DANÇANDO NO VIOLINO · Capítulo 18

Capítulo XVIII

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As tardes teimavam em terminar cada vez mais tarde. Os dias primaveris mantiveram-se e o início da noite revelou-se agradável como já não sucedia desde o início do Outono anterior.
Leonardo conseguira afastar-se do trabalho mais cedo, pois tinha de regressar a casa no Montijo, para se arranjar, e voltar a Lisboa para ir buscar Matilde a casa, conforme haviam combinado.
Enquanto se preparava, a sua mente recordava outras estreias de Adriana em bailados. Procurou nos arquivos cerebrais o número exacto de estreias que acompanhara, desde que a conhecera. Talvez estivesse a esquecer alguma, mas pelas suas contas eram quatro, cinco com a daquela noite. Aquela quinta noite seria a primeira em que não estava previsto encontrarem-se após o espectáculo para comemorar. Todas as quatro tinham acontecido em momentos da vida de ambos em que nenhum relacionamento impedia a amizade sem tabus entre eles.
Vestindo calças escuras e uma camisa azul clara, Leonardo olhou-se ao espelho sem evitar a mágoa pelo afastamento da amiga. Sabia como era séria… ou como pretendia ser séria a relação entre Adriana e Zahra, mas não esperava que isso viesse a provocar um afastamento que levasse a bailarina a, subtilmente, dar a entender que não pretendia sequer que se cruzassem após o bailado, pois a amante secreta deveria passar pelos bastidores para a cumprimentar e Adriana não queria que ela visse Leonardo por lá.
Aquilo que ele sentia pela amiga levava-o a colocar acima dos seus interesses o bem-estar e felicidade de Adriana. Por isso, começava a aceitar a ideia daquele novo afastamento.
Por outro lado, sentia que a amizade por Matilde florescera desde que tinham começado a sair juntos. O primeiro jantar fora uma agradável constatação de como poderia ser bom partilhar com ela aqueles momentos. As férias dela e os constantes telefonemas solidificaram mais o que estavam a construir. E aquele passeio no Domingo anterior ultrapassara todas as expectativas e despertara nele sentimentos confusos em relação à jornalista.
Também não conseguia deixar de pensar nela. Porém, após aquela última mensagem de Domingo a que ela demorara a responder, ele receou ter revelado demasiado sobre o seu turbilhão privado de emoções. A resposta demorara, mas parecera algo distante e demasiado pensado para soar a verdadeiro. Depois, foi silêncio absoluto ao longo da semana que se suspendera por minuto e meio com o telefonema rápido dela a confirmar que iria com ele ao bailado.
Olhos nos olhos consigo, Leonardo ponderou se não estaria a cair no mesmo erro que fizera com Adriana, ao apaixonar-se por alguém que não pretendia mais que uma boa companhia. E no caso de Matilde, essa companhia seria mesmo só para uma amizade não chegando sequer àquele ponto lascivo do sexo pelo sexo.
O espelho não estava a ajudar nada.
Passando pela cama, pegou no casaco e vestiu-o. Confirmou se tinha a carteira e o telemóvel. Caminhou sem pressa até à sala e pegou na chave do carro que ficara sobre a mesa. Não valia a pena enganar-se e seria bem melhor que fosse realista para não apanhar nenhuma desilusão.

Zahra preparou-se como se quisesse deixar todos os homens de queixo caído à sua passagem. Quando o noivo a deixou em casa, a violinista tomou um banho, perfumou-se e enfiou-se num vestido comprido de alças grossas com um decote cativante onde o seu peito se acomodava na perfeição. Sabia que José a condenaria primeiro e se orgulharia depois, quando desfilasse com ela pelo braço. Contudo, o objectivo seria fascinar Adriana, no momento em que passasse pelos camarins para a cumprimentar com o noivo.
A imagem do noivo na sua cabeça fê-la perder o sorriso ao olhar para o seu reflexo no espelho. Estava cansada daquele noivado. Não percebia como algum dia pensara que seria capaz de viver com alguém que não amava, nem se sentia atraída e com quem tinha de sucessivamente fingir os orgasmos.
Zahra sabia que não iria ser nada fácil o fim do noivado, principalmente para José. Receava mesmo que isso influenciasse o desempenho dele nos concertos e não queria de forma alguma prejudicar a carreira dele para emendar um erro seu. Daí que estivesse a aguardar a interrupção da temporada de concertos para ter essa dolorosa conversa com ele. E já não faltaria muito.
Pronta para sair, sentou-se no sofá e pegou no telemóvel. Abriu a secção de mensagens e digitou uma para enviar a Adriana, desejando que tudo corresse bem.

O dia fora arrasador para Matilde. Muito trabalho na preparação das reportagens a emitir nos noticiários, algumas reuniões com a equipa do departamento de informação e um sem número de indicações do seu chefe para o alinhamento dos blocos informativos. Saiu da estação de televisão com um atraso significativo para fazer tudo a que se propusera antes de Leonardo a ir buscar. Felizmente, conseguira que as cabeleireiras da estação lhe arranjassem o cabelo para o evento.
Ainda não se vestira, quando Leonardo tocou à campainha.
— Sobe! — disse ela pela intercomunicador, afastando-se para o quarto e deixando a porta do apartamento aberta para ele entrar.
Leonardo assim fez. E quando fechou a porta, ouviu-a dizer:
— Fica à vontade aí na sala. Estou mesmo a acabar.
Ele entrou na sala e sentou-se no sofá onde semanas antes passara a noite. A recordação provocou-lhe um sorriso, pois naquela altura só queria Matilde longe e naquele início de noite gostava cada vez mais de a ter por perto.
O som dos saltos a embater no soalho denunciou o aproximar da jornalista. Leonardo reagiu ao som levantando-se do sofá para a receber. No momento em que ela passou a porta, ele ficou petrificado.
A sempre formal e austera Matilde Leão, elegante e fria, surgiu sedutora. A elegância continuava lá, mas desta vez trazia sensualidade com um vestido sem costas que a envolvia no pescoço e descia pelo tronco apenas com um decote singelo e uma saia de bainha diagonal, revelando as pernas dos joelhos para baixo. O cabelo louro bem penteado contrastava na perfeição com o tom escuro do tecido. O rosto bem maquilhado acentuava os traços do seu olhar felino que naquela noite não pretendia fulminar, somente cativar. Por fim, os sapatos de salto alto da cor do vestido deixavam-na quase à altura dele.
A princípio, Leonardo não foi capaz de dizer nada.
— Estou bem? — perguntou ela, dando uma volta sobre si.
— Estás óptima. — conseguiu ele dizer por fim.
Matilde sorriu e aproximou-se. Para sua surpresa, abraçou-o e deu-lhe dois beijos no rosto.
— Vês? Um abraço não tem mal nenhum. — recordou ela, no seguimento das últimas mensagens trocadas.
Leonardo sorriu para disfarçar como se sentia envergonhado por ter levantado a questão.
— Este teu amigo tem destas parvoíces.
— Não são parvoíces. — contestou Matilde, procurando a mala. — Achei muito querido da tua parte, preocupares-te com isso.
Leonardo aguardou, enquanto Matilde confirmava se tinha tudo o que precisava na mala. A seguir, pegou no casaco que a protegeria do fresco da noite e vestiu-o.
— Vamos?
— Claro.

José aguardava dentro do carro, parado à porta do prédio de Zahra. Nem se dera ao trabalho de tocar à campainha, limitando-se a ligar-lhe para o telemóvel para que descesse.
Ao volante do automóvel, ele esperava a noiva com o pensamento na tentação. Naquela noite iria ver a deliciosa amiga da noiva sem poder tomar nenhuma atitude para alcançar o seu objectivo. Mas isso iria mudar.
Zahra saiu do prédio e mereceu logo um olhar reprovador por parte dele. Ela percebeu-o, só que ele não concretizou a reprovação quando ela entrou no carro. Tal como Zahra esperava, após a condenação vinha o orgulho por ter uma mulher tão linda a seu lado.

A viagem de carro entre a casa de Matilde e o Teatro Camões demorou uns cinco minutos. Leonardo estacionara nas imediações do teatro, junto aos prédios habitacionais do bairro. Para jantar, escolheram um restaurante a caminho do Pavilhão do Conhecimento.
Desde que haviam saído de casa dela até ao restaurante, a conversa desenrolou-se à volta do novo trabalho de Matilde Leão. Estava a ser mais absorvente que a função que tinha quando fazia parceria com ele. No entanto, sentia-se valorizada e gratificada com os novos desafios.
Leonardo ouvia-a com uma interrogação a bater-lhe na cabeça. Se ele tivesse enviado a primeira mensagem a revelar que tivera vontade de a beijar, ela tê-lo-ia feito, em vez do abraço? Nunca iria saber. Mas, certamente que não, pois um abraço é bem diferente de um beijo.
Durante a refeição, o fim do relato de Matilde trouxe um silêncio desconfortável. Quase que se notava que algo pendia entre eles, mas ninguém dava o primeiro passo para falar. Esse silêncio foi cortado por um ou outro comentário sem interesse.
Terminado o prato principal e sem vontade de sobremesa, ambos pediram um café.
Nessa pausa, Matilde Leão envergou o seu olhar mais felino, aquele que usava para as entrevistas, procurando uma posição de vantagem.
— Gosto muito da tua companhia. — confessou sem tirar os olhos dos deles. — Adorei o Domingo passado.
— Eu também.
— Sei que já to disse, mas queria dizer-te de viva voz. — continuou ela. — Aliás, queria ter-te dito isso quando nos despedimos.
— Deixa lá. Foi esquecimento.
Sem nunca perder o tom sério, Matilde contrapôs:
— Não foi esquecimento. Talvez tenha sido uma hesitação.
— Hesitação?
— Sim. Da mesma forma que tu hesitaste no abraço, eu hesitei em dizer-te que tinha gostado muito de estar contigo.
Nesse momento, o funcionário colocou os dois cafés à frente deles.
— Ia agir por impulso. — prosseguiu ela. — Daí que tenha hesitado em dizer-to cara a cara. Por isso, escudei-me na segurança de uma mensagem de telemóvel. Depois tu respondeste a dizer o mesmo e eu senti um enorme arrependimento de não to ter dito na despedida.
Leonardo despejou o açúcar na chávena e mexeu o café distraidamente sem tirar os olhos do rosto dela.
— É verdade que gostas cada vez mais da minha companhia? — interrogou ela, repetindo os movimentos dele.
— Sim.
A confirmação acentuou o sorriso no rosto de Matilde.
— Porquê?
— Porque és boa companhia.
— Só isso?
Leonardo sorriu para disfarçar o nervosismo. Não sabia como encarar o assunto sem se denunciar.
— Tu também disseste o mesmo.
— Sim.
— Então também te pergunto porquê?
— É fácil. Sinto-me bem contigo, Leonardo. Fazes-me esquecer que o mundo é uma selva. Transmites-me alguma segurança para que eu seja esta Matilde Leão e não aquela pessoa intragável que conheceste e que continua a enfrentar o mundo todos os dias sem baixar as defesas.
— Isso é uma grande responsabilidade para mim, Matilde. Ao fazer-te baixar as defesas, sou responsável para que não te magoes.
— Foi por isso que me mandaste aquela mensagem a falar no receio de pisar a linha ou ultrapassar limites?
— Sim.
Matilde sorriu com carinho.
— Um abraço nunca te faria ultrapassar os limites, como já te provei.
Após o último golo no café, Leonardo cedeu à tentação de testar esses limites:
— Vontade de te abraçar foi um eufemismo para aquilo que senti, ao despedir-me de ti. Na verdade, tive vontade de te beijar.
Leonardo esperava uma reacção de surpresa no rosto de Matilde. Só depois de o dizer é que constatou que poderia ter criado os alicerces para que ela levantasse um muro de gelo entre eles. Arrependeu-se imediatamente a seguir ao ponto final.
No entanto, Matilde sorriu e a frontalidade dele só a fez desviar o olhar. Por instantes sentiu-se uma rapariguinha a tentar lidar com a confissão amorosa do seu apaixonado. O instinto activou novamente a imponente Matilde Leão, só que ao encarar o rosto dele, o olhar revelou-se sedutor.
— Também tive vontade de te beijar. — Fez uma pausa, avaliando como ele reagia à revelação. Leonardo não se manifestou, o que foi somente a forma como reagiu à novidade inesperada. Matilde terminou o café. — E agora? O que fazemos perante isto? Achas que estamos a ultrapassar os nossos limites?
A sucessão de perguntas já revelou uma Matilde Leão feroz das entrevistas. Ela baixara totalmente o escudo e ele não avançara nem recuara. O impasse enervou-a, daí que tivesse levantado as defesas com aquelas perguntas.
— Por estranho que possa parecer, depois do que já barafustámos um com o outro, eu gosto muito de ti, Matilde. Desde que te conheço que me habituei a ver uma mulher fria capaz de enfrentar este mundo e o outro. Agora conheço esta de quem gosto cada vez mais. Só que esta é vulnerável e eu tenho receio de a magoar.
Astuta, a jornalista veio ao de cima:
— Receio de me magoar ou de sair magoado?
Leonardo fez sinal ao empregado para trazer a conta.
— As duas coisas.
Matilde anuiu.
O empregado aproximou-se da mesa com a conta e com a máquina de pagamento, pois reparara no cartão multibanco na mão dele.
Desta vez, Matilde não perdera tempo a tentar pagar a conta e ficou a observá-lo em todo o processo. Quando o empregado se afastou, ela disse:
— Talvez seja melhor continuarmos assim, sem avançar, sem correr riscos que coloquem a amizade em causa.
— Sim, talvez seja melhor.
Nenhum deles pretendia isso. Porém, ela sugerira e ele concordara.
A hora de abertura das portas do teatro chegara. Eles levantaram se das cadeiras, vestiram os casacos e saíram do restaurante sem trocar uma palavra.
Caminharam pelo passadiço ribeirinho em silêncio.
— Ficaste chateada? — questionou Leonardo, quebrando algum gelo que se instalara.
— Porque haveria de ficar? — contrapôs Matilde, cada vez menos afável e cada vez mais a “velha” Matilde Leão.
— Não disseste mais nada.
— Nem tu.
Parados frente a frente, os olhos de ambos enfrentavam-se sem recuar. Leonardo com ternura. Matilde com ferocidade, desiludida por ele desistir tão facilmente. Iria encará-lo com seriedade o resto da noite. E no fim, despedir-se-ia dele e talvez não repetisse os encontros para não sair magoada. Sim, sentia-se magoada por ele não ter avançado depois do que ela dissera.
— És linda! — afirmou ele. — E esta noite estás tão linda que até dói.
Matilde não conseguiu evitar um sorriso, deixando-se desarmar da postura que tentara adoptar.
— Serás tão parvo que não percebeste que estou assim para ti?
— Estou a um passo de pisar o risco.
— Não percebo porque ainda não o fizeste.
Leonardo abraçou Matilde e beijou-lhe os lábios. Matilde colocou os seus braços à volta do pescoço dele, recebendo e retribuindo o beijo. Ao início, as bocas procuraram conhecer-se com ternura até dar lugar a uma dança de línguas que libertou a paixão que ambos continham.

Zahra entrou no edifício do Teatro Camões de braço dado com José. Pelo amplo espaço de entrada do teatro, logo após as portas de vidro, muitas pessoas aguardavam já pela hora de entrada na sala.
O casal caminhou até à bilheteira e José interpelou a funcionária no lado oposto do balcão:
— Boa noite! Vimos buscar dois bilhetes em nome de senhor e senhora Norton Vila.
Zahra olhou para ele com o rosto franzido. Desde quando é que eles eram “senhor e senhora Norton Vila”? Para além disso, Zahra sabia que Adriana jamais deixaria os bilhetes daquela forma.
A senhora folheou os vários bilhetes reservados sem encontrar nada. Sem saber muito bem como o dizer sem constrangimentos, informou:
— Lamento! Mas não tenho nada nesse nome.
Antes que José protestasse, Zahra antecipou-se e pediu:
— Veja, por favor, se tem em nome de Zahra Yamanova.
A senhora voltou a folhear os bilhetes, tendo logo encontrado.
— Sim, aqui está. Dois bilhetes em nome de Zahra Yamanova.
Zahra recebeu os bilhetes e agradeceu, reparando no rosto indignado de José.
— Que esperavas tu? Ainda não somos casados. — justificou a violinista. — Ela é minha amiga, é natural que os deixe em meu nome.
— Podia ter deixado em nome de José Norton Vila e Zahra Yamanova.
Zahra encolheu os ombros, perante tão disparatada sugestão.
— Já agora, podia ter feito uma espécie de convite de casamento, dentro de um envelope e ir lá entregar a casa.
José não respondeu.
Os funcionários do teatro abriram as duas grandes portas laterais, duas enormes placas de madeira robusta que se abriam para que os espectadores entrassem e fossem conduzidos aos seus lugares.
José e Zahra colocaram-se na fila das pessoas que entravam pelo lado direito.

Leonardo e Matilde entraram no teatro de mão dada. Haviam perdido a noção do tempo com os beijos trocados junto ao rio, o que os fez chegar ao edifício quando a maior parte das pessoas já entrava na sala. Viraram apressadamente para a bilheteira e Leonardo pediu à funcionária os dois bilhetes em nome dele. Como já havia poucos bilhetes para serem levantados, a senhora encontrou-os rapidamente.
Ao recebê-los, Leonardo agradeceu. Tal como esperava, eram lugares a meio da sala. Adriana não gostava que as pessoas conhecidas ficassem suficientemente perto para que ela reparasse nelas, pois isso deixava-a nervosa.

— Não havia nada mais perto? — reclamou José ao perceber que iria ficar sentado na segunda metade de fileiras de cadeiras.
— Foi o que ela arranjou. — explicou Zahra, sentando-se na sua cadeira.
— Estava à espera de ficar na primeira ou segunda fila. — continuou José, mantendo-se em pé e bloqueando a passagem das outras pessoas.
— Senta-te! Da próxima vez, se queres ficar no palco, compras os bilhetes.
José sentou-se, irritado por não ficar perto o suficiente para poder observar Adriana como um leão que contempla uma gazela.
Aos poucos, as pessoas espalharam-se pelos seus lugares, umas conduzidas por funcionários do teatro, outras por sua iniciativa a procurar o número correspondente ao seu lugar.

— A Adriana nunca me arranja lugares perto do palco. — explicou Leonardo a Matilde, enquanto caminhavam para a entrada da sala. — Fica nervosa por saber que está gente conhecida na assistência. Uma vez disse-me que achava que se espalhava em palco, se desse de caras com um rosto conhecido em plena actuação.
Matilde não pareceu muito interessada na história.
— Tens estado com ela?
A pergunta veio com um toque subtil de ciúme. Leonardo percebeu, mas ignorou-o.
— Não. Temos estado afastados. Ela ofereceu-me os bilhetes. Mas, como viste, avisou-me por mensagem para o telemóvel.
Leonardo e Matilde ficaram sentados nos lugares centrais, mais ou menos a meio da sala. Sem quase darem por isso, as suas mãos permaneceram juntas com os dedos entrelaçados.
Alguns minutos mais tarde, o som da afinação dos instrumentos começou a ecoar pela grande sala, era a orquestra que iria acompanhar os artistas em palco, tocando os trechos musicais de cada um dos actos.
Em todo aquele tempo de espera pelo início, eles conversaram com olhar enamorado, apesar de não se voltarem a beijar, uma vez que como figura conhecida da televisão, Matilde não queria dar azo a notícias especulativas acerca da sua vida amorosa. No entanto, quem os observasse com atenção, percebia a troca de carinhos e olhares, bem como as carícias nas mãos e os sorrisos melosos.
De súbito, o som da afinação terminou e as luzes da sala reduziram-se. Gerou-se um silêncio onde só um ligeiro burburinho de vozes permanecera, extinguindo-se aos poucos. A seguir, as luzes apagaram por completo e a música da orquestra ecoou pela sala com estrondo, ao mesmo tempo que as cortinas abriram e os primeiros bailarinos surgiram em palco.
Quando pareceu a Matilde que quase todo o elenco estava em palco, inclinou-se para o ombro de Leonardo e sussurrou:
— Quem é ela?
No mesmo tom baixo, ele respondeu:
— É aquela do fato verde.
Matilde viu a personagem identificada, mas àquela distância era apenas uma figura humana ao longe vestida de verde que ela não reconheceria na rua se ela cruzasse no seu caminho.
Fim do capítulo

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