QUARTZO TITÂNIO · Capítulo 15

Capítulo XV

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Diante dos vidros do seu apartamento, Íris segurava uma chávena de chá quente e observava os prédios da cidade com o olhar vago. Lá fora, a neve começava a derreter e a temperatura já não baixava tanto, fazendo os flocos gelados darem lugar à chuva. O céu continuava cinzento. Que saudades ela tinha do Sol e do calor.
Não tinha nada para fazer, nem onde ir. Ficara em casa, em pijama a pensar na melhor forma de matar o tempo. Estava sozinha, uma vez que Ashley saíra para se encontrar com o namorado. Sabia o que iriam fazer e não conseguia evitar que essa certeza a torturasse. Mas, o acordo era esse, Ashley era sua amante sem prejuízo do namoro. Porém, custava lhe pensar que ela estaria a partilhar amor com outro ser humano que não ela.
Lamentava que Montreal não ficasse mais perto de Toronto, ou então, que Gabriel não vivesse naquela bela cidade da região do Quebec. Se assim fosse, iria ter com ele e ficar à conversa sem dar pelo tempo passar. Gostava muito dele, aliás, adorava-o. Gabriel era sem dúvida o seu melhor amigo. Era uma relação curiosa, nascida há tantos anos quando ele namorara a mãe dela. Sempre gostara dele, desde miúda, não como um pai, mas como um amigo. E ele não a desiludira, nunca a desiludira, nem mesmo quando ela pensara que ele partira sem se despedir. Afinal, a culpa não fora dele.
Aquilo que se tornou mais impressionante para si foi o reencontro. Lembrava-se de a mãe lhe dizer "Lembras-te daquele meu ex, o Gabriel? Sei que vive no Canadá. Pensei em escrever-lhe para te ajudar". Íris achou que aquilo seria inconsequente. Se calhar, ele nem se lembrava da mãe ou dela. Concordara com a mãe só porque sim, sem esperar nada dali. Pouco tempo depois, ela disse-lhe que Gabriel respondera sem se alongar muito, pedindo para que fosse Íris a corresponder-se com ele para ver o que poderia fazer. Isso surpreendeu-a e ficou sem saber muito bem como o abordar.
Fosse como fosse, ter alguém a ajudar do outro lado do Atlântico atenuava toda a complicação da mudança que se avizinhava. Fez uma pesquisa pelo nome, procurando saber mais e acabou por descobrir que ele era um empresário desportivo ainda mais bem-sucedido que no tempo em que a mãe o conhecera. Pela associação de notícias, calculou que ele não estava em Montreal, mas sim em Toronto. Pelo mapa parecia já ali, mas o Canadá era um país enorme. Ele disponibilizou-se a ajudá-la e sabia que o seu destino seria Montreal. Contudo, Íris não sabia bem como se dirigir a ele, quando se preparou para escrever. Lembrava-se do homem simpático que a mãe lhe apresentara após a separação do pai. Não gostou dele ao início, achando que aquele tipo queria tomar o lugar do seu pai. Só que ele tratou-a sempre com grande frontalidade, disse-lhe desde cedo que não pretendia ser substituto de ninguém. Irra, pensou com um sorriso nos lábios, ela só tinha sete anos e ele mostrava-lhe a realidade crua sem rodeios. A verdade é que ela, nos seus sete anos, passou a olhar para ele como um amigo mais velho, o namorado da mãe que ajudava a cuidar dela, que brincava consigo, que lhe lia histórias ao deitar, deturpando todo o enredo e divertindo-a com piadas.
A chuva intensificara-se e caía forte nas ruas de Montreal. Da sua janela, Íris recordou o sofrimento da partida dele, o quanto chorara às escondidas, temendo ser vista e que isso voltasse a provocar a separação dos pais, caso a mãe tentasse recuperar Gabriel para alegria da filha. Íris não queria isso, queria Gabriel na sua vida, mas sem separar os pais. Com nove anos, quase dez, aprendeu sozinha a ultrapassar a perda do amigo. Ele acabou por se tornar uma recordação, alguém que passara no troço da sua vida e partira. Quando o destino o colocou novamente no seu caminho, Íris não sabia como o tratar. Por isso, começou a escrever o primeiro email que lhe enviou com formalidade. Depois de enviar, pensou em Gabriel como um velho que leria aquilo como se tivesse sido escrito pela miúda de nove anos e a quem ele concederia o seu tempo precioso para lhe prestar uma ajuda distante e simpática.
Bebeu mais um pouco do chá. Adorava chá, principalmente para beber num dia frio de chuva no Inverno. Voltando às memórias, não soube como descrever, nem explicar o que sentiu. Ao abrir a resposta dele, bastou-lhe ler a primeira frase para perceber que falava com o Gabriel do seu passado. “Olá, Arco-íris", ele não esquecera a forma carinhosa como a tratava. Subitamente, os quinze anos eram como se não tivessem existido e ele tivesse estado a brincar com ela na véspera. Leu tudo como se o estivesse a ver a falar consigo. Mais uma vez, como era hábito nele, não a desiludia e trazia-lhe ao pensamento a memória de como gostava dele. Para além disso, "arco-íris" tinha um significado especial para si.
Íris afastou-se dos altos vidros e caminhou até ao balcão da cozinha, pegando no bule e despejando mais um pouco de chá na chávena. A emoção de voltar a falar com ele foi grande. Não sabia explicar, mas de repente, não entendia como podiam ter passado tantos anos sem comunicar com ele. Sem perder tempo, escreveu-lhe a resposta, ainda antes de dizer à mãe que ele lhe respondera. Ripostou o "Arco-íris" com o nome que ela lhe chamava, "Gabi", apesar de saber que não teria a mesma importância para ele, o que se confirmou mais tarde quando lhe escreveu que preferia Gabriel.
Sorriu sozinha para a paisagem chuvosa de Montreal, perdida nas memórias. De um momento para o outro, ele estava novamente a falar consigo. Sentiu toda a saudade reprimida ao longo dos anos a vir ao de cima. Sem saber porquê, teve medo de o perder novamente. Talvez por isso, na resposta, tenha exposto logo tudo o que sentia, o lamento quando ele foi embora, o fracasso da relação com a mãe e a possibilidade de isso ser um factor desconfortável entre eles. Explicou-lhe que a viagem para Montreal ainda necessitava de muito planeamento. Gostava que ele a pudesse ajudar, mas temia ser um incómodo na vida dele, que a aceitasse por não ter coragem de lhe dizer que não tinha disponibilidade para a aturar, por isso, quis deixá-lo à vontade para se descartar sem que isso mudasse o que quer que fosse. Mandou-lhe um beijinho e ia a clicar em "enviar", quando se lembrou de lhe abrir o coração:
"Se não gostares que te chame Gabi, diz. Afinal, eu já não tenho oito anos. A mim, podes continuar a chamar-me Arco-íris. As meninas de vinte e quatro anos também acham que é muito bom ser um arco-íris :) :) :)"
A mensagem original, a que escrevera primeiro, em vez de "As meninas de vinte e quatro anos também acham que é muito bom ser um arco-íris", tinha "A Íris de vinte e quatro anos continuar a querer ser o teu Arco-íris". Só que teve receio de ser mal interpretada.
Recordava-se que, após enviar aquela mensagem, fora começar a fazer as suas pesquisas de voos para ter uma ideia de preços e horários. Obteve diversas opções, voos directos, voos com escala, preços altos em todos. Contudo, uma das primeiras opções dava-lhe a hipótese de fazer escala em Toronto. Nesse instante, veio-lhe à cabeça a ideia mais absurda. E se fosse por Toronto? E se o fosse visitar, antes de seguir para Montreal? Não, não seria uma escala entre voos, teria de ser uma estadia.
O chá delicioso fazia-a sentir-se bem. Pensou como agira por impulso, ao escrever a Gabriel a partilhar aquela hipótese. Algo que lhe parecera uma excelente ideia, tornou-se absurdo depois de enviar. Sentiu se abusadora, a impor a sua presença. Ele disponibilizara-se a ajudá-la e ela queria ir aborrecê-lo, ocupar-lhe o tempo já muito limitado? Bolas, ele ainda nem tinha escrito a resposta e ela já lhe atirava outra mensagem?!
Só que Gabriel era "o" Gabriel, o Gabi, o homem que a fazia sentir um arco-íris. A resposta foi como um abraço no seu coração. Tal como imaginara, o assunto da relação dele com a mãe dela era para não ser tocado, mas deixava claro que isso em nada beliscava a amizade deles. Mostrou-se mais ou menos disponível para ela, caso optasse por ir a Toronto. Encarou aquilo como natural, ele não iria alterar o seu dia a dia por causa de Íris. E ainda lhe enviara uma lista de hotéis em ambas as cidades. Gabriel era um tipo espectacular.
No dia seguinte a ter recebido aquele email, o seu mundo desabou. A viagem para o Canadá dependia do dinheiro da mãe. Íris também pedira auxílio ao pai para a temporada de estudante na McGill, mas ele desculpara-se com falta de liquidez, prometendo que tentaria ajudá-la mais tarde. Por mais que não quisesse aceitá-lo, sabia que poderia contar com o pai para quase tudo, menos dinheiro. Por seu lado, Olga tinha uma boa poupança para que a filha concretizasse o seu sonho. Só que aconteceram uns problemas financeiros que a mãe tinha de resolver e uma importante fatia da verba ficou comprometida, daí que já não havia lugar para uma viagem com tempo suficiente para estruturar a sua vida em Montreal antes das aulas e muito menos para uma passagem por Toronto.
Começava a escurecer lá fora. Íris dirigiu-se à parede e carregou no botão que estendeu os balckouts, tapando o quadro citadino que se avistava da sala em open space. Íris jamais esqueceria a tristeza desses momentos em que quase ficara com a frequência na McGill comprometida. No entanto, agora que olhava para trás, para essa recordação, aceitou que muita dessa tristeza fosse provocada por perder a oportunidade que se abrira de rever Gabriel. Talvez tivesse sido pela certeza de que já não se iriam reencontrar que não se importou de partilhar com ele tudo o que estava a sentir, a mágoa e a infelicidade pelo contratempo. Explicou a existência de complicações sem dar grandes pormenores e preocupou se em que o contacto com ele não se perdesse, não por ele estar no Canadá e ajudá-la, mas porque ela não queria voltar a perdê-lo da sua vida. Agradecera-lhe tudo e finalizou com um desabafo "Hoje sou um arco íris em tons de cinza, mas como não desisto, tenho a certeza que as minhas cores voltarão amanhã".
O chá terminara e o que sobrara no bule já arrefecera. Íris não sentiu vontade de ligar a televisão e preferiu estender-se ao comprido no sofá. Fechou os olhos e manteve-se introspectiva, recordando a resposta dele e sorrindo feliz. Ela nem quis acreditar, quando leu a mensagem. Sabia que ele era um amigo, um grande amigo, uma pessoa espectacular, mas nunca pensou que ele se dispusesse a tanto. E isso só a fazia considerar o quão única e transcendental era a relação deles que, após quinze anos, sendo ela filha da mulher que o abandonara, ele se mostrava capaz de virar o seu mundo para lhe abrir a porta dos sonhos. Ele fizera-a chorar com a sua mensagem, chorar de alegria, chorar de felicidade, chorar pela sorte de o ter novamente na sua vida. Recordando as palavras que ele lhe enviara, Íris teve uma certeza que esconderia de todas as pessoas, inclusive de si: Se gostasse de homens, seria tão fácil apaixonar-se por ele...
Os seus pensamentos foram interrompidos pela chegada de Ashley. A inglesa entrou em casa e viu Íris deitada no sofá. Não evitou o ar culpado, mas elas não falavam sobre isso. Aqueles momentos eram uma espécie de relação suspensa.
— Olá! — cumprimentou, passando pela sala para o quarto.
— Olá! — atirou Íris para as costas da outra.
Ashley largou a roupa quente no seu quarto, cuja cama não usava há bastante tempo, e atravessou o espaço em cuecas e sutiã para a casa de banho, onde iria tomar um duche.
Quando Ashley se mostrou intransigente em manter o namoro com o namorado, Íris acabou por aceitar com a condição de que não queria qualquer contacto com ela, após esses encontros. Ashley compreendeu a posição de Íris. Combinaram que, a cada regresso, ela tomaria um banho, qual mergulhador de profundidade que tem de aguardar algum tempo para descompressão, antes de vir à superfície. Os duches eram o período de desinfecção do namorado. Por isso, quando a inglesa entrou, limitou os cumprimentos a um "olá".
Enquanto ouvia o som da água a correr no duche, Íris voltou ao balcão da cozinha. Observou o interior do apartamento. Se ali estava, devia-o a Gabriel. Voltou às lembranças, a ansiedade quando chegou a Toronto, o trajecto entre o aeroporto e a casa dele com o nervosismo à flor da pele. A chegada. Vê-lo, depois de quinze anos, mais velho, mas com a sensação de que essa última vez há quinze anos acontecera na véspera.
Lamentava que ele fosse uma pessoa tão fechada, mas percebia as razões, a sua mãe fora a grande culpada. É natural que alguém se proteja de sofrimentos. Íris já tivera uma relação muito séria e cheia de expectativas de futuro. Quando acabou, sentiu o vazio. Sofreu, mas fechar se ao mundo nunca foi opção. E naquele momento, partilhava uma relação sem qualquer futuro com uma inglesa linda que jamais assumiria que gostava dela para lá das paredes do apartamento.
Íris não duvidava da importância que tinha na vida de Gabriel. Uma importância que começara naquela tarde em que a mãe a fora buscar a casa do pai e lhe apresentou o namorado, uma importância que se suspendera durante quinze anos e voltara com toda a intensidade meses antes, quando as suas vidas se voltaram a cruzar. Mesmo assim, ele continuava distante, sempre disponível para ela, pronto a ajudá-la em tudo o que precisasse, mas... Existia sempre uma névoa de defesa, como se um muro invisível o mantivesse à margem da sociedade por sua própria vontade. Íris sabia que, se não tomasse a iniciativa de o contactar, Gabriel não lhe diria nada. Ao início, interpretou-o como desinteresse. Porém, após aquela conversa na noite de passagem de ano, ela percebeu e comprometeu-se consigo mesma que o arco-íris não o largaria.
Pegou no telemóvel, abriu o WhatsApp e clicou na linha de conversas com Gabriel.
"Olá! Só para te mandar um beijinho"
A resposta veio logo a seguir.
"Olá! Outro para ti. Estás bem?"
"Sim. E tu?"
"Também"
O som da água extinguiu-se. A porta da casa de banho abriu-se e Ashley saiu, vestindo unicamente a camisola de andar por casa. Caminhou até à cozinha, vindo ao encontro de Íris. Não disse nada e beijou-a com carinho nos lábios.
— Sabes que te amo, não sabes?
A pergunta deveria ser ouvida como "sabes que te amo, apesar de ter estado a fazer amor com o meu namorado, não sabes?".
— Eu também te amo, Ashley!
A inglesa sorriu e abraçou Íris com força. Voltou a beijá-la. A troca de beijos prolongou-se sem que dessem pelo tempo passar, ali na cozinha, encostadas ao balcão.
— Vem! — convidou Ashley, puxando-lhe a mão.
— Tenho de fazer o jantar. — recusou Íris.
— Não sejas tola. Temos tempo.
— Que queres?
— Quero levar-te para o quarto.

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