A CAMINHO DO TEU NOME · Capítulo 12

CONTO VI - "O meu nome é... ...para sempre a teu lado."

≈ 1h 40m de leitura

A Primavera chegara e com ela os dias mais compridos, menos frios e mais alegres. Devido às alterações de temperatura, Leonor adoeceu e ficou uma semana em casa, engripada. Isso limitou a minha mobilidade, impedindo-me de ir à revista, o que não foi problemático, pois não houve nada que exigisse a minha presença nesse período. Leonor não apresentava alterações ao seu estado de espírito, mantendo a expressão triste, algo que se acentuara durante a convalescença em casa. Recuperou no regresso à escola, mas o sorriso no seu rosto continuava a ser uma miragem.
Tal como acontecia todas as noites, terminámos de jantar e Leonor ajudou-me a levar a louça para a cozinha.
— Vai vestir o pijama e lavar os dentes. Eu já vou ter contigo.
Lavei a pouca louça que sujámos e retirei a toalha da mesa da sala. Arrumei tudo e fui ao encontro de Leonor que, obediente, já estava deitada na cama. Debrucei-me sobre ela e beijei-lhe a testa.
— Boa noite, princesa!
— Boa noite, pai!
— Dorme bem! — desejei, apagando a luz do seu quarto e fechando a porta.
Aproveitei o serão para ligar o computador e analisar as mensagens. A televisão debitava programas fúteis que não prendiam a minha atenção, por isso, desliguei-a. Abri a minha caixa de email. Tinha uma mensagem nova de Ângela a lembrar a nossa reunião no dia seguinte. A seguir, vi as várias mensagens de publicidade não solicitada e apaguei-as sem as abrir. Não havia mais nada. Cliquei no ícone do navegador e abri a Internet. Digitei o endereço do Facebook e carreguei no "enter" do teclado. O utilizador estava memorizado, daí que só tivesse de teclar a senha para entrar. A página processou para me mostrar a listagem de posts dos meus "amigos" virtuais. Não vi nada de interesse, tirando uma foto que Leo publicara e onde fiz um "like". Ia a fechar o meu perfil, quando o Messenger disparou um "Olá". Olhei para o remetente e vi que era uma mensagem de Mérida, a pessoa que me adicionara tempos antes e de quem me esquecera completamente.
"Olá", escrevi, vendo depois a indicação em rodapé da caixa de diálogo a indicar que Mérida está a escrever.
"Tudo bem?"
"Sim. E contigo?"
"Também."
Houve uma pausa em que aguardei que ela dissesse mais alguma coisa. Não a conhecia e só por não ter nada melhor para fazer é que permaneci ali.
"Não costumo ver-te online.", surgiu no ecrã, "Costumo vir para aqui mais tarde."
"Também não sou muito de vir para o Facebook."
"Espero não estar a incomodar..."
"Não. Estava aqui a passar o tempo na net.", respondi decidido a tentar saber mais sobre ela, "Fiquei curioso com o teu pedido de amizade. Conhecemo-nos?"
"Eu mandei o pedido porque gostei do teu perfil, tens fotos muito bonitas."
"Eu sou fotógrafo. Só uso o Facebook para colocar fotos e manter-me em contacto com amigos que estão longe."
"Eu uso para me manter em contacto com a família em Portugal."
Recordei-me que vira no seu perfil que ela estava no Brasil.
"Estás no Brasil, certo?"
"Sim."
"Que fazes aí?"
"Trabalho na área da saúde."
"Médica?"
"Enfermeira."
"O que te levou para aí?"
"Acontecimentos da vida."
"Pensei que me ias dizer que tinha sido o namorado."
"Não. Não foi por causa de ninguém, foi mesmo por causa de mim."
"Não encontraste nada mais perto?"
"O que precisava estava aqui."
Mérida revelava-se enigmática. Noutra altura, talvez não tivesse paciência, mas naquela noite estava com disposição para enigmas.
"Não te chamas Mérida, pois não?"
"Não. Nem tenho cara de desenho animado.", respondeu juntando um smile sorridente.
"Porque é que colocaste aquela imagem e não uma foto tua?"
"Já te disseram que fazes muitas perguntas, Daniel?"
"Peço desculpa. Não tens de responder a tudo."
Mérida retorquiu com novo smile sorridente.
"Sou muito reservada, não gosto de publicar fotos minhas."
"Compreendo."
"Escolhi a imagem da princesa do filme Brave porque me identifico com ela. Os meus amigos dizem que sou uma guerreira."
"E tens cabelos ruivos.", repliquei com humor.
"Talvez um dia o possas confirmar."
Há muito tempo que não tinha aquele tipo de conversa e senti saudades desse tempo.
"E posso saber o teu nome verdadeiro? Se não quiseres dizer, tudo bem."
"Alexandra."
"Bem mais bonito que Mérida.", escrevi, obtendo em resposta um smile envergonhado.
Nesse instante, ouvi a minha filha a chorar e a chamar pela mãe. Apressei-me a escrever sem esperar resposta:
"Espera um pouco. Tenho de ir ver a minha filha."
Leonor tivera um pesadelo e, ensonada, chamava por quem sempre chamara nessas situações, a mãe. Entrei no quarto sem acender a luz e encontrei-a em lágrimas e assustada. Abracei-a e descansei-a, fora apenas um pesadelo. Ajudei-a a voltar a enfiar-se nos lençóis e permaneci no escuro até que adormecesse de novo.
Ao voltar ao computador, vi a última mensagem de Alexandra:
"Tens uma filha?"
Olhei para a lista de contactos e constatei que ela ficara offline. Indiferente a isso, decidi escrever que tinha uma filha de seis anos, da qual só soubera da existência cerca de um ano antes. Alguns segundos depois, Mérida... Alexandra voltou a ficar online.
"Voltei... Como assim? Só a conheceste com cinco anos?"
"Eu e mãe dela éramos muito amigos, mas apenas isso, amigos. Só que, uma única vez, envolvemo-nos"
"Uma única vez? Isso é que foi pontaria. Fariam a inveja de muitas mulheres que não conseguem engravidar"
Ao ler aquilo, pensei em Mafalda e na sua infertilidade. Julguei que Alexandra estivesse a ser sarcástica, que não acreditasse realmente que fora uma única vez.
"Não acreditas?"
"Porque não haveria de acreditar?"
"Não sei... Pareceu-me que estavas a ser irónica"
"Nada disso. Não tenho razão para duvidar de ti"
Retribuí com um smile sorridente.
"Vi no teu perfil que és viúvo. A mãe dela faleceu há muito tempo?"
"Em finais do ano passado.", respondi com a necessidade de explicar "O meu estado de viúvo não está relacionado com a mãe da minha filha."
"Então?"
Nos minutos que se seguiram, dei por mim a partilhar com aquela estranha a minha história com Mafalda, como vivêramos tantos anos separados, como nos havíamos juntado e como a vida... Não! Como a morte nos voltou a separar.
"Noto que ela foi muito importante na tua vida, Daniel."
"Foi o amor da minha vida. Nunca existirá outra igual a ela."
O diálogo quebrou-se ali. Não sei bem porquê. De súbito, o assunto pareceu extinguir-se entre nós. Porém, acabei por enviar:
"Já te falei de mim. Agora é a tua vez."
"Que queres que te conte?"
"Já tiveste alguém assim especial?"
"Ainda tenho."
A resposta surpreendeu-me, pois julgava-a solteira, tal como estava no seu perfil.
"Vejo que também não disseste a verdade no estado civil.", escrevi adicionando um smile a piscar o olho.
"Disse sim. Eu sou solteira."
"Ele não quis ir contigo?", tentei adivinhar.
"Eu não quis que ele viesse comigo. Ele vive aí, em Portugal."
"E por isso a relação acabou?"
"Não sei. Não falámos depois disso."
"Não achas que deveriam esclarecer isso?"
"Eu enganei-o. Não sei se ele me perdoa."
Comecei a imaginar que ela traíra o namorado com outro homem. Contudo, as suas mensagens seguintes refutaram a minha suspeita.
"Não o traí. Bom, não da forma como possas estar a pensar."
"Como sabes o que estou a pensar, Alexandra?"
"Calculo... Seja como for, não foi traição amorosa. Não me envolvi com outra pessoa durante a nossa relação. Estávamos a passar uma fase muito complicada, a minha vida estava uma miséria. Não quis arrastá-lo comigo."
"Foi quando foste para aí?"
"Sim."
"E porque dizes que o enganaste?"
"Pedi a uma amiga que o tirasse da minha vida."
"Como é que isso se faz?", interroguei, algo confuso. A resposta demorou um pouco, demasiado... Vi várias indicações de que estava a escrever, mas as palavras não surgiam no ecrã. Por fim:
"Como sabia que a vida aqui no Brasil ia ser muito complicada, ia passar muitas dificuldades, antes que ele se metesse num avião e viesse atrás de mim, pedi a uma amiga para lhe dizer que eu me envolvera com outro homem e que a nossa relação terminara."
"E envolveste?"
"Não."
"E continuas a amá-lo, não é?"
"Mais que a própria vida."
"Acho que devias voltar a falar com ele."
"Não sei..."
"Eu dava a minha vida por um minuto com a Mafalda.", confessei, lamentando que aquelas duas pessoas desconhecidas não se permitissem a ser felizes.
"Daniel, tenho de ir. Gostei de falar contigo. Achas que podemos repetir?"
"Claro que sim."
"Vou tentar aparecer amanhã à mesma hora. É um horário complicado. Aí é noite, mas aqui ainda é horário laboral."
"Cá estarei. Se não puderes, manda uma mensagem a dizer quando te será possível."
"Ok. Beijinhos."
"Beijinhos. Fica bem."

Confesso que nunca gostei de chuva, acho que ninguém gosta. Bom, talvez haja quem goste. Seja como for, eu não gosto e ainda menos quando já estamos na Primavera e ansiamos pelos dias quentes e solarengos.
Nessa manhã, chovia como se o São Pedro tivesse passado um século sem dar uso à bexiga. O trânsito no Porto, mais caótico que o habitual, atrasou-me para a reunião matinal, fazendo-me chegar a escassos cinco minutos da hora marcada.
No gabinete de Ângela, em volta da mesa de vidro, ela, eu e mais duas pessoas olhávamos para as fotos e folhas com maquetas de páginas espalhadas. Os outros dois eram a responsável da redacção, uma mulher da minha geração com ar de bibliotecária, e o editor executivo da revista, um quarentão com ar de playboy. Confesso que estava com uma disposição canina, agravada pelo ambiente cinzento e húmido do exterior. Discutíamos quem deveria ser a capa da revista na próxima edição, sendo a escolha entre uma mulata lindíssima que pousara nua para nós e um antigo jogador de futebol que nos dera uma entrevista. A "bibliotecária" votava no jogador, o playboy na mulata.
— Que achas, Daniel? — questionou Ângela, entregando-me a decisão.
— Somos uma revista masculina. — lembrei. — Somos conhecidos pelas publicações de ensaios fotográficos. — Olhei para a redactora. — Não ponho em causa a qualidade da entrevista, mas os nossos leitores compram a revista pelas fotos. — O editor fez um gesto de vitória. — Eu voto na rapariga, mas... — O tipo olhou para mim, desafiador. — Não quero esta foto de corpo nu. Quero aquela de rosto. A miúda tem uma expressão linda.
— Ó Daniel! Os nossos leitores querem mamas. — argumentou ele.
— Os leitores sabem que terão mamas no interior da revista. — retorqui, desagradado com a sua vulgaridade. — A capa pode ser sensual sem precisar de ter uma mulher nua. — Olhei para Ângela. — Como disse, a miúda tem uma expressão linda. Parabéns ao fotógrafo, captou a intensidade daquele olhar. Eu optaria por esta foto. — Peguei numa das fotos da modelo depositada sobre a mesa de trabalho, uma foto só do rosto a olhar para a lente. Ângela pareceu ponderar a questão. — Já dei a minha opinião. O que nos distingue é a arte das fotos que publicamos. — Tornei a olhar para o indivíduo. — Não a vulgaridade.
— Está escolhida! — afirmou Ângela, fazendo-o soar como uma ordem. — Podem ir.
Todos nos movimentámos para a porta. O editor executivo abanava a cabeça e a responsável de redacção afastou-se de rosto fechado.
— Daniel, espera um pouco. — pediu a directora. — Preciso falar contigo.
Ângela encostou-se ao tampo da sua secretária, enquanto eu me mantive de pé, perto da mesa de vidro.
— Quero lançar uma edição especial da revista. — informou, ao mesmo tempo que lia algo no seu telemóvel. — E quero ter uma estrela de nível mundial na capa e com um ensaio sensual. — Olhou para mim. — Os accionista apresentaram-me um valor generoso para fazer a proposta a alguém que se enquadra naquilo que pretendo.
— Em quem estás a pensar?
— Numa velha conhecida tua.
Mesmo sabendo a quem se referia, não evitei a pergunta:
— Quem?
— A Tânia.
Não contive uma gargalhada.
— A Tânia? Duvido que a convençam a pousar nua para a revista. Alguém com o prestígio dela?
— Tem trinta e sete anos, Daniel. É uma manequim em fase descendente da carreira. E olha que os milhares que lhe vamos propor...
— Desejo-vos sorte. Mas, não acredito.
Ângela ofereceu-me um sorriso simpático e uma expressão de quem sabe mais do assunto que eu.
— Vamos fazer uma abordagem ao agente dela para ver o que dá. — partilhou, contornando a secretária. — Atirar o barro à parede, como diz o povo. — Sentou-se com o olhar cravado em mim. — Vocês mantêm-se em contacto?
— Não falo com ela há anos. — respondi, recordando que a última vez fora na manhã após termos dormido juntos no quarto do luxuoso hotel de Paris. — Se estás a contar comigo para a convencer...
— Não. Mas, gostava que estivesses presente na reunião. A tua presença pode ajudar a convencê-la.
— Por mim, tudo bem.
Conhecendo-a como conhecia... ou como conhecera Tânia, não acreditava que aceitasse dinheiro nenhum para ser fotografada sem roupa e ter as fotos publicadas numa revista masculina.
Mulher perspicaz, Ângela contactou a agência que continuava a representar Tânia, apresentando a proposta em traços gerais e solicitando a possibilidade de se reunirem para conversar sobre isso. A directora da revista sabia que Tânia viria desfilar ao Portugal Fashion, numa espécie de homenagem da organização à sua carreira, e sugeriu uma reunião no hotel onde ela iria ficar hospedada. O encontro ficou agendado para daí a uns dias, o seguinte à chegada da manequim ao Porto.

Dividindo o meu tempo profissional entre a revista e os workshops, dei por mim com uma tarde livre a meio da semana. Leonor estava na escola e ainda decorreriam umas três horas até que fosse o momento de a ir buscar. Sentei-me ao computador no meu improvisado escritório na mesa da sala, recusando-me a aceitar que ia com esperança de ter notícias de Alexandra. Desde aquela noite em que tínhamos conversado no Messenger, não voltáramos a falar, tendo apenas recebido uma mensagem dela a desculpar-se pela impossibilidade de aparecer online e que, em breve, tentaria voltar. Já lá iam vários dias. Para não variar, ao abrir o Facebook, a ausência de notícias dela continuava.
Peguei no telemóvel para procurar o número de Peter. Ia ligar-lhe para saber como estava, novidades... Enfim, conversar um pouco. Peter não me atendeu, estaria certamente ocupado com alguma coisa.
A claridade lá fora era convidativa e optei por ir dar um passeio pela praia. O vento soprava forte, mas nada que tornasse a caminhada desconfortável. Parei numa esplanada vazia ali perto e pedi um café.
Fiquei a observar o mar, as ondas a embater na costa arenosa.
O rosto de Tânia saltou para a minha mente. Continuava a acompanhar a carreira dela, seguia-a no Facebook através da sua conta privada e, algumas vezes, trocámos algumas mensagens de circunstância. Havia muito tempo que não conversávamos e desde Paris que nunca mais estivéramos cara a cara.
— Olá?! — ouvi uma voz atrás de mim.
Virei-me na cadeira e procurei a dona do cumprimento.
— Olá... — Reconheci-a, mas não me lembrava do nome.
— Ivone. — disse ela, lendo a "branca" no meu rosto.
— Desculpa...
— Não tem importância, Daniel. — Referiu o meu nome de forma segura, demonstrando-me que não se esquecera dele. — Posso fazer-te companhia?
Apontei-lhe a cadeira no lado oposto da mesa em resposta.
— Que fazes aqui sozinho? — questionou, sentando-se no lugar que lhe oferecera.
O cabelo de Ivone esvoaçava descontrolado pelo vento. Ela lutou sem sucesso para o domesticar. Vestia uma camisola de gola alta e calças de ganga. Desviei o olhar dela e retornei à observação do mar.
— A passar o tempo e a pensar na vida.
— Hum...
O empregado de mesa aproximou-se. Ivone pediu um café. Não disse nada, limitando-se a olhar para o mesmo sítio que eu, o mar e as suas ondas. Não quis que se sentisse constrangida pelo silêncio, daí que fiz assunto, perguntando:
— Voltaste a ter chatices com o...?
— Não.
O café que solicitara foi depositado sobre a mesa.
— Ele ligou-me várias vezes, queria que reconsiderasse. — prosseguiu. — Mas, não quero. Fui intransigente. Acabou. — Atirou-me um sorriso neutro. — Estou farta de ser "a outra".
— Fazes bem. — concordei indiferente.
— Acho que está na hora de encontrar um homem que me queira por inteiro e não só para... Enfim, tu sabes o que quero dizer.
Talvez soubesse, talvez não soubesse. Não me interessava. Não me manifestei e fiquei em silêncio. Ivone também pareceu não encontrar mais o que dizer.
— Espero não estar a incomodar...
— Porque dizes isso?
— Estás tão calado... Se preferires ficar sozinho, eu compreendo.
— Desculpa. Como te disse, estou a pensar na vida.
— Queres partilhar comigo?
Partilhar o quê? A minha vida? Com ela? Ivone era uma mulher atraente, mas conhecia-a pouco e, honestamente, não me parecia o tipo de personalidade que encaixasse na minha. Seria por ter sido amante de um homem casado? Estaria eu a ser preconceituoso?
— Partilhar o que te vai na cabeça... — adicionou. — Sorri pelos pensamentos parvos que tivera na interpretação errada das suas palavras. — Que foi?
— Nada.
— É muito íntimo para se partilhar com uma desconhecida, não é?
— Tu não és uma desconhecida, és minha vizinha.
Acho que o enquadramento que lhe dei na minha realidade não a deixou agradada. Porém, disfarçou, anuindo em silêncio.
— Não estou a pensar nada demais, apenas na vida, no trabalho e em uma ou outra coisa pendente.
Tal como o facto de aquela conversadora virtual simpática parecer ter-se evaporado da rede social.
— Eu evito pensar muito na vida e em trabalho. Para não deprimir.
— O que fazes?
— Sou caixa num supermercado.
— É um trabalho deprimente?
— O que achas, Daniel?
Sorri com uma recordação de muitos anos antes.
— Eu já trabalhei num supermercado. — confidenciei. — Fazia reposição de produtos nas prateleiras. Sim, era deprimente, o ordenado era uma miséria, mas pagava as contas.
Ivone olhou para mim com um ar agastado.
— Ser caixa não é diferente. Com a agravante que não chega para pagar as contas.
A zona onde ambos vivíamos era cara. Infelizmente, o ordenado mínimo ou pouco acima disso não pagaria certamente uma renda ali.
— O apartamento?
— Vou ter de pensar numa solução. Era o... era ele que pagava a renda. Isso vai acabar. Por isso...
— Que pensas fazer?
— Acabei de te dizer que não gosto de pensar na vida, Daniel. É exactamente por isso, para não pensar nos problemas, nas contas, nas dívidas... — Calou-se, desviando o rosto novamente para o mar. Não sei se esperava que eu dissesse alguma coisa ou não. Eu fiquei calado. — Terei de encontrar uma solução. O mais certo é largar este apartamento e procurar um mais em conta.
Ou um homem que te pague as contas, pensei. Claro que não o verbalizei. Contudo, ponderei se a poderia ajudar de alguma forma, arranjar-lhe um emprego melhor... Talvez na revista? Não conhecia as habilitações dela e não podia assumir que, por ser caixa num supermercado, não pudesse ter boas habilitações para uma profissão melhor e mais bem remunerada. Infelizmente, Portugal estava cheio de recém-licenciados em empregos precários a ganhar o mínimo e sem qualquer estabilidade.
— Espero que as coisas te corram bem. — acabei por dizer.
Era aquele tipo de frase que se diz por dizer. Palavras que não a ajudariam em nada.
O silêncio reinstalou-se. As ondas ecoavam fortes, entrecortadas pela força do vento. Na estrada, o ruído dos poucos carros que passavam.
— Trabalhas em quê? — indagou subitamente. — Calculo que não continues a ser repositor de produtos. Deixa-me adivinhar, subiste na vida e agora és gerente ou director.
— Nada disso. Sou fotógrafo.
— Fotógrafo? — questionou com surpresa. — Isso dá dinheiro?
— Algum. — respondi. — Dá para pagar as contas.
Ivone olhou para os prédios atrás de nós.
— Sim, calculo que dê. Viver aqui não é barato. — Sorriu-me. — Como é que um repositor acaba como fotógrafo?
Era uma longa história que não estava com vontade ou paciência para partilhar com ela.
— É uma longa história.
— Eu tenho tempo.
— Talvez noutra altura.
— Ok.
Nova pausa no diálogo. Um senhor de idade abandonou a mesa que ocupava na esplanada, enquanto um casal jovem chegava para estacionar por ali. Vindas do continente, um aglomerado de nuvens ameaçou o Sol. O vento ficou mais forte.
— Está a ficar fresco. — acabei por dizer numa espécie de despedida. — Talvez seja melhor ir andando.
— Vais buscar a tua filha?
— Só daqui a... — Olhei para o relógio no telemóvel. — Daqui a hora e meia.
— Não queres ficar a conversar mais um pouco?
Fiz uma expressão desconfortável para as nuvens.
— Isto está a ficar desagradável.
— Podemos continuar a conversar em minha casa. — convidou num tom caloroso e olhar sedutor. Eu não escondi a suspeita que me invadiu a mente. Ela deu uma gargalhada. — Não é nada disso, Daniel.
— Isso o quê? — interroguei, fazendo-me de desentendido.
— Não, não. Não estou a atirar-me a ti. — apressou-se a responder, alterando o timbre sedutor para um tom sério. — Pode parecer-te surreal, mas estou só a convidar-te para conversar.
— Porque me haveria de parecer surreal?
— Vá lá, Daniel. Havias de ter visto a tua cara quando o disse.
— Foi surpresa por convidares um estranho para tua casa.
— Não és um estranho, és meu vizinho. — atirou acentuando o "vizinho", lembrando-me a forma como me referira a ela, antes. — Além disso, és também o homem que veio em meu auxílio num momento complicado. Não me parece que corra qualquer perigo em convidar-te a vires a minha casa.
— Talvez noutro dia. — recusei. Um dia em que o Sol nascesse a poente e se pusesse a nascente. Contudo, não quis ser antipático e, em contrapartida, ofereci. — Mas, posso acompanhar-te ao teu prédio, penso que vamos para o mesmo lado.
Ivone concordou e copiou o meu movimento a levantar-me da cadeira. Insistiu em pagar os cafés.
As nuvens pareciam levar a melhor sobre o Sol, retirando alegria ao ambiente e tornando o cenário que nos envolvia num quadro acinzentado. Cheirava a maresia com mais intensidade ou seria apenas impressão? Caminhámos lado a lado pelo passeio oposto à praia. Como eu estava do lado da estrada, evitava encará-la e observava o horizonte. O trajecto foi curto, mas o silêncio fez-me senti-lo como uma eternidade.
— És um bocado calado. — disse ela para fazer assunto.
— Não tenho nada para dizer.
— Quem olha para ti, não diz que és tão tímido. — atirou em provocação.
Eu virei o rosto para ela e ri-me, divertido. Sim, houvera tempos em que fora tímido, muito tímido. Só que já não o era. A verdade é que não tinha assunto para fazer com ela, nem interesse. Talvez estivesse a ser indelicado, mas sentia que já passara aquela idade em que deveria preocupar-me em ser agradável com estranhos, mesmo que esses estranhos fossem meus vizinhos ou minhas vizinhas.
— Sim, acho que é isso. — menti irónico. — As mulheres intimidam-me.
Ivone pareceu curiosa.
— A sério? Eu intimido-te? — Rapidamente percebeu que eu não falava a sério. — Não me lixes, Daniel. Se isso fosse verdade, não eras fotógrafo.
— Porque dizes isso?
— Como irias fotografar as modelos?
— Quem te disse que fotografo modelos?
Com um ar de espanto, Ivone constatou que chegara a essa conclusão sem que eu lhe tivesse dito nada. Talvez estivesse errada.
— Então, o que fotografas tu?
Permiti-me a uma gargalhada.
— Estou a brincar contigo. Sim, fotografo modelos femininos e masculinos.
Nesse instante, alcançámos a porta do seu prédio.
— A proposta para conversar ainda está de pé. — lembrou, retomando o tom sensual. — De certeza que não queres subir?
— É melhor não. — respondi com sinceridade.
Ivone desviou o olhar do meu, observou o chão e anuiu. Suspirou e voltou a encarar-me.
— Gostava de te agradecer. Aquilo do outro dia...
— Não é preciso.
Para meu espanto, à sensualidade na voz, ela juntou um timbre meloso:
— Não sejas assim. Estou em dívida contigo.
Abanei a cabeça e dei um passo atrás.
— Não estás nada. Esquece isso.
Ela pareceu interpretar o movimento como uma tentativa de eu me afastar e estava certa. Contudo, não se inibiu de colocar a mão no meu peito e insistiu:
— Sei que tens de ir buscar a tua filha. Mas, ainda dá tampo para subires, bebemos um copo e conversamos um bocado. Que dizes?
— Eu não bebo. — tornei a mentir.
— Uma água?
— Fica para uma próxima oportunidade.
Ela concordou com um movimento da cabeça e esboçou um sorriso decepcionado.
— Não vai acontecer, pois não, Daniel? — Encolhi os ombros. — Vá lá, Daniel. Eu não mordo... a menos que queiras. — Riu com gosto. — A sério. É só para conversar. Que dizes?
— Que tenho de ir andando.
— Ok, ok. Sei entender quando não sou desejada.
Não parecia, tal era a insistência. Porém, não quis que ficasse magoada. Não me importava o flirt e o joguinho de sedução, mas não queria que ficasse com ideias, eu não pretendia envolver-me sexualmente com ela.
— Fazemos assim. — sugeri. — Se quiseres, podemos combinar novo café amanhã na mesma esplanada e conversar mais um pouco.
O sorriso torcido revelou o desinteresse. Olhou-me nos olhos e informou:
— 2º C.
A princípio não percebi.
— 2º C. — repetiu. — Se mudares de ideias, moro no 2º C.
— Está bem. Combinado. — respondi. — Se mudar de ideias, eu toco no 2º C.
Ambos sabíamos que isso não iria acontecer.
Ivone tornou a penetrar-me com o olhar, mordiscando o lábio.
— Sabes o que acho? — Abanei a cabeça. — Que queres o mesmo que eu. Só que tens receio que isso te traga algum compromisso, alguma obrigação para comigo. Afinal, conheceste-me como a amante de um homem casado.
— Não tem nada a ver, Ivone.
— Não estou à procura de substituto, Daniel, nem estou a tentar fazer de ti o meu novo... pagador de contas. Era mesmo só pelo bom momento que poderíamos passar.
— Tu és uma mulher interessante, Ivone. Eu é que não estou interessado. — Ela ia a argumentar, mas eu travei-a. — Não estou interessado em ti nem em quem quer que seja. Pode parecer-te estranho, mas nem todos os homens se dispõem a sexo só porque uma mulher bonita os seduz.
— Tretas, Daniel. — reclamou. — Podes dizer que não te interessa envolver comigo, agora não venhas com essa história. Os homens são todos iguais.
— Como queiras, Ivone.
— Descansa, Daniel. Não me sinto rejeitada. — Não se sentia era pouco. — Acho que tu é que perdes.
— Tens razão. — concordei novamente irónico. — Se calhar perco. Terei de viver com isso.
Ivone bufou irritada e virou-me as costas, entrando no prédio e deixando a porta fechar-se com estrondo diante de mim. Não perdi mais tempo e afastei-me.
Na verdade, não era difícil sentir desejo por ela da mesma forma que não era fácil resistir-lhe. Analisando friamente, confesso que a desejava, mas era o mesmo desejo que sentira por Valentina, o qual me fizera pedir-lhe o número de telefone com a desculpa de lhe dar explicações de fotografia, quando ambos sabíamos que tudo se resumia a um interesse sexual mútuo. No entanto, passado o ímpeto inicial, eu tinha consciência do resultado. Pode parecer estúpido, mas nunca procurara sexo nas mulheres, somente amor. Bom, exceptuando com Leo em que me deixei levar pelo momento, pela raiva, pelo desespero ou pelo descontrolo das emoções de quem perdera a mulher da sua vida com a certeza que jamais encontraria uma nova alma gémea. E nem em Valentina, nem em Ivone, eu encontraria isso.

Nessa noite, Alexandra voltou a aparecer no Messenger. Trocámos mensagens sobre trivialidades, opiniões sobre o estado do Mundo, como iam as nossas vidas... A determinada altura, perguntei donde ela era natural. A resposta demorou um pouco, o que justifiquei com a sua reserva em transmitir informações suas.
"A minha família é natural de Vila do Conde. E tu?"
"Eu nasci em Almada."
"E continuas em Almada?"
"Não. Vivo numa localidade chamada Miramar. Conheces?"
"Sim. Tem uma praia que gosto bastante."
"A praia do Senhor da Pedra?"
"Sim. Passeei lá algumas vezes."
"Se calhar, cruzámo-nos alguma vez?!"
"Gostas de viver aí?"
"Gostava mais, quando a Mafalda vivia comigo. Mas sim, continua a ser o meu local preferido para viver."
Houve uma breve pausa no diálogo. Aguardei, calculando que algo tivesse afastado a sua atenção. Ao fim de um minuto, Alexandra enviou:
"No outro dia falaste na Mafalda e na vossa relação. Mas, não percebi como tens uma filha que não é dela."
Ia para escrever algo, quando percebi que a mensagem não terminara.
"Como é que aconteceu?"
Comecei a escrever a resposta, mas Alexandra antecipou-se:
"Desculpa a pergunta. Deves achar-me uma intrometida. Não tens de responder."
"Tudo bem, não há problema."
Já lhe tinha dito que só conhecera a minha filha quando esta tinha cinco anos, bem como o facto de só me ter envolvido uma única vez com a mãe dela. Contudo, apesar de ser um assunto que não gostava de partilhar, senti-me confortável a contar toda a história à minha amiga virtual.
Não quero errar, acho que estive cerca de uma hora a digitar mensagens, relatando como conhecera Kátya, a influência que Mafalda teve na nossa relação, a noite de sexo... não, a noite de amor em Coimbra, a fuga de Kátya para que eu não descobrisse a gravidez e o desespero que a fizera voltar a procurar-me e a contar que tínhamos uma filha.
"Pelo que percebi, a Mafalda fez com que tu não tivesses casado com mãe da tua filha"
Ponderei a questão. Kátya sempre fora dessa opinião.
"Não te sei responder. É difícil para mim analisar isso. Se não tivesse conhecido a Mafalda, teria embarcado numa vida de casal com Kátya? Não sei"
"Eu acho que vocês se teriam entendido"
"Eu gostava muito da Kátya, tínhamos uma relação especial. Sim, éramos mais que amigos. Mas, com ou sem Mafalda, acho que nos faltava algo para o considerar amor"
"Talvez para ti. Pelo que contas, acho que ela te amava e muito"
"Sim"
"Arrependes-te?"
A pergunta surpreendeu-me. A frontalidade invasiva da questão chocou-me e senti que Alexandra poderia estar a abusar no teor. Ela pareceu adivinhar o meu pensamento.
"Desculpa, Daniel. Não tenho o direito de te perguntar isto"
"Não faz mal", escrevi, furtando-me a responder que não.
Alexandra não insistiu e mudou de assunto.
"E a pequena está melhor?"
"Continua triste. Noto que se tem adaptado à nova vida, mas a tristeza continua lá."
"É normal. Deve ser horrível para uma criança perder a mãe."
"Eu nunca tive mãe nem pai biológicos.", partilhei, vindo ao meu pensamento a imagem dos meus tios, "Mas tive uns tios que foram como pais."
"Eu felizmente ainda tenho os meus."
"Por vezes sinto-me impotente para a animar. Sinto que não é feliz."
"Tenho a certeza que fazes o teu melhor. Na minha opinião, acho que lhe falta uma figura maternal."
Sim, há muito que também tinha essa opinião. Contudo, não me parecia provável nos tempos mais próximos que conseguisse colmatar essa lacuna.

Uma tarde amena e solarenga foi o cenário que se me apresentou, logo a seguir ao almoço, quando saí do meu apartamento. Os dias primaveris pareciam ter vindo para ficar na região norte. Caminhei até ao meu carro e entrei para o lugar do condutor. Ao ligar a ignição, a minha atenção centrou-se num outro veículo que acabara de chegar. Vi Ivone a sair do interior e, para minha surpresa, vi-a ser acompanhada pelo indivíduo gordo que a agredira na rua e que despoletara a minha ira em sua defesa. Vinham ambos animados e ela segurava-lhe o braço, completamente apaixonada... pela sua carteira. Ora aí estava a forma como ela decidira solucionar o problema das contas a pagar. Eu fora um perfeito otário em me ter intrometido na cena. Fosse como fosse, eu não era homem de me deixar ficar, perante a agressão cobarde a uma mulher.
Arranquei sem que nenhum deles reparasse em mim.
O meu destino seria um luxuoso hotel em Vila Nova de Gaia, local onde Tânia se encontrava hospedada, nesta sua vinda para o Portugal Fashion, e onde fora agendada a reunião para lhe apresentar de forma oficial a proposta da revista. Claro que Ângela já falara com a agência de modelos que representava a manequim, mas faltava fazê-lo com a principal visada. Fiquei de me encontrar com a directora da revista no átrio do hotel, antes de seguirmos para a reunião.
Àquela hora não havia muito trânsito, daí que a conduzir nas calmas tivesse demorado menos de meia hora a chegar. Estacionei o carro o mais perto que consegui e completei o trajecto a pé.
A entrada do hotel evidenciava classe com uma fonte em mármore a brotar água, antes das duas colunas em estilo romano que antecediam as amplas portas de vidro. Entrei num átrio amplo, luminoso e arejado, encantando-me com a extravagância do interior. Não sei porque ainda me surpreendia com estes locais que Tânia escolhia para se hospedar.
Ângela aguardava junto aos sofás numa área adjacente à recepção. Vestia um fato formal, envergando toda a elegância que lhe era característica. Reparei que se fazia acompanhar por mais dois homens, igualmente de vestes formais. Aproximei-me para a cumprimentar. Ela apresentou-me os dois indivíduos como sendo o responsável legal pelos assuntos relativos ao contrato que fosse assinado e o representante do grupo accionista que seria, em última análise, o tipo que daria o aval aos valores negociados. Sinceramente, não percebi para que era tudo aquilo, quase fazendo-me questionar se vínhamos convidar Tânia a pousar nua para a revista ou comprar o hotel.
Uma jovem funcionária, fardada com todo o requinte e de gestos formais, usando de um protocolo que quase parecia estar a receber a realeza, convidou-nos a acompanhá-la.
A reunião fora marcada para uma das salas empresariais do hotel, um dos vários locais que ofereciam para reuniões de negócios, conferências, entre outros. A rapariga abriu a porta e indicou-nos que nos acomodássemos nas cadeiras. A sala não era muito grande, a dimensão suficiente para uma mesa comprida em carvalho com quatros cadeiras de cada lado. As paredes eram forradas a papel com relevos de flores em tons esverdeados. Só tinha uma janela ampla, mas a vista para o rio Douro e para a cidade do Porto já faziam ter valido a pena entrar ali.
Sentámo-nos nas cadeiras mais próximas da porta. O tipo do dinheiro na ponta, Ângela e o advogado ao meio e eu na cadeira mais afastada da entrada.
— Vamos assinar algum tratado? — questionei com humor.
Ângela sorriu, não sendo seguida pelos outros dois.
Ao fim de cinco minutos, a porta abriu-se e vi entrar um homem na casa dos quarenta anos com indumentária bastante informal, camisa de algodão e calças de ganga, um pouco ao nível da minha, o que me fez sentir menos pelintra ao lado do meu grupo. O homem apresentou-se como sendo o representante da agência de modelos, apertou a mão aos "gravatas", deu dois beijos a Ângela, informando que fora com ele que ela falara ao telefone, e terminou com um aperto vigoroso da minha mão.
— A Tânia já vem. — disse ele, sentando-se defronte de Ângela.
Menos de um minuto depois, entrou a mundialmente famosa manequim portuguesa. Tânia emanava elegância, glamour, beleza e um tom natural de sedução. Trazia um vestido caro sem mangas e com uma bainha que quase lhe tocava os pés. O cabelo louro penteado para trás e preso num carrapito emolduravam um rosto de olhos penetrantes e semblante austero. Todos se levantaram na sua presença. Tânia estendeu a mão ao representante dos accionistas, num cumprimento, o qual repetiu com o advogado. Trocou um beijo distante com Ângela. Depois, ao ver-me, o seu rosto transformou-se, abrindo um enorme sorriso.
— Olá, Daniel! Como estás, meu amor? — cumprimentou com a sua voz calorosa, envolvendo-me o pescoço num abraço que acompanhou com dois beijos sentidos nas minhas faces.
— Estou bem. E tu?
— Também. — respondeu, contornando a mesa e sentando-se ao lado do homem da agência de modelos.
Aquela cena fez-me recuar vinte anos no tempo, quando Tânia assumiu a nossa relação perante os colegas, demonstrando a todos a importância que eu tinha para si. Fora isso que ela fizera ali, revelou aos presentes quem era a pessoa mais próxima de si naquela sala.
— Bom, aqui estamos. — começou o homem ao lado de Tânia. — Como lhe disse, Ângela, nós apresentámos a vossa proposta à Tânia.
Ângela alterou de imediato a sua atenção para a manequim que se manteve impávida. Numa atitude que pareceu ignorar o interlocutor, questionou:
— Então, Tânia, o que achou do nosso convite?
— Não é desinteressante. — respondeu Tânia como se falasse de uma proposta de comprar dois vestidos pelo preço de um. O tom era frio, tão característico nela quando tinha todas as defesas levantadas. — Mas, tenho algumas condições que terão de ser satisfeitas para que possa sequer ponderar uma análise.
A resposta surpreendeu Ângela:
— Pensava que vínhamos afinar detalhes.
— O vosso convite a uma modelo internacional como a Tânia não é algo que se possa aceitar de ânimo leve. — interveio o representante da agência. — Temos que estudar bem o contrato.
A palavra "contrato" pareceu ter servido de interruptor ao advogado que, num gesto rápido, retirou um grupo de folhas agrafadas e colocou-o sobre a mesa.
Tânia antecipou-se e pegou nos papeis, começando a procurar as cláusulas que lhe interessavam, já que para as restantes tinha pessoas com mais créditos para a análise. Ninguém proferiu uma sílaba, enquanto ela lia. Por fim, olhou para mim e indagou:
— O que achas?
— Tu é que sabes.
Tânia devolveu as folhas à mesa e encarou o rosto de Ângela.
— Para começar, terão de ser mais ambiciosos no valor que propõem. Publicarem fotos minhas sem roupa fará vender a vossa revista como garrafas de água no deserto.
Ângela revirou os olhos, como se considerasse tal ideia um exagero. No entanto, o homem que representava os accionista expressou-se:
— Não poderemos ir muito acima disso.
— Então ficarei a aguardar a vossa nova proposta de quanto mais acima é que vão. — rematou Tânia, indiferente. — Mas, não perderei muito mais tempo com este assunto, por isso, a próxima proposta terá de ser... digamos, irrecusável.
— E é só a questão do valor que está pendente? — questionou a directora da revista.
— Não. Tenho mais algumas condições. — Ângela não escondeu a sua exasperação. — As fotos serão a preto e branco, não quero fotos a cores publicadas. Não faço nu integral. Aceito ser fotografada com os seios descobertos, mas a parte genital está fora de questão. — A pausa serviu para que assimilássemos o que dissera. — Por fim, mas não menos importante, quero ser eu a escolher o fotógrafo.
— Mas, Tânia, a nossa revista... — tentou Ângela argumentar.
Tânia não lhe deu hipótese:
— Quero que seja o Daniel a fotografar-me!
Era uma exigência que até agradava a Ângela, a qual olhou para mim à espera que eu confirmasse ou declinasse. Eu observei a super manequim com ternura e respondi:
— Terei todo o gosto em voltar a fotografar-te.
A reunião não demorou muito mais. Tânia foi a primeira a levantar-se e despediu-se de todos com um distante "até breve", desaparecendo pela porta da sala de reuniões sem olhar para trás. O representante da agência tomou a seu cargo as despedidas formais, lembrando que ficaria a aguardar novo valor para a sessão fotográfica.
Quando regressámos ao átrio, Ângela estava possessa, irritada com a postura de Tânia, a qual considerava arrogante e prepotente.
— Achas que lhe podes dar uma palavrinha, Daniel? — pediu, perante o desinteresse dos dois homens de fato que a esperavam à saída.
— Se bem conheço a Tânia, pouca influência terei na decisão dela. Além disso, não conversamos para aí há uns seis anos.
— Não foi isso que me pareceu, quando ela te cumprimentou. — retorquiu séria, quase altiva. — Não me interpretes mal, não estou a duvidar daquilo que dizes. Só acho que tens mais influência nela que aquilo que pensas.
Caminhámos lado a lado para o exterior, sendo seguidos pelos seus parceiros de viagem.
Antes que eu dissesse o que quer que fosse, Ângela continuou:
— Ok, Daniel. Percebo que não te queiras envolver. Ela é tua amiga, vocês têm um passado. — Eu ia a argumentar, mas a minha chefe não o permitiu. — Se puderes fazer alguma coisa... — Assenti sem grandes perspectivas. — Encontramo-nos na revista?
— Sim, sigo já atrás de vocês.
Tomámos direcções opostas, rumo aos nossos carros. No momento em que me aproximava do meu automóvel, o telemóvel apitou uma mensagem nova. Peguei no aparelho e reconheci o número do remetente, um número que poucas pessoas tinham, o número privado de Tânia. Abri a mensagem e li "quando estiveres sozinho, liga-me."
Logo que me sentei ao volante, antes de rodar a chave na ignição, liguei para ela.
— Querias falar comigo?
— Estás sozinho, Daniel? — questionou num tom neutro.
— Sim. — confirmei curioso. — O resto da comitiva seguiu noutro carro. Algum problema?
— Quero conversar contigo. Só contigo.
— Estou a ouvir.
— Não pelo telefone.
— Que se passa?
— Quero falar contigo sobre esta proposta que vocês trouxeram.
— Não tenho muito mais a dizer-te para além do que já sabes.
— Quero a tua opinião, sem teres a chefe a teu lado.
— Posso dar-ta agora.
— Não quero! — exclamou para minha surpresa.
— Então?
Houve um suspirar no outro lado da linha.
— Tenho saudades tuas. Pensei que talvez pudéssemos jantar logo?!
— Não posso. Tenho de tomar conta da minha filha. — informei.
— Tens uma filha? — interrogou com surpresa, fazendo-me constatar que isso era uma novidade para ela. — Não sabia que tinhas casado.
Em todos os anos que passaram, desde Paris, a nossa troca de mensagens fora supérflua, um cumprimento, votos de ocasião, um feliz aniversário ou um feliz Natal. Em momento algum, partilhara com ela a existência de Leonor.
— Não casei, Tânia.
— Que idade tem ela?
— Seis anos. — Pela ligação era perceptível a confusão que deveria ir na cabeça de Tânia. Não esperei que colocasse as questões para a esclarecer. — É filha de uma amiga minha do tempo de Edimburgo. Tivemos... — Ia a dizer uma relação, um caso, mas fora só uma noite. — Tivemos um envolvimento e ela engravidou.
— Há coisas que se usam para evitar isso. — interrompeu num timbre condescendente.
— Só soube da criança há cerca de um ano. — prossegui, ignorando a sua frase.
— Como é que descobriste?
— É uma longa história. — atalhei sem vontade de estar ao telefone a reviver momentos tristes.
— Vocês estão juntos?
— Não.
— Estás com alguém?
— Não.
Nova pausa, um silêncio típico dela, antes da investida.
— Estás livre, amanhã à tarde?
— Em princípio sim, Tânia.
— Podemos encontrar-nos? Gostava de conversar contigo, Daniel.
— Não tenho muito a dizer-te acerca da proposta.
— Merda para a proposta, Daniel. Pouco me interessa isso agora.
— Está bem, não precisas de ficar chateada.
— Não estou chateada. — negou afável. — Vens ter comigo ao hotel, amanhã ao início da tarde?
— Sabes bem que sim.
— Podes fazer-me um favor?
— Diz.
— Deixa ficar em casa o Daniel que apareceu na reunião, hoje. E traz o meu amigo, aquele a quem devo o início da minha carreira.
— Não me deves nada, Tânia.
— Não sejas tolo! Até amanhã.

Conforme ficara combinado, na tarde seguinte repeti todo trajecto do dia anterior e o automóvel ficara estacionado quase no mesmo sítio. Não partilhara com Ângela que me iria encontrar com Tânia, não só porque não tinha nada a ver com isso, como porque me desagradara imenso a forma a roçar o insulto que a directora da revista usara para se pronunciar acerca de Tânia, apelidando-a de prepotente e pretensiosa. Ficara irada com a imposição de condições, principalmente com o aumento da verba necessária para que pousasse nua. Ainda para mais, os accionista não estavam na disposição de aumentar muito mais a parada, o que a envolvera numa luta de argumentos com o representante deles.
Sob mais uma tarde quente, ali estava eu a entrar no hotel. Agradado com o ambiente fresco do interior, caminhei até ao balcão da recepção onde interpelei um homem elegantemente fardado com as insígnias do empreendimento. Pedi-lhe que informasse Tânia de que eu tinha chegado, uma vez que ela se encontrava à minha espera. Solícito, pegou no telefone e marcou o número do quarto dela. Ao ser atendido, transmitiu o meu recado, ouviu algo e desligou. A resposta foi um pedido para que subisse, baixando depois o tom de voz e indicando o piso e o número do quarto como se receasse que alguém o pudesse escutar.
Agradeci, logo após ouvir as indicações do caminho, e segui até ao elevador. Cruzei-me com alguns hóspedes que me fizeram sentir um verdadeiro pobretanas. O elevador parecia estar à minha espera, entrei e carreguei no botão referente ao piso pretendido. Saí para o corredor alcatifado, avançando entre as paredes que emanavam opulência.
Bati à porta.
Nenhuma voz perguntou quem era, talvez porque não seria suposto ser outra pessoa que não eu. Tânia abriu a porta e ofereceu-me um sorriso doce. Convidou-me a entrar. Trocámos dois beijos fraternais e um abraço saudoso. Ela fechou a porta e passou por mim. Permiti-me observá-la, continuava linda, esguia, orgulhosa das suas pernas curvilíneas que a faziam usar saias tão curtas como aquela em tons escuros. O cabelo louro estava solto, descomprometido, caído sobre os ombros tapados pelo tecido fresco da túnica larga azulada. Sem se conseguir abstrair do hábito de caminhar como se estivesse numa passerelle, desfilou descalça até ao sofá.
O quarto era uma suite. A sala composta com sofás, uma mesa e um móvel encostado à parede, contendo uma televisão, todo trabalhado e com ar tão requintado como tudo o resto. As paredes eram vermelhas e os tectos brancos em contraste com o chão alcatifado em tons de terra. Contornando a sala para a esquerda, via-se o quarto com uma enorme cama de casal com um aspecto soberbo de conforto. Para lá da cama, a porta entreaberta para o que deveria ser a casa de banho. Todo o espaço era iluminado por luz natural proveniente das grandes janelas de acesso à varanda, a qual possuía uma vista fabulosa para o Douro e para o Porto.
Tânia sentou-se no sofá, cruzando as pernas e colocando a mão na almofada num claro convite a que lhe fizesse companhia. Sentei-me a seu lado.
— Com que então, tens uma filha. — foi a primeira coisa que disse. — Como é que isso aconteceu?
Em jeito de brincadeira, retorqui:
— Acho que não precisas que te explique como se faz.
Tânia deu uma gargalhada.
— Sabes o que estou a perguntar.
Adoptei uma postura séria.
— A mãe era uma grande amiga minha. Tínhamos uma relação especial. Não éramos um casal, apenas amigos muito próximos.
— Amigos coloridos?!
— Não, não. Nada disso. — neguei, recordando a Kátya de Edimburgo. — Sabia que ela tinha sentimentos especiais por mim, mas eu...
— Tu não correspondias? — interrogou surpresa. — Isso nem parece teu, Daniel.
— Eu estava apaixonado por outra pessoa.
Tânia arregalou os olhos.
— Oh... Agora, isto está a ficar interessante.
Abanei a cabeça com um sorriso triste. Não queria entrar em muitos pormenores, por isso abreviei a história ao máximo.
— Só nos envolvemos uma única vez, uma cena daquelas em que eu estava muito deprimido e ela consolou-me. — Tânia franziu o rosto. — Sim, foi um consolo que acabou nisso. Nessa única vez, ela engravidou. Eu não fazia ideia. Como eu nunca quis que fôssemos mais que amigos, ela acabou por se afastar. Deixou-me uma mensagem de despedida e desapareceu por completo, só voltando a procurar-me no ano passado.
— E porque é que ela mudou de ideias?
— Porque... — Senti a voz a fugir-me. Sem ter essa intenção, revi a imagem da Kátya de Palmela, a Kátya fustigada pela doença. — Porque ela estava doente e... Não queria que a filha ficasse sozinha.
Tânia pareceu adivinhar o final da história:
— Ela...
— Sim. Faleceu no Outono passado.
— Lamento, meu amor. — proferiu com enorme ternura.
Abanei a cabeça e fiz um gesto de que era algo do passado e que não tinha retorno.
— E quem era a... a mulher por quem estavas apaixonado?
Suspirei.
— Se não te importas, prefiro não falar nisso, Tânia.
— Compreendo. Ela não correspondeu.
Tornei a suspirar, agastado, tolhido pelas feridas das lembranças.
— Fui correspondido. — disse, disfarçando a mágoa. — Há muitos anos que era correspondido. Reencontrámo-nos mais tarde e chegámos a viver juntos.
— Já não estão juntos? — questionou, indiferente ao meu pedido para não continuar.
— Não.
Tânia ficou a olhar-me, aguardando mais desenvolvimentos.
— Mudemos de assunto. — pedi. — Que querias conversar comigo?
Tânia recostou-se no sofá. O seu olhar subiu para o tecto, depois desceu para mim. Suspeitei que pretendia tocar num determinado assunto e quando falou, fiquei com a sensação que não optara pelo tema principal.
— Aquela reunião ontem. Quero saber a tua opinião. — explicou. — Achas que devo aceitar?
— Tu é que sabes, Tânia. Além disso, não faço ideia do valor que vão contrapor.
Ela permaneceu com os olhos em mim.
— Se me disseres para aceitar, eu aceito. Mesmo pelo valor de ontem. Se isso for bom para ti, se te trouxer benefícios, eu faço-o por ti.
— A que propósito vem isso agora?
— Como assim?
Eu fizera uma pergunta que nem percebia porquê. Teria sido ouvi-la dizer que faria algo por mim? Que teria isso de estranho? Tânia já não era a minha cruel colega do secundário, também não era a minha namorada da juventude, talvez nem uma amiga... Quando muito, tínhamos um passado, éramos capazes de ser os conhecidos mais antigos na vida um do outro.
— Desculpa! — pedi, meio envergonhado. — Não precisas de fazer nada por mim.
Ela sorriu condescendente, colocando a mão na minha coxa.
— Tu és um tipo extraordinário, Daniel. E único.
— Não exageres, Tânia.
— É verdade. Sabes? Por vezes, recordo os tempos de escola, a forma ignóbil como eu te tratava. E tu...
— Eu era um parvinho.
— Não, tu eras um ser humano excepcional. Apesar de te tratar mal, tu ajudaste-me, alimentaste o meu sonho, ajudaste-me a concretizá-lo...
— Estava apaixonado. — lembrei com um sorriso divertido.
Ela permaneceu séria.
— Fui muito estúpida, Daniel. Podes achar que não te devo o início da minha carreira, mas devo-te sem dúvida o facto de não me teres deixado desistir. Podias estar apaixonado, mas... Bolas, até um apaixonado tem o seu limite. A tua paciência foi inesgotável.
Senti saudades daquele tempo, dum tempo longínquo. Não os de humilhação diária na escola, mas aqueles em que namorámos. O nosso primeiro beijo... Preferi mudar a conversa.
— Falávamos do contrato, se deverias aceitar?
Tânia revelou alguma decepção pela alteração do tema. Porém, percebeu a mensagem e respondeu:
— Não preciso do dinheiro. E só ponderei ouvir a proposta por saber que trabalhavas na revista. Se quiseres que o faça, eu faço.
— Eu conheço-te, Tânia. Não acredito que te sintas confortável a pousar para um ensaio fotográfico erótico. Mesmo que isso me trouxesse alguma vantagem, jamais te pediria que o fizesses. Mas, acredita, se alguém ganhar com isso não serei eu.
Ela não se manifestou. Ficou muito quieta, mantendo a mão na minha coxa e o olhar nos meus olhos. Detectei uma centelha do brilho que lhe encontrara neles, mais de vinte anos antes.
Não sei donde veio ou o porquê, mas naquele momento, tive uma certeza incontornável. Tânia tinha sido a minha primeira namorada. Fora-o num curto espaço de tempo, mas tornara essa época marcante nas nossas vidas. Sim, não duvidava disso, marcante para ambos. Bastaria ver como ela me olhava, a forma como me recebia nos raros reencontros ao longo dos anos. Vivêramos a maior parte da nossa vida longe um do outro, anos e anos sem contacto. Reencontrámo-nos em Paris, num evento de moda, onde partilhámos uma noite de amor. Mais anos passaram, eu acompanhei-a ao longe, uma ou outra mensagem esporádica... Porém, sempre que os nossos caminhos se voltavam a cruzar, parecia que nunca estivéramos longe. Ela era especial, muito especial para mim. E eu tinha a certeza que também era especial para ela.
Do nada, confessei:
— Eu amei verdadeiramente quatro mulheres na minha vida.
O seu rosto revelou uma mistura de surpresa e confusão.
— A que propósito vem isso agora?
— Não sei... — O meu tom era sério, carinhoso e cúmplice. — Quero apenas dizer-te que és uma delas.
Tânia desviou o olhar para a parede, furtando-se a encarar-me. Não sei se ponderava uma resposta, se haveria de dizer algo ou esperar que eu prosseguisse. Esperei. Ela evitou o meu rosto, mas não ficou calada:
— Não sei o que esperas que te responda a isso.
Coloquei a mão sobre a dela que permanecia na minha perna.
— Não tens de responder nada. Foi apenas a partilha de um sentimento. — Tânia encarou-me. A expressão era indefesa e segura. — Tenho perdido tantas pessoas importantes... Chego a uma idade em que não quero que fique nada por dizer. — Sorri com ternura. — Não sei quando te voltarei a ver, por isso... — Foi a minha vez de desviar o olhar. — Acho que o sabes, mas quero dizer-to olhos nos olhos. — Tornei a observar os seus fantásticos olhos verdes. — Fazes parte de um grupo muito pequenino de pessoas que eu amo.
Tânia sorriu:
— Tu és muito especial para mim, Daniel. Nunca duvides disso.
E com aquela frase, retirou a mão da minha perna e alterou o tom de voz para algo mais profissional.
— Porque é que a revista está disposta a investir tanto para me querer fotografar num ensaio ousado?
— Querem fazer uma edição especial, comemorativa. — respondi, equiparando o meu tom ao dela.
— Partilhaste com a tua chefe que dificilmente eu aceitaria uma proposta dessas? — Anuí. — Então, o que os fez avançar com a proposta?
Não tinha porque lhe esconder a verdade.
— A Ângela está convencida que a tua carreira está em declínio. — iniciei, obtendo dela um semblante irado. — E quer tirar proveito disso para te convencer a pousar nua para a revista. — Falei, demonstrando bem como repudiava isso. — Se queres a minha opinião, tu não precisas do dinheiro. Acho que deves mandá-los à merda. — Sorri. — Ou melhor, mandar-nos à merda, já que eu faço parte da comitiva de ontem.
Tânia levantou-se do sofá. A raiva era patente nos seus movimentos. Não precisava que ela o dissesse, sabia que nada daquilo era dirigido a mim.
— Em declínio, eu?
— Eu disse-lhe que não concordava. Mas, ela acha que está certa.
— Que cabra. — vociferou, voltando a sentar-se. Colocou novamente a mão no meu joelho. — Obrigado por me contares.
— Ela é minha chefe, mas tu és...
— Eu sou?
— Tu és especial.
Tornando a sorrir, o seu olhar voltou a evadir-se do meu. Ficou em silêncio. Eu aguardei, olhando-a com o mesmo carinho de sempre. Não sentia a paixão da adolescência, somente algo parecido com... amor.
— És o melhor ser humano que conheci em toda a minha vida. — disse por fim, escondendo o rosto com o cabelo caído. — E fui tão cruel contigo, quando andávamos na escola.
— Vamos voltar outra vez a esse assunto? — questionei numa mistura de divertimento e seriedade. — Cruel, Tânia? — interroguei, rebatendo a acusação. — Tu foste minha namorada. Fizeste-me o puto mais feliz da escola.
— Mas antes, tratei-te como... fui tão má contigo. Humilhei-te. — Encarou-me e surpreendeu-me com uma lágrima que despontava. — E apesar de te ter tratado como uma víbora, tu ajudaste-me. Não sei se não tivesses insistido, se algum dia teria sido o que sou hoje.
Confesso que me senti confuso por ela voltar ao tema anterior. Não conseguia perceber porquê, parecia que estávamos numa conversa aos círculos, saltando de um assunto para o outro. Para além disso, Tânia revelou-se subitamente fragilizada e com o olhar húmido.
— Vá lá, eu só queria agradar à miúda gira. — desvalorizei para atenuar a sua culpa. — Só queria estar perto de ti. Acho que nem me importava que me insultasses o tempo todo.
— Nunca conheci ninguém como tu.
— Conheceste melhor. — argumentei com modéstia.
Ela abanou a cabeça. Limpou os olhos com os dedos, procurando sem sucesso não esborratar a maquilhagem.
— Dás-me um minuto? — pediu, levantando-se e atravessando o quarto até à casa de banho.
Afastei-me até à janela, espreitando o rio brilhante com o reflexo do Sol.
— Então e o teu namorado canadiano? — questionei, recordando a sua vida amorosa no tempo em que nos encontrámos em Paris.
— Quem? — ouvi do interior da casa de banho, misturado com o som da água a correr.
— A última vez que nos encontrámos, disseste que tinhas um namorado canadiano e que suspeitavas que ele te ia pedir em casamento.
Tânia espreitou pela porta, revelando o rosto sem maquilhagem.
— Não pediu. — partilhou, desaparecendo novamente atrás da porta. — E também não durou muito mais depois disso.
Tornei a sentar-me no sofá, elevando a voz para que me ouvisse:
— E o teu amigo fotógrafo? O de Los Angeles?
Não houve resposta, mas senti os seus pés a caminhar silenciosamente pela alcatifa. Tânia contornou o sofá e sentou-se no meu colo.
— Posso? — pediu com naturalidade. Fiquei surpreendido e agradado por a ter tão perto. Ela colocou um braço à volta do meu pescoço e explico, tocando-me o rosto com o indicador. — Já estou numa idade que para ele está fora do prazo.
Sem pensar, envolvi-lhe a cintura, enquanto a outra mão acariciava distraidamente a sua coxa.
— Só um estúpido te pode considerar fora de prazo.
— Tenho trinta e sete anos, Daniel.
— Também eu.
— A tua chefe acha que estou em declínio.
— A minha chefe é parva.
Tânia sorriu. O seu sorriso era carinhoso, a sua expressão inundada de ternura. Os seus olhos verdes observavam-me, tentando ler para lá dos meus. De repente, estávamos ali tão próximos como vinte anos antes, como dois adolescentes apaixonados, o tempo suspenso à nossa volta, o desejo dissimulado, a insegurança de não estar a corresponder ao outro. Tal como há vinte anos, a iniciativa foi dela. O seu olhar desceu para os meus lábios e a sua boca encontrou-se com a minha. Trocámos um beijo profundo, toda a paixão a subir pelos nossos corpos. A minha mão saltou da coxa para dentro da túnica e subiu para o seio.
— Quero fazer amor contigo, Daniel! — exclamou entre beijos sôfregos. — Vem...
Saiu do meu colo e segurou-me a mão, puxando-me com doçura para a cama. Fez-me despenhar no colchão e despiu a roupa como se estivesse a exibir-se para mim. Eu tirei a camisola e as calças, excitado com o seu corpo nu a avançar para mim. Abriu uma gaveta e retirou uma embalagem pequena prateada.
— Já vi que tens pontaria, não preciso que a tua filha tenha um irmão.
Sorri.
— Se for como em Paris, espero que tenhas mais.
Tânia mordiscou o lábio e desceu sobre mim.
No beijo seguinte, pelo meio da paixão, a imagem de Mafalda no pensamento desconcentrou-me. Temi que a incapacidade de encarar outra mulher que não ela, naquela intimidade, fizesse perigar o momento. Vi Tânia estender-se na cama, convidando-me a amá-la. Emanava tanto carinho e doçura dela que surpreendentemente a imagem de Mafalda esfumou-se. Fizemos amor olhos nos olhos com tanta intensidade, tanta paixão, tanto amor...
O auge foi intenso, brutalmente intenso. Mas, mais intenso que o orgasmo foi a percepção do quanto nos amávamos.
Não sei quanto tempo passou. Tal como em Paris, não nos saciámos facilmente. Eu tinha a tarde livre até à hora em que teria de regressar a Miramar e ir buscar Leonor à escola. Deitados na cama, Tânia e eu olhávamos o tecto branco com os corpos tapados pelo lençol fino e os dedos entrelaçados das nossas mãos.
— Já não estou no auge da minha carreira. — disse Tânia do nada, quebrando o silêncio relaxante. — Mas também não estou no fim.
— Tu continuas muito bem. És uma mulher linda. Sempre foste.
— Aqui que ninguém nos ouve, Daniel. Esta carreira tem validade.
— Tens mais glamour que muitas dessas miúdas novas que estão no auge.
— A imagem também se gasta. — lembrou, consciente da realidade. — Estou neste mundo há quase vinte anos. — Suspirou. — E também estou cansada desta vida de constante movimento.
— Tira umas férias. — sugeri.
Sem responder à sugestão, afirmou com segurança:
— Vou recusar a proposta da revista, independentemente do valor que ofereçam.
— Acho que fazes bem. — concordei, apertando a sua mão.
— Só o faria por necessidade financeira ou... por ti. Tu não ganhas nada com isso. E felizmente tenho o suficiente para uma velhice descansada. — Olhou para mim com aquele novo semblante enamorado. — Estou a pensar manter-me no mundo da moda mais alguns anos. Mas, não muitos mais.
Assenti, concordando com aquela informação tão natural, pois ninguém mantinha uma carreira de manequim com aquele ritmo eternamente.
Tânia ergueu-se na cama e apoiou-se no cotovelo, fazendo o lençol cair até à cintura. O seu semblante sério observou-me hesitante.
— Responde-me com sinceridade. — pediu.
— Sempre.
— És capaz de esperar por mim?
— Esperar por ti? — repeti, confuso.
— Sim. Ainda continuarei neste ritmo de trabalho até aos quarenta, quarenta e poucos. — explicou. — Depois, vou parar. Tenho pensado muito no que farei a seguir e sei que tenho muitas portas abertas para projectos na moda e no agenciamento de manequins. E conto fazer isso em Portugal. — Fez uma pausa com o verde cravado em mim. — Serias capaz de esperar? Esperar que voltasse em definitivo a Portugal e ficarmos juntos?
A sua pergunta apanhou-me completamente de surpresa.
— Casar?
— Se quiseres. — concordou franzindo o rosto.
— E queres ter filhos?
— Claro.
Fiz um sorriso parvo, deliciado com a ideia de ela ter um filho meu. Imaginei-a grávida...
Pensei um pouco. Perante toda sua expectativa, retorqui:
— E porquê esperar? Porque não ficamos juntos já?
Tânia abanou a cabeça.
— Não quero parar já. E não é justo para ti ter uma relação com alguém que talvez consigas ver uma vez a cada três ou seis meses.
Virei-me na cama, preocupado com as horas. Peguei no telemóvel e confirmei que teria de estar em Miramar daí a uma hora.
— Não te quero prometer algo que não sei se conseguiria cumprir. — confessei. — Nenhum de nós pode prometer isso, tendo vidas afastadas. Nem eu te posso garantir que não surja ninguém na minha vida, da mesma forma que tu não podes garantir que não surja na tua.
Ela acabou por concordar, vendo-me levantar da cama.
Comecei a vestir-me, ciente que a estava a decepcionar.
— Tu fizeste a tua proposta. Eu faço-te a minha. — prossegui, enfiando-me nas calças. — Não te peço que deixes a moda, deixa apenas a carreira internacional. Volta em definitivo para Portugal agora, aproveita a homenagem no Portugal Fashion e estabelece-te cá. Terás certamente trabalho sem teres de ir para longe. Vem viver comigo e com a Leonor. — Parei para que nada no meu tom deixasse dúvidas. — Eu amo-te, Tânia! Hoje sou teu. Daqui a alguns anos não to posso prometer.
Tânia levantou-se do colchão, saltou para o chão e abraçou-me.
— Vou pensar, meu amor. Prometo.
E beijou-me os lábios com fervor, paixão e indubitavelmente muito amor. Aquilo que durante muitos anos não passara de fantasia, poderia vir a concretizar-se.
Antes de saber a sua decisão, recebi um telefonema de Ângela a informar-me que Tânia recusara a proposta de pousar nua para a revista, ainda antes de ouvir o novo valor. Fiz de conta que estava surpreendido e tive de ouvir um sem número de comentários insultuosos acerca dela. Não servia de nada argumentar com Ângela, pelo que a deixei dizer os disparates todos.
Dois dias depois de termos estado juntos, aconteceu o desfile final de Tânia no Portugal Fashion, onde ocorreria a homenagem que o mundo português da moda lhe queria prestar. Como queria assistir ao evento ao vivo, levei Leonor comigo na esperança de a apresentar à manequim mais famosa de Portugal, a qual poderia vir a ser a sua nova figura maternal.
Confesso que foram dois dias em que me deixei mergulhar num mar de expectativas. Imaginei como seria partilhar a minha vida com Tânia, tê-la a viver em minha casa. Como iria Leonor reagir a isso? Poderia Tânia ser o gatilho para despoletar o regresso da alegria à minha filha? Tânia teria os seus defeitos, mas eu não duvidava que ela seria maternal para com a criança e poderia tornar-se importante para Leonor. Deslumbrei-me com outras fantasias, acordar diariamente com ela a meu lado, passear pela praia com ela e Leonor... Sorri sozinho, imaginando-a com uma barriga enorme, grávida à espera do nosso primeiro filho...
O evento estava a realizar-se no edifício do Centro de Congressos da Alfândega do Porto. Não me despertava grande interesse assistir a todos os desfiles, pelo que só chegámos perto do último, aquele em que Tânia iria participar. Entrei com as credenciais de fotógrafo profissional e coloquei-me perto da passadeira por onde os manequins circulavam, num lugar que permitisse à pequena Leonor visualizar os intervenientes sem obstáculos visuais.
O espaço amplo era semelhante a um enorme armazém. Não existia palco, apenas uma linha de chão que atravessava o espaço de uma ponta a outra, ladeada por cadeiras onde os espectadores assistiriam à mostra de modelos. A passerelle branca era delimitada por pequenas pedrinhas, dando um aspecto de pista de circulação. Os manequins entravam por entre paredes de pedra, ao fundo, desfilando sob a luminosidade intensa que assolava o centro do espaço em contraste com o ambiente de penumbra do sector dos espectadores.
Leonor assistia a tudo com muita atenção, num fascínio contido e sem que lhe alterasse a expressão fechada do rosto. Nunca largou a minha mão, talvez temendo que eu pudesse desaparecer por entre a multidão.
As peças de roupa eram criações de um famoso estilista português, um dos mais conceituados e dos poucos que tinha capacidade financeira e interesse em pagar o cachet de Tânia. Porém, parte desse valor fora custeado pela organização que pretendia aproveitar o momento para homenagear a modelo e atrair ainda mais atenção ao evento.
Os manequins, na sua maioria femininos, começaram a entrar, avançando com o olhar fixo em nada para lá dos espectadores. Era como se fossem autómatos a apresentar tecidos. Neste caso, eram exemplos de roupa que de facto se imaginava que se pudesse vestir no dia a dia, ao contrário de alguns exemplos de vestimentas completamente absurdas a que já assistira em palcos bem conceituados no universo mundial da moda.
Tânia entrou em destaque, desfilando com sua postura característica, emanando elegância e sensualidade. Atravessou toda a linha de circulação debaixo dos olhares maravilhados do público. Chegou ao fim e rodou subtilmente, retornando na direcção inversa e mantendo todo o glamour da estrela que sempre fora.
Seguiram-se mais algumas passagens, onde os destaques foram sempre atribuídos a Tânia, ela era a figura principal daquele momento. No fim, o estilista entrou de mão dada com a vedeta do seu desfile, sendo seguidos por todos os manequins que haviam participado. Agradeceu a todos, sorrindo e acenando e voltou a esconder-se nos bastidores.
Com o estrado central vazio, o apresentador do evento surgiu de microfone na mão, solicitando a todos que se mantivessem nos seus lugares, uma vez que iriam proceder à tão publicitada homenagem. Falou durante alguns minutos, dando tempo a que Tânia se preparasse para o momento.
Após um resumo da carreira da manequim portuguesa, o apresentador pediu uma salva de palmas e chamou-a ao centro de destaque. Tânia apareceu no palco ovacionada pelo público, desfilando sozinha com um vestido preto comprido com uma abertura que subia quase até à cintura e lhe revelava a perna esquerda. O decote generoso sugava muita da atenção da sala. Sorrindo e acenando, ela parou junto do homem, num ponto central para receber um ramo de flores, entregue por uma das manequins mais jovens que também tinham participado no último desfile. A seguir, os organizadores do espectáculo, liderados pelo presidente da marca que geria o evento, avançaram sob os focos de luz. Era um homem conhecido, de porte forte e ligado ao mundo empresarial do norte. Segurava uma caixa nas mãos e deu início à tão planeada homenagem, entregando-lhe o conteúdo, uma placa em cristal comemorativa dos seus vinte anos de carreira.
O apresentador entregou-lhe o microfone e a voz quente de Tânia inundou o espaço, agradecendo a todos.
— Ao longo da minha carreira, — continuou ela, olhando para os espectadores, na minha direcção. — conheci algumas pessoas que me ajudaram muito, me ensinaram a ser a profissional que sou. No entanto, tudo isto começou graças a alguém que em determinado momento acreditou mais em mim que eu própria. E essa pessoa está aqui presente, hoje. — Vi as cabeças virarem-se na busca por esse ser misterioso. Eu próprio o fiz sem saber que essa pessoa... — Peço a vossa salva de palmas para o meu grande amigo e um dos melhores fotógrafos portugueses, o Daniel que está ali atrás.
As pessoas seguiram a direcção do seu dedo que apontava para mim. Eu fiquei sem reacção, surpreso e limitei-me a acenar, qual rainha de Inglaterra, completamente intimidado com toda a atenção. A meu lado, segurando a minha mão, Leonor estava ainda mais assustada sem perceber o porquê de, subitamente, todos olharem para nós.
Felizmente, não durou muito e as cabeças tornaram a voltar-se para a homenageada.
O apresentador recolheu o microfone, durante os muitos aplausos para ela. A seguir, agradeceu num timbre afável, numa sugestão para que se silenciassem, e colocou algumas questões típicas da ocasião. Perguntou a Tânia como se sentia, o que significava para ela aquele reconhecimento, entre outras coisas. Por fim, questionou:
— E agora, Tânia. Qual vai ser o futuro?
Tânia sorriu, brotando glamour por todos os poros. O seu olhar cruzou o meu. Parte do sorriso perdeu-se e, antes de ela o dizer, eu já sabia o que aí vinha na interpretação que fiz do seu olhar:
— Vou continuar a desfilar pelos palcos internacionais.
Apesar de o prever, as suas palavras foram uma seta no meu peito, no meu coração. É certo que ela apenas me prometera pensar no assunto. Fora eu quem fizera filmes do que poderíamos ser juntos. Talvez tivesse sido isso que mais me feriu, ter-me deixado inebriar pela fantasia, ter acreditado em algo que só existira na minha cabeça.
Decidi que nada mais tinha a fazer ali, não valeria a pena esperar, ir ao encontro de Tânia... Acho que, naquele instante, nem seria bom para nós falarmos. Eu estava magoado e poderia dizer alguma coisa menos simpática.
Sem perder mais tempo, virei costas e abandonei o local com Leonor pela mão. Felizmente, não partilhara com a pequena a minha intenção de lhe apresentar Tânia, pelo que não houve decepção para além da minha.
Tentei abstrair-me do sucedido no resto do dia, mas foi difícil. Leonor já dormia há muito, quando o som do telemóvel quebrou a paz nocturna na sala, despertando-me da televisão. Atendi, reconhecendo o número.
— Desculpa... — foi a primeira coisa que me disse.
— Tudo bem, Tânia. Eu compreendo.
— Aos quarenta, paro. — prometeu com um pedido. — Espera por mim.
Podia estar errado, mas na minha opinião, Tânia era viciada naquele mundo de desfiles e viagens por todo o globo. Não sei se iria parar aos quarenta anos. Não sei sequer se pararia sem ser obrigada a isso. Não podia esperar por algo tão incerto. Não seria honesto com ela se lhe dissesse que sim.
— Não te posso prometer isso.
— São apenas três anos, Daniel. No máximo quatro ou cinco.
— Disse-te no outro dia que nenhum de nós poderia prometer isso, um ao outro. Não mudei de ideias.
— Não confias em mim? É isso? Receias que assuma um compromisso contigo e não o respeite?
— Nem sequer pensei nisso, Tânia. — menti. Claro que tinha muita dificuldade em acreditar que ela se mantivesse fiel, tal como não se manteve com o namorado canadiano que traía constantemente. Mas, essa nem era a questão principal. — Não tenho idade para relacionamentos à distância. Preciso de alguém que esteja presente, não alguém que veria de meses a meses, senão anos.
Houve uma pausa no diálogo. Ouvi a respiração dela, no lado de lá da linha. Acabou por dizer:
— Gosto muito de ti, Daniel. És sem dúvida alguém com quem me veria a passar o resto da minha vida, mas não já. Não me sinto preparada para parar ou abrandar. Sei que te disse que estou cansada, mas ainda não estou exausta.
Novo silêncio. Penso que esperava eu dissesse alguma coisa, um qualquer argumento, concordar com ela, aceitar a sua decisão, dizer que a esperava...
— Fica bem, Tânia. — disse em despedida.
— Daniel...
— Desejo-te toda a felicidade do mundo.
— Vais esperar por mim?
Foi como arrancar o próprio coração. Porém, jamais seria eu se dissesse outra coisa:
— Não.

"Pareces triste."
Alexandra conseguiu descodificar o meu estado de espírito nas primeiras trocas de frases. Não tive essa intenção, nem me senti à vontade para partilhar com ela a minha amargura.
"Aconteceu alguma coisa?"
"Nada de mais. Isto é mais cansaço que outra coisa."
Alexandra entendeu a frase como uma despedida.
"Então, talvez seja melhor deixar-te descansar."
"Não vás.", pedi, recusando-me a cair na solidão, "Falar contigo é reconfortante."
A sala estava envolvida num silêncio tranquilo. Lá fora, a noite há muito que se instalara. Mesmo com as portas de vidro do terraço entreabertas, não havia qualquer ruído exterior. Do resto da casa, nem um som e Leonor dormia um sono pacífico. Estivera um dia quente, mais que o usual naquela altura do ano.
"Tenho uma novidade, Daniel.", enviou ela, deixando-me curioso, "Em breve irei regressar a Portugal."
"Vens passar umas férias?"
"Não. Regresso em definitivo."
"Então? Houve algum problema?"
"Não, Daniel. A minha temporada aqui é que está a chegar ao fim."
Estranhei aquela informação, pois julgara que ela fora para o Brasil por causa do emprego.
"Vais deixar o teu emprego aí?"
A resposta demorou um pouco, ao que se seguiu a mensagem:
"A minha estadia aqui teve um objectivo. Esse objectivo foi cumprido, graças a Deus. Por isso, já nada me prende cá e quero voltar ao meu país."
"Lá estás tu a ser enigmática."
Alexandra retorquiu com um smile sorridente e outro a piscar o olho.
"Quando pensas voltar?"
"No Verão. Tenho algumas coisas a resolver por aqui e depois vou-me embora."
Já não faltaria muito tempo, uma vez que estávamos a poucas semanas de entrar na estação mais quente do ano. Confesso que sentia alguma curiosidade em a conhecer, mas não enquadrava essa possibilidade no futuro. Para além disso, pouco ou nada sabia sobre ela, uma vez que nem uma foto vira de Alexandra. Se ela se cruzasse comigo na rua, eu não faria ideia de quem era.
"Chegaste a falar com o teu namorado que deixaste cá?", questionei, recordando a questão amorosa mal resolvida que ela me relatara.
"Mais ou menos."
"Mais ou menos?"
"É complicado.", atalhou sem querer dar grandes pormenores.
"Já lhe disseste que vais regressar?"
"Sim."
"E ele?"
A troca de mensagens ficou suspensa. Aguardei pacientemente alguns segundos que se tornaram minutos. Ia a escrever "estás aí?", quando surgiu no ecrã:
"Vi a tua publicação no Facebook."
Percebi que Alexandra não queria prosseguir naquele tema, alterando o assunto para a foto que eu colocara no Facebook, uma foto de Tânia no Portugal Fashion, durante a homenagem, que eu fora "roubar" a um artigo sobre o evento. À foto juntara a mensagem "A melhor manequim de todos os tempos". Entre os muitos "gostos", estava um da própria Tânia, a qual também comentara que me devia o início da sua carreira de manequim, tendo eu ripostado que lhe devia a minha de fotógrafo. Aquilo acontecera após o nosso telefonema e servia, acho eu, para atenuar a mágoa que ficara pela separação, pelo fim de uma relação que nem chegara a começar, mas que me criara expectativas dolorosas. Fora uma forma tácita de retomar a relação de conhecidos de outrora, um homem e uma mulher com um passado comum, mas sem futuro como casal. Tânia prosseguiria a sua bem-sucedida carreira de modelo a viajar pelo globo, eu continuaria a minha vida simples de fotógrafo e pai.
"Parece ser alguém especial.", escreveu Alexandra na expectativa que eu desenvolvesse.
"É uma grande amiga.", resumi.
"Vocês parecem ser mais que amigos."
"Porque dizes isso?"
"Não sei... Intuição feminina."
Alexandra era demasiado enigmática para que lhe revelasse mais que aquilo, por isso, insisti:
"Somos amigos desde o tempo da escola. Fui eu quem lhe fez as primeiras fotos com que ela conseguiu ser agenciada para manequim."
"Ela é lindíssima!", afirmou, juntando um smile com olhar expressivo. A seguir, escreveu "Quem me dera ser assim."
Eu aproveitei a oportunidade:
"Sobre isso não me posso manifestar, uma vez que nunca vi uma foto tua."
"Acredita em mim, não sou assim bonita."
"Se tu o dizes... Podias mandar-me uma foto tua."
A sugestão obteve um smile envergonhado em resposta.
"Na tua opinião, ela é a mulher mais bonita que já fotografaste?"
Ok, continuas a desconversar, cada vez que o assunto és tu.
Os seus enigmas começavam a cansar-me. Contudo, dei por mim a equacionar a questão e respondi-lhe:
"É a manequim mais bonita que já fotografei. Curiosamente, a mulher mais bonita que fotografei não era modelo."
"A sério?"
"Sim. A mulher mais bonita que fotografei foi a Mafalda."
Nova pausa. O rodapé da caixa de diálogo indicava que ela estava a escrever, depois parava, aparecia novamente e nada. Que mensagem tão extensa iria sair dali?
Foi curta e extremamente simples.
"Isso é tão querido da tua parte."
"É a verdade."
"Confesso que fiquei emocionada."
"Porquê?"
"Coisas de mulher. Já não se encontra um amor assim, como aquele que se percebe nas tuas palavras, cada vez que falas na tua mulher."
"Não é por ela ter falecido que o meu amor se perdeu. Continuo a amá-la."
"Achas que um dia a vais reencontrar? Não sei quais são as tuas crenças..."
"Não sei. Não penso muito nisso. E para te ser sincero, a minha fé sofreu grandes abalos nos últimos tempos."
Não queria prolongar o tema Mafalda, pois era algo que ainda doía profundamente no meu coração. Optei por alterar o foco do assunto para Alexandra.
"E tu? Como vão ser as coisas com o teu namorado?"
"Não sei."
"Tens esperança numa reconciliação?"
"Tenho. Se ele me perdoar..."
"Achas que não te perdoa?"
"Temo que não."
"Quando lhe contares a verdade, ele não tem como não te perdoar."
"Eu enganei-o. Não da forma como ele pensa que fiz, mas não deixa de ser uma traição."
"O vosso amor vai ultrapassar isso, vais ver."
"Deus te ouça."
O que pensei não escrevi, pois teria que lhe dizer que Ele dava pouca atenção aos meus pedidos.
A conversa não se prolongou muito mais.
Sem que houvesse uma razão que o justificasse, os nossos encontros online sucederam-se com regularidade, num ritmo quase diário. Comecei a notar uma empatia cada vez mais forte com Alexandra e uma curiosidade que se intensificava. Dei por mim a querer mesmo conhecê-la. Para além disso, apesar de ela continuar enigmática em relação a si, foi ganhando a minha confiança ao ponto de lhe falar cada vez mais em Mafalda, o que para mim era terapêutico. Cheguei a equacionar que a constante repetição do assunto a pudesse maçar, mas para minha surpresa, Alexandra interessava-se muito pelo que eu contava.
Entretanto, profissionalmente, a vida corria de vento em poupa. Os meus workshops continuavam um sucesso, sendo eu assediado pelo centro de formação para que me disponibilizasse para mais datas, o que recusei sob pena de perder tempo de qualidade com quem se tornara na pessoa mais importante da minha vida, a minha filha.
Não voltei a falar com Tânia, após aquele telefonema na noite da sua homenagem. Ela partiu de Portugal, despedindo-se com uma mensagem escrita por email a lamentar os caminhos antagónicos das nossas vidas e reafirmando que quando parasse a sua carreira, se eu quisesse, teria prioridade no acesso ao seu coração. A partir daí, o nosso contacto limitou-se aos "gostos" e mensagens circunstanciais no Facebook.
A revista teve a sua edição especial apresentada com grande pompa, num jantar no Palácio da Bolsa, ao qual compareci com a minha princesa. Ângela não perdoava Tânia pela recusa e continuava a vilipendiá-la, sempre que o assunto era a manequim. Quando a minha capacidade de encaixe se esgotou, tive de lembrar a minha patroa que Tânia era minha amiga e, por isso, da mesma forma que eu não falava em sua defesa, pedia a Ângela que não tecesse aqueles comentários na minha frente. A vedeta dessa edição acabou por ser uma actriz portuguesa de telenovelas, uma das mais famosas da época, a qual se fez pagar quase com o seu peso em ouro para aceitar pousar nua. A revista pagou mais que aquilo que propusera inicialmente a Tânia, mas teve o retorno com lucro. Ângela queria que eu fosse o fotógrafo da sessão, só que a actriz pretensiosa não abdicou que fosse um fotógrafo seu amigo a realizar a produção. Por mim, tudo bem. Ela tinha fama de ser possuidora de um feitio de mer... Disso.
Leonor também continuava sem evolução no seu encarar triste do dia a dia. De tempos a tempos, a educadora lá vinha falar na psicóloga e em terapias... Eu sabia o que fazia falta a Leonor, mas não conseguia trazer-lhe a mãe de volta. Daí que só me restasse esperar que o tempo cicatrizasse a ferida.
No início de Julho, Alexandra regressou a Portugal.
A nossa última grande conversa pelo Messenger aconteceu na véspera da sua viagem. Em todas as anteriores, por muito que falássemos em um dia nos conhecermos, isso era sempre expressado de forma abstracta. Um pouco ao género de "um dia", "talvez", "havemos de ver isso" e pouco mais. Contudo, a meio dessa conversa, após um relato tranquilo dos assuntos resolvidos no Brasil e a iminente partida, Alexandra escreveu:
"Gostava de te conhecer."
Num tom brincalhão, respondi:
"Eu também, mas nem uma foto tua me mostras."
A sua mensagem seguinte revelou que o assunto era sério:
"Isso é importante para ti? Precisas de me ver para saber se vale a pena conhecer-me?"
Não, eu não era assim. Não fazia depender o meu interesse nas pessoas com base no seu aspecto físico. Partilhávamos uma relação virtual de amizade, a qual tinha vindo a evoluir bastante e que poderia desencadear uma amizade real.
"Não, não preciso de ver uma foto tua, antes."
"Também gostavas de me conhecer?"
"Sim. Mas tenho de ser sincero contigo.", escrevi agindo na minha forma honesta de ser, "Acho que não te queres dar a conhecer."
"Percebo que digas isso. Mas, talvez compreendas porque o faço, quando me vires."
Comecei a imaginar que ela pudesse ter alguma deficiência. Mesmo assim, isso não me desmotivou, uma vez que as verdadeiras amizades não se prendem nesses pormenores. Como forma de demonstrar isso, digitei:
"Um dia havemos de combinar esse encontro."
"Quero que esse dia seja em breve."
Notei alguma ansiedade naquele desejo. Não encontrei uma justificação para isso. Teria ela alguma paixoneta por mim? Teria visto uma foto minha? Será que se apaixonou pela imagem adicionada ao ser que com ela conversava virtualmente? Achei tudo muito estranho, na verdade. E o namorado? Quais seriam as intenções dela com ele? Eu não queria ver-me envolvido no meio de uma relação. Surgiram tantas dúvidas no meu cérebro que tive de respirar fundo e fazer uma espécie de restart aos pensamentos.
Como não respondi logo, Alexandra escreveu:
"Será quando tiver que ser"
Percebi que interpretara o meu silêncio como um retraimento em relação àquele encontro. Não tinha nada a recear dela. Estava a fazer conjecturas absurdas. Alexandra era apenas uma amiga virtual que queria transporta essa a amizade para o mundo real. E, por mim, tudo bem, não via nada contra.
"Será quando quiseres. Terei todo o gosto em conhecer-te"
O diálogo ficou suspenso. Vi no cantinho habitual que ela escrevia e apagava, escrevia e apagava. Aguardei. Por fim...
"Posso pedir-te uma coisa, Daniel?"
"Sim."
"Podes dar-me o teu número de telemóvel?"
Fiquei pensativo. Mais uma vez, seria eu a dar algo e ela continuaria na sombra.
"Também me dás o teu?"
"Quando chegar a Portugal, mando-te uma mensagem do meu número, pode ser?"
"Não sei...", fingi hesitar, preparando-me para lhe enviar os nove dígitos. Contudo, ela interpretou a hesitação a sério.
"Tudo bem, eu compreendo que não queiras dar. Afinal, tenho sido eu sempre a recusar revelar-me mais que nada."
"Mesmo assim, acho que és boa pessoa. Não me importo de te dar o meu número."
E enviei-lhe o meu contacto telefónico.
"Vais achar-me uma parva, mas não gosto de falar ao telefone. Só troco mensagens. Por isso, não me ligues, por favor, quando tiveres o meu número."
Bolas! Que mulher esquisita.
"Ok."
Como prometido, ao fim da tarde seguinte, recebi no telemóvel uma mensagem escrita de um número que não conhecia, a qual continha "Olá Daniel. A viagem correu bem e já cheguei a Lisboa. Beijinhos. Alexandra."
Nunca houve grande troca de mensagens pelo telemóvel. E nos primeiros três dias desde o seu regresso, a ausência de contacto foi quase total. Ao fim desse tempo, retomámos as nossas conversas no Messenger.
Alexandra estava a viver em casa dos pais, enquanto reestruturava a sua vida. Pretendia regressar à vida activa e procurava novo emprego na área da saúde. A sua postura reservada e enigmática não se alterou. Questionei-a sobre o namorado, se já conversara com ele, mas ela limitou-se a informar que estava a trabalhar nisso.
A meio do mês, a sua presença online vinha com um único objectivo e expressou-o logo que entrou no Messenger:
"Podemos encontrar-nos amanhã?"
Fiquei surpreso, perplexo e algo confuso.
"Porquê esse interesse súbito?"
"Tenho andado a ganhar coragem.", respondeu.
Digitei um smile a piscar o olho e adicionei:
"Não precisas de muita coragem. Não sou nenhum extraterrestre."
"É importante para mim que me conheças. Quero que me vejas. E não pode ser por foto. Quero que me conheças na realidade."
Comecei a sentir que poderia haver algum interesse dela para além da amizade. Não sei se isso me interessava, para ser honesto. Aquela vontade de se mostrar no mundo real, sem protecção ou obstáculo de um ecrã de computador, levava-me a crer que ela queria ter a percepção real do que eu pensava da sua figura, sem ter hipótese de disfarçar. Calculei que ela deveria ser feia... bem feia mesmo.
"Já te disse que o aspecto físico me é indiferente para ser amigo de alguém."
"Eu sei, Daniel."
Houve uma pausa, mas percebi que ela estava a escrever.
"Tenho um segredo. E quero contar-te esse segredo. Mas, tem de ser ao vivo. Não pode ser aqui."
Ui. Fiquei apreensivo. Um segredo? Que viria aí? Será que era um homem? Um gay que se apaixonara por mim e se fizera passar por mulher? Seria uma mulher com alguma deficiência? Comecei a interrogar-me se queria aquele encontro. Ela insistiu:
"Podemos encontrar-nos em Miramar, não me importo de ir ter contigo. Pode ser na praia que conheço."
Não sei se queria conhecer uma desconhecida tão perto de casa.
"Não precisa de ser aqui."
"Por mim calha bem, fica-me em caminho."
Fica-lhe em caminho? Pelo que deduzi, ela estava em Vila do Conde. Para onde iria, se Miramar lhe ficava em caminho?
"Fica-te em caminho?", interroguei numa mistura de curiosidade e confusão.
"Sim. Vou sair de casa dos meus pais para ir viver com uma amiga."
"E o teu namorado?", questionei sem saber bem porquê. Arrependi-me depois de enviar e esperava uma resposta a estranhar a minha referência.
No entanto, ela enviou:
"Se o meu namorado me perdoar, pode ser que depois volte a viver com ele."
Bom, a questão "namorado" ainda estava viva, por isso, talvez o seu interesse em mim não passasse mesmo da amizade.
"Não é melhor resolveres essas questões e depois combinamos um café?", sugeri, procurando adiar o encontro.
"É importante para mim. Podemos combinar amanhã à tarde, na praia?"
Confesso que não percebia a importância, qual a razão para ela subitamente querer encontrar-se comigo. Não tinha nada que me impedisse de comparecer ao combinado, daí que tenha aceitado, não sem antes colocar a dúvida:
"Como é que te reconheço?"
"Não te preocupes. Eu consigo reconhecer-te. Em todo o caso, eu serei a mulher de saia aos quadrados e terei uma camisa clara."
Algo naquela frase fez despontar um alerta, algo que me levantou uma suspeita que não consegui identificar. Era como se houvesse algo nos confins da minha mente que me queria gritar algo, só que o som não chegava ao meu consciente. No entanto, essa dúvida, essa suspeita pareceu extinguir-se assim que nos desconectámos do Messenger.

A manhã do dia 17 de Julho de 2014 nasceu quente, o Sol brilhava imponente nas ruas e adivinhava-se mais um dia tórrido, algo que sempre achei impossível de acontecer no Norte, quando vivia em Almada.
Deixara Leonor na escolinha que ela continuava a frequentar, apesar do período de férias. Contrariamente ao seu semblante sombrio e pouco sociável, era visível que gostava da escola e sempre era melhor que estar em casa longe dos coleguinhas.
No que respeita a agenda profissional, aquele seria um dia livre. Fui para o terraço apreciar a vista de mar azul forte ao longe. Pensava no encontro que iria ter nessa tarde, com uma desconhecida, quando o meu telemóvel tocou. Peguei no aparelho e surpreendi-me com o nome que vi piscar. Atendi:
— Olá, Tânia!
— Olá, meu amor! — ouvi-a dizer, notando algum ruído do local onde ela estava.
— Tanto barulho. Onde estás?
— Estou no aeroporto de Amesterdão. — informou com a sua voz quente e sensual. — Como estás?
— Estou bem. — respondi, vendo no céu um avião lá muito em cima. — E tu?
— Estou a ligar-te para te contar uma coisa. — disse, quase ignorando a minha pergunta. — Quero que saibas por mim, antes que o saibas por terceiros.
— Que se passa? Estás a preocupar-me.
Ouvi uma voz ecoar do outro lado da linha, alertando em inglês para uma porta de embarque. A voz de Tânia veio a seguir.
— Não é nada de grave, descansa. É que eu... Bom... Como dizer... Talvez seja melhor começar pelo princípio.
— Costuma resultar. — retorqui, impaciente.
— Estou na Holanda porque o meu namorado é holandês.
Pronto, percebi o objectivo do telefonema.
— E que tenho eu com isso? — questionei de forma rude, sem perceber que de repente me sentia magoado.
Tânia percebeu-o.
— Daniel... Tu disseste que não esperavas por mim.
— E não espero! — afirmei, adoptando uma postura firme sem evitar que o meu coração se começasse a rachar, quebrando-se naquele espaço que era dedicado a ela.
— Seja como for, ele é uma pessoa famosa. — prosseguiu. — E é natural que a comunicação social comece a falar nisso. — Suspirou. — Não quis que soubesses dessa forma.
— E devo agradecer-te?
— Merda, Daniel! Não sejas assim. — alterou-se.
— Desculpa. — pedi, tendo a noção que estava a ser injusto. — Tens o direito de ser feliz.
Nesse momento, ouvi uma voz interpelar Tânia. Era uma voz feminina e falava português. Tânia respondeu-lhe:
— Voo MH17 da Malaysia Arlines. Deve estar a aparecer a porta de embarque.
A outra voz ofereceu-se para ir ver no quadro com a listagem de voos em tempo real.
— Desculpa, Daniel. Era a minha amiga Jaymira. Não sei se conheces, ela é manequim.
— Sim, sei quem é. — confirmei, recordando a imagem da manequim angolana que começava a fazer furor nas passerelles internacionais. — Para onde vais?
— Kuala Lumpur. Temos um desfile lá.
— Desculpa a minha reacção. Apanhaste-me de surpresa.
— Eu compreendo.
O diálogo silenciou-se. Fiquei a ouvir os característicos avisos nos altifalantes, dando indicações de voos, partidas, chegadas... Não sabia o que dizer, aquilo quase parecia uma despedida.
E de facto foi. Aquela tornou-se na nossa última conversa. E até hoje sinto-me agradecido pela forma como se completou:
— Daniel. Não sei se vai resultar. Gosto muito dele, é um querido. Pode até ser o homem que me vai acompanhar para o resto da vida, não faço a mínima ideia. — Tornou a parar. Não à espera que eu dissesse algo. Procurava verbalizar tudo o que lhe ia na alma. — Não te estou a ligar só para te dar a notícia. Não sei porquê, mas hoje acordei com saudades de te ouvir e uma necessidade imensa de te dizer... Oh, Daniel... — Sorriu com a voz embargada. — Lamento tanto que não tenhamos tido oportunidade de ter uma vida juntos. Eu adoro-te! — Esperou uma reacção, mas não me deu tempo para isso. — Sei que a culpa é minha. Só que ainda não sinto que seja o meu tempo de parar, de abandonar algo que me realiza desta forma. — Soluçou. — Talvez um dia... Quem sabe? Pode ser que daqui a uns anos, quando eu... — Soltou uma risada. — ...ganhar juízo. Se estivermos ambos sozinhos... Quem sabe? Seja como for, não quis deixar de te dizer isto. Tu foste o homem mais maravilhoso que conheci, desde o puto tímido da escola ao homem que és hoje. E és a pessoa que eu mais amo neste mundo, hoje e sempre para todo o resto da minha vida.
Não sabia quais as melhores palavras, aquilo que ela mais gostaria de ouvir. Por isso, deixei o meu coração falar por mim:
— Eu também te amo, Tânia! — E amava-a quase tanto, quanto um dia amei Mafalda. — Espero que o holandês te faça muito feliz.
— Obrigado, meu amor. — agradeceu com tanta ternura na voz que senti o meu coração apertado. — Também espero que encontres alguém que te faça feliz, tanto quanto mereces.
— Faz boa viagem.
— Posso ligar-te quando chegar?
— Podes ligar-me sempre que quiseres.
Ouvi a voz de Jaymira a alertar que tinham de seguir para o embarque. Esperei uma última despedida, mas ao invés, Tânia disse:
— Independentemente do rumo das nossas vidas, há um pedaço muito grande do meu coração que será para sempre teu.
Despedimo-nos com ternura. Desejei-lhe uma boa viagem e ela sugeriu numa mistura de seriedade e humor que talvez pudéssemos tomar um café na sua próxima vinda a Portugal.
— Claro que sim. — concordei.
— Beijinho muito grande para ti, meu amor. — finalizou. — Ligo-te quando chegar.
Porém, não ligou. Infelizmente, não teve oportunidade de o fazer. E aquela foi a última vez que ouvi a sua voz.
Senti que o ciclo se fechava. Este poderia ser o fim deste conto, se o conto fosse sobre Tânia. Mas, não era...

Ao início da tarde, arrumava a louça do almoço ao som da música que ecoava pela casa, vinda da televisão sintonizada no canal VH1. Procurava abstrair-me da ansiedade pelo aproximar do encontro com a enigmática desconhecida com quem trocara tantas conversas nos serões das últimas semanas. Ponderava todas as hipóteses, preparando-me para qualquer eventualidade, qualquer cenário que me deparasse ao conhecê-la. Se fosse um homem, viraria costas e iria embora sem uma palavra e ele poderia ter muita sorte em não levar um soco. Se fosse feia... mesmo muito feia. Bom, colocaria a minha postura mais cordial, aceitaria a sua amizade e colocaria uma linha invisível para demonstrar que não estava interessado, caso ela a ultrapassasse. Se tivesse uma deficiência... Confesso que tenho alguma dificuldade em lidar com isso, mas jamais marginalizaria quem quer que fosse por ser diferente. Sei que me iria adaptar. Alexandra, por trás da cobertura do anonimato virtual, demonstrava ser um excelente ser humano. Nas muitas horas de diálogo online, constatei que tínhamos muito em comum, ela era uma pessoa com princípios parecidos com os meus, ideias bem assentes, uma forma de estar na vida com que me identificava. Acho que eu falava tanto em Mafalda com ela porque Alexandra, por vezes, me fazia recordá-la, recordar as muitas horas em que conversávamos quando eu trabalhava na loja e ela era uma jovem estudante a terminar o secundário.
Os meus pensamentos foram despertados para a música que se iniciava vinda da sala. Adorava aquela melodia que começava com "Excuse me for a while, while I'm wide eyed and I'm so damm caught in the middle". A canção intitulada "Strong" era cantada pela harmoniosa voz da vocalista dos London Grammar. Fiquei a olhar para o ecrã, sem me aperceber que murmurava "I excused you for a while, while I'm wide eyed and I'm so damm caught in the middle". Fiquei parado a olhar para o videoclip como se aquilo tivesse um significado especial, uma mensagem que me estava a ser transmitida e que eu não conseguia descodificar. Não me mexi até a melodia terminar, estático, pensando na letra, traduzindo-a mentalmente à procura do que não consegui discernir no momento. No fim, acabei por desligar a televisão e preparei-me para sair de casa, rumo ao encontro marcado.
A tarde quente atingiu-me com o bafo forte assim que saí para a rua. Vestia uma t-shirt branca com umas frases em inglês que já não me recordo e umas calças de ganga pretas, um pouco gastas. Caminhei calmamente pela rua em direcção à praia. O Sol lá no alto brilhava com todo o esplendor. Alcancei a avenida que me separava do areal. A partir dali, qualquer desconhecida poderia ser Alexandra. Recordei-me das suas referências, saia aos quadrados e camisa clara. Não vislumbrei ninguém assim. Atravessei a estrada, atento aos carros e às pessoas. Pensei em parar pela esplanada para tomar um café, mas o encontro fora marcado para o pontão, por isso, foi esse o trajecto que tomei. Cruzei-me com meia dúzia de pessoas que ia e vinham do areal. Observei um número significativo de banhistas a desfrutar da tarde de Verão, até porque naquela época era comum a zona estar mais preenchida de habitantes que tinham ali a sua casa de veraneio e estavam a passar férias.
Num ritmo vagaroso, avancei pelo pontão de madeira, o qual entrava pela praia. Vi o mar ao fundo, brilhante com os raios solares a incidir na água. Alcancei a extremidade, olhando em redor para ver se alguém se parecia com a imagem imaginada da desconhecida que vinha ao meu encontro. Ninguém. Sentei-me nos degraus que desciam para o areal. Olhei para trás e não havia uma única pessoa em todo o pontão. A minha atenção passou para as gentes na praia, estendidas ao Sol, em confraternização, as crianças a brincar, as ondas a embater na costa e o vento fraco a atenuar o calor. Pensei em Leonor que, àquela hora, estava na escolinha a brincar com os amiguinhos. Decidi que a levaria a passear por ali, mais logo, quando o Sol estivesse mais brando e a temperatura menos agressiva.
Perdi-me em pensamentos, deixando-me recordar alguns momentos significativos da minha vida. Pensei no telefonema de Tânia e a sua imagem com dezassete anos retornou à minha memória. Senti um aperto no coração, consciente que a perdera em definitivo. Como teria sido? Nunca o saberíamos. Revi-a no seu quadro glamoroso de super modelo com os seus trinta e sete anos. Para minha surpresa, houve uma farpa de angústia que me atingiu, vindo do nada. Atirei a sensação para longe.
A imagem feliz dos meus tios a sorrir abraçados defronte da lente da minha velhinha Canon materializou-se no meu pensamento, como um sopro de esperança. Quem me dera viver um amor como o deles... Suspirei entristecido. Eu vivera um amor como o deles. E tal como a morte separara os meus tios, também eu fui separado por ela de Mafalda.
Observei a praia, os banhistas. Nova recordação, a tarde na praia com Francisca, quando ambos andávamos no limbo entre a amizade e o amor. Lamentava a forma como a nossa relação acabara, a forma estúpida e insensível como Francisca colocara os seus interesses à frente dos nossos. Para além disso, fora igualmente responsável por eu e Mafalda não termos... Abanei a cabeça para ninguém. Não lhe poderia imputar isso, Francisca nem sequer sabia da existência de Mafalda. E naquela altura, um dia Vânia bem o dissera, como seria um namoro com Mafalda, sendo ela estudante e eu um repositor de supermercado, separados por cerca de duzentos quilómetros? Apesar de tudo, eu amei muito Francisca e sei que ela também me amou.
Uma rajada forte atingiu-me do nada. Sorri. Foi como se o vento dissesse "acorda, pá!". Aquele tipo de rajadas pareciam o vento agreste escocês. Ah... Edimburgo. Acho que a capital escocesa será para sempre a minha segunda cidade. Se acreditasse em reencarnação, iria jurar que numa outra vida eu fora escocês. Nunca conseguirei explicar aquela sensação de regresso a casa, quando saí, pela primeira vez, do aeroporto de Edimburgo. E foi lá que conheci a maravilhosa Kátya, a minha melhor amiga de sempre, uma das mulheres mais maravilhosas e queridas que conheci e que não merecia amar tanto alguém que não fora capaz de retribuir tudo o que ela me queria dar. Hoje, olhando para trás, sei que a amei profundamente. Talvez não o soubesse, na altura, ou não o quisesse admitir por continuar apaixonado por Mafalda. Mas, sim, a verdade é que a amava. E no fim de tudo, mesmo não sendo correspondida, acabou por ser ela a fazer de mim um pai. Leonor era o resultado fabuloso, maravilhoso, sensacional do único momento em que me permiti a ser completamente aberto com Kátya, em que não a rejeitei e em que fizemos amor.
Tornei a olhar para o areal, vendo as crianças a brincar. A morte decepara-me das pessoas mais queridas da minha vida. Talvez por isso, eu tivesse agora tanta relutância em deixar alguém entrar nela. Se pudesse pedir um desejo, seria ter Mafalda novamente comigo. Mas, ainda ninguém inventou a forma de resgatar os mortos para a vida. Não pensava muito em relacionamentos. Se ainda existia uma centelha de abertura a essa possibilidade, isso esfumou-se no momento em que Tânia decidiu prosseguir a sua carreira, ao invés de embarcar numa união comigo. Não queria novas pessoas na minha vida, na minha vida amorosa. Somente amigos. Daí que me dispusesse a conhecer Alexandra.
Uma criança chorou na areia, tropeçara e caíra num choro mimado. A mãe veio a correr, limpou-lhe as lágrimas e ela sorriu. Talvez fosse isso que fazia falta a Leonor, uma mãe para lhe limpar as lágrimas e a fazer sorrir... Eu limpava-lhe as lágrimas, acarinhava-a e sabia que ela se sentia segura comigo. Mas, em todo este tempo, jamais lhe despertei um sorriso. Não sei que mais poderia fazer para...
— Daniel? — ouvi uma voz chamar atrás de mim.
O seu timbre provocou-me uma pontada que não tive tempo de perceber. Contudo, sem ter consciência disso, voltei-me devagar, quase como se temesse o que iria encontrar. Olhei para os pés bonitos envolvidos pelas sandálias de couro. Subi pelas pernas esguias bem torneadas. Acima dos joelhos, vi a bainha da saia axadrezada em tons vermelhos e castanhos. Levantei-me do degrau onde estava sentado. A minha visão comportava-se como um mostrador digital, onde os caracteres numéricos rodavam loucamente na busca do código correcto. Cada pedaço do seu corpo era um número que parava. A saia apertada na cintura prendia uma camisa clara, a silhueta feminina elegante não me era nada estranha. Já lá ia mais de metade do código descodificado, mesmo que o meu íntimo se recusasse a aceitar o que aí vinha. Os braços nus escondiam-se atrás das costas, numa postura indefesa. Os meus olhos continuaram a subir pela camisa entreaberta até ao colarinho. Os ombros estavam cobertos por caracóis ruivos pertencentes a uma farta cabeleira que envolvia o rosto bem delineado, com nariz singelo, uma boca simples de lábios carnudos e olhos grandes azuis que me observavam com uma mistura de ternura, paixão e receio.
Senti um choque tremendo ao encarar o seu rosto, o que me fez procurar apoio num dos postes de madeira do pontão. Aquilo não era possível. Completamente perdido, tentei dizer algo.
— Alexandra? — verbalizei.
Contudo, a minha mente queria dizer o seu nome, o seu verdadeiro nome... Mafalda.
Ela anuiu, hesitante, temerosa da minha reacção.
Eu não consegui reagir, começando a ficar com a visão turva, pois as lágrimas começaram a inundar-me os olhos. Isso desencadeou em Mafalda um par de lágrimas que começaram a escorrer-lhe pelo rosto.
— Não é possível... — balbuciei incrédulo.
Ela voltou a anuir e confirmou:
— Sim, é possível. Sou eu, Daniel, a Mafalda.
Abanei a cabeça. Estaria a sonhar? Como eu desejei aquela fantasia desde o dia da sua morte... da sua suposta morte.
— Disseram-me que tinhas morrido. — relatei, limpando o rosto com as mãos. — A Vânia... Porquê?
— Fui eu que lhe pedi. — confessou, esticando o braço, hesitante, na minha direcção.
— Como? — interroguei, estupidificado, afastando-me do seu toque. — Tu pediste-lhe para me dizer que tinhas morrido?
Percebendo a rejeição à sua intenção de me acarinhar, Mafalda recolheu o braço e desviou o olhar, despertando para o seu maior receio, aquele que tantas vezes me dissera online, o medo que o namorado não a perdoasse, sem que eu compreendesse que se referia a mim.
— Podemos conversar? — pediu com a voz a tremer e indiferente às próprias lágrimas. — Quero contar-te tudo.
Eu não a ouvia. Estava tão magoado que os meus ouvidos assimilavam as suas palavras como se viessem em mandarim.
— Fizeste-me acreditar que tinhas morrido? Sabes o quanto eu sofri ao longo destes quase dois anos?
— Por favor, Daniel. — quase que implorou. — Deixa-me explicar.
— O que pode haver para explicar, Mafalda? Quem é que faz isso a alguém que se ama? — questionei irritado. — Ou que supostamente se ama.
— Não! — exclamou, ripostando com retemperada firmeza. — Nunca coloques em causa o meu amor por ti. Foi por te amar que fiz o que fiz.
Um casal aproximava-se pelo pontão. Não queria continuar aquele diálogo perante olhares de terceiros. Mafalda aproveitou para insistir:
— Quero contar-te o que aconteceu. Podemos ir para um lugar mais tranquilo? — Suspirou. — Se depois disso não me quiseres mais na tua vida, prometo que me vou embora e nunca mais me verás.
Estava tão magoado que descarreguei o que sentia sem filtros:
— Já te foste embora uma vez, não me parece que me faça diferença que vás em definitivo.
Mafalda soluçou, amargurada por me estar a perder, e pediu:
— Não sejas cruel, por favor!
Acabei por aceder a ouvi-la. Não encontrei outro sítio mais tranquilo para conversarmos que não fosse a minha casa. A casa que outrora fora nossa.
Lado a lado, caminhámos em silêncio pela rua. O ambiente alegre que nos rodeava contrastava com o negrume que ensombrava as nossas almas. Não trocámos uma palavra, uma sílaba que fosse, até entrarmos no meu apartamento.
Com um gesto frio, convidei Mafalda a entrar. Ela avançou com o olhar a contemplar um espaço que lhe trazia tantas memórias e tanta saudade. Sem que precisasse de incentivo, seguiu para a sala. Parou para ver as fotos que não conhecia. Não conteve um sorriso tímido ao ver a sua imagem em várias molduras. Depois, dedicou a sua atenção à foto de um casal, uma foto mais antiga que a maioria.
— São os teus tios? — perguntou num tom simpático, tentando quebrar o gelo. Assenti sem abrir a expressão zangada. — Parecem ter sido um casal feliz.
Não me pronunciei, sentando-me numa cadeira. Mafalda ocupou um dos lugares no sofá.
— Não te queres sentar aqui? — sugeriu, apontando para o lugar a seu lado.
— Estou bem aqui. — recusei com frieza.
Os momentos que se seguiram foram de silêncio. Mafalda não sabia como começar e eu também não lhe facilitei a vida.
— Nem sei por onde começar. — disse por fim.
— Pelo princípio costuma resultar. — atirei com desprezo. — Mas, podes sempre começar pelas mentiras... Alexandra.
A forma de a tratar pelo nome que usara nas nossas conversas no Messenger foi usada quase como um insulto, recordando-a que era uma mentirosa.
Mafalda ignorou a agressividade.
— Não te menti em relação ao nome. Se tivesses prestado atenção, quando estávamos juntos, saberias que me chamo Mafalda Alexandra. — Encolhi os ombros como se isso fosse irrelevante. — Nunca te quis magoar. Foi muito difícil tomar a decisão de te afastar da minha vida. — Encarou-me o olhar com determinação. — Eu estava a morrer, Daniel. Os médicos, cá em Portugal davam-me poucos meses de vida. Não queria arrastar-te nesse sofrimento. — Fez uma pausa, tentando perceber a minha reacção. Permaneci uma estátua. — Quando surgiu a hipótese do tratamento inovador nos Estados Unidos, nem pensei duas vezes. Mas, não queria ter-te por perto. — Não evitou nova lágrima. — Por favor, Daniel, tenta perceber. Eu não conseguia lidar com a nossa relação durante a doença. Sentia-me desprezível aos teus olhos...
— Eu nunca te fiz sentir assim. — interrompi.
— Não estou a dizer que fizeste. — explicou. — Estou a dizer-te como me sentia. — Cruzou as pernas e colocou os dedos entrelaçados sobre um joelho. — Nos Estados Unidos, fui observada por um especialista que me explicou como se processaria o tratamento. Foi muito honesto, alertou-me que iria atravessar uma fase muito complicada, muito sofrimento e que, no fim, as probabilidades de sucesso eram irrisórias. Na prática, poderíamos estar apenas a adiar o inevitável. — Penteou os caracóis com uma mão e limpou a face com a outra. — Tu irias sofrer sempre com a minha... Quando partisse. Por isso, para quê prolongar o teu sofrimento? Se tinhas que atravessar essa dor, mais valia que fosse o quanto antes para que fizesses o luto e prosseguisses com a tua vida.
— Não achas que me cabia a mim essa decisão?
— Qual teria sido, Daniel? — questionou, sabendo a resposta. — Qual teria sido a tua decisão?
— Teria estado a teu lado até ao fim.
— E que terias ganho com isso? Só sofrimento.
— Não, não era só sofrimento. Tu estás aqui, viva.
Mafalda abanou a cabeça.
— Só te quis proteger. Lamento muito ter-te magoado.
— A Vânia disse-me que tinhas sido operada e que não resistiras à cirurgia. — contei, recordando o dia em que a amiga me viera trazer a mentira.
Ao mesmo tempo, veio à minha lembrança o beijo que lhe roubara e o seu afastamento. Ah... Agora percebia o que ela quisera dizer ao confessar que, tal como eu, no beijo, também ela estava a pensar em Mafalda. Não era um amor platónico, era culpa pela traição à amiga.
— Sim, foi o que lhe disse para te dizer. — confirmou. — Ela contou-me como ficaste desesperado com a notícia. Não imaginas o que chorei por imaginar o que deverias estar a sofrer.
— Ela tentou ajudar-me a atenuar a dor. — retorqui, transparecendo algum descontentamento. — Depois, também desapareceu.
— A Vânia receou que pudesses estar a interessar-te por ela.
— Era a única pessoa que te conhecia, com quem eu podia falar sobre ti. — expliquei. — Foi uma espécie de terapia. Não percebo onde ela foi buscar essa ideia.
Mafalda esboçou um sorriso torcido.
— Talvez no beijo na boca que lhe deste? — Não evitei uma expressão comprometida. — Sim, a Vânia contou-me tudo. Eu tinha-lhe pedido para te auxiliar no que pudesse. Só que perante esse... acontecimento, ela tomou a decisão de se afastar e eu não a contrariei.
— A tua amiga é uma actriz do caraças. Fez um papel...
— Não a culpes, por favor. A Vânia só fez o que lhe pedi. É a minha melhor amiga, é uma irmã. Se te interessa saber, ela foi contra a ideia de te afastar e zangou-se comigo quando lhe contei a minha decisão de te fazer acreditar que tinha morrido. Só que, como grande amiga que é, acedeu a tudo o que lhe pedi.
— Que aconteceu a seguir? — indaguei, controlando a paixão e amor que sentia por aquela mulher.
— Como te disse, as hipóteses de sucesso eram escassas. Fiz tratamentos que ajudaram a diminuir o tumor até se tornar possível a cirurgia. Isso levou alguns meses. — Desviou o olhar para as grandes janelas de vidro que davam acesso ao terraço, revendo esse tempo. — A operação, segundo me contaram, levou muitas horas e não foi um completo sucesso. Extraíram o tumor, mas houve complicações e eu fiquei em coma várias semanas. A minha mãe, que me acompanhou todo esse tempo, disse-me que cheguei a ter uma paragem cardíaca e tive quase a ir para o outro lado, o que seria inglório depois de me livrar do mal que me levara àquele estado. Felizmente, consegui recuperar e despertar do coma.
Esquecido momentaneamente da raiva por ter sido afastado por ela e da ira pela mentira, falei pela primeira vez num tom afável:
— E estás curada?
Mafalda ofereceu-me um largo sorriso. Como eu amava aquele sorriso.
— Completamente. — As lágrimas assolaram-lhe novamente o olhar azul. — Acreditas em milagres? Eu passei a acreditar.
Eu já não sabia em que é que haveria de acreditar.
— E que foste fazer para o Brasil?
Mafalda soltou um riso divertida.
— Nunca estive no Brasil. Estava nos Estados Unidos. Não te quis dizer por receio que pudesses suspeitar de algo. — Novo sorriso ingénuo e humorado. — Dei-te uma pista com a imagem do meu perfil falso do Facebook.
— A Brave. A princesa Mérida.
— Sim, a rapariga de caracóis ruivos.
A minha mente continuava a descodificar as pistas tão claras e que na altura nem me passaram pela cabeça.
— Quando te disse que o meu tempo no Brasil (que era nos Estados Unidos) terminara foi quando recebi a confirmação de que estava totalmente curada.
— Mas procuraste-me muito antes disso. — lembrei confuso.
— Procurei-te quando a perspectiva de uma morte certa deu lugar a grandes probabilidades de cura total. — explicou com um semblante cada vez menos triste e mais confiante. — Perante a hipótese de realmente sobreviver, o meu objectivo passou a ser recuperar a coisa mais importante da minha vida, recuperar-te a ti.
Não me manifestei, mantendo todas as defesas levantadas sem lhe dar sinal do turbilhão de sentimentos que me perturbavam o espírito. Isso pareceu desapontá-la. Ficou a observar-me, expectante por uma reacção que não aconteceu.
— Bom... — prosseguiu, tornando a entrelaçar os dedos sobre as pernas cruzadas. — Era isto que te queria contar. Sei que te magoei ao ter agido desta forma. Mas o meu amor por ti continua tão grande e tão forte como antes. — Cravou o olhar em mim, como se me cercasse para obter um sinal daquilo que eu queria. — Disse-te a verdade, online. Venho à procura do perdão do meu namorado e a esperança de poder retomar a vida que deixei em suspenso, quando parti e te afastei. — Amava-a tanto quanto a queria castigar pelo que fizera. Por isso, retribuí o seu olhar com firmeza e sem me pronunciar. — Será que me podes perdoar?
— Não sei se consigo ultrapassar tanta mentira.
— Isso significa que não me queres de volta? — inquiriu com toda a frontalidade.
Eu desviei o olhar, escondendo o amor mais intenso que alguma vez sentira por alguém. Ao invés de responder, questionei:
— Disseste que este encontro te ficava em caminho...
A frase apanhou Mafalda de surpresa. Rapidamente se lembrou da troca de mensagens na noite anterior.
— Venho da casa dos meus pais na Figueira da Foz. — relatou, esforçando-se para não tremer a voz. — Vou reassumir as minhas funções no hospital. — Olhou-me com imenso carinho, indefesa. — Trago tudo o que é importante no carro. Estou a caminho da casa da Vânia. A menos que...
— A menos que?
— A menos que me queiras de regresso à tua vida. — confessou na esperança de obter uma reacção de felicidade da minha parte.
— Não sei...
A dúvida atingiu-a como um tiro, uma certeza dolorosa.
— Ok. Já percebi, Daniel. — balbuciou, segurando as lágrimas sem sucesso. Levantou-se. — É melhor ir andando. Não te maço mais. — Afastou-se do sofá. — Prometo que não voltarei a incomodar-te.
Ao passar por mim, segurei-lhe o braço pelo pulso, travando a sua passada. Levantei-me da cadeira e virei-a, deixando-nos cara a cara.
— Como podes pensar que eu deixaria fugir novamente da minha vida a mulher que eu mais amo neste mundo? — interroguei, segurando-lhe o pulso com carinho.
O rosto húmido de Mafalda esboçou um sorriso confuso.
— Daniel...
Abracei-a pela cintura e puxei-a para mim. Ela envolveu o meu pescoço com os seus braços. Permitimo-nos olhar bem no fundo dos olhos do outro. Sorrimos e os nossos rostos aproximaram-se, as nossas bocas tocaram-se, os nossos lábios acariciaram-se. Toda a paixão contida explodiu num beijo tão profundo quanto o nosso amor.
Mafalda estava de volta e veio para ficar, pois eu jamais a deixaria partir de novo.
— Onde está o teu carro? — indaguei após o beijo. — Vamos buscar as tuas coisas!
Alguns minutos mais tarde, ambos reentrávamos no apartamento carregando toda a bagagem de Mafalda. Ela largou as malas na entrada. Ficou a olhar como se fosse a primeira vez que ali entrava.
— Estás bem? — inquiri, segurando o resto dos sacos de viagem.
Mafalda assentiu, revelando um sorriso emocionado. Eu avancei pelo corredor e fui colocar a bagagem no nosso quarto para que depois tudo fosse arrumado nos devidos lugares. Ao regressar, encontrei Mafalda à porta do outro quarto, espreitando para o interior.
— É o quarto da Leonor. — disse, como se fosse preciso identificar.
— Ainda me recordo de como usavas este espaço para arrumar o teu equipamento fotográfico e como estúdio. — Olhou para mim, feliz. — Quase me senti uma modelo, naquelas vezes que me fotografaste aqui. — Avançou para o interior, olhando para as fotos que eu pendurara na parede.
— É a mãe dela, não é? — inquiriu, apontando para a foto de Kátya com a filha. — Recordo-me dela no meu casamento. Não tinha o direito, mas senti ciúmes quando te vi chegar com ela.
— A Kátya era uma amiga muito especial.
Mafalda encarou-me com curiosidade.
— Foi mesmo na noite do meu casamento?
— Sim. — confirmei. — A Leonor foi concebida nessa noite. Aliás, foi a única vez que eu e a Kátya...
— Tens saudades dela?
— Sim. — confessei sem receio. — Apesar de ter estado longe, isso não diminuiu a amizade que tinha por ela. Foi muito duro, ver como morria mais um pouco a cada dia.
— Então, percebes o que te quis evitar?
— Talvez... Mafalda. percebo que tivesses querido poupar, mas não te cabia a ti essa decisão.
Mafalda anuiu sem intenção de argumentar.
— E a pequena?
Encolhi os ombros, revelando a impotência.
— Continua triste. Nunca mais a vi sorrir, desde a morte da mãe.
— Tadinha...
Saí do quarto e fui buscar as malas deixadas atrás da porta do apartamento. Trouxe-as para o nosso quarto, onde Mafalda já se encontrava, olhando emocionada para as fotos do seu rosto sorridente nas paredes.
— Não acredito. — murmurou.
Pousei a bagagem junto da outra, dizendo:
— Dava-te os bons dias todas as manhãs, acreditando que me estavas ouvir num cantinho do céu.
— Tu és tão maravilhoso. — elogiou com os olhos húmidos. — Eu fui...
— Xiu. — interrompi com carinho, colocando um dedo nos seus lábios. — Vamos esquecer essa fase má. Temos uma vida inteira pela frente.
Mafalda sorriu e abraçou-me com força. Trocámos um beijo carinhoso, um beijo enamorado. A sensação de a ter novamente nos meus braços era maravilhosa. Poder tocá-la, acariciá-la...
— A que horas tens de ir buscar a Leonor à escola? — questionou do nada.
Peguei no telemóvel e olhei para o relógio.
— Daqui a duas horas.
Mafalda atirou-me uma expressão libidinosa, olhou para a cama e depois para mim, mordiscando o lábio inferior. Percebi a sua intenção e beijei-a de novo. Puxei-lhe a camisa para fora da saia e comecei a desapertar-lhe os botões. Ela despertou-me as calças e despiu-me a t-shirt. Já sem botões para desapertar, afastei as abas da camisa, envolvendo-lhe a cintura e apertando-a contra mim. Mafalda desfez-se da camisa, atirando-a para o chão. As minhas mãos subiram pelas suas costas, dedilhando o fecho do sutiã.
— Espera! — pediu, soltando-se do abraço. — Espera um pouco.
— Que se passa?
Num sorriso envergonhado, disse:
— Já lá vai algum tempo, Daniel. Vamos com calma, por favor.
— Quando foi a tua última vez? — foi a pergunta mais estúpida que eu poderia fazer naquele momento.
— Quando achas que foi? — retorquiu com um semblante de "não te lembras quando o fizemos pela última vez?"
Só que assim que ela o disse, duas certezas lhe surgiram na mente: Que eu julgava que ela tivera algum relacionamento durante aquele tempo e que a minha última vez não fora com ela. Não escondeu a decepção no olhar.
Tive consciência que cometera um erro.
— Mafalda...
— Não, Daniel. Não quero saber. — exigiu, afastando-se para a cama. — Não tenho o direito de te cobrar nada. — De costas para mim, puxou o lençol para trás. Virou-se e desapertou o fecho da saia. — Só quero que me digas se tenho de tomar alguma precaução.
— Não. Não precisas de te preocupar. — descansei-a. — Fi-lo com protecção.
Mafalda anuiu, qual inquisidora satisfeita com o interrogatório. Subiu para a cama e sentou-se encostada à cabeceira.
— Vens?
O seu convite trouxe-me de volta à realidade, pois perante aquele incidente de confissão, ficara pasmado a observá-la. Despi os boxers e contornei a cama, sentando-me a seu lado.
— Estás bem? — questionei, sentindo a sua hesitação.
Ela sorriu envergonhada.
— Estou nervosa.
— Porquê?
— Tenho receio de estar... sei lá... destreinada.
Soltei uma gargalhada, o que a deixou ainda mais envergonhada.
— Desculpa, amor, foi sem intenção. — pedi perante a sua súbita timidez. — Não tens de recear nada. Se não te sentes à vontade, podemos ficar só a namorar.
Mafalda baixou o olhar para a minha cintura.
— Pois... Queres que acredite nisso? — interrogou, vendo como ansiava por ela.
— Vem quando te sentires pronta.
O seu sorriso encantador despontou no seu rosto doce e tão cativante. Debruçou-se ligeiramente para a frente e levou as mãos às costas, desapertando o sutiã, o qual despiu e atirou para o chão. Movendo-se como se estivesse sozinha, elevou as ancas e puxou o elástico das cuecas, desfazendo-se delas e atirando-as também para o chão. Por fim, levantou-se e rodou na minha frente, colocando um joelho de cada lado das minhas coxas. Em jeito de provocação, encostou o peito ao meu rosto, convidando-me a tocar-lhe os mamilos com os lábios. As minhas mãos apertaram os seios redondos perfeitos, ao mesmo tempo que lhe dava chupadelas ternas. Ouvi os seus gemidos excitados.
Sedenta de desejo, empurrou-me para baixo, fazendo-me deslizar entre as suas pernas. Olhou-me nos olhos completamente apaixonada e, num tom meloso, disse:
— Vamos sintonizar as nossas últimas vezes?
Concordei, sentindo que a amava tanto que o coração parecia explodir no meu peito. Vi-a baixar-se devagar, a sua mão a acariciar-me a fonte de desejo. Toquei-a entre as pernas, sentindo os lábios húmidos a receberem-me. Olhei para Mafalda que se curvava para trás e virara o rosto para o tecto, num espasmo de excitação.
A primeira vez foi rápida. Contínhamos tanta paixão e tanto amor acumulados naqueles últimos quase dois anos que a explosão de prazer foi como um relâmpago. Mafalda deixou-se cair sobre mim, sem conter os espasmos de prazer que lhe percorriam o corpo. Ofegante, sussurrou-me ao ouvido:
— Amo-te, Daniel!
— Eu também te amo, Mafalda!
Rodei-a com carinho no colchão, deitando-a de barriga para cima. Coloquei-me sobre ela, apoiando-me nos braços para não lhe pesar. Trocámos beijos carinhosos, as nossas bocas não se descolavam mais que meio segundo. As nossas línguas confraternizavam como dois amantes que não se viam há demasiado tempo.
Ao fim de alguns minutos naquele enamoramento, Mafalda afastou as pernas e dobrou os joelhos. Olhei-a nos olhos. Ela sorriu. Poderia haver maior felicidade que aquela que estávamos a sentir naquele momento? Aceitei o seu convite.
A segunda vez foi mais demorada, cada momento saboreado com calma e tranquilidade. Fomos invadidos por uma paz interior tão confortante que o tempo parecia ter parado à nossa volta. Amámo-nos com tanto afecto, explorámo-nos com tanto amor, derretemos os corpos um no outro... até ao momento em que a excitação cresceu e o ritmo aumentou. As nossas bocas embatiam como se quisessem literalmente comer-se uma à outra. Senti as suas mãos nas nádegas. As minhas apertaram os seus seios. O colchão rangia a cada investida minha dentro dela. As suas unhas cravaram-se na minha pele, no momento em que o seu grito de êxtase ecoou pelo quarto, indiferente a quem pudesse ouvir. No mesmo instante, um espasmo de prazer brotou de mim e aqueceu-lhe o ventre.
Completamente fatigados, permanecemos na cama, estendidos ao comprido. Mafalda deitou a cabeça no meu ombro e acariciou-me a barriga, enquanto eu a abraçava.
— Estou tão feliz! — afirmou. — Até tenho medo.
— Não tenhas. Já passámos por tanto que acho que o destino não nos trará mais tropeções.
— Amo-te tanto que até dói. Tive medo de te perder de vez.
— És o amor da minha vida, Mafalda. — assumi sem complexos. — Quero-te para sempre a meu lado!
Ela virou a cabeça para mim, olhando-me intrigada.
— Estás a pedir-me em casamento?
Levantei-me devagar, retirando o braço debaixo dela. Ajoelhei-me no colchão e adoptei uma postura séria. Ela percebeu e repetiu o movimento, ficando na mesma posição defronte de mim. Era um quadro curioso, um homem e uma mulher, completamente nus, ajoelhados um para o outro.
Segurei as suas mãos. Ela encarou-me incrédula.
— Não acredito nisto. — espantou-se perante a minha postura.
Num tom cheio de formalidade, disse:
— O meu nome é Daniel. Para sempre teu, para sempre a teu lado!
Mafalda emocionou-se com o momento. A lágrima que brotou do olho esquerdo foi um sinal de pura felicidade. Não era oficial, mas para nós, naquele instante, estávamos a casar as nossas almas. Por isso, não hesitou em dizer:
— O meu nome é Mafalda. Para sempre tua, para sempre a teu lado!

Faltavam cerca de vinte minutos para a hora a que todas as tardes eu ia buscar Leonor à escola. Deslocava-me sempre a pé e aquela vez não foi excepção. O ambiente não estava tão quente como antes, mas ainda se sentia um ar abafado na rua.
Mafalda acompanhava-me no trajecto. Caminhávamos com as nossas mãos presas uma na outra e com os dedos entrelaçados, emanando felicidade. Porém, conforme nos aproximávamos da escola, senti a tensão crescer nela.
— Que se passa?
— Estou nervosa. — confidenciou, timidamente. — Acho que só agora estou a ter noção da realidade. Vou conhecer a tua filha.
— E então?
— Tenho receio que possa não gostar de mim.
— Não digas isso. Tu és adorável.
Mafalda encostou a cabeça no meu ombro, retribuindo o carinho. Contudo, a sua apreensão não desapareceu.
A escola era um edifício térreo, moderno, cercado por um muro de arbustos que impedia a visão para o interior do pátio. Àquela hora, o portão da escola estava aberto e era permitido entrar para ir buscar as crianças. Pais, avós, tios, irmãos ou outros responsáveis aglomeravam-se à volta da porta principal, à espera que o seu pequeno viesse. Mafalda sugeriu aguardar um pouco mais atrás, enquanto eu ia para o meio da pequena multidão.
À hora certa, as funcionárias da escola abriram a porta. Lá dentro, os diversos grupos de crianças perfilavam-se obedientes, esperando a sua vez. As senhoras conheciam todos os respectivos responsáveis de cada menino e menina, por isso, conforme apresentavam um pequeno na porta, um adulto chegava-se à frente e elas confirmavam a correspondência.
Leonor apareceu no seu ar triste e rosto infeliz. Uma das funcionárias indicou-lhe onde eu estava e ela caminhou vagarosamente até mim. Baixei-me para a abraçar e dei-lhe um beijinho.
— Como foi o teu dia?
Ela encolheu os ombros, triste.
Observando o seu rosto, fui contagiado pela apreensão de Mafalda. A minha felicidade estava a distrair-me do pormenor que, para Leonor, Mafalda era uma estranha com quem teria de passar a conviver. Que pensaria a minha filha sobre isso? Que estava a arranjar-lhe uma nova mãe, uma substituta? Lamentei não ter pensado melhor naquilo que haveria de lhe dizer sobre isso.
As pessoas passavam por nós, indiferentes, com a atenção nos pequenos que falavam animados do seu dia.
Olhei para o muro onde Mafalda aguardava. Ainda me custava acreditar que tudo aquilo estava a acontecer. Receava que tudo fosse um sonho do qual eu despertaria em breve. Ao longo dos anos habituara-me que tudo o que era bom também era efémero, mas como diz o povo "não há bem que para sempre dure, nem mal que nunca acabe" ou qualquer coisa parecida.
Tive medo. Tive medo que a Leonor rejeitasse Mafalda.
— Anda. Quero apresentar-te uma pessoa.
Sem perder a expressão fechada, o seu olhar tornou-se curioso.
Segurando a sua mão, trouxe-a até ao lugar onde Mafalda aguardava. Leonor olhou-a intrigada, sem alterar um único traço facial.
Mafalda sorriu-lhe e colocou-se de cócoras, para ficar à sua altura.
— Leonor! Apresento-te a Mafalda. É uma amiga muito especial do pai. E espero que possa ser também muito especial para ti.
A minha filha ficou a olhar, estática, inexpressiva.
— Olá, Leonor! — cumprimentou Mafalda. — Posso dar-te um beijinho?
A pequena assentiu com a cabeça.
Mafalda deu-lhe um beijo na face.
Para minha surpresa e dela, Leonor perguntou:
— Vais ser minha mãe?
Mafalda ficou sem saber o que dizer. Eu baixei-me ao lado da minha filha e expliquei com a maior honestidade, consciente que apesar da idade, havia conceitos que ela já percebia:
— A Mafalda é namorada do pai. E vem viver connosco, lá em casa.
Leonor continuou sem demonstrar se isso lhe agradava ou não.
Mafalda estudara e fizera carreira na área médica a lidar com crianças, uma vez que era pediatra. Com enorme ternura, segurou a mão de Leonor e disse:
— Sei que perdeste a tua mãe. Nunca ninguém a irá substituir na tua vida. — Leonor ouvia-a com atenção. — Gosto muito do teu pai. E tenho a certeza de que também vou gostar muito de ti. Podes ter a certeza que serei sempre tua amiga e poderás contar comigo sempre que precisares. — Era exasperante a falta de reacção de Leonor. Porém, Mafalda foi paciente. — Ninguém substitui a tua mãe. Mas, também não há nada que proíba uma menina linda como tu de ter uma segunda mãe. E se tu quiseres, nada me faria mais feliz que poder ser a tua segunda mãe.
Aquela tarde estava a ser tão feliz que eu não pensei que pudesse sentir-me ainda mais feliz. Só que isso aconteceu, logo após as palavras de Mafalda, quando olhei para o rosto de Leonor e ela estava... a sorrir.


fim do conto VI




FIM

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