DANÇANDO NO VIOLINO · Capítulo 27

Capítulo XXVII

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“Ainda estás chateada? Gosto de ti! Tenho saudades de estar contigo.”
Era a terceira vez em dois dias que Leonardo lhe mandava aquela mensagem. Matilde continuava a ignorá-lo, apesar de o fazer com enorme sofrimento.
Na estação de televisão onde Matilde trabalhava, o departamento de informação estava reunido para definir o alinhamento do bloco informativo. Como apresentadora do noticiário e jornalista, Matilde estava presente.
Tal como era costume, os destaques iam para a situação do país e a incapacidade do governo para lidar com os problemas económicos e sociais. Porém, naquela tarde, um dos jornalistas obtivera de uma fonte inserida na Polícia Judiciária que estes haviam detido o maestro Rudolph Norton Vila por suspeita de abuso sexual e assassinato de uma rapariga da orquestra.
A dimensão da notícia aumentara muito com aqueles contornos. Inicialmente, a descoberta do cadáver de uma rapariga de quinze anos merecera uma notícia de menos de um minuto. Mas, a partir do momento em que havia um suspeito e esse suspeito era um maestro famoso e que além disso abusava da vítima, isso passou a ter direito a directos à porta da Polícia Judiciária.
A comunicação social tratou o caso com maior interesse. Recolhia todo o tipo de opiniões, desde pessoas próximas do suspeito e da vítima, a fontes anónimas infiltradas nas autoridades e até gente que nada sabia do assunto, mas que emitia opiniões como se tivesse sido testemunha.
Leonardo foi um dos operadores de câmara que passou bastante tempo na rua do edifício da Polícia Judiciária para captar imagens de factos de interesse, como as visitas, e filmar as reportagens ao vivo com o jornalista encarregue de acompanhar a notícia.
No dia a seguir à detenção do maestro, a imagem mais importante foi a entrada do famoso filho do maestro, o pianista José Norton Vila.
Apesar da insistência dos jornalistas, José escusou-se a responder ou a fazer qualquer comentário sobre a prisão do pai. Imponente, entrou no prédio na companhia do advogado do pai.
O maestro Rudolph estava sentado numa cadeira e debruçado no tampo da mesa à sua frente. Tinha um ar abatido e estava quase tão pálido quanto as paredes daquela sala fria. Um dos guardas dos calabouços levara-o para ali para receber as visitas.
Após alguns minutos de espera, a porta da sala abriu e o maestro viu o agente Saúl entrar, trazendo consigo o filho e o advogado.
Rudolph levantou-se da cadeira e abraçou o filho.
— Vou deixar-vos à vontade. — disse Saúl.
O maestro cumprimentou o advogado, o qual se sentou com o filho nas cadeiras do lado oposto da mesa.
No direito de confidencialidade entre cliente e advogado que assiste aos detidos, era permitido que ficassem sozinhos na sala. Porém, esta tinha videovigilância, pelo que os agentes podiam ver o que se passava, mas não podiam ouvir.
— Como está a situação, doutor? — questionou o maestro.
— O Rudolph vai ser indiciado pelo crime de abuso sexual de menor. — explicou o advogado. — O Ministério Público vai argumentar que você violou a rapariga e vai tentar provar também, com base no vídeo, que isso aconteceu mais vezes.
— Não aconteceu para além daquela. — retorquiu o maestro. — Antes, só… — Parou de falar, uma vez que o filho estava na sua frente. Sentiu vergonha de continuar. — O que se vê no vídeo foi a única vez que aconteceu.
— A acusação também está a tentar recolher provas para que seja julgado pelo assassínio.
— Mas eu não a matei! — exclamou o maestro, desesperado. — Eu não a matei! — Olhou para o filho. — Tu acreditas em mim, não acreditas?
— Claro que sim, pai.
— Parece-me pouco provável que a acusação pela responsabilidade na morte da jovem tenha pernas para andar. — continuou o advogado. — Pelo que sei, eles não têm provas nenhumas desse crime, apenas suspeitos. E o Rudolph, perante este vídeo, é colocado na linha da frente de suspeitos, uma vez que alegam que ela estava a chantageá-lo e que o Rudolph a matou para a calar.
— É mentira! Eu não a matei!
— Mas, ela estava a chantageá-lo, pai.
Rudolph fulminou o filho, irritando-se:
— E isso prova que a matei?
— Não, pai. Mas, acho que o doutor deve saber isso.
— Eu sei. Eu e o seu pai já conversámos sobre isso. — explicou o advogado. — Mas, como disse, essa acusação não tem pernas para andar.
— E em relação ao abuso? — indagou o maestro.
— Como lhe expliquei ontem, hoje o Rudolph irá ser levado à presença de um juiz. Iremos tentar que seja libertado sob caução. — O advogado adoptou uma postura mais consternada. — Mas, não evitaremos o julgamento. O vídeo é prova suficiente do abuso. — Perante o cenário negativo, o advogado esboçou um sorriso. — Cada coisa a seu tempo. Agora, vamos tentar tirá-lo daqui.
— Pai! Temos de falar na orquestra. — lembrou José, usando um tom de quem sentia algum pesar por abordar o assunto.
— O que se passa?
— Talvez seja melhor eu assumir o comando, enquanto esta situação é resolvida.
— Não me parece necessário, se eu sair sob fiança.
O pianista abanou a cabeça.
— A comunicação social está a arrasar o nosso nome. A imagem da orquestra está a ficar muito mal e isso pode levar a problemas com os patrocinadores. Penso que seria melhor o pai afastar-se, até a poeira assentar.
O advogado assentiu e adicionou:
— Mesmo que o libertem, este processo ainda vai levar algum tempo. Talvez seja melhor seguir o conselho do seu filho.
Vencido, o maestro Rudolph assentiu com um semblante carregado, concordando com o seu afastamento.

Zahra esperava o noivo ao volante do seu carro, um quarteirão mais à frente do edifício. Não queria ver-se envolvida nas imagens sobre o caso, daí que se manteve distante o suficiente para não ser filmada.
A visita ao maestro demorou cerca de uma hora. À saída, os jornalistas voltaram a tentar obter respostas às suas perguntas, mas José ignorou-os. Pianista e advogado separaram-se à saída e o primeiro afastou-se pela rua sem que os questionadores o seguissem. Ao virar a esquina, entrou no carro que o aguardava.
— Como está o teu pai? — indagou ela, iniciando a marcha do carro pelas ruas lisboetas.
— Destroçado. Vai ser levado ao juiz daqui a pouco. O advogado está confiante que o irão libertar até ao julgamento.
Zahra foi obrigada a parar num sinal vermelho. Na sua cabeça fervilhava a questão que queria colocar, mas não queria demonstrar demasiado interesse. O sinal abriu. Zahra avançou com o automóvel e abordou a questão:
— E a história da violinista? A miúda sempre chegou a contar ao maestro?
— Não. — respondeu ele, percebendo o porquê do interesse da noiva. — Mas, agora que eu vou tomar o comando da orquestra, também vou tentar saber. E se descobrir, farei o mesmo que o meu pai faria.
Zahra sabia que o noivo o faria, conhecia-o o suficiente para saber que ele era tão homofóbico quanto o pai. No entanto, saber que Magdalena não chegara a contar, descansara-a.

A noite ia avançada, quando as equipas de reportagem foram informadas de que o maestro Rudolph Norton Vila, por decisão do juiz, iria ser libertado sob caução, podendo permanecer em liberdade até ao julgamento com Termo de Identidade e Residência, não se podendo ausentar do país sem uma autorização.
Meia hora depois desta informação, saiu a toda a velocidade pela porta da garagem do edifício o automóvel que transportou o maestro até casa.
A partir daí, as equipas de reportagem dispersaram.
Leonardo caminhou até ao seu carro, olhando para o telemóvel com a esperança que Matilde tivesse respondido às suas mensagens. Porém, não tinha nenhuma nova.
Não havia a mínima dúvida de que Matilde não queria falar com ele. Só que Leonardo não se deu por vencido e decidiu seguir o conselho da sua amiga Adriana.
Pelas ruas meio desertas da cidade, Leonardo conduziu rumo ao Parque das Nações. Durante o percurso, a sua cabeça via e revia todos os argumentos que iria apresentar, se Matilde lhe desse oportunidade para isso.
Dedicou tanto da sua atenção a pensar nisso que nem por um momento ponderou a hipótese de ela não estar em casa. Só se lembrou disso, quando entrou na rua e não viu o carro dela.
Mesmo assim, estacionou em frente ao prédio de Matilde. Se chegara antes de ela regressar a casa, iria interpelá-la na rua e ela não poderia fugir-lhe. De súbito, recordado como era a personalidade dela, isso não lhe pareceu boa ideia.
Saltando de pensamento em pensamento, Leonardo reparou no estacionamento dez metros mais à frente. Ali estava o carro de Matilde, o qual lhe passara despercebido até àquele instante. Isso significava que a jornalista já estava em casa.
Respirando fundo e procurando ganhar coragem, ele saiu do carro e olhou para os andares superiores. Viu que havia luz no apartamento de Matilde o que confirmava que ela estava em casa.
Pegou no telemóvel e pensou em ligar. Não, não valeria a pena. Se ela não o atendera antes, também não o atenderia naquele momento.
Talvez devesse mandar uma mensagem a avisar que estava ali. Porém, ela não respondia às suas mensagens e o mais certo seria que o ignorasse.
Ganhou coragem e, num impulso, avançou até à porta do prédio e tocou à campainha.
A espera não foi longa, mas para quem estava ansioso como ele, cada segundo pareceu uma hora.
— Quem é? — perguntou a voz pouco amistosa de Matilde, irritada por lhe tocarem à campainha tão tarde.
— Sou eu, Matilde. O Leonardo.
Houve um silêncio. Não mais que três segundos. O suficiente para se notar uma hesitação.
— Que fazes aqui? — questionou por fim. — Achas que isto são horas de bater à porta de alguém?
— Preciso de falar contigo.
— Acho que já deixei bem claro que não quero voltar a falar contigo.
— Por favor, Matilde!
— Vai-te embora! — A frase foi seguida de um clique de desligar do intercomunicador.
— Matilde? — chamou ele, confirmando que ela desligara.
Voltou a tocar à campainha.
— Olha, se não te vais embora, chamo a polícia! — ameaçou Matilde furiosa, pelo intercomunicador.
Leonardo antevira aquela situação, daí que tivesse preparado o seu argumento:
— Podes chamar, eu não saio daqui sem falar contigo. E se não me deixares subir para conversar, vou gritar daqui de baixo tudo o que tenho para te dizer, até a polícia chegar.
No outro lado da linha, o silêncio. Alguns segundos de ponderação que provocaram o aumento do batimento cardíaco dele. Por fim, ela disse:
— Não te quero em minha casa. Mas como não quero que faças escândalos à minha porta, vou aí ouvir-te.
Leonardo aguardou nervoso, junto à porta do prédio. Ela nem sequer permitira que ele entrasse no átrio do edifício. Instantes após o clique no intercomunicador, ele viu a luz da escada acender e, ao fundo, a numeração do elevador a subir. Sabia que tinha pouco tempo, por isso tentou refazer as melhores frases na sua cabeça. A numeração do elevador começou a descer e ele viu a luz interior surgir na porta do rés do-chão do transporte. Essa porta abriu e Matilde apareceu com o rosto furioso, envergando um roupão turco.
Sem tirar os olhos dele, Matilde desceu os degraus até ao átrio da entrada e abriu a porta.
— Tu não tens respeito por ninguém. — reclamou ela. — Já estava na cama, preciso de descansar. O que queres?
— Falar contigo.
— Então fala e sê rápido. — concedeu Matilde com rispidez.
— Não respondes às minhas mensagens, não atendes os meus telefonemas.
— Porque será? É preciso fazer-te um desenho? Se calhar é porque não quero falar contigo.
— Não percebo porque estás a ser assim. Depois do que aconteceu entre nós.
Matilde soltou um sorriso irónico.
— Tu és demais. Fazes merda e depois falas como se fosses um santo.
— Não fiz nada de mais. Acho que estás a exagerar.
— É a tua opinião. Agora, se não te importas, vai-te embora!
Leonardo estava a perder a paciência com aquela postura. Tinha vontade de a abraçar e beijá-la. Isso iria desarmá-la. Ou talvez não…
— Tenho saudades tuas! — confessou, olhando-a nos olhos.
— Não. — negou ela, ripostando. — Tens saudades de me comer. É diferente. Tu não gostas de mim. Tu sentes desejo por mim.
— Estás a ser injusta. Nunca te vi dessa forma. Sempre te tratei com respeito. Adorei todos os momentos que tive contigo, desde os passeios até aos mais íntimos. Adoro estar contigo.
— Tu estragaste tudo. — contrapôs Matilde num tom menos duro. — Eu entreguei-me completamente a ti e tu trocaste-me à primeira oportunidade.
— Não te troquei…
— Trocaste! Mal a tua amiga ligou, tu foste a correr.
— Ela estava com um problema.
— E? — interrogou com dureza. — Cada vez que ela tem um problema, tu vais a correr? Não quero isso na minha vida. Não quero dormir ao lado de alguém que a qualquer momento pode sair a correr para os braços da amiga.
— Não coloques isso assim. Até parece que fui para a cama com ela.
— Não sei se foste, nem me interessa. Não penses que por ela ser lésbica eu não ponha a hipótese de vocês já o terem feito.
Qualquer coisa no olhar de Leonardo o denunciou. Matilde era astuta como um predador felino.
— Acertei, não foi? Vocês já…
Leonardo cometeu o erro de não mentir:
— Antes de te conhecer.
— Eu sabia! — exclamou ela com tom vencedor que rapidamente passou a sofrimento por uma constatação que ela preferiria não ter. — Passo um fim-de-semana contigo, entrego-me completamente e tu largas me ao primeiro chamamento da fufa para lhe saciares o desejo.
— Por favor, não fales nela assim. — pediu Leonardo. — Se a conhecesses, saberias que é uma excelente pessoa. E nessa noite, quando soube que estava contigo, ela quis que eu me fosse embora e viesse para junto de ti.
— E tu até vieste… — recordou a jornalista ironicamente.
— Ela precisava de desabafar. Acabara de ser desprezada pelo amor da vida dela. Tive receio que pudesse… Tive receio que se matasse.
— Não me interessa, Leonardo.
— Não aconteceu nada. Passámos o tempo como amigos.
— Já te disse, não me interessa.
Leonardo ficou a olhá-la, procurando um último argumento que a pudesse demover. Matilde era uma estátua na sua frente, olhar duro e rosto fechado.
— Que posso eu dizer para te convencer o quanto gosto de ti?
— Nada. — respondeu friamente. — Não acredito nos teus sentimentos.
— Eu sou apaixonado por ti. Adoro-te!
Matilde encolheu os ombros e franziu o rosto numa postura de desinteresse.
Leonardo jogou a última cartada:
— Eu amo-te!
A frase pareceu atingir Matilde como um soco no estômago. Os seus olhos ficaram raiados, o rosto franziu ainda mais, revelando uma fúria interior. A voz saiu cortante sem disfarçar a amargura:
— Tu és incrível. Tens sido uma desilusão completa. Como podes ser reles ao ponto de fingir amar-me só para me convenceres a deixar-te comer-me novamente.
— Matilde…
— Poupa-me!
— Estás a ser injusta. Eu am…
— Nem te atrevas a repeti-lo. Não acredito!
A Matilde Leão forte e imponente que o encarara até ali começou a perder força, deixando vir ao de cima a Matilde, sensível e fragilizada.
— Não imaginas o quanto és importante para mim, Matilde. — Sem conseguir suster as lágrimas, ela abanou a cabeça recusando-se a acreditar. — Dá-me uma oportunidade para te provar o quanto és importante para mim.
— Queres uma oportunidade? — soluçou a jornalista. Ele assentiu. — Se gostas realmente de mim, paras de me magoar com a tua presença. Não quero voltar a ver-te. Foste um erro na minha vida, um erro que eu pensei nunca vir a cometer e pelo qual me envergonho todos os dias. Se me am… se me amas, como finges dizer, esquece que eu existo. — As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto. — Eu, sim. Eu amei-te! Mas, irei ultrapassar isso.
— Matilde… — chamou, tentando aproximar-se.
— Não te atrevas. Se me tocas, grito.
— Mas…
— Pediste uma oportunidade para provares. Já te disse o que tens de fazer.
— E é a esquecer-te que te vou demonstrar como gosto de ti?
— Se isso significar não te voltar a ver, sim. Se não te vir, se não tiver de falar contigo, se não tiver que levar com as tuas SMS, poderei retomar a minha vida e esquecer o que aconteceu. E esta mágoa que me fere deixará de existir.
— Matilde…
— Por favor, vai. — pediu ela com menor ferocidade num tom cansado.
Leonardo não se mexeu, mas também não impediu que ela lhe voltasse as costas e regressasse ao interior do prédio, desaparecendo pela porta do elevador.
Fim do capítulo

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