Capítulo II
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O Sol voltara a desaparecer durante a tarde. Gabriel conduzia o Ferrari sem infringir qualquer regra, apesar de gostar que os cavalos andassem à solta.
A reunião correra bem. Não podia obrigar o staff técnico dos Maple Leafs a colocar Tiivu no gelo em todos os jogos, mas obteve um compromisso de que não seria exilado nos Marlies. Regressara ao escritório, informara o finlandês e viu-se envolvido em mais assuntos para tratar relativos aos seus jogadores, uma vez que se aproximavam os inícios das épocas de hóquei e basquetebol.
No entanto, a seguir a um almoço que não passara de umas sandes mastigadas à pressa, Gabriel abandonou o Bay-Adelaide Centre para um compromisso que nada tinha a ver com a sua profissão.
O potente motor do Ferrari ecoou na Bay Street. Os semáforos pareciam ter combinado todos em seu desfavor. O trajecto foi muito parecido ao que realizara a pé pela manhã, até entrar na Gardiner Expy, a via rápida que atravessava Toronto ao longo do lago, e permitir-se a pisar o acelerador.
Olhou para a direita, vendo o aproximar da CN Tower, uma das maiores torres do Mundo. Logo a seguir, reparou no Rogers Centre, o estádio onde a equipa de basebol, os Toronto Blue Jays jogavam, com a sua cúpula fechada. Calculou que ia chover. Os habitantes de Toronto há muito que se haviam habituado a ver no Rogers Centre uma espécie de boletim meteorológico, pois se a cúpula estivesse fechada era sinal de que a chuva visitaria a cidade, enquanto que se estivesse aberta isso representaria que os guarda-chuvas poderiam ficar em casa.
Ao longo dos anos no Canadá, Gabriel não evitara só os relacionamentos amorosos, também evitara amizades, fosse com homens ou mulheres. Optara pela via da solidão, uma vida independente de tudo e de todos.
Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!
Para quê tentar fomentar amizades? Para que serviriam amigos, a não ser para o incomodar e fazer perder tempo? E tempo livre era coisa escassa no seu dia a dia. Se quisesse ir beber um copo, ligava para um dos nomes da lista de dez. Se quisesse ir ver um filme ao cinema ou outro espectáculo a que não estivesse interessado em ir sozinho, ligava para um dos nomes da lista de dez. Na verdade, os únicos espectáculos em que demonstrava interesse eram os desportivos e gostava sempre de ir sozinho, acabando por encontrar conhecidos que lhe colmatavam os tempos morto. Se quisesse ir jantar fora, ligava para um dos nomes da lista de dez. E ainda beneficiava do facto de, em todas essas ocasiões em que ligava para um dos nomes da lista de dez, terminarem na cama do seu quarto.
Se quisesse falar, se precisasse de desabafar, de alguém que o escutasse, que talvez lhe pudesse dar um conselho ou contrapor a sua visão dos factos, então, Gabriel ia ao encontro da pessoa a quem pagava para isso, um psicólogo a quem gostava de chamar de terapeuta para evitar o peso da palavra "psicólogo".
O doutor Phil vivia numa moradia num bairro familiar em Mississauga, uma localidade a oeste de Toronto da qual não distava mais que uns vinte quilómetros. Era um afro-americano nascido em Buffalo que, quando se formara, acabara por se radicar na região de Ontário. Cinquentão, Phil revelava um aspecto de sexagenário, mas o seu espírito e humor eram de trintão.
O gabinete onde recebia os pacientes era tão natural como a sala de estar de um qualquer apartamento. Naquele lugar, nada dava sinais de se tratar de um consultório ou sequer um escritório. As paredes eram beges, o tecto branco e o chão alcatifado, o que produzia uma sensação de paz a quem entrava. Várias fotos de paisagens bonitas emolduradas e penduradas compunham a decoração, onde o mobiliário era um sofá, uma poltrona, uma mesa baixa e um aparador comprido. Todo o espaço era iluminado de forma ténue pela claridade do exterior proveniente das janelas a que os canadianos apelidavam de "french doors". A vista era somente o relvado do jardim que envolvia a moradia.
Naquela tarde não havia muita luz a entrar, as nuvens persistiam em sobrevoar as margens do lago Ontário e seria uma sorte se não chovesse. Phil recebeu Gabriel com aquele sorriso acolhedor de sempre. Tinha um estilo muito próprio, envergando sempre uma camisa clássica, calças de bombazina e um colete sem mangas, como se tivesse deixado o casaco esquecido algures. Calçava sapatilhas, sempre sapatilhas.
O ambiente na sala era iluminado pela linha de luz suave das lâmpadas escondidas na sanca que rodeava o tecto da divisão. Para além disso, ao lado da poltrona, um outro candeeiro de pé enviava uma luz fraca que se destinava a apoiar o utente do assento.
Gabriel não retribuiu o sorriso, quase nunca o fazia. Não ia ali visitar um amigo, ia visitar o terapeuta, o que significava que estava com um problema e com poucos motivos para sorrir. Phil estava habituado a isso e desvalorizou aquilo que poderia ser alguma antipatia do paciente. Gabriel entrou e percorreu o espaço em movimentos automáticos, já perdera a conta às vezes que ali fora, e sentou-se no sofá. Phil acompanhou-o e tomou o seu lugar na poltrona.
— Como te sentes, Gabriel?
— Na merda.
Parecia incompreensível que alguém com tanto dinheiro pudesse não ser feliz.
Ah... Havias de ter contas todos os meses e não ter dinheiro para as pagar. Talvez assim soubesses o que é infelicidade.
Phil não fazia juízos, não lhe cabia julgar, apenas ouvir e ajudar.
— Continuas a ter episódios de angústia?
— Cada vez mais frequentes.
— A que é que achas que isso se deve?
— Esperava que me soubesses dizer, Phil. Afinal, é para isso que te pago.
Phil fez uma expressão paternalista.
— Já te disse várias vezes, Gabriel. Pode ser descrito como depressão, mas acho que tu sofres simplesmente de solidão.
— Podes passar-me uma receita com o medicamento? — questionou com sarcasmo. — Deve haver uma merda qualquer que se possa comprar para atenuar isto.
— Sim, podia receitar-te antidepressivos. — respondeu sério. — Mas, não me parece que a solução seja afogares-te em comprimidos.
Gabriel inclinou a cabeça para trás e olhou para o tecto.
— Ao ritmo que isto vai, ainda me vou afogar é no lago Ontário.
— Estás quase com cinquenta anos, Gabriel. Não achas que é tempo de abrandares a tua vida profissional e pensar em construir algo na tua vida particular?
Baixando o olhar, Gabriel encarou-o com um sorriso irónico.
— A minha vida privada vai muito bem, obrigado.
— Nota-se...
— Que sugeres, então?
— Que deixes alguém entrar no teu mundo.
Ouviu-se uma gargalhada de escárnio.
— Relacionamentos? Não preciso de relacionamentos, Phil. Quando preciso de relações, pego no telemóvel e... Tu percebes.
Phil abanou a cabeça, discordante.
— Sentes-te menos sozinho, quando contratas prostitutas para te aquecer a cama?
A expressão no rosto de Gabriel era uma mistura de irritação, desdém e prepotência.
— Costuma ser tão intenso que nem penso nisso.
Phil anuiu.
— Ok, ok. Então, deixa-me colocar isto de outra maneira. Tens noites de sexo intenso com mulheres fabulosas, não duvido, mas... Quando elas adormecem ao teu lado, o que é que sentes?
— Que preferia que se fossem embora.
— Porque não as mandas embora? Estás a pagar-lhes para fazerem o que queres.
— Pode apetecer-me repetir. — retorquiu escarninho.
— Ok. E quando acordas de manhã? Ela está ali ao teu lado. Sentes algum afecto por...
— Sinto que se ela já se tivesse ido embora quando acordo, isso seria perfeito.
— Desculpa dizer-te isto, mas tu não és capaz de sentir afecto por ninguém, Gabriel. Tu geres a tua vida como um negócio. Aquilo que precisas, compras. Não tens uma namorada, tens putas a quem pagas para foder. Não tens amigos. Pagas-me a mim para te ouvir e conversar contigo.
— Se isso te degradada...
— Não te faças de parvo, Gabriel. Sabes o que estou a dizer.
— Quanto menos gerires a tua vida de forma sentimental, menos sofres.
— Nota-se.... Estás em claro sofrimento, em angústia. Porque não o admites? Estás infeliz porque te sentes completamente sozinho.
— Bom, acho que estás a exagerar. Lido com pessoas diariamente, eu...
— Quantas pessoas te telefonam quando fazes anos?
Gabriel emudeceu.
— Quantas pessoas te ligam a desejar um feliz Natal o um feliz Ano Novo? — insistiu Phil. — Aliás, já agora, quantas pessoas te ligam para falar contigo de alguma coisa que não seja trabalho?
O psicólogo foi fulminado pelo olhar de Gabriel.
— Vai-te foder, Phil!
O silêncio abateu-se sobre eles. Gabriel desviou o olhar para as french doors, enquanto Phil o ficou a observar impávido, paciente, aguardando que ele levasse o tempo que fosse necessário.
— Estou cansado, Phil. — acabou por dizer, suspirando.
— Não acredito que tenhas sido sempre assim, Gabriel.
Ele pareceu ponderar a questão. Evitou encarar o semblante de análise do psicólogo. Sim, ele nem sempre fora assim. E por mais que se recusasse a aceitar a razão, Gabriel sabia a causa.
— Nós já nos conhecemos há algum tempo. — lembrou Phil. — Nunca falaste muito sobre a tua vida em Portugal, antes de vires para o Canadá.
Gabriel ouviu as suas palavras com sensação que o outro lhe tocava com um dedo numa ferida aberta.
— Que tem isso a ver com o assunto, Phil?
— Tu demonstras sempre desconforto, quando o assunto se desloca para o teu passado que antecedeu a vinda para Toronto. Acho que aconteceu algo, nessa altura.
— Estás enganado. — negou pouco convincente.
O outro permaneceu em silêncio, observando-o. Gabriel percebeu que não o enganaria, nem a si se conseguiria enganar. Tinha dois caminhos, ia embora ou...
— Prefiro não me recordar disso. Foi há muito tempo?
— Alguma vez partilhaste o que aconteceu com alguém?
— Não.
— Sou pago para te ouvir, Gabriel.
— O que não quer dizer que te queira contar, Phil.
— Como queiras, Gabriel.
Novamente o silêncio. Phil aguardou com paciência de chinês. Era pago à hora, por isso, o outro poderia continuar ali caladinho as horas que precisasse. E Gabriel parecia estar em sintonia, pois não se mexeu e ficou com o olhar perdido no vazio. Por fim, disse:
— Tinha pouco mais de trinta anos.
A reunião correra bem. Não podia obrigar o staff técnico dos Maple Leafs a colocar Tiivu no gelo em todos os jogos, mas obteve um compromisso de que não seria exilado nos Marlies. Regressara ao escritório, informara o finlandês e viu-se envolvido em mais assuntos para tratar relativos aos seus jogadores, uma vez que se aproximavam os inícios das épocas de hóquei e basquetebol.
No entanto, a seguir a um almoço que não passara de umas sandes mastigadas à pressa, Gabriel abandonou o Bay-Adelaide Centre para um compromisso que nada tinha a ver com a sua profissão.
O potente motor do Ferrari ecoou na Bay Street. Os semáforos pareciam ter combinado todos em seu desfavor. O trajecto foi muito parecido ao que realizara a pé pela manhã, até entrar na Gardiner Expy, a via rápida que atravessava Toronto ao longo do lago, e permitir-se a pisar o acelerador.
Olhou para a direita, vendo o aproximar da CN Tower, uma das maiores torres do Mundo. Logo a seguir, reparou no Rogers Centre, o estádio onde a equipa de basebol, os Toronto Blue Jays jogavam, com a sua cúpula fechada. Calculou que ia chover. Os habitantes de Toronto há muito que se haviam habituado a ver no Rogers Centre uma espécie de boletim meteorológico, pois se a cúpula estivesse fechada era sinal de que a chuva visitaria a cidade, enquanto que se estivesse aberta isso representaria que os guarda-chuvas poderiam ficar em casa.
Ao longo dos anos no Canadá, Gabriel não evitara só os relacionamentos amorosos, também evitara amizades, fosse com homens ou mulheres. Optara pela via da solidão, uma vida independente de tudo e de todos.
Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!
Para quê tentar fomentar amizades? Para que serviriam amigos, a não ser para o incomodar e fazer perder tempo? E tempo livre era coisa escassa no seu dia a dia. Se quisesse ir beber um copo, ligava para um dos nomes da lista de dez. Se quisesse ir ver um filme ao cinema ou outro espectáculo a que não estivesse interessado em ir sozinho, ligava para um dos nomes da lista de dez. Na verdade, os únicos espectáculos em que demonstrava interesse eram os desportivos e gostava sempre de ir sozinho, acabando por encontrar conhecidos que lhe colmatavam os tempos morto. Se quisesse ir jantar fora, ligava para um dos nomes da lista de dez. E ainda beneficiava do facto de, em todas essas ocasiões em que ligava para um dos nomes da lista de dez, terminarem na cama do seu quarto.
Se quisesse falar, se precisasse de desabafar, de alguém que o escutasse, que talvez lhe pudesse dar um conselho ou contrapor a sua visão dos factos, então, Gabriel ia ao encontro da pessoa a quem pagava para isso, um psicólogo a quem gostava de chamar de terapeuta para evitar o peso da palavra "psicólogo".
O doutor Phil vivia numa moradia num bairro familiar em Mississauga, uma localidade a oeste de Toronto da qual não distava mais que uns vinte quilómetros. Era um afro-americano nascido em Buffalo que, quando se formara, acabara por se radicar na região de Ontário. Cinquentão, Phil revelava um aspecto de sexagenário, mas o seu espírito e humor eram de trintão.
O gabinete onde recebia os pacientes era tão natural como a sala de estar de um qualquer apartamento. Naquele lugar, nada dava sinais de se tratar de um consultório ou sequer um escritório. As paredes eram beges, o tecto branco e o chão alcatifado, o que produzia uma sensação de paz a quem entrava. Várias fotos de paisagens bonitas emolduradas e penduradas compunham a decoração, onde o mobiliário era um sofá, uma poltrona, uma mesa baixa e um aparador comprido. Todo o espaço era iluminado de forma ténue pela claridade do exterior proveniente das janelas a que os canadianos apelidavam de "french doors". A vista era somente o relvado do jardim que envolvia a moradia.
Naquela tarde não havia muita luz a entrar, as nuvens persistiam em sobrevoar as margens do lago Ontário e seria uma sorte se não chovesse. Phil recebeu Gabriel com aquele sorriso acolhedor de sempre. Tinha um estilo muito próprio, envergando sempre uma camisa clássica, calças de bombazina e um colete sem mangas, como se tivesse deixado o casaco esquecido algures. Calçava sapatilhas, sempre sapatilhas.
O ambiente na sala era iluminado pela linha de luz suave das lâmpadas escondidas na sanca que rodeava o tecto da divisão. Para além disso, ao lado da poltrona, um outro candeeiro de pé enviava uma luz fraca que se destinava a apoiar o utente do assento.
Gabriel não retribuiu o sorriso, quase nunca o fazia. Não ia ali visitar um amigo, ia visitar o terapeuta, o que significava que estava com um problema e com poucos motivos para sorrir. Phil estava habituado a isso e desvalorizou aquilo que poderia ser alguma antipatia do paciente. Gabriel entrou e percorreu o espaço em movimentos automáticos, já perdera a conta às vezes que ali fora, e sentou-se no sofá. Phil acompanhou-o e tomou o seu lugar na poltrona.
— Como te sentes, Gabriel?
— Na merda.
Parecia incompreensível que alguém com tanto dinheiro pudesse não ser feliz.
Ah... Havias de ter contas todos os meses e não ter dinheiro para as pagar. Talvez assim soubesses o que é infelicidade.
Phil não fazia juízos, não lhe cabia julgar, apenas ouvir e ajudar.
— Continuas a ter episódios de angústia?
— Cada vez mais frequentes.
— A que é que achas que isso se deve?
— Esperava que me soubesses dizer, Phil. Afinal, é para isso que te pago.
Phil fez uma expressão paternalista.
— Já te disse várias vezes, Gabriel. Pode ser descrito como depressão, mas acho que tu sofres simplesmente de solidão.
— Podes passar-me uma receita com o medicamento? — questionou com sarcasmo. — Deve haver uma merda qualquer que se possa comprar para atenuar isto.
— Sim, podia receitar-te antidepressivos. — respondeu sério. — Mas, não me parece que a solução seja afogares-te em comprimidos.
Gabriel inclinou a cabeça para trás e olhou para o tecto.
— Ao ritmo que isto vai, ainda me vou afogar é no lago Ontário.
— Estás quase com cinquenta anos, Gabriel. Não achas que é tempo de abrandares a tua vida profissional e pensar em construir algo na tua vida particular?
Baixando o olhar, Gabriel encarou-o com um sorriso irónico.
— A minha vida privada vai muito bem, obrigado.
— Nota-se...
— Que sugeres, então?
— Que deixes alguém entrar no teu mundo.
Ouviu-se uma gargalhada de escárnio.
— Relacionamentos? Não preciso de relacionamentos, Phil. Quando preciso de relações, pego no telemóvel e... Tu percebes.
Phil abanou a cabeça, discordante.
— Sentes-te menos sozinho, quando contratas prostitutas para te aquecer a cama?
A expressão no rosto de Gabriel era uma mistura de irritação, desdém e prepotência.
— Costuma ser tão intenso que nem penso nisso.
Phil anuiu.
— Ok, ok. Então, deixa-me colocar isto de outra maneira. Tens noites de sexo intenso com mulheres fabulosas, não duvido, mas... Quando elas adormecem ao teu lado, o que é que sentes?
— Que preferia que se fossem embora.
— Porque não as mandas embora? Estás a pagar-lhes para fazerem o que queres.
— Pode apetecer-me repetir. — retorquiu escarninho.
— Ok. E quando acordas de manhã? Ela está ali ao teu lado. Sentes algum afecto por...
— Sinto que se ela já se tivesse ido embora quando acordo, isso seria perfeito.
— Desculpa dizer-te isto, mas tu não és capaz de sentir afecto por ninguém, Gabriel. Tu geres a tua vida como um negócio. Aquilo que precisas, compras. Não tens uma namorada, tens putas a quem pagas para foder. Não tens amigos. Pagas-me a mim para te ouvir e conversar contigo.
— Se isso te degradada...
— Não te faças de parvo, Gabriel. Sabes o que estou a dizer.
— Quanto menos gerires a tua vida de forma sentimental, menos sofres.
— Nota-se.... Estás em claro sofrimento, em angústia. Porque não o admites? Estás infeliz porque te sentes completamente sozinho.
— Bom, acho que estás a exagerar. Lido com pessoas diariamente, eu...
— Quantas pessoas te telefonam quando fazes anos?
Gabriel emudeceu.
— Quantas pessoas te ligam a desejar um feliz Natal o um feliz Ano Novo? — insistiu Phil. — Aliás, já agora, quantas pessoas te ligam para falar contigo de alguma coisa que não seja trabalho?
O psicólogo foi fulminado pelo olhar de Gabriel.
— Vai-te foder, Phil!
O silêncio abateu-se sobre eles. Gabriel desviou o olhar para as french doors, enquanto Phil o ficou a observar impávido, paciente, aguardando que ele levasse o tempo que fosse necessário.
— Estou cansado, Phil. — acabou por dizer, suspirando.
— Não acredito que tenhas sido sempre assim, Gabriel.
Ele pareceu ponderar a questão. Evitou encarar o semblante de análise do psicólogo. Sim, ele nem sempre fora assim. E por mais que se recusasse a aceitar a razão, Gabriel sabia a causa.
— Nós já nos conhecemos há algum tempo. — lembrou Phil. — Nunca falaste muito sobre a tua vida em Portugal, antes de vires para o Canadá.
Gabriel ouviu as suas palavras com sensação que o outro lhe tocava com um dedo numa ferida aberta.
— Que tem isso a ver com o assunto, Phil?
— Tu demonstras sempre desconforto, quando o assunto se desloca para o teu passado que antecedeu a vinda para Toronto. Acho que aconteceu algo, nessa altura.
— Estás enganado. — negou pouco convincente.
O outro permaneceu em silêncio, observando-o. Gabriel percebeu que não o enganaria, nem a si se conseguiria enganar. Tinha dois caminhos, ia embora ou...
— Prefiro não me recordar disso. Foi há muito tempo?
— Alguma vez partilhaste o que aconteceu com alguém?
— Não.
— Sou pago para te ouvir, Gabriel.
— O que não quer dizer que te queira contar, Phil.
— Como queiras, Gabriel.
Novamente o silêncio. Phil aguardou com paciência de chinês. Era pago à hora, por isso, o outro poderia continuar ali caladinho as horas que precisasse. E Gabriel parecia estar em sintonia, pois não se mexeu e ficou com o olhar perdido no vazio. Por fim, disse:
— Tinha pouco mais de trinta anos.