A CAMINHO DO TEU NOME · Capítulo 3

II

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A gata adormecera na minha cama. Enroscara-se em duas almofadas e bem poderia ficar ali horas. Acariciei-lhe o pêlo e Tio ronronou, abrindo ligeiramente as pálpebras para logo as voltar a fechar.
Retirei um livro das prateleiras, nostálgico com aquela recordação. Era o livro favorito da minha tia, Os Maias de Eça de Queirós. Nunca o lera, mas nele estava contido algo que guardava com imenso carinho, uma tira de papel fotográfico com quatro fotos impressas, tiradas numa daquelas máquinas de fotos tipo passe feitas no minuto, usadas por quem precisava de tratar de qualquer documentação identificativa. Sim, eu ainda sou do tempo das máquinas de "foto num minuto" que usualmente se encontravam nas estações de metropolitano ou em lojas perto dos locais onde se tratava do Bilhete de Identidade, como acontecia em Almada. Eram quatro fotos com três centímetros por quatro. Dois rostos eram comuns a todas. Na primeira, eu e Tânia a sorrir. Na segunda, eu e Tânia a fazer palhaçada. Na terceira, o meu rosto feliz com a cabeça de Tânia, também feliz, no meu ombro. Na quarta, a partilha de um beijo apaixonado.
O nosso namoro não durou muito tempo, cerca de três meses, mais ou menos até meio do Verão. Não porque tivéssemos deixado de gostar um do outro, apenas porque os sonhos de Tânia nos tornaram incompatíveis. Foi um namoro muito recatado, confesso. Nunca passámos dos beijos e o máximo que me permitiu foi tocar-lhe o peito sobre a roupa.
Tânia era um sucesso como modelo e despertou a atenção de entidades que lhe permitiram ascender a outros voos. Quase com dezoito anos, era um diamante em bruto para ser lapidado num mundo que tinha tanto de belo como de sufocante. Foi convidada a viajar para os Estados Unidos para enriquecer a sua formação de modelo e prosseguir a sua iniciante carreira. A vantagem de ter primos em Nova Iorque facilitou as coisas, mas os seus pais não abdicaram que ela tivesse a companhia da avó naquela nova etapa da vida, de forma a evitar que se metesse em "maus caminhos".
Quando partiu, não houve um terminar do namoro. Aliás, até nos convencemos que iria sobreviver à distância. Inicialmente, o previsto seria um ano a estudar nos states, não só na formação como modelo como a terminar o equivalente ao 12º ano. Por isso, talvez resultasse. O que era um ano na vida de dois jovens de dezoito anos?
Nos primeiros tempos correspondíamo-nos por carta. Telefonar era muito caro. Só que, com o tempo, as cartas foram tendo intervalos cada vez maiores. E passados seis meses, Tânia tomou a iniciativa de nos acordar para a realidade, o namoro terminara.
Foi muito difícil para mim, ela fora o meu primeiro grande amor, a minha primeira namorada. Só mesmo o facto de já estarmos afastados é que atenuou a dor. Terminou o namoro e tudo o resto, pois o contacto findou por completo. Ela só voltou a Portugal uns três anos mais tarde e em visita. Por norma, eram os pais que a visitavam em Nova Iorque.
Sim, Tânia alcançara o seu sonho, tornara-se uma super manequim internacional. E eu fora o seu primeiro fotógrafo.
O 12º ano foi a minha última época como estudante. Consegui finalizar o secundário, mas falhei a entrada na Universidade. O meu tio ficou desgostoso com isso, pois tinha a esperança que eu me licenciasse. Existia a alternativa de entrar para uma instituição privada, mas não tínhamos dinheiro para isso. Esse último ano na escola foi tranquilo. A áurea de prestígio por ter namorado Tânia não me largou e, apesar de continuar a ser o mesmo solitário de sempre, ninguém me aborrecia, nem mesmo Tiago.
Voltei a tentar entrar na Universidade um ano depois. Não frequentara a escola e optara por arranjar o meu primeiro emprego, durante esse primeiro ano de não estudante. Impulsionado pelo meu gosto pela fotografia, consegui um part-time na loja do centro comercial. E no restante tempo, preparei-me para os exames nacionais para me recandidatar à entrada no Ensino Superior. Mais uma vez, não fui colocado e desisti em definitivo dos estudos.
O part-time também terminou e levei cerca de um ano a encontrar o emprego que tinha naquela altura. Contudo valera a espera, pois fora dos sítios mais marcantes por onde passei.

Tio levantou-se da cama e saltou para o chão. Veio dar-me uma turra na perna a pedir comer. Baixei-me e peguei-lhe ao colo, apertando-a contra mim e ouvindo o seu ronronar agradado. Fui para a cozinha e enchi a sua taça de ração.
Todos os dias, depois do almoço, certificava-me que Tio tinha água e comida, antes de sair para ir trabalhar. Apanhava o autocarro até Cacilhas e depois o barco para Lisboa, mais precisamente para o Caís do Sodré, onde por fim prosseguia em novo autocarro até à Avenida da República.
O espaço comercial, onde eu trabalhava, era uma loja gigantesca de três pisos em pleno centro de Lisboa. Tinha diversos departamentos, desde produção de cópias, impressões, revelações e computadores. Encontrara aquele lugar por mero acaso e entrara por pura curiosidade, sendo atraído pelo anúncio de que necessitavam de funcionários. Percebendo que existia um departamento de fotografia, pedi informações acerca da oferta de emprego na recepção. Para minha decepção, o local onde estavam a contratar era no piso superior, nos computadores. Farto de estar desempregado, entreguei a minha candidatura.
Duas semanas mais tarde fui contratado para assistente de computadores no departamento que alugava aparelhos para consulta de uma coisa, da qual se falava cada vez mais, chamada Internet.

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