TROVOADAS DE VERÃO · Capítulo 2

Capítulo II

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A vivenda Vilaça era uma luxuosa moradia em Cascais, pertença da família Vilaça. Quase se poderia considerar um palacete, tal era a dimensão do imóvel com três pisos, vários quartos, dois enormes salões e inúmeras divisões de utilidade dos donos ou para as funções dos empregados. A casa era rodeada por uma propriedade de muitos metros quadrados cercados por altos muros forrados por vegetação. Lá dentro, um enorme jardim, piscina privativa e até court de ténis.
O patriarca da família e dono daquele local era um multimilionário de oitenta anos que falecera uma semana antes, deixando viúva a sua jovem esposa de trinta e três anos, com quem estivera casado pouco mais de quatro.
Ana Valquíria, mulher com uma figura fascinante, tinha tanto de esbelta como de fria. Quem lhe encontrasse o olhar só receberia uma de duas mensagens, “quero-te” ou “desprezo-te”, sendo que a segunda era a mais usual. Pouco se sabia do seu passado, antes de conhecer o falecido marido. Para quase todos, ela era uma predadora de maridos ricos que casara por interesse. No entanto, quem a via com ele, via a perfeita interpretação da esposa apaixonada e dedicada.
A verdadeira história de Ana Valquíria era uma incógnita e só ela sabia a mágoa que lhe consumia a alma havia cerca de cinco anos.
Nessa altura, conhecera o amor da sua vida, Bernardo Vilaça, o belo filho do velho Vilaça. Cruzaram-se por coincidência numa festa e encantaram-se um pelo outro, nascendo entre eles uma afinidade que levou à amizade que rapidamente se tornou em algo parecido com amor.
Ana Valquíria era uma aspirante a actriz que ganhava a vida com pequenos trabalhos de modelo e como empregada numa loja de roupa num complexo comercial. Quando se apaixonou por Bernardo, a vida parecia-lhe um conto de fadas, pois para além de a amar, ele era herdeiro de uma imensa fortuna. Claro que ela sempre acreditou que o dinheiro não fazia diferença, pois seria capaz de o amar mesmo que ele não tivesse um cêntimo. Porém, a vida colocou-a à prova...
Ana Valquíria e Bernardo Vilaça namoraram alguns meses, tempo durante o qual ela pouco sabia da família Vilaça para além da sua enorme riqueza e património. Tal como desconhecia a terrível relação que existia entre Bernardo e o seu pai, o velho Vilaça, que ele sempre responsabilizara pela morte da mãe.
Felizes na relação, Bernardo decidiu dar o próximo passo: pedir Ana Valquíria em casamento. No entanto, antes de o fazer, cometeu o maior erro da sua vida, levando a bela namorada a conhecer o futuro sogro.
O velho Vilaça ficou encantado com Ana Valquíria. Não como um pai ficaria por conhecer a futura nora, mas sim como um homem se encanta ao ver uma mulher linda e sensual na sua presença.
Bernardo Vilaça não percebeu, mas Ana Valquíria ficou desde logo incomodada com a forma como o velho a observava, quase como se a tentasse despir com o olhar.
A tensão entre pai e filho era evidente e o ambiente de cortar à faca. Felizmente o encontro não acontecera numa refeição, fora meramente uma visita de cortesia ao casarão dos Vilaça, para Bernardo apresentar Ana Valquíria ao pai que mais não era que atirar-lhe à cara a imensa beleza da sua namorada.
Foi um erro, um trágico erro.
O encontro não durou mais que uns quinze minutos e Ana Valquíria sentiu-se aliviada quando abandonou a propriedade na companhia do namorado, longe de saber que aquele momento mudaria a sua vida para sempre.
Dois dias mais tarde, enquanto trabalhava na loja, recebeu a visita de um homem com ar formal que a interpelou:
— É a Ana Valquíria?
Surpresa, ela anuiu com algum receio.
— Sou o advogado do Dr. Vilaça. — apresentou-se com rosto fechado sem manifestar intenção de lhe estender a mão.
— Do Bernardo? — questionou.
— Não. Sou o advogado da família Vilaça e foi o pai do Bernardo que me mandou cá.
Ana Valquíria não conseguiu esconder o ar de estupefacção.
— Será que podemos conversar? — inquiriu ele.
— Neste momento estou a trabalhar. — retorquiu ela, colocando uma postura mais rude, adivinhando que aquele homem fora enviado para a confrontar com qualquer tentativa da sua parte de querer tirar dividendos da relação com o herdeiro do património Vilaça. — Não é oportuno.
O homem assentiu e deixou a sugestão que fez parecer como uma ordem:
— Estarei aqui à sua espera quando sair. Acredite, é um assunto do seu interesse.
E com aquelas palavras, abandonou a loja.
Ana Valquíria ficou transtornada o resto do dia. E a sua apreensão só aumentou quando viu novamente o homem, esperando-a à saída da loja. Dirigiu-se a ele com ar altivo.
— Bom, diga lá o que tem a dizer.
— Pode acompanhar-me? — sugeriu o advogado.
Hesitante, Ana Valquíria olhou em redor e recusou com a justificação:
— Este sítio parece-me tão bom como qualquer outro para ouvir o que tem a dizer.
— Quero apenas levá-la até ao Dr. Vilaça. — explicou o homem num tom seco. — O carro dele está lá fora. Ele veio propositadamente para conversar consigo.
Apreensiva, ela acabou por concordar em acompanhá-lo.
A noite já caíra por completo no exterior do centro comercial e o vento soprava com alguma intensidade. O parque de estacionamento estava quase lotado.
O percurso foi feito sem que fosse trocada qualquer palavra entre eles. A cerca de vinte metros da saída, Ana Valquíria viu um luxuoso Mercedes preto parado atrás dos carros estacionados, como alguém que não pretendia demorar-se.
O advogado parou junto à porta de trás do lado direito e deu um toque ligeiro no vidro. Parada ao lado do homem, ela não conseguia vislumbrar nada no interior do carro.
O vidro abriu com uma lentidão irritante. Atrás, surgiu o rosto taciturno do velho milionário.
— Boa noite, Ana! — cumprimentou num tom frio. — Não a farei perder muito tempo. Queria apenas dar-lhe uma palavrinha acerca da sua relação com o meu filho.
— Já calculava. — retorquiu com um sorriso sarcástico. — Veio ameaçar-me? Está com medo que eu esteja com o seu filho pelo dinheiro?
— Não. — interrompeu Vilaça. — Não me interessam as razões que a ligam ao imprestável do meu filho. Se é o dinheiro, perde o seu tempo. O Bernardo nunca herdará nada daquilo que é meu.
Ana Valquíria controlou o choque pela informação e, adoptando uma postura agressiva, lembrou:
— Ele é o seu único filho. Não pode impedir que ele herde...
— Você não sabe nada! — afirmou com autoridade. — Um homem como eu, um homem com o meu poder, pode fazer o que quiser. — Forçou um sorriso que lhe atirou com semblante de desejo que a enojou. — Sabe, Ana, você é uma mulher bonita, muito bonita mesmo. Devo concordar que é demasiado boa para o meu filho. Uma mulher como você pode chegar longe.
A irritação crescia no espírito dela.
— Se não se importa, agradecia que dissesse o que quer. Tenho mais que fazer que ouvir elogios de um velho gagá.
Vilaça ofendeu-se e fulminou-a com o olhar. Mas, logo depois sorriu-lhe e olhou-a de alto a baixo.
— Como lhe disse, o Bernardo não herdará nada.
— Não me interessa, eu amo o seu filho, não o seu dinheiro.
A gargalhada de escárnio ecoou dentro do Mercedes.
— Adoro estas jovens que acreditam na fábula de amor e uma cabana. — Ana Valquíria fez um movimento para se afastar. — Espere, Ana! Ouça o que tenho para lhe dizer. — Ela voltou a encará-lo. — O Bernardo não herdará nada, mas a Ana poderá ter tudo.
— Como assim?
— Afaste-se do Bernardo!
— E quanto me quer pagar para eu o fazer? — interrogou com desdém.
— Não pretendo pagar-lhe para isso. — refutou o velho. — Ou melhor, não da forma que está a pensar.
— Então?
— Proponho-lhe que se torne na nova senhora Vilaça.
Ana Valquíria ficou incrédula e boquiaberta com o choque da proposta.
— Case-se comigo, seja minha esposa dedicada. — adicionou. — Como já percebeu, não conto viver muito mais tempo. E após a minha morte, a Ana Valquíria ficará como toda a fortuna Vilaça.
— O senhor é nojento!
— Pense nisso, Ana. Não preciso que me dê uma resposta já. Mas, imagine a fortuna que ficará nas suas mãos.
— A qual poderei obter igualmente ao casar com o Bernardo, o qual irá herdar tudo isso quando você morrer.
— Ana! — exclamou novamente Vilaça. — Acredite no que lhe digo. O Bernardo nunca herdará nada. Para alguém com o dinheiro e o poder que tenho, há muitas formas de o fazer. Ainda lhe digo algo mais para a ajudar a uma decisão. Ninguém a obriga a nada, mas quero que saiba que cada uma das hipóteses tem as suas consequências. A primeira, já lhe disse: Case comigo e será uma mulher riquíssima. Se optar por ficar com o Bernardo, farei tudo para tornar a vossa vida miserável.
— Eu amo o seu filho! — insistiu. — Prefiro mil vezes passar fome com ele do que ser rica consigo.
— Talvez acredite nisso agora.
— O senhor é execrável.
Vilaça voltou a fulminá-la com o olhar. Contudo, ela era um prémio do qual não queria abrir mão. E habituado como estava a ter tudo o que queria, jogou a cartada final:
— Se Ana não ficar comigo, também não ficará com o meu filho.
— Por muito dinheiro que tenha, não pode controlar o sentimentos dele e os meus. — retorquiu ela com segurança.
— Talvez não, mas posso mandar alguém fazer com que o meu filhinho tenha um acidente e vá fazer companhia à mãezinha dele no Inferno.
Desta feita, o choque foi mais intenso, de tal forma que ela não foi capaz de proferir nada, para além de:
— O senhor não seria capaz...
O velho Vilaça concluiu:
— A decisão é sua.
O vidro voltou a subir e ele desapareceu. O advogado entrou para o lugar ao lado do motorista, o qual ligou o motor.
Estupefacta, Ana Valquíria ficou a ver o carro afastar-se.
Aquele encontro atormentou-a toda a noite. E no dia seguinte, foi surpreendida por um Bernardo desesperado que lhe telefonou a meio da tarde.
— O meu pai expulsou-me de casa. — informou-a. — Aquele filho da puta nem foi capaz de mo dizer na cara. Mandou o advogado informar-me que deveria abandonar a casa e que tinha sido demitido das minhas funções na empresa. E vinha acompanhado por seguranças para que eu não contestasse. Tentei ir à empresa falar com aquele pulha, mas não me deixaram entrar.
Apesar de toda a conversa com o pai de Bernardo não lhe sair da cabeça, ainda não tomara uma decisão concreta em relação ao que iria fazer. Porém, não esperava que os acontecimentos se tivessem desenrolado tão depressa.
— Posso ficar em tua casa até organizar a minha vida? — questionou ele.
Ana Valquíria viu-se confrontada com o momento da verdade. Ela amava-o com toda a força do seu ser. Porém, algo a levava a acreditar que o velho Vilaça seria capaz de mandar assassinar o próprio filho. Temeu por ele. Não conseguiria suportar ser a causa da sua morte.
— Agora estou a trabalhar. Podemos falar mais tarde? — sugeriu para ganhar tempo.
A relutância em o ajudar, que Bernardo sentiu na resposta, surpreendeu-o.
— Sim, claro. — concordou. — Mas, posso passar por aí para ir buscar a chave e esperar-te em tua casa?
Houve um silêncio de três segundo que pareceu uma eternidade. Por fim, Ana Valquíria respondeu:
— Acho que estamos a avançar muito rápido. Talvez seja melhor procurares outro sítio onde ficar.
— O quê? — questionou incrédulo. — Val! Estou na rua, sem dinheiro. O meu pai conseguiu tirar-me tudo. Estou a pedir-te ajuda.
As lágrimas escorriam pelo rosto de Ana Valquíria com o coração partido por estar a desprezar o amor da sua vida, crente que só assim o poderia proteger da maldade do seu pai.
— Não posso, Bernardo. Perdoa-me! — E desligou a chamada.
Bernardo insistiu, mas ela não voltou a atender e acabou por desligar o telemóvel. Pediu à colega que tomasse conta de tudo e foi refugiar-se alguns minutos na casa-de-banho, onde chorou compulsivamente.
Recomposta, voltou ao trabalho e tentou sem sucesso esquecer o que estava a acontecer.
Só voltou a ligar o telemóvel quando entrou em casa. O aparelho apitou cinco tentativas de chamada e uma nova mensagem escrita. Com as mãos a tremer, carregou no botão e leu a mensagem: "Enganaste-me bem. Não passas de uma vadia que só estava comigo para chegar ao dinheiro do meu pai. Lamento ter-te amado verdadeiramente, a ti que não passas de uma puta atrás de um qualquer estúpido rico."
Destroçada, deixou-se cair no sofá, completamente lavada em lágrimas.

Na manhã que se seguiu àquele rompimento com o homem que tanto amava, Ana Valquíria informou a sua chefe que não iria trabalhar nesse dia, pois encontrava-se indisposta. De seguida, procurou na Internet a morada da sede do império Vilaça e deslocou-se a Lisboa.
Quando se apresentou na recepção dos escritórios para falar com o todo poderoso Vilaça, a recepcionista recusou-se a anunciá-la, tomando-a por alguém que apenas queria importunar o patrão.
— Aconselho-a a informar o seu patrão de que eu estou aqui para falar com ele. — insistiu Ana Valquíria com arrogância. — Caso contrário poderá vir a perder o emprego.
Não estando disposta a correr o risco, a funcionária pegou no telefone e comunicou a sua presença. Sem conseguir disfarçar a surpresa, desligou e pediu-lhe que aguardasse um pouco que viria alguém para a levar ao patrão.
Após dez minutos, um indivíduo com postura de carregador armários, identificado com o dístico da empresa de segurança que assegurava a circulação no edifício, aproximou-se de Ana Valquíria e pediu-lhe que o acompanhasse.
Subidos vinte andares de elevador e atravessados dois corredores, o homem apontou-lhe a entrada da sala de espera, onde deveria aguardar que a chamassem.
Ana Valquíria sentou-se numa das cadeiras vazias daquela sala solitária. Envergava toda a sua elegância de modelo, vestindo calças de ganga azuis, uma camisa fina bege e um casaco formal escuro. Calçava sapatos de salto alto que a tornavam mais imponente e usava o cabelo louro solto sobre os ombros. Maquilhara-se para disfarçar o melhor que conseguiu o inchaço que envolvia os olhos verdes, resultante de uma noite em branco a chorar.
Ele fizera-a esperar mais de meia hora, altura em que uma senhora na casa dos cinquenta anos, muito bem aprumada, entrou na sala e pediu que a acompanhasse.
Quando entrou no gabinete, o velho Vilaça esperava-a com o olhar no exterior e de costas para a porta. Ao sentir a sua entrada, virou-se com um sorriso triunfante que só adensava a imensidão de rugas dos seu rosto.
— Que bela surpresa. — disse ele, apontando-lhe a cadeira em frente à secretária. — Apesar que tenho de confessar que não me surpreende que tenha vindo. — Ana Valquíria aproximou-se sem manifestar intenção de se sentar. — Calculo que afinal, a Ana perdeu a crença na fábula de um amor e uma cabana.
Ela ignorou o comentário e, num tom áspero, disse:
— O senhor fez-me uma proposta. Vim discutir os termos do nosso acordo.
Divertido, Vilaça virou-se para ela, altura em que revelou que se movia apoiado numa bengala.
— É justo. Gosto dessa sua postura de negociante, como se tivesse condições para negociar.
Sem desviar o olhar nem se mostrar insegura, contrapôs:
— Se é para ser tudo a seu gosto, acho que estou a perder o meu tempo. Talvez seja melhor ir embora.
— Não seja tola, Ana. — advertiu ele. — Ambos sabemos as consequências que isso poderia ter para o Bernardo.
— Eu e o Bernardo já não temos nada um com o outro. Pouco me importa o futuro dele.
O velho soltou uma gargalhada escarninha.
— Quase que acreditava, não fosse o facto de o seu rosto denunciar o quanto já não chorou desde ontem. — Ela desviou o olhar. — Pensava que conseguia esconder isso? Ana, já cá ando há muitos anos. Não sou enganado facilmente... Ou melhor, nunca sou enganado. — Caminhou com dificuldade, apoiado na bengala, e contornou a longa secretária que lhe servia de mesa de trabalho. — Mas, hoje sinto-me generoso. E estou disposto a ouvir as suas condições.
Ana Valquíria voltou a encará-lo.
— Quero que prometa e cumpra que não fará nada contra o Bernardo. E que lhe fará chegar o dinheiro suficiente para que possa sobreviver descansado. Quero um casamento com comunhão total de bens, não serei só a senhora Vilaça, passarei a ser dona de metade de todo o império Vilaça. E quero um lugar no Conselho de Administração.
Vilaça ofereceu-lhe um semblante de gozo e prosseguiu as suas lentas passadas até ficar defronte dela.
— Sempre gostei de uma boa negociação, por isso, vou fazer de conta que o acordo está dependente de algumas cedências. — disse, olhando-a com desejo. — Não farei nada contra o Bernardo, mas também não lhe darei dinheiro nenhum. Não teremos um casamento de comunhão total de bens, jamais aceitaria partilhar o meu património. Porém, estou disposto a apresentar-lhe o meu testamento formalizado em que a faço herdeira de tudo.
— O testamento pode ser alterado em qualquer momento.
— Sim, é verdade. Terá de confiar.
— Não chega.
Vilaça anuiu como se ponderasse uma solução. Por fim, propôs:
— Dou-lhe um prémio de assinatura de um milhão de euros, pagos no dia do casamento.
— E o lugar no Conselho de Administração.
Ele abanou a cabeça.
— Aquilo é um lugar para homens competentes, não para uma carinha bonita que pode ter jeito para muita coisa, mas não para gerir negócios.
— Não pretendo ser uma esposa doméstica ou uma mulher fútil a passear com o cartão de crédito do marido. Se não posso ser proprietária de metade do património, quero pelo menos estar nos momentos das decisões e ter opinião nelas.
Vilaça não respondeu. Ao invés, levantou a mão que não se apoiava na bengala e direccionou-a ao peito dela. Contudo, Ana Valquíria travou-o, segurando-lhe o punho.
— Nem pense. Não haverá intimidades antes do casamento.
O velho encarou-lhe o olhar com frieza, mas só encontrou desafio no dela. Fez tensão de afastar a mão e ela libertou-lhe o punho.
— Só após a minha morte, a Ana terá acesso ao Conselho de Administração para ocupar o meu lugar. Nunca antes.
— Já lhe disse que não pretendo ser uma esposa doméstica ou uma mulher fútil a passear com o cartão de crédito do marido.
— E eu não pretendo comprar o produto sem antes ver a mercadoria. — ripostou, apontando para o corpo dela.
— Está fora de questão. — recusou intransigente. — Não me tocará com a ponta de um dedo antes do casamento.
Vilaça concordou, assentindo com a cabeça. A seguir, propôs:
— O Grupo Vilaça tem uma empresa de moda, uma coisa mínima com um lucro irrisório, algo que até me esqueço que existe. Pode ficar com ela para se entreter e não ser uma doméstica com cartão de crédito. Honestamente, não estava a pensar dar-lhe nenhum cartão de crédito ilimitado, apenas uma mesada para os seus gastos. Mas, sendo assim, dou-lhe a direcção dessa empresa e o respectivo ordenado.
— Está bem. — aceitou.
— E aceito não lhe tocar antes do casamento, mas vou querer ver.
— Como assim?
— Quero que se dispa.
Houve um momento de hesitação. Porém, Ana Valquíria acedeu a despir o casaco e a abrir a camisa, revelando o soutien que lhe destacava o volume dos seios.
— Não vou tirar mais nada! — exclamou com altivez.
O velho não insistiu e fez-lhe um gesto com a mão para que se vestisse, enquanto pedia à secretária, pelo intercomunicador, que chamasse o advogado para que o acordo fosse formalizado.

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