TROVOADAS DE VERÃO · Capítulo 48

Capítulo XLVIII

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Cassandra e Xavier chegaram à marina na hora que lhes fora indicada. Já lá se encontravam alguns turistas que também haviam marcado aquele passeio e faltavam ainda mais outros dois.
Iriam sair dali dois barcos com doze pessoas cada. O responsável que recebeu os turistas pediu-lhes que se agrupassem à sua volta no exterior e começou a fazer uma apresentação do que iriam ver e explicou as regras de segurança.
Uma rapariga e um rapaz com camisola e calções com o nome da empresa saíram do interior da loja com os coletes salva-vidas e distribuíram-nos por todos. Era obrigatório o uso do colete desde que entravam no barco até voltarem a sair.
Uma mulher se sotaque espanhol apresentou-se e pediu ao grupo que a seguisse pelos passadiços onde os barcos estavam atracados. O grupo de vinte e quatro pessoas seguiu aos pares atrás dela, parando junto a dois barcos de borracha de casco rijo de cor amarela.
Num deles já se encontrava o piloto e a guia, normalmente uma bióloga conhecedora do ambiente aquático que faria a explicação durante a observação. As primeiras doze pessoas entraram para esse barco.
A seguir, a espanhola apontou para o segundo barco que apenas tinha o piloto. Xavier e Cassandra embarcaram nesse.
O piloto sorriu-lhes e recomendou a quem tivesse propensão a enjoos que se sentasse nos lugares mais atrás.
Os barcos eram compostos no interior por duas linhas paralelas com seis apoios cada. Os turistas sentar-se-iam uns atrás dos outros, tendo sempre uma lateral de vista desafogada. Atrás das linhas, o leme do barco com o piloto e a guia. E na traseira, os potentes motores.
Cassandra e Xavier sentaram-se a meio. Ela segurou a mão dele e confessou:
— Estou nervosa.
Ele sorriu-lhe e sem pensar, disse:
— Não te preocupes, eu estou aqui.
Cassandra anuiu e olhou para o outro lado. Ele estava ali, mas depois daquele passeio não estaria nunca mais na sua vida.
O primeiro barco ligou os motores enquanto no deles as pessoas ainda se acomodavam. Todos tinham os seus coletes salva-vidas bem apertados. E a maior parte, tal como Cassandra, seguravam as suas máquinas fotográficas para obter um bom registo dos golfinhos e das baleias.
Os barcos partiram um atrás do outro, navegando lentamente dentro do porto. Assim que se viram em mar aberto, arrancaram a toda a velocidade para longe da costa.
Xavier sentiu o vento forte embater-lhe no rosto. Cassandra prendera o cabelo com um elástico, mas alguns fios teimavam em soltar-se com a deslocação do ar.
Piloto e guia trocavam opiniões, enquanto os barcos navegavam ao longo da costa afastada. Por entre o ruído dos motores, ouviam-se as comunicações rádio com os vigias instalados em pontos altos da ilha donde avistavam movimentações na água que poderiam ser aquilo que eles procuravam.
Os barcos avançavam a grande velocidade, lado a lado. Depois, paravam ou navegavam lentamente para analisar alguma indicação dada pelos vigias. Voltavam a acelerar e deslocavam-se para outro ponto no mar.
Na primeira meia hora, a única coisa que avistaram foram pássaros. Podia ser um indicador, uma vez que os pássaros são sinal de peixe perto da superfície e, se havia peixe, poderia haver baleias que se alimentam deles.
Cassandra estava a adorar e ia fotografando o que via. Por vezes, apontava a lente para o seu parceiro e registava mais uma expressão dele. Tiraria o máximo de fotos de Xavier para colmatar a sua partida.
De súbito, o piloto do outro barco apontou para algo mais à frente. Os barcos voltaram a arrancar a grande velocidade. Xavier começava a ficar cansado de andarem para um lado e para o outro sem ver nada.
Por fim, um esguicho de água denunciou a presença da baleia. Pouco se via para além de uma pequena parte de um dorso escuro. Nada daquelas imagens tão turísticas com caudas de baleia a sair da água.
Os barcos pararam. A guia espanhola respondeu às questões de alguns turistas que pareciam querer tirar um curso durante aquele passeio. O piloto voltou a apontar e eles viram novamente a baleia. Entretanto, alguém dera pela presença de outra, mais clara, com um dorso em tons de azul. Cassandra conseguiu registar o momento em que o enorme animal passou por baixo dos barcos. Era uma visão fenomenal e ninguém se lembrou que se a baleia quisesse, viraria as duas embarcações com a maior facilidade. Algumas chegaram mesmo a colocar-se em pé para poderem ver melhor.
O rádio crepitou alguns sons. Não se conseguia perceber o que o vigia dizia. O piloto acusou a recepção da informação e voltaram a acelerar pelo mar imenso.
A visão que se seguiu bem podia dizer que valia o bilhete. Algumas milhas mais longe da costa, avistaram um grupo de golfinhos a saltar no manto aquático. As duas embarcações seguiram linhas paralelas com os golfinhos e os turistas puderam apreciá-los a nadar ao lado dos barcos.
Aquele momento prolongou-se por bastante tempo. Todos os passageiros dos barcos puderam desfrutar da observação de golfinhos quase até à exaustão. Porém, ninguém parecia fartar-se de ali estar. Talvez apenas Xavier tivesse o pensamento noutro lugar, ponderando as possibilidades de futuro que teria no Canadá, começando pela conquista do direito a ter um visto de trabalho naquele país.
Contudo, também Cassandra não desfrutava plenamente do passeio. É certo que se revelava encantada com as observações e fazia comentários alegres a Xavier, mas… Os seus pensamentos atormentavam-na com o facto incontornável de que cada minuto que passava era um minuto mais perto de ver Xavier partir para, talvez, nunca mais o ver.
O piloto voltou a comunicar com o vigia. Ao que parecia, tinha sido avistada outra baleia a sudeste da posição deles. Os barcos tornaram a acelerar pelo oceano.
Desta feita, a baleia foi mais fácil de avistar, revelando uma boa extensão do dorso e esguichando várias vezes como que a dizer onde estava e para onde os turistas deveriam olhar. A juntar à festa, surgiram mais golfinhos e pássaros. Não havia dúvida, deveria andar por ali algum cardume e a clientela reunia-se no “restaurante”.
Cassandra conseguiu captar excelentes imagens. Não havia nenhuma cauda de baleia, nem nenhum registo do enorme animal digno de relevo, mas dava para perceber o que era e a sua dimensão. Porém, as que continham golfinhos tinham momentos absolutamente encantadores.
Novamente, foi permitido aos turistas bastante tempo para usufruírem do espectáculo. Xavier questionou-se se, tanto guia como piloto, não estariam já completamente fartos de ver baleias e golfinhos. Se ele tivesse aquele trabalho, já não poderia ver nenhum dos dois.
Aquele foi o último momento de observação, após o qual ambas as embarcações iniciaram o regresso à ilha. No entanto, o roteiro incluiria ainda uma passagem ao largo do Ilhéu de Vila Franca do Campo, um imponente monte rochoso em forma de caldeira, onde o mar entrava pelo circulo que não se completava e continha no interior uma pequena praia, só acessível a quem tivesse um barco para ir lá.
Os barcos contornaram o ilhéu. A guia espanhola explicou que as linhas que se avistavam nas paredes rochosas revelavam a idade do ilhéu. E que tendo em conta os anos que cada uma representava, podia concluir-se que ele estava ali há milhares de anos. O ilhéu que parecia singelo visto da costa, revelava-se de uma imponência aterradora para quem navegava perto de si.
Ao todo, o passeio demorou mais de três horas. Felizmente, o Sol mantivera-se encoberto, pois teria sido agressivo suportar aquele tempo no mar debaixo de céu limpo. Numa operação de charme, durante o regresso ao porto, a guia ofereceu a cada passageiro uma queijada de Vila Franca do Campo, um doce tradicional da localidade. Claro que a maior parte se interessou por saber onde poderia comprar mais. A publicidade estava feita.
Os barcos entraram no porto e reduziram a velocidade para não infringir as regras de navegação lá dentro. Estacionaram nos mesmos lugares donde haviam partido e os turistas desembarcaram, fazendo o trajecto inverso pelos passadiços da marina.
Cassandra e Xavier rumaram à loja com os colete salva-vidas na mão.
— Gostaste?
— Gostei, Cassandra. E tu?
— Eu adorei.
Uma das raparigas que distribuíra os coletes aguardava-os na entrada da loja. Alguns dos parceiros de viagem deles entraram para comprar alguma recordação, fosse um pin, um postal ou até uma t-shirt com desenhos alusivos aos Açores.
Xavier ficou à porta, enquanto Cassandra foi ver se havia algo do seu interesse na loja. Ele ficou a observar os barcos e o mar.
— Toma. — ouviu a voz de Cassandra atrás de si. Entregou-lhe um porta-chaves com um golfinho. — É para não te esqueceres de mim.
Esquecê-la seria impossível, mas Xavier não o verbalizou, evitando que isso pudesse retomar o diálogo dessa manhã.
O silêncio acercou-se deles enquanto percorreram o caminho até ao estacionamento onde ficara o automóvel. A contagem decrescente invisível continuava na mente dela sem que conseguisse abstrair-se disso. Sentia que enquanto ele estivesse consigo, havia uma réstia de esperança que ele não partisse para sempre da sua vida.
Entraram no carro e Cassandra iniciou a condução de regresso a Ponta Delgada.
— Posso fazer-te um pedido, Xavier? — pediu com os olhos na estrada.
Xavier hesitou, mas disse:
— Depende.
— Descansa. Não te vou pedir nada que contrarie as tuas vontades. — A forma como aquilo foi dito, teve a entoação que parecia atirar para ele a culpa do iminente afastamento. — Gostava que mantivéssemos o contacto. Nem que seja a escreveres-me um postal no Natal.
— Eu prometo que te escrevo um postal no Natal.
Ela não acreditou. Sentiu que ele não voltaria a dar notícias depois de partir. No entanto, Xavier tinha toda a vontade de manter o contacto com ela, mas, segundo ele, isso só serviria para que ela sofresse com a distância. Resumindo, talvez fosse melhor que o contacto se perdesse.
A viagem de regresso demorou mais que a vinda. É certo que o trânsito se intensificara, mas Xavier reparou que Cassandra conduzia propositadamente devagar. Não a podia condenar por isso. Ele também temia o momento da despedida.
— Que vais fazer? — indagou ele, fazendo assunto.
— Quando?
— No que resta da tua estadia.
Ela encolheu os ombros.
— Não sei. Vou dar mais umas voltas e fazer a mala.
Não foi fácil encontrar um lugar para estacionar e o automóvel teve de ficar algo longe do hotel.
As nuvens aumentaram sobre a cidade, acentuando a sensação de tristeza que lhes ia na alma. Circularam pelas ruas num ritmo tranquilo, sem pressa. Entraram no hotel.
— Anda! Temos de ir buscar a tua bagagem ao meu quarto. — recordou ela.
Subiram o elevador juntos uma última vez. Os diálogos entre eles pareciam ser cada vez mais escassos. Caminharam pelo corredor do piso 2 e Xavier deixou-a seguir na sua frente. Ela parou defronte da sua porta e inseriu o cartão para a abrir. Uma vez aberta, entrou e convidou-o a entrar também.
Xavier sentiu-se relutante em voltar a entrar no quarto dela, mas não iria pedir-lhe que trouxesse o seu saco pesado. Avançou para o interior, rumo à bagagem que as senhoras da limpeza haviam desviado para cima da poltrona.
Cassandra aproveitou o momento e pendurou o aviso “não incomodar” no puxador exterior e fechou a porta, trancando-a.
— Que estás a fazer? — inquiriu ele.
— Quero fazer amor contigo… uma última vez.
— Cassandra…
— Vais negar-me isso? — questionou ela, aproximando-se dele.
— Só nos fará sentir pior. — alertou.
— Não quero saber.
Cassandra colocou os braços à volta do pescoço dele e beijou-o na boca. Ele correspondeu, abraçando-a pela cintura. O beijo foi intenso, sôfrego, uma mistura de paixão e desespero.
Ele largou-a, mas não a afastou. Ao invés, despiu-lhe a t-shirt. Ela tirou a dele. A seguir, olharam-se com desejo, mas os rostos eram tristes. Despiram o resto das roupas, olhos nos olhos. Ela deu-lhe a mão e trouxe-o para a cama. Deitou-se e convidou-o a ficar sobre ela. Xavier beijou-a e acariciou-a. Tocou-lhe os seios com ternura. Cassandra abraçou-o e envolveu-lhe a cintura com as pernas, sussurrando-lhe ao ouvido:
— Vem…
A penetração foi paciente. Fora tudo muito rápido e ela não estava ainda pronta a recebê-lo. Xavier tinha noção disso e usou de extrema ternura, avançando com cuidado para não a magoar, até ao momento em que toda a excitação avançaria sem limites.
O ritmo aumentou, o corpo dele chocava com o dela. Cassandra agarrou-o pelas nádegas, instigando-o a uma penetração cada vez mais profunda. Xavier apoiou um braço ao lado dela, deixando a outra mão a acariciar um seio.
Cassandra gemia de prazer, mas no seu rosto as lágrimas corriam sem parar. A boca abria-se em espasmo, mas os olhos cerravam-se sem conseguir travar o choro.
Xavier envolveu-a nos seus braços. Continuou num ritmo acelerado, até ambos atingirem o orgasmo. No fim, deixou-se ficar sobre ela, tendo a preocupação de não lhe pesar. Não a quis encarar, mas sentiu-a a soluçar baixinho.
— Desculpa… — sussurrou-lhe ele ao ouvido.
Ela apertou-o num abraço que jamais quereria abrir e levou os lábios à sua orelha, dizendo baixinho:
— Eu amo-te, Xavier!
Xavier não se manifestou.
Cassandra percebeu que não iria obter uma afirmação correspondente e abriu o abraço. Ele saiu de dentro dela e abandonou o colchão. Esforçou-se para não a olhar nos olhos, para não ser atingido pela dor de a ver em lágrimas.
— Vou tomar um banho. — disse para o ar.
Entrou na casa-de-banho e seguiu para o duche. Abriu a água e deixou que ela lhe atingisse o corpo sem dó nem piedade. Também ele sentiu as lágrimas subir, mas travou-as a tempo e usou o chuveiro para disfarçar.
Na porta da casa-de-banho, uma Cassandra chorosa apareceu, nua e com o cabelo desalinhado. Observou-o a lavar-se durante alguns segundos e depois caminhou para o duche.
— Importaste? — indagou, empurrando o vidro que evitava a saída da água para o chão.
— Entra.
Cassandra entrou no duche e colocou-se entre ele e o chuveiro. Apoiou as mãos na parede da torneira e deixou que a água lhe acariciasse o corpo. Xavier encostou-se à parede oposta e ficou a olhar para as costas dela, para as nádegas e para as pernas.
A água do chuveiro correu sem parar, tal como Cassandra não se moveu durante um bom pedaço de tempo. Quanto tempo demoraria ele a perceber? Ela estava ali, na sua frente, sem se mexer. Por fim, balbuciou:
— Só quero um abraço, Xavier.
Ele aproximou-se, envolveu-lhe o tronco num abraço terno e deixou que a água o atingisse também a ele. Beijou-lhe os cabelos pretos molhados. Teve vontade de lhe dizer o quanto a adorava, o quanto iria sentir a sua falta. Limitou-se a beijá-la na nuca.
Ele não precisava de o dizer. Cassandra sentia-o. E talvez fosse isso que a magoava tanto, o facto de ele também a amar e não querer lutar por isso. As lágrimas intensificaram-se com a certeza de que ele iria mesmo partir para sempre. Porém, afastou as pernas e atiçou-o com o rabo, pressionando uma erecção renovada. Segurou as mãos dele e abriu o abraço, obrigando-o concentrar-se mais acima.
Xavier decidiu esquecer a tristeza nos minutos seguintes, teria tempo para sofrer. Apertou-lhe os seios, afagando-os com doçura. Daquela vez, entrou nela com facilidade. Durou bastante tempo e gastou-se muita água. Após o orgasmo, ambos se consciencializaram de que fora o último.
O primeiro a sair do duche foi Xavier. Foi para o quarto, limpando-se com a toalha. Tinha a roupa espalhada pelo chão. Apanhou cada peça e vestiu-se.
Entretanto, o chuveiro calara-se. Pela porta da casa-de-banho, Cassandra surgiu envolta num robe turco, o cabelo húmido escorrido e despenteado sobre o rosto. As lágrimas voltaram a desenhar linhas na sua face.
— É irreversível? — interrogou num soluço.
— Lamento, Cassandra.
— Será que lamentas mesmo? — questionou. Novo soluço. — És tu quem parte.
— Podes não acreditar, mas lamento profundamente. — insistiu, acabando de se vestir. — Tu mereces alguém que te faça sorrir. E eu só te faço chorar.
— Não tenho a culpa de te amar. — balbuciou.
Xavier abanou a cabeça.
— Eu também gosto muito de ti. O suficiente para não querer estragar-te a vida comigo.
— Não achas que deveria ser eu a decidir isso?
— A minha decisão está tomada. — atalhou, forçando uma segurança que não sentia.
— Que queres tu? Que vá para o Canadá contigo?
Xavier abanou a cabeça veementemente.
— Jamais. Sei que terei uma vida difícil. Não suportaria ver-te sofrer também.
— Xavier…
— Cassandra! Por favor, não insistas. — pediu com afecto. — A culpa não é tua. A culpa é minha. Não sou homem para te fazer feliz. Com o tempo perceberás isso.
Ela tornou a soluçar e escondeu o rosto com as mãos.
Ele aproximou-se e ofereceu-lhe um beijo de despedida na cabeça. Depois, pegou no saco e caminhou para a porta.
— Parto amanhã, depois do almoço. — informou, olhando-o por entre as lágrimas. — Se mudares de ideias, estarei à tua espera no aeroporto.
Xavier abriu a porta e despediu-se, dizendo:
— Isso não vai acontecer.
Quando a porta se fechou, Cassandra caiu de joelhos no chão e desabou num pranto intenso com um choro carregado de amargura e infelicidade.

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