DANÇANDO NO VIOLINO · Capítulo 23

Capítulo XXIII

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Adriana chorou perdidamente, deitada na cama a soluçar. Nos últimos tempos, parecia-lhe que finalmente iria ser feliz no amor. Finalmente encontrara a mulher certa para partilhar a sua vida e ainda tivera a fortuna de que essa mulher fosse Zahra, o seu grande amor da juventude.
No entanto, naquele fim de tarde, Zahra voltara a atingi-la com crueldade. Fora a sua casa para terminar a relação, mas não se coibira de lhe manter a ilusão para lhe roubar prazer antes de a descartar. Adriana estava destroçada.
No seu quarto, olhou para a janela, vendo a tarde a partir para dar lugar à noite. A luz natural desaparecia e o ambiente à sua volta tornava-se escuro, tão escuro quanto a sua alma. Teve vontade de abrir a janela e atirar-se para pôr fim àquele sofrimento.
Não. Não e não. Zahra não merecia a sua vida. Já outrora tivera de atravessar aquele vale de trevas, recolher os cacos e reconstruir o seu coração para a vida. Se o conseguira quando era uma miúda, teria de o conseguir novamente, agora que era uma mulher.
Contudo, sentiu-se só, desesperada e a precisar de um amigo. Precisava do amigo. Precisava daquele amigo que estupidamente afastara de si por um amor tão venenoso. Precisava de Leonardo.
Impulsiva, procurou o telemóvel e marcou o número dele.

Leonardo atendeu uma voz chorosa e a soluçar. A apreensão tomou conta de si e, de repente, nada parecia importar à sua volta.
— Preciso de ti, Leo! — balbuciou ela. — Podes vir a minha casa?
— Que se passa? — interrogou ele, vendo Matilde regressar à sala.
— A Zahra… Terminou tudo. Estou desesperada.
— Tem calma! Eu vou já para aí.
Sentindo que ela podia fazer uma loucura, Leonardo desligou e saiu do sofá para procurar a sua roupa.
— Que aconteceu? — interrogou Matilde, já com alguma insatisfação na voz.
— A Adriana. — relatou ele, passando por ela rumo ao quarto. — A namorada acabou tudo com ela. Está desesperada.
— E tu vais-te embora? — questionou incrédula.
— Tenho medo que ela faça uma loucura.
— Eu não acredito nisto. — barafustou Matilde, cada vez mais irritada. — Vais deixar a tua namorada sozinha para ir a casa de uma amiga?
— A Adriana precisa de mim. — explicou ele, vestindo a roupa para sair.
— E eu?
— Tu o quê?
— Não preciso de ti?
— Matilde! Ela está a passar um mau bocado.
— Acabou uma relação! — constatou a jornalista. — Não é a primeira, nem será a última a passar por isso. Não me parece que tenhas de ir a correr atrás dela.
— A Adriana é minha amiga. E pediu para eu ir lá.
— E eu sou o quê, Leonardo?
Ele ficou a olhá-la. Ia para dizer que ela também era uma amiga, mas isso iria magoar Matilde. Não lhe podia dizer que era mais que isso porque naquele instante não o sentia assim.
O silêncio dele magoou-a mais que qualquer palavra.
— Nada. — soluçou Matilde. — Não sou nada para ti.
— Não digas isso.
— Não passo da gaja que andaste a foder durante dois dias.
— Estás a ser parva.
— E tu estás a ser estúpido. — redarguiu Matilde com raiva. — Ao menos assume que é isso que sou para ti, uma foda.
— Não quero discutir contigo. — pediu ele, ansioso por ir a casa de Adriana. — Quando eu voltar falamos.
A Matilde gentil, carinhosa e apaixonada esfumou-se. Na frente de Leonardo surgiu a Matilde Leão felina, enraivecida, magoada.
— Se saíres aquela porta, escusas de voltar.
Sem hesitar, Leonardo pegou na mochila que trouxera e colocou a ao ombro. Passou indiferente por Matilde e rematou:
— Lamento que penses assim.
Matilde Leão enfrentou a cena firme. O seu amor estava ferido, mas a postura imponente não vacilou um milímetro que fosse. Quando ele saiu e a porta do apartamento se fechou, Matilde deixou-se cair de joelhos no chão e chorou compulsivamente.
Tal como acontecera a Adriana, ela enfrentava o fim da relação com quem amava. Só que ao contrário da bailarina, não tinha ninguém a quem ligar.

Leonardo conduziu pelas ruas quase desertas da capital. Ia ansioso, pois a voz chorosa da amiga ao telefone fazia-o temer que o desespero a levasse ao suicídio.
A noite estava escura sem sinal de luar. As nuvens surgiram no negrume para avisar que a Primavera ainda era uma estação frágil e a ganhar espaço. A temperatura agradável da tarde dera lugar a um frio miudinho suportável.
A rua de Adriana não tinha um lugar de estacionamento vago. Leonardo deu uma volta ao quarteirão e tentou estacionar numa rua adjacente. Não conseguiu. Voltou a contornar o quarteirão. Sempre que passava defronte do prédio da bailarina, olhava para cima como se pudesse dali confirmar que ela não cedera ao infortúnio.
Quase vinte minutos para encontrar um lugar. Teve de deixar o carro a mais de trezentos metros da rua dela. Não tinha importância, pois o que importava era chegar ao apartamento. Caminhou pelo passeio a ritmo acelerado, quase correndo. Ao virar a esquina, temeu deparar com o corpo da amiga despenhado no chão empedrado, por baixo da sua janela. Suspirou, por isso não se confirmar. Alcançou a porta e tocou à campainha.
— Sou eu, Adriana. — respondeu à voz no intercomunicador.
A porta do prédio destrancou-se e ele investiu pelas escadas. Subiu numa corrida até ao quarto andar, constatando que o tabaco já não permitia aquele tipo de exercício.
Adriana abriu a porta.
Leonardo encontrou-a lavada em lágrimas com os olhos inchados e o rosto triste. Aproximou-se dela e abraçou-a com força e carinho para a reconfortar.
— Então, Adriana?
A bailarina não foi capaz de dizer nada. Enrolou os braços à volta do pescoço dele e soluçou no seu ombro.
Ele deu um toque na porta com o pé para a fechar e conduziu Adriana para o sofá.
— A Zahra… — balbuciou a bailarina. — Veio aqui esta tarde. — Puxou a bainha da camisola para enxugar as lágrimas. — Tínhamos combinado que ela passaria cá hoje para… — Soluçou novamente e desabou num choro compulsivo.
— Tem calma, Adriana. — aconselhou Leonardo.
Ali sentado a seu lado, parecia que não tinham passado todos aqueles dias em que ela se afastara completamente dele. De um momento para o outro, sentiu todos os sentimentos que o ligavam a Adriana reflorescerem. Recordou como estava apaixonado por ela, quando esta lhe falou na relação com Zahra. Nem por um segundo, pensou em Matilde.
— Temos mantido um caso… — continuou mais calma. — Eu contei-te. — Ele assentiu. — Era sério. — Soltou um sorriso sarcástico. — Eu julguei que era sério. Aqui a parva deixou-se enganar outra vez. — Retirou um lenço de papel da embalagem ao lado do candeeiro junto ao sofá e assoou-se. — Ela ia terminar o noivado para ficarmos juntas. Pelo menos, era o que me dizia. Pediu tempo, mas ontem à noite deveria pôr fim à relação, daí que tivéssemos combinado encontrarmo-nos esta tarde. — Leonardo continuou a reconfortá-la, abraçando-a. — Em vez disso, veio cá para terminar tudo. — Ele beijou-lhe a testa. Adriana olhou-o nos olhos. — Acreditas que foi capaz de me levar para a cama, fazer amor comigo e, só depois, terminar tudo?
— Ela não te merece. — disse ele por fim.
Não era o tipo de frase que Adriana quisesse ouvir. Sabia que a outra não a merecia, mas isso não apagava o amor que sentia por ela. Porém, ele nada podia fazer para além de lhe dar um ombro para chorar e um amigo para a ouvir. Adriana encostou-se a ele.
— Desculpa fazer-te vir do Montijo para me aturares.
— Não faz mal. Os amigos são para isso. Além disso, eu estava em Lisboa.
— Estavas a trabalhar?
— Não. Estava com… — Hesitou sem saber muito bem como a descrever. — Estava com uma amiga.
Adriana afastou-se e encarou-o, recriminando-se:
— Desculpa, Leo! Interrompi o vosso encontro. Não devia ter ligado.
— Não digas isso. Não tem importância.
— Ela deve ter ficado chateada. — Leonardo não respondeu. — Ficou chateada, já vi.
— Não ficou muito contente. Estava em casa dela.
A cada informação nova, Adriana arrependeu-se mais por ter telefonado.
— Talvez seja melhor voltares. Eu já estou melhor.
— Não, deixa estar. Não vale a pena.
Adriana observou-o com seriedade.
— Ela ficou mesmo muito chateada. — adivinhou, sentindo uma culpa involuntária. — Era só uma amiga?
— Sim… Não… Nós envolvemo-nos. — partilhou num suspiro.
Adriana sorriu, recordando-se:
— Era dela que falavas no restaurante, aqui há tempos?
— Sim. — mentiu.
— Devias ter-me dito ao telefone. Jamais pediria para vires, se soubesse.
— Eu sei. Mas, senti que estavas tão desesperada que tive receio que fizesses uma loucura.
— Passou-me pela cabeça.
— Então fiz bem em vir.
— Não. — negou ela, abanando a cabeça. — Se tivesse seguido esse caminho, jamais chegarias a tempo. — Acariciou-lhe o cabelo. — Fala-me dela.
— Conheci-a na estação de televisão. — Leonardo deu por si a contar todos os episódios com Matilde. Relatou tudo desde dos dias em que a detestara até às noites em que a adorara. Adriana ouvia-o satisfeita por ele, mas era também um escape para fugir à sua realidade. — Quando disse que vinha ter contigo, discutimos. Ela disse-me que se eu fosse embora, não precisava de voltar. — Adriana abriu a boca, espantada e mortificada pela culpa. — E eu aqui estou.
— Tens de voltar lá! — exclamou a bailarina. — Vai ter com ela. Diz que estás mais descansado, já me viste, mas nem estavas com cabeça para me aturar porque só pensavas nela.
Leonardo abanou a cabeça, recusando a ideia. Era mentira. Ele não pensara nela uma única vez.
— Não vale a pena. Agora, acho que só ia piorar as coisas. — Forçou um sorriso, sabia que o que ia dizer era improvável. — Amanhã ligo-lhe e fica tudo bem.
— Tu é que sabes.
Adriana levantou-se e dirigiu-se à cozinha. Acendeu a luz e procurou algo no frigorífico.
— Queres comer alguma coisa? Ou beber?
— Não tenho fome, Adriana.
— Nem eu.
Regressou do frigorífico com duas cervejas na mão. Estendeu uma a Leonardo.
— Fazes-me companhia?
Ele aceitou a pequena garrafa.
— Se quiseres, até posso passar cá a noite. — sugeriu ele.
— Não, deixa estar.
Temendo ter sido mal-interpretado, Leonardo explicou:
— Eu fico aqui no sofá.
— Obrigado à mesma, Leo. Mas, prefiro ficar sozinha.
Leonardo fez-lhe companhia durante mais uma hora, altura em que com a certeza que ela ficava bem, partiu para regressar à sua casa no Montijo.

Matilde apanhou um susto, pela manhã, ao ver-se ao espelho. Não dormira quase nada e passara a noite a chorar numa cama solitária. Tinha os olhos inchados e o rosto pálido.
Nos últimos dias vivera um sonho e deixara que a felicidade atravessasse as suas defesas. Depois… Depois o sonho transformara-se num pesadelo que a fez despertar para o mundo real.
Olhou-se ao espelho. O corpo nu parecia poluído. Estava poluído pela recordação de Leonardo que ela, estúpida, deixara que manipulasse e usasse a seu belo prazer. Também fora muito bom para ela. Porém, a conclusão que fazia disso é que se entregara de alma e coração a um homem para quem ela nada mais era que uma queca. Sentiu-se enojada. Deixara-o fazer… Deixara-o entrar em sítios jamais visitados… Recriminou-se por aquele pensamento. O sítio onde ele entrara que deixara mais feridas e dor fora no seu coração.
A maquilhagem serviu para disfarçar o melhor que conseguiu as marcas da tristeza. Mesmo assim, as maquilhadoras da estação de televisão iriam ter de fazer melhor para que ela não aparecesse nos ecrãs de televisão com ar de carpideira profissional.
Vestiu a sua roupa tradicional, as calças de ganga, a camisa e o casaco formal. Empenhou-se no seu semblante mais austero. A Matilde Leão que sairia de casa naquela manhã seria a velha cabra arrogante e implacável, a jornalista feroz e temida, a mulher fria e insensível com um coração de gelo.
O céu estava cinzento, quando ela saiu do prédio e caminhou até ao seu automóvel. As nuvens ameaçadoras não eram nada comparadas com o seu estado de espirito. Se ia chover, pouco lhe importava. Chovera demasiado de si, nessa noite.

Ao acordar, o primeiro pensamento de Leonardo foi para Adriana. Decidiu telefonar para confirmar como ela estava. Porém, ainda poderia ser cedo, pois a bailarina não tinha um emprego onde entrar às nove da manhã e talvez estivesse a descansar.
Levantou-se como fazia em todas as manhãs de trabalho, tomando um banho, arranjando-se e comendo qualquer coisa antes de sair.
No entanto, nessa manhã, antes de abandonar o apartamento, tentou telefonar para Matilde. Ouviu o toque de chamada duas vezes até ser rejeitado. Voltou a tentar e recebeu o mesmo resultado. Tentou convencer-se de que a jornalista estava ocupada e lhe retribuiria a chamada mais tarde. Só que isso não aconteceu.
Leonardo não era ingénuo ao ponto de pensar que ela não ficara chateada consigo. Sabia perfeitamente que ela não estava a brincar quando disse que se ele saísse a porta, escusava de voltar. Porém, queria acreditar que a podia recuperar. Não procurava o seu perdão, pois não considerava ter feito algo de errado e ela é que reagira de forma exagerada ao facto de ele estar preocupado com a amiga.
O dia não fora muito cansativo. Captação de imagens na Assembleia da República, algo que ele já fazia de forma automática, aturando os plenários enfadonhos em que metade dos deputados não estava a outra metade fazia de conta que estava.
À noite, ao regressar a casa, descansou no sofá e ligou a televisão. Saltou de canal em canal e foi vendo pedaços de diversos noticiários. Ao passar pelo novo canal de Matilde, não a encontrou a apresentar as notícias. Não era um turno dela.
Talvez fosse uma boa oportunidade para nova tentativa. Pegou no telemóvel e voltou a ligar-lhe. Desta vez tocou até passar para o atendedor automático. Leonardo insistiu. Tocou quatro ou cinco vezes até ser rejeitado pela destinatária.
Não havia dúvidas, ela não queria ouvi-lo.
Passados dois minutos, o telemóvel apitou a chegada de uma mensagem. Leonardo viu que era de Matilde e abriu com curiosidade.
“Por favor, pára de me ligar! Não quero voltar a falar contigo.”
Se dúvidas houvesse, aquilo dissipava-as por completo. Mesmo assim, ele digitou uma resposta.
“Estás a ser parva. Não tens razão para reagir assim. Eu gosto de ti.”
Esperou a resposta. Preferiria mil vezes argumentar de viva voz, ao invés de esgrimir argumentos por mensagem. A resposta não veio. Porém, ele não desistiu e enviou outra mensagem para o telemóvel dela.
“Estás a exagerar. Nada mudou no que sinto por ti, Matilde.”
Haveria resposta? Se houvesse, talvez se visse na eminência de responder à pergunta que pairara sobre eles no fim-de-semana: o que sentia ele por ela?
Novo apito de mensagem nova.
Leonardo abriu e leu-a.
“A tua atitude de ontem revelou as tuas prioridades. Não sou segunda escolha de ninguém.”
— Estou a começar a perder a paciência contigo. — disse ele para o telemóvel.
“Não foi uma escolha. Fui ajudar uma amiga numa fase difícil.”
Carregou no botão para enviar. A resposta veio quase de imediato.
“Sê feliz com a tua amiga fufa. E vê se me esqueces.”
A ofensa a Adriana irritou-o.
“Desculpa, cabra preconceituosa. Pensei que estava a falar com a mulher que adorava.”
Não houve mais mensagens nos dez minutos que se seguiram. Leonardo acabou por largar o telemóvel e dar o assunto por encerrado. Contudo, passado esse tempo, ecoou um novo apito.
“E aqui a cabra julgou ter encontrado o amor. Esquece que eu existo! Eu vou esquecer que um dia tive a infelicidade de te conhecer.”
Fim do capítulo

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