confirmar que o seu corpo permanecia em forma.
O hotel tinha indicações para nunca fazerem a arrumação do seu quarto antes do meio-dia, altura em que Matilde saía de lá para se sentar numa das cadeiras junto à piscina a ler um livro e apanhar alguns raios solares. Nunca fora para lá em biquíni, preferindo uma roupa simples, tipo fato de treino muito feminino, até porque a temperatura não era muito alta.
Apesar das nuvens constantes no céu, o Sol foi sempre rompendo e o ambiente nunca trouxe chuva nem vento que tornasse a sua permanência ali desagradável.
A leitura era interrompida alguns minutos quando Matilde pedia ao funcionário do bar da piscina que lhe trouxesse uma sandes e um sumo, o seu almoço diário.
A época do ano e os dias de semana eram responsáveis pela fraca presença de hóspedes, algo que ela saberia que iria mudar no dia seguinte, Sábado, daí que tivesse planeado a sua partida para essa altura. Fora um tempo para relaxar e descansar, pelo que o aumento de hóspedes iria quebrar isso.
A permanência pela piscina exterior prolongava-se mais uma hora ou duas, momento em que regressava ao quarto para deixar o livro e voltava ao exterior para um passeio solitário tranquilo pela propriedade do hotel.
Quase sempre esses passeios serviam para se perder em pensamentos, ora fosse no planeamento do seu futuro profissional neste novo desafio, ora a recordar as conversas com Leonardo ao telefone à noite. E nestes poucos dias de férias, não houve uma noite em que ele não lhe telefonasse quando chegava a casa.
Matilde nunca assumiria isso a ninguém, até mesmo a ela era difícil, mas sentia um turbilhão de emoções ao pensar nele. Tentava justificar-se com as mais variadas razões para aquilo estar a acontecer, recusando a hipótese de que ele mexia com o seu coração.
A meio da tarde, após o passeio, a jornalista voltava novamente ao quarto para trocar de roupa e sair para mais uma sessão no SPA do hotel.
Aquela hora e meia que diariamente lá passava incluía uma massagem relaxante por todo o corpo, executada por uma funcionária do hotel, e umas braçadas na piscina interior de água aquecida. Matilde regressava sempre com a sensação que lhe haviam tirado muitos quilos de cima dos ombros.
O jantar acontecia para si entre as oito e as oito e meia da noite. Por norma, a ementa anunciava um buffet onde se poderia escolher entre dois pratos principais.
Matilde entrou no restaurante do hotel e o empregado, após a informação do número do quarto, indicou-lhe uma mesa das muitas vagas pelo salão.
— O que deseja beber? — perguntou ele, quando ela se instalou.
O sumo de laranja natural foi a sua escolha.
Logo que deixou a chave sobre a mesa, dirigiu-se às mesas com comida para se servir. Não tirou muito, pois não tinha muita fome.
A refeição foi feita num ambiente tranquilo e silencioso, onde mal se ouviam os funcionários ou a meia dúzia de hóspedes que também jantavam por ali. Não se serviu da gigantesca oferta de sobremesas e terminou com um café.
A noite caíra por completo. Ela saiu do edifício do restaurante e caminhou lentamente até ao edifício dos quartos, saboreando o som relaxante dos grilos.
Matilde entrou no quarto, acendeu a luz e trancou a porta. Foi até à janela e correu os cortinados grossos para que nada invadisse a sua privacidade. Puxou o cobertor e o lençol para abrir a cama e despiu-se para trocar a roupa com que fora jantar pela camisa de dormir.
Deitou-se na cama, colocou o telemóvel a seu lado e ligou a televisão para mudar de canal indiscriminadamente, passando o tempo até o telemóvel tocar.
Leonardo ligou meia hora depois.
— Olá Leonardo! — atendeu ela com doçura.
— Olá Matilde! — retribuiu ele, revelando algum cansaço na voz. — Desculpa, hoje estou a ligar mais tarde.
— Não faz mal.
— Tivemos um dia complicadíssimo em filmagens no Parlamento. Os nossos políticos continuam… Sei lá, como é que eles continuam. Só cheguei a casa agora. E estava a ver que só vinha de madrugada.
— Eu tenho andado tão alheada da realidade que nem vejo as notícias. Quando regressar a Lisboa devo parecer uma bimba ignorante.
O tom cansado de Leonardo deu lugar a algo parecido com sedução:
— Podemos jantar e eu ponho-te a par das notícias todas desta semana.
— Parece-me bem. — concordou Matilde.
— Não estás triste por as férias estarem a acabar?
— Não diria triste. Estar assim a relaxar é bom, mas não sou pessoa de querer isto para o resto da vida. Já sinto alguma falta da confusão de Lisboa, do stress do jornalismo. Isto para não falar da ansiedade de ir começar num emprego novo.
— Fico feliz por saber que vais para melhor. Só lamento já não fazermos equipa.
— Não lamentes! Eu não lamento. — A afirmação deixou Leonardo com a impressão de que ela o estava a afastar. Porém, o seguimento das palavras dela revelou o contrário. — Assim, quando estivermos juntos será por gostarmos da companhia um do outro e não por obrigação profissional.
— Sim. Concordo contigo. Por falar nisso, gostava de te ver quando voltasses.
— Isso é saudades? — questionou Matilde, deliciada.
— Pode dizer-se que sim. Não tens?
— Minhas? Não. Estou sempre comigo. — Leonardo protestou pela brincadeira dela. Mais séria, Matilde informou. — Eu regresso amanhã.
— E queres jantar amanhã?
— Ligo-te quando chegar. Pode ser?
— Claro.
Matilde deixou o hotel ao fim da manhã de Sábado. Almoçou qualquer coisa numa estação de serviço da A2 e chegou ao seu apartamento em Lisboa a meio da tarde. A viagem e a arrumação da bagagem deixaram-lhe um cansaço que a deixou convicta de que não seria boa companhia para um jantar nessa noite. Por isso, quando ligou a Leonardo a informar que já estava em casa, Matilde recusou o convite para o jantar com a contraproposta de passarem o Domingo juntos. Leonardo aceitou.
O Domingo estava solarengo e primaveril em ambas as margens do rio Tejo. Matilde saiu do seu apartamento a meio da manhã e conduziu o carro até ao Cais do Sodré. A jornalista combinara encontrar-se com Leonardo na margem sul do rio, no Cais do Seixalinho perto do Montijo.
Os planos traçados para aquele Domingo incluíam um passeio pela península de Setúbal, sugestão dele. Por isso, estar a levar o carro para a outra margem tornou-se despropositado, uma vez que ele a poderia ir buscar, se ela viesse de barco.
O carro de Matilde ficou estacionado no parque de estacionamento reservado aos utentes da Transtejo, mesmo entre a estação fluvial e a estação ferroviária. Não havia muitos carros por ali e o maior fluxo de pessoas acontecia mais para os comboios que para os barcos.
Matilde caminhou imponente para o interior da estação, rumo à bilheteira. Envergava calças de ganga azuis e casaco de malha sobre uma blusa, ambos em tons lilases. Sempre elegante, mas sem se preocupar em ser atraente ou sensual. O cabelo louro estava solto e o rosto escondia-se atrás de duas enormes lentes escuras.
Na bilheteira comprou as duas viagens, uma de ida e outra de volta. A senhora que lhas vendeu avisou que o barco partiria dentro de quinze minutos. Sempre com o seu ar altivo, ela afastou-se e caminhou segura para a sala de embarque, passando o primeiro bilhete pelo leitor de código e entrando no espaço reservado aos passageiros.
Para além dela, apenas mais quatro pessoas. Até ao momento de embarque, entraram mais seis. Matilde sentou-se num dos bancos rijos e ficou a olhar a ondulação do rio. Aos seus ouvidos chegava o som ritmado da água a embater no cais e no barco que a transportaria. Porém, a sua mente estava longe, a pensar no amigo e a constatar como se sentia ansiosa por aquele encontro.
Cinco minutos antes da hora prevista para a partida, as portas de acesso à rampa de embarque abriram. As pessoas levantaram-se dos seus lugares e caminharam tranquilamente para o barco. Matilde fez o mesmo, dando passadas cuidadosas, pois os saltos altos dos sapatos não gostavam muito do piso da rampa e ela teve receio de torcer um pé. Por fim, escalou a pequena rampa que ligava o barco ao cais e seguiu para um dos lugares da primeira fila para fazer a viagem a ver a paisagem.
Leonardo deu por si a encarar a manhã de Domingo com uma ansiedade pouco normal em si. Tinha encontro combinado com Matilde, alguém que odiara quando conhecera, mas que começara a apreciar quando ela lhe deu a conhecer um ser humano bem diferente. Gostava da companhia dela e aquela semana em que não a vira deixara-lhe uma saudade e uma ansiedade que lhe provocaram um friozinho no estomago.
Sorriu ao ver o Sol pela janela, o que deixava a adivinhar que iam ter bom tempo para o passeio que haviam previsto.
Ao sair do banho, vestiu-se ao estilo diário, quase como se fosse para uma reportagem. No momento em que duas bolachas lhe serviram de pequeno-almoço, o seu telemóvel apitou uma mensagem de Matilde a informar a hora a que chegaria ao seu lado do rio.
Atravessar o rio Tejo num barco estilo catamaran numa manhã de Domingo com Sol é uma experiência que todas as pessoas deveriam ter, nem que fosse só uma vez. Mesmo aquelas que fazem essa viagem diariamente embrulhadas na azáfama de centenas a caminho dos seus empregos deveriam experimentar aquela versão.
Os olhos de Matilde contemplaram o azul da água, o brilho da paisagem meio urbana, meio rural a aproximar-se. O embalar ténue da embarcação era quase imperceptivel, tal era a calmaria do rio. À sua esquerda, o longo tabuleiro da ponte Vasco da Gama era uma linha fina no horizonte, onde alguns pontos de moviam nos dois sentidos. À direita, bem mais longe, a ponte 25 de Abril parecia ter uma cor grená mais acentuada, fruto do Sol a reflectir-se nela. Atrás de si, Lisboa antiga ribeirinha afastava-se com a mesma suavidade do navegar do barco.
Leonardo, que vivia numa das zonas mais recentes do Montijo, contornou a cidade para rumar à zona mais antiga. Tal como muitas cidades e vilas ribeirinhas, o Montijo crescera das margens do rio para o interior.
Aquela circular exterior levou-o a um entroncamento em que para a direita iria para o Samouco e para a esquerda seguiria para o centro do Montijo. Optou pela esquerda, pois uns quinhentos metros mais à frente teria um desvio com a indicação do caís. Circulou por uma estrada que tinha poucas casas e alguns edifícios industriais. Essa estrada terminava num novo entroncamento. Leonardo voltou a virar à esquerda e entrou no enorme parque de estacionamento do Caís do Seixalinho.
Claro que a um Domingo, os lugares ocupados por carros contam-se pelos dedos das mãos. Porém, num normal dia da semana, aquele lugar estaria repleto de automóveis.
Leonardo estacionou o mais próximo que conseguiu do edifício e caminhou até à zona de desembarque sentindo algum nervosismo. Por vezes, quase preferia voltar a ter aquela relação de irritação e tolerância profissional que tinha com ela. Só que era um momento muito rápido, pois era bem melhor lidar com aquela Matilde.
Junto aos torniquetes da sala de embarque/desembarque, Leonardo viu a embarcação a aproximar-se. O grande barco branco e azul iniciou um complexo grupo de manobras para atracar no cais. Logo que esses movimentos foram concluídos, os tripulantes abriram as portas e dois homens no caís empurraram as rampas para os passageiros descerem.
Só quando o barco se imobilizou completamente é que Matilde se levantou do seu lugar. Já quase todos os passageiros tinham saído. Caminhou elegante e altiva como se nada existisse à sua volta e desembarcou com cuidado, atenta ao facto de que os seus sapatos não tinham sido planeados para aqueles pisos.
Pelo vidro que separava a sala do átrio exterior, Leonardo reconheceu Matilde imediatamente. Reparou na pose típica da feroz Matilde Leão, ignorando as pessoas e de rosto fechado. Entrou na sala e puxou os óculos para o cimo da cabeça, procurando Leonardo. Ao vê-lo, o seu rosto ofereceu-lhe um sorriso luminoso.
Leonardo esperou-a após os torniquetes que ela atravessou para sair. Aproximou-se dele e cumprimentaram-se com dois beijos meio tímidos na face.
— Olá Leonardo!
— Olá Matilde!
— A viagem correu bem?
— O barco não se afundou pelo caminho. — constatou ela com humor. — Por isso sim.
— Mas foi boa?
— Sim, claro. A paisagem é maravilhosa.
Durante três ou quatro segundos ficaram a olhar-se. Para eles pareceram horas sem saber o que dizer e desejando que o outro falasse.
— É bom voltar a ver-te. — confessou Matilde.
— Faço minhas, as tuas palavras.
— Bom… — continuou ela. — Estamos na tua terra, por isso, estou nas tuas mãos.
Leonardo sorriu e convidou-a a acompanhá-lo até ao carro.
A viagem de automóvel levou-os pela estrada nacional rumo a sul. Durante o percurso, Matilde relatou os seus dias de férias. Alguns relatos, ele já conhecia dos telefonemas partilhados por ambos à noite, mas vinham sempre como introdução a momentos que ela passara, como por exemplo o dia em que fora devolver o carregador à jovem simpática que lho emprestara.
— Tu estás muito diferente. — constatou ele com os olhos na estrada. — A despertar simpatia nas pessoas ao ponto de te ajudarem.
— Acho que ela me reconheceu. — contrapôs Matilde, recusando a mudança de postura.
— Ajudar vedetas fica sempre bem.
— Não sou nenhuma vedeta, Leonardo.
— És um rosto conhecido. E isso já te eleva acima do comum dos mortais.
— Não exageres. — reclamou ela, sorrindo. O seguimento fê-la perder o sorriso. — Não cheguei a comentar contigo ao telefone, mas quando lá fui devolver o carregador, notei que ela tinha um hematoma no rosto.
— Uma porta de armário da cozinha? — sugeriu ele com ironia.
— Sim, a comum desculpa das mulheres vítimas de violência doméstica. — Matilde abanou a cabeça, desiludida com uma realidade que ainda permite que as mulheres agredidas se calem. — Não que lhe tivesse perguntado, mas as marcas eram suspeitas.
— És jornalista. A tua vida é fazer perguntas.
— Mas não estava em trabalho e isso poderia ser visto como uma invasão de privacidade. Ela poderia até sentir-se ofendida. Não me parece que fosse a melhor forma de lhe ser grata pelo que fizera por mim.
— Se isso pusesse fim às agressões…
— Não sabemos se ela é agredida, Leonardo. Estamos a especular. Só espero não vir a encontrar no futuro o rosto dela num daqueles artigos sobre mulheres assassinadas pelos maridos.
— Não penses nisso. — aconselhou ele. — Não podes fazer nada. Aliás, nesses casos só se pode ajudar. O primeiro passo tem de ser sempre da vítima.
— Sim, isso é verdade.
A viagem passou pelo Pinhal Novo e seguiu a direcção de Palmela até passarem sobre a A2, altura em que desceram para Setúbal. Cerca de trezentos metros mais à frente, em Aires, Leonardo entrou com o carro num parque de estacionamento.
O lugar ficava acima do nível da estrada. O parque servia os clientes de um restaurante com uma ementa de pratos que se dividia entre os italianos e os portugueses ou até alguns sul-americanos.
Matilde saiu do carro olhando para o edifício. Se não fossem as mesas da esplanada, ela não diria que existia um restaurante ali.
Leonardo subiu os três degraus que separavam o asfalto do pátio do restaurante. Caminharam lado a lado e entraram no salão amplo.
Os funcionários vestiam todos t-shirt e calças pretas, tendo uma indicação de “staff” nas costas. Um dos funcionários interpelou-os e Leonardo pediu uma mesa para dois. Este indicou-lhes uma junto à janela.
Assim que se sentaram, uma rapariga com sotaque brasileiro perguntou se eles queriam algum aperitivo ou entrada e entregou-lhes as ementas.
— Mais um sítio onde trazes as tuas amigas? — questionou Matilde sem tirar os olhos da ementa.
— Não. Vim cá uma vez e gostei. Achei que irias gostar também.
Matilde olhou em redor e disse:
— É um espaço agradável.
O interior tinha uma decoração moderna com várias mesas quadradas enfileiradas. Eram mesas que facilmente se juntavam e se podiam transformar em mesas de quatro, seis, oito ou dez pessoas. Ao fundo, um balcão grande servia de apoio aos funcionários. Nessa mesma parede, um plasma com imagens de um canal de desporto, as mesmas imagens que passavam no plasma colocado na parede oposta. Uma das paredes laterais separava a cozinha do salão, mas todos os clientes podiam ver os cozinheiros a preparar os pratos, o que dava uma sensação de qualidade e orgulho naquilo que serviam.
— Ficaste de me colocar a par das notícias. — recordou Matilde, logo após terem feito os pedidos a uma outra funcionária, também ela brasileira.
— Tens razão. Olha, a actualidade política continua o caos em que estava. Aliás, acho que estes políticos são tão burros que até para afundar o país se atrapalham. No futebol, o Porto está à beira de ganhar o campeonato outra vez.
— Poupa-me o futebol, Leonardo. — reclamou ela. — Nunca fui fã de desporto. Fala-me do país. Tem havido manifestações?
— Esta semana que estiveste fora houve uma no Ministério da Educação. Mas, sabes como é, quando as coisas se tornam vulgares perdem o interesse.
— E mais?
— A coligação do governo parecem dois barcos à deriva que, de vez em quando, chocam um com o outro. Mas, mesmo assim, ainda não se afundaram. O líder da oposição parece um fantoche, o Presidente da República vive como se não fosse nada com ele. Os pequenos partidos da oposição falam, falam, falam… Sabes como é.
— Preocupa-me o estado a que o país está a chegar. — constatou Matilde. — Olhamos para os governantes, temos a certeza que não prestam, mas as alternativas não parecem melhores.
— Continuo a achar que a alternativa devia vir de pessoas completamente à parte dos partidos. Pessoas inteligentes e com experiência de vida. Tu olhas para os políticos e parecem todos putos queques que andaram a estudar com o dinheiro dos pais e agora andam armados em gente crescida a brincar com as nossas vidas.
— Concordo contigo.
A funcionária que recebera os pedidos colocou os pratos sobre a mesa. Pizza Vegetariana para Matilde e Pizza Portuguesa para Leonardo.
— Todos os dias ouvimos notícias dos políticos que se aproveitaram da sua posição para ganhar dinheiro, os gastos da máquina do Estado, os cortes que prejudicam sempre os mesmos.
— Devíamos emigrar.
— Devíamos era afogá-los todos no Tejo.
Matilde arregalou os olhos, dizendo:
— Não te sabia assim tão violento.
— E não sou. Mas há coisas que me tiram do sério.
Nos minutos seguintes, Leonardo continuou a colocar Matilde a par das novidades, apoiando-se também naquilo que ia ouvindo no departamento de informação do canal onde trabalhava.
Tal como o almoço, a conversa fluiu com naturalidade e o tempo passou quase sem que dessem por isso. Não pediram sobremesa e finalizaram a refeição com um café. Leonardo recusou-se a partilhar a conta, pagando a totalidade.
— Nada de reclamar, Matilde! — exclamou ele, não a deixando protestar. — Estás nas minhas mãos, por isso, tens de fazer o que eu quero.
— Não abuses. — avisou ela, sorrindo.
— Foste tu que o disseste.
— Ai, ai… — lamentou com falsa preocupação e bem-humorada. — O que será que esta tarde me vai reservar?
No momento em que ele entregava o cartão de crédito para fazer o pagamento, o seu telemóvel apitou. Leonardo marcou o código e aguardou que a máquina fizesse a confirmação do pagamento e a funcionário lhe entregasse o talão. Quando esta se afastou, ele retirou o telemóvel do bolso.
Sem dizer nada, Matilde observou-o curiosa a tocar o ecrã do aparelho para abrir a mensagem.
Quando viu o nome do remetente, a expressão facial dele revelou algum contentamento. A mensagem era de Adriana: “Olá Leo! A estreia do meu bailado é na Sexta. Gostava que fosses ver. Vou deixar dois bilhetes para ti na bilheteira, caso queiras levar alguém. Beijinhos.”
O contentamento deu lugar à desilusão. Adriana continuava a evitá-lo. Numa situação normal, ela teria telefonado a convidá-lo a ir vê la dançar e a informar que lhe deixaria os bilhetes na bilheteira. No entanto, desta vez uma “fria” e distante mensagem por telemóvel serviria para fazer o convite.
Vendo-o calado a olhar para o ecrã, Matilde temeu uma má notícia e questionou:
— Está tudo bem?
Leonardo anuiu e sorriu-lhe, acabando por dizer:
— É a Adriana a avisar-me que o bailado dela estreia na Sexta. — Matilde não se manifestou. — Vai deixar-me bilhetes na entrada para eu ir assistir. — Matilde assentiu, desinteressada pela vida da bailarina. — Um bilhete duplo.
A última informação pretendia obter alguma reacção da jornalista, uma manifestação de interesse em acompanhá-lo. Matilde pareceu não entender e mais uma vez não se manifestou acerca do assunto.
— Queres vir comigo?
O convite surpreendeu-a. Sentiu uma vontade imediata de dizer que sim, mas travou a tempo de não parecer tão encantada como quem aceitaria acompanhá-lo ao fim do mundo.
— Não quero abusar da tua companhia. — continuou ele. — Compreendo se recusares. Mas, eu gostava muito que viesses comigo.
— Não sei como vai ser a minha semana de trabalho. Só lá para Quarta ou Quinta é que te saberei dizer. Se me for possível, irei contigo.
Leonardo e Matilde abandonaram o restaurante logo a seguir. Caminhando para o carro, ele perguntou:
— Conheces esta zona?
— Não muito. E o pouco que conheço, não me traz boas recordações. — disse ela, lembrando o episódio no bairro social em Setúbal.
— Vou levar-te a conhecer sítios bem bonitos. Sítios que te farão esquecer essa noite.
A viagem continuou para sul. Leonardo desviou nos semáforos seguintes, cortando alguns quilómetros no rumo para Setúbal. Ao passarem na entrada do bairro Quinta da Asseca, ele explicou a Matilde que era ali que viviam os idosos que foram assaltados pelo delinquente que morrera na perseguição policial e que despoletara os acontecimentos que eles acompanharam no bairro social.
A estrada contornava a área protegida montanhosa e verdejante até entrar num aglomerado de pequenas casas que mais à frente deram lugar a edifícios altos à entrada da cidade. Leonardo conhecia o caminho como a palma das suas mãos e conduziu pelas ruas setubalenses até se encontrar junto ao rio Sado. Desviou para oeste, seguindo a estrada na direcção a Serra da Arrábida.
A partir dali, o cenário que os envolvia estava recheado de mar e vegetação montanhosa. Mal saíram da zona urbana, começaram a surgir as praias.
Matilde observava encantada, fazendo comentários à beleza do local. Como era possível viver em Lisboa e não conhecer aqueles lugares?
A beleza do local foi temporariamente estragada na passagem pela cimenteira do Outão.
— Como é possível permitir-se a construção deste monstro aqui?
Leonardo encolheu os ombros.
Assim que essa parte feia ficou para trás, a paisagem era cada vez mais um tónico ao olhar. O mar muito azul e cristalino, Troia no lado de lá da foz do rio Sado, as praias amplas convidativas e as árvores pela encosta. A passagem pelos túneis na serra dava um toque de Cote d’Azur ao local.
A Primavera estava no início e eram poucos os carros parados na estrada. Leonardo explicou a Matilde que no Verão há tantos carros em ambas as bermas que o trânsito só circula num sentido, caso contrário seria impossível passar ali.
Alguns quilómetros mais à frente, Leonardo desviou para o Portinho da Arrábida. A estrada começou a descer e eles pararam num semáforo perto do pinhal.
— Um semáforo no meio do nada? — questionou Matilde.
— É para controlar o trânsito entre os que descem e os que sobem. Vais ver que na descida há zonas terríveis para os carros se cruzarem. Por isso, as subidas e descidas de carros são alternadas.
O Portinho da Arrábida é um lugar que em qualquer altura do ano está sempre com muitas pessoas. Seja para ver a paisagem, seja para comer num dos restaurantes junto ao mar ou pelas poucas pessoas que vivem por ali, é quase impossível encontrar um lugar para estacionar. A viagem passou por ali para que a jornalista visse o local de perto, mas a verdadeira vista da paisagem estaria guardada para outro sítio.
Aproveitando o semáforo verde, Leonardo subiu a encosta e voltou à estrada por onde vinha a circular desde Setúbal. O percurso continuava a subir, mas de forma mais ligeira e em alguns metros chegava mesmo a descer. A estrada terminou num entroncamento com a indicação de Sesimbra e Lisboa para a esquerda.
— Já vamos por ali. — disse ele, virando à direita.
Numa típica estrada de montanha, a viagem de carro continuou a subir com destino ao topo da serra. Matilde olhava pela janela, revelando um semblante encantado tão pouco comum nela. Era uma mulher que não gostava de revelar o que sentia, mas ali o seu espirito estava à vontade e deixou-se encantar pela realidade que a rodeava.
Ao fim de alguns quilómetros, Leonardo parou naquele que considerava ser o melhor miradouro da serra para de visualizar toda a zona balnear entre a praia da Figueirinha e o Portinho da Arrábida.
Todo o mar que envolvia a costa parecia um lençol do paraíso. Porém, junto ao Portinho, esse lençol de água tinha uma tonalidade tão lúcida e transparente que fazia lembrar as águas das paisagens paradisíacas das Caraíbas. Em frente ao areal, as pessoas divertiam-se na água. Mais longe, motas de água cruzavam o mar, longe dos banhistas que relaxavam a pedalar em gaivotas. A encosta verde escondia uma ou outra casa que, sabe-se lá porquê, conseguira escapar à proibição de ali estar. Lá em baixo, o Portinho da Arrábida era um pequeno aglomerado de casas, envolto em calma e sossego com os barcos ancorados espalhados pela costa.
— Isto é lindíssimo! — constatou ela, olhando para o mar infindável.
— Espero que te faça esquecer as más recordações.
— Fará certamente. Nunca pensei que existisse algo tão belo tão perto de Lisboa. — Virou-se para olhar Leonardo nos olhos. — Obrigado por me mostrares tudo isto.
Ele encolheu os ombros e sorriu, contente por ela gostar. No entanto, as lentes escuras não lhe permitiram ter a real noção do olhar encantado dela.
— Leonardo! Podes tirar uma foto comigo? — pediu ela, retirando o telemóvel da mala.
— Não está aqui ninguém para nos tirar a foto. — constatou ele.
Curiosamente, naquele momento, eles eram as únicas pessoas no miradouro.
— Não faz mal. — disse ela, colocando-se à frente dele com a paisagem marítima atrás de ambos. Puxou os óculos para o cimo da cabeça, encostou-se ao peito dele e esticou o braço com o telemóvel na mão. — Sorri!
O aparelho fez um som estranho e ela virou o ecrã para si. Passou o indicador pelo vidro e ficou satisfeita com o resultado da fotografia.
Regressados ao interior do automóvel, Leonardo fez inversão de marcha e regressou ao cruzamento anterior, tomando o rumo de Sesimbra.
— Quero levar-te a um lugar que gosto muito e onde paro algumas vezes.
— Sesimbra?
— Não. Vamos passar por lá só para conheceres.
A viagem pela serra foi desembocar a Azeitão.
O Sol estava em trajectória descendente e o receio de que o ambiente se tornasse demasiado escuro para o local que ele queria mostrar-lhe fez com que Leonardo optasse por passar pela Praia dos Pescadores em Sesimbra só para mostrar e sem parar.
Matilde também adorou o local. Aliás, seria difícil encontrar um pormenor que ela não gostasse.
Sesimbra ficou para trás e a linha de alcatrão voltou a subir pela zona montanhosa. Matilde viu-se a passar por localidade atrás de localidade, reconhecendo alguns nomes por os ter ouvido a outras pessoas como Alfarim ou Meco.
Ao passarem pelo desvio com a indicação de Cabo Espichel, a estrada transformou-se numa linha de asfalto que parecia ter sido fustigada por um bombardeamento, tal era a quantidade de buracos.
As casas desapareceram das bermas da estrada, ficando apenas uma espécie de planalto que terminava no famoso cabo. À esquerda, algo distante, o farol girava a sua luz cada vez mais potente com o enfraquecer do Sol.
Leonardo estacionou perto dos carros ali parados. Os vendedores ambulantes já começavam a levantar as bancas e a arrumar as coisas dentro das carrinhas ali ao lado. Viam-se mais pessoas a regressar do cabo que a ir para lá.
Ao saírem do automóvel, o vento fustigou-os com violência. Havia pouca protecção das rajadas e este só diminuiu quando a sua caminhada entrou na antiga zona de mercadores que envolvia um enorme pátio frontal à igreja edificada bem perto da falésia. Passaram por uma arcada que ligava a igreja ao edifício abandonado que servia de abrigo aos mercadores e enfrentaram o vento forte de fim de tarde com o Sol a encará-los bem de frente, mas cada vez com menos força.
— Alguma vez tinhas vindo ao Cabo Espichel?
— Não. Só conhecia de nome e uma ou outra foto que vi.
A passada de ambos findou a escassos cinco metros da beira do penhasco. Lado a lado, observaram o mar interminável, uma pequena parcela do Oceano Atlântico.
— Gosto de vir até aqui. Ficar a observar o mar, a encosta. Pensar na vida.
— Isto é tão bonito quanto medonho. — confessou Matilde, receosa com a vista lá para baixo. — Um passo em falso e adeus vida.
Leonardo agarrou-lhe a mão.
— Não te preocupes, eu seguro-te!
Matilde a apertou a mão dele e sorriu.
— Se eu escorregar, podes largar-me Leonardo. — sugeriu na brincadeira.
— Ou segurar-te. Penso que seria a decisão mais lógica.
— Não, se isso te fizesse cair comigo.
— Pelo menos tinha companhia na viagem para o Céu.
— Não penses nisso, eu devo ter bilhete confirmado para o Inferno.
— Então, será melhor largar-te, Matilde. — concluiu ele com humor.
Ela deu-lhe uma palmada no braço e ambos sorriram com prazer.
O ambiente tornou-se mais escuro e o vento mais forte. Estava a anoitecer e já quase ninguém permanecia por ali. Matilde e Leonardo regressaram ao carro.
— Queres jantar comigo? — convidou ele, conduzindo de regresso à estrada principal.
— Obrigado, Leonardo. Mas quero estar em casa cedo. Amanhã é o primeiro dia na estação e quero descansar bem esta noite.
— Tudo bem, jantamos na Sexta, se puderes vir comigo ao bailado.
A viagem até ao Montijo não teve grandes diálogos entre eles. Ambos sentiam o aproximar do fim daquele dia tão agradável e o silêncio fora o resultado desse sentimento. Uma vez por outra havia um comentário sobre algo que passava no rádio e só no bloco de notícias é que trocaram mais opiniões acerca do que ouviam.
No Caís do Seixalinho, a noite já caíra quando eles entraram no edifício de acesso aos barcos. Leonardo acompanhou-a até aos torniquetes de acesso à sala de embarque, onde apenas uma senhora aguardava para embarcar.
— O barco parte daqui a dez minutos. — disse ela, olhando para a indicação da hora de partida. — Se tiveres que ir andando…
— Não, eu espero.
— Leonardo, obrigado por este dia. Adorei!
— Ainda bem.
— A sério, do fundo do meu coração, adorei mesmo.
— Havemos de repetir mais dias assim. Se quiseres, claro.
Matilde abriu o sorriso e nem precisou de responder para que ele soubesse que a ideia a cativava.
Junto aos torniquetes, eles ficaram frente a frente a olhar-se nos olhos. Estavam tão próximos que só uma folha de papel poderia passar entre eles. Não disseram nada, pois não sabiam o que dizer. Matilde olhava-o a desejar que ele lhe tentasse roubar um beijo. Leonardo olhava a com vontade de a beijar.
Apesar de muito ténue, houve um movimento de aproximação dos seus rostos. Ia acontecer no exacto instante em que as portas de embarque se abriram.
Matilde desviou o olhar e disse:
— Tenho de ir.
Leonardo deu um passo atrás, procurando disfarçar o que quase revelara ter intenções de fazer.
Num impulso, Matilde deu-lhe um beijo no rosto e atravessou os torniquetes, passando o bilhete pelo leitor.
Ele mal conseguira retribuir o beijo. Ficou a vê-la afastar-se pela rampa, acenando-lhe todas as vezes que ela se virou para trás para lhe acenar. E não foram poucas.
Sozinho, Leonardo aguardou pela partida do barco quando ela desapareceu no interior. Em menos de dois minutos, o piloto fez ecoar a buzina ruidosa e a embarcação começou a afastar-se.
Nem cinco minutos haviam passado desde que Matilde o deixara e já sentia uma saudade que lhe parecia queimar o estomago.
Quando ia a entrar no carro, o seu telemóvel apitou. Leonardo leu a mensagem que Matilde acabara de enviar: “Adorei estar contigo!”
Sorrindo para o aparelho, ele sentou-se no lugar do condutor e escreveu: “Eu também. Cada vez gosto mais da tua companhia.”
Logo que enviou, ligou a ignição e conduziu pela estrada escura rumo a casa. A meio do caminho, o telemóvel voltou a apitar. Logo que estacionou o veículo à porta do prédio, voltou a pegar no telemóvel. Matilde retribuíra com um sorriso e igual confissão.
Entrando no prédio, Leonardo escreveu: “Tive vontade de te beijar.”
No entanto, pareceu-lhe que demasiada honestidade poderia ter um resultado negativo. Por isso, emendou para “Tive vontade de te abraçar.” E enviou.
Já dentro de casa, esperou alguns instantes pela resposta. Como ela não chegou, ele pensou que Matilde preferira dar por terminado o diálogo. Seguiu para a cozinha para procurar algo para jantar.
O telemóvel ecoou pelo apartamento. Nova mensagem.
“Porque não o fizeste?”
No barco, Matilde optara novamente por se sentar na primeira fila. Só que à noite, a única paisagem são os pontinhos luminosos da capital a aproximar-se. No entanto, a paisagem pouco importava a quem só tinha olhos para as mensagens. O toque seguinte trouxe um: “Achei que não ias gostar.”
Carregando nas letras com mestria, escreveu: “A Matilde Leão jornalista não ia gostar, mas a Matilde tua amiga teria gostado desse abraço.”
Aguardou a resposta, vendo as linhas de luz a subir e a descer ao ritmo do barco. Ela não veio. Já bem perto de Lisboa, Matilde decidiu escrever novamente. “Pensei que me fosses beijar” foi a primeira coisa que escreveu. Porém, arrependeu-se, pois isso iria certamente provocar uma resposta tipo “terias gostado que o tivesse feito?” e ela ainda não se sentia confiante a assumir que sim. Sendo assim, alterou para: “Sei que sou fria e distante, mas contigo sou diferente. Não tenhas problemas em ceder aos teus impulsos comigo.”
No apartamento do Montijo, Leonardo olhava para o ecrã do telemóvel sentado no sofá a petiscar batatas fritas e croquetes da noite anterior. Ainda não soubera o que responder à primeira, já Matilde lhe enviava uma segunda mensagem. E esta segunda surpreendera-o ainda mais.
“Não quero pisar nenhuma linha, nem ultrapassar limites que prejudiquem a nossa amizade”, foi o que conseguiu escrever ao fim de alguns minutos.
Matilde encontrou uma estação fluvial deserta, ao desembarcar. Nem a pessoa que entrara com ela no barco voltara a aparecer. Lá fora, o parque estava deserto e escuro somente com o carro dela. Continuou a caminhar, mas a sua passada abrandou ao reparar num indivíduo de ar suspeito encostado a um candeeiro na rua a olhar para ela. Sentiu um arrepio de medo percorrer-lhe a espinha. Olhou em volta, à procura de um segurança ou um polícia a quem pudesse pedir escolta até ao carro. Ninguém.
A feroz Matilde Leão preparou-se para o pior, mesmo que todo o corpo tremesse. Se ele se afastasse do candeeiro, ela correria pela estação.
O som de uma porta a bater chamou a sua atenção. Esperava que o seu olhar encontrasse o segurança. Contudo, o som fora a porta dos lavabos a bater. Uma rapariga de vinte e poucos anos, desfilou por ela rumo à saída, ignorando-a, orgulhosa do corpo escultural num vestido justo e saia muito curta.
Não seria certamente pessoa a quem pudesse pedir ajuda.
Nesse instante, o seu telemóvel apitou. Matilde pegou-lhe com as mãos a tremer e leu a mensagem de Leonardo. Nem tomou consciência do sentido das palavras e ponderou se haveria de lhe telefonar a pedir ajuda. Porém, ao voltar a levantar o olhar para a rua, o homem desaparecera.
Muito receosa, Matilde caminhou para o exterior, procurando o indivíduo com medo que ele pudesse estar escondido. Espreitou pelos vidros das portas e não o viu. Saiu da estação e correu até ao carro. Abriu a porta, entrou a toda a velocidade, fechou a porta e trancou-se.
Recuperando o ritmo calmo da respiração, ela ligou o carro sempre com o olhar à procura que o estranho lhe surgisse no campo de visão. Nunca mais o viu.
Mais calma, iniciou a marcha do carro para regressar a casa.
O trajecto de cerca de meia hora serviu para a acalmar. E quando estacionou o seu automóvel na rua onde vivia, aquele episódio começava a dissipar-se.
Ao largar a mala na sala, Matilde lembrou-se que com aquele momento de tensão nem respondera à última mensagem que recebera. Por isso, voltou a retirar o aparelho do interior da mala e enviou a sua última mensagem da noite: “Cheguei agora a casa. Não seria um abraço que te faria pisar o risco. Não sei o que nos pode fazer passar algum limite que prejudique a amizade. Se acontecer, descobriremos juntos. E resolveremos juntos. Adorei estar contigo! Beijinhos.”
O despertar nunca era muito cedo, mas também não demasiado tarde, fazendo-a abandonar a cama a meio da manhã.
Tirando os dois primeiros dias, nunca saiu do hotel, uma vez que a última em que o fizera fora para devolver o carregador do telemóvel à jovem alentejana simpática que vivia e trabalhava em Beja.
Ao sair da cama, abria os cortinados grossos e mantinha as cortinas finas corridas, não fosse alguém passar em frente às janelas do seu quarto térreo. Largava a camisa de dormir sobre o colchão e ia tomar um duche morno que terminava sempre com água fria para espevitar a circulação e a deixar com os sentidos bem despertos. Era um hábito que vinha da adolescência e que nunca perdera.
Após o banho, enrolava o cabelo molhado numa toalha pequena e secava o corpo com outra mais comprida. A seguir, circulava pelo quarto nua até ficar em frente ao alto espelho preso na parede para se observar e confirmar que o seu corpo permanecia em forma.
O hotel tinha indicações para nunca fazerem a arrumação do seu quarto antes do meio-dia, altura em que Matilde saía de lá para se sentar numa das cadeiras junto à piscina a ler um livro e apanhar alguns raios solares. Nunca fora para lá em biquíni, preferindo uma roupa simples, tipo fato de treino muito feminino, até porque a temperatura não era muito alta.
Apesar das nuvens constantes no céu, o Sol foi sempre rompendo e o ambiente nunca trouxe chuva nem vento que tornasse a sua permanência ali desagradável.
A leitura era interrompida alguns minutos quando Matilde pedia ao funcionário do bar da piscina que lhe trouxesse uma sandes e um sumo, o seu almoço diário.
A época do ano e os dias de semana eram responsáveis pela fraca presença de hóspedes, algo que ela saberia que iria mudar no dia seguinte, Sábado, daí que tivesse planeado a sua partida para essa altura. Fora um tempo para relaxar e descansar, pelo que o aumento de hóspedes iria quebrar isso.
A permanência pela piscina exterior prolongava-se mais uma hora ou duas, momento em que regressava ao quarto para deixar o livro e voltava ao exterior para um passeio solitário tranquilo pela propriedade do hotel.
Quase sempre esses passeios serviam para se perder em pensamentos, ora fosse no planeamento do seu futuro profissional neste novo desafio, ora a recordar as conversas com Leonardo ao telefone à noite. E nestes poucos dias de férias, não houve uma noite em que ele não lhe telefonasse quando chegava a casa.
Matilde nunca assumiria isso a ninguém, até mesmo a ela era difícil, mas sentia um turbilhão de emoções ao pensar nele. Tentava justificar-se com as mais variadas razões para aquilo estar a acontecer, recusando a hipótese de que ele mexia com o seu coração.
A meio da tarde, após o passeio, a jornalista voltava novamente ao quarto para trocar de roupa e sair para mais uma sessão no SPA do hotel.
Aquela hora e meia que diariamente lá passava incluía uma massagem relaxante por todo o corpo, executada por uma funcionária do hotel, e umas braçadas na piscina interior de água aquecida. Matilde regressava sempre com a sensação que lhe haviam tirado muitos quilos de cima dos ombros.
O jantar acontecia para si entre as oito e as oito e meia da noite. Por norma, a ementa anunciava um buffet onde se poderia escolher entre dois pratos principais.
Matilde entrou no restaurante do hotel e o empregado, após a informação do número do quarto, indicou-lhe uma mesa das muitas vagas pelo salão.
— O que deseja beber? — perguntou ele, quando ela se instalou.
O sumo de laranja natural foi a sua escolha.
Logo que deixou a chave sobre a mesa, dirigiu-se às mesas com comida para se servir. Não tirou muito, pois não tinha muita fome.
A refeição foi feita num ambiente tranquilo e silencioso, onde mal se ouviam os funcionários ou a meia dúzia de hóspedes que também jantavam por ali. Não se serviu da gigantesca oferta de sobremesas e terminou com um café.
A noite caíra por completo. Ela saiu do edifício do restaurante e caminhou lentamente até ao edifício dos quartos, saboreando o som relaxante dos grilos.
Matilde entrou no quarto, acendeu a luz e trancou a porta. Foi até à janela e correu os cortinados grossos para que nada invadisse a sua privacidade. Puxou o cobertor e o lençol para abrir a cama e despiu-se para trocar a roupa com que fora jantar pela camisa de dormir.
Deitou-se na cama, colocou o telemóvel a seu lado e ligou a televisão para mudar de canal indiscriminadamente, passando o tempo até o telemóvel tocar.
Leonardo ligou meia hora depois.
— Olá Leonardo! — atendeu ela com doçura.
— Olá Matilde! — retribuiu ele, revelando algum cansaço na voz. — Desculpa, hoje estou a ligar mais tarde.
— Não faz mal.
— Tivemos um dia complicadíssimo em filmagens no Parlamento. Os nossos políticos continuam… Sei lá, como é que eles continuam. Só cheguei a casa agora. E estava a ver que só vinha de madrugada.
— Eu tenho andado tão alheada da realidade que nem vejo as notícias. Quando regressar a Lisboa devo parecer uma bimba ignorante.
O tom cansado de Leonardo deu lugar a algo parecido com sedução:
— Podemos jantar e eu ponho-te a par das notícias todas desta semana.
— Parece-me bem. — concordou Matilde.
— Não estás triste por as férias estarem a acabar?
— Não diria triste. Estar assim a relaxar é bom, mas não sou pessoa de querer isto para o resto da vida. Já sinto alguma falta da confusão de Lisboa, do stress do jornalismo. Isto para não falar da ansiedade de ir começar num emprego novo.
— Fico feliz por saber que vais para melhor. Só lamento já não fazermos equipa.
— Não lamentes! Eu não lamento. — A afirmação deixou Leonardo com a impressão de que ela o estava a afastar. Porém, o seguimento das palavras dela revelou o contrário. — Assim, quando estivermos juntos será por gostarmos da companhia um do outro e não por obrigação profissional.
— Sim. Concordo contigo. Por falar nisso, gostava de te ver quando voltasses.
— Isso é saudades? — questionou Matilde, deliciada.
— Pode dizer-se que sim. Não tens?
— Minhas? Não. Estou sempre comigo. — Leonardo protestou pela brincadeira dela. Mais séria, Matilde informou. — Eu regresso amanhã.
— E queres jantar amanhã?
— Ligo-te quando chegar. Pode ser?
— Claro.
Matilde deixou o hotel ao fim da manhã de Sábado. Almoçou qualquer coisa numa estação de serviço da A2 e chegou ao seu apartamento em Lisboa a meio da tarde. A viagem e a arrumação da bagagem deixaram-lhe um cansaço que a deixou convicta de que não seria boa companhia para um jantar nessa noite. Por isso, quando ligou a Leonardo a informar que já estava em casa, Matilde recusou o convite para o jantar com a contraproposta de passarem o Domingo juntos. Leonardo aceitou.
O Domingo estava solarengo e primaveril em ambas as margens do rio Tejo. Matilde saiu do seu apartamento a meio da manhã e conduziu o carro até ao Cais do Sodré. A jornalista combinara encontrar-se com Leonardo na margem sul do rio, no Cais do Seixalinho perto do Montijo.
Os planos traçados para aquele Domingo incluíam um passeio pela península de Setúbal, sugestão dele. Por isso, estar a levar o carro para a outra margem tornou-se despropositado, uma vez que ele a poderia ir buscar, se ela viesse de barco.
O carro de Matilde ficou estacionado no parque de estacionamento reservado aos utentes da Transtejo, mesmo entre a estação fluvial e a estação ferroviária. Não havia muitos carros por ali e o maior fluxo de pessoas acontecia mais para os comboios que para os barcos.
Matilde caminhou imponente para o interior da estação, rumo à bilheteira. Envergava calças de ganga azuis e casaco de malha sobre uma blusa, ambos em tons lilases. Sempre elegante, mas sem se preocupar em ser atraente ou sensual. O cabelo louro estava solto e o rosto escondia-se atrás de duas enormes lentes escuras.
Na bilheteira comprou as duas viagens, uma de ida e outra de volta. A senhora que lhas vendeu avisou que o barco partiria dentro de quinze minutos. Sempre com o seu ar altivo, ela afastou-se e caminhou segura para a sala de embarque, passando o primeiro bilhete pelo leitor de código e entrando no espaço reservado aos passageiros.
Para além dela, apenas mais quatro pessoas. Até ao momento de embarque, entraram mais seis. Matilde sentou-se num dos bancos rijos e ficou a olhar a ondulação do rio. Aos seus ouvidos chegava o som ritmado da água a embater no cais e no barco que a transportaria. Porém, a sua mente estava longe, a pensar no amigo e a constatar como se sentia ansiosa por aquele encontro.
Cinco minutos antes da hora prevista para a partida, as portas de acesso à rampa de embarque abriram. As pessoas levantaram-se dos seus lugares e caminharam tranquilamente para o barco. Matilde fez o mesmo, dando passadas cuidadosas, pois os saltos altos dos sapatos não gostavam muito do piso da rampa e ela teve receio de torcer um pé. Por fim, escalou a pequena rampa que ligava o barco ao cais e seguiu para um dos lugares da primeira fila para fazer a viagem a ver a paisagem.
Leonardo deu por si a encarar a manhã de Domingo com uma ansiedade pouco normal em si. Tinha encontro combinado com Matilde, alguém que odiara quando conhecera, mas que começara a apreciar quando ela lhe deu a conhecer um ser humano bem diferente. Gostava da companhia dela e aquela semana em que não a vira deixara-lhe uma saudade e uma ansiedade que lhe provocaram um friozinho no estomago.
Sorriu ao ver o Sol pela janela, o que deixava a adivinhar que iam ter bom tempo para o passeio que haviam previsto.
Ao sair do banho, vestiu-se ao estilo diário, quase como se fosse para uma reportagem. No momento em que duas bolachas lhe serviram de pequeno-almoço, o seu telemóvel apitou uma mensagem de Matilde a informar a hora a que chegaria ao seu lado do rio.
Atravessar o rio Tejo num barco estilo catamaran numa manhã de Domingo com Sol é uma experiência que todas as pessoas deveriam ter, nem que fosse só uma vez. Mesmo aquelas que fazem essa viagem diariamente embrulhadas na azáfama de centenas a caminho dos seus empregos deveriam experimentar aquela versão.
Os olhos de Matilde contemplaram o azul da água, o brilho da paisagem meio urbana, meio rural a aproximar-se. O embalar ténue da embarcação era quase imperceptivel, tal era a calmaria do rio. À sua esquerda, o longo tabuleiro da ponte Vasco da Gama era uma linha fina no horizonte, onde alguns pontos de moviam nos dois sentidos. À direita, bem mais longe, a ponte 25 de Abril parecia ter uma cor grená mais acentuada, fruto do Sol a reflectir-se nela. Atrás de si, Lisboa antiga ribeirinha afastava-se com a mesma suavidade do navegar do barco.
Leonardo, que vivia numa das zonas mais recentes do Montijo, contornou a cidade para rumar à zona mais antiga. Tal como muitas cidades e vilas ribeirinhas, o Montijo crescera das margens do rio para o interior.
Aquela circular exterior levou-o a um entroncamento em que para a direita iria para o Samouco e para a esquerda seguiria para o centro do Montijo. Optou pela esquerda, pois uns quinhentos metros mais à frente teria um desvio com a indicação do caís. Circulou por uma estrada que tinha poucas casas e alguns edifícios industriais. Essa estrada terminava num novo entroncamento. Leonardo voltou a virar à esquerda e entrou no enorme parque de estacionamento do Caís do Seixalinho.
Claro que a um Domingo, os lugares ocupados por carros contam-se pelos dedos das mãos. Porém, num normal dia da semana, aquele lugar estaria repleto de automóveis.
Leonardo estacionou o mais próximo que conseguiu do edifício e caminhou até à zona de desembarque sentindo algum nervosismo. Por vezes, quase preferia voltar a ter aquela relação de irritação e tolerância profissional que tinha com ela. Só que era um momento muito rápido, pois era bem melhor lidar com aquela Matilde.
Junto aos torniquetes da sala de embarque/desembarque, Leonardo viu a embarcação a aproximar-se. O grande barco branco e azul iniciou um complexo grupo de manobras para atracar no cais. Logo que esses movimentos foram concluídos, os tripulantes abriram as portas e dois homens no caís empurraram as rampas para os passageiros descerem.
Só quando o barco se imobilizou completamente é que Matilde se levantou do seu lugar. Já quase todos os passageiros tinham saído. Caminhou elegante e altiva como se nada existisse à sua volta e desembarcou com cuidado, atenta ao facto de que os seus sapatos não tinham sido planeados para aqueles pisos.
Pelo vidro que separava a sala do átrio exterior, Leonardo reconheceu Matilde imediatamente. Reparou na pose típica da feroz Matilde Leão, ignorando as pessoas e de rosto fechado. Entrou na sala e puxou os óculos para o cimo da cabeça, procurando Leonardo. Ao vê-lo, o seu rosto ofereceu-lhe um sorriso luminoso.
Leonardo esperou-a após os torniquetes que ela atravessou para sair. Aproximou-se dele e cumprimentaram-se com dois beijos meio tímidos na face.
— Olá Leonardo!
— Olá Matilde!
— A viagem correu bem?
— O barco não se afundou pelo caminho. — constatou ela com humor. — Por isso sim.
— Mas foi boa?
— Sim, claro. A paisagem é maravilhosa.
Durante três ou quatro segundos ficaram a olhar-se. Para eles pareceram horas sem saber o que dizer e desejando que o outro falasse.
— É bom voltar a ver-te. — confessou Matilde.
— Faço minhas, as tuas palavras.
— Bom… — continuou ela. — Estamos na tua terra, por isso, estou nas tuas mãos.
Leonardo sorriu e convidou-a a acompanhá-lo até ao carro.
A viagem de automóvel levou-os pela estrada nacional rumo a sul. Durante o percurso, Matilde relatou os seus dias de férias. Alguns relatos, ele já conhecia dos telefonemas partilhados por ambos à noite, mas vinham sempre como introdução a momentos que ela passara, como por exemplo o dia em que fora devolver o carregador à jovem simpática que lho emprestara.
— Tu estás muito diferente. — constatou ele com os olhos na estrada. — A despertar simpatia nas pessoas ao ponto de te ajudarem.
— Acho que ela me reconheceu. — contrapôs Matilde, recusando a mudança de postura.
— Ajudar vedetas fica sempre bem.
— Não sou nenhuma vedeta, Leonardo.
— És um rosto conhecido. E isso já te eleva acima do comum dos mortais.
— Não exageres. — reclamou ela, sorrindo. O seguimento fê-la perder o sorriso. — Não cheguei a comentar contigo ao telefone, mas quando lá fui devolver o carregador, notei que ela tinha um hematoma no rosto.
— Uma porta de armário da cozinha? — sugeriu ele com ironia.
— Sim, a comum desculpa das mulheres vítimas de violência doméstica. — Matilde abanou a cabeça, desiludida com uma realidade que ainda permite que as mulheres agredidas se calem. — Não que lhe tivesse perguntado, mas as marcas eram suspeitas.
— És jornalista. A tua vida é fazer perguntas.
— Mas não estava em trabalho e isso poderia ser visto como uma invasão de privacidade. Ela poderia até sentir-se ofendida. Não me parece que fosse a melhor forma de lhe ser grata pelo que fizera por mim.
— Se isso pusesse fim às agressões…
— Não sabemos se ela é agredida, Leonardo. Estamos a especular. Só espero não vir a encontrar no futuro o rosto dela num daqueles artigos sobre mulheres assassinadas pelos maridos.
— Não penses nisso. — aconselhou ele. — Não podes fazer nada. Aliás, nesses casos só se pode ajudar. O primeiro passo tem de ser sempre da vítima.
— Sim, isso é verdade.
A viagem passou pelo Pinhal Novo e seguiu a direcção de Palmela até passarem sobre a A2, altura em que desceram para Setúbal. Cerca de trezentos metros mais à frente, em Aires, Leonardo entrou com o carro num parque de estacionamento.
O lugar ficava acima do nível da estrada. O parque servia os clientes de um restaurante com uma ementa de pratos que se dividia entre os italianos e os portugueses ou até alguns sul-americanos.
Matilde saiu do carro olhando para o edifício. Se não fossem as mesas da esplanada, ela não diria que existia um restaurante ali.
Leonardo subiu os três degraus que separavam o asfalto do pátio do restaurante. Caminharam lado a lado e entraram no salão amplo.
Os funcionários vestiam todos t-shirt e calças pretas, tendo uma indicação de “staff” nas costas. Um dos funcionários interpelou-os e Leonardo pediu uma mesa para dois. Este indicou-lhes uma junto à janela.
Assim que se sentaram, uma rapariga com sotaque brasileiro perguntou se eles queriam algum aperitivo ou entrada e entregou-lhes as ementas.
— Mais um sítio onde trazes as tuas amigas? — questionou Matilde sem tirar os olhos da ementa.
— Não. Vim cá uma vez e gostei. Achei que irias gostar também.
Matilde olhou em redor e disse:
— É um espaço agradável.
O interior tinha uma decoração moderna com várias mesas quadradas enfileiradas. Eram mesas que facilmente se juntavam e se podiam transformar em mesas de quatro, seis, oito ou dez pessoas. Ao fundo, um balcão grande servia de apoio aos funcionários. Nessa mesma parede, um plasma com imagens de um canal de desporto, as mesmas imagens que passavam no plasma colocado na parede oposta. Uma das paredes laterais separava a cozinha do salão, mas todos os clientes podiam ver os cozinheiros a preparar os pratos, o que dava uma sensação de qualidade e orgulho naquilo que serviam.
— Ficaste de me colocar a par das notícias. — recordou Matilde, logo após terem feito os pedidos a uma outra funcionária, também ela brasileira.
— Tens razão. Olha, a actualidade política continua o caos em que estava. Aliás, acho que estes políticos são tão burros que até para afundar o país se atrapalham. No futebol, o Porto está à beira de ganhar o campeonato outra vez.
— Poupa-me o futebol, Leonardo. — reclamou ela. — Nunca fui fã de desporto. Fala-me do país. Tem havido manifestações?
— Esta semana que estiveste fora houve uma no Ministério da Educação. Mas, sabes como é, quando as coisas se tornam vulgares perdem o interesse.
— E mais?
— A coligação do governo parecem dois barcos à deriva que, de vez em quando, chocam um com o outro. Mas, mesmo assim, ainda não se afundaram. O líder da oposição parece um fantoche, o Presidente da República vive como se não fosse nada com ele. Os pequenos partidos da oposição falam, falam, falam… Sabes como é.
— Preocupa-me o estado a que o país está a chegar. — constatou Matilde. — Olhamos para os governantes, temos a certeza que não prestam, mas as alternativas não parecem melhores.
— Continuo a achar que a alternativa devia vir de pessoas completamente à parte dos partidos. Pessoas inteligentes e com experiência de vida. Tu olhas para os políticos e parecem todos putos queques que andaram a estudar com o dinheiro dos pais e agora andam armados em gente crescida a brincar com as nossas vidas.
— Concordo contigo.
A funcionária que recebera os pedidos colocou os pratos sobre a mesa. Pizza Vegetariana para Matilde e Pizza Portuguesa para Leonardo.
— Todos os dias ouvimos notícias dos políticos que se aproveitaram da sua posição para ganhar dinheiro, os gastos da máquina do Estado, os cortes que prejudicam sempre os mesmos.
— Devíamos emigrar.
— Devíamos era afogá-los todos no Tejo.
Matilde arregalou os olhos, dizendo:
— Não te sabia assim tão violento.
— E não sou. Mas há coisas que me tiram do sério.
Nos minutos seguintes, Leonardo continuou a colocar Matilde a par das novidades, apoiando-se também naquilo que ia ouvindo no departamento de informação do canal onde trabalhava.
Tal como o almoço, a conversa fluiu com naturalidade e o tempo passou quase sem que dessem por isso. Não pediram sobremesa e finalizaram a refeição com um café. Leonardo recusou-se a partilhar a conta, pagando a totalidade.
— Nada de reclamar, Matilde! — exclamou ele, não a deixando protestar. — Estás nas minhas mãos, por isso, tens de fazer o que eu quero.
— Não abuses. — avisou ela, sorrindo.
— Foste tu que o disseste.
— Ai, ai… — lamentou com falsa preocupação e bem-humorada. — O que será que esta tarde me vai reservar?
No momento em que ele entregava o cartão de crédito para fazer o pagamento, o seu telemóvel apitou. Leonardo marcou o código e aguardou que a máquina fizesse a confirmação do pagamento e a funcionário lhe entregasse o talão. Quando esta se afastou, ele retirou o telemóvel do bolso.
Sem dizer nada, Matilde observou-o curiosa a tocar o ecrã do aparelho para abrir a mensagem.
Quando viu o nome do remetente, a expressão facial dele revelou algum contentamento. A mensagem era de Adriana: “Olá Leo! A estreia do meu bailado é na Sexta. Gostava que fosses ver. Vou deixar dois bilhetes para ti na bilheteira, caso queiras levar alguém. Beijinhos.”
O contentamento deu lugar à desilusão. Adriana continuava a evitá-lo. Numa situação normal, ela teria telefonado a convidá-lo a ir vê la dançar e a informar que lhe deixaria os bilhetes na bilheteira. No entanto, desta vez uma “fria” e distante mensagem por telemóvel serviria para fazer o convite.
Vendo-o calado a olhar para o ecrã, Matilde temeu uma má notícia e questionou:
— Está tudo bem?
Leonardo anuiu e sorriu-lhe, acabando por dizer:
— É a Adriana a avisar-me que o bailado dela estreia na Sexta. — Matilde não se manifestou. — Vai deixar-me bilhetes na entrada para eu ir assistir. — Matilde assentiu, desinteressada pela vida da bailarina. — Um bilhete duplo.
A última informação pretendia obter alguma reacção da jornalista, uma manifestação de interesse em acompanhá-lo. Matilde pareceu não entender e mais uma vez não se manifestou acerca do assunto.
— Queres vir comigo?
O convite surpreendeu-a. Sentiu uma vontade imediata de dizer que sim, mas travou a tempo de não parecer tão encantada como quem aceitaria acompanhá-lo ao fim do mundo.
— Não quero abusar da tua companhia. — continuou ele. — Compreendo se recusares. Mas, eu gostava muito que viesses comigo.
— Não sei como vai ser a minha semana de trabalho. Só lá para Quarta ou Quinta é que te saberei dizer. Se me for possível, irei contigo.
Leonardo e Matilde abandonaram o restaurante logo a seguir. Caminhando para o carro, ele perguntou:
— Conheces esta zona?
— Não muito. E o pouco que conheço, não me traz boas recordações. — disse ela, lembrando o episódio no bairro social em Setúbal.
— Vou levar-te a conhecer sítios bem bonitos. Sítios que te farão esquecer essa noite.
A viagem continuou para sul. Leonardo desviou nos semáforos seguintes, cortando alguns quilómetros no rumo para Setúbal. Ao passarem na entrada do bairro Quinta da Asseca, ele explicou a Matilde que era ali que viviam os idosos que foram assaltados pelo delinquente que morrera na perseguição policial e que despoletara os acontecimentos que eles acompanharam no bairro social.
A estrada contornava a área protegida montanhosa e verdejante até entrar num aglomerado de pequenas casas que mais à frente deram lugar a edifícios altos à entrada da cidade. Leonardo conhecia o caminho como a palma das suas mãos e conduziu pelas ruas setubalenses até se encontrar junto ao rio Sado. Desviou para oeste, seguindo a estrada na direcção a Serra da Arrábida.
A partir dali, o cenário que os envolvia estava recheado de mar e vegetação montanhosa. Mal saíram da zona urbana, começaram a surgir as praias.
Matilde observava encantada, fazendo comentários à beleza do local. Como era possível viver em Lisboa e não conhecer aqueles lugares?
A beleza do local foi temporariamente estragada na passagem pela cimenteira do Outão.
— Como é possível permitir-se a construção deste monstro aqui?
Leonardo encolheu os ombros.
Assim que essa parte feia ficou para trás, a paisagem era cada vez mais um tónico ao olhar. O mar muito azul e cristalino, Troia no lado de lá da foz do rio Sado, as praias amplas convidativas e as árvores pela encosta. A passagem pelos túneis na serra dava um toque de Cote d’Azur ao local.
A Primavera estava no início e eram poucos os carros parados na estrada. Leonardo explicou a Matilde que no Verão há tantos carros em ambas as bermas que o trânsito só circula num sentido, caso contrário seria impossível passar ali.
Alguns quilómetros mais à frente, Leonardo desviou para o Portinho da Arrábida. A estrada começou a descer e eles pararam num semáforo perto do pinhal.
— Um semáforo no meio do nada? — questionou Matilde.
— É para controlar o trânsito entre os que descem e os que sobem. Vais ver que na descida há zonas terríveis para os carros se cruzarem. Por isso, as subidas e descidas de carros são alternadas.
O Portinho da Arrábida é um lugar que em qualquer altura do ano está sempre com muitas pessoas. Seja para ver a paisagem, seja para comer num dos restaurantes junto ao mar ou pelas poucas pessoas que vivem por ali, é quase impossível encontrar um lugar para estacionar. A viagem passou por ali para que a jornalista visse o local de perto, mas a verdadeira vista da paisagem estaria guardada para outro sítio.
Aproveitando o semáforo verde, Leonardo subiu a encosta e voltou à estrada por onde vinha a circular desde Setúbal. O percurso continuava a subir, mas de forma mais ligeira e em alguns metros chegava mesmo a descer. A estrada terminou num entroncamento com a indicação de Sesimbra e Lisboa para a esquerda.
— Já vamos por ali. — disse ele, virando à direita.
Numa típica estrada de montanha, a viagem de carro continuou a subir com destino ao topo da serra. Matilde olhava pela janela, revelando um semblante encantado tão pouco comum nela. Era uma mulher que não gostava de revelar o que sentia, mas ali o seu espirito estava à vontade e deixou-se encantar pela realidade que a rodeava.
Ao fim de alguns quilómetros, Leonardo parou naquele que considerava ser o melhor miradouro da serra para de visualizar toda a zona balnear entre a praia da Figueirinha e o Portinho da Arrábida.
Todo o mar que envolvia a costa parecia um lençol do paraíso. Porém, junto ao Portinho, esse lençol de água tinha uma tonalidade tão lúcida e transparente que fazia lembrar as águas das paisagens paradisíacas das Caraíbas. Em frente ao areal, as pessoas divertiam-se na água. Mais longe, motas de água cruzavam o mar, longe dos banhistas que relaxavam a pedalar em gaivotas. A encosta verde escondia uma ou outra casa que, sabe-se lá porquê, conseguira escapar à proibição de ali estar. Lá em baixo, o Portinho da Arrábida era um pequeno aglomerado de casas, envolto em calma e sossego com os barcos ancorados espalhados pela costa.
— Isto é lindíssimo! — constatou ela, olhando para o mar infindável.
— Espero que te faça esquecer as más recordações.
— Fará certamente. Nunca pensei que existisse algo tão belo tão perto de Lisboa. — Virou-se para olhar Leonardo nos olhos. — Obrigado por me mostrares tudo isto.
Ele encolheu os ombros e sorriu, contente por ela gostar. No entanto, as lentes escuras não lhe permitiram ter a real noção do olhar encantado dela.
— Leonardo! Podes tirar uma foto comigo? — pediu ela, retirando o telemóvel da mala.
— Não está aqui ninguém para nos tirar a foto. — constatou ele.
Curiosamente, naquele momento, eles eram as únicas pessoas no miradouro.
— Não faz mal. — disse ela, colocando-se à frente dele com a paisagem marítima atrás de ambos. Puxou os óculos para o cimo da cabeça, encostou-se ao peito dele e esticou o braço com o telemóvel na mão. — Sorri!
O aparelho fez um som estranho e ela virou o ecrã para si. Passou o indicador pelo vidro e ficou satisfeita com o resultado da fotografia.
Regressados ao interior do automóvel, Leonardo fez inversão de marcha e regressou ao cruzamento anterior, tomando o rumo de Sesimbra.
— Quero levar-te a um lugar que gosto muito e onde paro algumas vezes.
— Sesimbra?
— Não. Vamos passar por lá só para conheceres.
A viagem pela serra foi desembocar a Azeitão.
O Sol estava em trajectória descendente e o receio de que o ambiente se tornasse demasiado escuro para o local que ele queria mostrar-lhe fez com que Leonardo optasse por passar pela Praia dos Pescadores em Sesimbra só para mostrar e sem parar.
Matilde também adorou o local. Aliás, seria difícil encontrar um pormenor que ela não gostasse.
Sesimbra ficou para trás e a linha de alcatrão voltou a subir pela zona montanhosa. Matilde viu-se a passar por localidade atrás de localidade, reconhecendo alguns nomes por os ter ouvido a outras pessoas como Alfarim ou Meco.
Ao passarem pelo desvio com a indicação de Cabo Espichel, a estrada transformou-se numa linha de asfalto que parecia ter sido fustigada por um bombardeamento, tal era a quantidade de buracos.
As casas desapareceram das bermas da estrada, ficando apenas uma espécie de planalto que terminava no famoso cabo. À esquerda, algo distante, o farol girava a sua luz cada vez mais potente com o enfraquecer do Sol.
Leonardo estacionou perto dos carros ali parados. Os vendedores ambulantes já começavam a levantar as bancas e a arrumar as coisas dentro das carrinhas ali ao lado. Viam-se mais pessoas a regressar do cabo que a ir para lá.
Ao saírem do automóvel, o vento fustigou-os com violência. Havia pouca protecção das rajadas e este só diminuiu quando a sua caminhada entrou na antiga zona de mercadores que envolvia um enorme pátio frontal à igreja edificada bem perto da falésia. Passaram por uma arcada que ligava a igreja ao edifício abandonado que servia de abrigo aos mercadores e enfrentaram o vento forte de fim de tarde com o Sol a encará-los bem de frente, mas cada vez com menos força.
— Alguma vez tinhas vindo ao Cabo Espichel?
— Não. Só conhecia de nome e uma ou outra foto que vi.
A passada de ambos findou a escassos cinco metros da beira do penhasco. Lado a lado, observaram o mar interminável, uma pequena parcela do Oceano Atlântico.
— Gosto de vir até aqui. Ficar a observar o mar, a encosta. Pensar na vida.
— Isto é tão bonito quanto medonho. — confessou Matilde, receosa com a vista lá para baixo. — Um passo em falso e adeus vida.
Leonardo agarrou-lhe a mão.
— Não te preocupes, eu seguro-te!
Matilde a apertou a mão dele e sorriu.
— Se eu escorregar, podes largar-me Leonardo. — sugeriu na brincadeira.
— Ou segurar-te. Penso que seria a decisão mais lógica.
— Não, se isso te fizesse cair comigo.
— Pelo menos tinha companhia na viagem para o Céu.
— Não penses nisso, eu devo ter bilhete confirmado para o Inferno.
— Então, será melhor largar-te, Matilde. — concluiu ele com humor.
Ela deu-lhe uma palmada no braço e ambos sorriram com prazer.
O ambiente tornou-se mais escuro e o vento mais forte. Estava a anoitecer e já quase ninguém permanecia por ali. Matilde e Leonardo regressaram ao carro.
— Queres jantar comigo? — convidou ele, conduzindo de regresso à estrada principal.
— Obrigado, Leonardo. Mas quero estar em casa cedo. Amanhã é o primeiro dia na estação e quero descansar bem esta noite.
— Tudo bem, jantamos na Sexta, se puderes vir comigo ao bailado.
A viagem até ao Montijo não teve grandes diálogos entre eles. Ambos sentiam o aproximar do fim daquele dia tão agradável e o silêncio fora o resultado desse sentimento. Uma vez por outra havia um comentário sobre algo que passava no rádio e só no bloco de notícias é que trocaram mais opiniões acerca do que ouviam.
No Caís do Seixalinho, a noite já caíra quando eles entraram no edifício de acesso aos barcos. Leonardo acompanhou-a até aos torniquetes de acesso à sala de embarque, onde apenas uma senhora aguardava para embarcar.
— O barco parte daqui a dez minutos. — disse ela, olhando para a indicação da hora de partida. — Se tiveres que ir andando…
— Não, eu espero.
— Leonardo, obrigado por este dia. Adorei!
— Ainda bem.
— A sério, do fundo do meu coração, adorei mesmo.
— Havemos de repetir mais dias assim. Se quiseres, claro.
Matilde abriu o sorriso e nem precisou de responder para que ele soubesse que a ideia a cativava.
Junto aos torniquetes, eles ficaram frente a frente a olhar-se nos olhos. Estavam tão próximos que só uma folha de papel poderia passar entre eles. Não disseram nada, pois não sabiam o que dizer. Matilde olhava-o a desejar que ele lhe tentasse roubar um beijo. Leonardo olhava a com vontade de a beijar.
Apesar de muito ténue, houve um movimento de aproximação dos seus rostos. Ia acontecer no exacto instante em que as portas de embarque se abriram.
Matilde desviou o olhar e disse:
— Tenho de ir.
Leonardo deu um passo atrás, procurando disfarçar o que quase revelara ter intenções de fazer.
Num impulso, Matilde deu-lhe um beijo no rosto e atravessou os torniquetes, passando o bilhete pelo leitor.
Ele mal conseguira retribuir o beijo. Ficou a vê-la afastar-se pela rampa, acenando-lhe todas as vezes que ela se virou para trás para lhe acenar. E não foram poucas.
Sozinho, Leonardo aguardou pela partida do barco quando ela desapareceu no interior. Em menos de dois minutos, o piloto fez ecoar a buzina ruidosa e a embarcação começou a afastar-se.
Nem cinco minutos haviam passado desde que Matilde o deixara e já sentia uma saudade que lhe parecia queimar o estomago.
Quando ia a entrar no carro, o seu telemóvel apitou. Leonardo leu a mensagem que Matilde acabara de enviar: “Adorei estar contigo!”
Sorrindo para o aparelho, ele sentou-se no lugar do condutor e escreveu: “Eu também. Cada vez gosto mais da tua companhia.”
Logo que enviou, ligou a ignição e conduziu pela estrada escura rumo a casa. A meio do caminho, o telemóvel voltou a apitar. Logo que estacionou o veículo à porta do prédio, voltou a pegar no telemóvel. Matilde retribuíra com um sorriso e igual confissão.
Entrando no prédio, Leonardo escreveu: “Tive vontade de te beijar.”
No entanto, pareceu-lhe que demasiada honestidade poderia ter um resultado negativo. Por isso, emendou para “Tive vontade de te abraçar.” E enviou.
Já dentro de casa, esperou alguns instantes pela resposta. Como ela não chegou, ele pensou que Matilde preferira dar por terminado o diálogo. Seguiu para a cozinha para procurar algo para jantar.
O telemóvel ecoou pelo apartamento. Nova mensagem.
“Porque não o fizeste?”
No barco, Matilde optara novamente por se sentar na primeira fila. Só que à noite, a única paisagem são os pontinhos luminosos da capital a aproximar-se. No entanto, a paisagem pouco importava a quem só tinha olhos para as mensagens. O toque seguinte trouxe um: “Achei que não ias gostar.”
Carregando nas letras com mestria, escreveu: “A Matilde Leão jornalista não ia gostar, mas a Matilde tua amiga teria gostado desse abraço.”
Aguardou a resposta, vendo as linhas de luz a subir e a descer ao ritmo do barco. Ela não veio. Já bem perto de Lisboa, Matilde decidiu escrever novamente. “Pensei que me fosses beijar” foi a primeira coisa que escreveu. Porém, arrependeu-se, pois isso iria certamente provocar uma resposta tipo “terias gostado que o tivesse feito?” e ela ainda não se sentia confiante a assumir que sim. Sendo assim, alterou para: “Sei que sou fria e distante, mas contigo sou diferente. Não tenhas problemas em ceder aos teus impulsos comigo.”
No apartamento do Montijo, Leonardo olhava para o ecrã do telemóvel sentado no sofá a petiscar batatas fritas e croquetes da noite anterior. Ainda não soubera o que responder à primeira, já Matilde lhe enviava uma segunda mensagem. E esta segunda surpreendera-o ainda mais.
“Não quero pisar nenhuma linha, nem ultrapassar limites que prejudiquem a nossa amizade”, foi o que conseguiu escrever ao fim de alguns minutos.
Matilde encontrou uma estação fluvial deserta, ao desembarcar. Nem a pessoa que entrara com ela no barco voltara a aparecer. Lá fora, o parque estava deserto e escuro somente com o carro dela. Continuou a caminhar, mas a sua passada abrandou ao reparar num indivíduo de ar suspeito encostado a um candeeiro na rua a olhar para ela. Sentiu um arrepio de medo percorrer-lhe a espinha. Olhou em volta, à procura de um segurança ou um polícia a quem pudesse pedir escolta até ao carro. Ninguém.
A feroz Matilde Leão preparou-se para o pior, mesmo que todo o corpo tremesse. Se ele se afastasse do candeeiro, ela correria pela estação.
O som de uma porta a bater chamou a sua atenção. Esperava que o seu olhar encontrasse o segurança. Contudo, o som fora a porta dos lavabos a bater. Uma rapariga de vinte e poucos anos, desfilou por ela rumo à saída, ignorando-a, orgulhosa do corpo escultural num vestido justo e saia muito curta.
Não seria certamente pessoa a quem pudesse pedir ajuda.
Nesse instante, o seu telemóvel apitou. Matilde pegou-lhe com as mãos a tremer e leu a mensagem de Leonardo. Nem tomou consciência do sentido das palavras e ponderou se haveria de lhe telefonar a pedir ajuda. Porém, ao voltar a levantar o olhar para a rua, o homem desaparecera.
Muito receosa, Matilde caminhou para o exterior, procurando o indivíduo com medo que ele pudesse estar escondido. Espreitou pelos vidros das portas e não o viu. Saiu da estação e correu até ao carro. Abriu a porta, entrou a toda a velocidade, fechou a porta e trancou-se.
Recuperando o ritmo calmo da respiração, ela ligou o carro sempre com o olhar à procura que o estranho lhe surgisse no campo de visão. Nunca mais o viu.
Mais calma, iniciou a marcha do carro para regressar a casa.
O trajecto de cerca de meia hora serviu para a acalmar. E quando estacionou o seu automóvel na rua onde vivia, aquele episódio começava a dissipar-se.
Ao largar a mala na sala, Matilde lembrou-se que com aquele momento de tensão nem respondera à última mensagem que recebera. Por isso, voltou a retirar o aparelho do interior da mala e enviou a sua última mensagem da noite: “Cheguei agora a casa. Não seria um abraço que te faria pisar o risco. Não sei o que nos pode fazer passar algum limite que prejudique a amizade. Se acontecer, descobriremos juntos. E resolveremos juntos. Adorei estar contigo! Beijinhos.”