DANÇANDO NO VIOLINO · Capítulo 26

Capítulo XXVI

≈ 16 min de leitura

Os agentes Peixoto e Sarsfield entraram no seu gabinete da Polícia Judiciária, vindos da visita à casa da família de Magdalena. Saúl carregava debaixo do braço o computador portátil que pertencera à jovem para poder ser analisado. O aparelho tinha de ir às mãos dos informáticos da polícia porque continha um acesso vedado com utilizador e palavra-passe.
Para além do computador, a revista aos pertences da vítima não dera em nada. Nem o suposto diário encontraram, o que os levava a crer que o assassino ficara com ele.
O chefe de ambos entrou no gabinete no momento em que Saúl saiu para se dirigir ao departamento informático.
— Então, Márcia? Como está a decorrer a investigação? — perguntou o chefe, junto da secretária dela.
— Viemos agora da casa dos pais. — relatou desmotivada. — Vasculhámos tudo, principalmente o quarto da miúda. Não encontrámos nada de relevante.
— O computador? — lembrou ele, apontando para a porta por onde o colega dela saíra.
— Pode ser que tenha alguma coisa. O Saúl foi falar com os informáticos para conseguirem aceder à informação contida no disco. — Márcia passou a mão pelo cabelo despenteado. Era uma mulher bonita e as suas raízes africanas atribuíam-lhe uma imagem sedutora que ela nunca se preocupara em cultivar. — Está a ser complexo, este caso.
O chefe abanou a cabeça.
— São todos.
Márcia assentiu e continuou:
— Os pais garantem que a miúda tinha um diário que guardava religiosamente consigo. Tinha-o sempre na mala e levava-o para todo o lado. Escrevia todos os dias nele. — Suspirou. — Nós não o encontrámos no local do crime. Havia várias coisas dela espalhadas no chão, mas nem sinal desse diário.
— Achas que o assassino o levou?
— Quase de certeza. — confirmou a agente. — E isso só pode significar que o diário poderia ter alguma coisa que nos levasse ao assassino.
— Alguém que ela conhecia.
— Certamente. Ninguém vai para aquele local do edifício. Falámos com as senhoras da limpeza que nos disseram que só elas é que costumam passar por ali. São zonas de arquivo, arrumos, sítios sem interesse para os músicos. Só vai para ali quem se quer esconder de alguma coisa.
— Porque haveria a miúda de se querer esconder?
— Não me parece que quisesse esconder-se. Mas pode ter sido conduzida ali por alguém que não queria ser visto com ela.
— Teria de ser alguém em quem ela confiava. — concluiu o chefe. — Caso contrário, não iria de livre vontade.
— Podia ter sido ameaçada.
— Quem foram as últimas pessoas a vê-la com vida?
— Os colegas. — Márcia socorreu-se dos seus apontamentos. — Falámos com todos. A maior parte não reparou ou não se lembra dela, nessa tarde. Mas, alguns lembram-se de a ter visto no fim do ensaio a guardar as coisas e a receber um telefonema. Não sabem quem era, mas ela ficou a conversar animada numa das cadeiras do anfiteatro. Deve ter permanecido ali até ao fim do telefonema, altura em que já não estava ninguém no edifício.
— À excepção do assassino.
— Pois…
Nesse instante, Saúl regressou ao gabinete com o computador portátil de Magdalena. Com programas específicos para o efeito, os informáticos haviam desbloqueado o acesso ao aparelho, pelo que ele poderia analisar o seu conteúdo. Sentou-se na sua cadeira e começou a pesquisa.
Sem mais novidades acerca do caso, o chefe abandonou a sala.
Saúl foi muito minucioso na pesquisa de dados no computador. Entrou no disco e começou a abrir as pastas, uma a uma, para analisar todos os ficheiros. As primeiras não tinham importância, pastas e ficheiros de sistema. Continuou, avançando para outra mais pessoal com documentos de utilizador. Encontrou ficheiros de músicas, ficheiros de word com letras de músicas, pautas de música para flauta e uma pasta com o nome “baby angel movies”. Abriu-a.
Todos os ficheiros contidos naquela pasta eram de filmes e estavam numerados com o intuito de ficaram listados cronologicamente. O primeiro chamava-se “casting”. Saúl abriu-o.
O ecrã de computador transformou-se num ecrã de televisão com o filme a ocupar toda a área. O genérico surgiu com o título “Hot Castings”, seguido de “Presenting Baby Angel”.
O ecrã negro de letras rosadas deu lugar à imagem de um quarto de hotel. Quem filmava rodou o ângulo até se centrar numa rapariga sentada na cama. Saúl ficou perplexo.
— Anda cá ver isto! — chamou ele.
Márcia levantou-se do seu lugar e caminhou até ele, parando atrás da sua cadeira.
— É ela?
— Tens dúvidas?
Magdalena estava sentada ao fundo de uma cama de hotel. Sorria para a câmara e tinha o rosto maquilhado de forma acentuada, como se pretendesse parecer mais velha.
— Que idade teria ela aqui?
— O ficheiro tem quase dois anos. — informou Saúl.
— Treze anos?
— Penso que sim. — confirmou ele, aumentando o volume para se ouvir o diálogo.
A voz atrás da câmara falava inglês. Magdalena compreendia tudo e respondia num inglês algo tropeção, arranhado pelo sotaque de leste.
O homem falava num tom simpático e procurava deixá-la à vontade. Perguntou-lhe se sabia qual a finalidade do filme e o que pensava ela sobre isso. Ela sabia porque estava ali e mostrou-se entusiasmada. Ele quis saber se ela era virgem e Magdalena respondeu que não como se isso fosse a coisa mais natural.
Os dois agentes da Judiciária estavam espantados com o que viam. Toda a informação que tinham de Magdalena apontava para uma rapariga ingénua, casta, estudante de música, aspirante a profissional na orquestra e que todos olhavam com simpatia. A que observavam no ecrã era uma versão maliciosa.
Num tom amistoso, o realizador perguntava-lhe como fora a primeira vez. Magdalena sorriu divertida e relatou que acontecera no Verão anterior com um amigo num campo de férias. À questão se foi bom, ela encolheu os ombros e adicionou que as seguintes foram melhores. Por graça, ele constatou que o rapaz se aperfeiçoara com as repetições. Magdalena riu e explicou que os seguintes tinham mais jeito.
Márcia abanava a cabeça a ouvir aquilo. Saúl estava impávido.
O realizador começou a perguntar-lhe se gostava de fazer tudo no sexo ou se havia coisas que não gostasse. Ela dissertou sobre o assunto com a experiencia e à vontade de uma cortesã.
A seguir, ouviu-se a voz do realizador a pedir para que ela tirasse a roupa. Magdalena concordou com naturalidade e começou a despir-se até ficar totalmente nua.
— Pára! Desliga isso. — ordenou Márcia. — Estou enojada.
— Espera. Temos de ver até que ponto eles levaram isto.
A imagem fixa em Magdalena ajoelhada sobre a cama tremeu, consequência da câmara ter sido retirada de um tripé. Quem filmava aproximou-se da rapariga, elogiando a sua beleza. Houve um abanão da imagem e Magdalena riu. Por fim, olhou o realizador procurando representar o papel de mulher cheia de desejo pelo que via.
Com a imagem bem junto dela, o homem perguntou-lhe se já fizera sexo oral. Ela assentiu e lambeu os lábios para provocar a câmara. A imagem baixou até se ver um plano da cintura do realizador juntamente com a sua excitação. Magdalena avançou.
A agente Sarsfield virou costas ao computador.
Tal como a parceira, também Saúl ficou chocado com a imagem.
— Desliga isso.
Ele assim fez.
— Isto muda tudo, Saúl. A miúda era actriz de filmes porno.
— Ainda não vi, mas acho que todos os ficheiros são filmes com ela.
— Meu Deus…
— Vou fazer uma pesquisa na net sobre baby angel para ver o que descubro. — informou Saúl. — Mas, quase de certeza que se trata do nome artístico da rapariga.
Márcia ainda estava em choque. Afastou-se do colega e saiu do gabinete para chamar o chefe. Quando este entrou, fizeram-lhe um resumo do que haviam visto.
— Podemos estar perante um grupo organizado de pornografia com menores. — sugeriu Saúl. — E devem ser estrangeiros, pelo que talvez fosse melhor passarmos a informação à Interpol.
— Será que ela os ameaçou que iria revelar os filmes às autoridades? — questionou Márcia.
— Pode ser, mas não me inclino para isso. — contrapôs Saúl. — Estão aqui vários vídeos dela nos últimos dois anos. Cá para mim ela tinha orgulho no que fazia, gostava de se ver neles. O mais recente tem duas semanas.
— Tentem descobrir em que hotéis foram feitos. — disse o chefe. — Com isso, tentaremos ver com os responsáveis dos hotéis em que quartos isso foi filmado e em nome de quem foram registados. — Olhou para Saúl. — Continua a ver o computador. Depois disto, já é espectável encontrar qualquer coisa aí. Até pode ser que exista uma cópia digital do diário desaparecido. — Olhou para Márcia. — Fala com a Interpol e passa esta informação. Vê que dados nos podem dar que nos leve aos autores destes filmes. — Falou para os dois. — Até novas provas, estes são os principais suspeitos da morte dela.
Os dois agentes atiraram-se ao trabalho.
Enquanto Márcia fazia telefonemas, Saúl foi abrindo e fechando os filmes. Seguiu sempre os mesmos passos, abrindo o filme, avançando rapidamente e fechando. Procurava confirmar se todos tinham sido feitos de livre vontade ou se algum tivesse ido longe de mais e ela o tivesse por ali para chantagear o realizador. No entanto, não encontrou nenhum com essas características.
Os actores que apareciam nos filmes não tinham preocupação em esconder a sua identidade, pelo que o envio das imagens para a Interpol poderia levá-los a conseguir saber quem eram.
Saúl fazia algum esforço naquela análise, pois estava completamente enojado com as cenas de Magdalena que parecia não ter escrúpulos, contracenando sexualmente tanto com homens como com mulheres.
Não podia dizer que aquilo o surpreendia, pois sabia como existiam pessoas bizarras pelo Mundo. E os que faziam aqueles filmes nem eram os piores.
Num intervalo entre telefonemas, a agente Sarsfield interrogou se:
— Será que os pais sabiam que a filha…?
— Quero acreditar que não, Márcia. Seja como for, não vamos confrontá-los com isso, a menos que descubramos algo que o indique.
Quando terminou a revisão rápida dos filmes, Saúl fez uma pausa do computador. Sentia-se como se tivesse andado a remar enjoado.
— Queres um café?
Com o telefone encostado à orelha, ela abanou a cabeça.
Saúl foi até à máquina de café estacionada no corredor daquele piso. Meteu uma moeda e ficou a observar o líquido a cair no copo de plástico. A cafeína nunca fora um bom remédio para enjoos, mas servia para espevitar a monotonia de olhar para aquelas imagens.
Regressou ao seu lugar para continuar busca de informação no computador. Márcia falava em inglês ao telefone e combinava enviar os filmes para a polícia internacional.
Saúl foi abrindo pastas.
— Devíamos tentar saber se ela tinha contas de email. — disse Márcia, logo que desligou. — Pode ser que tenham informação relevante.
O parceiro concordou sem parar a observação.
Num outro directório, encontrou uma pasta com o nome “privado – importante”. Abriu-a. Tinha apenas um ficheiro. Mais um filme.
Saúl já esperava encontrar qualquer coisa por ali. Mais um filme? Talvez mais uma cena pornográfica. Porém, apesar de não andar longe da verdade, o que se lhe deparou não deixou de o surpreender.
Logo que a imagem apareceu, foi fácil perceber que era uma gravação não editada. A câmara parecia escondida, pois não estava colocada numa posição que se pudesse considerar ideal para filmar. Ouviu-se bater à porta. Parecia um gabinete e estava um homem já com alguma idade sentado à secretária. Saúl reconheceu-o como sendo o maestro da orquestra. A voz dele permitiu a entrada. Magdalena entrou com ar sério e retraída.
— Anda cá ver isto. — chamou ele novamente.
Desta vez não teve resposta. Márcia fora falar com o chefe e ele nem se apercebera da sua saída.
O filme era a gravação que Magdalena fizera com a cumplicidade de José Norton Vila. Naquelas imagens estava a confissão sádica do maestro Rudolph Norton Vila de que assinaria o contrato em troca de favores sexuais, estava a constatação de que não era a primeira vez e, por fim, o momento em que Magdalena se ajoelhava seminua aos pés do maestro para o satisfazer.
Saúl viu o filme até ao fim, retirando as suas conclusões. Depois, foi procurar a sua parceira e o seu chefe para que também eles vissem aquela filmagem.
— Essa já me parece passível de ser usada numa chantagem. — concluiu o chefe. — É notório que ela sabe que está a ser filmada. A miúda olha várias vezes para a câmara.
— É incrível. Que velho porco, nojento. — vociferava Márcia, irritada.
— Na casa dela não havia nenhuma câmara. — recordou Saúl.
— Pode tê-la pedido emprestada ao pessoal com quem fazia os filmes pornográficos. — sugeriu o chefe. — Dá para perceber que o objectivo do filme é provar que o maestro abusava dela.
— No entanto, ela nunca denunciou o caso. — recordou Márcia.
— Nem deveria ter intensões de o fazer. — constatou Saúl. — Pelo perfil que já descobrimos da “menina”, a finalidade seria chantagear o maestro. E se assim foi, se ela o estava a chantagear…
— O velho é bem capaz de ser o assassino. — completou Márcia.
— Isto não prova isso. — alertou o chefe. — Mas, há aqui prova suficiente para conseguirmos um mandado de detenção para o “senhor” maestro.
— Vai dar-me muito prazer, prender esse cabrão, esse violador de menores. — disse Márcia com raiva.
— Tem calma, Marciana! É certo que o velho estava a aproveitar se da sua posição para abusar de uma rapariga de quinze anos. Mas miúda também não era nenhuma virgem pura e casta.
— E isso justifica o que ele fez? — questionou ela, fulminando-o com o olhar.
— Não, claro que não. Só não quero que compares esta situação com aquelas menores que são realmente abusadas por estes escroques.
O chefe interrompeu-os:
— Seja como for, vamos avançar para a detenção. Vou falar com o Ministério Público e conseguir a ordem do juiz para prenderem esse gajo.

Ao fim da tarde, a orquestra realizava mais um ensaio no local habitual. Estava planeado para a próxima apresentação ao público uma música de homenagem à jovem que os deixara de forma tão trágica. Seria uma peça com um solo de violino doloroso, para acentuar a ideia de perda, ao que se seguiria um solo de piano violento, mostrando a raiva por a morte lhes ter roubado um dos seus. Resumindo, era só mais uma oportunidade para dar destaque a Zahra e José.
O maestro esbracejava em frente à orquestra, dirigindo a formação de músicos. Tal como a maior parte dos maestros, Rudolph era exuberante nos gestos.
José procurava a mesma exuberância, usando os seus destaques como se fosse andar à pancada com o teclado do piano de cauda. E nos últimos dias andava mais agressivo, impaciente e até pouco simpático. Tudo na sua vida se parecia complicar, todos os planos embatiam em obstáculos inultrapassáveis. Pelo menos, Magdalena morrera sem o denunciar ao pai, sem lhe revelar que fora ele quem montara a armadilha. Só que isso não lhe trazia o comando da orquestra que ele tanto ambicionava.
Nas pausas da sua actuação, olhava para a noiva, lá à frente, na primeira linha dos primeiros violinos. Percebera que ficara diferente, desde que lhe inventara a mentira de que uma violinista estava para ser afastada da orquestra por ser lésbica. Ela estava triste, triste como se tivesse perdido algo importante e que não era ele. Foi mais uma coisa que o vinha a irritar. Uma irritação que o fez perder a noção na noite anterior, quando fez amor com a noiva. Recordou que fora bruto, que a magoara ao ponto de ela se queixar que a estava a magoar, ao movimentar-se sobre ela. Só que ele sentia-se traído, atraiçoado, magoado. Nunca lhe bateria. Não, jamais. Porém, elevou a intensidade do sexo ao nível de a esmagar contra o colchão.
Zahra estava habituada àquele ritual de satisfação do noivo, sempre convencido que ela se satisfazia tanto quanto ele. A sua cabeça era um guião durante as relações sexuais. Preocupava-se em simular gemidos e suspiros, procurando perceber o momento do êxtase dele para lhe oferecer o seu melhor fingimento de um orgasmo. Só que naquela vez, ele estava a ser bruto. E ela teve que o chamar à atenção.
José desculpou-se com o enorme desejo que tinha por ela. Beijou a com amor e voltou a investir nela sem a raiva anterior.
Desde que terminara a relação com Adriana, Zahra procurava esquecê-la de vez. O seu coração estava tão partido quanto estaria o da sua amante. Porém, aquilo que pretendia para o seu futuro não deixava espaço para a bailarina.
Adriana tentara ligar-lhe e mandou-lhe mensagens a pedir justificações para a rotura. Chegara ao ponto de perguntar o que fizera de mal para Zahra ter tomado aquela atitude. Continuava a afirmar que a amava e que ela era a mulher da sua vida. Zahra ignorou-a, apagou todas as mensagens e desligava o telemóvel sempre que José estava consigo.
A meio de uma das interpretações, os agentes Peixoto e Sarsfield da Polícia Judiciária entraram no anfiteatro. O ambiente escuro manteve os cobertos durante algum tempo. Caminharam pelo corredor entre as filas de cadeiras e aguardaram o final daquele trecho junto à terceira fila.
O maestro actuava de forma imponente.
Márcia olhava-o sem conseguir deixar de pensar que aquela figura tão famosa e tão bem sucedida era capaz de sujeitar uma miúda de quinze anos a práticas sexuais para lhe permitir permanecer ali. Os seus olhos atravessaram a orquestra de uma ponta a outra. Interrogou-se quantos daqueles elementos estariam ali em troca dos mesmos favores ou piores.
Quando a música parou, os olhares curiosos dos músicos alertaram o maestro para o que se passava atrás de si.
Rudolph baixou a batuta e virou-se para ver quem era. Reconheceu os agentes da Polícia Judiciária com que tinha falado na manhã em que o corpo de Magdalena havia sido encontrado.
Os agentes aproximaram-se do palco.
— O ensaio terminou! — exclamou Márcia num tom duro.
Rudolph olhou para ela com irritação. Quem pensava aquela preta que era para vir dar ordens no seu ensaio? Estava farto de gente de cor no seu caminho. Já não lhe chegava o preto na orquestra, agora tinha uma preta a dar ordens. Contudo, ao ver a postura deles, concluiu que deveriam ter descoberto o assassino. Sorriu disfarçadamente, convicto que Manuel iria ser preso. Apesar de ainda sentir alguma irritação, procurou controlar-se e inquiriu com autoridade:
— O que vem a ser isto?
Eles subiram ao palco.
Rudolph preparou-se para uma indignação falsa, ao saber que iriam prender um membro da sua orquestra. Vais para onde deviam ir todos, pensou o maestro, lançando um olhar a Manuel.
Márcia retirou um prazer pessoal naquela situação. Falou normalmente, mas de forma a que todos a ouvissem:
— Maestro Rudolph Norton Vila, o senhor está preso por abuso sexual de menores e por suspeita de assassinato da jovem Magdalena Popov.
Entre os músicos gerou-se um burburinho.
O filho do maestro levantou-se do seu lugar para falar com os agentes. Fê-lo num movimento calmo, como se fosse isso que se esperasse do filho do visado.
— O quê? — questionou o maestro desorientado. — Que estão para aí a dizer?
Sem esperar, Saúl segurou um dos braços do maestro para o algemar.
— Largue-me! — ordenou Rudolph.
— Tenha calma! — aconselhou Saúl num tom pacífico. — Resistir à prisão só o vai prejudicar.
O maestro sentiu os seus braços serem puxados para trás das costas. O frio do material das algemas a rodear-lhe os pulsos arrepiou-o.
Zahra estava pasmada. Saiu da sua cadeira que ficava sempre a escassos metros do palanque do maestro, deixando cuidadosamente o violino no estojo.
José tentou acalmar o pai e, olhando para os agentes, procurou saber o que se passava.
Empenhada em tornar aquela situação o mais constrangedora possível ao maestro, a agente Sarsfield explicou:
— Temos uma filmagem do maestro a abusar sexualmente de Magdalena Popov.
Houve um impasse na reacção do pianista. A sua mente congratulou-se por a miúda ter roubado a gravação para chantagear o maestro e ter deixado uma cópia nas suas coisas que, aparentemente, fora parar às mãos da Polícia Judiciária. José olhou para o pai com a maior incredulidade que conseguiu representar. Agiu como se estivesse estupefacto.
— Isso é possível, pai? — interrogou.
— Esta gente só pode estar enganada. — afirmou o maestro, tentando limpar a sua imagem aos olhos dos músicos.
— O seu pai é também suspeito da morte da jovem. — adicionou a agente.
José Norton Vila mostrou-se confuso. Olhou novamente para Rudolph.
— Pai?
Algemado pelo agente Peixoto, o maestro baixou o olhar e respondeu:
— Pede ao nosso advogado que vá ter comigo.
— O maestro vai ser levado para os calabouços da Judiciária. — informou Saúl. — O advogado poderá falar com o seu pai lá.
Zahra colocou-se ao lado do noivo para o confortar naquele momento. Ficaram a ver o conceituado maestro Rudolph Norton Vila ser levado pelos agentes.
A José só lhe faltou chorar. Porém, no seu interior havia felicidade. Conseguira concretizar o seu plano de afastar o pai da orquestra. Não fora como idealizara, mas servia assim mesmo.
Fim do capítulo

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