Capítulo XXVIII
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A noite primaveril anunciava que os resquícios de Inverno haviam desaparecido, tornando-se mais constante o ambiente ameno e seco. Não voltara a chover e o vento soprava manso, apenas para lembrar que ainda andava por ali.
O Teatro Camões estivera com mais uma lotação esgotada, mais uma sala cheia de amantes da cultura e da arte que viam no bailado uma das suas formas de representação.
Como sempre sucedia, após o final da actuação daquele conjunto deslumbrante de bailarinos, os espectadores começavam a abandonar o edifício e espalhavam-se pela área envolvente, regressando a casa. Surgia sempre aquele primeiro grande fluxo de pessoas a sair que ia atenuando até se transformar em pequenos focos humanos. Em meia hora, já quase não se via vivalma por ali.
O ambiente ficava totalmente vago da presença humana até os artistas começarem a sair, depois de ter largado os trajes da encenação para voltar ao papel da realidade.
Junto ao gradeamento que ladeava o rio, mesmo defronte do teatro, um vulto aguardava. Já ali estava há mais de uma hora, mas ninguém lhe ligara importância, sendo que foram muito poucos os que repararam naquela pessoa bem vestida, encostado às grades, a ver o público a sair.
José Norton Vila era aquele vulto que no escuro da noite ainda não perdera a vontade de concretizar um desejo. E como estava na noite que antecedia o seu casamento, teria de fazer uma última tentativa.
Adriana Cavaleri saiu do teatro na companhia de três colegas. Vinham felizes com o sucesso, felizes com mais uma noite de aplausos e ovações de pé. Os três homens despediram-se dela e tomaram a direcção contrária à sua.
José observou tudo com a imaginação preconceituosa de que aqueles eram mais três homossexuais. Para si, um homem bailarino não poderia ser heterossexual.
Adriana, para si a lésbica que lhe despertava os desejos, caminhou tranquila pela rua até à avenida principal, onde poderia alcançar o autocarro que a transportaria para casa. José sentiu o desejo consumi-lo, só de olhar para as longas pernas cobertas por uma saia do vestido algo comprida, mas que tinha um corte que as revelava a cada passada.
Aquele já se tornara um percurso habitual. Adriana fazia-o quase sem observar o que a rodeava. Nunca era seguro andar sozinha pela noite lisboeta, mas ela tentava não ser cuidadosa ao ponto de se tornar paranoica. Por isso, não reparou em José que a seguia no passeio oposto, uns vinte metros mais atrás.
Contornando a esquina, a bailarina parou e sentou-se no banco da paragem de autocarro. Só muito raramente havia mais alguém ali para apanhar transporte.
José ficou a observá-la, protegido pela arcada de um prédio, na sombra, sem que a luz o pudesse denunciar, caso ela olhasse naquela direcção. Aguardou o tempo que foi preciso até ver o longo veículo amarelo parar em frente a ela e Adriana entrar no autocarro.
Tudo estava bem planeado na cabeça do pianista. Aquela vigia só servia para confirmar que ela ia para casa e que não alterara o seu caminho para sair com um colega ou um amigo. Assim que o autocarro arrancou, ele regressou ao seu carro e partiu rumo à rua onde ela vivia. José nem tinha de ter muita pressa, pois não havia muito trânsito e, até casa, Adriana ainda tinha de mudar de autocarro e fazer um pequeno percurso a pé desde a paragem até à porta do prédio.
O desejo fervilhava na ansiedade. Sabia que iria ser complicado, mas tinha de seduzi-la. No entanto, sabia que todos os prognósticos estavam contra si, pois sendo lésbica era altamente improvável que a conseguisse seduzir. Mas, se não tentasse… Ou melhor, se não continuasse a tentar, nunca o conseguiria. Fosse como fosse, os dados estavam lançados e não iria desistir.
Ao volante do seu carro, José entrou na rua onde a bailarina morava. Com umas notas na mão de um funcionário do teatro, conseguira saber o número da porta do prédio. E teve tanta sorte que, dez metros abaixo da porta pretendida, ele conseguiu um lugar de estacionamento que lhe permitia vê-la chegar sem sair do carro.
Adriana nem imaginava como a sua privacidade estava tão vulnerável perante o acenar de uma nota de cinquenta euros. As moradas dos artistas eram confidenciais, uma forma de manter a sua segurança contra um qualquer louco que lhes pretendesse fazer mal. O funcionário que se deixou corromper considerou que a fatiota do indivíduo que lhe estava a dar o dinheiro era um certificado de que a bailarina não corria riscos.
José teve de esperar bastante tempo até que Adriana chegasse. Não se importava, pois tinha a certeza que cada minuto de espera valeria aquele momento em que estivesse entre as pernas dela.
Adriana dobrou a esquina no mesmo ritmo tranquilo com que deixara o teatro. Escalou a rua ingreme com a dificuldade de quem trazia o cansaço de uma noite de dança exigente. A dois metros da porta, retirou a chave da mala.
— Boa noite, Adriana! — cumprimentou José, saindo do carro.
A bailarina assustou-se com a voz que a chamou e depois receou a presença do noivo da sua ex-amante ali tão tarde.
— José?
— Como está, Adriana? — perguntou enquanto se aproximava, sorrindo-lhe com ar sedutor.
A confusão atrapalhou os pensamentos da bailarina, cuja única coisa que conseguiu dizer foi:
— O que faz aqui?
José fez um movimento para a cumprimentar com um beijo, mas a posição retraída dela travou-o. Mantendo o sorriso e o tom galanteador, respondeu:
— Estava à sua espera.
— À minha espera?
— Sim. — José fez uma expressão de quem foi descoberto. — Amanhã é o dia do meu casamento. Aliás, a Adriana deve ter recebido um convite.
— Não, não recebi.
— Não? Que estranho. — disse ele, sabendo bem que ela não fora convidada. — Seja como for, é a minha despedida de solteiro. Por isso, pensei passar por aqui e convidá-la para beber um copo.
— Você está a falar a sério? — interrogou incrédula.
O ar de espanto de Adriana foi assumido pelo pianista como satisfação por ele se interessar por ela.
— Sim, claro. — respondeu com orgulho. — A Adriana é uma mulher bonita. E desde que nos vimos pela primeira vez que senti que houve algo entre nós. Não sei explicar, uma espécie de atracção contida.
— Você está mesmo a falar a sério, não está? — voltou ela a interrogar pasmada.
— Também sentiu, não foi? Calculei que sim. Vejo que fiz bem em ter seguido o meu instinto.
— José! Agora a sério. — pediu ela, agastada com aquela cena. — Faça um favor aos dois… melhor, aos três, já que não podemos esquecer a sua noiva, e vá para casa.
As palavras de Adriana atingiram o pianista como se tivesse sido acordado de um sonho. Sem se dar por vencido, aproximou-se um passo e insistiu:
— Sei que o queres tanto quanto eu. Podemos passar a parte do copo e ir já para tua casa.
— Ó José, vá-se embora antes que a gente se chateie.
— Não te faças difícil! — exigiu ele, segurando-lhe o braço. — Quando te foder até deixas de ser fufa!
A resposta de Adriana foi um violento estalo na cara dele. De tal forma, que ele lhe largou o braço para amparar a face atingida.
— É bom que te ponhas andar, palhaço! Senão, levas um soco e depois quero ver como explicas o olho negro à tua noiva.
José olhou-a com raiva. Tinha vontade de a subjugar ali, agarrá-la e violá-la sem piedade. Porém, ficou parado a vê-la meter a chave à porta para a abrir.
Ao entrar, pensando que ele se dera por satisfeito, desviou o olhar por uma fracção de segundo. Foi o suficiente para uma última tentativa dele, empurrando-a contra a porta e fazendo-a embater na parede. Abraçou-a por trás e apalpou-lhe o peito sem fazer ideia do sarilho em que se estava a meter.
Adriana sempre tivera um instinto de defesa apuradíssimo. Ele atacou, mas ela ripostou logo, levantando o braço e cravando-lhe um cotovelo na parte lateral da cabeça. Porém, só a segunda cotovelada no estômago o fez largá-la. Solta daquele abraço pervertido, Adriana deu lhe um pontapé na excitação e empurrou-o para fora do prédio, fechando a porta na sua cara.
A contorcer-se com dores, José Norton Vila deu-se por vencido e cambaleou até ao carro.
No átrio, Adriana respirou fundo para se acalmar. O seu vizinho brasileiro do rés-do-chão, alertado pelo barulho, veio saber o que se passava.
— Está tudo bem. — disse ela com um sorriso tranquilizador. — Foi só um maluco.
— Nossa! E você está bem, querida? — perguntou ele assustado com a sua voz afeminada. — Já nem na nossa casa, a gente se sente segura, mulher.
Adriana agradeceu a preocupação e despediu-se do vizinho, começando a escalar a escadaria até ao seu apartamento. Ainda sentia o coração a bater muito depressa e estava assustada. O seu amigo Leonardo já uma vez a alertara que o pianista estava interessado nela, mas ela nunca ligou importância e jamais pensou que esse interesse o levaria a tentar violá-la.
Ao abrir a porta do apartamento, Adriana encontrou a luz da sala acesa. Isso não a surpreendeu, pois sabia que tinha uma pessoa que a esperava em casa. A sua única surpresa foi não o ver numa casa tão pequena. Fechou a porta e o som vindo da casa de banho denunciou onde estava Leonardo.
Com o fim das relações de ambos, Leonardo e Adriana regressaram à sua amizade colorida. Por isso, a bailarina entregara uma chave a Leonardo para que ele a esperasse em casa.
— Estás pálida. — constatou ele, dando-lhe um beijo. — Estás bem?
— Não imaginas o que me aconteceu agora. — disse ela, atirando a mala para o sofá. — Tinha o noivo da Zahra à minha espera, lá em baixo.
— O pianista?
Adriana anuiu e relatou:
— Veio com uma conversa de que podia ser a sua despedida de solteiro.
— Eu tinha-te dito. — recordou ele. — O gajo andava de olho em ti.
— E de que maneira. Quando lhe dei com os pés, o sacana atacou-me.
— O quê? — insurgiu-se Leonardo. — Onde é que está esse cabrão? Vou lá abaixo ver se o apanho.
— Tem calma. — pediu ela, segurando-o. — Já passou. Deixa-o ir.
— Isto não pode ficar assim.
— Deixa… — voltou a pedir, acalmando-o com um beijo nos lábios.
Leonardo acatou o pedido e sentou-se no sofá, enquanto a bailarina desaparecia pela porta do quarto. Voltou a centrar a atenção na pequena televisão, onde passava um filme americano de acção.
— Já chegaste há muito tempo? — perguntou ela do quarto.
— Algum. Mas, devia ter-me atrasado para apanhar aquele filho da puta a meter-se contigo.
— Não quero que penses mais nisso, Leo. Já passou.
— Vou passar a ir buscar-te ao teatro. — sugeriu ele, já sem prestar atenção ao que passava no ecrã.
Adriana soltou um som de admiração no quarto e disse:
— Não sejas tonto. Não preciso de guarda-costas.
— Ele pode…
— Ele vai casar amanhã. E enquanto se lembrar do que apanhou hoje, não me parece que volte a meter-se comigo.
Leonardo riu. Conhecia bem a ferocidade da amiga quando se via em situações complicadas.
— Já jantaste, Leo?
— Comi qualquer coisa quando saí do trabalho.
Adriana surgiu na porta do quarto. Largara o vestido e apresentava-se de forma convidativa só com as cuecas rendadas de um tom lilás.
— Queres vir para a cama, Leo?
Ele levantou-se e desligou a televisão. Aceitou o convite com um beijo profundo e deixou-se levar para o quarto, fechando a porta atrás de si.
Zahra passava a sua última noite de solteira sozinha no seu apartamento. Jamais imaginara o que seu noivo tentara fazer como despedida de solteiro.
O ambiente no seu apartamento estava escuro. Só os candeeiros perto da cama tinham a luz acesa. Todo o restante open space estava sombrio. Zahra deslocou-se até uma gaveta onde guardava a sua roupa interior. A sua mão afundou-se nas peças guardadas, procurando algo que escondera ali. Quando a sua mão regressou do fundo da gaveta, trazia um pequeno bloco floreado e fechado com uma fita de veludo.
Nos últimos dias, Zahra dedicava os tempos solitários a ler o conteúdo do pequeno livro manuscrito, páginas e páginas de papel liso com uma caligrafia bonita a relatar acontecimentos do dia-a-dia. A violinista tinha na mão um diário, um diário que não era seu, um diário que pertencera a Magdalena Popov.
O livro tinha capa rija e desenhos de flores. A fita de veludo azul contrastava com os tons verde e rosa da capa e contracapa. A textura parecia inspirada numa relíquia do século passado. Zahra desapertou a fita de veludo que ela própria atara na noite anterior. Iria continuar a leitura a partir do ponto em que a suspendera.
Ao abrir o diário, fê-lo na zona marcada. Zahra marcara a última página lida com o outro objecto que pretendia esconder, um pedaço de corda branca com vestígios vermelhos escuros.
A leitura do diário de Magdalena permitiu a Zahra ter conhecimento dos segredos da jovem, tais como a chantagem ao maestro e a cumplicidade com o seu noivo. Apesar de chocada, concluiu que o seu noivo ficaria muito mais chocado se ela tivesse que lhe contar como conseguira o diário.
As páginas manuscritas revelavam todos os segredos, todas as intimidades da jovem moldava. Chegava ao ponto de conter relatos dos filmes pornográficos e das partes que mais gostara de fazer.
Zahra leu tudo. E para sua enorme surpresa, não havia uma única referência a si e ao seu suposto envolvimento com outra mulher. Nem do seu, nem de nenhuma outra violinista da orquestra. Porque seria que ela nunca escrevera nada sobre isso? A dúvida ficou sem que Zahra pusesse a hipótese de ter sido enganada pelo noivo.
Ao terminar a leitura, Zahra pegou na corda e ficou a olhar para ela. E na penumbra do quarto, a sua mente regressou ao dia em que Magdalena fora assassinada.
O ensaio decorrera normalmente nessa tarde. Zahra tocava com um olho no maestro e outro em Magdalena, receosa que a miúda lhe estragasse a carreira e até o noivado. Não conseguia perceber que interesse teria ela em prejudicá-la, pois nunca lhe fizera mal e sempre a considerara uma excelente rapariga.
No fim do ensaio, Zahra e José ficaram a conversar, enquanto a maior parte dos membros da orquestra se dispersavam e iam embora. Nem o maestro permaneceu por ali muito tempo. Foi nesse instante que, antes de descer do palco, Magdalena olhou para o casal e sorriu com algum sarcasmo e provocação.
O sorriso destinava-se a José para o lembrar que o prazo para lhe dar os mil euros estava a terminar. Porém, Zahra interpretou-o como sendo para si, uma espécie de pontada antes da estocada final da denúncia.
Percebendo a mensagem, José despediu-se da noiva. Não tinha como fugir e teria de arranjar os mil euros para calar a miúda.
Entretanto, o telemóvel de Magdalena tocou. Era uma chamada do seu contacto dos filmes para combinar uma nova sessão. Perante os valores acordados, a rapariga falava animada com o interlocutor e combinava o dia, o local e a hora.
Ao desligar, só Zahra permanecia no anfiteatro.
A violinista não prestara muita atenção no telefonema, uma vez que tinha a mente perturbada com o que planeava fazer. Aproximou-se da jovem e disse:
— Olá, Magdalena! Tens um minuto?
— Sim, claro. — concordou a jovem.
Quem observasse, iria reparar que o semblante da rapariga para com Zahra nada tinha de comparação com a expressão que lançara antes a José.
— Tenho um assunto melindroso para te falar. Mas, preferia que fosse num local com mais privacidade.
Magdalena notou o tom preocupado da colega de orquestra. Não sabia o que poderia ser, mas vindo da noiva do seu cúmplice, poderia ser algo importante. Sendo assim, conduziu Zahra até à sala onde costumava reunir-se com José.
— Aqui podemos falar à vontade. — disse a rapariga moldava.
Zahra ainda estava espantada com o local, pois desconhecia aqueles cantos menos visitados do edifício.
— O José disse que tinhas uma coisa para dizer ao maestro.
Magdalena revelou um rosto de surpresa.
— O José contou-te?
— Sim.
— Confesso que nunca pensei que ele te contasse.
— Porque fazes isso, Magdalena?
A jovem pensou em responder que era pelo dinheiro, mas acabou por justificar:
— Não gosto de ser usada.
— Mas, ninguém te usou. — retorquiu Zahra. — A meu ver, tu só queres prejudicar as pessoas por pura maldade.
— É natural que penses assim. — lamentou Magdalena, pensando porque teria esperado que ela não tomasse o partido do noivo. — Afinal, isto toca-te na pele.
Zahra abanou a cabeça, julgando que se referia a si.
— Desejei estar enganada, mas afinal não estou.
— Lamento. — disse a outra, encolhendo os ombros. — Agora, se não tens mais nada a dizer, tenho de ir andando.
Zahra desviou-se para que ela passasse. Porém, no momento em que ia a sair, a violinista levantou os braços segurando uma corda nas mãos que enrolou à volta do pescoço da rapariga. Magdalena debateu-se, mas a posição adversa e a menor capacidade muscular foram-lhe fatais.
Com a corda, Zahra estrangulou a rapariga de quinze anos para que ela não denunciasse o caso que tivera com Adriana.
Se a razão lhe passou pela mente nos últimos instantes de vida, Magdalena pensaria que Zahra fazia aquilo para proteger o noivo.
Zahra tremia horrivelmente, abalada pelo crime que acabara de cometer. Aliviou a pressão da corda ao confirmar que a miúda já não respirava. Mesmo assim, temeu que ela ainda não estivesse morta e recuperasse a consciência a qualquer momento.
O ataque de Zahra fizera a mala de Magdalena cair ao chão e espalhar o conteúdo. A violinista escondeu a corda no bolso e ia a afastar se, quando reparou no diário caído no chão. Apanhou-o e fugiu dali o mais rápido que conseguiu sem que ninguém a tivesse visto.
Finda a leitura do diário, Zahra ficou a olhar para a corda manchada com o sangue de Magdalena que brotara das fissuras no pescoço. Era uma assassina, mas matara a rapariga sem razão, pois ela nada sabia do seu caso com Adriana. No entanto, a leitura do diário fê-la perceber quem era Magdalena Popov e as coisas que fazia, uma espécie de personalidade bipolar que enganara todos aqueles que se cruzaram no seu caminho. Lamentou o pobre namorado e o que ela descrevera que lhe fizera. Tomou as dores do futuro marido, chantageado, apesar de também ele ter agido mal. E até o seu futuro sogro lhe pareceu uma vítima que caíra na armadilha que ela lhe lançara. Zahra sabia que era uma assassina e teria de viver o resto dos seus dias com esse sangue nas mãos. Só desejava que nunca o descobrissem. Matara uma miúda de quinze anos, o que até soava a crueldade, mas depois de ter lido o diário, para si a miúda merecia mesmo morrer.
O Teatro Camões estivera com mais uma lotação esgotada, mais uma sala cheia de amantes da cultura e da arte que viam no bailado uma das suas formas de representação.
Como sempre sucedia, após o final da actuação daquele conjunto deslumbrante de bailarinos, os espectadores começavam a abandonar o edifício e espalhavam-se pela área envolvente, regressando a casa. Surgia sempre aquele primeiro grande fluxo de pessoas a sair que ia atenuando até se transformar em pequenos focos humanos. Em meia hora, já quase não se via vivalma por ali.
O ambiente ficava totalmente vago da presença humana até os artistas começarem a sair, depois de ter largado os trajes da encenação para voltar ao papel da realidade.
Junto ao gradeamento que ladeava o rio, mesmo defronte do teatro, um vulto aguardava. Já ali estava há mais de uma hora, mas ninguém lhe ligara importância, sendo que foram muito poucos os que repararam naquela pessoa bem vestida, encostado às grades, a ver o público a sair.
José Norton Vila era aquele vulto que no escuro da noite ainda não perdera a vontade de concretizar um desejo. E como estava na noite que antecedia o seu casamento, teria de fazer uma última tentativa.
Adriana Cavaleri saiu do teatro na companhia de três colegas. Vinham felizes com o sucesso, felizes com mais uma noite de aplausos e ovações de pé. Os três homens despediram-se dela e tomaram a direcção contrária à sua.
José observou tudo com a imaginação preconceituosa de que aqueles eram mais três homossexuais. Para si, um homem bailarino não poderia ser heterossexual.
Adriana, para si a lésbica que lhe despertava os desejos, caminhou tranquila pela rua até à avenida principal, onde poderia alcançar o autocarro que a transportaria para casa. José sentiu o desejo consumi-lo, só de olhar para as longas pernas cobertas por uma saia do vestido algo comprida, mas que tinha um corte que as revelava a cada passada.
Aquele já se tornara um percurso habitual. Adriana fazia-o quase sem observar o que a rodeava. Nunca era seguro andar sozinha pela noite lisboeta, mas ela tentava não ser cuidadosa ao ponto de se tornar paranoica. Por isso, não reparou em José que a seguia no passeio oposto, uns vinte metros mais atrás.
Contornando a esquina, a bailarina parou e sentou-se no banco da paragem de autocarro. Só muito raramente havia mais alguém ali para apanhar transporte.
José ficou a observá-la, protegido pela arcada de um prédio, na sombra, sem que a luz o pudesse denunciar, caso ela olhasse naquela direcção. Aguardou o tempo que foi preciso até ver o longo veículo amarelo parar em frente a ela e Adriana entrar no autocarro.
Tudo estava bem planeado na cabeça do pianista. Aquela vigia só servia para confirmar que ela ia para casa e que não alterara o seu caminho para sair com um colega ou um amigo. Assim que o autocarro arrancou, ele regressou ao seu carro e partiu rumo à rua onde ela vivia. José nem tinha de ter muita pressa, pois não havia muito trânsito e, até casa, Adriana ainda tinha de mudar de autocarro e fazer um pequeno percurso a pé desde a paragem até à porta do prédio.
O desejo fervilhava na ansiedade. Sabia que iria ser complicado, mas tinha de seduzi-la. No entanto, sabia que todos os prognósticos estavam contra si, pois sendo lésbica era altamente improvável que a conseguisse seduzir. Mas, se não tentasse… Ou melhor, se não continuasse a tentar, nunca o conseguiria. Fosse como fosse, os dados estavam lançados e não iria desistir.
Ao volante do seu carro, José entrou na rua onde a bailarina morava. Com umas notas na mão de um funcionário do teatro, conseguira saber o número da porta do prédio. E teve tanta sorte que, dez metros abaixo da porta pretendida, ele conseguiu um lugar de estacionamento que lhe permitia vê-la chegar sem sair do carro.
Adriana nem imaginava como a sua privacidade estava tão vulnerável perante o acenar de uma nota de cinquenta euros. As moradas dos artistas eram confidenciais, uma forma de manter a sua segurança contra um qualquer louco que lhes pretendesse fazer mal. O funcionário que se deixou corromper considerou que a fatiota do indivíduo que lhe estava a dar o dinheiro era um certificado de que a bailarina não corria riscos.
José teve de esperar bastante tempo até que Adriana chegasse. Não se importava, pois tinha a certeza que cada minuto de espera valeria aquele momento em que estivesse entre as pernas dela.
Adriana dobrou a esquina no mesmo ritmo tranquilo com que deixara o teatro. Escalou a rua ingreme com a dificuldade de quem trazia o cansaço de uma noite de dança exigente. A dois metros da porta, retirou a chave da mala.
— Boa noite, Adriana! — cumprimentou José, saindo do carro.
A bailarina assustou-se com a voz que a chamou e depois receou a presença do noivo da sua ex-amante ali tão tarde.
— José?
— Como está, Adriana? — perguntou enquanto se aproximava, sorrindo-lhe com ar sedutor.
A confusão atrapalhou os pensamentos da bailarina, cuja única coisa que conseguiu dizer foi:
— O que faz aqui?
José fez um movimento para a cumprimentar com um beijo, mas a posição retraída dela travou-o. Mantendo o sorriso e o tom galanteador, respondeu:
— Estava à sua espera.
— À minha espera?
— Sim. — José fez uma expressão de quem foi descoberto. — Amanhã é o dia do meu casamento. Aliás, a Adriana deve ter recebido um convite.
— Não, não recebi.
— Não? Que estranho. — disse ele, sabendo bem que ela não fora convidada. — Seja como for, é a minha despedida de solteiro. Por isso, pensei passar por aqui e convidá-la para beber um copo.
— Você está a falar a sério? — interrogou incrédula.
O ar de espanto de Adriana foi assumido pelo pianista como satisfação por ele se interessar por ela.
— Sim, claro. — respondeu com orgulho. — A Adriana é uma mulher bonita. E desde que nos vimos pela primeira vez que senti que houve algo entre nós. Não sei explicar, uma espécie de atracção contida.
— Você está mesmo a falar a sério, não está? — voltou ela a interrogar pasmada.
— Também sentiu, não foi? Calculei que sim. Vejo que fiz bem em ter seguido o meu instinto.
— José! Agora a sério. — pediu ela, agastada com aquela cena. — Faça um favor aos dois… melhor, aos três, já que não podemos esquecer a sua noiva, e vá para casa.
As palavras de Adriana atingiram o pianista como se tivesse sido acordado de um sonho. Sem se dar por vencido, aproximou-se um passo e insistiu:
— Sei que o queres tanto quanto eu. Podemos passar a parte do copo e ir já para tua casa.
— Ó José, vá-se embora antes que a gente se chateie.
— Não te faças difícil! — exigiu ele, segurando-lhe o braço. — Quando te foder até deixas de ser fufa!
A resposta de Adriana foi um violento estalo na cara dele. De tal forma, que ele lhe largou o braço para amparar a face atingida.
— É bom que te ponhas andar, palhaço! Senão, levas um soco e depois quero ver como explicas o olho negro à tua noiva.
José olhou-a com raiva. Tinha vontade de a subjugar ali, agarrá-la e violá-la sem piedade. Porém, ficou parado a vê-la meter a chave à porta para a abrir.
Ao entrar, pensando que ele se dera por satisfeito, desviou o olhar por uma fracção de segundo. Foi o suficiente para uma última tentativa dele, empurrando-a contra a porta e fazendo-a embater na parede. Abraçou-a por trás e apalpou-lhe o peito sem fazer ideia do sarilho em que se estava a meter.
Adriana sempre tivera um instinto de defesa apuradíssimo. Ele atacou, mas ela ripostou logo, levantando o braço e cravando-lhe um cotovelo na parte lateral da cabeça. Porém, só a segunda cotovelada no estômago o fez largá-la. Solta daquele abraço pervertido, Adriana deu lhe um pontapé na excitação e empurrou-o para fora do prédio, fechando a porta na sua cara.
A contorcer-se com dores, José Norton Vila deu-se por vencido e cambaleou até ao carro.
No átrio, Adriana respirou fundo para se acalmar. O seu vizinho brasileiro do rés-do-chão, alertado pelo barulho, veio saber o que se passava.
— Está tudo bem. — disse ela com um sorriso tranquilizador. — Foi só um maluco.
— Nossa! E você está bem, querida? — perguntou ele assustado com a sua voz afeminada. — Já nem na nossa casa, a gente se sente segura, mulher.
Adriana agradeceu a preocupação e despediu-se do vizinho, começando a escalar a escadaria até ao seu apartamento. Ainda sentia o coração a bater muito depressa e estava assustada. O seu amigo Leonardo já uma vez a alertara que o pianista estava interessado nela, mas ela nunca ligou importância e jamais pensou que esse interesse o levaria a tentar violá-la.
Ao abrir a porta do apartamento, Adriana encontrou a luz da sala acesa. Isso não a surpreendeu, pois sabia que tinha uma pessoa que a esperava em casa. A sua única surpresa foi não o ver numa casa tão pequena. Fechou a porta e o som vindo da casa de banho denunciou onde estava Leonardo.
Com o fim das relações de ambos, Leonardo e Adriana regressaram à sua amizade colorida. Por isso, a bailarina entregara uma chave a Leonardo para que ele a esperasse em casa.
— Estás pálida. — constatou ele, dando-lhe um beijo. — Estás bem?
— Não imaginas o que me aconteceu agora. — disse ela, atirando a mala para o sofá. — Tinha o noivo da Zahra à minha espera, lá em baixo.
— O pianista?
Adriana anuiu e relatou:
— Veio com uma conversa de que podia ser a sua despedida de solteiro.
— Eu tinha-te dito. — recordou ele. — O gajo andava de olho em ti.
— E de que maneira. Quando lhe dei com os pés, o sacana atacou-me.
— O quê? — insurgiu-se Leonardo. — Onde é que está esse cabrão? Vou lá abaixo ver se o apanho.
— Tem calma. — pediu ela, segurando-o. — Já passou. Deixa-o ir.
— Isto não pode ficar assim.
— Deixa… — voltou a pedir, acalmando-o com um beijo nos lábios.
Leonardo acatou o pedido e sentou-se no sofá, enquanto a bailarina desaparecia pela porta do quarto. Voltou a centrar a atenção na pequena televisão, onde passava um filme americano de acção.
— Já chegaste há muito tempo? — perguntou ela do quarto.
— Algum. Mas, devia ter-me atrasado para apanhar aquele filho da puta a meter-se contigo.
— Não quero que penses mais nisso, Leo. Já passou.
— Vou passar a ir buscar-te ao teatro. — sugeriu ele, já sem prestar atenção ao que passava no ecrã.
Adriana soltou um som de admiração no quarto e disse:
— Não sejas tonto. Não preciso de guarda-costas.
— Ele pode…
— Ele vai casar amanhã. E enquanto se lembrar do que apanhou hoje, não me parece que volte a meter-se comigo.
Leonardo riu. Conhecia bem a ferocidade da amiga quando se via em situações complicadas.
— Já jantaste, Leo?
— Comi qualquer coisa quando saí do trabalho.
Adriana surgiu na porta do quarto. Largara o vestido e apresentava-se de forma convidativa só com as cuecas rendadas de um tom lilás.
— Queres vir para a cama, Leo?
Ele levantou-se e desligou a televisão. Aceitou o convite com um beijo profundo e deixou-se levar para o quarto, fechando a porta atrás de si.
Zahra passava a sua última noite de solteira sozinha no seu apartamento. Jamais imaginara o que seu noivo tentara fazer como despedida de solteiro.
O ambiente no seu apartamento estava escuro. Só os candeeiros perto da cama tinham a luz acesa. Todo o restante open space estava sombrio. Zahra deslocou-se até uma gaveta onde guardava a sua roupa interior. A sua mão afundou-se nas peças guardadas, procurando algo que escondera ali. Quando a sua mão regressou do fundo da gaveta, trazia um pequeno bloco floreado e fechado com uma fita de veludo.
Nos últimos dias, Zahra dedicava os tempos solitários a ler o conteúdo do pequeno livro manuscrito, páginas e páginas de papel liso com uma caligrafia bonita a relatar acontecimentos do dia-a-dia. A violinista tinha na mão um diário, um diário que não era seu, um diário que pertencera a Magdalena Popov.
O livro tinha capa rija e desenhos de flores. A fita de veludo azul contrastava com os tons verde e rosa da capa e contracapa. A textura parecia inspirada numa relíquia do século passado. Zahra desapertou a fita de veludo que ela própria atara na noite anterior. Iria continuar a leitura a partir do ponto em que a suspendera.
Ao abrir o diário, fê-lo na zona marcada. Zahra marcara a última página lida com o outro objecto que pretendia esconder, um pedaço de corda branca com vestígios vermelhos escuros.
A leitura do diário de Magdalena permitiu a Zahra ter conhecimento dos segredos da jovem, tais como a chantagem ao maestro e a cumplicidade com o seu noivo. Apesar de chocada, concluiu que o seu noivo ficaria muito mais chocado se ela tivesse que lhe contar como conseguira o diário.
As páginas manuscritas revelavam todos os segredos, todas as intimidades da jovem moldava. Chegava ao ponto de conter relatos dos filmes pornográficos e das partes que mais gostara de fazer.
Zahra leu tudo. E para sua enorme surpresa, não havia uma única referência a si e ao seu suposto envolvimento com outra mulher. Nem do seu, nem de nenhuma outra violinista da orquestra. Porque seria que ela nunca escrevera nada sobre isso? A dúvida ficou sem que Zahra pusesse a hipótese de ter sido enganada pelo noivo.
Ao terminar a leitura, Zahra pegou na corda e ficou a olhar para ela. E na penumbra do quarto, a sua mente regressou ao dia em que Magdalena fora assassinada.
O ensaio decorrera normalmente nessa tarde. Zahra tocava com um olho no maestro e outro em Magdalena, receosa que a miúda lhe estragasse a carreira e até o noivado. Não conseguia perceber que interesse teria ela em prejudicá-la, pois nunca lhe fizera mal e sempre a considerara uma excelente rapariga.
No fim do ensaio, Zahra e José ficaram a conversar, enquanto a maior parte dos membros da orquestra se dispersavam e iam embora. Nem o maestro permaneceu por ali muito tempo. Foi nesse instante que, antes de descer do palco, Magdalena olhou para o casal e sorriu com algum sarcasmo e provocação.
O sorriso destinava-se a José para o lembrar que o prazo para lhe dar os mil euros estava a terminar. Porém, Zahra interpretou-o como sendo para si, uma espécie de pontada antes da estocada final da denúncia.
Percebendo a mensagem, José despediu-se da noiva. Não tinha como fugir e teria de arranjar os mil euros para calar a miúda.
Entretanto, o telemóvel de Magdalena tocou. Era uma chamada do seu contacto dos filmes para combinar uma nova sessão. Perante os valores acordados, a rapariga falava animada com o interlocutor e combinava o dia, o local e a hora.
Ao desligar, só Zahra permanecia no anfiteatro.
A violinista não prestara muita atenção no telefonema, uma vez que tinha a mente perturbada com o que planeava fazer. Aproximou-se da jovem e disse:
— Olá, Magdalena! Tens um minuto?
— Sim, claro. — concordou a jovem.
Quem observasse, iria reparar que o semblante da rapariga para com Zahra nada tinha de comparação com a expressão que lançara antes a José.
— Tenho um assunto melindroso para te falar. Mas, preferia que fosse num local com mais privacidade.
Magdalena notou o tom preocupado da colega de orquestra. Não sabia o que poderia ser, mas vindo da noiva do seu cúmplice, poderia ser algo importante. Sendo assim, conduziu Zahra até à sala onde costumava reunir-se com José.
— Aqui podemos falar à vontade. — disse a rapariga moldava.
Zahra ainda estava espantada com o local, pois desconhecia aqueles cantos menos visitados do edifício.
— O José disse que tinhas uma coisa para dizer ao maestro.
Magdalena revelou um rosto de surpresa.
— O José contou-te?
— Sim.
— Confesso que nunca pensei que ele te contasse.
— Porque fazes isso, Magdalena?
A jovem pensou em responder que era pelo dinheiro, mas acabou por justificar:
— Não gosto de ser usada.
— Mas, ninguém te usou. — retorquiu Zahra. — A meu ver, tu só queres prejudicar as pessoas por pura maldade.
— É natural que penses assim. — lamentou Magdalena, pensando porque teria esperado que ela não tomasse o partido do noivo. — Afinal, isto toca-te na pele.
Zahra abanou a cabeça, julgando que se referia a si.
— Desejei estar enganada, mas afinal não estou.
— Lamento. — disse a outra, encolhendo os ombros. — Agora, se não tens mais nada a dizer, tenho de ir andando.
Zahra desviou-se para que ela passasse. Porém, no momento em que ia a sair, a violinista levantou os braços segurando uma corda nas mãos que enrolou à volta do pescoço da rapariga. Magdalena debateu-se, mas a posição adversa e a menor capacidade muscular foram-lhe fatais.
Com a corda, Zahra estrangulou a rapariga de quinze anos para que ela não denunciasse o caso que tivera com Adriana.
Se a razão lhe passou pela mente nos últimos instantes de vida, Magdalena pensaria que Zahra fazia aquilo para proteger o noivo.
Zahra tremia horrivelmente, abalada pelo crime que acabara de cometer. Aliviou a pressão da corda ao confirmar que a miúda já não respirava. Mesmo assim, temeu que ela ainda não estivesse morta e recuperasse a consciência a qualquer momento.
O ataque de Zahra fizera a mala de Magdalena cair ao chão e espalhar o conteúdo. A violinista escondeu a corda no bolso e ia a afastar se, quando reparou no diário caído no chão. Apanhou-o e fugiu dali o mais rápido que conseguiu sem que ninguém a tivesse visto.
Finda a leitura do diário, Zahra ficou a olhar para a corda manchada com o sangue de Magdalena que brotara das fissuras no pescoço. Era uma assassina, mas matara a rapariga sem razão, pois ela nada sabia do seu caso com Adriana. No entanto, a leitura do diário fê-la perceber quem era Magdalena Popov e as coisas que fazia, uma espécie de personalidade bipolar que enganara todos aqueles que se cruzaram no seu caminho. Lamentou o pobre namorado e o que ela descrevera que lhe fizera. Tomou as dores do futuro marido, chantageado, apesar de também ele ter agido mal. E até o seu futuro sogro lhe pareceu uma vítima que caíra na armadilha que ela lhe lançara. Zahra sabia que era uma assassina e teria de viver o resto dos seus dias com esse sangue nas mãos. Só desejava que nunca o descobrissem. Matara uma miúda de quinze anos, o que até soava a crueldade, mas depois de ter lido o diário, para si a miúda merecia mesmo morrer.