QUARTZO TITÂNIO · Capítulo 4

Capítulo IV

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— Nunca mais as viste?
Gabriel olhava para as mãos com os olhos vagos nas recordações.
— Só uma última vez, Phil. — relatou. — Quando regressei, decidi estupidamente ir a Oeiras e forçar um reencontro. Para te ser sincero, não sei bem o que esperava fazer, quando a visse. Estava tão magoado, tinha o coração esfrangalhado.
— E reencontraste-a? — questionou o psicólogo. Gabriel anuiu. — Que aconteceu?
As luzes da sala haviam ganho uma tonalidade mais forte com o escurecimento lento do exterior. Phil mantinha a sua posição, atento, ouvinte, sentado na poltrona. Gabriel atravessava uma onda de trevas a recordar os momentos mais horríveis da sua vida.
— Por coincidência, quando cheguei e estacionei o carro, vi-a sair do prédio com a filha e o ex. Vinha com um ar apaixonado, de mão dada com ele. Vi-os beijarem-se, o que me provocou uma sensação semelhante a um soco no estômago. Queria bater em ambos. Só que, logo de seguida, reparei no rosto feliz da Íris. Conhecia-a há tempo suficiente para perceber como estava feliz por os pais estarem juntos. Em todo aquele cenário, eu era a figura deslocada, era eu quem não pertencia ali. A única pessoa... — Fez uma pausa, procurando as palavras. — A única culpada era a Olga. Fora ela quem me fizera acreditar numa mentira. Nem sequer culpava o gajo, fizera o seu papel, reconquistara a mãe da filha. — Nova pausa. Na mente de Gabriel, o rosto de Íris. — E jamais faria qualquer coisa que quebrasse a felicidade da miúda. A criança não merecia. Sei que gostava de mim, mas eu não era nada ao lado do pai.
— E elas? Viram-te?
Gabriel abanou a cabeça.
— Não. Os três prosseguiram o seu passeio até desaparecerem na esquina seguinte. E eu fui-me embora para sempre.
— Nunca mais soubeste nada delas?
— Não quis saber. Apaguei-as completamente da minha vida.
— E depois disso? Não houve mais ninguém?
— Depois disto, atravessei as trevas. Queria desaparecer. — Gabriel olhou para a expressão inquiridora de Phil. — Não, Phil, não me tentei matar. Estava na merda, mas não ao ponto de querer acabar com a vida. Queria desaparecer dali, dos sítios que me faziam lembrá-la.
— Foi por isso que vieste para o Canadá?
Ele anuiu.
— Recuperei a proposta e, na altura, pareceu-me o melhor caminho. Desfiz-me de tudo o que tinha em Portugal e parti para nunca mais voltar.
— Nunca mais voltaste a Portugal?
— Não.
Phil esperou que Gabriel prosseguisse o relato, mas ele limitou-se a pegar no telemóvel e a analisar as chamadas não atendidas, uma vez que mantinha o aparelho silencioso sempre que ali ia.
— Foi por isso que te fechaste ao Mundo?
— Como assim? — questionou Gabriel, olhando para Phil. — Não me fechei ao Mundo. Apenas limitei o acesso das pessoas ao meu.
— Que conclusão tiras dessa decisão, ao fim destes anos?
— Que foi a melhor decisão que tomei. Não preciso de merdas destas na minha vida, Phil. Não preciso de acreditar em fantasias para ser despertado para a realidade. E se tens dinheiro, podes ter tudo sem chatices.
— No entanto, aí estás tu, mergulhado em angústia e solidão.
— Como é que se costuma dizer, Phil? O que não nos mata, torna nos mais forte.
Phil assentiu irónico, não partilhava daquela visão.
— Acho que devias repensar o futuro. Talvez te surpreendesses, se deixasse alguém...
— Pois, pois. Ambos sabemos onde isso me levaria. — contrapôs Gabriel. Tornou a olhar para o telemóvel. — Tenho de ir. Obrigado por este bocado, Phil.

A cúpula do Rogers Centre tinha razão, a chuva vinha a caminho. Quando Gabriel regressava a Toronto pela Gardiner Expy, a noite caía e os aguaceiros grossos embatiam no para-brisas do Ferrari. Enquanto fez o trajecto entre Mississauga e Toronto, Gabriel aproveitou o sistema de som ligado ao smartphone para responder aos telefonemas. Não era a melhor das oportunidades para conduzir e falar ao telefone ao mesmo tempo, mesmo em versão "mãos-livres", mas tinha o tempo limitado e queria inteirar-se dos assuntos antes de chegar ao compromisso desse início de noite, o jogo de basebol na casa dos Blue Jays.
Nenhum dos telefonemas mereceu o tempo que lhe tiraram. Nada de relevo, pontos de situação relativos a potenciais interesses de clubes, um ou outro agente a propor um acordo para que ele ajudasse na contratação de um seu agenciado, enfim... Nada que lhe interessasse, nem para o qual tivesse paciência, tal como aquele jogo a que ia.
Quem o convidara para assistir também lhe reservara um lugar no parque privativo do estádio. Aliás, era habitual ter acesso a um lugar para o seu F8 sempre que ia aos jogos de basebol, o que era raro. Preferia o seu lugar intocável no ScotiaBank Arena e despender tempo a ver os Maple Leafs ou os Raptors. Contudo, sabia que o convite se prendia com negócios, daí que não pudesse... não devesse recusar.
Encontrou algumas caras conhecidas que cumprimentou, mas com quem não perdeu muito tempo. Subiu pelo elevador e foi sair a um dos luxuosos pisos de camarotes. Sabia onde o tipo estava, o camarote era dele, um dos directores do clube.
Algumas dezenas de pessoas circulavam pelo corredor, a maior parte equipada com um qualquer adereço identificativo dos Blue Jays. Gabriel sorriu sozinho, certo de que quando se iniciassem as épocas da NHL e NBA, aquele estádio teria muito menos espectadores sempre que os jogos coincidissem com o hóquei ou o basquetebol.
Ao chegar ao camarote, a porta estava aberta. O espaço era semelhante a uma sala de estar com sofás, um balcão e mesas com bancos altos viradas para um grande vidro por onde se poderia ver o campo lá em baixo. Em posição oposta à entrada e logo ao lado desse vidro, uma porta igualmente envidraçada permitia que se acedesse às confortáveis cadeiras dos espectadores. O interior era todo em tons de azul, vermelho e branco, as cores dos Blue Jays. Gabriel entrou, reparando nas pessoas que já lá estavam. Viu o director que o convidou, um homem na casa dos setenta anos, vestido com um fato caríssimo, um outro tipo mais novo também com ligações ao clube e envergando a mesma formalidade, uma rapariga de vinte e poucos anos, loura platinada e cheia de curvas com um vestido reluzente e apertado, a qual ele sabia ser relações-públicas do clube, e uma outra mulher que ele não conhecia.
O homem mais velho sorriu-lhe com simpatia e cumprimentou-o. Gabriel apertou-lhe a mão, fez um aceno ao outro homem e sorriu para a RP que se aproximou e se ofereceu para lhe servir uma bebida. Gabriel declinou a oferta, aterrando os olhos na única pessoa que desconhecia. O seu anfitrião reparou e apressou-se nas apresentações.
— Gabriel, é a Rachel. — informou. — A Rachel é representante dos Washington Nationals e veio visitar-nos para nos apresentar uma proposta para o Lewis.
Rachel era uma mulher alta, tão alta quanto ele. Tinha cabelos longos acobreados e um rosto tipicamente americano do sul. Aliás, quando falou, Gabriel identificou-lhe imediatamente o sotaque sulista. Vestia um fato de saia e casaco estilo empresarial em tons claros, elegante e caro. O rosto era expressivo, uma simpatia protocolar que pretendia cair nas boas graças de quem teria de convencer a levar avante o seu negócio. Tinha olhos azuis, nariz aquilino e uma boca suculenta. Fisicamente não ficava atrás da esbelta RP dos Blue Jays, ainda para mais com aquele ar maduro e sensual.
Gabriel estendeu-lhe a mão com um sorriso, mas as palavras foram dirigidas ao director.
— O Lewis? Vocês sabem que a vender os melhores jogadores, nunca conseguirão ganhar títulos?!
O anfitrião ignorou o comentário e explicou:
— A proposta é muito boa.
Se fosse tão boa como quem a trazia, Gabriel sabia que seria difícil recusarem-na.
Lewis era um dos melhores lançadores da equipa. Para quem não sabe muito acerca de basebol, mas já viu alguma imagem do desporto, o lançador é aquele tipo que está no meio do campo a lançar a bola para que esta chegue ao seu colega de equipa atrás do batedor, sem que o batedor acerte na bola. Complicado? Bom, a questão fundamental é que Lewis era talvez o jogador mais influente da equipa.
Por seu lado, Rachel representava os Washington Nationals, outro clube profissional de basebol da MLB, equipa americana sediada na capital dos Estados Unidos, Washington D. C., e candidata às World Series, nome da fase final de apuramento do campeão.
— Prazer em conhecer-te, Gabriel. — disse ela num tom rouco.
Ele leu-lhe a expressão sedutora, sabia que tudo fazia parte de um jogo para o convencer a concordar com a sua proposta. Até onde estaria disposta a ir? O tempo o diria. Correspondeu à simpatia, analisando-a, adivinhando que deveria estar perto da sua idade, apreciando aquela beleza madura de mulher experiente que sabia o que queria e como queria.
No exterior ecoou a música habitual dos eventos desportivos para animar o público. Ainda nem metade da lotação se esgotara. No recinto relvado, alguns jogadores aqueciam e treinavam lançamentos.
— Então a Rachel foi o motivo do convite. — constatou Gabriel, olhando para o director.
O homem riu-se bonacheirão, segurando no copo de brandy.
— Espero que não estejas decepcionado. — desejou Rachel, fazendo uma espécie de beicinho.
— Se conseguir evitar que o Lewis saia dos Blue Jays, não fico. — retorquiu Gabriel, entrando no tom dela.
Rachel simulou um semblante magoado.
— Oh... Assim, serei eu a ficar desapontada.
O espaço era iluminado numa tonalidade creme. Porém, a luz pareceu perder força quando a iluminação dos holofotes mergulhou o campo numa onda de brilho.
— Vai começar. — chamou o director.
A zona reservada defronte de cada camarote tinha duas linhas de cadeiras confortáveis, as quais eram limitadas pela beira da bancada. Estavam no piso intermédio. Abaixo deles estava a bancada ao nível do relvado, acima deles os lugares mais distantes e menos caros.
O responsável do clube encaminhou os convidados de forma a que Gabriel e Rachel ficassem sentados ao lado um do outro. Depois, ele sentou-se ao lado de Gabriel, fazendo uma espécie de cerco ao agente desportivo para, juntamente com ela, o convencer a aceitar a proposta que tinham para Lewis. Se convencessem o empresário do jogador, convenceriam o jogador.
Ao longo do início do jogo, Rachel foi falado dos detalhes da proposta, os valores envolvidos para o jogador, o que o clube ganharia com a transacção e quanto caberia a Gabriel. Era mesmo uma proposta ao nível de quem a trazia, interessante, bem estruturada e que dava vontade de agarrar.
Porém, Gabriel não chegara ao estatuto que tinha, a facilitar os negócios à parte contrária, por isso permaneceu impávido como se lhe estivessem a oferecer um quilo de laranjas para concordar com o negócio. Para além disso, passou o jogo todo a elogiar a exibição de Lewis, o qual fez um daqueles jogos de valer o bilhete.
Astuta, Rachel colocou a mão no braço de Gabriel e com um ar sofrido, confessou:
— Não poderemos ir muito além disto.
— Então, é melhor irem até onde podem ir, Rachel.
— Terei de falar com os Nationals, Gabriel.
Ele franziu o rosto, não acreditando que uma empresária na posição dela não tivesse uma margem de manobra para aumentar a parada.
— A sério, Gabriel. — insistiu, afectuosa. — Quero trazer-te algo irrecusável.
— Tudo bem, ficarei à espera.
— Sou capaz de ter novidades, amanhã. Podemos discutir a nova proposta num jantar? — sugeriu ela.
— Não sei. — respondeu Gabriel, voltando-se para o director. — Tens disponibilidade?
Rachel apertou-lhe o braço, chamando o seu olhar para si.
— Acho que podemos resolver a questão entre nós. — Olhou para o director dos Blue Jays. — Não achas, meu caro?
— Claro que sim, Rachel.
Ela tornou a encarar os olhos de Gabriel.
— Então, que me dizes? Amanhã à noite?
Para surpresa dela, com certeza pouco habituada a ser rejeitada, Gabriel recusou e apresentou como alternativa que ela passasse no seu escritório no dia seguinte à tarde.
A empresária teria preferido um jantar, num ambiente intimista, onde pudesse fazer algum jogo de sedução para o convencer. Na verdade, não estava surpreendida, Gabriel era um dos melhores agentes de jogadores da América do Norte, por isso, teria de jogar nas regras dele.

O ambiente no gabinete de Gabriel estava luminoso, tal como a cidade que, naquele dia, trocara a chuva pelo Sol radioso. Ele aguardava sentado na sua cadeira atrás da mesa de trabalho, analisando o contrato que obtivera o parecer favorável do seu advogado.
Na hora marcada, Francis surgiu na entrada acompanhado pela pessoa que combinara aquela reunião com ele. Gabriel levantou-se e recebeu Rachel com um sorriso protocolar, enquanto Francis regressou ao seu posto na recepção.
Rachel apresentava-se no mesmo estilo de vestuário de mulher de negócios, como acontecera no Rogers Centre. Desta vez, o fato era mais escuro, mas combinava na perfeição com o seu tom de cabelo. Gabriel reparou que a camisa dela tinha dois botões a mais desapertados, certamente com o intuito de o distrair para o decote.
Gabriel convidou-a a sentar no sofá.
— Tens aqui um belo espaço. — constatou ela, sentando-se numa das pontas do sofá.
Ele não se pronunciou e sentou-se na extremidade oposta, deixando espaço suficiente, entre eles, para que outras duas pessoas se sentassem.
Abrindo a sua mala de trabalho, Rachel retirou uma folha impressa com as insígnias dos Nationals e entregou-a a Gabriel. Ele pegou no papel e leu-o com atenção. Não havia dúvidas que queriam mesmo o Lewis, uma vez que aumentavam bastante os valores envolvidos.
— É o máximo que podemos oferecer. — confessou ela.
Gabriel fez uma expressão desconfiada. Rachel contrapôs com um sorriso sedutor e num tom fingido de vulnerabilidade, revelou:
— Acredita, Gabriel. Eles não vão dar mais que isso. Acima desses valores, só se for eu a pagar. — Sorriu. — E eu não tenho dinheiro para isso.
Ele ia aceitar e sabia que Lewis aceitaria logo que visse a proposta. Era muito mais que aquilo que auferia em Toronto. No entanto, estava curioso com aquele jogo de sedução que Rachel vinha a fazer desde que a conhecera.

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

— Esperava mais... — suspirou Gabriel.
Rachel revelou surpresa no olhar.
— Por favor, Gabriel. Isso é uma proposta multimilionária.
Ele ignorou a frase.
— Tu também vais lucrar bastante com isto, Rachel.
— Tal como tu.
Gabriel pareceu ponderar a questão. Percebeu que trazia uma certa irritação no espírito, uma irritação que o corroía desde que estivera a reviver os últimos anos em Portugal, na sala de Phil. Odiava quem se aproveitava dele, principalmente mulheres que faziam charme para o enganar. Sentia que Rachel o procurava seduzir para o levar a fazer o que ela queria, tal como Olga o enredara numa malha de amor que não fora mais que uma ilusão amarga de um falso sentimento. Olga usara-o até recuperar o ex-marido, Rachel queria usá-lo para lucrar com a mudança de Lewis dos Blue Jays para os Nationals.

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!
Seria Rachel capaz de se vender?

Na sua mente, Gabriel equacionou até onde estaria ela disposta a ir para o convencer. No dia anterior, sugerira um jantar. Todos os sinais que vinham dela apontavam para a selagem do acordo no quarto de hotel onde estava hospedada. A verdade é que não tinha paciência para esse tipo de jogos, gostava de ser prático, daí a lista de dez nomes quando se queria envolver com alguém. Dar-lhe-ia um certo gozo colocar-lhe as cartas na mesa, apresentar a contraproposta de "eu aceito o acordo se formos para a cama". Não. Queria algo mais imediato, do género "despes o casaco e a camisa, fazes-me uma mamada agora e eu aceito o acordo". Ia ainda a pensar noutra hipótese, quando a voz dela o despertou das fantasias.
— Olha, Gabriel, nós não nos conhecemos. Sei o que estás a pensar. — Não, não sabia. — Que estou a fazer bluff, que posso ir mais longe. Não posso. A sério que não posso. — Havia algo de genuíno na voz dela, falava com frontalidade, sem esquemas, longe do ar de sedução e numa postura profissional. — Tenho pena, não só pelo dinheiro que não vou ganhar, mas porque gostava de realizar um negócio com alguém com o teu prestígio.
— Sou apenas um empresário de desporto como tu. — retorquiu, sentindo-se estúpido pelas ideias que lhe passaram na cabeça.
— Já ando nisto há vários anos, mas não tenho o teu prestígio. — concluiu com um sorriso cansado.
Sem saber explicar porquê, Gabriel sentiu uma súbita simpatia por ela.
— Não te preocupes. — descansou-a. — Eu aceito esta proposta.
Ela ofereceu-lhe um sorriso radioso de uma felicidade genuína.
— Fico a dever-te uma.
— Não me ficas a dever nada, Rachel. — recusou, retribuindo o sorriso. — São negócios e ambos ganhamos com eles.
Gabriel calculou que a sua aceitação levasse ao fim daquela reunião. Contudo, Rachel não se mexeu e ficou a olhar para ele. Que quereria ela? Pensou em fazer aquele gesto típico de olhar para o relógio e dizer "bom, penso que está tudo tratado".
— Não te sentes só?
A pergunta dela atingiu-o com surpresa. Ficou confuso. Onde pretenderia chegar? Já tinha o que queria. Ponderou as intenções dela. Haveria algum interesse para além do comercial?
Rachel não esperou a resposta e continuou:
— Não sei o que pensas sobre isso, mas acho esta vida muito solitária. Eu sinto-me solitária.
E que tenho eu a ver com isso, interrogou-se Gabriel. Pouco ou nada lhe interessava a vida dela.
— Tenho quarenta e três anos. — Parecia mais velha. — Sou uma empresária de sucesso, realizada profissionalmente, mas.... Ando sempre de hotel em hotel, a atravessar a América de ponta a ponta ou o Canadá. Quando chego a casa... — Fez um ar triste sem qualquer pretensão de representar. — Enfim...
Gabriel percebeu que ela queria apenas desabafar, vendo-o como um igual, e procurando nele um espelho de si própria, como se Gabriel tivesse alguma solução. Perante o silêncio dele, ela acabou por dizer:
— Desculpa, Gabriel. Não quero estar a maçar-te com as minhas tretas. Imagino que tu não passes pelo mesmo. Nem te conheço, se calhar tens mulher e filhos... — Fingiu divertimento. — Talvez até quisesses é estar no meu lugar.
— Enganas-te! — exclamou sério. — Compreendo perfeitamente o que sentes. — No olhar dela surgiu a constatação de que, sem querer, encontrara outro solitário.
Uma expressão de grande seriedade brotou no rosto de Rachel, como se nesse instante tivesse percebido que poderia estar a dar sinais contraditórios ao seu objectivo.
— Desculpa, Gabriel. Acho que devo dizer-te uma coisa, tenho obrigação de ser bem clara nisto. Não sei bem porquê, comecei a desabafar isto contigo, mas... Não estou a atirar-me a ti. É mesmo só uma conversa de ami... — Interrompeu-se, encolhendo os ombros. — Bom, ia a dizer amigos. — Não reprimiu um semblante ingénuo. — Claro que não somos amigos, conhecemo-nos ontem. Porém, não me importava que o pudéssemos ser.
Gabriel observou-a inexpressivo. Não precisava nem queria amigos. Se os quisesse, comprava-os.
— Não pensei que te estivesses a atirar a mim. — mentiu. — Para te ser sincero, tu nem fazes o meu género.
Apesar de não estar a tentar seduzi-lo, nenhuma mulher gosta de ser rejeitada, daí que tivesse feito uma expressão torcida de quem não acreditava, questionando:
— E qual é o teu género?
Sem preocupação em ser frontal, Gabriel respondeu sem filtros:
— O género das que recebem dinheiro para fazer sexo e não chateiam.
Rachel não esperava tamanha sinceridade. Recompôs-se da revelação e retorquiu, perdendo alguma simpatia:
— Sim, tens razão, de facto não sou o teu género. E desculpa estar a chatear-te.
— Espera, Rachel. Percebeste mal. Não me referia a ti. Não me estás a chatear, nem tão pouco a aborrecer.
Aquilo pareceu agradar-lhe, apesar de abominar homens que pagavam a mulheres para terem sexo. Considerava-o uma exploração das necessidades de quem não tinha outra forma de sobreviver. Contudo, ele era um solitário como ela e Rachel sabia bem que disparates um ser humano poderia fazer para combater a solidão.
— Para ti, o sexo é um negócio.
— Não o diria dessa forma. Isso seria se ganhasse dinheiro a fazê lo. Digamos que é um fornecimento de serviços. — Gabriel falava num tom afável, sem complexos. — Se queres comer e não queres cozinhar, encomendas a comida ao domicílio ou passas num take-away antes de ir para casa. Eu, como não quero relacionamentos, prefiro contratar profissionais quando sinto necessidades sexuais.
Rachel sorriu.
— Desculpa, estar a rir. Acho curioso estarmos a falar nisto. Nós que mal nos conhecemos.
— Não tenho problemas em falar nisto. E tu puxaste o assunto.... Espero que não estejas chocada.
— Não, nada disso. — negou ela prontamente. — Aliás, como calculo que não seja algo que andes por aí a partilhar com toda agente, penso que me estarás... a abrir a porta para uma amizade.
— Talvez me tenhas interpretado mal. — contrapôs com distanciamento. — Não ando à procura de fazer amigos, estamos só a conversar.
Foi um balde de água fria ou, melhor, um balde de gelo sobre ela. Podia entender que alguém recusasse avanços de cariz sexual, mas não compreendia que outra pessoa recusasse uma sugestão de amizade.
— Não me digas... A amizade, para ti, também é um negócio?
— É algo que não me faz falta.
— Olha, a mim faz. — confessou magoada. — Ainda há pouco me declarei a ti como querendo ser tua amiga. — Foi a vez dela de não ter problemas em ser frontal e falar sem filtros. — Digo-te com toda a sinceridade... Bolas, acabaste de me magoar. És a primeira pessoa que vejo recusar um amigo, a primeira que me recusa como amiga.
Gabriel não duvidou que a magoara, era perceptível na voz dela e na expressão triste.
— Não é nada pessoal, Rachel. É um problema meu. Não quero amigos!
A empresária encaixou a frase como uma despedida. O assunto que a levara ali estava tratado, felizmente com sucesso. Lamentava ter aberto o peito a uma pedra de gelo que se escondia por baixo da capa de ser humano. Levantou-se do sofá, triste e séria sem lhe reconhecer direito a receber mais nenhum sorriso seu.
Gabriel copiou o seu movimento. Sabia que estava a ser injusto e cruel. Era o seu sistema defensivo contra a Humanidade a funcionar em pleno. No entanto, fora surpreendido pela vulnerabilidade demonstrada por Rachel, que desde o primeiro momento irradiava uma imagem de segurança e imponência, perante a rejeição da amizade.
— Espera um pouco. — sugeriu com arrependimento. — Talvez esteja a ser... Não sei como o definir.
— Estúpido? — atirou ela. — Desculpa a honestidade, mas para mim, alguém rejeitar um amigo só pode ser estúpido.
— Sou uma pessoa complicada. Tu não compreenderias.
— Coloca-me à prova!
— Coloco-te à prova? Que quer isso dizer?
Rachel cruzou os braços sobre o peito, olhando-o intensamente. Sentia algo por ele, algo que não era carnal ou sentimental, apenas gostava dele e continuava envolvida na sensação estúpida de que ele poderia ser alguém interessante para conviver, nem que fosse para trocar um email ou um telefonema sem nenhuma razão em especial. Curiosamente, verbalizou-o. Consciente que já "despira" tanto das suas inseguranças diante dele que não seria aquilo que a deixaria pior.
Ele ficou a observá-la. Porque seria tão difícil dar aquele passo tão simples de estender a mão e confessar que estava a atravessar um momento angustiante de merda e a viver uma solidão atroz? Bolas, pá, ela só quer um amigo, é uma solitária como tu.
Gabriel imaginou imensas coisas para dizer, mas não abriu a boca. Rachel interpretou-o como um caso perdido e uma completa perda de tempo.
— Bom, é melhor ir andando. — disse sem o encarar. Havia tristeza na sua voz.
— Ainda ficas por Toronto?
Que te interessa isso? Que merda queres tu de mim?
Apesar de o pensar, Rachel não o disse. Continuou a não o encarar e passou por ele.
— Parto amanhã de manhã para Seattle, tenho uma reunião.
— Espero que voltemos a falar.
Ela virou-se para ele. Tinha os olhos húmidos.
— Sim, é provável que sim. Estamos no mesmo negócio, Gabriel. É natural que nos cruzemos para uma qualquer transacção de jogadores.
— Desculpa! — pediu com sinceridade.
— Não tenho nada a desculpar-te. Não fizeste nada.
— Não desistas.
— Não desisto? — A pergunta foi feita numa mistura de surpresa e confusão. — Não desisto de quê?
Gabriel encolheu os ombros e passou a mão pelo cabelo, cansado, atrapalhado, inseguro.
— Estou a ser uma besta, eu sei. É maravilhoso que me estejas a oferecer a tua amizade. — Abanou a cabeça, decepcionado consigo próprio. — Fechei-me há muito tempo para as pessoas. Não sei como reagir.
Rachel percebeu o pedido de auxílio nas palavras. Esboçou um sorriso e aproximou-se dele. Não tinha nada a perder, por isso, abraçou-o. Sentiu toda a retracção do corpo dele.
Meu Deus, há quanto tempo ninguém te abraça?
— Não precisas de me abraçar, se não quiseres. — sussurrou-lhe. — Eu não desisto de ti. Quero ser tua amiga. Serei paciente.
— Obrigado. — agradeceu com a boca no seu cabelo.
— Sem más interpretações, Gabriel. Não quero mais que uma amizade.
— Eu sei. Eu nem a amizade sei se quero.
— Claro que queres. — afirmou ela.
Afastaram-se.
— Obrigado por tudo, Gabriel. O contrato do Lewis é importante, mas aquilo que começámos a criar aqui hoje, entre nós, é muito mais valioso. Pelo menos para mim.
Gabriel não disse nada. Para ele era... Nem sabia muito bem, mas não era melhor que dinheiro e saúde.
— Ligo-te um dia destes.
— Liga-me quando chegares a Seattle.
Rachel sorriu.
— Não é demasiado cedo? — Ele abanou a cabeça. — Será como queres... amigo.

A noite caíra, quando Gabriel saiu do Bay-Adelaide no seu Ferrari F8 Tributo rumo a casa. Ainda havia muito trânsito na cidade, mas ele não demorou mais que o habitual. Ao chegar ao seu apartamento, sentiu o cheiro perfumado resultante da visita da empresa encarregue de fazer a limpeza e manutenção do espaço, duas vezes por semana. Entrou na sala e olhou para a cozinha com o habitual tédio e desinteresse em cozinhar. Pegou no smartphone e abriu a aplicação que usava para encomendar comida. Escolheu algo simples e viu que demorariam meia hora entregar.
Sentiu cansaço e uma forte necessidade de descomprimir. Aquela conversa com Rachel fora estranha e, mal ela abandonara o seu gabinete, arrependeu-se de não ter fechado a porta à amizade que ela lhe oferecera. Estava tenso e sabia o que precisava. Voltou a olhar para o ecrã e abriu os contactos do telemóvel, procurando um dos dez nomes daquela lista especial. Ponderou quem haveria de escolher e decidiu-se, clicando no nome "artístico" dela. Fez uma conta rápida, enquanto ouvia o toque de chamada, meia hora para entregar a comida, outra meia hora para comer... Ela atendeu, reconhecendo o número e cumprimentando-o melosa como uma comercial empenhada em agradar ao cliente. Estava disponível, claro que estava, com o que ele pagava... Gabriel combinou para daí a hora e meia.
Para relaxar, foi tomar um duche rápido e lavar-se de um dia complicado como todos pareciam ser ultimamente. Quando tocaram à campainha, Gabriel recebeu o estafeta com a comida. Não se preocupou em vestir mais que um robe turco. Comeu alheado da realidade, sentado ao balcão com o olhar perdido na realidade escura do lago avistado através dos enormes vidros.
Há hora marcada, o som melodioso da campainha voltou a ecoar pelo apartamento. Gabriel permanecia com o robe, não perdera tempo a mudar de roupa. Lavara os dentes e perfumara-se antes de ela chegar. Lá porque estava a pagar não tinha que se despreocupar com a satisfação dela, recebendo-a com mau hálito e cheiro duvidoso.
A mulher que veio ao seu encontro era alta, mais alta que Gabriel devido aos saltos altos das botas. Tinha um longo cabelo louro penteado em trancinhas coladas à cabeça e vestia um sobretudo que a cobria do pescoço aos pés. Sorriu-lhe libidinosa e ele recebeu-a com a excitação a crescer. Ela entrou e despiu o sobretudo, revelando a minissaia, a camisola com decote generoso e as botas de cano alto pelos joelhos.

O mundo parecia não existir naqueles momentos, talvez os únicos em que se conseguia abstrair da angústia e das lacunas que lhe queimavam a alma. Estava sentado no sofá, encostado com a cabeça tombada para trás, os olhos fechados, a saborear o momento. Um friozinho ténue picava-lhe a pele da barriga. Tinha as pernas afastadas e os cotovelos dela apoiavam se nas suas coxas. Valia cada dólar, a loura. Gabriel abriu os olhos e rodou a cabeça para baixo. A mulher estava ajoelhada no chão, defronte de si, entre os seus joelhos. Acariciou-lhe o cabelo entrançado ao ritmo a que ela o chupava e lhe tocava com os dedos ternos.
O som do telemóvel ecoou na sala, era um sinal da chegada de novo email. A prostituta olhou para ele com a boca cheia e parou, largando o.
— Queres que pare? — perguntou, caso ele quisesse ver se era importante.
Gabriel cravou os olhos nela, excitado, vendo o peito volumoso, dois rochedos que o silicone aumentara.
— Não. Continua.

Sozinho no sofá, Gabriel deixou-se levar pela curiosidade. O email poderia ser alguma novidade interessante, uma proposta de comercialização de algum jogador ou a confirmação de um acordo de transferência. Pegou no aparelho, tocando no ecrã para que o sistema lesse a sua impressão digital. Esperava que não fosse uma qualquer mensagem de spam. Mesmo antes de abrir a aplicação do email, passou-lhe pela cabeça a hipótese de Rachel lhe ter escrito alguma coisa. No entanto, ao ver o nome do remetente e o assunto, empalideceu.
A loura regressou da casa de banho completamente nua. Sorria protagonizando aquele papel de quem estava louca de tesão e ansiosa para que ele a agarrasse e a fizesse sentir todo o desejo dentro de si. Contudo, reparou no estado perturbado dele.
— Está tudo bem?
Gabriel anuiu aturdido.
— Surgiu um imprevisto. Vais ter de ir embora. — Ela fez um ar decepcionado, mas não protestou. — Não te preocupes, pago-te a noite toda e vou chamar um Uber para te levar onde quiseres. — Ela anuiu. — Onde queres que ele te deixe?
Ela disse-lhe a morada e pegou nas roupas para se vestir. Fê-lo ali, onde ficara a camisola e o sutiã. Depois, retornou à casa de banho para ir buscar as cuecas e a saia.
— Espero que tudo se resolva. — desejou, enquanto calçava as botas.
— Não te preocupes com isso. — respondeu ele, entregando-lhe as notas de dólares. — Tens aí um bónus pela chatice.
Ela recebeu as notas, retirou o combinado e devolveu-lhe o resto.
— Não é preciso. — recusou com um sorriso atraente. — Não foi chatice nenhuma.
— Fica com ele. Considera-o um presente.
Ela abriu mais o sorriso, vestiu o sobretudo e beijou-o com paixão.
Despediram-se e a loura foi-se embora, esperar o Uber que deveria estar mesmo a chegar.
Novamente sozinho, Gabriel tornou a olhar para o smartphone, para a aplicação de email com a lista de mensagens, onde a primeira linha estava com as letras num negro carregado. O nome do remetente era Olga e o assunto continha "por favor, não apagues sem ler primeiro".
Ao fim de mais de quinze anos de inexistência na vida um do outro, Olga voltava a contactá-lo.

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