TROVOADAS DE VERÃO · Capítulo 49

Capítulo XLIX

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Cassandra permanecera mais de meia hora ajoelhada no chão a chorar a partida de Xavier. Sentiu-se como se tivesse regressado ao fim de tarde em que apanhara o namorado com a prostituta. Toda a dor e mágoa que a perturbaram desde esse momento até ver Xavier pela primeira vez. Só nesse instante percebeu que ele fora uma espécie de antídoto para o seu coração partido, partilhando o tempo com ela, distraindo-a, levando-a a ter fantasias sexuais imaginárias com ele ao invés de pensar na traição do namorado. Xavier fora o seu porto de abrigo depois da tormenta, logo ele, alguém que conheceu no dia em que aterrou na ilha. Havia algo nele que a fazia sentir segura, ele compreendia-a como nunca ninguém fizera, era como se a conseguisse despir, mas nunca se aproveitou disso. Até quando ela se ofereceu totalmente, ele a tentou proteger avisando-a que iria sofrer depois. Não se enganara.
Cassandra sofria. Sofria mesmo muito. O que a ligava a Xavier tornara-se mais forte em quatro dias que a ligação que procurara construir com Diogo em todo o tempo de namoro. E talvez por isso se sentisse a sofrer ainda mais, consciente que Xavier poderia ser de facto o homem da sua vida e nunca mais o iria ver.
Levantou-se do chão com os joelhos doridos. Caminhou até ao espelho e analisou-se. Estava horrível com o cabelo desgrenhado e o rosto inchado pelas lágrimas.
— Tens-te em muito boa conta, miúda. — disse ao espelho. — Achas-te muito bonita, não é? Mas os homens não te querem. — Puxou o cabelo para trás e atou-o de forma a prendê-lo atrás da cabeça. — Não vale a pena chorar, Cassandra. Não vais desperdiçar o teu último dia de férias no quarto do hotel a chorar por alguém que não te quis. — Abriu a torneira e lavou o rosto. Voltou a observar-se. — Sim, ele não te quis. Ninguém te quer. Habitua-te! Cresce com isso. Os homens só servem para te partir o coração. Vê se cresces e deixas de acreditar no amor que vês nos filmes. — Limpou o rosto com cuidado e começou a maquilhar-se. — És bonita, sabes que sim, Cassandra. Mas, os homens só te querem foder. E mesmo assim, tens de ser criativa e disposta a tudo, senão o teu namorado vai às putas porque te recusas a ser enrabada. — A mão tremia-lhe, ao segurar o lápis para contornar os olhos. Respirou fundo para se acalmar. — A vida não é um livro da Nora Roberts ou uma daquelas comédias românticas em que o par apaixonado termina sempre junto. Não é um conto de fadas com o típico “viveram felizes para sempre”. — Passou o rímel nas pestanas. — Tu és linda Cassandra! Faz-te desejada! Mas, não deixes mais ninguém entrar nesse coração. E quando precisares de um homem… — Pintou os lábios. — Quando precisares de um homem, usa-o e depois deita-o fora. — Soltou o cabelo e penteou-se.
Satisfeita com o que via, regressou ao quarto. Vestiu o biquíni para o caso de querer voltar a dar um mergulho algures na ilha. A seguir, entrou dentro de uns calções e de uma túnica fresca sem mangas que quase parecia um vestido. Pegou na mochila com os objectos essenciais para o passeio. Por fim, colocou os óculos escuros e saiu do quarto.

Não muito longe dali, Xavier caminhava pelo pontão com a mesma tristeza. Fora doloroso deixar Cassandra para trás. Ela era tudo o que ele alguma vez sonhara numa mulher. Porém, repetia para si que não tinha o direito de a arrastar para uma vida difícil. Ele sabia bem o que era tentar sobreviver no desemprego, sempre a contar os euros para pagar as contas. Não queria isso para ela. E também não estava na disposição de viver à sua custa. Podia ser orgulho machista, mas não o suportaria. E tinha a certeza que isso deterioraria a sua relação a médio prazo. Fora a melhor decisão, repetia-se, fora a melhor decisão deixá-la para trás. Sofreria sempre que pensasse nela, o que acontecia a cada dois segundos, mas tinha esperança que o tempo o ajudasse a ultrapassar a mágoa.
O cargueiro permanecia estacionado ao fundo do pontão, bem perto da saída do porto. No casco desenhavam-se linhas brilhantes saltitantes, fruto do reflexo da luz solar na água que ondulava suavemente à sua volta.
Xavier dava passadas vagarosas, a mente carregada de imagens daqueles dias partilhados com Cassandra.
— Olha o turista! — disse uma voz no cimo da prancha de acesso ao navio.
Xavier reconheceu o membro da tripulação, um individuo sempre pronto a fazer uma qualquer piada, sendo que na maior parte dos casos não tinha piada nenhuma.
Acenou-lhe com alguma indiferença e entrou a bordo.
— Nós a trabalhar… — continuou.
Para evitar aborrecer-se, o comentário foi ignorado. Outro elemento da tripulação surgiu e cumprimentou Xavier com satisfação. A seguir, apareceu o chefe da tripulação, o homem que o dispensara e que cumprira o prometido ao avisá-lo da reparação e de que estariam prontos para partir no dia seguinte.
— Espero que tenhas tido uns bons dias de descanso. — disse-lhe. — Agora, vai ser trabalhar no duro.
— Não há problema. — retorquiu Xavier.
O homem forte revelou um sorriso rasgado e sugeriu-lhe que se fosse acomodar no sector dos beliches da tripulação.

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