QUARTZO TITÂNIO · Capítulo 3

Capítulo III

≈ 24 min de leitura

Gabriel tinha pouco mais de trinta anos e a vida corria sobre rodas à velocidade estonteante do sucesso. Aquele dia fora um dos exemplos pelo qual valia a pena fazer o que fazia, ser agente desportivo e negociar a compra e venda de jogadores entre clubes.
Fora mesmo um dia fenomenal. Ao fim da manhã, fechara a transferência de uma estrela brasileira em ascensão no Brasil para o FC Porto, vindo do Palmeiras, um jovem de vinte anos que tinha meia Europa atrás de si. À tarde, negociara com êxito a venda do passe do jogador mais valioso do Benfica, o ponta de lança goleador, para o Real Madrid. Ambas significavam muitos milhares de euros de comissão.
Correra tudo tão bem que Gabriel sentia que não podia desejar mais nada e quase teve receio que algo de mau lhe acontecesse em contrapartida.
Naquela época, ele vivia no Parque das Nações, perto do rio. Quase sem tempo livre, os seus momentos de descompressão eram em caminhadas junto ao Tejo. Solteiro, bem-parecido, sem amarras, tinha relacionamentos esporádicos, namoros que duravam umas semanas até que ambos chegassem à conclusão que chegara a hora de seguirem caminhos diferentes, sem mágoas e sem cobranças.
Nessa noite, para descontrair, decidiu passar por um bar perto de Santa Apolónia, um lugar das suas preferências para beber um whisky, conversar com alguém conhecido e, eventualmente, engatar uma mulher disponível para sexo de ocasião. Porém, naquela noite, só queria relaxar num ambiente cheio de gente, desfrutar daquilo que a vista lhe oferecia, dialogar com um ou outro ser e... ir embora para casa descansar.
O ambiente estava fantástico, a música tocava alta, mas não tão alta que impedisse os clientes de conversarem. As mesas estavam cheias, gente bonita por todo o lado, sorrisos, expressões, gestos... Como qualquer espaço semelhante, a luminosidade era nocturna, luzes a criar uma mistura de luz e penumbra, deixando as mesas num enquadramento menos luminoso. Funcionárias escolhidas a dedo atendiam às mesas, elegantes e sensuais sem serem vulgares. Atrás do balcão, outras três a servir bebidas, sorridentes, afáveis, sedutoras, cativando para que a clientela quisesse mais e mais bebidas. Os únicos homens que trabalhavam naquele lugar eram os seguranças, tipos com o formato de um guarda-fatos envergando uma indumentária formal, quase como se fossem agentes secretos ao serviço de sua majestade.
Gabriel sentara-se ao balcão. Conhecia e era reconhecido por todas as funcionárias. Os seguranças também sabiam quem ele era e, ao contrário da grossa maioria daqueles que ali queriam ir, não era sequer interpelado ao entrar. As barwomen tratavam-no de forma melosa, retribuindo as gorjetas generosas que lhes deixava sempre. Para além disso, não era qualquer um que tinha o estatuto dele, um cliente com uma garrafa de whisky 18 anos, em seu nome no bar, só para si.
Naquela noite, ali estava, a pensar como o dia fora bom e que não poderia ser melhor. Tinha o olhar perdido nas dezenas de garrafas expostas na parede, quando, de súbito, alguém lhe tocou o braço esquerdo.
— Desculpa incomodar.
Gabriel virou-se para a voz. Viu uma mulher elegante, sorridente, de cabelos claros pelos ombros. O rosto era jovial, os olhos cor de amêndoa, o nariz singelo e a boca de lábios bem desenhados, pintados num tom rosado. Vestia uma camisa digna de uma escriturária e calças de ganga.
— Não incomodas. — acedeu ele, retribuindo o sorriso e notando que ela parecia estar um pouco "tocada".
— Olha, queria pedir-te um favor. Sei que parece estúpido, nem nos conhecemos. — Sim, decididamente, parecia já ter bebido para além da sua dose. — Não sei porquê, ali as minhas amigas — Apontou para um lugar qualquer que ele não acompanhou com o olhar, mantendo-o nela. — acham que tu és uma espécie de deus grego.
— Não sou grego, sou português. — retorquiu curioso.
— Whatever. — ripostou com um gesto de desinteresse.
— Em que te posso ajudar?
— Elas apostaram comigo que eu não era capaz de vir meter conversa contigo, seduzir-te e fazer com que saísses daqui comigo. — Gabriel ouvia-a interessado. — Por isso, o que te quero pedir é que faças de conta que aceitaste o meu convite, eu vou buscar as minhas coisas e colectar a aposta, volto para aqui e vamos embora juntos. Lá fora, depois, cada um segue o seu caminho.
— E que ganho eu com isso?
A pergunta pareceu surpreendê-la, como se tivesse a certeza de que ele faria aquilo voluntariamente. Encolheu os ombros e não chegou a nenhuma conclusão.
— Fazemos assim. — propôs ele. — Saímos daqui juntos e podemos ir beber um copo a minha casa, que dizes?
O rosto dela endureceu. Ficou muito séria. O sorriso desapareceu como o Sol coberto por uma nuvem negra. As amêndoas fulminaram-no. A mão, que até ali estivera no braço dele, afastou-se. Não ficou qualquer dúvida no ar que a proposta dele a ofendera, um golpe sujo a uma brincadeira dela com as amigas.
— Esquece. — disse num tom cortante. — Desculpa ter-te incomodado. — E virou-se para regressar à mesa das amigas.
Gabriel segurou-lhe o braço com gentileza. Sentindo o seu toque, ela tornou a disparar o olhar para ele, revelando uma expressão agressiva.
— Desculpa. — pediu Gabriel. — Agora fui um estúpido, um idiota.
Ela não alterou o semblante duro, fechado, mas não fez qualquer movimento para que ele a largasse ou continuar a afastar-se.
— Podes largar-me o braço, se faz favor? — solicitou com altivez. Gabriel soltou-a. Ela retornou à posição anterior. Quando tornou a falar, não existia na voz ou na face qualquer sinal de embriaguez. — Não ando à procura de engates. Foi apenas uma brincadeira das minhas amigas. Nem sequer foi interesse meu ou desculpa para meter conversa contigo. — Olhou-o da cabeça aos pés com desdém. — Elas podem achar-te um deus grego, mas não fazes minimamente o meu género.
— Ok, já percebi.
— Mais uma vez, desculpa ter-te incomodado.
— Espera.
Mesmo falando como se quisesse ir embora, ela continuava ali.
— Já te disse que fui uma besta. Peço desculpa por isso.
— Esquece.
— Deixa-me compensar-te. — Ela olhou-o com uma expressão torcida. — Já não estava a contar ficar muito mais tempo. Eu ajudo-te a enganar as tuas amigas. Vai buscar as tuas coisas e saímos daqui juntos. — Sorriu. — Depois, cada um vai à sua vida.
Mantendo o rosto antipático, ela anuiu e, dessa feita, afastou-se.
Gabriel chamou a funcionária. Disse-lhe que ia embora, entregou lhe uma gorjeta generosa e despediram-se com um beijo na face. Quando saltou do banco onde estivera sentado, a desconhecida reapareceu com o casaco vestido e uma malinha pendurada no ombro. Ele percebeu que ela se virou de forma a que as amigas a vissem e sorriu para Gabriel de forma sedutora e interessada, um dos sorrisos mais falsos que ele alguma vez vira. Sem dizer nada, deu-lhe o braço e ambos atravessaram o espaço na direcção da saída.
— Obrigada. — agradeceu ela, quando já se encontravam na rua.
— De nada.
A noite estava amena e muito agradável. Tirando os seguranças do estabelecimento e meia dúzia de jovens que aguardavam oportunidade para entrar, não se via mais ninguém por ali.
— Tens carro? — indagou Gabriel.
— Não. Vou apanhar um táxi.
— Eu faço-te companhia, até que apareça um.
Ela observou-o curiosa. Gabriel notou-o como resultado de qualquer especulação que lhe iria em mente.
— Eu estou de carro, mas não te ofereço boleia porque não quero ser mal-interpretado. — Ela virou-lhe as costas, olhando para a rua, procurando vislumbrar a chegada de um táxi. — Posso ao menos perguntar o teu nome?
Ela tornou a encará-lo.
— Olga.
— Olá, Olga! — disse, estendendo-lhe a mão. — Eu chamo-me Gabriel.
Olga aceitou o aperto de mão e atenuou a expressão séria.
— Mais uma vez, desculpa, aquilo lá dentro.
— Já passou. E não precisas de ficar aqui à espera.
— Fico mais descansado se te vir ir para casa em segurança.
Ela esboçou um sorriso.
— Já sou crescidinha, Gabriel. Além disso, não tens que te preocupar com uma desconhecida que, depois de hoje, talvez nunca mais vejas na tua vida.
— Seja como for. A menos que a minha presença te incomode, prefiro aguardar contigo.
— Como queiras. — respondeu, encolhendo os ombros.
Ficaram alguns momentos em silêncio. Poucos carros passaram na rua e nem um táxi. Ao fim de alguns minutos, Olga voltou a falar:
— Se continuar assim, ainda aceito a tua boleia.
— Se quiseres...
— Vais para onde?
— Parque das Nações.
Ela fez um sorriso trocista, um sorrido que o derreteu.
— Vais exactamente para o lado oposto ao meu.
— Posso fazer um desvio. Onde vives?
— Oeiras.
— Eu levo-te.
— Não te quero dar ideias.
— Como queiras, Olga. — desistiu.
Enquanto esperavam, foram caminhando lentamente pelo passeio. Gabriel olhou para trás. Lá ao fundo, os jovens tinham entrado ou desistido com a oposição dos seguranças.
O silêncio instalou-se, não tinham assuntos a partilhar. O vento soprou leve, agitando os cabelos dela. Olga penteou-se distraída.
Vindos do fundo da rua, surgiram dois indivíduos com ar suspeito. Gabriel sentiu a tensão nela, quando reparou na aproximação deles. Temeu ser um alvo fácil para um assalto, caso Gabriel não estivesse ali. E mesmo com ele, não saberia o que os outros poderiam fazer. No entanto, os dois tipos olharam para eles de forma demorada, mas não pararam sequer e prosseguiram o seu caminho.
— Que terá acontecido aos táxis desta cidade? — questionou ela para o ar.
— Ainda é cedo. Só daqui a umas horas é que se lembram de passar por aqui para começar a recolher a debandada a sair dos bares.
— Acho que vou aceitar a tua boleia. — decidiu, falando num tom vulnerável. — Mas, é o segundo favor que me irás fazer na mesma noite. Este tenho de retribuir.
— Não precisas de retribuir, Olga. Não me custa nada.
— Deixa-me pagar-te um copo. — sugeriu. — Conheço um lugar catita, perto de Belém. Fica em caminho. Que dizes?
Meia hora mais tarde, estavam sentados, frente a frente, num bar em Belém. Olga ainda estava pasmada com o facto de ter vindo à boleia num Porche Panamera.
O lugar era muito mais tranquilo que aquele donde vieram. Não havia música ambiente, somente um lugar tranquilo onde as pessoas se agrupavam em mesas para conversar num tom suave, respeitando o princípio de não incomodar os restantes. Não estava cheio, bem pelo contrário, só metade dos lugares estavam ocupados. Um vidro gigantesco virado para o rio mostrava um cenário ponteado de luzinhas na margem oposta e uma linha negra por onde a água corria eterna. Eles ficaram numa mesa mesmo junto ao vidro. Entre eles e o rio, um passeio largo que terminava na margem descendente empedrada.
Por momentos, ficaram a olhar-se curiosos. Dois copos eram os únicos objectos na mesa, um whisky de malte para ele, uma cola com gelo e limão para ela.
— Já bebi a minha conta por hoje. — dissera Olga, ao pedir a bebida.
— Não te preocupes. Prometo que, se ficares bêbada, não me aproveitarei de ti.
Ela rira e ripostara num tom acolhedor:
— Por estranho que pareça, acredito em ti.
Depois, o silêncio instalara-se. Não era desconfortável, era relaxante e uma espécie de descanso de duas almas que haviam tido um dia longo e stressante. Ambos olhavam para o exterior sem nada verem. Por fim, ele apanhou-a a olhar para si.
— Que se passa?
— O que fazes na vida? Não é qualquer um que tem um carro daqueles.
— Sou traficante de droga. — respondeu, simulando que falava verdade. O tom não deixava dúvidas. E ela acreditou, ficando pálida. — Estou a brincar contigo. Sou empresário de futebol.
Olga revelou um enorme alívio. A seguir, fez um sorriso escarninho.
— Engraçadinho...
— Havias de ter visto a tua cara.
Olga abanou a cabeça, era a sua vez de simular, aparentando ter ficado aborrecida com a brincadeira. Não durou muito e sorriu-lhe, dizendo:
— Na prática, realmente és um traficante, mas de jogadores.
— Nunca tinha pensado nisso nessa perspectiva.
— Vá lá, Gabriel, estou a exagerar.
— E tu, o que fazes?
— Sou investigadora científica.
— És cientista?
— Não é bem cientista, trabalho num laboratório. Faço parte de uma equipa de investigação que estuda tratamentos para doenças oncológicas.
Gabriel fez uma expressão de surpresa.
— Hum.... Estou impressionado.
— Não dá para comprar Panameras. — ripostou ela com humor.
— Mas, salvas vidas.
— Tento.
— Estou deveras impressionado. Aliás, confesso que me sinto fascinado contigo.
— Não abuses, Gabriel. Já te disse que não estou interessada.
Ele sorriu, um sorriso que ela considerava bastante atraente.
— Sentir-me fascinado por ti, não quer dizer que queira dormir contigo. — atirou ele, procurando reverter aquele quadro que lhe dava o papel de sedutor não correspondido. — O fascínio resulta daquilo que fazes. É graças a pessoas como tu que existem tratamentos para doenças que eram incuráveis.
— Percebo. — compreendeu, fazendo uma espécie de "biquinho" com os lábios. — Mas, honestamente... Não queres?
— O quê?
— Dormir comigo?
— Não. — mentiu.
— E se eu quisesse dormir contigo?
— Ias dormir sozinha.
— Ena! — protestou, encaixando a rejeição. O rosto endureceu ligeiramente. — Para quem há pouco me convidava para um copo em sua casa...
— Convidei-te para um copo. Estamos aqui a beber um copo.
— Deixa-me adivinhar, também não faço o teu género?
— Para dormir, não.
— Qual é o teu género para dormir?
— Almofadas.
Olga soltou uma gargalhada deliciosa sem conseguir evitar chamar as atenções para si. Fez um ar envergonhado e olhou em redor como se pedisse desculpa.
— Então só dormes sozinho? — questionou divertida. — Não existe uma miss Panamera para te aquecer a cama?
— Achas que se não fosse solteiro, te teria convidado para minha casa ou estaria aqui a beber um copo contigo?
— Ui... Não sei como deva interpretar isso. — disse ela como se estivesse preocupada. — Se, agora, eu não for igualmente solteira, que irás pensar de mim?
— Não és solteira?
— Divorciada. — informou séria, ao fim de breves momentos.
Gabriel percebeu que o assunto era melindroso, talvez até recente, daí que talvez ela não o quisesse abordar.
— Ok. Somos os dois descomprometidos. — atalhou.
Olga fez um gesto revelador que isso poderia não ser totalmente verdade. Gabriel ficou confuso e permaneceu atento a ela, esperando um esclarecimento. Olga sorriu, era um sorriso nervoso, culpado, desconfortável.
— Tenho uma filha. — acabou por dizer sem respirar. — Por isso, não posso dizer exactamente que não tenho compromissos.
— Eu referia-me a não termos namorados.
— Eu sei. Mas, quis dizer-te isto. Quis que soubesses que tenho uma filha.
— Porquê?
— Porque é importante para mim. A minha filha é o que existe de mais importante na minha vida.
— Não ponho isso em causa, Olga. Só não entendi porque é tão importante para ti que eu saiba que tens uma filha.
Não houve resposta. Ela queria ter uma, sabia o que queria responder, mas não encontrou coragem e refugiou-se na observação dos desconhecidos.
Gabriel quebrou o silêncio:
— É recente?
— Recente?
— O divórcio.
— Estamos separados há três meses.
— É oficial?
— Como assim?
— Já se divorciaram legalmente?
— Nunca fomos casados, Gabriel. Vivíamos juntos. — Olhou para o vazio como se recordasse tempos idos. — Decidimos viver juntos, quando engravidei. — Ela parecia adivinhar-lhe as perguntas. — Não foi planeado, mas a gravidez foi recebida com muita felicidade por ambos.
— Que idade tem ela?
— Sete anos.
— Calculo que não esteja a ser fácil, a separação dos pais.
— Nada mesmo. Já tem idade para compreender as coisas e não aceita que os pais já não vivam na mesma casa. — Fez um sorriso triste. — Este fim de semana está com o pai. — O sorriso tornou-se irónico. — Claro que se assim não fosse, eu não estaria aqui. Que mãe seria eu a sair com as amigas e a deixar a miúda sozinha em casa?
— Não pensei que o fizesses.
— Eu e o pai da Íris mantemos uma relação cordial. Estamos a tentar fazer com que resulte pelo bem dela.
— A tua filha tem um nome lindo.
— Obrigada. Fui eu que escolhi.
Voltaram a silenciar-se e procuraram assunto na visualização dos restantes clientes.
Olga olhou para o relógio.
— Está a ficar tarde. É melhor irmos.
— Claro. — concordou ele, fazendo sinal ao empregado.
A noite continuava amena e agradável. Dava vontade de ficar ali, junto ao rio, sem pressas, a saborear o ambiente. Gabriel e Olga caminharam devagar em direcção ao local onde o automóvel ficara estacionado. Não disseram nada, mas ela tomou a liberdade de lhe segurar o braço.
Junto ao Porsche, ele levou-a até à porta do passageiro e abriu-lha como um cavalheiro que era. Ela entrou, sorrindo-lhe. Quando ele contornou o carro e entrou para o lugar do condutor, ouviu-a dizer:
— Já não se vêem muitos homens a tratar uma mulher com a gentileza com que tu fazes.
— Estou a ser interesseiro, é uma forma de te tentar dar a volta.
Olga sorriu. Por estranho que pudesse parecer, conhecia-o há poucas horas, mas já era capaz de lhe descodificar as palavras, sabendo quando ele falava a sério ou com humor. Ali, percebeu que brincava, da mesma forma que entendeu a seriedade, no momento em que ele parou defronte do seu prédio e lhe disse:
— Gostava de te voltar a ver.
Ela não respondeu de imediato, como se ponderasse a questão. Contudo, olhou-o com um imenso calor amendoado, séria, intensa.
— Não sei... — hesitou, aproximando-se para se despedir com um beijo na face. — Não sei se será boa ideia.
— Porquê?
Olga beijou-lhe a face e segredou-lhe:
— Tenho medo de me deixar apaixonar por ti.
A confissão surpreendeu-o. Viu-a afastar-se, subitamente vulnerável, ficando a um palmo do rosto dele.
— Facilmente me apaixonaria por ti, Olga. E não tenho medo disso.
Houve um sorriso no rosto dela, uma expressão de agrado. Não disse nada, mas voltou a aproximar-se e beijou-o nos lábios.
Foi um beijo suave, uma exploração recíproca entre duas pessoas que se beijam pela primeira vez. Depois, tornou-se mais intenso, ao ponto de revelarem uma vontade imensa de se comerem um ao outro.
— Queres subir? — convidou ela, quebrando o beijo.
— Tens a certeza?
— Sem compromissos, Gabriel. Ambos o queremos e nada há que nos impeça de o fazer.

Gabriel surpreendeu-se pela forma como acordou ao fim da manhã de Domingo. Estava deliciosamente confortável na cama de Olga com ela a dormir nos seus braços, ambos encaixados como se fossem uma concha. Sentia-se o homem mais feliz do Mundo. Fora uma noite maravilhosa, intensa, apaixonada, loucamente saborosa.
Olga continuava a dormir. Ele teve receio de fazer qualquer movimento que a acordasse. Beijou-lhe os cabelos e sorveu o aroma do seu corpo delicioso. Permitiu-se a recordar o corpo nu dela, as etapas lentas em que se foram descobrindo um ao outro. Não conseguia explicar, mas estava fascinado com ela.
Um movimento denunciou que começava a despertar. Acordou aturdida, quase como se não se lembrasse que aquele homem adormecera na sua cama depois de muito sexo. Estremunhada, virou-se e encarou-o com um sorriso. Beijou-o com ternura.
— Bom dia, Gabriel.
— Bom dia, Olga.
Olga olhou paras as horas.
— Bolas, não pensei que fosse tão tarde.
— É Domingo, Olga.
— Tenho de ir buscar a minha filha a casa do pai.
— Eu posso levar-te. — sugeriu Gabriel.
Para sua surpresa, Olga fez uma expressão séria.
— Gabriel. — iniciou com seriedade e cuidado nas palavras. — Isto... Isto, entre nós. Isto é só sexo. É bom, muito bom. Mas, é só sexo. Não pretendo que seja só hoje, quero repeti-lo e espero que tu também queiras, mas... — Ele olhava-a, atento, algo confuso. — A minha filha é uma parte da minha vida ou não pretendo que entres.
— Porquê? — questionou.
Olhavam-se deitados, ainda abraçados. Ele sentiu aquilo como um golpe. Não foi capaz de se afastar, mas ficou magoado. Ela percebeu e procurou explicar-se o melhor que soube.
— Não quero que a presença de outros homens a confundam. Sei que procuras diversão, sexo...
— Espera um pouco. — interrompeu ele. — Como é que sabes o que procuro ou o que quero?
— Então diz-me. — pediu com ternura. — Esperas que nos tornemos um casal?
Gabriel ia a responder afirmativamente, mas algo o retraiu e o fez colocar a questão frontalmente:
— Sê sincera comigo, Olga. Tu e o teu marido.... Há hipótese de voltarem? Uma reconciliação?
— Não Gabriel. Foi muito grave o que ele fez. Não há volta, nem que ele fosse o único homem à face da terra.
Gabriel sorriu e teve a deliciosa, cruel e dolorosa certeza de que estava apaixonado por ela como, talvez, nunca tivesse estado por mulher alguma.
— Não quero só sexo contigo, Olga. Quero mais que isso.
— O que queres exactamente? — insistiu ela, num tom quase ríspido. — E não te esqueças que tenho uma filha.
— Quero amar-te. — confessou. — E não tenho problema nenhum em que tenhas uma filha.
— Não quero que a Íris volte a sofrer. Se eu permitir que atravesses essa linha, sei que irá sofrer se, daqui a uns tempos, perceberes que não é isto que queres.
— Vais ter de confiar em mim.
— Vamos com calma, Gabriel. — pediu carinhosa. — Hoje... Hoje, tu vais para casa e eu vou buscar a Íris.
— Como queiras. — retorquiu decepcionado.
— Concedes-me um pedido?
— Diz.
— Podemos continuar assim, por algum tempo? Só sexo?
Gabriel não respondeu. Ao invés, levantou-se da cama. Pareceu ponderar a resposta e acabou por dizer:
— Acho que no fim disto tudo, eu é que ainda me vou magoar. Não sei explicar como, mas esta noite, desde que nos conhecemos, senti que criámos uma química forte entre nós. Não consigo ver-nos apenas como dois adultos que se encontram para sexo. Sinto por ti, algo mais forte que isso. Se não posso ter isso, acho que é melhor ficarmos por aqui.
Para sua surpresa, Olga riu-se.
— É a primeira vez que um homem me rejeita completamente nu. — Ele ia protestar, mas ela fez um gesto para que esperasse. — Será como queres, Gabriel. Eu vou deixar-te entrar nessa parte da minha vida. Hoje vais conhecer a Íris. Mas, juro-te, se fizeres algo que a faça sofrer, hei de odiar-te para o resto da tua vida.

Íris era uma menina de sete anos alegre e sorridente. Tinha os olhos da mãe, o cabelo menos claro e uma fisionomia redondinha e fofa. Gabriel não acompanhou Olga quando ela foi buscar a filha ao novo apartamento do pai, ficando a aguardar ao fundo da rua. A pequena sentiu-se intimidada com o desconhecido, mas acabou por interagir cada vez mais com aquele novo amigo da mãe.
Gabriel não sentia qualquer incómodo com o facto de a sua namorada ter uma filha, mas também não via a criança como se fosse uma filha, só porque tinha uma relação com a mãe dela. Aliás, ele nunca sentira o chamamento da paternidade, nem os filhos alguma vez haviam sido um objectivo de vida. Para além disso, Íris não precisava que ele ocupasse o papel de pai, uma vez que o seu era bastante presente na sua vida, independentemente da separação com a mãe. Nem seria um suplente ou um substituto dele, caso o pai a decepcionasse dalguma forma. Partindo do princípio, tal como Gabriel desejava, que a relação com Olga duraria para o resto da vida, Íris seria uma amiga mais nova, a filha da sua paixão, alguém para quem ele estaria sempre disponível, sempre que ela precisasse de si.
Íris era uma criança adorável. Olga fizera um esforço hercúleo para ser o escudo que protegera a filha das mazelas da separação. Mesmo ferida e magoada com o homem com quem vivera sete anos e que a traíra, Olga manteve uma relação cordial com ele, quase uma amizade, mesmo que no seu íntimo não o quisesse ver à frente. Consequentemente, após o choque inicial, Íris encarou com naturalidade aquela realidade. Tal como foi achando normal que aquele amigo da mãe fosse visita constante da casa e dormisse muitas vezes no quarto da mãe, tal como o seu pai fazia quando lá vivia.
O passar do tempo criou laços afectivos entre Gabriel e Íris. Tal como ele não a via como uma filha, também a pequena não o via como um pai. Era o amigo da mãe, o Gabi, como ela lhe chamava porque tinha uma colega na escolinha que se chamava Gabriela e todos lhe chamavam Gabi. Ele não se importava. Para Gabriel também foi uma surpresa perceber que tinha algum jeito com as crianças. Participava nas brincadeiras dela, contava-lhe histórias e ripostava ao "Gabi" com um carinhoso "Arco-íris", que era como ele lhe chamava com ternura.
Ao longo de dois anos, a relação de Gabriel e Olga foi o paraíso. Faziam vidas independentes um do outro, nunca chegaram a colocar a hipótese de viverem juntos, mas Gabriel dormia frequentemente em casa de Olga. Por seu turno, quando Íris passava fins de semana com o pai, Olga mudava-se para o apartamento de Gabriel.
Apesar de o esconder, Gabriel tinha um certo ciúme dos encontros entre Olga e o pai da filha, mesmo que esses não durassem mais que o tempo necessário para deixar ou ir buscar a filha. Com o passar das semanas, esse ciúme, esse receio que ela pudesse voltar para o marido foi se esfumando. E Gabriel sentiu a cada dia que Olga seria a mulher da sua vida e que envelheceriam juntos.
Olga e Íris tornaram-se uma parte muito importante da vida de Gabriel. Fora uma época em que ele se sentia completamente realizado, tanto na vida pessoal como na profissional. Costumava levá-las a viajar com ele, foi assim que Íris visitou a Disneylândia em Paris e que Olga concretizou o sonho de ir a Florença. As viagens de trabalho dele tornaram-se menos entusiasmantes porque ia sozinho e com uma saudade imensa da namorada e da pequena.
Sim, Gabriel não tinha dúvidas, era feliz.
Depois...
Não teve nada a ver, foi uma coincidência.
Ele era um empresário de futebol de muito sucesso, nada comparado com alguns tubarões empresariais que se moviam no meio e muito menos alcançava o estatuto daquele que chegaria a ser considerado o melhor empresário de jogadores de futebol do Mundo. Contudo, ganhava uma fortuna e era um homem muito rico. Entre os seus contactos, recebeu um convite para trabalhar no Canadá, numa agência de activos desportivos, para fazer o que já fazia e ganhar dez vezes mais. Não pensou duas vezes e recusou.
Gabriel não precisava daquele trabalho, nem se queria afastar de Olga ou impor-lhe uma mudança de vida desnecessária. Mesmo que ela estivesse na disposição de o acompanhar com a filha, não seria justo afastar Íris do pai, nem o pai da filha.
Nunca comentou a proposta com Olga. Contudo, o facto de se sentir tão seguro em recusar propostas milionárias em prol dela, fê-lo pensar que estaria na altura de a relação passar ao nível seguinte. Ao fim de dois anos de relação, Gabriel não tinha qualquer dúvida, queria casar com ela e iria fazer o pedido.
Em simultâneo, algo aconteceu. Para sempre seria recordado por si como o tempo em que subira ao Céu e rapidamente caíra no Inferno.
Fizera uma viagem a Itália para tratar de mais uma transferência de jogadores. Tal como sempre acontecia nestas viagens solitárias, telefonava a Olga e trocavam mensagens. Aquela não fora diferente, conversaram apaixonados e nada antevira o que se sucederia. Ele já era para ter feito o pedido de casamento, mas quis deixar passar o aniversário da pequena Íris para que uma novidade daquelas não retirasse protagonismo a um momento anualmente ansiado pela criança. Assim, o pedido aconteceria quando ele regressasse de Itália, uma vez que partira logo após o evento.
Três ou quatro dias, não fora mais que isso, se bem que o turbilhão de emoções que se seguiram lhe deixaram os pormenores da recordação algo enevoados. Nesse espaço de tempo, Olga revelara-se a mesma apaixonada e melosa de sempre, ao telefone ou nas mensagens que trocavam. Na última noite transalpina, Olga telefonou-lhe. Algo na voz dela surgiu ao ouvido de Gabriel como um alerta. Sentiu-se imediatamente tenso, como se adivinhasse que algo mau aí vinha. Se pudesse, teria desligado a chamada e atrasado o mais possível o que não queria ouvir. Fingiu não perceber e recebeu a voz dela com:
— Olá, amor!
— Olá, Gabriel!
Pois... Não houve um "olá, amor" no outro lado como era usual.
— Está tudo bem?
— Temos de falar.
— Estamos a falar, Olga. — retorquiu sem perceber que a sua voz adoptava um tom agreste em defesa.
— Aconteceu algo.
— Que aconteceu, Olga?
A resposta foi a respiração dela.
— Estás bem, Olga? — insistiu quase como se desejasse que ela lhe fosse contar uma fatalidade ao invés do que adivinhava estar para vir.
— Não sei como hei de te dizer isto, Gabriel.
— Experimenta usar uma coisa que se chama "palavras". — atirou, tremendo, mas com a voz firme.
— Não precisas de falar assim.
— Estás a deixar-me preocupado e não desembuchas. Que se passa Olga?
— Quero terminar a nossa relação! — afirmou segura, quase sem respirar.
— O quê? Porquê? Donde vem isso agora?
— Aconteceu algo...
— Foda-se, Olga! Já ouvi essa merda. Que aconteceu? Diz de uma vez!
— Eu e o pai da Íris... Nós.... Aconteceu.
— Aconteceu o quê? Ao menos, sê crescidinha e diz as coisas como gente adulta. — rosnou ele, furioso.
— Fizemos sexo. — respondeu ela num tom agressivo. — Fomos para a cama um com o outro. Fodemos. Ele comeu-me, eu comi-o a ele. Satisfeito?
Gabriel não respondeu. Sentiu a mágoa, a dor da traição percorrer lhe o corpo. Uma fúria imensa atravessou-lhe a espinha, teve vontade de partir o telemóvel em mil pedaços.
— Percebes agora porq...
— Vai pró caralho, Olga!
— Não seja mal-educado.
— Antes mal-educado que puta.
Novo silêncio. Gabriel esperou que ela dissesse algo. Só houve silêncio por alguns momentos. Por fim, a voz de Olga surgiu fria como gelo.
— Ok, Gabriel. Apesar de não concordar, talvez mereça que me chames isso. Seja como for, quis só informar-te que está tudo acabado entre nós. Adeus!
— Espera! — pediu ele sem atenuar minimamente o tom rude. — Isto não acaba assim só com um "adeus".
— Não tornes as coisas mais difíceis. Nós já não temos mais...
— Não me refiro a ti. — interrompeu. — A Íris...
— Que tem a Íris?
— Quero despedir-me dela.
— Isso é desnecessário. Nem me parece que lhe faça bem passar por isso.
— Porquê? Eu gosto da tua filha, não quero desaparecer assim da vida dela, como se me tivesse evaporado.
— Tu és apenas o namorado da mãe. Neste caso, um ex-namorado. Daqui a dois ou três dias já nem se lembra de ti.
— Como podes dizer isso, Olga?
— Adeus, Gabriel!
— Olga!
Ela desligou-lhe a chamada na cara.

Comprar livro na FNAC

Fim do capítulo

📚 Gostaste desta história?

Descobre outro livro completo da Biblioteca NST.

Ver Livros Completos

O que achaste deste capítulo?

Sê a primeira pessoa a avaliar.

← Capítulo anterior Todos os capítulos Capítulo seguinte →