Capítulo VI
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Parecia-lhe incrivelmente estúpido e completamente absurdo, mas o facto de saber que se aproximava o dia da chegada de Íris fizera com que a angústia e solidão que o assolavam se atenuassem. Gabriel sabia que aquilo não lhe fazia bem. Sim, seria bom ter alguém lá em casa, uma improvável amiga, mas quando ela partisse...
Íris voltou a escrever-lhe no dia seguinte com a data do voo. Pediu lhe a morada dele ou se teria disponibilidade de a ir buscar ao aeroporto. Seria um voo muito longo com saída de Lisboa antes das seis da manhã com destino a Paris, onde faria uma escala de quase cinco horas para apanhar o voo que ligava o Aeroporto Charles de Gaulle ao Pearson International Airport onde chegaria depois das quatro da tarde, hora de Toronto. Havia voos directos, mas eram demasiado caros e aquela era a melhor solução para a sua carteira.
Gabriel respondeu-lhe que não se preocupasse, trataria do seu transporte quando chegasse a Toronto.
Foram trocando emails ao longo dos dias que antecederam a vinda dela. Íris quis saber mais coisas sobre ele, mas Gabriel era vago nas respostas, partilhando apenas que não havia uma esposa ou filhos, uma vez que a omissão disso, depois dela ter falado no tema, poderia parecer no mínimo estranho.
Na última mensagem trocada na antevéspera da viagem, Gabriel enviou-lhe o seu número de telefone e pediu se ela poderia ir dando notícias da viagem. Íris respondeu com o seu número para o WhatsApp dele e comprometeu-se a ir dando notícias pela aplicação, uma vez que seria mais económico que telefonar ou enviar sms, pois poderia ligar-se aos WiFi dos aeroportos.
Na noite que antecedeu a viagem, Gabriel chegou a casa cedo. Seria a última noite sozinho no apartamento, por isso, escolheu um nome da lista de dez. Eram oito da noite, uma da manhã em Lisboa. Íris já deveria estar a dormir, o seu voo seria daí a pouco mais de quatro horas. A companhia contratada chegaria mais tarde, tinha tempo disponível para um banho e uma mensagem rápida. Abriu o computador portátil e ligou se à caixa de email.
"Olá Arco-íris,
Chegou o dia. Imagino como deves estar ansiosa. Não te preocupes, vai tudo correr bem. Afinal, estarás a cumprir um sonho. Para além disso, não estarás sozinha. Faz boa viagem, Arco-íris! Beijinhos"
Qualquer uma delas era fenomenal na cama ou em outro lugar em que decidisse possuí-las. Daquela vez, a sua companhia era uma afro americana lindíssima com um tom de pele azeitona, olhos escuros e um rosto de beleza angelical. Tinha uns seios fabulosos e cheirava maravilhosamente bem. Naquele instante, saltava que nem uma louca sobre ele, fazendo-o sentir-se nas nuvens e quase a rebentar todo o seu prazer dentro do preservativo. Estava quase... quase, quase... quando ouviu uma notificação do telemóvel. Como se tivessem combinado, ambos olharam para o local onde o aparelho fora deixado.
— Não pares! — ordenou ele, cheio de curiosidade. — Estou quase a vir-me.
Após o orgasmo, a mulher tombou para o lado vago da cama. Gabriel virou-se para a extremidade oposta e segurou no telemóvel. Era meia-noite e o seu WhatsApp tinha uma nova mensagem de Íris, a primeira de sempre que lhe enviava por ali.
"Se calhar já estás a dormir. Estou prestes a embarcar. Obrigado pelo teu email. Aliás, obrigado por existires. Beijinhos da Arco-Íris."
Como ele sabia que ela veria o visto de lido, respondeu "Faz boa viagem, Arco-íris. Até já"
Dormiu profundamente. Foi acordado pela prostituta já pronta para ir embora, o que não tinha memória de alguma vez ter acontecido, era sempre ele a acordar primeiro. Ela olhava-o com ternura profissional e pediu desculpa por o acordar. Estremunhado, ele saiu da cama e foi buscar o dinheiro para lhe pagar.
A mulher da lista de dez deixou-o sozinho no apartamento. Gabriel foi tomar um duche para despertar. Só quando voltou da casa de banho é que consultou o smartphone. Tinha uma mensagem recebida às quatro horas da manhã, dez horas em Paris.
"Se te acordar, bato-me :) Só para te dizer que a primeira parte correu bem. Estou no Charles De Gaulle. Agora é esperar. Beijinho e continua a dormir, sortudo :). Também queria. Estou cheia de sono."
Gabriel voltou a olhar para o relógio, eram sete e meia da manhã em Toronto. Pelas suas contas, Íris ainda não deveria ter embarcado no segundo voo.
"Bom dia, Arco-íris! Estás por aí?"
O visto tornou-se em dois e os dois ficaram azuis. Surgiu a indicação que ela estava a escrever.
"Bom dia, Gabriel! Já acordado? Que horas são aí?"
"Sete e meia. E aí?"
"Uma e meia da tarde."
"Deves estar quase a embarcar, não?"
"Daqui a cerca de uma hora."
Gabriel saiu do quarto com o robe vestido e atravessou a sala até à cozinha com o telemóvel na mão. Parou no balcão, junto à máquina do café e preparou um para si. Sentou-se num dos bancos altos virado para a paisagem exterior, dividindo a atenção entre o lago Ontário e o ecrã do aparelho. Ficaram a trocar mensagens até ela embarcar.
A manhã ia a meio, quando Gabriel chegou ao seu escritório no Bay-Adelaide Centre. Encarregou Francis de fazer uma reserva com a empresa de transporte que usavam para lhes irem buscar ou levar figuras importantes ao aeroporto ou aos hotéis, usualmente jogadores, representantes de clubes ou outros elementos ligados ao negócio desportivo. Era um serviço luxuoso que usava viaturas de gama alta e motoristas privados.
— É para ir buscar uma amiga minha ao Pearson. Quero que a vão buscar e a levem para minha casa. — explicou a Francis. — O tipo que a for buscar deve ter um cartaz com o nome dela.
Gabriel escreveu num papel "Íris (Arco-íris)" para que o funcionário transcrevesse na solicitação que iria fazer à empresa.
— Isto é o nome. — constatou Francis. Apontou para a palavra entre parêntesis. — E isto?
— É para ela reconhecer. Significa Rainbow.
Francis riu-se.
— Uma amiga chamada Rainbow? — interrogou com humor.
— Não te metas onde não és chamado. — admoestou Gabriel, sério. — Ela aterra por volta das quatro. Tens aqui o número do voo. — Escreveu a referência no mesmo papel. — Vem de Paris. Trata disso, por favor. Fico a aguardar que me confirmes.
Naquele dia, a angústia e solidão pareciam ter desaparecido da vida de Gabriel. Ao invés, a ansiedade consumia-o. Tratou de todos os assuntos que tinha a tratar. Antes de sair para uma reunião com o seu advogado Matt, Francis confirmou-lhe que estava tudo tratado. Mesmo sabendo que ela só veria a mensagem depois de aterrar, enviou-lhe logo a informação de que estaria um motorista privado à sua espera na zona de chegadas do Pearson a segurar um cartaz com "Íris (Arco-íris)".
Desde que Íris lhe dissera a data do voo e a hora a que chegaria, a agenda de Gabriel ficou ocupada para o que quer que fosse a partir das quatro da tarde.
O Sol brilhava radioso dando um brilho cativante a Toronto. A tarde amena agradável permitia um último saborear do tempo que antecedia o Outono e o regresso do frio crescente.
Gabriel conduzia ansioso pelas ruas da cidade. Regressava a casa sem conseguir afastar o nervoso miudinho pelo aproximar da hora em que a menina de nove anos voltaria a estar na sua presença. Tinha tantas saudades daquele tempo... Agora que se permitia a pensar nisso, concluía que os dois anos de relação com Olga haviam sido os mais felizes da sua vida. Nunca quisera ser um pai para Íris, mas gostava muito da menina. Doera-lhe horrores que a mãe não tivesse permitido que se despedisse dela. Fora talvez a coisa que mais o magoou, a seguir à traição de Olga.
Tinham passado quinze anos. Íris já não era uma menina de nove anos, era uma jovem mulher de vinte e quatro que se mudava para o Canadá, tal como ele fizera nessa altura, sendo a diferença entre ambos, que ela vinha a prazo e ele viera para nunca mais voltar.
Estacionou na garagem do prédio. Subiu o elevador com a calma de um condenado. Temia o desconhecido, a chegada de alguém que estivera tão presente na melhor fase da sua vida, a criança divertida, a menina feliz. Nos últimos tempos, as recordações esquecidas pelo tempo voltaram, a lembrança da empatia que havia entre eles, as brincadeiras. Trancara a saudade com tanto afinco e agora ela parecia querer explodir lhe do peito. Tinha medo. Receava que deixar Íris entrar, ser sua amiga, pudesse destruir todos os escudos que construíra, desde que a mãe dela o abandonara.
Entrou em casa. Consultou o telemóvel e a aplicação de mensagens. Ela ainda não lera a última, sinal que ainda não tinha aterrado. Despiu o casaco do fato Ermenegildo Zegna. Não estava habituado a estar em casa àquela hora. Caminhou até aos vidros e abriu o acesso à larga varanda. O vento soprava intenso, mas não era frio nem desagradável. O lago evidenciava um azul forte atiçado pelos raios solares. Tornou a olhar para o ecrã. Os vistos permaneciam cinzentos.
— Vou arrepender-me disto? — perguntou ao céu.
Regressou ao interior. Ligou o computador portátil sobre o balcão da cozinha e sentou-se no banco alto. Aproveitou para trabalhar mais um pouco, procurando abstrair-se da ansiedade. Leu as notícias de desporto, analisou a possível veracidade de alguns boatos de interesses de clubes e olhou mil vezes para o ecrã do telemóvel.
A notificação surgiu inesperada entre esperas.
"Já aterrei. Estou à espera que abram as portas do avião"
"A viagem foi boa?"
"Cansativa."
"Viste a mensagem? Vai estar alguém à tua espera para te trazer."
"Pensei que me viesses buscar ;) Estou a brincar."
O telefone tocou, quebrando o diálogo e raptando-o do WhatsApp. Era uma chamada de Matt. Gabriel rejeitou-a e regressou à aplicação.
"Vamos desembarcar agora. Vou para o controlo alfandegário. Já volto a falar, quando for esperar a bagagem. Até já."
Gabriel ligou a Matt. Não era nada importante, apenas a comunicação do parecer favorável a mais um contrato.
A ansiedade quase que o deixava enjoado. Queria que o tempo passasse, tanto quanto desejava que ele parasse e Íris não chegasse. Seria aquilo uma atitude desesperada de quem sofria a angústia da solidão? Seria o instinto de sobrevivência a deixar-se abrir ao mundo das pessoas? Não. O seu instinto de sobrevivência fechara-o para as pessoas.
Levantou-se do banco e caminhou novamente até aos vidros. Observou a paisagem, uma daquelas vistas que fazia aquele apartamento ter custado uma pequena fortuna, dinheiro que não lhe fazia falta. Aliás, nada lhe fazia falta.
Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!
Então para que estava a fazer aquilo? Porque não deixar Íris desenrascar-se sozinha? Para quê, convidá-la a vir a Toronto, ficar em sua casa? És uma besta, Gabriel. Vais deixar entrar alguém que um dia vai partir sem olhar para trás. Que tinha ela de especial? Era a menina divertida de nove anos que compusera o melhor período da sua vida. Estaria ele a tentar recuperar esse tempo? Definitivamente, és uma besta, Gabriel. O passado não volta. E se voltasse, seria para te repetir o sofrimento que lhe sucedeu.
Nova mensagem.
"Já me deixaram entrar ;p"
Gabriel ficou imóvel a olhar para os caracteres.
"Vou agora buscar a bagagem. Espero que não demore. Estou a cair de sono.”
Ele continuou imóvel. Foi como se estivesse a ver um precipício a aproximar-se e não tivesse reacção para evitar a queda.
Ao fim de um minuto, teve consciência que não estava a responder-lhe. Respirou fundo.
"Com sorte, não deve demorar"
Ela leu, mas não digitou nada de imediato.
Lá fora, o horizonte ganhava tonalidades mais escuras. O fim da tarde aproximava-se e o Sol não tardaria muito a começar a esconder-se atrás dos altos arranha-céus de Toronto.
Nova notificação.
"Já tenho tudo. Vou agora procurar a minha boleia :) Até já."
Gabriel olhou para o interior do apartamento, fazendo uma vistoria distante. Sabia que estava tudo limpo e arrumado, deixara indicações à empresa de limpeza para lá passar na sua ausência. Numa passada apressada, atravessou a sala para o átrio e dirigiu-se ao quarto que escolhera para a sua hóspede. Confirmou que as empregadas haviam feito a cama e deixado tudo impecável como se fosse um quarto de hotel.
Tornou a olhar para o telemóvel, vendo as horas. Imaginou-a a circular pelo aeroporto, uma mulher como tantas outras com a cara de Íris de nove anos. Calculou os tempos, dez minutos até ao motorista privado, encontrá-lo e chegar ao carro, meia hora para vir de Pearson até ali, se tivessem sorte com o trânsito... Não chegaria em menos de quarenta e cinco minutos.
O nervoso intensificava-se. Pensou em fazer um café, mas acabou a segurar um copo de whisky. Assistiu ao entardecer com o olhar vago no lago, sentado no banco alto e a ouvir a sua própria respiração.
Passaram dez minutos, depois vinte, trinta, trinta e cinco, quarenta, quarenta e um, quarenta e dois, quarenta e três, quarenta e quatro.... Seria a qualquer momento. Íris não voltou a comunicar com ele, nem ele lhe enviou qualquer mensagem. Esperou. Limitou-se a esperar. Cinquenta minutos. Cinquenta e cinco... Uma hora. Mais de uma hora.
O silêncio no apartamento foi quebrado pelo tom melodioso da campainha. Gabriel viu a realidade como um contador digital com números em contagem decrescente que se aproximavam fatalmente do zero.
Respirou fundo. Pela sonoridade da campainha, diferente de quem tocava da rua, Gabriel sabia que Íris já estava do lado de lá da porta do apartamento. Deu passos lentos, nervosos. Só naquele momento, teve real consciência do absurdo que fora convidá-la. Por vezes, pareces o teu pior inimigo, Gabriel.
Parou e colocou a mão na maçaneta da porta. Respirou fundo e rodou-a, puxando o rectângulo vertical blindado para si.
O sorriso... O sorriso foi a primeira coisa que lhe roubou toda a atenção.
— Olá, Gabriel! Cheguei.
Custou-lhe a acreditar. Que esperava ele, ao abrir a porta? Ver uma menina de nove anos? Claro que não. E mesmo sem a ver há quinze anos, e com todas as alterações físicas e de personalidade que esse tempo faz a uma criança, algo nela o faria identificá-la em qualquer lugar. Diante dele estava uma menina de vinte e quatro anos, uma mulher, uma bela mulher. Tinha os olhos da mãe, as amêndoas brilhantes cativantes. A cara era parecida, mas mais jovial, o que não era de estranhar, pois conhecera a mãe já trintona. O rosto era muito expressivo, exemplo daqueles que atraem simpatia, revelador de alguém feliz. Naquele momento, era uma felicidade cansada. Íris era ligeiramente mais baixa que Gabriel. O cabelo era comprido em tons escuros de castanho. O nariz tinha a ponta ligeiramente empinada, como o da mãe, a boca fazia covinhas por estar sempre a sorrir. Vestia calças de ganga, uma camisola de malha e um blusão de cabedal. Calçava sapatilhas Nike e trazia uma mochila às costas. A seu lado, duas enormes malas que lhe chegavam à cintura e uma outra mais pequena pendurada na mão.
— Olá, Arco-íris!
Ela não tirou os olhos dele. Não o achou muito diferente da imagem que a sua memória guardara. Estava mais grisalho no cabelo e tinha mais rugas no rosto. Porém, não teria dificuldade em reconhecê-lo noutro lugar, se eventualmente se cruzassem na rua. Decidida, avançou para ele e espetou-lhe dois beijos nas faces.
Ele foi apanhado completamente de surpresa, perdera aquele hábito, uma vez que a cultura da América do Norte não era dada a cumprimentos com beijos. Íris julgou que agira mal.
— Desculpa. — pediu envergonhada.
— Desculpa, eu. — contrapôs com um sorriso. — Ao fim de tantos anos no Canadá, desabituei-me do calor humano português. O pessoal aqui não é muito de beijos.
— Gosto do teu sotaque. — confessou, divertida e descansada por não ter sido insolente.
— Sotaque? — interrogou ele.
Íris brindou-o com uma gargalhada deliciosa.
— Calculo que nem te apercebas, mas pareces um turista americano a tentar falar português. — Ele pareceu envergonhado. Ela percebeu. — Oh... Desculpa, Gabriel. Não quis...
— Não faz mal. Já é uma sorte, ainda saber falar português.
— Também não acredito nisso.
Subitamente, perceberam que estavam a conversar à entrada do apartamento.
— Que anfitrião que eu sou. Anda. Entra! — convidou, segurando lhe as malas grandes assentes em rodinhas.
Íris entrou com o olhar a absorver todo o espaço e decoração. Largou a mochila e a mala pequena no chão.
— Tens uma casa muito bonita.
— Não me posso queixar. — retorquiu ele, encostando as malas na entrada do átrio dos quartos. — Vem, vou mostrar-te o apartamento.
Encaminhou-a para a sala e mostrou-lhe a vista. Íris ficou encantada com a paisagem.
— Agora já está a escurecer, mas amanhã, verás melhor.
A seguir, indicou a cozinha. Parecia um agente imobiliário a mostrar uma casa. Íris deixou-se conduzir, lutando contra o cansaço.
— Este é o teu quarto. — apontou, abrindo a porta da divisão que destinara para ela.
Íris ia para dizer qualquer coisa, mas não conteve um bocejo.
— Deves estar cansada.
— Desculpa. Sinto-me como se já fosse madrugada.
— Para o teu organismo, é quase meia-noite.
— E acordei às três da manhã.
Gabriel afastou-se para ir buscar a bagagem dela. Íris entrou no quarto e despiu o casaco, sentando-se no colchão fofo. Ele trouxe as malas grandes e colocou-as junto às portas do roupeiro embutido na parede. Voltou a sair. Íris permitiu-se a cair para trás e saborear o conforto da cama. Gabriel tornou a entrar, trazendo a mochila e a outra mala.
— Queres comer alguma coisa? Posso encomendar...
— Acho que vou dormir. — concluiu, olhando-o com a cabeça na almofada. — Desculpa. Que raio de hóspede que chega e vai logo dormir.
— Estás cansada, é natural.
— Não te importas?
— Achas, Arco-íris? — Ela fez um esforço e voltou a sentar-se. O sorriso era genuíno e cansado. — Tens casa de banho privada, tens toalhas e gel de banho, champô...
— Devias dedicar-te ao ramo hoteleiro. — interrompeu ela, feliz. — Obrigado por tudo, Gabriel.
Ele encolheu os ombros.
— O meu quarto é ali. — apontou para a porta oposta àquela. — As outras portas são do terceiro quarto e da casa de banho geral. Fica à vontade. Sente-te como se estivesses em tua casa. Se precisares de alguma coisa, chama-me.
— Obrigada, Gabriel.
— Dorme bem, Arco-íris! — despediu-se, saindo e fechando a porta.
Íris voltou a escrever-lhe no dia seguinte com a data do voo. Pediu lhe a morada dele ou se teria disponibilidade de a ir buscar ao aeroporto. Seria um voo muito longo com saída de Lisboa antes das seis da manhã com destino a Paris, onde faria uma escala de quase cinco horas para apanhar o voo que ligava o Aeroporto Charles de Gaulle ao Pearson International Airport onde chegaria depois das quatro da tarde, hora de Toronto. Havia voos directos, mas eram demasiado caros e aquela era a melhor solução para a sua carteira.
Gabriel respondeu-lhe que não se preocupasse, trataria do seu transporte quando chegasse a Toronto.
Foram trocando emails ao longo dos dias que antecederam a vinda dela. Íris quis saber mais coisas sobre ele, mas Gabriel era vago nas respostas, partilhando apenas que não havia uma esposa ou filhos, uma vez que a omissão disso, depois dela ter falado no tema, poderia parecer no mínimo estranho.
Na última mensagem trocada na antevéspera da viagem, Gabriel enviou-lhe o seu número de telefone e pediu se ela poderia ir dando notícias da viagem. Íris respondeu com o seu número para o WhatsApp dele e comprometeu-se a ir dando notícias pela aplicação, uma vez que seria mais económico que telefonar ou enviar sms, pois poderia ligar-se aos WiFi dos aeroportos.
Na noite que antecedeu a viagem, Gabriel chegou a casa cedo. Seria a última noite sozinho no apartamento, por isso, escolheu um nome da lista de dez. Eram oito da noite, uma da manhã em Lisboa. Íris já deveria estar a dormir, o seu voo seria daí a pouco mais de quatro horas. A companhia contratada chegaria mais tarde, tinha tempo disponível para um banho e uma mensagem rápida. Abriu o computador portátil e ligou se à caixa de email.
"Olá Arco-íris,
Chegou o dia. Imagino como deves estar ansiosa. Não te preocupes, vai tudo correr bem. Afinal, estarás a cumprir um sonho. Para além disso, não estarás sozinha. Faz boa viagem, Arco-íris! Beijinhos"
Qualquer uma delas era fenomenal na cama ou em outro lugar em que decidisse possuí-las. Daquela vez, a sua companhia era uma afro americana lindíssima com um tom de pele azeitona, olhos escuros e um rosto de beleza angelical. Tinha uns seios fabulosos e cheirava maravilhosamente bem. Naquele instante, saltava que nem uma louca sobre ele, fazendo-o sentir-se nas nuvens e quase a rebentar todo o seu prazer dentro do preservativo. Estava quase... quase, quase... quando ouviu uma notificação do telemóvel. Como se tivessem combinado, ambos olharam para o local onde o aparelho fora deixado.
— Não pares! — ordenou ele, cheio de curiosidade. — Estou quase a vir-me.
Após o orgasmo, a mulher tombou para o lado vago da cama. Gabriel virou-se para a extremidade oposta e segurou no telemóvel. Era meia-noite e o seu WhatsApp tinha uma nova mensagem de Íris, a primeira de sempre que lhe enviava por ali.
"Se calhar já estás a dormir. Estou prestes a embarcar. Obrigado pelo teu email. Aliás, obrigado por existires. Beijinhos da Arco-Íris."
Como ele sabia que ela veria o visto de lido, respondeu "Faz boa viagem, Arco-íris. Até já"
Dormiu profundamente. Foi acordado pela prostituta já pronta para ir embora, o que não tinha memória de alguma vez ter acontecido, era sempre ele a acordar primeiro. Ela olhava-o com ternura profissional e pediu desculpa por o acordar. Estremunhado, ele saiu da cama e foi buscar o dinheiro para lhe pagar.
A mulher da lista de dez deixou-o sozinho no apartamento. Gabriel foi tomar um duche para despertar. Só quando voltou da casa de banho é que consultou o smartphone. Tinha uma mensagem recebida às quatro horas da manhã, dez horas em Paris.
"Se te acordar, bato-me :) Só para te dizer que a primeira parte correu bem. Estou no Charles De Gaulle. Agora é esperar. Beijinho e continua a dormir, sortudo :). Também queria. Estou cheia de sono."
Gabriel voltou a olhar para o relógio, eram sete e meia da manhã em Toronto. Pelas suas contas, Íris ainda não deveria ter embarcado no segundo voo.
"Bom dia, Arco-íris! Estás por aí?"
O visto tornou-se em dois e os dois ficaram azuis. Surgiu a indicação que ela estava a escrever.
"Bom dia, Gabriel! Já acordado? Que horas são aí?"
"Sete e meia. E aí?"
"Uma e meia da tarde."
"Deves estar quase a embarcar, não?"
"Daqui a cerca de uma hora."
Gabriel saiu do quarto com o robe vestido e atravessou a sala até à cozinha com o telemóvel na mão. Parou no balcão, junto à máquina do café e preparou um para si. Sentou-se num dos bancos altos virado para a paisagem exterior, dividindo a atenção entre o lago Ontário e o ecrã do aparelho. Ficaram a trocar mensagens até ela embarcar.
A manhã ia a meio, quando Gabriel chegou ao seu escritório no Bay-Adelaide Centre. Encarregou Francis de fazer uma reserva com a empresa de transporte que usavam para lhes irem buscar ou levar figuras importantes ao aeroporto ou aos hotéis, usualmente jogadores, representantes de clubes ou outros elementos ligados ao negócio desportivo. Era um serviço luxuoso que usava viaturas de gama alta e motoristas privados.
— É para ir buscar uma amiga minha ao Pearson. Quero que a vão buscar e a levem para minha casa. — explicou a Francis. — O tipo que a for buscar deve ter um cartaz com o nome dela.
Gabriel escreveu num papel "Íris (Arco-íris)" para que o funcionário transcrevesse na solicitação que iria fazer à empresa.
— Isto é o nome. — constatou Francis. Apontou para a palavra entre parêntesis. — E isto?
— É para ela reconhecer. Significa Rainbow.
Francis riu-se.
— Uma amiga chamada Rainbow? — interrogou com humor.
— Não te metas onde não és chamado. — admoestou Gabriel, sério. — Ela aterra por volta das quatro. Tens aqui o número do voo. — Escreveu a referência no mesmo papel. — Vem de Paris. Trata disso, por favor. Fico a aguardar que me confirmes.
Naquele dia, a angústia e solidão pareciam ter desaparecido da vida de Gabriel. Ao invés, a ansiedade consumia-o. Tratou de todos os assuntos que tinha a tratar. Antes de sair para uma reunião com o seu advogado Matt, Francis confirmou-lhe que estava tudo tratado. Mesmo sabendo que ela só veria a mensagem depois de aterrar, enviou-lhe logo a informação de que estaria um motorista privado à sua espera na zona de chegadas do Pearson a segurar um cartaz com "Íris (Arco-íris)".
Desde que Íris lhe dissera a data do voo e a hora a que chegaria, a agenda de Gabriel ficou ocupada para o que quer que fosse a partir das quatro da tarde.
O Sol brilhava radioso dando um brilho cativante a Toronto. A tarde amena agradável permitia um último saborear do tempo que antecedia o Outono e o regresso do frio crescente.
Gabriel conduzia ansioso pelas ruas da cidade. Regressava a casa sem conseguir afastar o nervoso miudinho pelo aproximar da hora em que a menina de nove anos voltaria a estar na sua presença. Tinha tantas saudades daquele tempo... Agora que se permitia a pensar nisso, concluía que os dois anos de relação com Olga haviam sido os mais felizes da sua vida. Nunca quisera ser um pai para Íris, mas gostava muito da menina. Doera-lhe horrores que a mãe não tivesse permitido que se despedisse dela. Fora talvez a coisa que mais o magoou, a seguir à traição de Olga.
Tinham passado quinze anos. Íris já não era uma menina de nove anos, era uma jovem mulher de vinte e quatro que se mudava para o Canadá, tal como ele fizera nessa altura, sendo a diferença entre ambos, que ela vinha a prazo e ele viera para nunca mais voltar.
Estacionou na garagem do prédio. Subiu o elevador com a calma de um condenado. Temia o desconhecido, a chegada de alguém que estivera tão presente na melhor fase da sua vida, a criança divertida, a menina feliz. Nos últimos tempos, as recordações esquecidas pelo tempo voltaram, a lembrança da empatia que havia entre eles, as brincadeiras. Trancara a saudade com tanto afinco e agora ela parecia querer explodir lhe do peito. Tinha medo. Receava que deixar Íris entrar, ser sua amiga, pudesse destruir todos os escudos que construíra, desde que a mãe dela o abandonara.
Entrou em casa. Consultou o telemóvel e a aplicação de mensagens. Ela ainda não lera a última, sinal que ainda não tinha aterrado. Despiu o casaco do fato Ermenegildo Zegna. Não estava habituado a estar em casa àquela hora. Caminhou até aos vidros e abriu o acesso à larga varanda. O vento soprava intenso, mas não era frio nem desagradável. O lago evidenciava um azul forte atiçado pelos raios solares. Tornou a olhar para o ecrã. Os vistos permaneciam cinzentos.
— Vou arrepender-me disto? — perguntou ao céu.
Regressou ao interior. Ligou o computador portátil sobre o balcão da cozinha e sentou-se no banco alto. Aproveitou para trabalhar mais um pouco, procurando abstrair-se da ansiedade. Leu as notícias de desporto, analisou a possível veracidade de alguns boatos de interesses de clubes e olhou mil vezes para o ecrã do telemóvel.
A notificação surgiu inesperada entre esperas.
"Já aterrei. Estou à espera que abram as portas do avião"
"A viagem foi boa?"
"Cansativa."
"Viste a mensagem? Vai estar alguém à tua espera para te trazer."
"Pensei que me viesses buscar ;) Estou a brincar."
O telefone tocou, quebrando o diálogo e raptando-o do WhatsApp. Era uma chamada de Matt. Gabriel rejeitou-a e regressou à aplicação.
"Vamos desembarcar agora. Vou para o controlo alfandegário. Já volto a falar, quando for esperar a bagagem. Até já."
Gabriel ligou a Matt. Não era nada importante, apenas a comunicação do parecer favorável a mais um contrato.
A ansiedade quase que o deixava enjoado. Queria que o tempo passasse, tanto quanto desejava que ele parasse e Íris não chegasse. Seria aquilo uma atitude desesperada de quem sofria a angústia da solidão? Seria o instinto de sobrevivência a deixar-se abrir ao mundo das pessoas? Não. O seu instinto de sobrevivência fechara-o para as pessoas.
Levantou-se do banco e caminhou novamente até aos vidros. Observou a paisagem, uma daquelas vistas que fazia aquele apartamento ter custado uma pequena fortuna, dinheiro que não lhe fazia falta. Aliás, nada lhe fazia falta.
Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!
Então para que estava a fazer aquilo? Porque não deixar Íris desenrascar-se sozinha? Para quê, convidá-la a vir a Toronto, ficar em sua casa? És uma besta, Gabriel. Vais deixar entrar alguém que um dia vai partir sem olhar para trás. Que tinha ela de especial? Era a menina divertida de nove anos que compusera o melhor período da sua vida. Estaria ele a tentar recuperar esse tempo? Definitivamente, és uma besta, Gabriel. O passado não volta. E se voltasse, seria para te repetir o sofrimento que lhe sucedeu.
Nova mensagem.
"Já me deixaram entrar ;p"
Gabriel ficou imóvel a olhar para os caracteres.
"Vou agora buscar a bagagem. Espero que não demore. Estou a cair de sono.”
Ele continuou imóvel. Foi como se estivesse a ver um precipício a aproximar-se e não tivesse reacção para evitar a queda.
Ao fim de um minuto, teve consciência que não estava a responder-lhe. Respirou fundo.
"Com sorte, não deve demorar"
Ela leu, mas não digitou nada de imediato.
Lá fora, o horizonte ganhava tonalidades mais escuras. O fim da tarde aproximava-se e o Sol não tardaria muito a começar a esconder-se atrás dos altos arranha-céus de Toronto.
Nova notificação.
"Já tenho tudo. Vou agora procurar a minha boleia :) Até já."
Gabriel olhou para o interior do apartamento, fazendo uma vistoria distante. Sabia que estava tudo limpo e arrumado, deixara indicações à empresa de limpeza para lá passar na sua ausência. Numa passada apressada, atravessou a sala para o átrio e dirigiu-se ao quarto que escolhera para a sua hóspede. Confirmou que as empregadas haviam feito a cama e deixado tudo impecável como se fosse um quarto de hotel.
Tornou a olhar para o telemóvel, vendo as horas. Imaginou-a a circular pelo aeroporto, uma mulher como tantas outras com a cara de Íris de nove anos. Calculou os tempos, dez minutos até ao motorista privado, encontrá-lo e chegar ao carro, meia hora para vir de Pearson até ali, se tivessem sorte com o trânsito... Não chegaria em menos de quarenta e cinco minutos.
O nervoso intensificava-se. Pensou em fazer um café, mas acabou a segurar um copo de whisky. Assistiu ao entardecer com o olhar vago no lago, sentado no banco alto e a ouvir a sua própria respiração.
Passaram dez minutos, depois vinte, trinta, trinta e cinco, quarenta, quarenta e um, quarenta e dois, quarenta e três, quarenta e quatro.... Seria a qualquer momento. Íris não voltou a comunicar com ele, nem ele lhe enviou qualquer mensagem. Esperou. Limitou-se a esperar. Cinquenta minutos. Cinquenta e cinco... Uma hora. Mais de uma hora.
O silêncio no apartamento foi quebrado pelo tom melodioso da campainha. Gabriel viu a realidade como um contador digital com números em contagem decrescente que se aproximavam fatalmente do zero.
Respirou fundo. Pela sonoridade da campainha, diferente de quem tocava da rua, Gabriel sabia que Íris já estava do lado de lá da porta do apartamento. Deu passos lentos, nervosos. Só naquele momento, teve real consciência do absurdo que fora convidá-la. Por vezes, pareces o teu pior inimigo, Gabriel.
Parou e colocou a mão na maçaneta da porta. Respirou fundo e rodou-a, puxando o rectângulo vertical blindado para si.
O sorriso... O sorriso foi a primeira coisa que lhe roubou toda a atenção.
— Olá, Gabriel! Cheguei.
Custou-lhe a acreditar. Que esperava ele, ao abrir a porta? Ver uma menina de nove anos? Claro que não. E mesmo sem a ver há quinze anos, e com todas as alterações físicas e de personalidade que esse tempo faz a uma criança, algo nela o faria identificá-la em qualquer lugar. Diante dele estava uma menina de vinte e quatro anos, uma mulher, uma bela mulher. Tinha os olhos da mãe, as amêndoas brilhantes cativantes. A cara era parecida, mas mais jovial, o que não era de estranhar, pois conhecera a mãe já trintona. O rosto era muito expressivo, exemplo daqueles que atraem simpatia, revelador de alguém feliz. Naquele momento, era uma felicidade cansada. Íris era ligeiramente mais baixa que Gabriel. O cabelo era comprido em tons escuros de castanho. O nariz tinha a ponta ligeiramente empinada, como o da mãe, a boca fazia covinhas por estar sempre a sorrir. Vestia calças de ganga, uma camisola de malha e um blusão de cabedal. Calçava sapatilhas Nike e trazia uma mochila às costas. A seu lado, duas enormes malas que lhe chegavam à cintura e uma outra mais pequena pendurada na mão.
— Olá, Arco-íris!
Ela não tirou os olhos dele. Não o achou muito diferente da imagem que a sua memória guardara. Estava mais grisalho no cabelo e tinha mais rugas no rosto. Porém, não teria dificuldade em reconhecê-lo noutro lugar, se eventualmente se cruzassem na rua. Decidida, avançou para ele e espetou-lhe dois beijos nas faces.
Ele foi apanhado completamente de surpresa, perdera aquele hábito, uma vez que a cultura da América do Norte não era dada a cumprimentos com beijos. Íris julgou que agira mal.
— Desculpa. — pediu envergonhada.
— Desculpa, eu. — contrapôs com um sorriso. — Ao fim de tantos anos no Canadá, desabituei-me do calor humano português. O pessoal aqui não é muito de beijos.
— Gosto do teu sotaque. — confessou, divertida e descansada por não ter sido insolente.
— Sotaque? — interrogou ele.
Íris brindou-o com uma gargalhada deliciosa.
— Calculo que nem te apercebas, mas pareces um turista americano a tentar falar português. — Ele pareceu envergonhado. Ela percebeu. — Oh... Desculpa, Gabriel. Não quis...
— Não faz mal. Já é uma sorte, ainda saber falar português.
— Também não acredito nisso.
Subitamente, perceberam que estavam a conversar à entrada do apartamento.
— Que anfitrião que eu sou. Anda. Entra! — convidou, segurando lhe as malas grandes assentes em rodinhas.
Íris entrou com o olhar a absorver todo o espaço e decoração. Largou a mochila e a mala pequena no chão.
— Tens uma casa muito bonita.
— Não me posso queixar. — retorquiu ele, encostando as malas na entrada do átrio dos quartos. — Vem, vou mostrar-te o apartamento.
Encaminhou-a para a sala e mostrou-lhe a vista. Íris ficou encantada com a paisagem.
— Agora já está a escurecer, mas amanhã, verás melhor.
A seguir, indicou a cozinha. Parecia um agente imobiliário a mostrar uma casa. Íris deixou-se conduzir, lutando contra o cansaço.
— Este é o teu quarto. — apontou, abrindo a porta da divisão que destinara para ela.
Íris ia para dizer qualquer coisa, mas não conteve um bocejo.
— Deves estar cansada.
— Desculpa. Sinto-me como se já fosse madrugada.
— Para o teu organismo, é quase meia-noite.
— E acordei às três da manhã.
Gabriel afastou-se para ir buscar a bagagem dela. Íris entrou no quarto e despiu o casaco, sentando-se no colchão fofo. Ele trouxe as malas grandes e colocou-as junto às portas do roupeiro embutido na parede. Voltou a sair. Íris permitiu-se a cair para trás e saborear o conforto da cama. Gabriel tornou a entrar, trazendo a mochila e a outra mala.
— Queres comer alguma coisa? Posso encomendar...
— Acho que vou dormir. — concluiu, olhando-o com a cabeça na almofada. — Desculpa. Que raio de hóspede que chega e vai logo dormir.
— Estás cansada, é natural.
— Não te importas?
— Achas, Arco-íris? — Ela fez um esforço e voltou a sentar-se. O sorriso era genuíno e cansado. — Tens casa de banho privada, tens toalhas e gel de banho, champô...
— Devias dedicar-te ao ramo hoteleiro. — interrompeu ela, feliz. — Obrigado por tudo, Gabriel.
Ele encolheu os ombros.
— O meu quarto é ali. — apontou para a porta oposta àquela. — As outras portas são do terceiro quarto e da casa de banho geral. Fica à vontade. Sente-te como se estivesses em tua casa. Se precisares de alguma coisa, chama-me.
— Obrigada, Gabriel.
— Dorme bem, Arco-íris! — despediu-se, saindo e fechando a porta.