Capítulo XXIV
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Lisboa, a cidade das sete colinas que naquela manhã primaveril brilhava ao sabor dos raios solares. As encostas com os seus bairros típicos olhavam o rio a correr lentamente, passando pelas pontes e banhando as zonas ribeirinhas, atravessado aqui e ali por um e outro barco com a missão de ligar ambas as margens. Pelas ruas da capital, as pessoas moviam-se apressadas para chegarem aos seus empregos, ora a pé, ora nos transportes públicos ou até mesmo nos seus carros, quase ninguém tinha vontade de ir trabalhar e quase todos achavam que deveriam ser mais rápidos que os restantes.
Ao longe, Lisboa era uma cidade tranquila que se elevava pelas colinas sem ser grotesca na dimensão dos seus prédios. Uma cidade que crescera do rio para o interior, espalhando-se para norte, nascente e poente. A paisagem tinha os vícios dos grandes centros urbanos com a sua nuvem de poluição a pairar sobre si. O seu núcleo era como um formigueiro onde pela manhã as formigas humanas entravam em carreiros repetidos e ao anoitecer invertiam o passo para o abandonar.
Lisboa era uma cidade envelhecida que não cuidava dos seus velhos e mantinha as portas fechadas aos novos. O outrora coração da capital, a Baixa, morria a cada anoitecer, cada vez mais órfã dos seus naturais e fustigada pelos vírus da sociedade. Os que ali nasceram iam morrendo sem conseguir manter por ali a descendência. E a falta de povo, a falta daqueles que a amam fazia da Baixa um local de conquista para o vírus.
Claro que, pela manhã, trabalhadores e turista traziam vida. Não a suficiente para curar o vírus, mas pelo menos apagava-o um pouco. A vida continuava a querer fazer parte da Baixa. Só que a partida do Sol, a cada anoitecer, tornava a batalha inglória.
A riqueza criava raízes, montava as suas bancas de ostentação por ali. Criava postos de trabalho à força de mão-de-obra precária. Vendia sonhos que só alguns podiam tornar reais. Proliferavam as lojas que abafavam outras centenárias. Instalavam-se empresas que davam vida ao local com os seus funcionários movidos pelo stress. Todas geravam riqueza para poucos. E à noite, assistiam impávidas à crueldade da vida que levava muitos a usarem as suas entradas para terem um abrigo para dormir.
Lisboa cresce e evolui para novos bairros, deixando esquecidos os antigos, aqueles que a criaram e fizeram dela a sua grandeza. De tempos a tempos, lava esses locais, pintando-os para a opinião pública, como se isso lhe importasse, mas os vírus proliferam.
As pessoas acomodam-se, acreditam que nada podem fazer e deixam andar. Mantêm o mal porque encontrar o bem dá muito trabalho. Para quê criar um novo amanhecer, se ao fim do dia a noite volta? Podemos nós mudar a noite que chega? Não sei. Para já, mais um dia amanheceu em Lisboa.
O edifício onde a orquestra realizava os seus ensaios não tinha quase ninguém durante a manhã. As únicas pessoas que circulavam por ali eram as senhoras da limpeza que diariamente cuidavam da higiene do local.
Meia dúzia de funcionárias constituíam a equipa colocada ali por uma empresa do ramo para fazer o serviço. Tinham entre os vinte e poucos e os quarenta e muitos anos, sendo a mais velha a chefe do grupo.
Todas elas já faziam aquelas tarefas há tanto tempo que se tornava automático. Cada uma sabia onde começar, a área a abranger e onde terminar. Seis pessoas de enorme profissionalismo.
As limpezas decorriam com a normalidade de todos os dias.
De súbito, um grito ecoou pelos corredores, libertado por uma delas. As restantes correram em seu auxílio.
— Depressa! Chamem o 112, chamem a polícia. — pediu a senhora que gritara, às primeiras colegas que ali chegaram.
Assustadas, repararam no corpo caído no chão, sem vida, de uma rapariga. Uma delas antecipou-se e retirou o telemóvel do bolso da bata.
Quinze minutos mais tarde, três agentes da Polícia de Segurança Pública chegaram ao local. Estacionaram o carro patrulha em frente ao edifício e foram conduzidos pela senhora que fizera a descoberta até ao sítio onde o corpo permanecia.
A rapariga morta fora encontrada numa das zonas menos frequentadas do prédio, numa sala ao fundo de um corredor num dos pisos inferiores. Quase ninguém ia para ali, a menos que fosse buscar alguma coisa.
Assim que os polícias viram o corpo, perceberam que estavam perante um homicídio. Vedaram imediatamente o espaço e mantiveram o corpo imóvel até que chegasse o médico legista.
Na sede da Polícia Judiciária em Lisboa, a agente Sarsfield observava um relatório sentada na sua cadeira atrás de uma secretária cheia de papéis. Tinha trinta e dois anos e estava a pouco tempo de perfazer uma década em funções ali. A sua tez escura era uma herança do pai sul-africano e da mãe moçambicana, tal como o cabelo encaracolado. O seu olhar era inquisidor e o rosto pouco simpático. Quem lida com bandidos, não treina muitos sorrisos, costumava ela dizer.
O seu chefe entrou no gabinete que ela partilhava com mais cinco agentes. Cumprimentou-a com um neutral bom dia e questionou:
— Já há novidades sobre a mulher que desapareceu?
— Não.
— Alguma pista?
— Falámos com a família que disse que ela saíra no Domingo ao fim da tarde para apanhar o barco para Lisboa. — relatou Sarsfield. — Vinha encontrar-se com umas amigas. Também falámos com as amigas que nunca a chegaram a ver nesse fim de tarde.
— Ninguém a viu no barco?
— Ia quase vazio. Só que os tripulantes recordam-se dela. — prosseguiu. — Ao que parece, a mulher ia vestida de forma bem chamativa. E isso não passou despercebido aos homens do barco. — Fez uma pausa para olhar para uns papéis. — O Saúl conseguiu saber quem eles eram e falou com eles. Todos garantiram que ela saiu do barco no Cais do Sodré.
Saúl Peixoto era o seu parceiro na Polícia Judiciária, um homem mais simpático que ela, como se tivesse tomado para si o papel de polícia bom e deixado o polícia mau para Sarsfield. Tinha uma figura bem parecida e naqueles anos que fazia parceria com ela haviam criado uma boa amizade.
O chefe de ambos revelou o ar pensativo, digerindo as informações que ela lhe dera. A seguir, perguntou:
— E na estação fluvial? Ninguém a viu?
— Ontem falámos com o segurança que estava de serviço nessa tarde. Ele recorda-se de ter visto uma mulher de vinte e poucos anos, corpo escultural num vestido justo e saia muito curta. A descrição corresponde à que a família dera dela quando saiu de casa. Viu-a entrar na casa de banho das senhoras, mas depois teve de responder a um telefonema. Quando voltou, já não viu ninguém. A partir daí, já ninguém a viu.
O ar pensativo do chefe deu lugar a alguma apreensão. Sabia que não se adivinhava nada de bom. Nada fazia crer que ela tivesse fugido sem deixar rasto. Tudo apontava para crime.
Nesse instante, Saúl entrou no gabinete, cruzando-se com o chefe que ia a sair.
— Bom dia, Marciana! — cumprimentou ele.
Saul tratava-a fraternalmente por Marciana, uma vez que o seu nome completo era Márcia Ana Sarsfield.
Ela retribuiu o cumprimento com um sorriso torcido.
— Estás a ler os testemunhos sobre a mulher desaparecida? — Márcia assentiu. — Devíamos tentar encontrar as pessoas que iam no barco com ela.
— Isso é quase impossível.
— Temos as câmaras de vigilância da estação.
— Não filmaram nesse momento. — informou ela com um tom vencido. — Houve uma avaria durante a tarde no sistema informático. Só no dia seguinte é que repuseram tudo a funcionar.
— Bolas…
Nesse momento, o chefe regressou ao gabinete com um papel na mão.
— Peixoto! Sarsfield! Preciso que vão a esta morada. Parece que encontraram uma mulher assassinada.
Saúl e Márcia entraram no edifício de ensaios da orquestra e mostraram os seus distintivos ao polícia que bloqueava a entrada. Este abriu passagem e indicou-lhes o caminho que deveriam seguir. Desceram as escadas e atravessaram o corredor, reparando ao fundo nos dois polícias e na fita que vedava o local do crime.
— Bom dia! Agente Sarsfield! — apresentou-se Márcia. Depois, apontou para o colega. — Este é o agente Peixoto. Somos da Polícia Judiciária. — A informação foi confirmada com nova amostragem dos distintivos.
O polícia da PSP anuiu e partilhou as informações que recolhera:
— A vítima é uma rapariga de quinze anos chamada Magdalena Popov. Quem a encontrou foi uma das senhoras da limpeza. Ao que apurámos, faz parte da orquestra.
— Popov? — interrogou Saúl. — Não é portuguesa.
— Isso ainda não conseguimos confirmar.
Márcia ultrapassou as fitas riscadas a azul e branco com as iniciais “PSP” e ajoelhou-se ao lado do corpo. Observou-a por alguns segundos sem lhe tocar.
— Não quisemos mexer em nada até vocês virem. — disse o polícia.
— Ela foi estrangulada. — constatou Márcia, reparando nas marcas no pescoço da rapariga.
Saúl ultrapassou também a fita e ajoelhou-se ao lado da parceira.
— Estás a ver? — indicou ela.
O pescoço de Magdalena revelava uma linha escura em toda a volta.
Ao lado do corpo, a mala da jovem ficara caída com algum do conteúdo derramado. Tanto Márcia como Saúl calçaram luvas para mexerem nos objectos sem os comprometer.
— Ela tem dupla nacionalidade. — disse Saúl com a identificação da vítima na mão. — É luso-moldava.
— Há alguma coisa suspeita na mala, Saúl?
— Não. Tudo coisas próprias de uma rapariga da idade dela.
A agente Sarsfield pegou no telemóvel e solicitou uma ambulância para transportar o corpo para a morgue, de forma a ser analisado pelo médico legista.
Quando o corpo de Magdalena estava a ser retirado do local numa maca, o maestro Rudolph Norton Vila chegou ao edifício. Fora informado pela empresa da equipa de limpeza do sucedido, mas só conseguira chegar naquele momento.
Na rua, o aparato do carro da polícia e da ambulância chamavam a atenção de quem ia a passar. E quando se viu uma maca com um volume coberto, ninguém teve dúvidas de que ia ali um cadáver.
Rudolph identificou-se às autoridades para poder entrar. Um dos polícias encaminhou-o até aos agentes da Judiciária.
— O senhor é o maestro da orquestra? — indagou Márcia.
— Sim.
— Conhecia bem a vítima?
— Conhecia tão bem quanto todos os outros membros, à excepção do meu filho e da minha futura nora.
— Também são da orquestra? — A pergunta de Saúl procurava confirmar dados.
— Sim. Ele é pianista e ela é violinista. — Rudolph estava notoriamente tenso. — Têm ideia de quem pode ter feito isto?
— É o que estamos a investigar. — retorquiu Saúl.
Observadora, Márcia questionou:
— O senhor parece nervoso. Alguma coisa que o preocupe?
— Isto é terrível para a imagem da orquestra.
Márcia abanou a cabeça, incrédula.
— Vai desculpar-me, mas isso é o que menos nos preocupa agora.
— Sabe de alguém que pudesse querer mal à rapariga? — inquiriu Saúl, olhando-o com curiosidade.
Rudolph fingiu não reparar e respondeu:
— Não faço ideia. A Magdalena era uma rapariga gentil. Toda a gente gostava dela. — Os agentes iam dar-se por satisfeitos com a resposta, mas o maestro decidiu adicionar mais. — Só o namorado é que parecia estar chateado com ela.
— Como assim? — questionou Márcia de imediato.
— Há uns tempos para cá que notei que havia algum afastamento entre eles. E alguns colegas da orquestra assistiram a uma discussão.
— Sabe a razão da discussão?
— Não.
— Precisaremos de falar com os colegas que assistiram.
— Talvez devessem falar também com o namorado. — sugeriu Rudolph.
Os agentes fulminaram-no com o olhar por ele ter tido o atrevimento de tentar ensinar-lhes a sua profissão. No entanto, limitaram-se a perguntar:
— Quem é o namorado?
— Manuel Mokenga. É angolano.
A agente Sarsfield questionou mentalmente se a referência “angolano” era uma dica para o tornar suspeito.
— Sabe onde ele vive?
— Sim. — confirmou Rudolph ao agente Peixoto.
O maestro forneceu toda a informação necessária acerca do jovem angolano. Se dependesse dele, passaria o interrogatório e atiraria com Manuel para os calabouços da Judiciária. Desejava que ele fosse considerado culpado, pois não só se livrava do “preto” com ainda ficava com argumentos para recusar outros na orquestra.
Manuel Mokenga vivia nos arredores de Lisboa num bairro perfeitamente normal. Os agentes Peixoto e Sarsfield foram encontrá-lo numa pastelaria ao fundo da sua rua, a tomar um café antes de apanhar o autocarro para ir ao ensaio.
— Senhor Manuel Mokenga? — interpelou Márcia.
— Sim. — confirmou ele com estranheza.
Para não levantar boatos que prejudicassem o jovem, eles não apresentaram a identificação, limitando-se a dizer:
— Somos da Polícia Judiciária. Precisamos de lhe fazer umas perguntas. Pode acompanhar-nos? — Manuel mostrou-se desconfiado. — Se quiser, podemos mostrar-lhe a identificação aqui.
Ele abanou a cabeça.
— Porque querem falar comigo?
— Venha connosco. Já lhe explicamos tudo.
Os três saíram do café. Caminharam em silêncio até ao carro. Saúl abriu a porta traseira do lado direito, pedindo a Manuel que entrasse para o lado oposto do banco. A seguir, entrou atrás dele, enquanto Márcia se sentou no lugar ao lado do condutor.
— Tem uma namorada de nome Magdalena Popov? — perguntou Saúl.
A questão surpreendeu Manuel. Hesitou na resposta, mas acabou por dizer:
— Ex-namorada. Nós já não namoramos.
— Qual foi a razão do fim do namoro?
— Não me parece que isso vos diga respeito. — retorquiu o jovem.
Márcia interveio de forma áspera:
— Diz-nos respeito a partir do momento em que a sua ex namorada foi assassinada.
Manuel ficou boquiaberto.
Os agentes esperaram uma reacção de tristeza, amargura, infelicidade pela morte de alguém que se ama ou amara. Manuel revelou se chocado. Porém, a raiva que sentia por ela não o deixaram aparentar mais que um semblante de consternação.
— Porque razão acabou o namoro? — repetiu Saúl.
— Ela enganou-me.
A agente Sarsfield esboçou um sorriso e concluiu:
— Está explicado, Peixoto. Temos um crime passional.
— Nada disso. — refutou Manuel.
— Confessa! Ela traiu-te e tu decidiste lavar a honra com a vida dela.
— Não! — continuou ele a negar. — Já não falo com ela há vários dias. E só a vejo nos ensaios.
— Não acredito em ti, pá.
— Calma, Márcia. — pediu Saúl no seu papel de polícia bom. Olhou para Manuel. — Onde é que esteve ontem?
— Em casa.
— Alguém pode confirmar isso?
— Os meus pais.
Saúl anuiu e disse-lhe que podia ir embora, avisando que não poderia ausentar-se da região e que os pais teriam de prestar declarações na Judiciária.
Ele tinha testemunhas, mas isso não o retirou da lista dos suspeitos. Os pais a confirmar que ele esteve em casa. Que pais não protegeriam um filho assassino?
Os agentes Peixoto e Sarsfield abandonaram o bairro e seguiram rumo ao Instituto de Medicina Legal para obter o relatório da autópsia.
Na orquestra, o ambiente era de consternação. Todos os músicos foram chegando para o ensaio que acabou por não se realizar. Havia um burburinho entre eles, comentários sobre o que teria acontecido, sobre a infelicidade de se perder uma jovem tão talentosa. Ninguém compreendia por que razão alguém haveria de querer matar uma rapariga tão simpática.
Rudolph acercou-se de José e Zahra para desabafar os momentos tensos por ter de prestar declarações a agentes da Judiciária.
— Isto é péssimo para a nossa imagem. — repetia o maestro.
— Pobre rapariga. — lamentou Zahra. — Nunca falei muito com ela, mas parecia ser uma doçura de menina.
— Toda a gente gostava dela. — adicionou José.
Quando Manuel entrou no anfiteatro, muitos colegas aproximaram-se para o confortar e dar-lhe uma palavra sentida sobre a sua perda. Muitos sabiam que o namoro acabara, mas isso tornou-se irrelevante.
— Cá para mim, foi ele que a matou. — sussurrou Rudolph.
— Não creio. — refutou José. — É um paz-de-alma. Não me parece capaz de matar uma mosca, sequer.
— São os piores, filho. — insistiu o maestro.
Zahra manteve-se à parte dos comentários. Tal como o noivo, não acreditava que o rapaz fosse um assassino.
José olhou à volta.
— Se calhar, o assassino está onde menos se espera.
— Porque dizes isso? — questionou o pai.
Na verdade, qualquer um deles tinha razões para a querer morta. Rudolph estava a ser chantageado com a filmagem no seu gabinete a praticar sexo oral com Magdalena. José estava a ser chantageado com a revelação ao seu pai de ser o mentor da filmagem. Manuel fora ameaçado com uma navalha e violado por Magdalena. E, em último caso, até Zahra beneficiaria com a morte dela, desde que o noivo a levara a acreditar que Magdalena sabia do seu caso com Adriana e iria denunciá-la ao maestro.
Se a polícia tivesse conhecimento disso, tinha já vários suspeitos.
Longe desses factos, os agentes conversaram com o médico que executou a autópsia. Tiveram de esperar toda a tarde para obter o resultado.
O médico legista, um homem na casa dos sessenta anos, iria ainda redigir o relatório para ser apenso ao processo de investigação do homicídio. No entanto, perante a espera exasperante dos agentes, ele transmitiu-lhes de viva voz as conclusões a que chegara.
Magdalena Popov fora assassinada entre as oito e as dez horas da noite anterior. Não apresentava sinais de agressões para além das marcas no pescoço provocadas por uma corda que serviu como arma do crime. Em toda a busca feita no local, essa corda não foi encontrada. Mesmo assim, o médico explicou-lhes que os vestígios da fibra da corda encontrados no pescoço haviam sido enviados para o laboratório para serem analisados. Sendo a única lesão, seria correcto chegar à conclusão que ela fora para ali de livre vontade. Restava saber se com o assassino ou se surpreendera alguém por ali e, por isso, perdera a vida. Tanto as roupas como todos os pertences da vítima foram enviados igualmente para o laboratório forense para se tentar encontrar alguma pista que pudesse denunciar o assassino.
Na área pública do instituto, os pais de Magdalena aguardavam chorosos que lhes fosse permitido ver o corpo da filha. Com eles, estavam já elementos da agência funerária para transportar o corpo para que pudesse ser velado pela família e amigos.
Saúl e Márcia sabiam que não era a melhor altura para falar com eles. No entanto, eles estavam ali e podia ser que houvesse algo que lhes abrisse um novo caminho na investigação. Aproximaram-se do casal e apresentaram-se.
Não tinham intensão de fazer perguntas, apenas dar uma palavra e mostrar uma postura simpática que os fizesse serem bem recebidos quando tivessem mesmo que os interrogar e fazer algumas perguntas inconvenientes. Limitaram-se a dizer que eram agentes da Polícia Judiciária, que lamentavam a morte da filha, que eram os responsáveis pela investigação e que não descansariam enquanto não apanhassem o assassino.
Num português massacrado pelo sotaque de leste, eles agradeceram.
Contudo, para sua surpresa, a mãe de Magdalena perguntou se eles tinham encontrado o diário da jovem. Talvez ele pudesse conter alguma pista. Saúl explicou que nenhum diário se encontrava nas coisas dela no local do crime. A mãe contrapôs que em casa também não estava.
Sabendo que esse elemento poderia ser muito importante, Márcia pediu aos pais de Magdalena se poderiam oportunamente passar pela casa deles para analisar tudo o que pertencesse à jovem moldava. Eles consentiram na esperança que isso levasse os agentes ao assassino.
Ao longe, Lisboa era uma cidade tranquila que se elevava pelas colinas sem ser grotesca na dimensão dos seus prédios. Uma cidade que crescera do rio para o interior, espalhando-se para norte, nascente e poente. A paisagem tinha os vícios dos grandes centros urbanos com a sua nuvem de poluição a pairar sobre si. O seu núcleo era como um formigueiro onde pela manhã as formigas humanas entravam em carreiros repetidos e ao anoitecer invertiam o passo para o abandonar.
Lisboa era uma cidade envelhecida que não cuidava dos seus velhos e mantinha as portas fechadas aos novos. O outrora coração da capital, a Baixa, morria a cada anoitecer, cada vez mais órfã dos seus naturais e fustigada pelos vírus da sociedade. Os que ali nasceram iam morrendo sem conseguir manter por ali a descendência. E a falta de povo, a falta daqueles que a amam fazia da Baixa um local de conquista para o vírus.
Claro que, pela manhã, trabalhadores e turista traziam vida. Não a suficiente para curar o vírus, mas pelo menos apagava-o um pouco. A vida continuava a querer fazer parte da Baixa. Só que a partida do Sol, a cada anoitecer, tornava a batalha inglória.
A riqueza criava raízes, montava as suas bancas de ostentação por ali. Criava postos de trabalho à força de mão-de-obra precária. Vendia sonhos que só alguns podiam tornar reais. Proliferavam as lojas que abafavam outras centenárias. Instalavam-se empresas que davam vida ao local com os seus funcionários movidos pelo stress. Todas geravam riqueza para poucos. E à noite, assistiam impávidas à crueldade da vida que levava muitos a usarem as suas entradas para terem um abrigo para dormir.
Lisboa cresce e evolui para novos bairros, deixando esquecidos os antigos, aqueles que a criaram e fizeram dela a sua grandeza. De tempos a tempos, lava esses locais, pintando-os para a opinião pública, como se isso lhe importasse, mas os vírus proliferam.
As pessoas acomodam-se, acreditam que nada podem fazer e deixam andar. Mantêm o mal porque encontrar o bem dá muito trabalho. Para quê criar um novo amanhecer, se ao fim do dia a noite volta? Podemos nós mudar a noite que chega? Não sei. Para já, mais um dia amanheceu em Lisboa.
O edifício onde a orquestra realizava os seus ensaios não tinha quase ninguém durante a manhã. As únicas pessoas que circulavam por ali eram as senhoras da limpeza que diariamente cuidavam da higiene do local.
Meia dúzia de funcionárias constituíam a equipa colocada ali por uma empresa do ramo para fazer o serviço. Tinham entre os vinte e poucos e os quarenta e muitos anos, sendo a mais velha a chefe do grupo.
Todas elas já faziam aquelas tarefas há tanto tempo que se tornava automático. Cada uma sabia onde começar, a área a abranger e onde terminar. Seis pessoas de enorme profissionalismo.
As limpezas decorriam com a normalidade de todos os dias.
De súbito, um grito ecoou pelos corredores, libertado por uma delas. As restantes correram em seu auxílio.
— Depressa! Chamem o 112, chamem a polícia. — pediu a senhora que gritara, às primeiras colegas que ali chegaram.
Assustadas, repararam no corpo caído no chão, sem vida, de uma rapariga. Uma delas antecipou-se e retirou o telemóvel do bolso da bata.
Quinze minutos mais tarde, três agentes da Polícia de Segurança Pública chegaram ao local. Estacionaram o carro patrulha em frente ao edifício e foram conduzidos pela senhora que fizera a descoberta até ao sítio onde o corpo permanecia.
A rapariga morta fora encontrada numa das zonas menos frequentadas do prédio, numa sala ao fundo de um corredor num dos pisos inferiores. Quase ninguém ia para ali, a menos que fosse buscar alguma coisa.
Assim que os polícias viram o corpo, perceberam que estavam perante um homicídio. Vedaram imediatamente o espaço e mantiveram o corpo imóvel até que chegasse o médico legista.
Na sede da Polícia Judiciária em Lisboa, a agente Sarsfield observava um relatório sentada na sua cadeira atrás de uma secretária cheia de papéis. Tinha trinta e dois anos e estava a pouco tempo de perfazer uma década em funções ali. A sua tez escura era uma herança do pai sul-africano e da mãe moçambicana, tal como o cabelo encaracolado. O seu olhar era inquisidor e o rosto pouco simpático. Quem lida com bandidos, não treina muitos sorrisos, costumava ela dizer.
O seu chefe entrou no gabinete que ela partilhava com mais cinco agentes. Cumprimentou-a com um neutral bom dia e questionou:
— Já há novidades sobre a mulher que desapareceu?
— Não.
— Alguma pista?
— Falámos com a família que disse que ela saíra no Domingo ao fim da tarde para apanhar o barco para Lisboa. — relatou Sarsfield. — Vinha encontrar-se com umas amigas. Também falámos com as amigas que nunca a chegaram a ver nesse fim de tarde.
— Ninguém a viu no barco?
— Ia quase vazio. Só que os tripulantes recordam-se dela. — prosseguiu. — Ao que parece, a mulher ia vestida de forma bem chamativa. E isso não passou despercebido aos homens do barco. — Fez uma pausa para olhar para uns papéis. — O Saúl conseguiu saber quem eles eram e falou com eles. Todos garantiram que ela saiu do barco no Cais do Sodré.
Saúl Peixoto era o seu parceiro na Polícia Judiciária, um homem mais simpático que ela, como se tivesse tomado para si o papel de polícia bom e deixado o polícia mau para Sarsfield. Tinha uma figura bem parecida e naqueles anos que fazia parceria com ela haviam criado uma boa amizade.
O chefe de ambos revelou o ar pensativo, digerindo as informações que ela lhe dera. A seguir, perguntou:
— E na estação fluvial? Ninguém a viu?
— Ontem falámos com o segurança que estava de serviço nessa tarde. Ele recorda-se de ter visto uma mulher de vinte e poucos anos, corpo escultural num vestido justo e saia muito curta. A descrição corresponde à que a família dera dela quando saiu de casa. Viu-a entrar na casa de banho das senhoras, mas depois teve de responder a um telefonema. Quando voltou, já não viu ninguém. A partir daí, já ninguém a viu.
O ar pensativo do chefe deu lugar a alguma apreensão. Sabia que não se adivinhava nada de bom. Nada fazia crer que ela tivesse fugido sem deixar rasto. Tudo apontava para crime.
Nesse instante, Saúl entrou no gabinete, cruzando-se com o chefe que ia a sair.
— Bom dia, Marciana! — cumprimentou ele.
Saul tratava-a fraternalmente por Marciana, uma vez que o seu nome completo era Márcia Ana Sarsfield.
Ela retribuiu o cumprimento com um sorriso torcido.
— Estás a ler os testemunhos sobre a mulher desaparecida? — Márcia assentiu. — Devíamos tentar encontrar as pessoas que iam no barco com ela.
— Isso é quase impossível.
— Temos as câmaras de vigilância da estação.
— Não filmaram nesse momento. — informou ela com um tom vencido. — Houve uma avaria durante a tarde no sistema informático. Só no dia seguinte é que repuseram tudo a funcionar.
— Bolas…
Nesse momento, o chefe regressou ao gabinete com um papel na mão.
— Peixoto! Sarsfield! Preciso que vão a esta morada. Parece que encontraram uma mulher assassinada.
Saúl e Márcia entraram no edifício de ensaios da orquestra e mostraram os seus distintivos ao polícia que bloqueava a entrada. Este abriu passagem e indicou-lhes o caminho que deveriam seguir. Desceram as escadas e atravessaram o corredor, reparando ao fundo nos dois polícias e na fita que vedava o local do crime.
— Bom dia! Agente Sarsfield! — apresentou-se Márcia. Depois, apontou para o colega. — Este é o agente Peixoto. Somos da Polícia Judiciária. — A informação foi confirmada com nova amostragem dos distintivos.
O polícia da PSP anuiu e partilhou as informações que recolhera:
— A vítima é uma rapariga de quinze anos chamada Magdalena Popov. Quem a encontrou foi uma das senhoras da limpeza. Ao que apurámos, faz parte da orquestra.
— Popov? — interrogou Saúl. — Não é portuguesa.
— Isso ainda não conseguimos confirmar.
Márcia ultrapassou as fitas riscadas a azul e branco com as iniciais “PSP” e ajoelhou-se ao lado do corpo. Observou-a por alguns segundos sem lhe tocar.
— Não quisemos mexer em nada até vocês virem. — disse o polícia.
— Ela foi estrangulada. — constatou Márcia, reparando nas marcas no pescoço da rapariga.
Saúl ultrapassou também a fita e ajoelhou-se ao lado da parceira.
— Estás a ver? — indicou ela.
O pescoço de Magdalena revelava uma linha escura em toda a volta.
Ao lado do corpo, a mala da jovem ficara caída com algum do conteúdo derramado. Tanto Márcia como Saúl calçaram luvas para mexerem nos objectos sem os comprometer.
— Ela tem dupla nacionalidade. — disse Saúl com a identificação da vítima na mão. — É luso-moldava.
— Há alguma coisa suspeita na mala, Saúl?
— Não. Tudo coisas próprias de uma rapariga da idade dela.
A agente Sarsfield pegou no telemóvel e solicitou uma ambulância para transportar o corpo para a morgue, de forma a ser analisado pelo médico legista.
Quando o corpo de Magdalena estava a ser retirado do local numa maca, o maestro Rudolph Norton Vila chegou ao edifício. Fora informado pela empresa da equipa de limpeza do sucedido, mas só conseguira chegar naquele momento.
Na rua, o aparato do carro da polícia e da ambulância chamavam a atenção de quem ia a passar. E quando se viu uma maca com um volume coberto, ninguém teve dúvidas de que ia ali um cadáver.
Rudolph identificou-se às autoridades para poder entrar. Um dos polícias encaminhou-o até aos agentes da Judiciária.
— O senhor é o maestro da orquestra? — indagou Márcia.
— Sim.
— Conhecia bem a vítima?
— Conhecia tão bem quanto todos os outros membros, à excepção do meu filho e da minha futura nora.
— Também são da orquestra? — A pergunta de Saúl procurava confirmar dados.
— Sim. Ele é pianista e ela é violinista. — Rudolph estava notoriamente tenso. — Têm ideia de quem pode ter feito isto?
— É o que estamos a investigar. — retorquiu Saúl.
Observadora, Márcia questionou:
— O senhor parece nervoso. Alguma coisa que o preocupe?
— Isto é terrível para a imagem da orquestra.
Márcia abanou a cabeça, incrédula.
— Vai desculpar-me, mas isso é o que menos nos preocupa agora.
— Sabe de alguém que pudesse querer mal à rapariga? — inquiriu Saúl, olhando-o com curiosidade.
Rudolph fingiu não reparar e respondeu:
— Não faço ideia. A Magdalena era uma rapariga gentil. Toda a gente gostava dela. — Os agentes iam dar-se por satisfeitos com a resposta, mas o maestro decidiu adicionar mais. — Só o namorado é que parecia estar chateado com ela.
— Como assim? — questionou Márcia de imediato.
— Há uns tempos para cá que notei que havia algum afastamento entre eles. E alguns colegas da orquestra assistiram a uma discussão.
— Sabe a razão da discussão?
— Não.
— Precisaremos de falar com os colegas que assistiram.
— Talvez devessem falar também com o namorado. — sugeriu Rudolph.
Os agentes fulminaram-no com o olhar por ele ter tido o atrevimento de tentar ensinar-lhes a sua profissão. No entanto, limitaram-se a perguntar:
— Quem é o namorado?
— Manuel Mokenga. É angolano.
A agente Sarsfield questionou mentalmente se a referência “angolano” era uma dica para o tornar suspeito.
— Sabe onde ele vive?
— Sim. — confirmou Rudolph ao agente Peixoto.
O maestro forneceu toda a informação necessária acerca do jovem angolano. Se dependesse dele, passaria o interrogatório e atiraria com Manuel para os calabouços da Judiciária. Desejava que ele fosse considerado culpado, pois não só se livrava do “preto” com ainda ficava com argumentos para recusar outros na orquestra.
Manuel Mokenga vivia nos arredores de Lisboa num bairro perfeitamente normal. Os agentes Peixoto e Sarsfield foram encontrá-lo numa pastelaria ao fundo da sua rua, a tomar um café antes de apanhar o autocarro para ir ao ensaio.
— Senhor Manuel Mokenga? — interpelou Márcia.
— Sim. — confirmou ele com estranheza.
Para não levantar boatos que prejudicassem o jovem, eles não apresentaram a identificação, limitando-se a dizer:
— Somos da Polícia Judiciária. Precisamos de lhe fazer umas perguntas. Pode acompanhar-nos? — Manuel mostrou-se desconfiado. — Se quiser, podemos mostrar-lhe a identificação aqui.
Ele abanou a cabeça.
— Porque querem falar comigo?
— Venha connosco. Já lhe explicamos tudo.
Os três saíram do café. Caminharam em silêncio até ao carro. Saúl abriu a porta traseira do lado direito, pedindo a Manuel que entrasse para o lado oposto do banco. A seguir, entrou atrás dele, enquanto Márcia se sentou no lugar ao lado do condutor.
— Tem uma namorada de nome Magdalena Popov? — perguntou Saúl.
A questão surpreendeu Manuel. Hesitou na resposta, mas acabou por dizer:
— Ex-namorada. Nós já não namoramos.
— Qual foi a razão do fim do namoro?
— Não me parece que isso vos diga respeito. — retorquiu o jovem.
Márcia interveio de forma áspera:
— Diz-nos respeito a partir do momento em que a sua ex namorada foi assassinada.
Manuel ficou boquiaberto.
Os agentes esperaram uma reacção de tristeza, amargura, infelicidade pela morte de alguém que se ama ou amara. Manuel revelou se chocado. Porém, a raiva que sentia por ela não o deixaram aparentar mais que um semblante de consternação.
— Porque razão acabou o namoro? — repetiu Saúl.
— Ela enganou-me.
A agente Sarsfield esboçou um sorriso e concluiu:
— Está explicado, Peixoto. Temos um crime passional.
— Nada disso. — refutou Manuel.
— Confessa! Ela traiu-te e tu decidiste lavar a honra com a vida dela.
— Não! — continuou ele a negar. — Já não falo com ela há vários dias. E só a vejo nos ensaios.
— Não acredito em ti, pá.
— Calma, Márcia. — pediu Saúl no seu papel de polícia bom. Olhou para Manuel. — Onde é que esteve ontem?
— Em casa.
— Alguém pode confirmar isso?
— Os meus pais.
Saúl anuiu e disse-lhe que podia ir embora, avisando que não poderia ausentar-se da região e que os pais teriam de prestar declarações na Judiciária.
Ele tinha testemunhas, mas isso não o retirou da lista dos suspeitos. Os pais a confirmar que ele esteve em casa. Que pais não protegeriam um filho assassino?
Os agentes Peixoto e Sarsfield abandonaram o bairro e seguiram rumo ao Instituto de Medicina Legal para obter o relatório da autópsia.
Na orquestra, o ambiente era de consternação. Todos os músicos foram chegando para o ensaio que acabou por não se realizar. Havia um burburinho entre eles, comentários sobre o que teria acontecido, sobre a infelicidade de se perder uma jovem tão talentosa. Ninguém compreendia por que razão alguém haveria de querer matar uma rapariga tão simpática.
Rudolph acercou-se de José e Zahra para desabafar os momentos tensos por ter de prestar declarações a agentes da Judiciária.
— Isto é péssimo para a nossa imagem. — repetia o maestro.
— Pobre rapariga. — lamentou Zahra. — Nunca falei muito com ela, mas parecia ser uma doçura de menina.
— Toda a gente gostava dela. — adicionou José.
Quando Manuel entrou no anfiteatro, muitos colegas aproximaram-se para o confortar e dar-lhe uma palavra sentida sobre a sua perda. Muitos sabiam que o namoro acabara, mas isso tornou-se irrelevante.
— Cá para mim, foi ele que a matou. — sussurrou Rudolph.
— Não creio. — refutou José. — É um paz-de-alma. Não me parece capaz de matar uma mosca, sequer.
— São os piores, filho. — insistiu o maestro.
Zahra manteve-se à parte dos comentários. Tal como o noivo, não acreditava que o rapaz fosse um assassino.
José olhou à volta.
— Se calhar, o assassino está onde menos se espera.
— Porque dizes isso? — questionou o pai.
Na verdade, qualquer um deles tinha razões para a querer morta. Rudolph estava a ser chantageado com a filmagem no seu gabinete a praticar sexo oral com Magdalena. José estava a ser chantageado com a revelação ao seu pai de ser o mentor da filmagem. Manuel fora ameaçado com uma navalha e violado por Magdalena. E, em último caso, até Zahra beneficiaria com a morte dela, desde que o noivo a levara a acreditar que Magdalena sabia do seu caso com Adriana e iria denunciá-la ao maestro.
Se a polícia tivesse conhecimento disso, tinha já vários suspeitos.
Longe desses factos, os agentes conversaram com o médico que executou a autópsia. Tiveram de esperar toda a tarde para obter o resultado.
O médico legista, um homem na casa dos sessenta anos, iria ainda redigir o relatório para ser apenso ao processo de investigação do homicídio. No entanto, perante a espera exasperante dos agentes, ele transmitiu-lhes de viva voz as conclusões a que chegara.
Magdalena Popov fora assassinada entre as oito e as dez horas da noite anterior. Não apresentava sinais de agressões para além das marcas no pescoço provocadas por uma corda que serviu como arma do crime. Em toda a busca feita no local, essa corda não foi encontrada. Mesmo assim, o médico explicou-lhes que os vestígios da fibra da corda encontrados no pescoço haviam sido enviados para o laboratório para serem analisados. Sendo a única lesão, seria correcto chegar à conclusão que ela fora para ali de livre vontade. Restava saber se com o assassino ou se surpreendera alguém por ali e, por isso, perdera a vida. Tanto as roupas como todos os pertences da vítima foram enviados igualmente para o laboratório forense para se tentar encontrar alguma pista que pudesse denunciar o assassino.
Na área pública do instituto, os pais de Magdalena aguardavam chorosos que lhes fosse permitido ver o corpo da filha. Com eles, estavam já elementos da agência funerária para transportar o corpo para que pudesse ser velado pela família e amigos.
Saúl e Márcia sabiam que não era a melhor altura para falar com eles. No entanto, eles estavam ali e podia ser que houvesse algo que lhes abrisse um novo caminho na investigação. Aproximaram-se do casal e apresentaram-se.
Não tinham intensão de fazer perguntas, apenas dar uma palavra e mostrar uma postura simpática que os fizesse serem bem recebidos quando tivessem mesmo que os interrogar e fazer algumas perguntas inconvenientes. Limitaram-se a dizer que eram agentes da Polícia Judiciária, que lamentavam a morte da filha, que eram os responsáveis pela investigação e que não descansariam enquanto não apanhassem o assassino.
Num português massacrado pelo sotaque de leste, eles agradeceram.
Contudo, para sua surpresa, a mãe de Magdalena perguntou se eles tinham encontrado o diário da jovem. Talvez ele pudesse conter alguma pista. Saúl explicou que nenhum diário se encontrava nas coisas dela no local do crime. A mãe contrapôs que em casa também não estava.
Sabendo que esse elemento poderia ser muito importante, Márcia pediu aos pais de Magdalena se poderiam oportunamente passar pela casa deles para analisar tudo o que pertencesse à jovem moldava. Eles consentiram na esperança que isso levasse os agentes ao assassino.