TROVOADAS DE VERÃO · Capítulo 43

Capítulo XLIII

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O céu de Ponta Delgada tinha uma mistura de tonalidades que misturavam o cinza das nuvens com o laranja de um Sol que ia ao encontro do mar. O tecto de nuvens cinzentas escuras e claras deixavam adivinhar a possibilidade de chuva, mas o Sol espreitava por baixo, perto da linha do horizonte.
Joaquim caminhava pela marina, observando os barcos sem realmente os apreciar. A sua mente estava longe, bem longe, talvez em Vila Franca do Campo onde o seu filho sofria às mãos de uma mãe sem vocação e um padrasto execrável. Tinha que conseguir tirar o filho dali, fugir com ele para qualquer lado. Para sua surpresa, ganhara uma aliada improvável, a hospedeira que conhecera no voo que o trouxera à ilha, uma mulher que esperava um filho de um homem casado e que pretendia que Joaquim assumisse a paternidade em troca da sua ajuda. Parecia-lhe uma situação absurda, mas ele estava disposto a tudo para salvar o pequeno João.
Ficou a observar o porto, equacionando os passos seguintes, caso conseguisse chegar a Lisboa com o filho. Não tinha dúvidas que a espanhola faria imediatamente queixa dele e que se não o apanhassem antes de partir, teria as autoridades a dar-lhe caça no continente. Por isso, tinha que pensar para onde poderia fugir para que não os encontrassem.
Ao olhar para as pessoas que caminhavam no passeio na marginal, a sua atenção foi captada por uma mulher loura que caminhava elegante num vestido fresco sem mangas e com uma saia comprida que ondulava com a brisa marítima. Reconheceu-a de imediato.
Eva telefonara-lhe e combinara aquele encontro naquele local.
— Olá! — cumprimentou-o, ao chegar junto dele.
— Olá, Eva!
Sentaram-se lado a lado num banco de pedra virado para o mar. O olhar dela estava escondido atrás de um par de grandes lentes escuras.
— Alguma novidade acerca do seu filho?
Joaquim abanou a cabeça.
— Não. Achei melhor não ir lá hoje, não fosse a mãe desconfiar de alguma coisa. — Eva assentiu, concordando que talvez fosse melhor. — Tenho estado a pensar no que hei de fazer quando chegar ao continente.
— Estive a pensar. — disse Eva. — Tenho um pequeno apartamento em Almada. Vocês podem ficar lá. Ninguém suspeitará que vocês lá estão.
— E os vizinhos não vão suspeitar?
— É normal eu não estar em casa, irão pensar que é um amigo que tenho lá a viver ou que arrendei o apartamento. Você com certeza não vai andar a dar nas vistas, por isso, se não tiver melhor solução...
— E a Eva?
— O que tem?
— Continua a querer-me para pai desse filho? — questionou Joaquim, apontando para a barriga dela.
— Tal como você, eu não tenho melhor solução.
— E quando ele crescer? Não lhe vai contar a verdade?
— Bolas, Quim! — exclamou agastada. — Quer traçar o plano do resto da nossa vida agora? Logo se vê o que vou fazer. Neste momento, a minha preocupação é que a minha mãe não veja a filha como mãe solteira. Sei bem o que ela sofreu nesse papel. Não sei se a saúde dela aguentaria a realidade.
O vento soprou um pouco mais forte, fazendo o cabelo de Eva esvoaçar desordenado. Ela voltou a ajeitar o penteado perante o olhar de Joaquim.
— Consegue fazer-nos passar para embarque sem termos de passar pelo check-in?
— Não vai ser fácil. E se as autoridades já estiverem em alerta, não sei se o conseguirei fazer. É importante que passe o menor tempo possível entre o momento em que você for buscar o miúdo e a chegada ao aeroporto.
A conversa foi interrompida por sirenes que atravessaram a marginal. O som era estridente, mas foi diminuindo conforme se afastavam.
— Ainda não fiz nada e já sinto um arrepio na espinha cada vez que ouço sirenes. — confessou Joaquim.
— Você está a fazer o correcto. Nenhum verdadeiro pai se manteria impávido com o filho a ser vítima de maus tratos. — disse Eva, olhando-o com um sorriso sofrido. — Quem me dera ter tido um pai como você.
— Eu não queria ser seu pai. — retorquiu Joaquim com humor.
— Porquê? — questionou Eva com alguma indignação.
— Não me leve a mal, mas ao olhar para si a última coisa em que iria pensar era em vê-la como uma filha.
Eva abriu o sorriso e espicaçou-o:
— Então, já agora, como me vê?
Nesse segundo, Joaquim recordou as palavras que ela lhe dissera no primeiro café que partilharam, quando disse que não gostava de auto-comiseração nos homens.
— Vejo-a como uma mulher muito bonita.
— Já sei, já sei. — atalhou ela. — Bonita, mas inatingível para si.
— Discordo. — surpreendeu-a ele, optando por uma confiança que não sentia. — Acho que está ao meu alcance, está aqui ao meu lado.
Eva não se sentia atraída por ele, mas aquela súbita postura confiante aliada ao papel de pai lutador começaram a mexer consigo. Desviou o rosto para o mar e decidiu quebrar-lhe o ímpeto.
— Não quero que crie ilusões, Quim. Não está nos meus horizontes que tenhamos um caso amoroso. Você é um bom homem, mas não faz o meu género.
— Sabe, Eva, iria ter mais facilidade em acreditar em si se me dissesse isso olhos nos olhos.
A hospedeira encarou-o com um rosto sério. Retirou os óculos escuros e ofereceu-lhe um olhar tão profundo que ele sentiu que ela lhe estava a ler a alma. Aquele olhar claro seria capaz de derreter um icebergue. Num tom neutro, com os olhos nos dele, repetiu:
— Você é um bom homem, mas não faz o meu género.
Seria preciso mais para quebrar a sua recém-adquirida confiança? Não.
Joaquim anuiu e desviou o olhar para o mar.

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