A CAMINHO DO TEU NOME · Capítulo 11

VI

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A manhã de Janeiro estava fria, apesar do céu azul bonito. Acabara de deixar Leonor na escolinha que frequentava desde que vivia comigo. O estabelecimento escolar distanciava pouco da nossa casa, pelo que íamos e vínhamos sempre a pé, a menos que o clima fosse tão agreste que não o permitisse. Olhei para as casas, notando que os enfeites natalícios começavam a desaparecer das janelas dos meus vizinhos. Fora uma quadra triste, pois apesar do meu esforço, nada retirou a tristeza na expressão da minha filha.
Não estava a ser fácil, mas aos poucos a vida dela ia entrando numa normalidade rotineira. A primeira grande alteração em casa foi a transformação do segundo quarto, o local que eu usava como pequeno estúdio, e onde guardava o equipamento fotográfico, no quarto de Leonor. Comprei uma mobília que tentei ser ao seu gosto, mas ela não se manifestou muito quando a fomos escolher. O quarto quase vazio ficou com uma cama individual em pinho com edredão em tons de rosa, um armário com duas portas e uma mesinha com uma cadeira, todos em tons claros. Na parede, coloquei várias fotos da mãe com ela e uma especial, registada em Edimburgo, comigo e com Kátya.
O resto da casa também teve algumas alterações. Agora, atrás do sofá, escondiam-se as caixas que trouxera e que não conseguira arrumar. Coloquei as fotos dos meus tios na sala, umas na parede, outras sobre os móveis. Também coloquei duas de Leonor, uma de Kátya, várias de Mafalda... No quarto coloquei uma foto grande de Mafalda na parede e outra nossa na cabeceira da cama. Não sabia o que seria o meu futuro nos assuntos do coração, iriam existir outras mulheres e alguma poderia vir a partilhar aquele quarto comigo. Porém, Mafalda fora a mulher que eu mais amara na vida e seria difícil desfazer-me da sua memória.
Os objectos importantes que recolhera em Almada também foram espalhados por alguns cantos. A máquina fotográfica e os diversos acessórios da minha actividade profissional foram arrumados no meu quarto.
Profissionalmente também tive de fazer modificações. Logo que regressei a norte, retomei os contactos com os clientes e procurei novos projectos. Tive de abdicar de trabalhos que envolvessem viagens ou que tivesse de fazer à noite, pois não podia deixar Leonor sozinha nem me passava pela cabeça deixá-la com outra pessoa. Mesmo assim, ia tendo trabalho. Entretanto, recebi um convite para dar aulas de fotografia no Porto, algo para o qual nunca me sentira vocacionado, mas que acabara por se revelar uma agradável surpresa e fazer-me perceber que gostava mesmo muito de ensinar. E isso deu-me uma estabilidade de horário muito benéfica à paternidade.
Alguns dias mais tarde, quando fui deixar Leonor na sua sala, a auxiliar que recebia as crianças pediu-me para aguardar um pouco. Ajudei a minha filha a vestir a bata e vi-a entrar para a sala, juntando-se aos coleguinhas.
A educadora responsável por aquela sala apareceu para falar comigo. Era uma senhora com uns cinquenta anos, envergava uma bata idêntica a todas as funcionárias da escola e tinha um rosto afável que lhe atribuía um ar de avozinha.
— Bom dia, pai da Leonor! — cumprimentou. Sempre achei curiosa esta forma de perdermos a identidade em prol dos filhos. — Queria falar consigo sobre a Leonor.
— Aconteceu alguma coisa?
A senhora abanou a cabeça.
— O costume. A Leonor continua muito fechada, não se dá muito com os colegas, está sempre muito triste e carente.
— Não é fácil para uma criança ultrapassar a perda da mãe. — recordei, uma vez que todas as funcionárias sabiam da história do falecimento de Kátya.
— Sim... Mas, talvez devêssemos tentar fazer algo nesse sentido.
Percebi que o "devêssemos" deveria ser ouvido como eu devia fazer algo. Quem me dera ter a receita mágica para o problema. Nada me faria mais feliz que tornar a ver um sorriso no rosto de Leonor.
— Que sugere?
— Talvez devesse procurar apoio psicológico. — respondeu a senhora. — Há especialistas em pedopsiquiatria que poderiam receitar alguma terapia.
Qualquer coisa que fosse benéfica para a pequena valeria a pena investigar. Por isso, fui pesquisar clínicas com essa especialidade e encontrei algumas. Não tendo grande ponto de referência para as avaliar, optei pela que ficava mais perto, sendo a escolhida uma clínica na cidade de Vila Nova de Gaia.
A mesa da sala era agora o meu escritório, o local onde assentava o meu computador portátil e consultava a Internet. Após uma análise rápida ao website da clínica, peguei no telemóvel e liguei para lá. Fui atendido por uma voz feminina que me prestou todos os esclarecimentos que pedi e indicou-me uma data possível para a primeira consulta, a qual aceitei, ficando agendada para daí a uns dias.
Novamente no computador, abri o meu Facebook para ver se havia alguma novidade, uma vez que não passava por lá desde a semana anterior. O meu perfil tinha muitos "amigos". Recebia muitos pedidos de amizade, muito devido a ser um fotógrafo conhecido. Na sua maioria eram pedidos de raparigas que queriam ser fotografadas e pediam uma oportunidade para pousar para mim. Como eu não fazia trabalhos particulares, remetia-as para as agências com quem colaborava para que, caso a agência concordasse, pudesse ser feito um casting onde seriam fotografadas por mim. Também recebia algumas propostas provocadoras, miúdas dispostas a tudo para alcançarem a fama. Algumas metiam conversa comigo pelo Messenger... Se começassem a ser muito inconvenientes, bloqueava-as e retirava-as da minha lista de contactos. Claro que nessa lista estavam amigos verdadeiros como o Peter, a Leo com quem falava com alguma regularidade, a Tânia que tinha um perfil privado e só acessível aos amigos próximos, como eu, e alguns contactos profissionais.
Ao entrar no meu perfil, vi que tinha um pedido de amizade novo. Com algum enfado, cliquei na notificação "Mérida quer adicionar-te aos seus amigos". Quem raio era Mérida? Abri a sua página pessoal no Facebook. A foto de perfil era a personagem protagonista do desenho animado da Disney do filme Brave, a princesa Mérida. Era a única foto. Aquele era o típico pedido que eu eliminava. Calculei que fosse alguma miudinha. Porém, ao ver a informação sobre ela, vi que se tratava de uma mulher de trinta e dois anos, portuguesa a viver no Brasil. Não tinha mais fotos e havia uma mínima quantidade de informação. O estado civil, onde eu tinha viúvo (alterara-o logo após a notícia da morte de Mafalda) ela tinha solteira. Profissionalmente estava ligada à medicina. Nos interesses, gostava de ler, ver filmes, estar com os amigos, ou seja, o básico. E pouco mais. Confesso que não percebi o seu interesse em me adicionar, uma vez que o meu perfil não tinha muito em comum com o dela. Essencialmente, a minha página era dedicada à fotografia. Não tinha muitas referências à minha vida privada, não referia que tinha uma filha nem publiquei qualquer foto de Leonor, como muitos pais faziam. A foto de perfil continuava a ser a que Mafalda escolhera quando criara a minha conta. De resto, fotos só de trabalhos ou registos que gostara particularmente, como uma paisagem, um objecto, um momento... Tudo muito profissional. Acabei por aceitar o seu pedido.

As tardes frias pareciam não ter fim. Mesmo assim, soube-me bem ir até à praia, caminhar pelo pontão e relaxar um pouco, após a manhã atarefada numa sessão fotográfica de estúdio em Matosinhos para uma marca de roupa. Encostado às barras de madeira, observei o mar pensando na minha filha que, nessa noite, voltara a ter pesadelos e acordara a chamar pela mãe. Eu reconfortara-a, percebendo o seu desgosto em novo despertar para a realidade.
Nessa tarde, iria levar Leonor à sua primeira consulta na clínica. Tinha esperança de encontrar lá uma solução para fazer a pequena sair daquele mundo de tristeza e começar a viver com a normalidade de uma criança com quase seis anos.
Caminhei mais um pouco até à esplanada perto da praia. Faltava algum tempo até à hora de ir buscar Leonor à escola e seguir para a cidade. Parei para tomar um café e conversei um pouco com o rapaz atrás do balcão, o qual já me conhecia das muitas vezes que passava por ali sozinho ou com Leonor. Ao fim desse tempo, paguei a bebida e retomei a caminhada de regresso a casa.
Quando estava a chegar ao meu prédio, vi uma mulher sair de outro prédio, uns trinta ou quarenta metros mais acima. Era alta, cabelo preto comprido, muito elegante e vistosa, envergando um casaco comprido, camisola de malha, calças de ganga preta e botas de cano alto até ao joelho. A sua beleza chamou a minha atenção, mas não passaria disso, não fosse o homem que saiu atrás dela, um tipo gordo de óculos e com calvície acentuada. Apesar da distância, ouvi-o chamá-la sem perceber o nome. Ela voltou-se e gesticulou de forma irritada, falando com agressividade. Ele aproximou-se dela, usando o mesmo tom. Eu observava com as chaves na mão para entrar no átrio, sendo surpreendido pelo gesto dele a esbofeteá-la. Ela tentou ripostar, mas ele empurrou-a com força, fazendo-a embater desamparada num carro estacionado.
— Hei! — chamei, incapaz de ficar indiferente à cena. Caminhei para eles. — Que se passa?
A mulher tentou equilibrar-se, encostada ao carro, ainda atordoada com o impacto. O homem olhava para mim num misto de altivez e receio.
— Isto é entre nós. — disse, fazendo um gesto para que me afastasse. — Não se meta.
Ignorei-o e aproximei-me dela.
— Estás bem? — indaguei sem perceber que já a estava a tratar de forma informal.
— Ó pá, vai dar uma curva. — insistiu o homem, apesar de manter uma distância de segurança. — Isto é um assunto nosso.
Eu encarei-o sem pensar, sem medir os riscos. Não conhecia o indivíduo, nem me interessava. Usando um tom ríspido, disse:
— Não sei qual é o assunto. Mas nenhum gajo bate numa mulher à minha frente.
O tipo riu-se com desdém.
— Nunca ouviste dizer "entre marido e mulher não metas a colher"?
— São casados? — inquiri, olhando para ela. Não houve resposta. Olhei para ele. — Violência doméstica é crime público!
— Que queres dizer com isso, pá?
— Além de seres um cobarde que bate em mulheres, também és lerdo e não percebes português?
Vi nos olhos do indivíduo uma raiva contida. Queria ripostar pela força, mas faltou-lhe a coragem. Era, sem dúvida, um daqueles tipos merdosos que só são fortes contra os fracos.
— Se não te importas... — insistiu num tom neutro. — ...gostava de continuar a conversar com a minha... com...
— Porque é que não o dizes? — interveio a mulher. — Tens vergonha de o dizer? Podes dizê-lo. — Olhou para mim com um sorriso escarninho. — Eu sou a amante, percebes?
— Pois... — confirmou o homem. — Por isso...
— Não temos mais nada a dizer. — retorquiu ela. — Vai lá embora. Vai ter com a tua mulherzinha.
— Ivone... Temos de...
— Não temos nada. — A mulher usou de um tom altivo, talvez impulsionada pela segurança que a minha presença lhe dava. — Desaparece daqui. Jamais admitirei conviver com um homem que me bate.
O gordo abanou a cabeça e lançou com desdém:
— Pois, pois... E o dinheiro?
— Hei de me safar.
— Vais arranjar outro amante? Se calhar, já estás a tirar as medidas a este. — alvitrou, apontando para mim.
— Talvez seja melhor ir andando. — disse eu, referindo-me a mim a ir embora, uma vez que não estava a fazer nada ali e, realmente, exceptuando a agressão, o assunto não me dizia respeito.
— Vou quando eu quiser! — afirmou o tipo, levantando a voz.
Virei costas, mas ouvi a voz dela:
— Ele tem razão. Está na hora de ires embora.
— És uma puta!
— Tem lá calma com as palavras. — avisei, voltando-me para ele.
Não tive essa intenção, mas acho que a minha postura deu a impressão que iria confrontar fisicamente o indivíduo. Para minha surpresa, a mão da mulher agarrou-me o braço, ao mesmo tempo que ele se encolheu com a minha investida.
— Não vale a pena. — avisou ela. — Deixa estar, eu estou bem.
— Não vale mesmo a pena. — repetiu o indivíduo barrigudo. Olhou para o prédio, como se procurasse com o olhar o apartamento. — Estou farto de ti. É bom que comeces a pensar como te vais sustentar. De mim não terás mais nada. Sua pu...
— Hei!!!
O tipo olhou para mim e levantou os braços em sinal que não queria problemas comigo. Fulminou-a com o olhar. Ela não pareceu atemorizada, mesmo que ainda uns minutos antes ele lhe tivesse carimbado uma valente chapada no rosto.
— És um cabrão! — retorquiu.
O homem tentou agredi-la novamente, só que travou quando me meti no meio.
— É melhor ires andando. — convidei num tom rude.
O tipo atirou uma expressão de desdém à mulher e afastou-se. Mantive a minha atenção nele até o ver entrar num carro estacionado no outro lado da rua e ir-se embora, arrancando a alta velocidade como um louco.
Não circulava mais ninguém por ali. Durante o dia era raro ver pessoas na rua, uma vez que muitos dos habitantes trabalhavam fora o dia inteiro, saindo de manhã cedo e só voltando ao anoitecer.
— Estás bem? — voltei a perguntar.
Ela assentiu e sorriu-me, fazendo-me constatar pela primeira vez a beleza dos seus olhos escuros.
— Peço desculpa pelo sucedido. — lamentou, mantendo um semblante simpático. Tinha uma voz segura sem perder um timbre sensual a cada palavra. — Já deves ter percebido a que se deveu a discussão.
— Penso que sim, mas não me interessa. Não é assunto meu.
— Não fiques com a ideia errada. Não sou uma...
— Não fico com ideia nenhuma. — atalhei. — Como te disse, não é assunto meu.
Ela anuiu.
— Sim, tens razão. Mesmo assim, devo-te um agradecimento. Se não estivesse aqui...
— Algo me diz que não foi a primeira vez que... — Fiz um gesto a simular a chapada. Ela confirmou que não. — Já devias ter corrido com ele há mais tempo.
— Era o que estava a fazer. — respondeu. — Fartei-me de... de merdas destas. Aguentei algumas coisas porque... o dinheiro...
— Não tens que te justificar a mim. Não tenho nada com isso.
— Seja como for, és um homem corajoso. Nem todos teriam tido a iniciativa de se meter.
— Ou estúpido, uma vez que não medi as consequências.
Ela inclinou a cabeça, curiosa.
— Que quer isso dizer? Se tivesses pensado um pouco, não te tinhas metido?
Encolhi os ombros. Não sabia a resposta, só sabia que tinha corrido um risco estúpido. Se o tipo em vez de ser um cobarde, fosse um marginal e estivesse armado, um tipo sem preconceitos em sacar de uma pistola e dar-me um tiro? Pois... Não me podia esquecer que aquele sentimento suicida que crescera em mim com a morte de Mafalda já não poderia encontrar lugar na minha vida, quando agora entrara nela um ser inocente de cinco anos que contava unicamente comigo para ter uma vida estável.
— É melhor ir andando. — acabei por dizer.
Ela assentiu e agradeceu mais uma vez:
— Obrigado. — Estendeu-me a mão. — Chamo-me Ivone. E tu?
— Daniel.
— Obrigado por teres vindo em meu auxílio, Daniel. — Baixou a voz. — Nem todos se prontificariam a vir em auxílio de uma amante, de alguém que colabora para o adultério.
— Como calculas, não fazia a mínima ideia. Além disso, seres "a outra" não lhe dá o direito de te agredir.
— Pareces ser um tipo porreiro.
— Engano bem. — ripostei.
Ivone sorriu com interesse.
— Estou em dívida contigo.
— Esquece isso. — pedi, desvalorizando o que acontecera. — Não me deves nada. — Olhei em redor. — Não sei se o tipo volta, mas... Talvez seja melhor chamares a polícia, se ele regressar.
Ela não se mostrou muito preocupada.
— Vives aqui? — questionou, curiosa.
— Sim... — confirmei apontando de forma genérica para a rua.
— Que me dizes a um café? — sugeriu do nada.
Não me mostrei muito interessado. Olhei para o relógio no telemóvel, revelando alguma pressa.
— Não quero atrasar-te. — disse ela, desapontada, vendo-me a observar as horas.
— Tenho de ir buscar a minha filha à escola.
— Hoje é a vez do pai? — questionou em tom de provocação.
— É sempre a vez do pai.
— A mãe não é dada a idas à escola?
Abanei a cabeça com um sorriso triste.
— A mãe faleceu no Outono passado.
— Ah... Desculpa. — lamentou envergonhada. — Não te prendo mais, Daniel.
— Não faz mal. Tenho mesmo de ir...
Ivone sorriu em despedida.
— Talvez nos cruzemos por aí... Afinal, somos vizinhos.
Sim, poderia acontecer. Não a contrariei.
— Tenho mesmo de ir, Ivone.
— Até breve, Daniel!
Seguimos direcções opostas. Ivone afastou-se pela rua acima, eu retornei ao meu prédio para ir buscar as chaves do carro a casa.

A clínica ficava num bairro de prédios com meia dúzia de andares cada. No rés-do-chão, a um nível superior ao passeio público, perfilavam-se vários estabelecimentos comerciais, entre eles a clínica.
Aos poucos, os dias iam tornando-se mais compridos. Mesmo assim, naquele fim de tarde, a noite já caíra por completo. Estacionei o carro a poucos metros da entrada da clínica. Com Leonor pela mão, atravessámos a rua. No exterior era possível ver a recepção iluminada e uma funcionária atrás do balcão, da qual só se conseguia ver o topo da cabeça. Toquei à campainha e vi a cabeça ganhar olhos e espreitar. Ouvi o clique da porta a destrancar. Empurrei com força e encaminhei a minha filha para o interior.
— Boa tarde! — cumprimentei, ao mesmo tempo que ajudava Leonor a despir o blusão quente e o gorro. — Temos consulta marcada com a Dra. Cristina.
A recepcionista, uma jovem na casa dos vinte anos, confirmou a marcação e convidou-nos a esperar na sala ao fundo do corredor. Aguardámos alguns minutos. Leonor manteve-se apática, olhando para o chão com o seu característico ar triste. Ao fim desse tempo, surgiu na porta uma senhora de meia-idade, figura roliça e rosto simpático, a qual veio chamar Leonor. Levantámo-nos e a senhora cumprimentou-me, apresentando-se como sendo a psicóloga que viéramos consultar.
O gabinete era um espaço quadrado com uma mesa, duas cadeiras de um lado e uma do outro. Tinha uma marquesa e dois armários encostados à parede. A um canto, um lavatório com uma torneira. Não restavam dúvidas que seria um gabinete multiusos para as mais diversas especialidades.
A psicóloga tentou deixar Leonor o mais descontraída possível, oferecendo-lhe papel e lápis de cor para que se entretivesse enquanto falava comigo. A seguir, pediu-me que falasse na razão que nos levara ali. Partilhei com ela o comportamento solitário e triste da minha filha e depois relatei a história da mãe até ao seu falecimento.
Ouvindo-me com atenção, a sua primeira conclusão foi que se tratava de uma consequência natural perante a tragédia que era para uma criança de cinco anos perder a mãe. Mesmo assim, disse-me que gostaria de conversar com a pequena e questionou se eu via algum inconveniente que o fizesse sem a minha presença. Não coloquei entraves.
Expliquei a Leonor que a doutora queria conversar com ela e que eu estaria à sua espera na sala anterior. Leonor não demonstrou muito agrado nisso. Porém, a psicóloga convidou-a a jogarem um jogo e a minha filha acabou por não se importar que eu saísse. Aquela era uma situação normal, uma vez que a especialista pretendia obter o ponto de vista da criança sem a presença do pai, de forma que não houvesse qualquer constrangimento de Leonor em expressar alguma emoção que a minha presença restringisse. Não que isso fosse acontecer connosco, mas era um procedimento usual.
Aguardando na sala de espera, ouvi o meu telemóvel a chamar. Olhei para o visor e vi o nome de Peter. Atendi.
Peter ligou-me para uma proposta de trabalho. A revista que ele ajudara a lançar, cerca de um ano antes, estava a ter um enorme sucesso e queriam que ele viesse para Portugal para assumir a direcção fotográfica. Contudo, Peter não pretendia sair de Edimburgo em definitivo e declinou o convite. Em contrapartida, sugeriu o meu nome para o cargo, caso eu estivesse interessado.
— Tu és a pessoa indicada para assumir o lugar, Daniel. — continuou. — Para além disso, a sede está no Porto e não interfere na tua vida de pai. Que dizes?
A proposta pareceu-me bastante interessante. Peter deu-me o contacto da secretária de direcção para marcar uma reunião com a Ângela, a directora da revista.
Mal terminei o telefonema, a Dra. Cristina surgiu na sala com Leonor.
O relatório foi simples, Leonor estava a atravessar uma fase de choque pela perda da mãe. Que novidade... Não havia nada de anormal nisso, nem pareceu à médica que houvesse lugar a alguma terapia. Aconselhou-me a dar-lhe mais algum tempo. Por vezes, naquelas idades, o estado de espírito altera-se e, com a maior das naturalidades, a criança voltaria a um estado de espírito menos recolhido e mais alegre. Informou-me que iria elaborar um relatório escrito, o qual eu poderia levantar na recepção daí a uns dias.

Na manhã seguinte, telefonei para o número que Peter me dera. Fui atendido por uma voz masculina. Apresentei-me e informei que estava a ligar por indicação do fotógrafo Peter para marcar uma reunião com a directora da revista. Ele pediu que esperasse. Fiquei a aguardar que ele regressasse à linha. Porém, em seu lugar, ouvi uma voz feminina, uma voz com um timbre quente:
— Olá, Daniel! Fala a Ângela.
— Bom dia! — retribuí o cumprimento, ainda surpreso por ela ter vindo logo à linha. — O Peter falou-me do cargo de director de fotografia...
— Sim... Não sei se ele lhe contou, mas eu convidei-o para o lugar. Só que ele não quer regressar em definitivo a Portugal. — Fez uma pausa para que eu assimilasse a informação. — Temos tido mais sucesso que o inicialmente previsto. Neste momento, não podemos ter o responsável máximo pela fotografia a milhares de quilómetros. Precisamos da pessoa aqui. — Nova pausa. Percebi que dava uma indicação a alguém. — Desculpe, Daniel! Como eu estava a dizer, tem de ser alguém presente. Não se trata de estar aqui das nove às seis. É necessário é que esteja presente sempre que necessário.
— Percebo.
— O Peter falou-me em si. Eu conheço o seu trabalho. E gosto.
— Eu liguei para lhe manifestar o meu interesse.
— Podemos marcar uma reunião para falar melhor. — sugeriu. — Vou estar na revista hoje à tarde. Pode passar por cá?
— Por volta das três?
— Combinado, Daniel.
Os escritórios da revista situavam-se na cidade do Porto, na zona da Boavista. A tarde, tal como a manhã, continuava cinzenta. Conduzi pelas ruas citadinas com saudades do meu tempo de motard, em que era mais simples avançar no trânsito com uma mota e estacionar perto do destino. Após a tentativa fracassada de encontrar um lugar para o automóvel, acabei por entrar num parque de estacionamento subterrâneo a quase um quilómetro dos edifícios de escritórios. Caminhei pelo passeio, cruzando-me com pessoas atarefadas, como se vivessem constantemente atrasadas para chegar a algum lugar. Eu avançava calmamente, pois estava adiantado. Alcancei a entrada do edifício e passei na portaria procurando o acesso ao elevador. Carreguei no botão ao lado das portas e vi o número digital a decrescer até ao zero. As portas abriram e eu entrei. Junto aos botões numéricos, cada andar tinha a indicação da empresa que lá laborava. Pressionei o "5" com o nome da revista.
O espaço era amplo com diversas mesas de trabalho onde se espalhavam os vários departamentos da revista, pessoal a escrever os textos, outros a trabalhar as fotos, outros a paginar tudo. Dirigi-me ao balcão que confrontava a saída do elevador, onde um jovem recebia os visitantes e atendia os telefones.
— Boa tarde! O meu nome é Daniel e tenho reunião marcada com a Ângela.
O rapaz recebeu-me com um sorriso profissional e pediu que aguardasse. Pegou no telefone e carregou numa única tecla.
— Ângela! Está aqui o Daniel. — informou. Ouviu algo e desligou. Levantou-se da sua cadeira e contornou o balcão. — Pode acompanhar-me?
Segui atrás dele, atravessando o espaço com funcionários atarefados que quase nem se aperceberam da minha presença. Observei a densidade de luz que entrava pelas paredes de vidro viradas para a rua. Por fim, ao fundo, vi os únicos gabinetes do local. No maior, apercebi-me da presença de uma mulher alta e esguia que se levantou do seu lugar, ao ver-me aproximar.
Batendo na porta do gabinete dela, o rapaz esperou a autorização para entrar, apesar de ser tudo transparente. Ela fez-lhe sinal para avançar. Ele abriu a porta e indicou-me que entrasse.
Ângela era uma mulher alta, ligeiramente mais alta que eu devido aos sapatos de salto alto. Tinha quarenta e sete anos e um charme maduro. Fora modelo e mantinha a forma esguia dos tempos das passerelles. O rosto era sedutor e a expressão do olhar cativante a juntar ao calor da sua voz seria capaz de derreter um glaciar. Vestia um casaco escuro, estilo blazer, e calças de ganga azul-claras que lhe atribuíam um ar jovial. O cabelo comprido era muito claro, quase branco, sinónimo de alguém que envergava orgulhosamente os sinais típicos da idade. E no caso dela, isso só lhe dava ainda mais charme.
Estendendo-me a mão, Ângela cumprimentou:
— Olá, Daniel!
Apertei a sua mão com suavidade, sentindo o toque da sua pele.
— Olá, Ângela!
— Obrigado por teres vindo. — agradeceu, apontando-me a cadeira defronte da sua mesa. Parou para me observar. — Espero que não te importes que te trate por tu?!
— Esteja à vontade, Ângela. — concedi.
Ela sorriu, sentando-se.
— Isto da informalidade tem duas vias, Daniel.
Retribuí o sorriso.
Ângela explicou-me o perfil que procuravam, falou-me da revista, de como as coisas estavam a evoluir bem, o sucesso de ter uma revista masculina de fotos ousadas no mercado, o que a diferenciava de outras revistas também ousadas, mas, segundo ela, mais vulgares e menos artísticas.
— Vou ser honesta contigo, Daniel. Conheço o teu trabalho e ter-te na minha equipa é uma ideia que me agrada bastante. — referiu, debruçando-se na mesa e olhando-me com seriedade. — Só que também sei que és um fotógrafo conceituado, tens outros trabalhos e receio que possas não conseguir dedicar a este projecto o tempo necessário.
Defrontei o seu olhar cativante, ponderando a questão.
— Não sei se o Peter te disse que sou pai solteiro. — Ela anuiu, revelando que sabia. — Por isso, a minha filha estará sempre em primeiro lugar, pelo que isso poderá limitar o meu horário.
— De que forma?
— Não estarei disponível antes das nove da manhã, nem depois das sete da tarde. — expliquei, obtendo dela um sinal de que não era problemático. — Nem estarei disponível para viajar, caso isso seja uma necessidade do cargo.
— Em princípio, não será.
— Em relação a outros trabalhos, as sessões fotográficas que faço são agendadas mediante a minha agenda, pelo que, a menos que me queiras aqui de segunda a sexta das nove às seis, não me parece que seja impeditivo. E tenho os workshops de fotografia que também podem ser programados em consonância com a minha disponibilidade.
Ângela ofereceu-me um sorriso.
— Então só falta chegar a acordo em relação ao ordenado. — Ouvi o valor proposto. Confesso que ficava abaixo da minha expectativa. — Que te parece?
Franzi o rosto. Queria o trabalho, mas tinha um estatuto profissional a defender. Ela percebeu e elevou a fasquia.
— Para começar, parece-me bem. — concordei.
Ela levantou-se da sua cadeira e estendeu-me a mão.
— Bem-vindo à equipa, Daniel!

A minha nova actividade como director de fotografia da revista levou a que recusasse alguns convites para outros trabalhos por indisponibilidade de agenda, até porque a somar a isto tinha os meus workshops dos quais não queria desistir.
Na época, existia um espaço de cursos e workshops num edifício perto dos Jardins do Palácio de Cristal onde eu apresentava as minhas aulas e partilhava os meus conhecimentos de fotografia. Cada evento era composto por três a quatro sessões em dias distintos e realizavam-se entre as duas e as seis da tarde, sendo que nalguns casos poderiam ser pela manhã. O número de alunos variava entre cinco, o mínimo para valer a pena, e os dez, o máximo que a minha paciência abarcava para explicações.
Naquela tarde, o grupo era composto por sete pessoas que pretendiam dar os primeiros passos no manuseamento de uma máquina fotográfica reflex. Recordo-me que tínhamos um senhor com os seus cinquenta e muitos anos que segurava orgulhosamente uma Nikon, dois homens mais novos, cada um com uma Canon, outro rapaz com uma Sony, uma rapariga com uma Olympus, outra rapariga também com uma Sony e a última, uma jovem com uma máquina semelhante à minha, uma Canon 5D numa versão mais antiga. Interroguei-me o que faria uma principiante com uma máquina profissional na mão.
Já conhecia todos das sessões anteriores, aquelas em que dou as noções mais básicas até aos conceitos menos simples, mas ainda longe do nível avançado, pois seria inteligente deixá-los interessados a inscreverem-se no nível seguinte. Claro que havia quem tivesse conhecimentos acima da iniciação, como acontecia com o senhor da Nikon. Porém, o resto sabia carregar no botão para tirar a foto e pouco mais. Assim, naquela última sessão, aproveitando a tarde bonita e solarenga, levei o grupo para o exterior de forma que colocassem em prática o que tinham aprendido sob a minha orientação.
Sempre que fazia aquilo, sentia-me um auxiliar escolar a levar os meninos a passear no jardim. O formando mais velho desinteressou-se de mim e foi à procura de bons registos fotográficos para apresentar no final. O mesmo não aconteceu com os restantes, à excepção da "menina 5D" como eu lhe chamava, os quais me metralhavam com questões ao ponto de lhes dizer "arrisquem e no final logo vemos o que dá". Nunca me preocupei muito em saber se aquela era a melhor forma de ensinar, só me interessava que eles saíssem dali a saber realmente mexer na máquina e a fazer boas fotos. E ainda não tivera reclamações.
Li os meus apontamentos, intrigado com a "menina 5D", cujo nome era Valentina, uma jovem de vinte e cinco anos de cabelos castanhos compridos com uma curiosa madeixa azul que se estendia desde a raiz até às pontas. Observei-a a fotografar as flores do jardim, debruçada no muro que a separava do canteiro, sem conseguir desviar o olhar do seu rabo aprisionado numas calças justas de tecido elástico. Aproximei-me devagar, reparando nas sapatilhas All Stars. Quem é que naquela idade calçava sapatilhas daquelas? Atrás dos cotovelos apoiados na pedra, vi a camisola larga com o tecido a cair, fazendo-me resistir à vontade de me baixar e espreitar para o interior. Já a seu lado, vi parte da sua pele lombar nua. Não teria frio?
Valentina sentiu a minha presença e afastou a máquina do rosto para olhar para mim. O seu rosto sardento tinha traços asiáticos, não muito pronunciados, vestígios de um avô ou avó naturais do oriente. Os olhos eram claros sem que conseguisse dizer se verdes ou azuis, inclinando-me para uma tonalidade perto do cinza. O nariz pequeno parecia envergonhado perto dos lábios carnudos. Sorriu-me, fazendo as sardas encavalitarem-se nas faces enrugadas pela expressão.
— Estou a ser avaliada?
Por acaso estava, mas não pela fotografia.
— Não. Estou só a observar.
Valentina olhou em redor, como se procurasse inteirar-se da posição dos restantes colegas. Não havia ninguém por perto. Endireitou-se para ficar ao meu nível.
— A fotografia é mais complicada que aquilo que esperava. — confidenciou, analisando a máquina. — Isto parece quase um computador, tem tantas opções...
— Isso é uma máquina profissional. — expliquei. — Sinceramente, nem me parece aconselhável a um principiante.
— Foi o meu pai que ma ofereceu no Natal. — relatou como se justificasse a razão por que a tinha. — Pedi-lhe uma máquina fotográfica e ele deu-me esta.
— Ele é fotógrafo?
— Não. É advogado.
Percebi que o pai deveria ser bastante rico, tendo como único critério de escolha o preço. Nem sei como não lhe oferecera uma Hasselblad.
— Ainda tenho tanto para aprender. — lamentou, quase fazendo beicinho. — O curso está a chegar ao fim e eu sinto que foi pouco o que aprendi.
— Pode inscrever-se no próximo nível. — sugeri, simulando que não reparara na forma com se insinuava.
Valentina prosseguiu com o seu objectivo, indagando:
— Por acaso não dá aulas particulares?
— Não. Só os workshops.
Ela encolheu os ombros decepcionada.
— Os cursos são bons, mas sinto que poderia aproveitar mais com aulas particulares. — Atirou-me uma expressão intensa, quase desejo. — Algo mais intimista.
Sim, compreendi o grau intimista a que se referia.
— Lamento.
A conversa foi interrompida por um dos outros alunos que me chamava. Afastei-me de Valentina, pensando se não começava a ser uma perfeita burrice não aproveitar determinadas oportunidades.
Após o esclarecimento da dúvida, constatei que a aula já avançara dois terços do seu total, por isso chamei todos para que regressássemos ao estúdio.
Na hora final, conversámos sobre os registos que todos haviam feito no exterior, esclareci dúvidas e partilhei mais algumas dicas. No final, informei-os que os certificados ficariam prontos no dia seguinte e poderiam ser levantados na recepção. Todos agradeceram e iniciaram a recolha de equipamento para se irem embora. Disfarçadamente, observei Valentina, ouvindo uma voz na minha cabeça a atiçar-me. Olhei para os ombros como se esperasse ver um anjinho e um diabinho a esgrimirem argumentos para me convencer.
O senhor da câmara Nikon parou junto de mim para me agradecer mais uma vez e elogiar o workshop. Eu ouvia-o com a atenção na movimentação da "menina 5D", a qual acompanhava pelo canto do olho. Ao vê-la dirigir-se para a porta, interrompi o discurso do homem, chamando:
— Valentina! Pode esperar um pouco? Queria esclarecer aquela dúvida...
Que dúvida? Sim, isso deve ter sido a pergunta que se formou na sua cabeça. Porém, alterou a sua trajectória e aproximou-se.
Percebendo que poderia estar a atrasar-nos, o senhor despediu-se e repetiu novo agradecimento e elogios.
— Qual foi a dúvida? — interrogou, após a saída do homem, franzindo o rosto numa expressão cúmplice.
— Ainda queres as aulas particulares? — inquiri, tratando-a com informalidade de propósito, como sinal de que o assunto se desenvolveria à margem da relação formador e formando.
Valentina captou a mensagem e revelou agrado por eu ir ao encontro das suas pretensões, correspondendo:
— Não disseste que não davas aulas particulares?
— Abro uma excepção para ti.
Ela ofereceu-me um semblante sedutor, uma expressão dissimulada de desejo. Agora que a observava sem reservas, constatava como era atraente. Desejava-a...
— Como é que fazemos?
— Deixa-me o teu número. — pedi quase como se fosse uma ordem. Para meu espanto, acho que isso a excitou. — Vou ter uns dias ocupados, mas depois ligo-te a combinar.
— Não me dissestes o preço. — lembrou como se, de repente, o valor pudesse ser um entrave.
— Depois vemos isso.
Valentina pegou num pedaço de papel e rabiscou o seu contacto.
— Fico à espera... ansiosa. — finalizou, entregando-me o papel.
Na verdade, eu não era homem para cenas daquelas, nunca me entusiasmara os envolvimentos casuais para sexo e "até um dia". Sim, fiquei inebriado com a beleza e interesse dela, mas logo que desapareceu pela porta do centro de formação, foi como se eu tivesse despertado de um papel que não era realmente o meu. Eu não era assim, por mais que pensasse em sê-lo, não era. E, francamente, não precisava de cenas de sexo ocasional com desconhecidas. Gostava e sentia a necessidade de sexo, mas não a qualquer custo. O que eu queria realmente era encontrar o impossível, uma mulher que me fizesse esquecer... Não, esquecer não, isso seria impossível, nem eu o quereria. Nunca esqueceria Mafalda, mas se pudesse ter um desejo, esse seria encontrar uma sua semelhante que ao mesmo tempo pudesse atenuar em Leonor a ausência da sua mãe.
Resumindo, aquele telefonema nunca aconteceu. Acho que o papel foi parar ao lixo, quando cheguei a casa com a minha filha.
E nesse anoitecer ameno que nos deixa a ansiar pelos dias coloridos e solarengos primaveris, sem que eu soubesse na altura, a minha vida iria entrar num novo conto, um conto definitivo.

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