Capítulo XXXI
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Zahra nunca teve a ilusão de pensar que o seu casamento seria sinónimo de felicidade, uma vez que jamais a realizaria afectivamente. Porém, nunca duvidou de que seria o melhor caminho para o papel de mulher convencional, trabalhadora e mãe de filhos. E casar com o filho do maestro da sua orquestra, o qual se preparava para ocupar o comando do pai seria garantia de futuro para a sua carreira profissional.
Estava errada.
José Norton Vila foi um marido igual ao que era como namorado. Um homem prepotente que vivia como se o Mundo girasse à sua volta. Os meios escolhidos eram sempre aqueles que levavam a fins que o beneficiassem. E Zahra, na sua vida, servia para estar ao seu lado, viver para si e satisfazê-lo em todas as suas necessidades.
Na cama, Zahra começara a perder o empenho em simular o prazer e viu-se confrontada com a triste realidade de que ele não queria saber disso. A primeira vez que ganhou coragem e disse que não tivera prazer, ele encolheu os ombros e com enorme desinteresse disse-lhe que para ele fora bom.
A carreira de Zahra também não se revelou tão garantida quanto ela pensava. Com o caso do assassinato de Magdalena, supostamente às mãos do maestro Rudolph Norton Vila, a orquestra entrou numa espiral de insucesso, começando a ver cancelados alguns espectáculos devido à má imagem que sobressaia de tudo aquilo. Rudolph, ainda antes do julgamento, afastara-se da orquestra, dando o lugar ao filho, mas isso não melhorou as coisas. José Norton Vila até poderia ter formação, mas não tinha vocação de maestro e muito menos capacidade para lidar com as contrariedades.
Em cerca de seis meses, a orquestra faliu e a composição dos seus músicos dissolveu-se, obrigando todos a procurar um futuro melhor. Curiosamente, o membro da orquestra que alcançou maior notoriedade foi Manuel Mokenga, o qual formara um quarteto de cordas com três amigos angolanos e obtiveram muito sucesso um pouco por todo o Mundo. Para além da música, Manuel também teve sucesso noutra área ao casar com uma francesa que lhe viria a dar quatro filhos.
O rumo do fracasso da orquestra ajudou Zahra a chegar à conclusão que talvez não tivesse tomado as melhores opções na sua vida. No entanto, perante o negativismo que parecia pairar sobre si, ela decidiu dar uma nova luz à sua vida com uma gravidez.
No dia em que disse ao marido que estava grávida, nada a poderia ter preparado para o que veio a seguir. José ficou irritado com a notícia, pois a gravidez fora uma decisão unilateral de Zahra que não o consultara. Se o tivesse feito, saberia que ele não queria ter filhos, pois a vida de ambos não tinha espaço para crianças, muito menos naquela fase em que a orquestra estava tão mal. Zahra não conseguiu argumentar e o choque abateu-se sobre si por completo quando ele exigiu que ela fizesse um aborto ou, caso contrário, iria querer o divórcio e deixá-la-ia por sua conta e risco com uma criança nos braços.
Na manhã seguinte, José saiu de casa reiterando mais uma vez que não queria aquela criança. Sempre num tom autoritário, mandou Zahra procurar um médico que desse inicio ao processo de interrupção voluntária da gravidez. Ela nem lhe deu resposta e ficou a vê-lo sair do apartamento indiferente aos seus sentimentos.
Com uma vida tão adversa, um futuro tão negro e sem um amigo para falar e para a ajudar a encontrar uma solução, Zahra chorou agarrada ao ventre, onde se começava a formar um novo ser. Não tinha a quem recorrer, caso fosse contra a vontade do marido e quisesse ter aquela criança.
Ainda não se habituara àquele apartamento. Sempre fora a casa de solteiro do marido e ela pouco conseguira mudar para lhe dar um toque seu, um ar de que pertencia ali. Precisava de se recolher, pensar e encontrar uma solução. Por isso, arranjou-se e saiu de casa.
O destino foi o seu apartamento, o seu cantinho em Algés.
A manhã ia bem avançada e o ambiente solarengo colorido pelos raios solares davam alegria à paisagem. Porém, o espírito de Zahra ia no sentido oposto.
Entrou em casa, atravessando o amplo espaço escurecido pelas persianas fechadas. Largou a mala no sofá e foi até à cozinha para beber um copo com água. Constatou que estava a tremer. Já se dera por satisfeita de ter chegado até ali sã e salva, depois de ter conduzido com a cabeça envolta num turbilhão de pensamentos.
Largou o copo e caminhou até ao quarto. Parou em frente à cama e recordou os momentos ali passados com Adriana. A saudade fustigou-a como alfinetes espetados na pele. Errara. Errara muito. Errara ao ter aberto mão de alguém que a amava incondicionalmente. E já não havia nada a fazer para corrigir esse erro.
As lágrimas voltaram. Num acesso de raiva, despiu a roupa, arrebentando botões e rasgando tecido. Não era justo, repetia a si mesma, não era justo que a vida a tivesse levado naquele caminho. Ela só queria ser uma mulher normal, casar e ter filhos. Queria ter a carreira de sucesso que o seu talento merecia.
Em vez disso, casara com um homem que a anulava a cada dia. Ao ponto de a querer impedir de concretizar o seu sonho de ser mãe.
Não sabia o que fazer. Não tinha coragem para se desfazer da gravidez. Porém, não sabia o que seria de si se fosse contra a vontade do marido, até porque tinha a certeza que para além do divórcio, ele iria fazer tudo para lhe prejudicar a vida. Que seria de si sem trabalho nem dinheiro com uma criança nos braços? Pior que fazer o aborto, seria ver um filho definhar à fome por não ter o que lhe dar.
Homens como José deveriam ser incinerados nas chamas do Inferno. Só que ela não tinha coragem para lhe fazer frente. E chegou à triste conclusão que era fraca e que nunca tivera coragem para lutar por nada, deixando-se viver pelos conceitos dos outros. Só fora forte uma vez… não, duas. Nas duas vezes em que desprezara o amor da sua vida.
Despiu a roupa interior e caminhou até à sala. Sem se preocupar com a nudez, abriu as persianas das amplas janelas. Se alguém olhasse para lá, vê-la-ia como viera ao Mundo.
Retornou à cozinha e abriu o frigorífico. O frio interior tocou-lhe a pele e arrepiou-a. Olhou para as prateleiras e retirou uma garrafa de vinho branco já aberta. Levou o gargalo à boca e bebeu vários golos.
O seu futuro parecia uma linha que afunilava até se tornar um beco sem saída. Aliás, era já um beco sem saída. Encostada ao balcão da cozinha, olhou para o exterior, vendo as sombras nas fachadas dos prédios.
Mais um pouco de vinho. Estava fresco e sabia bem. Era a grande vantagem do álcool, dissipar as preocupações e deixar o corpo relaxado.
Com a garrafa na mão, seguiu para a casa de banho. Entrou no poliban, pousou a garrafa na prateleira, ao lado do gel de banho e do champô. Abriu a água, afinando a temperatura. Por fim, deixou que a água do chuveiro escorresse pelo seu corpo.
Fechou os olhos e pensou em coisas agradáveis. Pensou em Adriana e naqueles momentos partilhados na cama, o toque da bailarina… Nunca ninguém lhe soubera dar metade do prazer que Adriana provocava nela. Com a imagem da ex-amante na mente, começou a tocar-se. Simulou que Adriana estava ali consigo, acariciando a. Tocou-se naqueles pontos que a faziam estremecer, as fontes de prazer que a conduziam ao verdadeiro êxtase.
A água aquecida do chuveiro embaciou as portas acrílicas do poliban. Zahra gemia sozinha. Por momentos, esquecera o lado negro da vida e deixara que a luxuria tomasse conta de si. Com a mesma perícia que, outrora, os dedos de Adriana tiveram ali, Zahra provocou o seu orgasmo. Foi tão intenso que ela embateu na prateleira e derrubou a garrafa de vinho branco.
O impacto no chão molhado despertou-a. Viu os vidros partidos à volta dos pés, ainda com espasmos de prazer a percorrer-lhe o corpo. O som de vidros a partir trouxe-a de novo à realidade, fazendo-a regressar à vida com um marido que não permitia que ela fosse mãe da criança que se formava dentro de si. Deixou-se escorregar com as costas encostadas aos azulejos e sentou-se no chão, onde a água levava os restos de vinho branco e os pedaços mais pequenos de vidro.
As lágrimas voltaram e Zahra caiu num choro desesperado e solitário. Jamais seria capaz de viver com o peso de ter feito um aborto, de ter abdicado daquele ser dentro de si.
A sua atenção voltou-se para um bocado grande que restara da garrafa. Pegou-lhe com cuidado para não se cortar nas bordas afiadas. Ficou a olhar para ele como se fosse uma peça arqueológica com milhares de anos, encontrada numa escavação. Passou o dedo indicador pela parte lascada e cortou-se, confirmando que estava mesmo afiada.
Perante aquilo que se adivinhava na sua vida futura, pensando e repensando sem encontrar uma solução que não envolvesse dor, drama e infelicidade, Zahra sucumbiu ao desespero. Esticou o pulso esquerdo e com o vidro afiado cortou as veias na ligação entre a mão e o braço. Sentiu uma dor lancinante, perdendo a força e vendo o sangue começar a escorrer. Por último, segurou o mesmo pedaço entre os joelhos e repetiu a acção no pulso direito.
O vidro caiu, tal como os braços dela ao lado do corpo. Zahra ficou a olhar para a água a cair do chuveiro até começar a perder a consciência. À sua volta, o sangue escorria dos pulsos e era levado pela água.
Os seus olhos começaram a fechar. Sentiu-se fraca, mas fez um último esforço para assentar uma mão sobre o ventre.
— Desculpa… — pediu num último fôlego, olhando para a barriga.
Zahra cumpriria a vontade do marido, mas acompanharia o filho deixando José viúvo.
O maestro Rudolph Norton Vila nunca viria a ser julgado pelo assassinato de Magdalena Popov, uma vez que nunca foram encontradas provas disso. E, de facto, ele não era o assassino. Porém, foi julgado por abuso sexual de menores e condenado a pena de prisão efectiva. O tempo que passou na prisão foi muito complicado para si, uma vez que todos sabiam que ele abusara de uma rapariga de quinze anos. Não interessava o passado ou a vida da jovem, o único facto que prevalecia era o abuso e o assassinato. E mesmo não tendo sido provado, o maestro nunca se livrou da imagem de ser o assassino.
Quando saiu da prisão, já a esposa se divorciara dele, pois nunca lhe perdoara o que ele fizera naquela filmagem com Magdalena. Viveu miseravelmente até ao fim dos seus dias, desprezado pela sua classe.
José Norton Vila reagiu ao suicídio de Zahra como se tivesse ficado livre de um peso. Chegara a pensar que ela desaparecera, quando não dormira em casa na noite após a discussão e ele não a conseguia contactar. Contudo, antes de dar parte do desaparecimento à polícia, foi procurá-la no seu apartamento. Foi ele quem encontrou o corpo da violinista, já sem vida, caído no poliban.
Não houve qualquer emoção. Chamou o 112 e lamentou às autoridades que o fracasso que a orquestra atravessava tivesse levado a esposa a pôr fim à vida.
José, após a morte da mulher, abandonou Portugal e foi viver para a Suíça, dando continuidade à sua carreira de pianista e mantendo o sucesso que sempre tivera.
Tudo lhe corria bem. Era um daqueles exemplos, para quem conhecesse todos os factos, em que se poderia dizer que ser mau compensava. E compensou até uma tarde em que durante um ensaio, uma parte do cenário caiu sobre ele. José ficou muito ferido, mas não morreu. Porém, viveu o resto da vida numa cadeira de rodas.
Dois anos mais tarde, no Verão, o Sol incidia em ambas as margens do rio Tejo. Estava muito calor e a brisa fraca pouco ajudava a suportar as vagas frequentes de temperaturas elevadas.
Leonardo e Matilde observavam a água cobertos pela sombra das árvores da zona ribeirinha do Parque das Nações. O tempo fizera do operador de câmara um indivíduo mais forte, talvez cinco quilos mais gordo. No entanto, o seu rosto revelava a satisfação pela vida e pelas coisas boas que esta colocara no seu caminho. A jornalista apresentava uma elegância soberba para uma grávida de seis meses. Conseguira seguir um regime para não engordar acima do indicado pelos médicos, mas mesmo assim achava que estava balofa. O vestido largo próprio para grávidas atribuía-lhe uma imagem terna e maternal, adjectivos paradoxais em relação à antiga Matilde Leão.
A jornalista Matilde Leão continuava a exercer as suas funções de apresentadora dos blocos de notícias da mesma estação de televisão, sendo que passado aquele tempo já só apresentava nos horários nobres. Para além disso, ocupava um cargo de liderança no departamento de informação e era uma das pessoas mais importantes da empresa.
Profissionalmente, Leonardo não evoluíra muito. Continuava a ser operador de imagem, algo que sempre gostou de ser. No entanto, cerca de um ano antes envolvera-se em projectos de realização e trabalhava para uma produtora de novelas nacionais.
O casal aguardava abraçado, procurando com o olhar a chegada de Adriana. A bailarina surgiu poucos minutos depois, vinda do lado sul. Nela quase nada mudara para além da mesma aura de felicidade que emanava tanto em si como neles. Deslizava deslumbrante pelo passeio ribeirinho, com os cabelos negros compridos a esvoaçar e o rosto escondido pelos óculos de sol. Para suportar a temperatura vestia uma saia curta e uma blusa de algodão. As botas de cano alto deram lugar a sandálias de salto alto.
Parou junto deles com um sorriso feliz. Puxou os óculos para o cimo da cabeça e deu um beijo terno nos lábios de Matilde. Inclinou-se para Leonardo e também lhe beijou a boca com o mesmo carinho.
— Que se passa, Adriana? — questionou Matilde. — Que notícia é essa que não podia esperar por chegarmos a casa?
Dois anos antes, os três entregaram-se àquele triângulo amoroso sem grandes expectativas. Aliás, combinaram mesmo que nenhum deles teria elevadas esperanças no futuro da relação. E no início, encontravam se à vez. Se Leonardo estivesse com Matilde, não estava com Adriana, se Adriana estivesse com Leonardo não estava com Matilde, se Matilde estivesse com Adriana não estava com Leonardo. E vice-versa.
No entanto, esta situação durou menos de um mês porque eles gostavam mesmo de estar juntos, gostavam de passar o tempo que tivessem para se divertirem juntos, desde passeios ao luar, a idas ao cinema ou ao teatro, jantares, entre outras coisas. Isso resultou na mudança de Leonardo para o apartamento de Matilde ao fim de dois meses de relação. E quase um mês depois, eram tantas as noites que Adriana passava com eles que também ela se mudou para lá, abandonando em definitivo a sua casa no centro de Lisboa.
Mais uma vez, tentaram não criar expectativas, mesmo que estivessem a dar aquele grande passo. Era uma fase nova da relação deles, viverem todos juntos, algo que por vezes arruína as relações.
Felizmente, isso não aconteceu. E quase um ano e nove meses de vida comum depois, os três eram apaixonados e felizes. A única coisa que mudaram no apartamento, outrora da solitária jornalista, foi a cama, trocando-a por uma maior onde os três dormiam.
Sendo uma figura cada vez mais conhecida, Matilde Leão chegou a ser visada em algumas revistas cor-de-rosa, naqueles exemplos mais gritantes de mau jornalismo que recorre ao boato e à infâmia para vender papel. Chegaram a fazer capas com o facto de ela viver maritalmente com um homem e uma mulher. Pintaram-na como uma subjugada à relação do namorado com a amante e depois acusaram-na de leviana por partilhar a cama com os dois.
Matilde Leão foi feroz e, em entrevista televisiva num programa de um apresentador seu amigo, assumiu publicamente o amor por Leonardo e Adriana. Lamentou as mentes preconceituosas e exigiu privacidade na sua vida, no que respeitava às paredes de sua casa.
O facto que mais importunava a opinião pública ou pelo menos aquele que mais tinham coragem de condenar, era ela amar duas pessoas de igual forma. Só que na sua vida, Matilde sempre esteve habituada a batalhar contra tudo e todos e muito mais estaria quando isso significava a sua felicidade.
Com o tempo as pessoas foram perdendo o interesse na sua história, uma vez que cada dia que passava só revelava uma vivência mais feliz. E a maior parte das pessoas prefere ler sobre a infelicidade dos outros.
Assim, ali em frente ao rio, com a enorme torre do hotel atrás, Adriana ofereceu-lhes um sorriso muito aberto e com enorme alegria, informou:
— Vou ser a bailarina principal da nova peça da Companhia Nacional de Bailado.
Leonardo e Matilde deliraram com a notícia e abraçaram-na.
A bailarina baixou-se junto à barriga de Matilde e disse:
— Ouviste, pequenina? A madrinha vai ser a nova estrela da companhia.
Matilde deu-lhe um beijo de parabéns.
— Estou muito feliz por ti, querida.
— Tu mereces, linda! — afirmou Leonardo, abraçando-a.
— E já que falaste em madrinha. — lembrou a jornalista, acariciando a mão da outra na sua barriga. — Já pensaste num nome para a criança?
— Vocês é que são os pais. Devem ser vocês a escolher o nome.
— Tu és a madrinha, Adriana. E vais ser tão importante na vida desta criança quanto nós.
— Eu sei, Matilde.
— Então dá-lhe um nome! — exigiu Leonardo com ternura.
Adriana baixou o olhar, pensativa. Depois, olhou para o rio sem observar nenhum ponto em especial. Num tom revelador das marcas do passado, acabou por dizer:
— Eu sei que ela me prejudicou muito. Sei que me magoou muito. Mas, isso não faz com que não tenha sido uma pessoa muito importante na minha vida. Foi ela que me desprezou e talvez tenha pago um preço demasiado elevado pelas escolhas erradas que fez na vida. — Sorriu com as lembranças da adolescência. — Gosto de a lembrar pelos momentos genuínos e pela pessoa que ela foi, quando se deixava dominar pelo coração. — Ofereceu-lhes aquele olhar apaixonado que não deixava dúvidas de quanto amava os dois. — Se estiverem de acordo, eu gostava que a vossa filha, a minha afilhada, se chamasse Zahra.
Leonardo e Matilde sorriram. A sugestão de Adriana não os surpreendia e ainda não tinham esquecido o que ela sofrera nos dias que se sucederam ao conhecimento da morte de Zahra. Pareceu-lhes justo e uma bonita homenagem ao amor que outrora existira entre elas.
Adriana retribuiu o sorriso.
No rio, um veleiro navegava ao sabor do vento. Um pouco mais a sul, um barco de recreio passava com vários passageiros numa visita guiada às margens da capital.
Na ponte, os carros atravessavam em ambos os sentidos, fazendo ecoar um zumbido ao longe dos motores.
Sobre eles, alguns pássaros chilreavam nas árvores, saltitando entre ramos e abanando as folhas que resistiam à brisa fraca.
Os três viraram as costas ao rio e observaram os prédios a norte.
Matilde acariciou a barriga com ambas as mãos, procurando sentir a bebé. Estava tão feliz que teve receio de tudo não passar de um sonho. Zahra mexeu-se no seu ventre como um sinal de que Matilde estava acordada e era tudo bem real.
— Sei que temos vivido sem expectativas, mas com esta criança devíamos ponderar algumas coisas para o futuro. — disse ela, voltando a observar os prédios. Leonardo e Adriana olharam para ela. — Devíamos pensar em mudar de casa. Vamos precisar de uma casa maior com a bebé.
Adriana assentiu e disse:
— Também concordo.
— Isto não está fácil. — lembrou Leonardo. — Ainda tenho o meu apartamento para venda. Podemos pôr também o teu. Se vendêssemos os dois, já daria para uma casa maior.
— Só precisamos de mais um quarto para a bebé. — explicou Matilde. Sorriu-lhes com desejo. — Não quero deixar de vos ter na cama, todas as noites.
— Vamos planear a venda da casa. — decidiu Leonardo. — Até lá, ainda cabe um berço no quarto.
Elas riram com aquela forma simples de enquadrar tudo.
Matilde deu uma mão a Adriana e outra a Leonardo. Afastaram se do gradeamento e caminharam pela zona ribeirinha, felizes por partilharem aquele amor tão sincero e genuíno.
Podem não acreditar, até porque isso é cada vez mais raro nas sociedades contemporâneas, mas Adriana, Matilde e Leonardo nunca deixaram de se amar e viveram mesmo felizes para sempre.
FIM
Estava errada.
José Norton Vila foi um marido igual ao que era como namorado. Um homem prepotente que vivia como se o Mundo girasse à sua volta. Os meios escolhidos eram sempre aqueles que levavam a fins que o beneficiassem. E Zahra, na sua vida, servia para estar ao seu lado, viver para si e satisfazê-lo em todas as suas necessidades.
Na cama, Zahra começara a perder o empenho em simular o prazer e viu-se confrontada com a triste realidade de que ele não queria saber disso. A primeira vez que ganhou coragem e disse que não tivera prazer, ele encolheu os ombros e com enorme desinteresse disse-lhe que para ele fora bom.
A carreira de Zahra também não se revelou tão garantida quanto ela pensava. Com o caso do assassinato de Magdalena, supostamente às mãos do maestro Rudolph Norton Vila, a orquestra entrou numa espiral de insucesso, começando a ver cancelados alguns espectáculos devido à má imagem que sobressaia de tudo aquilo. Rudolph, ainda antes do julgamento, afastara-se da orquestra, dando o lugar ao filho, mas isso não melhorou as coisas. José Norton Vila até poderia ter formação, mas não tinha vocação de maestro e muito menos capacidade para lidar com as contrariedades.
Em cerca de seis meses, a orquestra faliu e a composição dos seus músicos dissolveu-se, obrigando todos a procurar um futuro melhor. Curiosamente, o membro da orquestra que alcançou maior notoriedade foi Manuel Mokenga, o qual formara um quarteto de cordas com três amigos angolanos e obtiveram muito sucesso um pouco por todo o Mundo. Para além da música, Manuel também teve sucesso noutra área ao casar com uma francesa que lhe viria a dar quatro filhos.
O rumo do fracasso da orquestra ajudou Zahra a chegar à conclusão que talvez não tivesse tomado as melhores opções na sua vida. No entanto, perante o negativismo que parecia pairar sobre si, ela decidiu dar uma nova luz à sua vida com uma gravidez.
No dia em que disse ao marido que estava grávida, nada a poderia ter preparado para o que veio a seguir. José ficou irritado com a notícia, pois a gravidez fora uma decisão unilateral de Zahra que não o consultara. Se o tivesse feito, saberia que ele não queria ter filhos, pois a vida de ambos não tinha espaço para crianças, muito menos naquela fase em que a orquestra estava tão mal. Zahra não conseguiu argumentar e o choque abateu-se sobre si por completo quando ele exigiu que ela fizesse um aborto ou, caso contrário, iria querer o divórcio e deixá-la-ia por sua conta e risco com uma criança nos braços.
Na manhã seguinte, José saiu de casa reiterando mais uma vez que não queria aquela criança. Sempre num tom autoritário, mandou Zahra procurar um médico que desse inicio ao processo de interrupção voluntária da gravidez. Ela nem lhe deu resposta e ficou a vê-lo sair do apartamento indiferente aos seus sentimentos.
Com uma vida tão adversa, um futuro tão negro e sem um amigo para falar e para a ajudar a encontrar uma solução, Zahra chorou agarrada ao ventre, onde se começava a formar um novo ser. Não tinha a quem recorrer, caso fosse contra a vontade do marido e quisesse ter aquela criança.
Ainda não se habituara àquele apartamento. Sempre fora a casa de solteiro do marido e ela pouco conseguira mudar para lhe dar um toque seu, um ar de que pertencia ali. Precisava de se recolher, pensar e encontrar uma solução. Por isso, arranjou-se e saiu de casa.
O destino foi o seu apartamento, o seu cantinho em Algés.
A manhã ia bem avançada e o ambiente solarengo colorido pelos raios solares davam alegria à paisagem. Porém, o espírito de Zahra ia no sentido oposto.
Entrou em casa, atravessando o amplo espaço escurecido pelas persianas fechadas. Largou a mala no sofá e foi até à cozinha para beber um copo com água. Constatou que estava a tremer. Já se dera por satisfeita de ter chegado até ali sã e salva, depois de ter conduzido com a cabeça envolta num turbilhão de pensamentos.
Largou o copo e caminhou até ao quarto. Parou em frente à cama e recordou os momentos ali passados com Adriana. A saudade fustigou-a como alfinetes espetados na pele. Errara. Errara muito. Errara ao ter aberto mão de alguém que a amava incondicionalmente. E já não havia nada a fazer para corrigir esse erro.
As lágrimas voltaram. Num acesso de raiva, despiu a roupa, arrebentando botões e rasgando tecido. Não era justo, repetia a si mesma, não era justo que a vida a tivesse levado naquele caminho. Ela só queria ser uma mulher normal, casar e ter filhos. Queria ter a carreira de sucesso que o seu talento merecia.
Em vez disso, casara com um homem que a anulava a cada dia. Ao ponto de a querer impedir de concretizar o seu sonho de ser mãe.
Não sabia o que fazer. Não tinha coragem para se desfazer da gravidez. Porém, não sabia o que seria de si se fosse contra a vontade do marido, até porque tinha a certeza que para além do divórcio, ele iria fazer tudo para lhe prejudicar a vida. Que seria de si sem trabalho nem dinheiro com uma criança nos braços? Pior que fazer o aborto, seria ver um filho definhar à fome por não ter o que lhe dar.
Homens como José deveriam ser incinerados nas chamas do Inferno. Só que ela não tinha coragem para lhe fazer frente. E chegou à triste conclusão que era fraca e que nunca tivera coragem para lutar por nada, deixando-se viver pelos conceitos dos outros. Só fora forte uma vez… não, duas. Nas duas vezes em que desprezara o amor da sua vida.
Despiu a roupa interior e caminhou até à sala. Sem se preocupar com a nudez, abriu as persianas das amplas janelas. Se alguém olhasse para lá, vê-la-ia como viera ao Mundo.
Retornou à cozinha e abriu o frigorífico. O frio interior tocou-lhe a pele e arrepiou-a. Olhou para as prateleiras e retirou uma garrafa de vinho branco já aberta. Levou o gargalo à boca e bebeu vários golos.
O seu futuro parecia uma linha que afunilava até se tornar um beco sem saída. Aliás, era já um beco sem saída. Encostada ao balcão da cozinha, olhou para o exterior, vendo as sombras nas fachadas dos prédios.
Mais um pouco de vinho. Estava fresco e sabia bem. Era a grande vantagem do álcool, dissipar as preocupações e deixar o corpo relaxado.
Com a garrafa na mão, seguiu para a casa de banho. Entrou no poliban, pousou a garrafa na prateleira, ao lado do gel de banho e do champô. Abriu a água, afinando a temperatura. Por fim, deixou que a água do chuveiro escorresse pelo seu corpo.
Fechou os olhos e pensou em coisas agradáveis. Pensou em Adriana e naqueles momentos partilhados na cama, o toque da bailarina… Nunca ninguém lhe soubera dar metade do prazer que Adriana provocava nela. Com a imagem da ex-amante na mente, começou a tocar-se. Simulou que Adriana estava ali consigo, acariciando a. Tocou-se naqueles pontos que a faziam estremecer, as fontes de prazer que a conduziam ao verdadeiro êxtase.
A água aquecida do chuveiro embaciou as portas acrílicas do poliban. Zahra gemia sozinha. Por momentos, esquecera o lado negro da vida e deixara que a luxuria tomasse conta de si. Com a mesma perícia que, outrora, os dedos de Adriana tiveram ali, Zahra provocou o seu orgasmo. Foi tão intenso que ela embateu na prateleira e derrubou a garrafa de vinho branco.
O impacto no chão molhado despertou-a. Viu os vidros partidos à volta dos pés, ainda com espasmos de prazer a percorrer-lhe o corpo. O som de vidros a partir trouxe-a de novo à realidade, fazendo-a regressar à vida com um marido que não permitia que ela fosse mãe da criança que se formava dentro de si. Deixou-se escorregar com as costas encostadas aos azulejos e sentou-se no chão, onde a água levava os restos de vinho branco e os pedaços mais pequenos de vidro.
As lágrimas voltaram e Zahra caiu num choro desesperado e solitário. Jamais seria capaz de viver com o peso de ter feito um aborto, de ter abdicado daquele ser dentro de si.
A sua atenção voltou-se para um bocado grande que restara da garrafa. Pegou-lhe com cuidado para não se cortar nas bordas afiadas. Ficou a olhar para ele como se fosse uma peça arqueológica com milhares de anos, encontrada numa escavação. Passou o dedo indicador pela parte lascada e cortou-se, confirmando que estava mesmo afiada.
Perante aquilo que se adivinhava na sua vida futura, pensando e repensando sem encontrar uma solução que não envolvesse dor, drama e infelicidade, Zahra sucumbiu ao desespero. Esticou o pulso esquerdo e com o vidro afiado cortou as veias na ligação entre a mão e o braço. Sentiu uma dor lancinante, perdendo a força e vendo o sangue começar a escorrer. Por último, segurou o mesmo pedaço entre os joelhos e repetiu a acção no pulso direito.
O vidro caiu, tal como os braços dela ao lado do corpo. Zahra ficou a olhar para a água a cair do chuveiro até começar a perder a consciência. À sua volta, o sangue escorria dos pulsos e era levado pela água.
Os seus olhos começaram a fechar. Sentiu-se fraca, mas fez um último esforço para assentar uma mão sobre o ventre.
— Desculpa… — pediu num último fôlego, olhando para a barriga.
Zahra cumpriria a vontade do marido, mas acompanharia o filho deixando José viúvo.
O maestro Rudolph Norton Vila nunca viria a ser julgado pelo assassinato de Magdalena Popov, uma vez que nunca foram encontradas provas disso. E, de facto, ele não era o assassino. Porém, foi julgado por abuso sexual de menores e condenado a pena de prisão efectiva. O tempo que passou na prisão foi muito complicado para si, uma vez que todos sabiam que ele abusara de uma rapariga de quinze anos. Não interessava o passado ou a vida da jovem, o único facto que prevalecia era o abuso e o assassinato. E mesmo não tendo sido provado, o maestro nunca se livrou da imagem de ser o assassino.
Quando saiu da prisão, já a esposa se divorciara dele, pois nunca lhe perdoara o que ele fizera naquela filmagem com Magdalena. Viveu miseravelmente até ao fim dos seus dias, desprezado pela sua classe.
José Norton Vila reagiu ao suicídio de Zahra como se tivesse ficado livre de um peso. Chegara a pensar que ela desaparecera, quando não dormira em casa na noite após a discussão e ele não a conseguia contactar. Contudo, antes de dar parte do desaparecimento à polícia, foi procurá-la no seu apartamento. Foi ele quem encontrou o corpo da violinista, já sem vida, caído no poliban.
Não houve qualquer emoção. Chamou o 112 e lamentou às autoridades que o fracasso que a orquestra atravessava tivesse levado a esposa a pôr fim à vida.
José, após a morte da mulher, abandonou Portugal e foi viver para a Suíça, dando continuidade à sua carreira de pianista e mantendo o sucesso que sempre tivera.
Tudo lhe corria bem. Era um daqueles exemplos, para quem conhecesse todos os factos, em que se poderia dizer que ser mau compensava. E compensou até uma tarde em que durante um ensaio, uma parte do cenário caiu sobre ele. José ficou muito ferido, mas não morreu. Porém, viveu o resto da vida numa cadeira de rodas.
Dois anos mais tarde, no Verão, o Sol incidia em ambas as margens do rio Tejo. Estava muito calor e a brisa fraca pouco ajudava a suportar as vagas frequentes de temperaturas elevadas.
Leonardo e Matilde observavam a água cobertos pela sombra das árvores da zona ribeirinha do Parque das Nações. O tempo fizera do operador de câmara um indivíduo mais forte, talvez cinco quilos mais gordo. No entanto, o seu rosto revelava a satisfação pela vida e pelas coisas boas que esta colocara no seu caminho. A jornalista apresentava uma elegância soberba para uma grávida de seis meses. Conseguira seguir um regime para não engordar acima do indicado pelos médicos, mas mesmo assim achava que estava balofa. O vestido largo próprio para grávidas atribuía-lhe uma imagem terna e maternal, adjectivos paradoxais em relação à antiga Matilde Leão.
A jornalista Matilde Leão continuava a exercer as suas funções de apresentadora dos blocos de notícias da mesma estação de televisão, sendo que passado aquele tempo já só apresentava nos horários nobres. Para além disso, ocupava um cargo de liderança no departamento de informação e era uma das pessoas mais importantes da empresa.
Profissionalmente, Leonardo não evoluíra muito. Continuava a ser operador de imagem, algo que sempre gostou de ser. No entanto, cerca de um ano antes envolvera-se em projectos de realização e trabalhava para uma produtora de novelas nacionais.
O casal aguardava abraçado, procurando com o olhar a chegada de Adriana. A bailarina surgiu poucos minutos depois, vinda do lado sul. Nela quase nada mudara para além da mesma aura de felicidade que emanava tanto em si como neles. Deslizava deslumbrante pelo passeio ribeirinho, com os cabelos negros compridos a esvoaçar e o rosto escondido pelos óculos de sol. Para suportar a temperatura vestia uma saia curta e uma blusa de algodão. As botas de cano alto deram lugar a sandálias de salto alto.
Parou junto deles com um sorriso feliz. Puxou os óculos para o cimo da cabeça e deu um beijo terno nos lábios de Matilde. Inclinou-se para Leonardo e também lhe beijou a boca com o mesmo carinho.
— Que se passa, Adriana? — questionou Matilde. — Que notícia é essa que não podia esperar por chegarmos a casa?
Dois anos antes, os três entregaram-se àquele triângulo amoroso sem grandes expectativas. Aliás, combinaram mesmo que nenhum deles teria elevadas esperanças no futuro da relação. E no início, encontravam se à vez. Se Leonardo estivesse com Matilde, não estava com Adriana, se Adriana estivesse com Leonardo não estava com Matilde, se Matilde estivesse com Adriana não estava com Leonardo. E vice-versa.
No entanto, esta situação durou menos de um mês porque eles gostavam mesmo de estar juntos, gostavam de passar o tempo que tivessem para se divertirem juntos, desde passeios ao luar, a idas ao cinema ou ao teatro, jantares, entre outras coisas. Isso resultou na mudança de Leonardo para o apartamento de Matilde ao fim de dois meses de relação. E quase um mês depois, eram tantas as noites que Adriana passava com eles que também ela se mudou para lá, abandonando em definitivo a sua casa no centro de Lisboa.
Mais uma vez, tentaram não criar expectativas, mesmo que estivessem a dar aquele grande passo. Era uma fase nova da relação deles, viverem todos juntos, algo que por vezes arruína as relações.
Felizmente, isso não aconteceu. E quase um ano e nove meses de vida comum depois, os três eram apaixonados e felizes. A única coisa que mudaram no apartamento, outrora da solitária jornalista, foi a cama, trocando-a por uma maior onde os três dormiam.
Sendo uma figura cada vez mais conhecida, Matilde Leão chegou a ser visada em algumas revistas cor-de-rosa, naqueles exemplos mais gritantes de mau jornalismo que recorre ao boato e à infâmia para vender papel. Chegaram a fazer capas com o facto de ela viver maritalmente com um homem e uma mulher. Pintaram-na como uma subjugada à relação do namorado com a amante e depois acusaram-na de leviana por partilhar a cama com os dois.
Matilde Leão foi feroz e, em entrevista televisiva num programa de um apresentador seu amigo, assumiu publicamente o amor por Leonardo e Adriana. Lamentou as mentes preconceituosas e exigiu privacidade na sua vida, no que respeitava às paredes de sua casa.
O facto que mais importunava a opinião pública ou pelo menos aquele que mais tinham coragem de condenar, era ela amar duas pessoas de igual forma. Só que na sua vida, Matilde sempre esteve habituada a batalhar contra tudo e todos e muito mais estaria quando isso significava a sua felicidade.
Com o tempo as pessoas foram perdendo o interesse na sua história, uma vez que cada dia que passava só revelava uma vivência mais feliz. E a maior parte das pessoas prefere ler sobre a infelicidade dos outros.
Assim, ali em frente ao rio, com a enorme torre do hotel atrás, Adriana ofereceu-lhes um sorriso muito aberto e com enorme alegria, informou:
— Vou ser a bailarina principal da nova peça da Companhia Nacional de Bailado.
Leonardo e Matilde deliraram com a notícia e abraçaram-na.
A bailarina baixou-se junto à barriga de Matilde e disse:
— Ouviste, pequenina? A madrinha vai ser a nova estrela da companhia.
Matilde deu-lhe um beijo de parabéns.
— Estou muito feliz por ti, querida.
— Tu mereces, linda! — afirmou Leonardo, abraçando-a.
— E já que falaste em madrinha. — lembrou a jornalista, acariciando a mão da outra na sua barriga. — Já pensaste num nome para a criança?
— Vocês é que são os pais. Devem ser vocês a escolher o nome.
— Tu és a madrinha, Adriana. E vais ser tão importante na vida desta criança quanto nós.
— Eu sei, Matilde.
— Então dá-lhe um nome! — exigiu Leonardo com ternura.
Adriana baixou o olhar, pensativa. Depois, olhou para o rio sem observar nenhum ponto em especial. Num tom revelador das marcas do passado, acabou por dizer:
— Eu sei que ela me prejudicou muito. Sei que me magoou muito. Mas, isso não faz com que não tenha sido uma pessoa muito importante na minha vida. Foi ela que me desprezou e talvez tenha pago um preço demasiado elevado pelas escolhas erradas que fez na vida. — Sorriu com as lembranças da adolescência. — Gosto de a lembrar pelos momentos genuínos e pela pessoa que ela foi, quando se deixava dominar pelo coração. — Ofereceu-lhes aquele olhar apaixonado que não deixava dúvidas de quanto amava os dois. — Se estiverem de acordo, eu gostava que a vossa filha, a minha afilhada, se chamasse Zahra.
Leonardo e Matilde sorriram. A sugestão de Adriana não os surpreendia e ainda não tinham esquecido o que ela sofrera nos dias que se sucederam ao conhecimento da morte de Zahra. Pareceu-lhes justo e uma bonita homenagem ao amor que outrora existira entre elas.
Adriana retribuiu o sorriso.
No rio, um veleiro navegava ao sabor do vento. Um pouco mais a sul, um barco de recreio passava com vários passageiros numa visita guiada às margens da capital.
Na ponte, os carros atravessavam em ambos os sentidos, fazendo ecoar um zumbido ao longe dos motores.
Sobre eles, alguns pássaros chilreavam nas árvores, saltitando entre ramos e abanando as folhas que resistiam à brisa fraca.
Os três viraram as costas ao rio e observaram os prédios a norte.
Matilde acariciou a barriga com ambas as mãos, procurando sentir a bebé. Estava tão feliz que teve receio de tudo não passar de um sonho. Zahra mexeu-se no seu ventre como um sinal de que Matilde estava acordada e era tudo bem real.
— Sei que temos vivido sem expectativas, mas com esta criança devíamos ponderar algumas coisas para o futuro. — disse ela, voltando a observar os prédios. Leonardo e Adriana olharam para ela. — Devíamos pensar em mudar de casa. Vamos precisar de uma casa maior com a bebé.
Adriana assentiu e disse:
— Também concordo.
— Isto não está fácil. — lembrou Leonardo. — Ainda tenho o meu apartamento para venda. Podemos pôr também o teu. Se vendêssemos os dois, já daria para uma casa maior.
— Só precisamos de mais um quarto para a bebé. — explicou Matilde. Sorriu-lhes com desejo. — Não quero deixar de vos ter na cama, todas as noites.
— Vamos planear a venda da casa. — decidiu Leonardo. — Até lá, ainda cabe um berço no quarto.
Elas riram com aquela forma simples de enquadrar tudo.
Matilde deu uma mão a Adriana e outra a Leonardo. Afastaram se do gradeamento e caminharam pela zona ribeirinha, felizes por partilharem aquele amor tão sincero e genuíno.
Podem não acreditar, até porque isso é cada vez mais raro nas sociedades contemporâneas, mas Adriana, Matilde e Leonardo nunca deixaram de se amar e viveram mesmo felizes para sempre.
FIM