Capítulo XXX
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Tinham passado vários dias desde o casamento em Alcobaça.
Adriana foi arrancada ao sono pelo toque estridente do seu telemóvel. Abriu os olhos e pegou no aparelho ruidoso, reparando no relógio do quarto, era quase meio-dia.
— Olá, Leo! — atendeu, percebendo que o lugar ao lado da sua cama estava vazio, o que não era suposto.
— Ui… que voz. — reparou ele. — Estavas a dormir? A esta hora?
— Foi uma noite longa. — confessou num tom envergonhado.
Adriana voltou a olhar para o espaço vago na cama. Por entre a sonolência de um despertar tão abrupto, tentou colocar as ideias em ordem.
— Percebo. Estás acompanhada? — interrogou Leonardo.
— Agora, não.
Naquele momento não estava, mas sua companheira dessa noite não deveria ter ido embora assim, sem dizer nada. Se não voltasse entretanto, iria procurá-la após o telefonema.
— Desculpa ter-te acordado.
— Não faz mal. Ainda bem que o fizeste. — Sorriu para o telemóvel. — Já devia estar a pé.
— Foi uma noite assim tão cansativa? — questionou ele com humor.
— Foi bastante agradável.
Pela mente de Adriana, as imagens passaram como se fosse um filme. Conhecera uma mulher num bar, uma mulher lindíssima, loura com um corpo demoniacamente atraente. Tinha uns olhos grandes azuis e uma boca carnuda. Percebeu pela roupa que era alguém que deveria ter ido para ali logo após o trabalho, pois vestia um conjunto formal de calça e casaco, mas desprendera os primeiros botões da camisa para combater o calor, dando a entender que o peito era generoso. Adriana sentiu o desejo invadi-la. Fora ao bar para passar algum tempo, beber qualquer coisa e voltar para casa. Contudo, sabia que jamais conseguiria dormir nessa noite se não tentasse seduzi-la.
A loura nem deu por ela entrar. Estava a conversar com outra pessoa ao balcão. Num ápice de oportunidade, Adriana tomou para si o lugar vago a seu lado. Pediu uma bebida.
O homem ao lado da loura despediu-se e afastou-se. Não parecia ser próximo dela, pois terminou o diálogo com um aperto de mão formal.
Sem se dirigir a ninguém em especial, a loura lamentou que o dia fora uma merda. Adriana agarrou a oportunidade para meter conversa, dizendo que o dela não fora melhor. A loura olhou-a com surpresa por ter alguém a interpelá-la, mas não se aborreceu com isso e deu continuidade à conversa, constatando que os homens eram autênticos empecilhos para as carreiras profissionais das mulheres.
Adriana não partilhou da opinião dela, a qual se surpreendeu com interesse ao saber que a jovem que falava com ela era bailarina. Como bailarina, Adriana sentia mais concorrência por parte das outras bailarinas que por parte dos bailarinos. A loura concordou.
A conversa entre ambas prolongou-se, o que levou a que abandonassem o balcão e fossem para uma das mesas do amplo salão. Os assuntos multiplicaram-se e entre elas cresceu um gosto em manter o diálogo sem preocupação pelo avançar das horas. De tema em tema, passadas mais de duas horas de troca de interesses, a ténue relação ali criada levou Adriana a arriscar uma confissão, era lésbica.
A reacção da loura foi sorrir e responder se todas as mulheres não teriam um pouco de lésbicas. Ela própria já se sentira atraída por mulheres. Adriana suspirou de alívio por a revelação não ter afugentado a outra. E o assumir de que também já se sentira atraída por mulheres fez crescer ainda mais o desejo em Adriana.
O seguimento da conversa não ocupou muito mais tempo no bar. Adriana lançou o convite para continuarem a falar em casa dela. A loura aceitou.
Para além de terem descoberto algumas curiosidades interessantes entre elas e pontos comuns que nem lhes passavam pela cabeça, chegaram à conclusão que já se haviam visto. Contudo, estes pontos foram pouco explorados, pois assim que chegaram a casa de Adriana, o primeiro beijo aconteceu de imediato e a sucessão de acontecimentos multiplicou os beijos. Despiram-se uma à outra, largando a roupa a caminho do quarto e caíram na cama, onde se deliciaram a explorar o corpo da parceira.
— Aconteceu alguma coisa? — indagou Adriana a Leonardo.
— A Matilde telefonou-me há pouco. — A reacção de Adriana foi sentar-se na cama e envolver o corpo nu no lençol. — Diz que tem saudades minhas e quer que voltemos a apostar na nossa relação.
Adriana fechou os olhos, parecendo magoada.
— E tu? Que lhe disseste?
— Que ia pensar.
— Não há nada a pensar, Leo. Tu és apaixonado por ela.
— Voltar a ter uma relação com ela irá obrigar a que nos voltemos a separar.
— Isso nunca foi problema. — recordou Adriana. — Sempre foi assim, entre nós, sempre nos afastámos quando tivemos compromissos sérios.
— Só que agora já não consigo encarar isso assim.
— Não há nada de diferente ao que era.
— Sabes bem que isso não é verdade. Tu sabes o que eu…
— Pára! — interrompeu Adriana. — Já te disse que as coisas entre nós nunca serão assim. És o homem que eu mais amo no Mundo, mas nunca serei uma namorada ou uma esposa para ti. E acho que não deves desperdiçar o amor da Matilde, se ela quer voltar para ti.
— Não vou conseguir afastar-me de ti.
— É bom que consigas. — alertou. — Se eu voltar a ter uma relação séria não hesitarei em afastar-te, tal como sempre acordámos fazer.
No outro lado da linha gerou-se o silêncio.
— Não tenho dúvidas de que o farás, mas eu não sei o que vou fazer. — disse ele por fim. — Combinei encontrar-me com ela, logo à noite. Até lá, vou pensar.
— Não abras mão dela, Leo. — pediu Adriana. — Eu adoro-te e quero que sejas feliz. Podes achar que não, mas entre nós não iria resultar. Eu nunca poderia ser aquilo que tu mereces de uma mulher. E se o tentasse, estaria a anular-me como pessoa. E eu sei que tu não queres isso. Acabaríamos por certo por nos odiar a curto prazo.
Novamente, a resposta veio em silêncio. Adriana ouviu a sua respiração e aguardou paciente pelas palavras dele.
— Sabes que viverás sempre no meu coração.
— Sei, sempre soube e nunca o esquecerei.
— Com a Matilde, nem amigos poderemos ser. Sabes como ela é ciumenta.
— Se for esse o preço da tua felicidade, estou disposta a pagá-lo.
— Pareces abrir mão de mim com facilidade.
— Não sejas parvo. — irritou-se Adriana. — Só Deus sabe como irei sofrer por não te ter por perto. Mas, és um amigo que amo muito e que quero que seja feliz.
— Podemos encontrar-nos uma última vez?
— Não.
— É por estares acompanhada? — questionou. — É sério?
— Não, Leo. — negou agastada. — Não é sério, foi uma noite de sexo, nada mais. Só que não vale a pena prolongar esta questão.
— Seguirei o teu conselho. — declarou vencido. — Só peço que não te afastes por completo.
Adriana não deu resposta. Enviou-lhe um último beijo, desejou lhe felicidades e desligou.
Sentada na cama, Adriana atirou o telemóvel para o colchão e deixou a cabeça cair com tristeza.
Nesse momento, a porta do quarto abriu-se e por ela entrou a loura que passara a noite com ela. Vestia unicamente a camisa.
— Bom dia, Matilde! — cumprimentou Adriana, olhando-a.
Matilde sorriu-lhe com carinho e corrigiu:
— Boa tarde. Já é meio-dia. — Sentou-se a seu lado na cama. — Ele ligou-te, não foi?
— Para dizer que lhe tinhas ligado. — adicionou Adriana. — Para me contar que queres reatar o vosso namoro.
— Sim, é verdade. — confirmou a jornalista, acariciando-lhe o rosto. — Mas achei-o hesitante.
— Impressão tua. — retorquiu a bailarina. — Vais ver que ele volta para ti.
— Ele disse-te…
— Não. O Leo não me disse o que ia fazer.
Matilde levantou-se do colchão e caminhou à volta da cama.
Adriana deixou-se encostar na cabeceira, mantendo o lençol preso entre os braços e o tronco.
— Se ele e eu voltarmos. — recomeçou Matilde. — Eu… Bom, Adriana. Eu gostava de continuar a ver-te.
— Ver-me? — interrogou incrédula.
— Tu sabes. Gostava que voltássemos a estar juntas. Esta noite foi… Bolas, miúda, adoro homens… Só que tu deste um novo conceito à minha ideia de sexo.
Adriana soltou uma risada irónica. Abanou a cabeça, não querendo acreditar no que ouvia. E ficou confusa em relação ao que haveria de responder.
— Aceito com duas condições. — acabou por dizer.
Matilde ficou impávida ao fundo da cama a olhar para Adriana.
A bailarina passou a mão pelos cabelos, puxando-os para trás.
— Não estás à espera que seja a tua amante sem que o Leonardo saiba, pois não? — Matilde esboçou um semblante pasmado. — Uma das condições é essa. Podemos continuar a encontrar-nos, mas ele saberá que tu e eu fazemos sexo. O Leonardo e eu nunca tivemos segredos. E muito menos lhe iria esconder que o traías comigo.
— Não é uma traição.
— Não? — irritou-se Adriana. — Propões-te a reatar o namoro com ele e queres continuar a ter relações sexuais com outra. Que chamas a isso?
— Não é bem assim.
— Porquê? Só porque em vez de o traíres com um homem o fazes com uma mulher?
— Eu seria incapaz de traí-lo. — ripostou Matilde. — Nunca o traí, nem pretendo traí-lo. Só que por muito bom que ele seja na cama, há coisas que só tu sabes como fazer. Há prazeres que só uma mulher sabe dar a outra.
— Tudo bem. Mas, ele terá de saber que o fazemos.
— E se ele recusar? — questionou Matilde, quase em desespero.
— Eu afasto-me.
Matilde abanou a cabeça, descrente. A seguir, olhou novamente para os olhos de Adriana e quis saber qual a segunda condição.
— Que não te oponhas que eu e ele nos encontremos para ter sexo. — informou com naturalidade.
— O quê?
— Isso que tu ouviste. — confirmou Adriana. — Tu queres continuar a foder comigo. Eu também quero, mas quero continuar a poder ir para a cama com o Leo.
Matilde levou as mãos à cabeça, confusa e sem saber como reagir. Afinal, a proposta de Adriana era tão indecente quanto a sua.
— Matilde! — chamou Adriana com um tom carinhoso na voz. — Parece-me justo. Tu queres manter a relação comigo e com o Leonardo. Eu não me importo, mas como compreenderás, também não quero perder o Leonardo. Tu não o estarás a trair a ele. E ele não te estará a trair a ti. Em contrapartida, eu serei fiel a ambos. Confio que vocês não se envolverão com ninguém para além de mim.
Matilde não deu resposta. E nos instantes que se seguiram, limitou-se a procurar as peças da sua roupa espalhada no quarto. Por fim, voltou a olhar para a amante e lembrou:
— Achas que ele aceita uma situação dessas?
— Preciso de te responder?
Matilde abriu o sorriso. Não, não seria necessário, pois ela sabia a resposta.
Leonardo fora surpreendido pelo telefonema de Matilde naquele fim de manhã de Sábado. Na última vez que falara com ela, a jornalista fora tão intransigente que ele não teve dúvidas de que não valeria a pena insistir e, por muito que isso o magoasse, seria melhor esquecê-la.
Claro que a reaproximação a Adriana ajudara a atenuar a rejeição. No entanto, também a bailarina se afastara desde que regressaram de Alcobaça, mantendo o contacto apenas por telefone.
Em casa, ele pensava em ambas. Eram duas mulheres extraordinárias. Envolto em deliberações da sua mente, Leonardo levantou-se do sofá e caminhou até à janela da sala. Parou junto ao vidro e observou o dia bonito lá fora.
Por momentos, fez um intervalo nas considerações amorosas para olhar para a cidade que o acolhera nos últimos anos. O Montijo crescia a grande velocidade, indiferente às crises e com cada vez mais habitantes que saiam da capital à procura de um lar mais em conta. Ele já vivia numa das zonas mais recentes e o seu prédio era quase novo. Mesmo assim, no lado oposto da sua avenida, novos prédios brotavam que nem cogumelos. Da sua janela podia ver apartamentos novos, nunca antes habitados, ainda para vender ao lado de novas construções.
Leonardo sabia que era uma falsa imagem de crescimento, pois a crise chegava a quase todos. Bastaria sair da sua casa e andar um quilómetro para encontrar construções abandonadas por empreiteiros falidos.
O Sol brilhava forte. Muitas pessoas aproveitavam para caminhar pela rua para desfrutar de uma Primavera cada vez mais presente.
As questões vagueavam-lhe pela mente. Gostara de receber o telefonema de Matilde, voltar a ouvi-la falar naquele tom atraente sem raiva. Queria reatar a relação com ele. Mas, porque o quereria fazer agora? Fora tão clara a rejeitá-lo. E, depois disso, ele nada fizera para a reconquistar. Porque mudara de ideias? Solidão? Desejo? Saudade? Não sabia responder.
Fosse o que fosse, iria saber nessa noite, quando se encontrasse com ela e lho perguntasse olhos nos olhos.
Voltar a namorar Matilde era bom, era muito bom, mas não fazia esquecer que isso significaria afastar-se de Adriana. Já pensara muitas vezes nessa situação e não conseguiu encontrar solução. Claro que não seria justo para Matilde que ele mantivesse uma amizade colorida. Só que também não era justo para ele ter de abandonar uma amiga.
Ao regressar ao sofá, constatou que fora Matilde quem ligara e quem pedira uma nova oportunidade à relação de ambos. Desta vez era ela quem vinha ter com ele e não o contrário. Logo, estava em vantagem. Não se orgulhava de pensar assim, mas via naquele pormenor a abertura para impor uma condição inegociável ao reatar do namoro: Matilde teria de aceitar Adriana como sua amiga e saber conviver com ela na sua vida.
Imediatamente lhe veio à memória a reacção da jornalista quando lhe disse que ia sair para ir ao apartamento de Adriana. Quando ouvisse aquela condição, Matilde Leão abriria as garras e voltaria a rechaçá-lo da sua vida. Se assim fosse, paciência. Antes isso que viver diariamente a pensar que abdicara da amizade de uma pessoa tão maravilhosa quanto a bailarina.
Sorriu ironicamente, sozinho na sua pequena sala, dizendo para si:
— Ainda vais acabar sem as duas.
A tarde foi passada com ansiedade e um nervoso miudinho. Deixou-se ficar pela sala a ver um filme na televisão, mas acabou por adormecer. Sonhou. No sonho, Leonardo via-se num cenário irreal com Matilde a estender-lhe a mão para que a agarrasse, mas ele não conseguia chegar-lhe sem largar a mão de Adriana.
— Vem, Leonardo! Vem comigo. — pedia a jornalista no sonho, apontando-lhe uma paisagem paradisíaca para onde o queria levar.
— Eu vou, mas a Adriana vem também. — respondia ele firme.
Adriana não conseguia sair do sítio onde estava e fazia força para que ele largasse a sua mão.
— Vai, Leo! — ordenava a bailarina com amargura. — Não te prendas comigo. Vai ser feliz!
— Deixa-a ficar! Vem comigo! — continuava Matilde.
Leonardo olhou para trás e viu uma escuridão sem fim atrás de Adriana. Parecia um buraco negro a sugar tudo o que lhe aparecesse no caminho.
— Vai, Leo!
Leonardo olhou para Matilde. Percebeu que a amava. Depois, olhou para Adriana e sentiu que a amava ainda mais. Voltou a olhar para Matilde e disse:
— Perdoa-me! Não sou capaz de deixar a Adriana para trás.
O rosto de Matilde surgiu em grande plano no seu sonho. As lágrimas escorreram-lhe pela face e a sua realidade foi-se afastando dele. Afastou-se até desaparecer, perante a tristeza de Leonardo.
Sem Matilde, ele voltou a olhar para Adriana que lhe sorria com carinho. Atrás de si, o buraco negro deixara de sugar e começara a abrir. Por ele brotaram várias mulheres, todas iguais, todas com o rosto de Zahra. Todas chamavam:
— Adriana! Adriana! Adriana!
Leonardo, no seu sonho, viu-a olhar para si e com carinho pedir:
— Larga a minha mão, Leo. Quero ser feliz. Eu disse-te que no teu lugar não pensaria duas vezes e deixar-te-ia para trás.
— Mas, Adriana…
— Zahra! — chamou ela, ignorando-o. — Zahra!
Sem que o conseguisse evitar, a mão de Adriana libertou-se da sua e afastou-se, deixando-o sozinho. Ele tentou ir atrás dela, mas começou a cair num poço sem fundo. E acordou.
Deitado no sofá, Leonardo sentiu o corpo suado. Lá fora, o entardecer tomava conta da paisagem. Levantou-se e foi tomar um banho, revendo aquele sonho tão alucinado na sua cabeça.
Matilde sugerira o encontro para o restaurante onde jantaram juntos pela primeira vez.
O anoitecer avançava tranquilo pelo céu. Leonardo partiu do Montijo e conduziu para mais uma travessia do rio Tejo. Desejou ter uma nota por cada vez que já ali passara.
Ao fundo no horizonte, o Sol já se afundara, permanecendo ainda o seu rasto alaranjado. As margens lisboetas ficaram polvilhadas de luzinhas. O rio parecia calmo e a maré estava baixa. A leste a noite era uma evidência.
A ponte Vasco da Gama ficara para trás. O seu caminho fê-lo avançar pelo IC17, onde iria contornar toda a capital até desembocar na grande rotunda de Algés. Era o caminho mais rápido ou, pelo menos, mais directo para o restaurante ribeirinho perto de Belém.
A seguir à rotunda, tomou o rumo de Pedrouços e atravessou a linha ferroviária pelo viaduto rodoviário. Conduziu pelo piso alcatroado cada vez mais degradado e manteve a velocidade. Em poucos minutos, estava a estacionar no parque do restaurante.
Como era noite em pleno fim-de-semana, o parque estava quase lotado. No entanto, o arrumador habitual fez-lhe sinal para um espaço mais à frente. Ele avançou e estacionou no sítio indicado. Saiu do carro, entregou uma moeda ao homem e seguiu para o restaurante.
Um funcionário recebeu-o com simpatia e encaminhou-o para uma mesa vazia junto às paredes de vidro com vista para o rio escuro e a margem sul com pequenos focos de luz.
Leonardo sentou-se no lugar que lhe permitia ver a entrada do estabelecimento. Olhou para o relógio e viu que ainda faltavam alguns minutos para a hora combinada. Sentia-se nervoso e pediu um aperitivo para descontrair.
Os minutos iam passando, o que só aumentava a sua ansiedade. Matilde estava dez minutos atrasada. Pensou no que estaria a fazer Adriana naquele momento. Estaria a torcer por si para que se entendesse com a jornalista ou a fazer força para que não resultasse? Conhecia-a demasiado bem para não ter dúvidas, ela estaria a torcer para que ele fosse feliz.
Já lá iam quinze minutos de atraso. Estava desejoso de vê-la. Tinha saudades de Matilde. O seu lado libidinoso questionou-se se iria sair dali para casa dela. Havia boas hipóteses de aquela noite terminar em sexo na cama de Matilde. Congratulou-se com isso, tendo o desejo a emergir em si. Porém, recordou-se da condição que iria colocar-lhe. Ela não iria aceitar…. O mais certo seria terminar a noite em casa sozinho.
A porta do restaurante abriu. Leonardo viu uma mulher loura entrar. Matilde surgiu imponente, envergando um vestido fresco verde escuro com uma saia que lhe terminava ligeiramente abaixo dos joelhos, um decote humilde e estava parcialmente coberto pelo casaco de estilo formal. Calçava sapatos de salto alto e o cabelo louro estava preso em carrapito na nuca.
Nem teve tempo para constatar como estava linda. A porta do restaurante não se fechara. Aliás, Matilde estava a segurá-la, aguardando a entrada de mais alguém.
Uma mulher morena entrou com ela. Também vinha de vestido, mas a saia era mais curta e as longas pernas estavam cobertas por meias escuras e botas de cano alto. O tecido era azul-escuro, as mangas compridas e a gola contornava o pescoço como um colar. O cabelo preto caia-lhe solto pelos ombros.
Seria impossível não a reconhecer, mas era tão irreal que ela estivesse ali… Seria coincidência? Não. Tinham vindo juntas e aproximavam-se dele a sorrir e de mão dada. Que estava a acontecer?
Matilde e Adriana pararam na sua frente e em uníssono disseram:
— Olá, Leo!
Adriana foi arrancada ao sono pelo toque estridente do seu telemóvel. Abriu os olhos e pegou no aparelho ruidoso, reparando no relógio do quarto, era quase meio-dia.
— Olá, Leo! — atendeu, percebendo que o lugar ao lado da sua cama estava vazio, o que não era suposto.
— Ui… que voz. — reparou ele. — Estavas a dormir? A esta hora?
— Foi uma noite longa. — confessou num tom envergonhado.
Adriana voltou a olhar para o espaço vago na cama. Por entre a sonolência de um despertar tão abrupto, tentou colocar as ideias em ordem.
— Percebo. Estás acompanhada? — interrogou Leonardo.
— Agora, não.
Naquele momento não estava, mas sua companheira dessa noite não deveria ter ido embora assim, sem dizer nada. Se não voltasse entretanto, iria procurá-la após o telefonema.
— Desculpa ter-te acordado.
— Não faz mal. Ainda bem que o fizeste. — Sorriu para o telemóvel. — Já devia estar a pé.
— Foi uma noite assim tão cansativa? — questionou ele com humor.
— Foi bastante agradável.
Pela mente de Adriana, as imagens passaram como se fosse um filme. Conhecera uma mulher num bar, uma mulher lindíssima, loura com um corpo demoniacamente atraente. Tinha uns olhos grandes azuis e uma boca carnuda. Percebeu pela roupa que era alguém que deveria ter ido para ali logo após o trabalho, pois vestia um conjunto formal de calça e casaco, mas desprendera os primeiros botões da camisa para combater o calor, dando a entender que o peito era generoso. Adriana sentiu o desejo invadi-la. Fora ao bar para passar algum tempo, beber qualquer coisa e voltar para casa. Contudo, sabia que jamais conseguiria dormir nessa noite se não tentasse seduzi-la.
A loura nem deu por ela entrar. Estava a conversar com outra pessoa ao balcão. Num ápice de oportunidade, Adriana tomou para si o lugar vago a seu lado. Pediu uma bebida.
O homem ao lado da loura despediu-se e afastou-se. Não parecia ser próximo dela, pois terminou o diálogo com um aperto de mão formal.
Sem se dirigir a ninguém em especial, a loura lamentou que o dia fora uma merda. Adriana agarrou a oportunidade para meter conversa, dizendo que o dela não fora melhor. A loura olhou-a com surpresa por ter alguém a interpelá-la, mas não se aborreceu com isso e deu continuidade à conversa, constatando que os homens eram autênticos empecilhos para as carreiras profissionais das mulheres.
Adriana não partilhou da opinião dela, a qual se surpreendeu com interesse ao saber que a jovem que falava com ela era bailarina. Como bailarina, Adriana sentia mais concorrência por parte das outras bailarinas que por parte dos bailarinos. A loura concordou.
A conversa entre ambas prolongou-se, o que levou a que abandonassem o balcão e fossem para uma das mesas do amplo salão. Os assuntos multiplicaram-se e entre elas cresceu um gosto em manter o diálogo sem preocupação pelo avançar das horas. De tema em tema, passadas mais de duas horas de troca de interesses, a ténue relação ali criada levou Adriana a arriscar uma confissão, era lésbica.
A reacção da loura foi sorrir e responder se todas as mulheres não teriam um pouco de lésbicas. Ela própria já se sentira atraída por mulheres. Adriana suspirou de alívio por a revelação não ter afugentado a outra. E o assumir de que também já se sentira atraída por mulheres fez crescer ainda mais o desejo em Adriana.
O seguimento da conversa não ocupou muito mais tempo no bar. Adriana lançou o convite para continuarem a falar em casa dela. A loura aceitou.
Para além de terem descoberto algumas curiosidades interessantes entre elas e pontos comuns que nem lhes passavam pela cabeça, chegaram à conclusão que já se haviam visto. Contudo, estes pontos foram pouco explorados, pois assim que chegaram a casa de Adriana, o primeiro beijo aconteceu de imediato e a sucessão de acontecimentos multiplicou os beijos. Despiram-se uma à outra, largando a roupa a caminho do quarto e caíram na cama, onde se deliciaram a explorar o corpo da parceira.
— Aconteceu alguma coisa? — indagou Adriana a Leonardo.
— A Matilde telefonou-me há pouco. — A reacção de Adriana foi sentar-se na cama e envolver o corpo nu no lençol. — Diz que tem saudades minhas e quer que voltemos a apostar na nossa relação.
Adriana fechou os olhos, parecendo magoada.
— E tu? Que lhe disseste?
— Que ia pensar.
— Não há nada a pensar, Leo. Tu és apaixonado por ela.
— Voltar a ter uma relação com ela irá obrigar a que nos voltemos a separar.
— Isso nunca foi problema. — recordou Adriana. — Sempre foi assim, entre nós, sempre nos afastámos quando tivemos compromissos sérios.
— Só que agora já não consigo encarar isso assim.
— Não há nada de diferente ao que era.
— Sabes bem que isso não é verdade. Tu sabes o que eu…
— Pára! — interrompeu Adriana. — Já te disse que as coisas entre nós nunca serão assim. És o homem que eu mais amo no Mundo, mas nunca serei uma namorada ou uma esposa para ti. E acho que não deves desperdiçar o amor da Matilde, se ela quer voltar para ti.
— Não vou conseguir afastar-me de ti.
— É bom que consigas. — alertou. — Se eu voltar a ter uma relação séria não hesitarei em afastar-te, tal como sempre acordámos fazer.
No outro lado da linha gerou-se o silêncio.
— Não tenho dúvidas de que o farás, mas eu não sei o que vou fazer. — disse ele por fim. — Combinei encontrar-me com ela, logo à noite. Até lá, vou pensar.
— Não abras mão dela, Leo. — pediu Adriana. — Eu adoro-te e quero que sejas feliz. Podes achar que não, mas entre nós não iria resultar. Eu nunca poderia ser aquilo que tu mereces de uma mulher. E se o tentasse, estaria a anular-me como pessoa. E eu sei que tu não queres isso. Acabaríamos por certo por nos odiar a curto prazo.
Novamente, a resposta veio em silêncio. Adriana ouviu a sua respiração e aguardou paciente pelas palavras dele.
— Sabes que viverás sempre no meu coração.
— Sei, sempre soube e nunca o esquecerei.
— Com a Matilde, nem amigos poderemos ser. Sabes como ela é ciumenta.
— Se for esse o preço da tua felicidade, estou disposta a pagá-lo.
— Pareces abrir mão de mim com facilidade.
— Não sejas parvo. — irritou-se Adriana. — Só Deus sabe como irei sofrer por não te ter por perto. Mas, és um amigo que amo muito e que quero que seja feliz.
— Podemos encontrar-nos uma última vez?
— Não.
— É por estares acompanhada? — questionou. — É sério?
— Não, Leo. — negou agastada. — Não é sério, foi uma noite de sexo, nada mais. Só que não vale a pena prolongar esta questão.
— Seguirei o teu conselho. — declarou vencido. — Só peço que não te afastes por completo.
Adriana não deu resposta. Enviou-lhe um último beijo, desejou lhe felicidades e desligou.
Sentada na cama, Adriana atirou o telemóvel para o colchão e deixou a cabeça cair com tristeza.
Nesse momento, a porta do quarto abriu-se e por ela entrou a loura que passara a noite com ela. Vestia unicamente a camisa.
— Bom dia, Matilde! — cumprimentou Adriana, olhando-a.
Matilde sorriu-lhe com carinho e corrigiu:
— Boa tarde. Já é meio-dia. — Sentou-se a seu lado na cama. — Ele ligou-te, não foi?
— Para dizer que lhe tinhas ligado. — adicionou Adriana. — Para me contar que queres reatar o vosso namoro.
— Sim, é verdade. — confirmou a jornalista, acariciando-lhe o rosto. — Mas achei-o hesitante.
— Impressão tua. — retorquiu a bailarina. — Vais ver que ele volta para ti.
— Ele disse-te…
— Não. O Leo não me disse o que ia fazer.
Matilde levantou-se do colchão e caminhou à volta da cama.
Adriana deixou-se encostar na cabeceira, mantendo o lençol preso entre os braços e o tronco.
— Se ele e eu voltarmos. — recomeçou Matilde. — Eu… Bom, Adriana. Eu gostava de continuar a ver-te.
— Ver-me? — interrogou incrédula.
— Tu sabes. Gostava que voltássemos a estar juntas. Esta noite foi… Bolas, miúda, adoro homens… Só que tu deste um novo conceito à minha ideia de sexo.
Adriana soltou uma risada irónica. Abanou a cabeça, não querendo acreditar no que ouvia. E ficou confusa em relação ao que haveria de responder.
— Aceito com duas condições. — acabou por dizer.
Matilde ficou impávida ao fundo da cama a olhar para Adriana.
A bailarina passou a mão pelos cabelos, puxando-os para trás.
— Não estás à espera que seja a tua amante sem que o Leonardo saiba, pois não? — Matilde esboçou um semblante pasmado. — Uma das condições é essa. Podemos continuar a encontrar-nos, mas ele saberá que tu e eu fazemos sexo. O Leonardo e eu nunca tivemos segredos. E muito menos lhe iria esconder que o traías comigo.
— Não é uma traição.
— Não? — irritou-se Adriana. — Propões-te a reatar o namoro com ele e queres continuar a ter relações sexuais com outra. Que chamas a isso?
— Não é bem assim.
— Porquê? Só porque em vez de o traíres com um homem o fazes com uma mulher?
— Eu seria incapaz de traí-lo. — ripostou Matilde. — Nunca o traí, nem pretendo traí-lo. Só que por muito bom que ele seja na cama, há coisas que só tu sabes como fazer. Há prazeres que só uma mulher sabe dar a outra.
— Tudo bem. Mas, ele terá de saber que o fazemos.
— E se ele recusar? — questionou Matilde, quase em desespero.
— Eu afasto-me.
Matilde abanou a cabeça, descrente. A seguir, olhou novamente para os olhos de Adriana e quis saber qual a segunda condição.
— Que não te oponhas que eu e ele nos encontremos para ter sexo. — informou com naturalidade.
— O quê?
— Isso que tu ouviste. — confirmou Adriana. — Tu queres continuar a foder comigo. Eu também quero, mas quero continuar a poder ir para a cama com o Leo.
Matilde levou as mãos à cabeça, confusa e sem saber como reagir. Afinal, a proposta de Adriana era tão indecente quanto a sua.
— Matilde! — chamou Adriana com um tom carinhoso na voz. — Parece-me justo. Tu queres manter a relação comigo e com o Leonardo. Eu não me importo, mas como compreenderás, também não quero perder o Leonardo. Tu não o estarás a trair a ele. E ele não te estará a trair a ti. Em contrapartida, eu serei fiel a ambos. Confio que vocês não se envolverão com ninguém para além de mim.
Matilde não deu resposta. E nos instantes que se seguiram, limitou-se a procurar as peças da sua roupa espalhada no quarto. Por fim, voltou a olhar para a amante e lembrou:
— Achas que ele aceita uma situação dessas?
— Preciso de te responder?
Matilde abriu o sorriso. Não, não seria necessário, pois ela sabia a resposta.
Leonardo fora surpreendido pelo telefonema de Matilde naquele fim de manhã de Sábado. Na última vez que falara com ela, a jornalista fora tão intransigente que ele não teve dúvidas de que não valeria a pena insistir e, por muito que isso o magoasse, seria melhor esquecê-la.
Claro que a reaproximação a Adriana ajudara a atenuar a rejeição. No entanto, também a bailarina se afastara desde que regressaram de Alcobaça, mantendo o contacto apenas por telefone.
Em casa, ele pensava em ambas. Eram duas mulheres extraordinárias. Envolto em deliberações da sua mente, Leonardo levantou-se do sofá e caminhou até à janela da sala. Parou junto ao vidro e observou o dia bonito lá fora.
Por momentos, fez um intervalo nas considerações amorosas para olhar para a cidade que o acolhera nos últimos anos. O Montijo crescia a grande velocidade, indiferente às crises e com cada vez mais habitantes que saiam da capital à procura de um lar mais em conta. Ele já vivia numa das zonas mais recentes e o seu prédio era quase novo. Mesmo assim, no lado oposto da sua avenida, novos prédios brotavam que nem cogumelos. Da sua janela podia ver apartamentos novos, nunca antes habitados, ainda para vender ao lado de novas construções.
Leonardo sabia que era uma falsa imagem de crescimento, pois a crise chegava a quase todos. Bastaria sair da sua casa e andar um quilómetro para encontrar construções abandonadas por empreiteiros falidos.
O Sol brilhava forte. Muitas pessoas aproveitavam para caminhar pela rua para desfrutar de uma Primavera cada vez mais presente.
As questões vagueavam-lhe pela mente. Gostara de receber o telefonema de Matilde, voltar a ouvi-la falar naquele tom atraente sem raiva. Queria reatar a relação com ele. Mas, porque o quereria fazer agora? Fora tão clara a rejeitá-lo. E, depois disso, ele nada fizera para a reconquistar. Porque mudara de ideias? Solidão? Desejo? Saudade? Não sabia responder.
Fosse o que fosse, iria saber nessa noite, quando se encontrasse com ela e lho perguntasse olhos nos olhos.
Voltar a namorar Matilde era bom, era muito bom, mas não fazia esquecer que isso significaria afastar-se de Adriana. Já pensara muitas vezes nessa situação e não conseguiu encontrar solução. Claro que não seria justo para Matilde que ele mantivesse uma amizade colorida. Só que também não era justo para ele ter de abandonar uma amiga.
Ao regressar ao sofá, constatou que fora Matilde quem ligara e quem pedira uma nova oportunidade à relação de ambos. Desta vez era ela quem vinha ter com ele e não o contrário. Logo, estava em vantagem. Não se orgulhava de pensar assim, mas via naquele pormenor a abertura para impor uma condição inegociável ao reatar do namoro: Matilde teria de aceitar Adriana como sua amiga e saber conviver com ela na sua vida.
Imediatamente lhe veio à memória a reacção da jornalista quando lhe disse que ia sair para ir ao apartamento de Adriana. Quando ouvisse aquela condição, Matilde Leão abriria as garras e voltaria a rechaçá-lo da sua vida. Se assim fosse, paciência. Antes isso que viver diariamente a pensar que abdicara da amizade de uma pessoa tão maravilhosa quanto a bailarina.
Sorriu ironicamente, sozinho na sua pequena sala, dizendo para si:
— Ainda vais acabar sem as duas.
A tarde foi passada com ansiedade e um nervoso miudinho. Deixou-se ficar pela sala a ver um filme na televisão, mas acabou por adormecer. Sonhou. No sonho, Leonardo via-se num cenário irreal com Matilde a estender-lhe a mão para que a agarrasse, mas ele não conseguia chegar-lhe sem largar a mão de Adriana.
— Vem, Leonardo! Vem comigo. — pedia a jornalista no sonho, apontando-lhe uma paisagem paradisíaca para onde o queria levar.
— Eu vou, mas a Adriana vem também. — respondia ele firme.
Adriana não conseguia sair do sítio onde estava e fazia força para que ele largasse a sua mão.
— Vai, Leo! — ordenava a bailarina com amargura. — Não te prendas comigo. Vai ser feliz!
— Deixa-a ficar! Vem comigo! — continuava Matilde.
Leonardo olhou para trás e viu uma escuridão sem fim atrás de Adriana. Parecia um buraco negro a sugar tudo o que lhe aparecesse no caminho.
— Vai, Leo!
Leonardo olhou para Matilde. Percebeu que a amava. Depois, olhou para Adriana e sentiu que a amava ainda mais. Voltou a olhar para Matilde e disse:
— Perdoa-me! Não sou capaz de deixar a Adriana para trás.
O rosto de Matilde surgiu em grande plano no seu sonho. As lágrimas escorreram-lhe pela face e a sua realidade foi-se afastando dele. Afastou-se até desaparecer, perante a tristeza de Leonardo.
Sem Matilde, ele voltou a olhar para Adriana que lhe sorria com carinho. Atrás de si, o buraco negro deixara de sugar e começara a abrir. Por ele brotaram várias mulheres, todas iguais, todas com o rosto de Zahra. Todas chamavam:
— Adriana! Adriana! Adriana!
Leonardo, no seu sonho, viu-a olhar para si e com carinho pedir:
— Larga a minha mão, Leo. Quero ser feliz. Eu disse-te que no teu lugar não pensaria duas vezes e deixar-te-ia para trás.
— Mas, Adriana…
— Zahra! — chamou ela, ignorando-o. — Zahra!
Sem que o conseguisse evitar, a mão de Adriana libertou-se da sua e afastou-se, deixando-o sozinho. Ele tentou ir atrás dela, mas começou a cair num poço sem fundo. E acordou.
Deitado no sofá, Leonardo sentiu o corpo suado. Lá fora, o entardecer tomava conta da paisagem. Levantou-se e foi tomar um banho, revendo aquele sonho tão alucinado na sua cabeça.
Matilde sugerira o encontro para o restaurante onde jantaram juntos pela primeira vez.
O anoitecer avançava tranquilo pelo céu. Leonardo partiu do Montijo e conduziu para mais uma travessia do rio Tejo. Desejou ter uma nota por cada vez que já ali passara.
Ao fundo no horizonte, o Sol já se afundara, permanecendo ainda o seu rasto alaranjado. As margens lisboetas ficaram polvilhadas de luzinhas. O rio parecia calmo e a maré estava baixa. A leste a noite era uma evidência.
A ponte Vasco da Gama ficara para trás. O seu caminho fê-lo avançar pelo IC17, onde iria contornar toda a capital até desembocar na grande rotunda de Algés. Era o caminho mais rápido ou, pelo menos, mais directo para o restaurante ribeirinho perto de Belém.
A seguir à rotunda, tomou o rumo de Pedrouços e atravessou a linha ferroviária pelo viaduto rodoviário. Conduziu pelo piso alcatroado cada vez mais degradado e manteve a velocidade. Em poucos minutos, estava a estacionar no parque do restaurante.
Como era noite em pleno fim-de-semana, o parque estava quase lotado. No entanto, o arrumador habitual fez-lhe sinal para um espaço mais à frente. Ele avançou e estacionou no sítio indicado. Saiu do carro, entregou uma moeda ao homem e seguiu para o restaurante.
Um funcionário recebeu-o com simpatia e encaminhou-o para uma mesa vazia junto às paredes de vidro com vista para o rio escuro e a margem sul com pequenos focos de luz.
Leonardo sentou-se no lugar que lhe permitia ver a entrada do estabelecimento. Olhou para o relógio e viu que ainda faltavam alguns minutos para a hora combinada. Sentia-se nervoso e pediu um aperitivo para descontrair.
Os minutos iam passando, o que só aumentava a sua ansiedade. Matilde estava dez minutos atrasada. Pensou no que estaria a fazer Adriana naquele momento. Estaria a torcer por si para que se entendesse com a jornalista ou a fazer força para que não resultasse? Conhecia-a demasiado bem para não ter dúvidas, ela estaria a torcer para que ele fosse feliz.
Já lá iam quinze minutos de atraso. Estava desejoso de vê-la. Tinha saudades de Matilde. O seu lado libidinoso questionou-se se iria sair dali para casa dela. Havia boas hipóteses de aquela noite terminar em sexo na cama de Matilde. Congratulou-se com isso, tendo o desejo a emergir em si. Porém, recordou-se da condição que iria colocar-lhe. Ela não iria aceitar…. O mais certo seria terminar a noite em casa sozinho.
A porta do restaurante abriu. Leonardo viu uma mulher loura entrar. Matilde surgiu imponente, envergando um vestido fresco verde escuro com uma saia que lhe terminava ligeiramente abaixo dos joelhos, um decote humilde e estava parcialmente coberto pelo casaco de estilo formal. Calçava sapatos de salto alto e o cabelo louro estava preso em carrapito na nuca.
Nem teve tempo para constatar como estava linda. A porta do restaurante não se fechara. Aliás, Matilde estava a segurá-la, aguardando a entrada de mais alguém.
Uma mulher morena entrou com ela. Também vinha de vestido, mas a saia era mais curta e as longas pernas estavam cobertas por meias escuras e botas de cano alto. O tecido era azul-escuro, as mangas compridas e a gola contornava o pescoço como um colar. O cabelo preto caia-lhe solto pelos ombros.
Seria impossível não a reconhecer, mas era tão irreal que ela estivesse ali… Seria coincidência? Não. Tinham vindo juntas e aproximavam-se dele a sorrir e de mão dada. Que estava a acontecer?
Matilde e Adriana pararam na sua frente e em uníssono disseram:
— Olá, Leo!