III
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A minha vida atravessava um momento de enorme felicidade. Francisca e eu vivíamos juntos havia quase nove meses e as coisas resultavam bem. O meu horário era complicado para uma vida de casal, mas adaptámo-nos com facilidade. Pronto, vou ser honesto, não dava para a promessa de fazer amor todas as noites, uma vez que eu chegava muito tarde e ela trabalhava cedo. Mesmo assim, nos primeiros tempos, ela punha o despertador para as cinco da manhã só para o fazermos antes de se levantar. Claro que com o avançar das semanas, isso foi deixando de acontecer, mas a paixão não esmoreceu.
Apesar de ter mudado para Lisboa, não larguei a casa onde vivia. Aquele apartamento era um álbum de recordações, uma memória real da existência dos meus tios. Enquanto pudesse pagar a renda, manteria a casa.
Francisca tornou-se advogada efectiva no escritório onde estagiara, ainda antes de começarmos a viver juntos. Tinha uma vida muito atarefada, até porque não abdicava dos seus objectivos e das suas ambições políticas. Era uma das melhores advogadas da sua equipa e todos lhe auguravam um futuro brilhante.
No dia nove de Setembro daquele ano, recebi uma mensagem de Jewel. Estava prestes a iniciar o segundo ano de Medicina e informava-me que, juntamente com um grupo de colegas, viria a Lisboa para um evento na Faculdade de Medicina, perto do Hospital de Santa Maria. E queria aproveitar a oportunidade para nos conhecermos pessoalmente.
A ideia não me deixava entusiasmado. Gostava bastante de conversar com ela na Internet, coisa que continuávamos a fazer com regularidade, mas transformar a amizade virtual em algo real... Para além disso, também não me sentia a agir correctamente, indo encontrar-me com outra mulher, sendo comprometido, mesmo que fosse só um encontro com uma amiga. Porém, Jewel fazia parte da minha vida havia quase dois anos, cruzámo-nos nas salas virtuais muito antes de reencontrar Francisca. Seria deselegante recusar o seu convite. No entanto, para evitar mal-entendidos, não partilhei nada disto com Francisca.
O grupo chegava na noite de dia dez e ficaria num hotel de Lisboa. Como eu trabalhava tarde e noite, Jewel sugeriu que nos encontrássemos pela manhã de dia onze.
O dia 11 de Setembro de 2001 mudou o Mundo. E abalou o meu.
Eu só conhecia Jewel pela foto que uma vez me enviara, talvez com doze ou trezes anos, rosto sério e bolachudo. Naquela altura, ela deveria ter dezanove anos, pelo que estaria diferente. Imaginei que ela pudesse estar com uma fisionomia mais mulher e menos menina, mas seria uma rapariga forte, talvez deselegante, demasiado pesada... Compensaria certamente com a simpatia que reflectia em todas as nossas conversas.
Combinámos o encontro no Centro Comercial Vasco da Gama, no Parque das Nações, uma vez que ficava relativamente a meio caminho entre Moscavide e o hotel onde ela estava hospedada. Pedi-lhe que me enviasse uma foto actual para a reconhecer, mas não houve tempo.
"Não te preocupes. Eu consigo reconhecer-te. Em todo o caso, eu serei a rapariga de saia aos quadrados e terei um casaco de malha atado à cintura. Não sei que camisa vou vestir, mas será uma camisa clara."
Sim, eu estava praticamente igual à foto que lhe enviara. Seria fácil reconhecer-me. Imaginei-a juntando o vestuário à figura que fazia dela. Na minha mente, uma rapariga redonda, baixa, saia aos quadrados até aos pés, um casaco de malha atado em esforço à cintura larga e uma camisa incapaz de disfarçar o pneu. Um rosto bochechudo, envolto numa cabeleira arruivada desgrenhada. Esta era a imagem de Jewel na minha cabeça.
Não me importava, certo de que o mais importante, a sua simpatia e amizade, corresponderiam àquilo a que me habituara online.
Combinámos o encontro para a porta principal do centro comercial, virada para a Estação Oriente. Cheguei dez minutos antes da hora marcada e aguardei junto aos vidros, observando a avenida, tentando discernir a sua aproximação, tentando reconhecê-la. Vi uma rapariga forte de saia aos quadrados a atravessar na passadeira, mas vestia um blusão e era morena.
A manhã estava agradável, um céu limpo e ambiente luminoso.
A minha concentração foi quebrada por uma voz doce atrás de mim:
— Daniel?
Virei-me...
Virei-me e o meu mundo sofreu um abalo, qual terramoto de grau máximo numa daquelas escalas de nomes complicados. Na minha frente, uma rapariga esguia, quase da minha altura, cabelo louro arruivado cheio de caracóis penteados. O rosto perdera o ar bonacheirão, tornara-se bem delineado, os olhos grandes e azuis, observavam com uma mistura de ternura e simpatia, o nariz singelo, a boca simples de lábios carnudos. A camisa bege abria-se abaixo do pescoço, somente dois botões. Abaixo da abertura, o volume do peito intenso, apontando para mim os dois bolsos falsos do tecido. Na cintura, as mangas do casaco de malha cruzavam-se num nó que nada apertava, nem a saia aos quadrados castanhos e brancos que lhe terminava a meio das coxas de umas pernas bem delineadas que terminavam em dois pés de unhas pintadas envolvidos num par de sandálias. Os braços estavam descobertos abaixo das mangas curtas, revelando o brilho da penugem alourada na pele. As mãos finas tinham dedos elegantes de unhas pintadas da mesma cor que as dos pés.
— Sou eu, a Mafalda! — apresentou-se. Nunca ouvira a sua voz. Naquele instante, soou a uma melodia chilreada num bosque encantado. — A Jewel.
— Olá! — retribuí, ainda aparvalhado. Onde está a gorda?
A sensação de estar na presença dela foi arrebatadora.
Mafalda avançou para mim e trocámos dois beijos tímidos na face.
— Finalmente, conhecemo-nos. — disse ela com um sorriso radioso.
— Sim. — concordei com o coração a bater descompassado. Onde está a gorda? Porque não me mandaram a gorda?
Olhando em volta, Mafalda disse:
— Queres ir a algum lado? Não conheço nada aqui.
— Podemos ir tomar um café. — sugeri.
Encaminhei-a para as escadas rolantes, rumo ao piso superior. Mafalda estava mais à vontade que eu, que ainda procurava recuperar do impacto. Lembram-se de eu dizer que, antes de receber a foto dela, a imaginava como gémea de Tânia? Não lhe estava a fazer justiça.
Apesar das muitas horas que passámos no computador a conversar, nos últimos dois anos, isso não evitou que naquele momento houvesse alguma inibição entre nós. Eu era cinco anos mais velho que ela, mas Mafalda parecia adaptar-se melhor à situação que eu. Tomou as rédeas da conversa e começou a falar da razão de ter vindo a Lisboa, enquanto seguíamos para a esplanada.
Convidei-a a sentar-se numa cadeira junto a uma mesa virada para os vidros com vista para o Pavilhão Atlântico. Fui ao balcão da cafetaria mais próxima buscar dois cafés. Ao voltar, Mafalda esperava-me com o olhar na paisagem e as pernas cruzadas, revelando ainda mais as coxas.
Vá lá, por Deus, eu sou comprometido, desesperei mentalmente.
Coloquei as chávenas na mesa e sentei-me no lado oposto.
Mafalda correspondia a toda a simpatia que eu idealizara nela. Tinha uma voz doce, suave, num tom melodioso. Não sei se falava com todas as pessoas assim, mas comigo era notória a ternura em cada palavra. Parecia uma boneca, dava vontade de a abraçar. Mas, não podia, eu era comprometido.
— Então? Sou muito diferente da foto que te mandei? — questionou divertida.
— Aquela não eras tu. — reclamei, simulando um ar enganado.
— Era eu sim. — Sorriu com um travo de jovialidade. — Tinha doze anos. Era a foto do BI.
— Não tinhas nada mais... Que te fizesse mais justiça? — Assustei-me com a possibilidade de dar a entender que a achava bonita. Emendei. — Que fosse mais parecida contigo agora.
Ela bebeu o café. Distraidamente, lambeu o lábio superior. Pode alguém ser tão naturalmente sedutor?
— Tinha. — confessou. — Mas tive receio de mostrar. Ainda não confiava o suficiente em ti. Depois... Não voltámos a falar nisso. E agora preferi surpreender-te. — Voltou a sorrir. — Surpreendido?
— Um pouco.
— Espero que não estejas desapontado.
Mafalda sabia bem que eu não estava desapontado.
Eu abanei a cabeça e desvalorizei o assunto, o qual me apressei a mudar:
— Vieste em visita de estudo?
— Viemos para um evento em Santa Maria. — explicou. — Não quis perder a oportunidade de conhecer o hospital, nunca se sabe se um dia não trabalharei lá.
Eu dispensava visitas àquele hospital, o meu tio falecera lá.
— Futura médica. — recordei.
— Futura médica pediatra. — corrigiu. Cruzou os braços sobre o peito e recostou-se na cadeira. — Adoro crianças. Poder ajudá-las, tratar delas... É um objectivo de vida.
— Vais dar uma bela mãe. — profetizei, sem evitar a certeza ilusória que lhe faria todos os filhos que ela quisesse.
— Espero bem que sim. Faz parte daquilo que quero para o meu futuro. Depois de me formar e conseguir estabilidade profissional, quero casar e ter filhos, muitos filhos. — Riu com satisfação. — Muitos, enfim... A vida não está para isso. Ficarei feliz com dois, um casalinho... — Olhou-me curiosa. — E tu?
— Eu?
— Sim. Pensas ter filhos?
— Claro. — confirmei sem nunca ter pensado muito nisso.
Houve uma pausa. Por breves instantes, todos os temas de conversa pareciam ter-se evaporado. Ficámos a olhar um para o outro e, estranhamente, não sentimos necessidade de dizer nada. Olhos nos olhos, como se lêssemos a alma do outro. Sempre fôramos confidentes, pouco escondíamos nas nossas conversas, bons e maus momentos, tudo era partilhado naquela virtualidade da Internet.
— Gostava de te ter conhecido antes... — desabafei.
Mafalda não desviou o olhar, atenta. Notei uma alteração na sua expressão, a ternura mantinha-se e a jovialidade dava lugar a uma maturidade que ainda não revelara.
— Eu sei.
— Sabes?
— Sim. — confirmou, descodificando-me entre linhas. — Não aconteceu, talvez porque não tinha de acontecer.
— E tu?
— Eu? — interrogou sem esperar resposta. — Eu sinto o mesmo que tu. — Sorriu, oferecendo-me o olhar mais doce que alguma vez vira em toda a vida. — Cheguei tarde. Suspeitava que isso aconteceria, mas só teria a certeza quando me conhecesses. Não o lamentes. Não tinha de ser.
Fiquei estarrecido, dezanove anos com maturidade de quarenta.
— Eu...
— Não o digas. — cortou com afecto nas palavras. — Sei que gostas dela. Não quero ser uma fractura na tua vida. Temos uma maravilhosa amizade que hoje transformámos em algo real.
Debrucei-me sobre a mesa. O café arrefecera porque me esquecera de beber. Não conseguia deixar de encarar o azul dos seus olhos. O mundo à volta não existia.
— Vamos fazer um jogo? — sugeri.
A confusão estampou-se no seu rosto.
— Que jogo?
— Vamos dizer uma frase ao outro, algo que queiramos dizer, mas que nunca mais voltaremos a repetir. Algo que tenhamos medo de dizer, algo que pudéssemos apagar depois de o dizer.
— O que dissermos nunca mais será repetido ou lembrado? — questionou ela.
— Não, será um desabafo. — prossegui. — Algo que evite que daqui a vinte anos lamentemos não ter dito.
— E se isso tiver impacto na nossa vida?
— O acordo é esquecer, depois de sairmos daqui.
— Ok. De acordo, Daniel. Podes começar.
Houve uma nova pausa. Ponderei o que ia dizer. Não tinha dúvidas nas palavras a usar, apenas a melhor forma de o proferir.
— Sinto que me apaixonei por ti assim que te vi. Tenho a certeza que te vou amar para o resto da vida!
Mafalda sorriu. Não estava surpreendida pelas palavras. Calei-me, aguardando a sua vez. Ela correspondeu à minha intensidade e fez a sua confissão.
— Sou apaixonada por ti quase desde que nos conhecemos na Internet. Conversar contigo só me deixou cada vez mais cativada. Hoje, correspondeste a tudo o que imaginei. Saio daqui a amar-te ainda mais. — Fez uma pausa, indicando que não terminara. — Mas, tu vais regressar à tua namorada e esta conversa nunca aconteceu!
Tive o impulso de recusar isso, o impulso de cometer a loucura de largar tudo por ela. Como era possível nutrir algo tão forte por alguém que acabara de conhecer? Percebi que o meu inconsciente sempre gostara dela, desde as primeiras conversas virtuais. Vê-la, adicionar tamanha beleza a um ser humano tão extraordinário foi a gota de água para fazer transbordar toda a paixão e amor que se escondiam em mim. Só que existia Francisca... E eu jamais a trairia. E, por mais estranho que possa parecer, também estava apaixonado por ela. E jamais a abandonaria assim, por outra... Mesmo que essa outra fosse possivelmente o amor da minha vida. Mafalda estava ser mais madura que eu, revelava uma maturidade que só me deixava ainda mais estarrecido.
Anuí, cumprindo o que fora previamente estabelecido.
Mafalda olhou para o relógio.
— Tenho de ir.
Levantámo-nos em simultâneo. Ela encurtou a distância para se despedir. Trocámos dois beijos na face, tal como fizéramos antes, exalando o seu perfume, a inesquecível fragrância a morango. Ela partiria talvez para nunca mais a ver.
— Achas que isto vai afectar a nossa relação? — questionei.
— Só se deixarmos que afecte. — contrapôs. — Não pretendo deixar de trocar emails contigo ou conversar na nossa sala virtual privada.
Sorri, descansado.
— Aconteça o que acontecer, nunca sairemos da vida um do outro!
— Espero que não. — desejei.
Aquele encontro teve um impacto muito forte na minha vida. Tão forte que as imagens que os telejornais passaram em directo nessa hora de almoço não foram tão chocantes. Os atentados em Nova Iorque foram horríveis, mas a minha mente estava a leste.
Francisca nunca soube de nada. E a nossa relação não foi abalada pelo evento, uma vez que eu tivera o discernimento de colocar a cabeça no lugar. Nem o meu amor por ela diminuíra, continuava a amar Francisca como antes. A única diferença foi que, escondido no meu coração, estava um sentimento intenso que eu adormeci. Sim, confesso, sentimentalmente eu traíra-a.
Houve uma breve pausa nas conversas virtuais, motivada pela permanência do grupo de Mafalda em Lisboa. Porém, no regresso a Coimbra, Jewel reapareceu. Tacitamente, acordámos em não falar sobre o encontro real. Ela relatou os acontecimentos da visita, passando depois a dissertar sobre os trágicos acontecimentos nos Estados Unidos. Aos poucos, com o passar dos dias, a nossa amizade voltou à normalidade anterior.
O ano seguinte foi o do fim do Escudo e do surgimento do Euro. Para mim, foi o ano da falência do meu local de trabalho e queda no desemprego. Em sentido inverso, a carreira de Francisca ia de vento em poupa, uma advogada brilhante com possibilidades de vir a integrar a lista de candidatos a deputados nas eleições legislativas seguintes. A nossa relação continuava forte, mas a paixão esmorecera.
Nessa Primavera, Jewel começou a namorar um rapaz da faculdade, um namoro que se revelou ser bastante sério e com perspectivas de futuro. Partilhou a informação como um teste à nossa amizade. A minha resposta foi "espero que ele te faça muito feliz, tu mereces". Mesmo assim, as nossas conversas online diminuíram drasticamente e quase só trocávamos mensagens por email.
Mesmo desempregado, consegui manter a renda da minha casa com o subsídio de desemprego. Tentei voltar ao mercado de trabalho, mas não tive sucesso. Durante o Verão, aceitei o convite de Peter para integrar a turma do curso de fotografia que ele leccionava.
Não sei explicar bem porquê, mas com o passar dos meses, senti o chamamento da paternidade. Não sei se era o facto de estar desocupado no apartamento, acabando por tomar a cargo a lida da casa, ou se por me cruzar com alguma mãe a empurrar um carrinho de bebé na rua.
Abordei o assunto com Francisca, após o momento semanal em que fazíamos amor.
— Fora de questão. — recusou intransigente. — Talvez daqui a uns dez anos...
— Daqui a dez anos, eu tenho trinta e seis anos e tu trinta e cinco. — recordei.
— Ainda vamos muito a tempo! — exclamou, virando-se na cama de costas para mim. — A minha vida profissional actual não é compatível com a maternidade.
O assunto foi suspenso, mas tornou-se uma fissura na nossa relação, uma fissura que foi abrindo aos poucos.
Apesar de ter mudado para Lisboa, não larguei a casa onde vivia. Aquele apartamento era um álbum de recordações, uma memória real da existência dos meus tios. Enquanto pudesse pagar a renda, manteria a casa.
Francisca tornou-se advogada efectiva no escritório onde estagiara, ainda antes de começarmos a viver juntos. Tinha uma vida muito atarefada, até porque não abdicava dos seus objectivos e das suas ambições políticas. Era uma das melhores advogadas da sua equipa e todos lhe auguravam um futuro brilhante.
No dia nove de Setembro daquele ano, recebi uma mensagem de Jewel. Estava prestes a iniciar o segundo ano de Medicina e informava-me que, juntamente com um grupo de colegas, viria a Lisboa para um evento na Faculdade de Medicina, perto do Hospital de Santa Maria. E queria aproveitar a oportunidade para nos conhecermos pessoalmente.
A ideia não me deixava entusiasmado. Gostava bastante de conversar com ela na Internet, coisa que continuávamos a fazer com regularidade, mas transformar a amizade virtual em algo real... Para além disso, também não me sentia a agir correctamente, indo encontrar-me com outra mulher, sendo comprometido, mesmo que fosse só um encontro com uma amiga. Porém, Jewel fazia parte da minha vida havia quase dois anos, cruzámo-nos nas salas virtuais muito antes de reencontrar Francisca. Seria deselegante recusar o seu convite. No entanto, para evitar mal-entendidos, não partilhei nada disto com Francisca.
O grupo chegava na noite de dia dez e ficaria num hotel de Lisboa. Como eu trabalhava tarde e noite, Jewel sugeriu que nos encontrássemos pela manhã de dia onze.
O dia 11 de Setembro de 2001 mudou o Mundo. E abalou o meu.
Eu só conhecia Jewel pela foto que uma vez me enviara, talvez com doze ou trezes anos, rosto sério e bolachudo. Naquela altura, ela deveria ter dezanove anos, pelo que estaria diferente. Imaginei que ela pudesse estar com uma fisionomia mais mulher e menos menina, mas seria uma rapariga forte, talvez deselegante, demasiado pesada... Compensaria certamente com a simpatia que reflectia em todas as nossas conversas.
Combinámos o encontro no Centro Comercial Vasco da Gama, no Parque das Nações, uma vez que ficava relativamente a meio caminho entre Moscavide e o hotel onde ela estava hospedada. Pedi-lhe que me enviasse uma foto actual para a reconhecer, mas não houve tempo.
"Não te preocupes. Eu consigo reconhecer-te. Em todo o caso, eu serei a rapariga de saia aos quadrados e terei um casaco de malha atado à cintura. Não sei que camisa vou vestir, mas será uma camisa clara."
Sim, eu estava praticamente igual à foto que lhe enviara. Seria fácil reconhecer-me. Imaginei-a juntando o vestuário à figura que fazia dela. Na minha mente, uma rapariga redonda, baixa, saia aos quadrados até aos pés, um casaco de malha atado em esforço à cintura larga e uma camisa incapaz de disfarçar o pneu. Um rosto bochechudo, envolto numa cabeleira arruivada desgrenhada. Esta era a imagem de Jewel na minha cabeça.
Não me importava, certo de que o mais importante, a sua simpatia e amizade, corresponderiam àquilo a que me habituara online.
Combinámos o encontro para a porta principal do centro comercial, virada para a Estação Oriente. Cheguei dez minutos antes da hora marcada e aguardei junto aos vidros, observando a avenida, tentando discernir a sua aproximação, tentando reconhecê-la. Vi uma rapariga forte de saia aos quadrados a atravessar na passadeira, mas vestia um blusão e era morena.
A manhã estava agradável, um céu limpo e ambiente luminoso.
A minha concentração foi quebrada por uma voz doce atrás de mim:
— Daniel?
Virei-me...
Virei-me e o meu mundo sofreu um abalo, qual terramoto de grau máximo numa daquelas escalas de nomes complicados. Na minha frente, uma rapariga esguia, quase da minha altura, cabelo louro arruivado cheio de caracóis penteados. O rosto perdera o ar bonacheirão, tornara-se bem delineado, os olhos grandes e azuis, observavam com uma mistura de ternura e simpatia, o nariz singelo, a boca simples de lábios carnudos. A camisa bege abria-se abaixo do pescoço, somente dois botões. Abaixo da abertura, o volume do peito intenso, apontando para mim os dois bolsos falsos do tecido. Na cintura, as mangas do casaco de malha cruzavam-se num nó que nada apertava, nem a saia aos quadrados castanhos e brancos que lhe terminava a meio das coxas de umas pernas bem delineadas que terminavam em dois pés de unhas pintadas envolvidos num par de sandálias. Os braços estavam descobertos abaixo das mangas curtas, revelando o brilho da penugem alourada na pele. As mãos finas tinham dedos elegantes de unhas pintadas da mesma cor que as dos pés.
— Sou eu, a Mafalda! — apresentou-se. Nunca ouvira a sua voz. Naquele instante, soou a uma melodia chilreada num bosque encantado. — A Jewel.
— Olá! — retribuí, ainda aparvalhado. Onde está a gorda?
A sensação de estar na presença dela foi arrebatadora.
Mafalda avançou para mim e trocámos dois beijos tímidos na face.
— Finalmente, conhecemo-nos. — disse ela com um sorriso radioso.
— Sim. — concordei com o coração a bater descompassado. Onde está a gorda? Porque não me mandaram a gorda?
Olhando em volta, Mafalda disse:
— Queres ir a algum lado? Não conheço nada aqui.
— Podemos ir tomar um café. — sugeri.
Encaminhei-a para as escadas rolantes, rumo ao piso superior. Mafalda estava mais à vontade que eu, que ainda procurava recuperar do impacto. Lembram-se de eu dizer que, antes de receber a foto dela, a imaginava como gémea de Tânia? Não lhe estava a fazer justiça.
Apesar das muitas horas que passámos no computador a conversar, nos últimos dois anos, isso não evitou que naquele momento houvesse alguma inibição entre nós. Eu era cinco anos mais velho que ela, mas Mafalda parecia adaptar-se melhor à situação que eu. Tomou as rédeas da conversa e começou a falar da razão de ter vindo a Lisboa, enquanto seguíamos para a esplanada.
Convidei-a a sentar-se numa cadeira junto a uma mesa virada para os vidros com vista para o Pavilhão Atlântico. Fui ao balcão da cafetaria mais próxima buscar dois cafés. Ao voltar, Mafalda esperava-me com o olhar na paisagem e as pernas cruzadas, revelando ainda mais as coxas.
Vá lá, por Deus, eu sou comprometido, desesperei mentalmente.
Coloquei as chávenas na mesa e sentei-me no lado oposto.
Mafalda correspondia a toda a simpatia que eu idealizara nela. Tinha uma voz doce, suave, num tom melodioso. Não sei se falava com todas as pessoas assim, mas comigo era notória a ternura em cada palavra. Parecia uma boneca, dava vontade de a abraçar. Mas, não podia, eu era comprometido.
— Então? Sou muito diferente da foto que te mandei? — questionou divertida.
— Aquela não eras tu. — reclamei, simulando um ar enganado.
— Era eu sim. — Sorriu com um travo de jovialidade. — Tinha doze anos. Era a foto do BI.
— Não tinhas nada mais... Que te fizesse mais justiça? — Assustei-me com a possibilidade de dar a entender que a achava bonita. Emendei. — Que fosse mais parecida contigo agora.
Ela bebeu o café. Distraidamente, lambeu o lábio superior. Pode alguém ser tão naturalmente sedutor?
— Tinha. — confessou. — Mas tive receio de mostrar. Ainda não confiava o suficiente em ti. Depois... Não voltámos a falar nisso. E agora preferi surpreender-te. — Voltou a sorrir. — Surpreendido?
— Um pouco.
— Espero que não estejas desapontado.
Mafalda sabia bem que eu não estava desapontado.
Eu abanei a cabeça e desvalorizei o assunto, o qual me apressei a mudar:
— Vieste em visita de estudo?
— Viemos para um evento em Santa Maria. — explicou. — Não quis perder a oportunidade de conhecer o hospital, nunca se sabe se um dia não trabalharei lá.
Eu dispensava visitas àquele hospital, o meu tio falecera lá.
— Futura médica. — recordei.
— Futura médica pediatra. — corrigiu. Cruzou os braços sobre o peito e recostou-se na cadeira. — Adoro crianças. Poder ajudá-las, tratar delas... É um objectivo de vida.
— Vais dar uma bela mãe. — profetizei, sem evitar a certeza ilusória que lhe faria todos os filhos que ela quisesse.
— Espero bem que sim. Faz parte daquilo que quero para o meu futuro. Depois de me formar e conseguir estabilidade profissional, quero casar e ter filhos, muitos filhos. — Riu com satisfação. — Muitos, enfim... A vida não está para isso. Ficarei feliz com dois, um casalinho... — Olhou-me curiosa. — E tu?
— Eu?
— Sim. Pensas ter filhos?
— Claro. — confirmei sem nunca ter pensado muito nisso.
Houve uma pausa. Por breves instantes, todos os temas de conversa pareciam ter-se evaporado. Ficámos a olhar um para o outro e, estranhamente, não sentimos necessidade de dizer nada. Olhos nos olhos, como se lêssemos a alma do outro. Sempre fôramos confidentes, pouco escondíamos nas nossas conversas, bons e maus momentos, tudo era partilhado naquela virtualidade da Internet.
— Gostava de te ter conhecido antes... — desabafei.
Mafalda não desviou o olhar, atenta. Notei uma alteração na sua expressão, a ternura mantinha-se e a jovialidade dava lugar a uma maturidade que ainda não revelara.
— Eu sei.
— Sabes?
— Sim. — confirmou, descodificando-me entre linhas. — Não aconteceu, talvez porque não tinha de acontecer.
— E tu?
— Eu? — interrogou sem esperar resposta. — Eu sinto o mesmo que tu. — Sorriu, oferecendo-me o olhar mais doce que alguma vez vira em toda a vida. — Cheguei tarde. Suspeitava que isso aconteceria, mas só teria a certeza quando me conhecesses. Não o lamentes. Não tinha de ser.
Fiquei estarrecido, dezanove anos com maturidade de quarenta.
— Eu...
— Não o digas. — cortou com afecto nas palavras. — Sei que gostas dela. Não quero ser uma fractura na tua vida. Temos uma maravilhosa amizade que hoje transformámos em algo real.
Debrucei-me sobre a mesa. O café arrefecera porque me esquecera de beber. Não conseguia deixar de encarar o azul dos seus olhos. O mundo à volta não existia.
— Vamos fazer um jogo? — sugeri.
A confusão estampou-se no seu rosto.
— Que jogo?
— Vamos dizer uma frase ao outro, algo que queiramos dizer, mas que nunca mais voltaremos a repetir. Algo que tenhamos medo de dizer, algo que pudéssemos apagar depois de o dizer.
— O que dissermos nunca mais será repetido ou lembrado? — questionou ela.
— Não, será um desabafo. — prossegui. — Algo que evite que daqui a vinte anos lamentemos não ter dito.
— E se isso tiver impacto na nossa vida?
— O acordo é esquecer, depois de sairmos daqui.
— Ok. De acordo, Daniel. Podes começar.
Houve uma nova pausa. Ponderei o que ia dizer. Não tinha dúvidas nas palavras a usar, apenas a melhor forma de o proferir.
— Sinto que me apaixonei por ti assim que te vi. Tenho a certeza que te vou amar para o resto da vida!
Mafalda sorriu. Não estava surpreendida pelas palavras. Calei-me, aguardando a sua vez. Ela correspondeu à minha intensidade e fez a sua confissão.
— Sou apaixonada por ti quase desde que nos conhecemos na Internet. Conversar contigo só me deixou cada vez mais cativada. Hoje, correspondeste a tudo o que imaginei. Saio daqui a amar-te ainda mais. — Fez uma pausa, indicando que não terminara. — Mas, tu vais regressar à tua namorada e esta conversa nunca aconteceu!
Tive o impulso de recusar isso, o impulso de cometer a loucura de largar tudo por ela. Como era possível nutrir algo tão forte por alguém que acabara de conhecer? Percebi que o meu inconsciente sempre gostara dela, desde as primeiras conversas virtuais. Vê-la, adicionar tamanha beleza a um ser humano tão extraordinário foi a gota de água para fazer transbordar toda a paixão e amor que se escondiam em mim. Só que existia Francisca... E eu jamais a trairia. E, por mais estranho que possa parecer, também estava apaixonado por ela. E jamais a abandonaria assim, por outra... Mesmo que essa outra fosse possivelmente o amor da minha vida. Mafalda estava ser mais madura que eu, revelava uma maturidade que só me deixava ainda mais estarrecido.
Anuí, cumprindo o que fora previamente estabelecido.
Mafalda olhou para o relógio.
— Tenho de ir.
Levantámo-nos em simultâneo. Ela encurtou a distância para se despedir. Trocámos dois beijos na face, tal como fizéramos antes, exalando o seu perfume, a inesquecível fragrância a morango. Ela partiria talvez para nunca mais a ver.
— Achas que isto vai afectar a nossa relação? — questionei.
— Só se deixarmos que afecte. — contrapôs. — Não pretendo deixar de trocar emails contigo ou conversar na nossa sala virtual privada.
Sorri, descansado.
— Aconteça o que acontecer, nunca sairemos da vida um do outro!
— Espero que não. — desejei.
Aquele encontro teve um impacto muito forte na minha vida. Tão forte que as imagens que os telejornais passaram em directo nessa hora de almoço não foram tão chocantes. Os atentados em Nova Iorque foram horríveis, mas a minha mente estava a leste.
Francisca nunca soube de nada. E a nossa relação não foi abalada pelo evento, uma vez que eu tivera o discernimento de colocar a cabeça no lugar. Nem o meu amor por ela diminuíra, continuava a amar Francisca como antes. A única diferença foi que, escondido no meu coração, estava um sentimento intenso que eu adormeci. Sim, confesso, sentimentalmente eu traíra-a.
Houve uma breve pausa nas conversas virtuais, motivada pela permanência do grupo de Mafalda em Lisboa. Porém, no regresso a Coimbra, Jewel reapareceu. Tacitamente, acordámos em não falar sobre o encontro real. Ela relatou os acontecimentos da visita, passando depois a dissertar sobre os trágicos acontecimentos nos Estados Unidos. Aos poucos, com o passar dos dias, a nossa amizade voltou à normalidade anterior.
O ano seguinte foi o do fim do Escudo e do surgimento do Euro. Para mim, foi o ano da falência do meu local de trabalho e queda no desemprego. Em sentido inverso, a carreira de Francisca ia de vento em poupa, uma advogada brilhante com possibilidades de vir a integrar a lista de candidatos a deputados nas eleições legislativas seguintes. A nossa relação continuava forte, mas a paixão esmorecera.
Nessa Primavera, Jewel começou a namorar um rapaz da faculdade, um namoro que se revelou ser bastante sério e com perspectivas de futuro. Partilhou a informação como um teste à nossa amizade. A minha resposta foi "espero que ele te faça muito feliz, tu mereces". Mesmo assim, as nossas conversas online diminuíram drasticamente e quase só trocávamos mensagens por email.
Mesmo desempregado, consegui manter a renda da minha casa com o subsídio de desemprego. Tentei voltar ao mercado de trabalho, mas não tive sucesso. Durante o Verão, aceitei o convite de Peter para integrar a turma do curso de fotografia que ele leccionava.
Não sei explicar bem porquê, mas com o passar dos meses, senti o chamamento da paternidade. Não sei se era o facto de estar desocupado no apartamento, acabando por tomar a cargo a lida da casa, ou se por me cruzar com alguma mãe a empurrar um carrinho de bebé na rua.
Abordei o assunto com Francisca, após o momento semanal em que fazíamos amor.
— Fora de questão. — recusou intransigente. — Talvez daqui a uns dez anos...
— Daqui a dez anos, eu tenho trinta e seis anos e tu trinta e cinco. — recordei.
— Ainda vamos muito a tempo! — exclamou, virando-se na cama de costas para mim. — A minha vida profissional actual não é compatível com a maternidade.
O assunto foi suspenso, mas tornou-se uma fissura na nossa relação, uma fissura que foi abrindo aos poucos.