TROVOADAS DE VERÃO · Capítulo 42

Capítulo XLII

≈ 12 min de leitura

A costa da cidade iluminava-se com o Sol que vencera as nuvens durante algum tempo. O hotel junto à marina tinha grande parte dos seus hóspedes na piscina a desfrutar do tempo ameno.
Ana Valquíria entrou no seu quarto acompanhada por Calista. Continuavam sem trocar uma palavra, mas a primeira não dispensara a segunda e, desde que entrara no hotel, seguira sempre na sua peugada, certa que a outra a seguiria até ela querer.
Contudo, Calista ansiava pelo momento em que pudesse afastar-se daquela mulher arrogante e desprezível. Só não colocara a hipótese de se separem no átrio, uma vez que a viúva levava o seu casaco vestido.
— Feche a porta!
— Se não se importa, Dra. Valquíria, agradecia que me devolvesse o casaco para eu me ir embora.
— Já lhe dou o seu casaco. Pode fechar a porta?
Calista acedeu e seguiu a cliente para o interior.
Ana Valquíria despiu o casaco, indiferente ao facto de ficar em soutien perante a outra.
— Aqui tem. — Estendeu-lhe a peça de roupa. — Posso pedir-lhe que aguarde um pouco? Queria conversar consigo.
— Se não demorar muito, Dra. Valquíria. Já deixou claro que me quer ver pelas costas, por isso, agradecia que não prolongássemos isto mais que o necessário.
A viúva voltou-lhe as costas e ficou a encarar o mar que se avistava da varanda do seu quarto.
— Quero pedir-lhe desculpa! — disse sem coragem para a encarar. Aquilo surpreendeu Calista. Donde teria vindo aquela súbita humildade, naquela mulher fria e arrogante. — Você arriscou a sua vida para salvar a minha.
— Esqueça isso. — retorquiu a investigadora. — Fiz o que tinha a fazer.
— Mesmo assim, obrigado. E desculpe as coisas que disse há pouco.
— Não se preocupe com isso.
Ana Valquíria voltou-se novamente para o interior.
— Posso pedir-lhe que fique mais um pouco? — questionou com um ar vulnerável. — Não me apetece ficar sozinha.
Calista não tinha a mínima vontade de ficar ali. Porém, considerou a hipótese de a viúva voltar a tentar suicidar-se. É certo que não tinha de tomar conta da outra, mas não se sentiria bem consigo própria se esta viesse a consumar o suicídio só por ela não ter feito aquele pequeno sacrifício.
— Posso pedir algo para comermos. — insistiu. — Com isto tudo nem almoçámos.
— Tudo bem, Dra. Valquíria. Eu fico mais um pouco.
Ana Valquíria forçou um sorriso. Era um sorriso sincero, mas muito sofrido. Convidou-a a ficar à vontade, enquanto ela ia tomar um banho.
Calista sentou-se numa cadeira e apreciou a vista. Pessoas como ela não podiam desperdiçar dinheiro do ordenado em quartos com aquele luxo. E quando tinha de ficar em hotéis, em trabalho, a empresa hospedava-a nos sítios mais em conta que houvesse.
O tempo passou quase sem dar por isso. A porta da casa-de-banho abriu-se e Ana Valquíria saiu resguardada num roupão turco e com o cabelo envolvido numa toalha.
— Quer tomar um banho, Calista? — sugeriu. — Deve estar desconfortável com os restos de sal e areia no corpo.
— Não é preciso.
— Eu insisto, Calista. Esteja à vontade. A sério.
De facto, um duche ia saber-lhe bem. No entanto, não seria muito correcto usufruir de um duche na casa-de-banho do quarto de hotel de uma cliente.
Quase parecendo ler-lhe os pensamentos, a viúva disse:
— Não se preocupe. Eu não conto a ninguém.
Calista acabou por aceitar.
A água temperada a cair do chuveiro fê-la sentir-se no paraíso, lavando-lhe o corpo dos sinais do mar. Porém, nesse instante, um pensamento fê-la estremecer: E se durante aquele momento, a viúva decidisse pôr termo à vida? Imaginou-a a debruçar-se sobre o parapeito da varanda e a deixar-se despenhar lá em baixo. Teria morte imediata.
Já não descansou, procurando finalizar o duche o mais rápido possível. Como justificaria perante todos que estava a tomar banho, quando a sua cliente se atirava da varanda? Ou pior, poderia ser suspeita de homicídio.
Voltou a vestir a roupa que trazia nesse dia. Estava tão receosa que nem perdeu tempo a pentear os longos caracóis naquele penteado profissional de cabelo todo esticado e preso num carrapito.
No momento em que saiu daquela divisão, encontrou Ana Valquíria sentada numa cadeira na varanda, desfrutando do ambiente, ainda envolvida no roupão, mas com as longas pernas cruzadas descobertas e o cabelo louro solto sobre os ombros.
Calista suspirou de alívio e caminhou até lá.
— Já pedi algo para comermos. — disse a viúva.
Percebendo o seu visual, a investigadora lamentou, apontando para o cabelo:
— Desculpe, o meu ar desmazelado.
Ana Valquíria sorriu.
— Devia usá-lo assim. A Calista tem um cabelo muito bonito.
— Obrigado. — agradeceu, meio constrangida.
Donde raio teria vindo tanta simpatia, interrogava-se Calista.
— Como se sente, Dra. Valquíria? — questionou só para mudar o assunto.
— Na merda. — retorquiu.
Mais uma vez, a surpresa atingiu-a. A cliente abrira mão de qualquer formalidade e falava sem filtros.
— Não sei o que aconteceu, nem pretendo que me conte. Mas, nada justifica tirar a própria vida.
Ana Valquíria fez um esgar de discordância.
— Não tenha tanta certeza.
— Posso ser sincera consigo, Dra. Valquíria? — a outra anuiu. — Quando vejo ricos a tentarem suicidar-se, acho que não fazem a mínima ideia do que é sofrimento. E têm tão pouca capacidade de resistência que à mínima coisa, pensam em matar-se.
A viúva arregalou o olhar.
— Acha que o único problema na vida é a falta de dinheiro?
— Não. Há muitos problemas e acredito que haja razões que nos levem ao limite de ponderar colocar fim à própria vida. Só que não é assim que se resolvem os problemas.
— Alguém que se quer matar, não o faz para resolver o problema, fá-lo para parar de sofrer.
— Seja como for. Olhe para si! É uma mulher bem-sucedida, é bonita, elegante. O que quer que a apoquente será razão para...
Calista não terminou a frase, não seria preciso, pois ambas sabiam ao que se referia.
— Talvez sim, talvez não. Não sei, Calista. Naquele momento, senti-me desesperada. É como tenho tendência a ficar, quando estou sozinha. — desabafou. — Sozinha, acabo mergulhada em... Enfim, estou a ser egoísta. E peço desculpa por a estar a fazer ficar aqui comigo. — Olhou-a indefesa. — Se quiser ir embora, não a maço mais. Eu compreendo. Não tem que levar comigo.
Calista sorriu-lhe e disse num tom afável:
— Ando a levar consigo desde que chegou à ilha.
— Eu sei que consigo ser execrável.
— Todas nós temos os nossos dias complicados, Dra. Valquíria.
— No meu caso, acho que são todos os dias.
Calista ofereceu-lhe mais um sorriso.
— Não se preocupe. Só vou quando quiser que eu vá.
Nesse instante, ouviu-se bater na porta. Calista foi abrir e um funcionário do hotel trouxe a refeição de ambas. Deixou o carrinho com a comida junto à mesa do quarto e saiu tão depressa quanto entrara.
As duas mulheres sentaram-se à mesa e desfrutaram da refeição, conversando acerca de coisas triviais das suas vidas, fazendo-as esquecer temporariamente que uma era a poderosa dona do Grupo Vilaça e a outra uma simples funcionária, investigadora da agência que a primeira contratara.
No entanto, apesar da simplicidade da conversa, no final da refeição, o assunto caiu para os afectos.
— Já algum homem lhe partiu o coração? — interrogou a viúva.
— Não. — negou com segurança.
— Vá lá, Calista. Não me diga que nunca teve um desgosto amoroso?!
— Sim, já. — confessou, tentando disfarçar o incómodo do assunto. — Só não foi nenhum homem a provocar isso.
Ana Valquíria não percebeu de imediato, mas quando isso aconteceu não evitou um semblante surpreso, quase chocado.
— A Calista...
— Sim, Dra. Valquíria.
— Nunca me passaria pela cabeça.
— Não costumamos andar com um letreiro na testa a informar a nossa orientação sexual.
A viúva riu com gosto.
— Peço desculpa, Calista. Mas, não é isso. A Calista é tão feminina. Mesmo com essa postura profissional quase militar, nota-se que se cuida. Talvez não me esteja a explicar bem. Quando se pensa numa... ah...
— Lésbica?
A outra anuiu e continuou:
— Pensamos em mulheres másculas.
— É o mesmo que os homens que parecem uns machões e depois descobre-se que são homossexuais.
— Sim, tem razão. — concordou Ana Valquíria, aproveitando para pegar no assunto que interrompera. — Então foi uma mulher que lhe partiu o coração?
— Não foi nada de especial. Digamos que eu imaginei um longo caminho e ela só queria dar um passeio.
— Percebo.
— São coisas do passado.
— Deixe-me dizer-lhe que, pela minha experiência, não perdeu nada em não se interessar por homens.
Calista sorriu.
— Foi assim tão mau? O seu desgosto de amor?
O rosto de Ana Valquíria enevoou-se, toda aquela fugaz alegria da conversa entre ambas se esfumou. Não respondeu e levantou-se da cadeira, voltando para junto dos grande vidros da varanda.
— Pior que aquilo que eu algum dia pudesse imaginar.
Calista também se levantou.
— Perdoe-me a pergunta, mas... O seu desgosto de amor...
Ana Valquíria olhou-a, quase parecendo fulminá-la.
Havia algo no olhar que assustou Calista, uma raiva contida, uma dor profunda. Mesmo assim, aproximou-se e arriscou:
— Foi o senhor Bernardo Vilaça?
A viúva engoliu em seco, esforçando-se para que as lágrimas não a atraiçoassem. Desviou o olhar para a rua e corrigiu:
— De senhor, esse crápula não tem nada.
— Peço desculpa... Pensei...
Ana Valquíria voltou a encará-la, as lágrimas rolavam pelo rosto.
Calista esperava uma reprimenda pela intrusão. Seria justo, abusara da informalidade do momento. Porém, para sua surpresa, a viúva virou-se para ela e abraçou-a com força, começando a soluçar no seu ombro.
Petrificada com a surpresa do momento, Calista nem se mexeu.
— Abrace-me, Calista! — sussurrou. — Por favor...
Ela acedeu e envolveu-lhe a cintura, sentindo o corpo da outra estremecer com o choro. Apertou-a, procurando ignorar o quanto a viúva era atraente e repetindo a si mesma que tinha de sair dali o mais rápido possível.
Ana Valquíria chorou alguns minutos, fazendo o abraço durar todo esse tempo. Quando fez tenção de se afastar, Calista abriu os braços para que se soltasse. O rosto da viúva estava lavado em lágrimas, mas o olhos claros eram cativantes.
Calista ia a dizer qualquer coisa, algo parecido com uma despedida. Mas, antes que conseguisse proferir qualquer sílaba, Ana Valquíria beijou-lhe os lábios.
Mais uma vez, a investigadora ficou petrificada. E a viúva encarou isso como uma recusa. Ia de mal a pior.
— Desculpe, Calista. Não quero que pense que a estou a assediar.
— Acabou de me beijar na boca. — lembrou a outra numa entoação neutra, ainda embasbacada.
— Foi um impulso. Peço desculpa por isso.
— Não peça. — retorquiu.
Desta vez, foi Calista a beijar os lábios da viúva. Inicialmente, Ana Valquíria deixou-se beijar, mas não aguentou muito sem retribuir.
A intensidade aumentou, mas a viúva parou subitamente.
— Talvez seja melhor pararmos. A Calista não trabalha para mim, mas trabalha para uma empresa que eu contratei.
— E então?
— A Calista pode processar-me por assédio sexual.
A outra riu, achando a possibilidade absurda.
— Não ria, Calista.
— Não me sinto assediada, Dra. Valquíria. Sinto-me a ser seduzida por si. — Olhou-a sem disfarçar o desejo. — Não estou desconfortável, apenas surpresa. — Aproximou-se e voltou a beijar-lhe os lábios com ternura. — Uma surpresa agradável. — Acariciou o rosto da viúva. — Mas, se quiser que eu me vá embora, eu vou.
— Não... — sussurrou, retribuindo o beijo. — Não quero.
Abraçaram-se e beijaram-se, contendo o desejo, indo com calma.
Ana Valquíria voltou a olhar Calista nos olhos.
— Nunca fiz nada disto.
— Nunca esteve com uma mulher?
— Não.
— E quer estar?
A viúva hesitou, mas confessou:
— Neste momento, quero estar consigo.
— Mas...
— Isto parece-me estranho. Estou confusa.
Calista sorriu-lhe com ternura, alisando-lhe o cabelo com a mão.
— Deixe-se levar...
Ana Valquíria não disse nada. Ao invés, deu por si a desapertar os botões da camisa da outra. A seguir, ficou a olhar para os seios, hesitante.
Calista pegou-lhe nas mãos e depositou-as sobre o seu peito.
— É a primeira vez que apalpa as mamas de outra mulher? — interrogou com um sorriso escarninho. — É bom?
A outra anuiu, acariciando-lhe os seios cobertos pelo soutien.
A investigadora pegou nas pontas do cinto do roupão e perguntou:
— Posso?
— Claro.
Calista desapertou o nó e abriu o roupão para encontrar o corpo completamente nu da sua cliente. No entanto, um semblante de choque cortou o momento. Foi involuntário, mas mais forte que a racionalidade.
— Que lhe aconteceu? — indagou, vendo as marcas no seio direito da viúva.
— Algo sobre o qual não quero falar. — disse Ana Valquíria com firmeza, puxando-a para si e voltando a beijá-la.
Trocaram beijos sedentos, acariciando-se. Calista puxou o tecido para expor os seus seios escuros e encostou os mamilos aos de Ana Valquíria. Continuaram a beijar-se.
Por fim, Calista pegou na mão de Ana Valquíria e disse:
— Venha!
Conduziu-a para a cama e sentou-a no colchão. Perante o olhar da viúva, despiu-se por completo. A seguir, ajoelhou-se em frente dela e beijou-lhe o pescoço. Os beijos desceram até às feridas, onde os lábios tocaram com uma ternura cuidadosa.
Ana Valquíria estremeceu.
— Que se passa?
— Estou nervosa, Calista.
— Não esteja, Dra. Valquíria.
A viúva deu uma gargalhada.
— Por favor, Calista. Não me vai tratar por "Dra. Valquíria" enquanto estamos... — A outra concordou com o absurdo. — Chame-me Val.
— Está bem... Val. — concordou. — Agora, deita-te e relaxa.
Ana Valquíria assim fez. Sentia-se envergonhada por estar naquela intimidade com outra mulher. Nunca fizera nada assim, nem nunca se sentira atraída por mulheres. A única coisa que poderia justificar aquilo era a sua vulnerabilidade, a sua solidão, a necessidade de estar com alguém. Porém, houve um impulso, o beijo foi tão intenso e apaixonante que a assoberbou por completo. Aquilo poderia ser muito errado, mas ela sentia de facto um brutal desejo.
Fechou os olhos, não por vergonha, somente para melhor desfrutar do momento. Sentiu as mãos de Calista nas suas coxas, afastando-as. Ela era extremamente carinhosa, cuidadosa, avançando aos poucos como se esperasse que a todo o momento a viúva pusesse um ponto final naquilo. Longe de saber que isso seria a última coisa que passaria pela cabeça de Ana Valquíria.
Ter uma língua naquele local não era novidade. A novidade foi ser uma língua tão competente que a tocou nos pontos mais sensíveis e que mais prazer lhe davam. Parecia quase que era a sua própria língua que ali andava. E depois os dedos, o toque que só uns dedos femininos sabem fazer.
As mãos de Calista subiram pela barriga dela, procurando alcançar os mamilos excitados, enquanto o rosto se escondia entre as pernas. Quando alcançaram o peito, a mão esquerda foi travada.
— Este não. — suspirou Ana Valquíria, afastando-a das feridas, ao mesmo tempo que convidava a outra mão a apertar o seio esquerdo.
A mão travada desceu para a barriga, acariciando a pélvis e puxando ligeiramente os lábios, expondo-os mais a uma língua que levava Ana Valquíria a um êxtase nunca sentido.

Comprar livro na FNAC

Fim do capítulo

📚 Gostaste desta história?

Descobre outro livro completo da Biblioteca NST.

Ver Livros Completos

O que achaste deste capítulo?

Sê a primeira pessoa a avaliar.

← Capítulo anterior Todos os capítulos Capítulo seguinte →