Capítulo V
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A chegada da mensagem de Olga quebrara-lhe completamente o clima e a vontade de continuar a usufruir dos serviços da loura. Nem precisou de ler, bastou-lhe a noção de que ela o voltava a contactar, após tantos anos, para o desinteressar daquilo que contratara.
A primeira vontade foi apagar a mensagem sem sequer ler, não lhe dar essa importância, não perder um segundo que fosse com aquilo. Porém, entre a vontade de ler e a de apagar, já lá iam muitos segundos. Sabia que, se apagasse sem ler, por muito que isso lhe parecesse a melhor forma de se vingar, também se recriminaria e iria andar nos tempos mais próximos a questionar-se acerca do que lá estaria escrito.
Ao fim de uns dez minutos, decidiu-se a ler.
A mensagem começava com um simples "Olá Gabriel".
“Olá Gabriel,
Como estás? Espero que estejas bem. Por vezes, até me custa a acreditar que já passaram quinze anos. Sei que não fui correcta contigo, mas espero que todo este tempo já tenha cicatrizado as feridas que te possa ter deixado. Deves estar a questionar-te o porquê de te contactar ao fim destes anos. É simples, quero pedir-te um favor. Não tenho ilusões, Gabriel, sei que não mereço, talvez não tenha sequer o direito de tentar pedir-te um favor. E é verdade. Só que, aquilo que peço, não é um favor para mim, é para alguém muito importante para mim e, acredito que também para ti, apesar de tudo. Ela é a pessoa que mais amo neste mundo. Estou a pedir-te um favor para a Íris, a minha filha. Lembras-te dela, não lembras? A Íris decidiu prosseguir os estudos no estrangeiro, vai frequentar uma Universidade em Montreal, a McGill. Não sei se conheces. Ela é uma miúda espectacular, trabalhadora, objectiva e empenhada em seguir os seus sonhos. A McGill é um sonho para ela e candidatou-se, apesar de não conhecer ninguém no Canadá, nem nunca ter viajado para tão longe de mim. É uma excelente aluna, formou-se cá com distinção, mas quer sempre mais, saber mais e mais. Terias orgulho nela. Conseguiu ser admitida e em breve mudar-se-á para Montreal. Como te disse, não conhece ninguém lá. Deves estar a perguntar-te o que tens tu a ver com isto. Eu explico. Há algum tempo, soube que estavas no Canadá. Não sei onde vives e o Canadá é muito grande. Mas, se de alguma forma pudesses ajudar a Íris a integrar-se, seria um favor impagável que me farias. Sei que não tenho o direito de to pedir, muito menos que aceites ajudar-me. Mas, também sei que sempre gostaste muito da Íris. Por isso, se a puderes ajudar... Não te culparei se recusares, nem ficarei magoada contigo. Aliás, se as feridas estiverem saradas, mesmo que não possas ajudar a Íris, não me importava que reatássemos o contacto, trocar umas mensagens ou conversar. Pensa naquilo que te peço com carinho. Beijinhos. Olga."
Gabriel ficou a olhar para o texto, imóvel, como se fosse uma estátua. Releu mais duas vezes, constatando que o seu português estava mais enferrujado que aquilo que pensava, para ter a certeza de tudo o que continha a mensagem. Indignou-se por ela perguntar como ele estava e por desejar que estivesse bem. Como se isso lhe interessasse. O bem-estar dele não lhe importou há quinze anos, não era agora que isso mudaria. E depois, escrevia como se há quinze anos tudo não tivesse passado de um afastamento de dois amigos que seguiram caminhos diferentes. Era preciso ter lata. E ainda falava em feridas? Em cicatrizes? E julgava que o tempo passara um pano em tudo. Odiava-a. Vinha pedir-lhe um favor. Pelo menos, nisso estavam de acordo, ela não merecia que lhe fizesse qualquer favor.
A partir dali algo atenuou a raiva de Gabriel. A referência a Íris fê lo retornar às memórias da criança pequena, doce e divertida que ele vira pela última vez com nove anos e que a mãe o impedira de se despedir dela. Pensou como estaria ela. Bolas, como o tempo passa. Fez contas de cabeça. Íris deveria ter vinte e quatro ou vinte e cinco anos. Sentiu-se velho. Constatou que estava a sorrir para o ecrã, lendo os feitos da pequena.... Qual pequena, Gabriel? Íris era agora uma mulher.
A tristeza regressou. Gostaria de ter acompanhado a evolução dela. Nunca pretendera ser um pai, nem nunca a vira como filha. Mas, gostava muito dela, não só por ser filha da sua namorada da altura, como porque entre eles sempre houve uma empatia fabulosa. Mais uma coisa que não perdoava a Olga, tê-lo privado daquela relação com Íris.
Continuou a ler. Sim, tinha orgulho nela.
Parou a leitura. Voltou atrás algumas linhas. Íris vinha estudar para o Canadá. Pensou se estaria na disposição de a ajudar. Claro que sim, mas.... Surpreendeu-se por perceber como ela era importante para si, uma espécie de sensação adormecida todos aqueles anos que despertara com aquele email. Sim, iria ajudá-la... Não, não ia.
Como seria a Íris de vinte e tal anos, a Íris adulta? Seria uma réplica da mãe? Teria o mesmo feitio interesseiro, aproveitador dos sentimentos alheios? Que expectativas traria consigo em relação a ele? Gabriel não queria ninguém na sua vida privada. Ela poderia querer ser sua amiga. Só que um dia regressaria a Portugal e a amizade ficaria com um oceano pelo meio. Habituar-se a ela, seria deixar-se contagiar por uma doença que acabaria com ele mais tarde.
Estava a exagerar. A miúda só queria alguém para a ajudar a instalar-se. Ele poderia fazer isso, mantendo algum distanciamento, deixando bem claro que a ajudava ao início e depois ela seguiria a sua vidinha. Toronto ficava a uma hora de avião de Montreal e cerca de cinco a seis horas se fosse de carro ou comboio. Não seriam certamente visita um do outro.
Leu a última parte "mesmo que não possas ajudar a Íris, não me importava que reatássemos o contacto, trocar umas mensagens ou conversar. Pensa naquilo que te peço com carinho. Beijinhos. Olga."
Gabriel colocou o telemóvel de lado e disse para o ar:
— Vai-te foder, Olga!
Nunca gostara de tomar decisões por impulso, nem nunca o fazia, excepto nalguns negócios que implicaram decisões rápidas. Por isso, optou por não responder ao email e foi para a cama.
A noite foi péssima, uma vez que mal dormiu com toda aquela situação a metralhar-lhe os pensamentos. Contudo, na manhã seguinte, ele tomou uma decisão e não teve dúvidas do que iria fazer. Iria responder à mensagem.
Se sucumbisse à vontade que lhe ia na alma, digitaria um texto enorme a lembrar Olga da cabra que era, a puta que fora e que não tinha o direito de o incomodar ou esperar que fizesse o que quer que fosse por ela. Em opção, pensou em dizer o mesmo, mas de forma sucinta e mais elevada. Ponderou melhor. Não lhe iria dar o gosto de revelar o quanto as feridas ainda estavam abertas. O melhor seria comportar-se com ela da mesma forma como havia vindo a fazer com todas as pessoas nos últimos quinze anos, ser frio e distante.
"Olga. A Íris que me escreva para o meu email. Verei com ela, o que posso fazer. Gabriel"
Se fosse esperta, Olga perceberia que Gabriel não queria falar mais com ela. E Olga era esperta e, de certeza, percebeu a mensagem sublinear que a mensagem levava. No entanto, uma hora mais tarde, Gabriel recebeu na sua caixa de email:
"Obrigado, Gabriel. Fico em dívida contigo. És um querido. Já dei o teu email à Íris. Ela vai escrever-te, como pediste. Vamos falando. Beijinhos. Olga"
Vamos falando? Vai pró caralho, Olga!
Gabriel passou o dia no escritório em Bay-Adelaide. Teve alguma dificuldade em concentrar-se, quando chegou, motivado pelos últimos desenvolvimentos, mas assim que os assuntos profissionais exigiram a sua máxima concentração, o resto ficou em segundo plano.
Francis trouxe-lhe o almoço, sushi dum take-away, conforme ele lhe pedira.
A meio da tarde, Rachel telefonou-lhe. Gabriel ainda se sentia inseguro em relação ao caminho que queria tomar com ela. Por isso, ignorou a chamada. Ela voltou a tentar, cinco minutos mais tarde, e obteve o mesmo resultado. Um minuto depois, ecoou o aviso de novo sms com a mensagem "deves estar ocupado, era só para te dizer que já estou em Seattle". Não estava ocupado, estava indeciso. Tinha sentimentos contraditórios em relação a ela, uma vez que tanto queria ser seu amigo como queria nunca mais a ver. Por ora, ela estava a mais de quatro mil e cem quilómetros de distância, por isso, não faria mal responder "estou numa reunião, desculpa, falamos depois". Falariam depois, numa altura em que nem ele saberia quando seria.
A tonalidade de luz foi diminuindo lá fora. Da sua secretária, Gabriel foi vendo a intensidade da iluminação dos prédios à volta a aumentar, enquanto se multiplicava em telefonemas e emails. Lewis ficara felicíssimo com a proposta dos Washington Nationals e pediu a Gabriel que avançasse com o processo, uma vez que tinha a sua concordância para a transferência.
Ao entardecer, chegou à caixa de email de Gabriel uma mensagem nova. Era de Íris. Sem saber explicar porquê, hesitou em abri-la. Porém, lá clicou sobre o assunto "Viagem para o Canadá".
"Olá Gabriel,
Sou a Íris. Não sei se ainda se lembra de mim... A minha mãe disse me que falou consigo para me ajudar na minha estadia em Montreal. Quero agradecer-lhe a disponibilidade em me ajudar. Tomei a liberdade de fazer alguma pesquisa no Google sobre si. Vi que está relacionado com o desporto e maioritariamente com os clubes de Toronto, pelo que deduzo que seja aí que vive. Não conheço muito ou mesmo nada do Canadá, para além das coisas que se podem ler na Internet e alguma geografia. Sei que Toronto não é já ali, mas, para um país com a dimensão do Canadá, não deve ser muito longe, nem uma realidade muito diferente. Por isso, tenho esperança que me possa dar algumas dicas sobre a cidade para onde me irei mudar em breve. Vou estudar para a McGill no curso de Microbiologia e Imunologia. Fico a aguardar notícias suas. E mais uma vez obrigado. Íris"
Gabriel leu o texto visualizando a menina de nove anos a dizer aquelas coisas. Não tinha outra imagem de Íris que não fosse a menina doce, fofa, redondinha e divertida. Não se deu ao trabalho de imaginar como seria ela agora. O tratamento formal também o levou de regresso àquela característica do português de Portugal, em que as pessoas se tratam por "tu" ou por "você", algo que não se encontrava no idioma inglês e ao qual ele se desabituara completamente. Não sabia se ela usara a formalidade para manter alguma distância do homem que fora namorado da mãe, enquanto os pais estavam separados, ou por estar a falar com alguém com quem não tinha proximidade.
Francis apareceu à porta, indicando que se ia embora. Gabriel acenou-lhe um “adeus” distante.
Novamente com a atenção no ecrã do computador, decidiu responder à pequena que já não era uma criança de nove anos.
"Olá Arco-íris,
Começo por te pedir que não me trates por "você", faz-me sentir velho. Como já percebeste, eu lembro-me bem de ti, Arco-íris. Era assim que te chamava, quando tinhas oito, nove anos. Lembras-te? Antes de mais, quero dar-te os parabéns, não é qualquer um que entra na McGill, ainda para mais vindo do estrangeiro. Para além disso, é corajoso da tua parte, vires sozinha para um país novo e estranho. E acredita que sei o que isso é, fiz o mesmo há quinze anos. Não te preocupes, tenho a certeza de que vais gostar. Eu conheço Montreal, posso dar-te algumas dicas, mediante o que precisares de saber. Não vivo em Montreal, tu não estás errada e foste muito perspicaz ao concluir que vivo de facto em Toronto. Quando pensas vir? Tens onde ficar em Montreal? Já pesquisaste alguma coisa? Naquilo que te puder ajudar, conta comigo. Gabriel"
Clicou no enviar. Sentiu um arrependimento súbito pela disponibilidade que demonstrava para com a filha da mulher que o traíra, que o magoara e o ferira de tal forma que comprometera a sua vida daí em diante. Porém, Íris não tinha culpa disso. A seguir, foi acometido pelo remorso de a tratar pela alcunha que lhe chamava em menina, "Arco-íris". Que iria ela achar disso? Possivelmente, tomá-lo-ia por um velho parvo. Bolas, não era velho, estava quase com cinquenta anos, mas não era velho. Pois... Mas, comparado com ela, era... velho.
Aguardou algum tempo, como se ela estivesse diante do computador, lá do outro lado do Atlântico, à espera do email dele e fosse logo responder. Gabriel olhou para o relógio, em Portugal era meia-noite. Talvez só lhe respondesse no dia seguinte ou quando precisasse efectivamente de lhe perguntar alguma coisa.
Antes de regressar a casa, Gabriel passou pelo sector de refeições, na zona comercial por baixo do edifício, comprando um jantar simples num qualquer restaurante de comida típica indiana para levar.
Ao entrar em casa, a notificação do smartphone alertou-o para uma nova mensagem. Ele largou o jantar sobre o balcão que separava a cozinha da sala e sentou-se num dos bancos, pegando no aparelho e desbloqueando o ecrã. Tinha uma mensagem de email nova. Remetente? Íris.
"Olá Gabriel,
Ou deverei dizer Gabi? Sim, eu lembro-me. Fizeste-me dar uma gargalhada enorme, quando abri o teu email — como vês, estou a tratar-te por "tu" — Foi uma gargalhada de saudade. Tu és a única pessoa que me chamava Arco-íris. E eu gostava disso. Para uma menina de oito anos, ser um arco-íris é tão bom. Tive pena quando foste embora. Desculpa estar a tocar no assunto, mas não quero que existam "elefantes na sala" nas nossas conversas. Percebes o que quero dizer? Seja como for, é assunto que não me diz respeito. Quero só que saibas que lamento. Agora, a minha viagem para o Canadá. Não tenho nada planeado, ainda. Pensei em reservar um quarto num hotel barato de Montreal até encontrar um lugar para arrendar e viver enquanto estiver a estudar lá. Podes dar-me uma dica sobre isso? Mas, olha, não quero de forma nenhuma ser um incómodo ou estar a maçar-te. Se não puderes ajudar, não levarei a mal, jamais. Já é espectacular da tua parte que estejas disponível para ajudar. Fico a aguardar a tua resposta. Um beijinho muito grande para ti, Gabi. P.S.: Se não gostares que te chame Gabi, diz. Afinal, eu já não tenho oito anos. A mim, podes continuar a chamar-me Arco-íris. As meninas de vinte e quatro anos também acham que é muito bom ser um arco-íris :) :) :)"
Gabriel ficou a olhar para o ecrã com uma expressão neutra. Adorara a mensagem, mas não queria gostar daquilo mais que o aceitável para alguém que dispensava pessoas extratrabalho na sua vida.
Comeu com o olhar vago na escuridão e nas luzinhas tímidas do exterior. Estupidamente, no seu conceito de ver as coisas, sentia-se tentado a responder ao email dela, como se quisesse manter a conversa e temendo que mais que meia dúzia de horas sem se corresponderem levasse a que ela desaparecesse. E se desaparecesse? Que diferença faria? Era uma criança, uma menina que ele não via há quinze anos. Seria bem melhor que não desse grande desenvolvimento àquilo, nem deveria voltar a responder, esperando que ela perguntasse algo quando quisesse, sem que o facto de o fazer ou não tivesse qualquer importância.
Dormiu bem melhor nessa noite. Talvez porque tivesse garantido a si mesmo que não responderia ao email. Adormeceu com essa certeza e acordou com o desejo de lhe escrever qualquer coisa. Que merda. Parecia um puto a querer falar com a coleguinha de escola. Não, não o faria. E talvez até desejasse que ela não precisasse nada dele e não voltasse a escrever-lhe. Não precisava de pessoas na sua vida. Não precisava! Não precisava! Não precisava! Não precisava! Não precisava! Não precisava! Não precisava! Não...
O smartphone tocou. Ele ainda estava na cama. Eram seis e meia da manhã, meia hora para o meio-dia em Portugal. Pegou no aparelho para ver a causa. Tinha três mensagens novas, duas de trabalho e uma de... Íris.
"Olá,
Cá estou a maçar-te. Desculpa. Deves estar a pensar que miúda tão chata. Espero que não, a sério. Não gosto de me sentir um incómodo. Estava a fazer uma pesquisa de voos, tenho de começar a agendar a marcação da viagem. Tive uma ideia. Se calhar vais achar parva. Pensei em voar para Toronto, em vez de ir directa a Montreal. Que achas? Não quero atrapalhar a tua vida, calculo que sejas um homem muito ocupado. Enfim, foi só uma ideia. Beijinhos. Íris"
A ideia de ela o vir visitar agradava-lhe, gostaria de a rever, ver em que mulher se transformara a menina de nove anos. Porém, isso seria abrir a porta a que mantivessem uma proximidade que ele não queria... Não era uma questão de querer, não devia. Podia apegar-se àquela amizade e depois ela estaria longe em Montreal e mais tarde regressaria a Portugal e não quereria saber mais dele. Não precisava de desilusões, já tivera a sua quota parte na vida. Contudo, não lhe pareceu correcto sugerir que fosse directa a Montreal ou dizer que tinha uma vida muito ocupada para lhe ceder tempo na sua passagem por Toronto. Não sabia o que fazer e manteve o silêncio na resposta aos emails dela.
Optou por responder ao seu primeiro pedido, um hotel barato onde ficar em Montreal. Não tinha esse conhecimento, uma vez que os hotéis por onde se movia eram demasiado caros e, possivelmente, inalcançáveis para a carteira dela.
No escritório, pediu a Francis que lhe obtivesse essa informação e, já agora, hotéis em Toronto também. Ele conseguiu-lhe uma lista de hotéis em ambas as cidades e juntou-lhes alguns hostels que eram bem mais baratos.
Tal como era habitual, o dia fora atarefado. A baliza calendarizada para as transacções de jogadores aproximava-se do fim e os clubes não o largavam para a apresentação de propostas ou consumação de contratos.
Nessa noite, chegou a casa mais tarde que o costume. Nem sequer jantou. Só queria tomar um duche e enfiar-se na cama. Porém, não foi capaz de o fazer, sem antes escrever a Íris.
"Olá Arco-íris,
Vamos fazer um acordo? Tu paras de dizer que és chata e eu dir te ei que estás a ser, caso isso aconteça. E podes chamar-me Gabi, apesar que prefiro Gabriel. Admiro a tua frontalidade, demonstras muita maturidade na forma como escreves. A história entre mim e a tua mãe é passado. Não é assunto que goste de abordar, aliás nem quero abordar. Não te preocupes, nada tem a ver contigo. Não será um "elefante na sala" entre nós, mas não quero que voltes a tocar no assunto, por favor. Consegui-te uma lista de hotéis, não sei se será muito diferente daquilo que já possas ter pesquisado nos websites do género. Confesso que não conheço nenhum deles, mas têm boas referências e preços aceitáveis. Toronto vale bem uma visita, é bem mais bonita que Montreal, mas a minha opinião é suspeita. A lista também tem hotéis em Toronto, caso queiras optar por fazer cá escala. Tu não vais atrapalhar a minha vida, mas não sei quanto disponível estarei de tempo para te acompanhar, por isso, não decidas nada a pensar em mim. Beijinho para ti, Arco-íris"
Leu o texto várias vezes. Pensou em apagar "Tu não vais atrapalhar a minha vida", deixando ficar só a partir de "não sei quanto disponível estarei de tempo para te acompanhar". Seria uma forma de se revelar indisponível para ela.
A razão preferia que Íris fosse directa a Montreal. Outra coisa qualquer que o deixava confuso, preferia que ela viesse a Toronto.
Acabou por não alterar nada e enviou.
Para surpresa de Gabriel, e alguma decepção, não houve qualquer resposta nos dois dias que se seguiram. Calculou que ela pegara na lista, optara por excluir Toronto da viagem e estaria já a planear tudo, relegando-o para um plano a que só voltaria quando tornasse a precisar de alguma informação ou favor.
Recusou-se a aceitar que isso o afectava, apesar de notar que a angústia aumentara e a solidão ficara mais pesada.
Íris escreveu ao terceiro dia.
"Olá Gabriel,
Afinal, as coisas não vão ser como eu planeei. Queria ir algum tempo antes de começarem as aulas para me ambientar e conseguir um bom alojamento sem pressas. Também queria ir a Toronto visitar-te, mais não fosse só para um olá e agradecer-te pessoalmente a ajuda. Infelizmente, aconteceram uns problemas que implicaram despesas não planeadas. A viagem também vai ser mais cara que aquilo que esperava porque deixei passar demasiado tempo para as reservar. Enfim, de um momento para o outro, o universo parece conspirar contra mim. Assim, em princípio, irei só três ou quatro dias antes do começo do semestre. Vai ser tudo a correr. Estou triste. Desculpa, estares a levar com isto, mas precisava de desabafar. A minha mãe também ficou muito em baixo com estas contrariedades e eu não quero sobrecarregá-la com as minhas tretas. Tu também não tens de levar comigo. Mas, como temos um acordo de que me dirás se eu for chata.... Obrigado pelo que tens feito. Não irei a Toronto, mas gostava que pudéssemos manter o contacto por aqui e, eventualmente, por telefone quando eu arranjar um número no Canadá. Hoje sou um arco-íris em tons de cinza, mas como não desisto, tenho a certeza de que as minhas cores voltarão amanhã. Entretanto, se conheceres alguém que tenha um quarto para alugar em Montreal, lembra-te de mim. Beijinhos. Íris (para ti, Arco-íris)."
Gabriel sentiu um enorme vazio. Subitamente, percebeu que lamentava profundamente que ela não viesse a Toronto. Felizmente, era um homem que nunca agia por impulso, a menos que fosse nos negócios, em decisões rápidas que tinham de se tomar na hora e que valiam milhões. No resto, na sua vida pessoal, tudo era bem pensado para evitar que se magoasse. Daí que fosse inexplicável que tivesse clicado em "responder" e escrito:
"Olá Arco-íris,
Podes desabafar comigo, sempre que quiseres. É para isso que servem os amigos. No outro dia, disseste que estavas a ter uma ideia parva. Acho que hoje é minha vez. A minha vez de ter uma ideia. Se é parva, tu me dirás. Infelizmente, não conheço ninguém que tenha um quarto ou um apartamento para arrendar em Montreal. Mas, irei ajudar-te a procurar. Concordo contigo, vens muito em cima do tempo para poderes fazer uma boa escolha e encontrar algo que te satisfaça. É aqui que surge a ideia que pode ser parva. Se quiseres vir a Toronto, podes ficar em minha casa. Podes ficar lá o tempo que quiseres e fazer a tua pesquisa de Montreal a partir daqui. Claro que não é o mesmo que estar em Montreal, mas será certamente mais cómodo que tentar alugar algo a milhares de quilómetros de distância. A decisão é tua. Depois diz-me o que achas. Beijinho grande, Arco-íris. Gabriel"
Leu, arrependeu-se, pensou em apagar tudo e enviou sem respirar.
— Que foste tu fazer, Gabriel? — interrogou-se para os enormes vidros com vista para o lago Ontário.
O som do telemóvel a tocar quebrou-lhe os pensamentos. Olhou para o ecrã e viu o nome de Rachel. Atendeu.
— Se não for eu a ligar...
— Olá, Rachel!
— Olá, Gabriel!
— Desculpa.... Devia ter-te ligado de volta, mas...
— Não precisas de te justificar. Eu compreendo.
— Já sabes que sou um gajo complicado.
— Que não quer que desista dele. — completou ela. — Ainda continuas a querer isso?
Gabriel suspirou.
— Sim.
Ouviu-a sorrir no outro lado da linha.
— Eu continuo a querer ser tua amiga, Gabriel. — Interrompeu-se, respirando pausadamente. — Não é uma cobrança e estou disposta a esperar. Só que isto da amizade... Não posso ser só eu a remar, percebes?
— Nunca te escondi aquilo que penso das amizades, Rachel. Amizades e outras coisas. Não preciso disso na minha vida.
— Gabriel...
— Espera! Deixa-me terminar. — pediu, falando num tom pausado. — Sou um solitário por opção.
— Eu também sou uma solitária.
— Ouve! Não espero que me compreendas. Eu próprio tenho dificuldade em me compreender. Só quero que saibas uma coisa. E isto que te vou dizer, é sincero, apesar daquilo que as minhas atitudes ou ausência delas possa deixar transparecer. Eu não quero que saias da minha vida. Posso ter dificuldade em deixar-te entrar, mas não quero que te afastes. Digamos que estás no vestíbulo da minha vida, enquanto o resto da Humanidade está lá fora.
Rachel riu-se com a alegoria.
— Não me vou afastar.
— Ainda estás em Seattle? — questionou com a necessidade de mudar de assunto.
— Não. Regressei a Washington para finalizar o acordo do Lewis. Mais uma vez, obrigado por isso. Quando voltar a Toronto, pago-te um jantar.
— Combinado. — concordou ele sem intenção de ver a promessa cumprida.
— Depois, volto a Seattle. — continuou Rachel. — Sabes que a cidade vai ter uma equipa na NHL?
— Sei. Eles ganharam a vaga para a expansão da liga. Eu teria preferido que a escolha tivesse caído para o Quebec.
— Sabes bem que o peso dos dólares americanos é superior aos dólares canadianos.
— Sim, é verdade. Mas, uma liga profissional de hóquei sem uma equipa de uma das cidades mais tradicionais na modalidade...
— Seja como for. — prosseguiu entusiasmada. — Os proprietários da nova equipa convidaram-me a integrar o grupo de trabalho que está a estruturar tudo. Querem que seja parte activa na contratação de jogadores. Não vai ser um exclusivo, mas irei ficar mais dedicada a eles e poderei parar um pouco de andar a viajar de um lado para o outro. Acho que me vai fazer bem e, quem sabe, fazer algo por mim. Percebes?
— Fico feliz por ti.
— E tu? Tens novidades?
— Não.
Ela percebeu que ele não tinha mais nada para dizer. Gabriel não a tentou convencer do contrário. Despediram-se e o telefonema terminou.
Sozinho em casa, sentiu a solidão a envolvê-lo devagar, a tornar se mais pesada. A angústia dos momentos "mortos" acentuou-se. Deveria preparar ou encomendar algo para o jantar, mas não tinha fome. Foi tomar um duche para descontrair.
Ao voltar da casa de banho do seu quarto, envolto no robe turco, reparou no piscar ténue da luzinha pequenina no ecrã do smartphone. Era uma notificação nova. Seria uma mensagem? Um email? Uma chamada não atendida? Pegou no aparelho e desbloqueou-o com a impressão digital. Tinha duas mensagens novas no email. Uma era de Íris, a outra era de Olga. Abriu a primeira.
"Olá Gabriel,
Estou sem palavras. Não sei que te diga. Não sei mesmo o que te diga. A minha vontade é dizer-te que sim, que aceito ficar em tua casa até me mudar para Montreal. Só que sinto que estou a abusar da tua generosidade. Não mereço tanto. Não terei como te pagar e não acho justo que assim seja. Só que, de facto, a tua oferta facilitaria muito a minha vida. Não sei se tens família, mulher e filhos. Só agora me dei conta que, de tanto falar de mim, pouco sei de ti. Não quero transtornar a tua vida familiar, mas tenho a certeza de que se assim fosse, tu não me farias esse convite. Bolas, estou tão empolgada. Tens noção que me devolveste as cores com o teu email? Vou aceitar. Como poderia não aceitar? Mas promete-me que cumprirás o nosso acordo, se estiver a ser um incómodo, tu dizes-me imediatamente. Combinado? Obrigado, Gabriel. Não imaginas o quanto te estou grata pelo que estás a fazer. Em breve, dir-te-ei quando parto. Beijinhos. Íris (para ti, Arco-íris)"
Gabriel sentiu-se mergulhado num misto de emoções, feliz por ela ter aceitado, transtornado por ela ter aceitado.
Passou à mensagem seguinte.
"Olá Gabriel,
Obrigado pelo que estás a fazer pela minha filha. Nunca te poderei agradecer. És sem dúvida um grande homem e um grande ser humano. Podes não acreditar, mas lamento que as coisas não tivessem resultado de outra forma entre nós. Gostava de saber coisas sobre ti, o que tens feito, estes anos, sei lá.... Tenho saudades de falar contigo. Quando puderes... ou quiseres. Beijinhos. Olga"
Não respondeu a nenhuma das mensagens.
A primeira vontade foi apagar a mensagem sem sequer ler, não lhe dar essa importância, não perder um segundo que fosse com aquilo. Porém, entre a vontade de ler e a de apagar, já lá iam muitos segundos. Sabia que, se apagasse sem ler, por muito que isso lhe parecesse a melhor forma de se vingar, também se recriminaria e iria andar nos tempos mais próximos a questionar-se acerca do que lá estaria escrito.
Ao fim de uns dez minutos, decidiu-se a ler.
A mensagem começava com um simples "Olá Gabriel".
“Olá Gabriel,
Como estás? Espero que estejas bem. Por vezes, até me custa a acreditar que já passaram quinze anos. Sei que não fui correcta contigo, mas espero que todo este tempo já tenha cicatrizado as feridas que te possa ter deixado. Deves estar a questionar-te o porquê de te contactar ao fim destes anos. É simples, quero pedir-te um favor. Não tenho ilusões, Gabriel, sei que não mereço, talvez não tenha sequer o direito de tentar pedir-te um favor. E é verdade. Só que, aquilo que peço, não é um favor para mim, é para alguém muito importante para mim e, acredito que também para ti, apesar de tudo. Ela é a pessoa que mais amo neste mundo. Estou a pedir-te um favor para a Íris, a minha filha. Lembras-te dela, não lembras? A Íris decidiu prosseguir os estudos no estrangeiro, vai frequentar uma Universidade em Montreal, a McGill. Não sei se conheces. Ela é uma miúda espectacular, trabalhadora, objectiva e empenhada em seguir os seus sonhos. A McGill é um sonho para ela e candidatou-se, apesar de não conhecer ninguém no Canadá, nem nunca ter viajado para tão longe de mim. É uma excelente aluna, formou-se cá com distinção, mas quer sempre mais, saber mais e mais. Terias orgulho nela. Conseguiu ser admitida e em breve mudar-se-á para Montreal. Como te disse, não conhece ninguém lá. Deves estar a perguntar-te o que tens tu a ver com isto. Eu explico. Há algum tempo, soube que estavas no Canadá. Não sei onde vives e o Canadá é muito grande. Mas, se de alguma forma pudesses ajudar a Íris a integrar-se, seria um favor impagável que me farias. Sei que não tenho o direito de to pedir, muito menos que aceites ajudar-me. Mas, também sei que sempre gostaste muito da Íris. Por isso, se a puderes ajudar... Não te culparei se recusares, nem ficarei magoada contigo. Aliás, se as feridas estiverem saradas, mesmo que não possas ajudar a Íris, não me importava que reatássemos o contacto, trocar umas mensagens ou conversar. Pensa naquilo que te peço com carinho. Beijinhos. Olga."
Gabriel ficou a olhar para o texto, imóvel, como se fosse uma estátua. Releu mais duas vezes, constatando que o seu português estava mais enferrujado que aquilo que pensava, para ter a certeza de tudo o que continha a mensagem. Indignou-se por ela perguntar como ele estava e por desejar que estivesse bem. Como se isso lhe interessasse. O bem-estar dele não lhe importou há quinze anos, não era agora que isso mudaria. E depois, escrevia como se há quinze anos tudo não tivesse passado de um afastamento de dois amigos que seguiram caminhos diferentes. Era preciso ter lata. E ainda falava em feridas? Em cicatrizes? E julgava que o tempo passara um pano em tudo. Odiava-a. Vinha pedir-lhe um favor. Pelo menos, nisso estavam de acordo, ela não merecia que lhe fizesse qualquer favor.
A partir dali algo atenuou a raiva de Gabriel. A referência a Íris fê lo retornar às memórias da criança pequena, doce e divertida que ele vira pela última vez com nove anos e que a mãe o impedira de se despedir dela. Pensou como estaria ela. Bolas, como o tempo passa. Fez contas de cabeça. Íris deveria ter vinte e quatro ou vinte e cinco anos. Sentiu-se velho. Constatou que estava a sorrir para o ecrã, lendo os feitos da pequena.... Qual pequena, Gabriel? Íris era agora uma mulher.
A tristeza regressou. Gostaria de ter acompanhado a evolução dela. Nunca pretendera ser um pai, nem nunca a vira como filha. Mas, gostava muito dela, não só por ser filha da sua namorada da altura, como porque entre eles sempre houve uma empatia fabulosa. Mais uma coisa que não perdoava a Olga, tê-lo privado daquela relação com Íris.
Continuou a ler. Sim, tinha orgulho nela.
Parou a leitura. Voltou atrás algumas linhas. Íris vinha estudar para o Canadá. Pensou se estaria na disposição de a ajudar. Claro que sim, mas.... Surpreendeu-se por perceber como ela era importante para si, uma espécie de sensação adormecida todos aqueles anos que despertara com aquele email. Sim, iria ajudá-la... Não, não ia.
Como seria a Íris de vinte e tal anos, a Íris adulta? Seria uma réplica da mãe? Teria o mesmo feitio interesseiro, aproveitador dos sentimentos alheios? Que expectativas traria consigo em relação a ele? Gabriel não queria ninguém na sua vida privada. Ela poderia querer ser sua amiga. Só que um dia regressaria a Portugal e a amizade ficaria com um oceano pelo meio. Habituar-se a ela, seria deixar-se contagiar por uma doença que acabaria com ele mais tarde.
Estava a exagerar. A miúda só queria alguém para a ajudar a instalar-se. Ele poderia fazer isso, mantendo algum distanciamento, deixando bem claro que a ajudava ao início e depois ela seguiria a sua vidinha. Toronto ficava a uma hora de avião de Montreal e cerca de cinco a seis horas se fosse de carro ou comboio. Não seriam certamente visita um do outro.
Leu a última parte "mesmo que não possas ajudar a Íris, não me importava que reatássemos o contacto, trocar umas mensagens ou conversar. Pensa naquilo que te peço com carinho. Beijinhos. Olga."
Gabriel colocou o telemóvel de lado e disse para o ar:
— Vai-te foder, Olga!
Nunca gostara de tomar decisões por impulso, nem nunca o fazia, excepto nalguns negócios que implicaram decisões rápidas. Por isso, optou por não responder ao email e foi para a cama.
A noite foi péssima, uma vez que mal dormiu com toda aquela situação a metralhar-lhe os pensamentos. Contudo, na manhã seguinte, ele tomou uma decisão e não teve dúvidas do que iria fazer. Iria responder à mensagem.
Se sucumbisse à vontade que lhe ia na alma, digitaria um texto enorme a lembrar Olga da cabra que era, a puta que fora e que não tinha o direito de o incomodar ou esperar que fizesse o que quer que fosse por ela. Em opção, pensou em dizer o mesmo, mas de forma sucinta e mais elevada. Ponderou melhor. Não lhe iria dar o gosto de revelar o quanto as feridas ainda estavam abertas. O melhor seria comportar-se com ela da mesma forma como havia vindo a fazer com todas as pessoas nos últimos quinze anos, ser frio e distante.
"Olga. A Íris que me escreva para o meu email. Verei com ela, o que posso fazer. Gabriel"
Se fosse esperta, Olga perceberia que Gabriel não queria falar mais com ela. E Olga era esperta e, de certeza, percebeu a mensagem sublinear que a mensagem levava. No entanto, uma hora mais tarde, Gabriel recebeu na sua caixa de email:
"Obrigado, Gabriel. Fico em dívida contigo. És um querido. Já dei o teu email à Íris. Ela vai escrever-te, como pediste. Vamos falando. Beijinhos. Olga"
Vamos falando? Vai pró caralho, Olga!
Gabriel passou o dia no escritório em Bay-Adelaide. Teve alguma dificuldade em concentrar-se, quando chegou, motivado pelos últimos desenvolvimentos, mas assim que os assuntos profissionais exigiram a sua máxima concentração, o resto ficou em segundo plano.
Francis trouxe-lhe o almoço, sushi dum take-away, conforme ele lhe pedira.
A meio da tarde, Rachel telefonou-lhe. Gabriel ainda se sentia inseguro em relação ao caminho que queria tomar com ela. Por isso, ignorou a chamada. Ela voltou a tentar, cinco minutos mais tarde, e obteve o mesmo resultado. Um minuto depois, ecoou o aviso de novo sms com a mensagem "deves estar ocupado, era só para te dizer que já estou em Seattle". Não estava ocupado, estava indeciso. Tinha sentimentos contraditórios em relação a ela, uma vez que tanto queria ser seu amigo como queria nunca mais a ver. Por ora, ela estava a mais de quatro mil e cem quilómetros de distância, por isso, não faria mal responder "estou numa reunião, desculpa, falamos depois". Falariam depois, numa altura em que nem ele saberia quando seria.
A tonalidade de luz foi diminuindo lá fora. Da sua secretária, Gabriel foi vendo a intensidade da iluminação dos prédios à volta a aumentar, enquanto se multiplicava em telefonemas e emails. Lewis ficara felicíssimo com a proposta dos Washington Nationals e pediu a Gabriel que avançasse com o processo, uma vez que tinha a sua concordância para a transferência.
Ao entardecer, chegou à caixa de email de Gabriel uma mensagem nova. Era de Íris. Sem saber explicar porquê, hesitou em abri-la. Porém, lá clicou sobre o assunto "Viagem para o Canadá".
"Olá Gabriel,
Sou a Íris. Não sei se ainda se lembra de mim... A minha mãe disse me que falou consigo para me ajudar na minha estadia em Montreal. Quero agradecer-lhe a disponibilidade em me ajudar. Tomei a liberdade de fazer alguma pesquisa no Google sobre si. Vi que está relacionado com o desporto e maioritariamente com os clubes de Toronto, pelo que deduzo que seja aí que vive. Não conheço muito ou mesmo nada do Canadá, para além das coisas que se podem ler na Internet e alguma geografia. Sei que Toronto não é já ali, mas, para um país com a dimensão do Canadá, não deve ser muito longe, nem uma realidade muito diferente. Por isso, tenho esperança que me possa dar algumas dicas sobre a cidade para onde me irei mudar em breve. Vou estudar para a McGill no curso de Microbiologia e Imunologia. Fico a aguardar notícias suas. E mais uma vez obrigado. Íris"
Gabriel leu o texto visualizando a menina de nove anos a dizer aquelas coisas. Não tinha outra imagem de Íris que não fosse a menina doce, fofa, redondinha e divertida. Não se deu ao trabalho de imaginar como seria ela agora. O tratamento formal também o levou de regresso àquela característica do português de Portugal, em que as pessoas se tratam por "tu" ou por "você", algo que não se encontrava no idioma inglês e ao qual ele se desabituara completamente. Não sabia se ela usara a formalidade para manter alguma distância do homem que fora namorado da mãe, enquanto os pais estavam separados, ou por estar a falar com alguém com quem não tinha proximidade.
Francis apareceu à porta, indicando que se ia embora. Gabriel acenou-lhe um “adeus” distante.
Novamente com a atenção no ecrã do computador, decidiu responder à pequena que já não era uma criança de nove anos.
"Olá Arco-íris,
Começo por te pedir que não me trates por "você", faz-me sentir velho. Como já percebeste, eu lembro-me bem de ti, Arco-íris. Era assim que te chamava, quando tinhas oito, nove anos. Lembras-te? Antes de mais, quero dar-te os parabéns, não é qualquer um que entra na McGill, ainda para mais vindo do estrangeiro. Para além disso, é corajoso da tua parte, vires sozinha para um país novo e estranho. E acredita que sei o que isso é, fiz o mesmo há quinze anos. Não te preocupes, tenho a certeza de que vais gostar. Eu conheço Montreal, posso dar-te algumas dicas, mediante o que precisares de saber. Não vivo em Montreal, tu não estás errada e foste muito perspicaz ao concluir que vivo de facto em Toronto. Quando pensas vir? Tens onde ficar em Montreal? Já pesquisaste alguma coisa? Naquilo que te puder ajudar, conta comigo. Gabriel"
Clicou no enviar. Sentiu um arrependimento súbito pela disponibilidade que demonstrava para com a filha da mulher que o traíra, que o magoara e o ferira de tal forma que comprometera a sua vida daí em diante. Porém, Íris não tinha culpa disso. A seguir, foi acometido pelo remorso de a tratar pela alcunha que lhe chamava em menina, "Arco-íris". Que iria ela achar disso? Possivelmente, tomá-lo-ia por um velho parvo. Bolas, não era velho, estava quase com cinquenta anos, mas não era velho. Pois... Mas, comparado com ela, era... velho.
Aguardou algum tempo, como se ela estivesse diante do computador, lá do outro lado do Atlântico, à espera do email dele e fosse logo responder. Gabriel olhou para o relógio, em Portugal era meia-noite. Talvez só lhe respondesse no dia seguinte ou quando precisasse efectivamente de lhe perguntar alguma coisa.
Antes de regressar a casa, Gabriel passou pelo sector de refeições, na zona comercial por baixo do edifício, comprando um jantar simples num qualquer restaurante de comida típica indiana para levar.
Ao entrar em casa, a notificação do smartphone alertou-o para uma nova mensagem. Ele largou o jantar sobre o balcão que separava a cozinha da sala e sentou-se num dos bancos, pegando no aparelho e desbloqueando o ecrã. Tinha uma mensagem de email nova. Remetente? Íris.
"Olá Gabriel,
Ou deverei dizer Gabi? Sim, eu lembro-me. Fizeste-me dar uma gargalhada enorme, quando abri o teu email — como vês, estou a tratar-te por "tu" — Foi uma gargalhada de saudade. Tu és a única pessoa que me chamava Arco-íris. E eu gostava disso. Para uma menina de oito anos, ser um arco-íris é tão bom. Tive pena quando foste embora. Desculpa estar a tocar no assunto, mas não quero que existam "elefantes na sala" nas nossas conversas. Percebes o que quero dizer? Seja como for, é assunto que não me diz respeito. Quero só que saibas que lamento. Agora, a minha viagem para o Canadá. Não tenho nada planeado, ainda. Pensei em reservar um quarto num hotel barato de Montreal até encontrar um lugar para arrendar e viver enquanto estiver a estudar lá. Podes dar-me uma dica sobre isso? Mas, olha, não quero de forma nenhuma ser um incómodo ou estar a maçar-te. Se não puderes ajudar, não levarei a mal, jamais. Já é espectacular da tua parte que estejas disponível para ajudar. Fico a aguardar a tua resposta. Um beijinho muito grande para ti, Gabi. P.S.: Se não gostares que te chame Gabi, diz. Afinal, eu já não tenho oito anos. A mim, podes continuar a chamar-me Arco-íris. As meninas de vinte e quatro anos também acham que é muito bom ser um arco-íris :) :) :)"
Gabriel ficou a olhar para o ecrã com uma expressão neutra. Adorara a mensagem, mas não queria gostar daquilo mais que o aceitável para alguém que dispensava pessoas extratrabalho na sua vida.
Comeu com o olhar vago na escuridão e nas luzinhas tímidas do exterior. Estupidamente, no seu conceito de ver as coisas, sentia-se tentado a responder ao email dela, como se quisesse manter a conversa e temendo que mais que meia dúzia de horas sem se corresponderem levasse a que ela desaparecesse. E se desaparecesse? Que diferença faria? Era uma criança, uma menina que ele não via há quinze anos. Seria bem melhor que não desse grande desenvolvimento àquilo, nem deveria voltar a responder, esperando que ela perguntasse algo quando quisesse, sem que o facto de o fazer ou não tivesse qualquer importância.
Dormiu bem melhor nessa noite. Talvez porque tivesse garantido a si mesmo que não responderia ao email. Adormeceu com essa certeza e acordou com o desejo de lhe escrever qualquer coisa. Que merda. Parecia um puto a querer falar com a coleguinha de escola. Não, não o faria. E talvez até desejasse que ela não precisasse nada dele e não voltasse a escrever-lhe. Não precisava de pessoas na sua vida. Não precisava! Não precisava! Não precisava! Não precisava! Não precisava! Não precisava! Não precisava! Não...
O smartphone tocou. Ele ainda estava na cama. Eram seis e meia da manhã, meia hora para o meio-dia em Portugal. Pegou no aparelho para ver a causa. Tinha três mensagens novas, duas de trabalho e uma de... Íris.
"Olá,
Cá estou a maçar-te. Desculpa. Deves estar a pensar que miúda tão chata. Espero que não, a sério. Não gosto de me sentir um incómodo. Estava a fazer uma pesquisa de voos, tenho de começar a agendar a marcação da viagem. Tive uma ideia. Se calhar vais achar parva. Pensei em voar para Toronto, em vez de ir directa a Montreal. Que achas? Não quero atrapalhar a tua vida, calculo que sejas um homem muito ocupado. Enfim, foi só uma ideia. Beijinhos. Íris"
A ideia de ela o vir visitar agradava-lhe, gostaria de a rever, ver em que mulher se transformara a menina de nove anos. Porém, isso seria abrir a porta a que mantivessem uma proximidade que ele não queria... Não era uma questão de querer, não devia. Podia apegar-se àquela amizade e depois ela estaria longe em Montreal e mais tarde regressaria a Portugal e não quereria saber mais dele. Não precisava de desilusões, já tivera a sua quota parte na vida. Contudo, não lhe pareceu correcto sugerir que fosse directa a Montreal ou dizer que tinha uma vida muito ocupada para lhe ceder tempo na sua passagem por Toronto. Não sabia o que fazer e manteve o silêncio na resposta aos emails dela.
Optou por responder ao seu primeiro pedido, um hotel barato onde ficar em Montreal. Não tinha esse conhecimento, uma vez que os hotéis por onde se movia eram demasiado caros e, possivelmente, inalcançáveis para a carteira dela.
No escritório, pediu a Francis que lhe obtivesse essa informação e, já agora, hotéis em Toronto também. Ele conseguiu-lhe uma lista de hotéis em ambas as cidades e juntou-lhes alguns hostels que eram bem mais baratos.
Tal como era habitual, o dia fora atarefado. A baliza calendarizada para as transacções de jogadores aproximava-se do fim e os clubes não o largavam para a apresentação de propostas ou consumação de contratos.
Nessa noite, chegou a casa mais tarde que o costume. Nem sequer jantou. Só queria tomar um duche e enfiar-se na cama. Porém, não foi capaz de o fazer, sem antes escrever a Íris.
"Olá Arco-íris,
Vamos fazer um acordo? Tu paras de dizer que és chata e eu dir te ei que estás a ser, caso isso aconteça. E podes chamar-me Gabi, apesar que prefiro Gabriel. Admiro a tua frontalidade, demonstras muita maturidade na forma como escreves. A história entre mim e a tua mãe é passado. Não é assunto que goste de abordar, aliás nem quero abordar. Não te preocupes, nada tem a ver contigo. Não será um "elefante na sala" entre nós, mas não quero que voltes a tocar no assunto, por favor. Consegui-te uma lista de hotéis, não sei se será muito diferente daquilo que já possas ter pesquisado nos websites do género. Confesso que não conheço nenhum deles, mas têm boas referências e preços aceitáveis. Toronto vale bem uma visita, é bem mais bonita que Montreal, mas a minha opinião é suspeita. A lista também tem hotéis em Toronto, caso queiras optar por fazer cá escala. Tu não vais atrapalhar a minha vida, mas não sei quanto disponível estarei de tempo para te acompanhar, por isso, não decidas nada a pensar em mim. Beijinho para ti, Arco-íris"
Leu o texto várias vezes. Pensou em apagar "Tu não vais atrapalhar a minha vida", deixando ficar só a partir de "não sei quanto disponível estarei de tempo para te acompanhar". Seria uma forma de se revelar indisponível para ela.
A razão preferia que Íris fosse directa a Montreal. Outra coisa qualquer que o deixava confuso, preferia que ela viesse a Toronto.
Acabou por não alterar nada e enviou.
Para surpresa de Gabriel, e alguma decepção, não houve qualquer resposta nos dois dias que se seguiram. Calculou que ela pegara na lista, optara por excluir Toronto da viagem e estaria já a planear tudo, relegando-o para um plano a que só voltaria quando tornasse a precisar de alguma informação ou favor.
Recusou-se a aceitar que isso o afectava, apesar de notar que a angústia aumentara e a solidão ficara mais pesada.
Íris escreveu ao terceiro dia.
"Olá Gabriel,
Afinal, as coisas não vão ser como eu planeei. Queria ir algum tempo antes de começarem as aulas para me ambientar e conseguir um bom alojamento sem pressas. Também queria ir a Toronto visitar-te, mais não fosse só para um olá e agradecer-te pessoalmente a ajuda. Infelizmente, aconteceram uns problemas que implicaram despesas não planeadas. A viagem também vai ser mais cara que aquilo que esperava porque deixei passar demasiado tempo para as reservar. Enfim, de um momento para o outro, o universo parece conspirar contra mim. Assim, em princípio, irei só três ou quatro dias antes do começo do semestre. Vai ser tudo a correr. Estou triste. Desculpa, estares a levar com isto, mas precisava de desabafar. A minha mãe também ficou muito em baixo com estas contrariedades e eu não quero sobrecarregá-la com as minhas tretas. Tu também não tens de levar comigo. Mas, como temos um acordo de que me dirás se eu for chata.... Obrigado pelo que tens feito. Não irei a Toronto, mas gostava que pudéssemos manter o contacto por aqui e, eventualmente, por telefone quando eu arranjar um número no Canadá. Hoje sou um arco-íris em tons de cinza, mas como não desisto, tenho a certeza de que as minhas cores voltarão amanhã. Entretanto, se conheceres alguém que tenha um quarto para alugar em Montreal, lembra-te de mim. Beijinhos. Íris (para ti, Arco-íris)."
Gabriel sentiu um enorme vazio. Subitamente, percebeu que lamentava profundamente que ela não viesse a Toronto. Felizmente, era um homem que nunca agia por impulso, a menos que fosse nos negócios, em decisões rápidas que tinham de se tomar na hora e que valiam milhões. No resto, na sua vida pessoal, tudo era bem pensado para evitar que se magoasse. Daí que fosse inexplicável que tivesse clicado em "responder" e escrito:
"Olá Arco-íris,
Podes desabafar comigo, sempre que quiseres. É para isso que servem os amigos. No outro dia, disseste que estavas a ter uma ideia parva. Acho que hoje é minha vez. A minha vez de ter uma ideia. Se é parva, tu me dirás. Infelizmente, não conheço ninguém que tenha um quarto ou um apartamento para arrendar em Montreal. Mas, irei ajudar-te a procurar. Concordo contigo, vens muito em cima do tempo para poderes fazer uma boa escolha e encontrar algo que te satisfaça. É aqui que surge a ideia que pode ser parva. Se quiseres vir a Toronto, podes ficar em minha casa. Podes ficar lá o tempo que quiseres e fazer a tua pesquisa de Montreal a partir daqui. Claro que não é o mesmo que estar em Montreal, mas será certamente mais cómodo que tentar alugar algo a milhares de quilómetros de distância. A decisão é tua. Depois diz-me o que achas. Beijinho grande, Arco-íris. Gabriel"
Leu, arrependeu-se, pensou em apagar tudo e enviou sem respirar.
— Que foste tu fazer, Gabriel? — interrogou-se para os enormes vidros com vista para o lago Ontário.
O som do telemóvel a tocar quebrou-lhe os pensamentos. Olhou para o ecrã e viu o nome de Rachel. Atendeu.
— Se não for eu a ligar...
— Olá, Rachel!
— Olá, Gabriel!
— Desculpa.... Devia ter-te ligado de volta, mas...
— Não precisas de te justificar. Eu compreendo.
— Já sabes que sou um gajo complicado.
— Que não quer que desista dele. — completou ela. — Ainda continuas a querer isso?
Gabriel suspirou.
— Sim.
Ouviu-a sorrir no outro lado da linha.
— Eu continuo a querer ser tua amiga, Gabriel. — Interrompeu-se, respirando pausadamente. — Não é uma cobrança e estou disposta a esperar. Só que isto da amizade... Não posso ser só eu a remar, percebes?
— Nunca te escondi aquilo que penso das amizades, Rachel. Amizades e outras coisas. Não preciso disso na minha vida.
— Gabriel...
— Espera! Deixa-me terminar. — pediu, falando num tom pausado. — Sou um solitário por opção.
— Eu também sou uma solitária.
— Ouve! Não espero que me compreendas. Eu próprio tenho dificuldade em me compreender. Só quero que saibas uma coisa. E isto que te vou dizer, é sincero, apesar daquilo que as minhas atitudes ou ausência delas possa deixar transparecer. Eu não quero que saias da minha vida. Posso ter dificuldade em deixar-te entrar, mas não quero que te afastes. Digamos que estás no vestíbulo da minha vida, enquanto o resto da Humanidade está lá fora.
Rachel riu-se com a alegoria.
— Não me vou afastar.
— Ainda estás em Seattle? — questionou com a necessidade de mudar de assunto.
— Não. Regressei a Washington para finalizar o acordo do Lewis. Mais uma vez, obrigado por isso. Quando voltar a Toronto, pago-te um jantar.
— Combinado. — concordou ele sem intenção de ver a promessa cumprida.
— Depois, volto a Seattle. — continuou Rachel. — Sabes que a cidade vai ter uma equipa na NHL?
— Sei. Eles ganharam a vaga para a expansão da liga. Eu teria preferido que a escolha tivesse caído para o Quebec.
— Sabes bem que o peso dos dólares americanos é superior aos dólares canadianos.
— Sim, é verdade. Mas, uma liga profissional de hóquei sem uma equipa de uma das cidades mais tradicionais na modalidade...
— Seja como for. — prosseguiu entusiasmada. — Os proprietários da nova equipa convidaram-me a integrar o grupo de trabalho que está a estruturar tudo. Querem que seja parte activa na contratação de jogadores. Não vai ser um exclusivo, mas irei ficar mais dedicada a eles e poderei parar um pouco de andar a viajar de um lado para o outro. Acho que me vai fazer bem e, quem sabe, fazer algo por mim. Percebes?
— Fico feliz por ti.
— E tu? Tens novidades?
— Não.
Ela percebeu que ele não tinha mais nada para dizer. Gabriel não a tentou convencer do contrário. Despediram-se e o telefonema terminou.
Sozinho em casa, sentiu a solidão a envolvê-lo devagar, a tornar se mais pesada. A angústia dos momentos "mortos" acentuou-se. Deveria preparar ou encomendar algo para o jantar, mas não tinha fome. Foi tomar um duche para descontrair.
Ao voltar da casa de banho do seu quarto, envolto no robe turco, reparou no piscar ténue da luzinha pequenina no ecrã do smartphone. Era uma notificação nova. Seria uma mensagem? Um email? Uma chamada não atendida? Pegou no aparelho e desbloqueou-o com a impressão digital. Tinha duas mensagens novas no email. Uma era de Íris, a outra era de Olga. Abriu a primeira.
"Olá Gabriel,
Estou sem palavras. Não sei que te diga. Não sei mesmo o que te diga. A minha vontade é dizer-te que sim, que aceito ficar em tua casa até me mudar para Montreal. Só que sinto que estou a abusar da tua generosidade. Não mereço tanto. Não terei como te pagar e não acho justo que assim seja. Só que, de facto, a tua oferta facilitaria muito a minha vida. Não sei se tens família, mulher e filhos. Só agora me dei conta que, de tanto falar de mim, pouco sei de ti. Não quero transtornar a tua vida familiar, mas tenho a certeza de que se assim fosse, tu não me farias esse convite. Bolas, estou tão empolgada. Tens noção que me devolveste as cores com o teu email? Vou aceitar. Como poderia não aceitar? Mas promete-me que cumprirás o nosso acordo, se estiver a ser um incómodo, tu dizes-me imediatamente. Combinado? Obrigado, Gabriel. Não imaginas o quanto te estou grata pelo que estás a fazer. Em breve, dir-te-ei quando parto. Beijinhos. Íris (para ti, Arco-íris)"
Gabriel sentiu-se mergulhado num misto de emoções, feliz por ela ter aceitado, transtornado por ela ter aceitado.
Passou à mensagem seguinte.
"Olá Gabriel,
Obrigado pelo que estás a fazer pela minha filha. Nunca te poderei agradecer. És sem dúvida um grande homem e um grande ser humano. Podes não acreditar, mas lamento que as coisas não tivessem resultado de outra forma entre nós. Gostava de saber coisas sobre ti, o que tens feito, estes anos, sei lá.... Tenho saudades de falar contigo. Quando puderes... ou quiseres. Beijinhos. Olga"
Não respondeu a nenhuma das mensagens.