Capítulo XVI
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Desde que regressara a Seattle que Rachel nunca mais dera notícias. Gabriel pedira-lhe que lhe ligasse quando chegasse a casa, mas ela esquecera-se, esquecera-o. Isto era o que ele repetia a si mesmo como justificação, fugindo à verdade em que a magoara na despedida e ela retaliara ignorando o seu pedido.
Tinha saudades dela, das conversas, da companhia, do sexo... Podia pegar no telefone e ligar-lhe, mas ela estava longe e não valia a pena prolongar algo que não tinha pernas para andar. Nada como aproveitar o afastamento dela para também se afastar.
Nessa noite, não quis ficar sozinho. Já lá ia cerca de uma semana em solidão e angústia. Era para combater aquilo que tinha a lista de dez nomes. Escolheu um e combinou uma visita lá a casa.
A eleita fora a ruiva, a tal que ele encontrara casualmente a sair do hotel na King Street, em finais do Verão, quando teve a reunião com os dirigentes dos Maple Leafs acerca da colocação de Tiivu. Que bestas que aqueles tipos eram. Se não lhe tivessem dado ouvidos, a equipa tinha menos vinte e quatro golos, os que Tiivu já marcara nesta temporada.
A ruiva chegou pontualmente à hora combinada. Mal passou a porta, despiu o longo casaco que a protegera do frio exterior. Não eram mulheres que andassem de transportes públicos colectivos, usualmente movimentavam-se em Ubers. Ela, tal como as outras nove, já o conheciam bem, sabiam como ele gostava de as ver, as saias curtas, as camisolas decotadas. Nunca o desiludiam.
Gabriel recebeu-a com um abraço e beijou-a com desejo. A ruiva protagonizava o seu papel na perfeição. Era a vantagem de pagar a profissionais de sexo, elas faziam tudo o que ele quisesse, representavam os papéis que ele desejasse. Gabriel era exigente na cama, mas no resto... Elas não precisavam de chegar a simular que o queriam loucamente, bastava serem sensuais, ardentes e luxuriantes.
Quando a encaminhava para o quarto, o telemóvel de Gabriel tocou. Olhou para o ecrã e viu o nome de Íris. Não era um telefonema, era uma videochamada.
— Vai andando para o quarto. Já lá vou ter.
A ruiva prosseguiu obediente para onde ele a mandou.
Gabriel atendeu, apontando o aparelho para si. No ecrã, surgiu a imagem de Íris sentada no sofá, sorridente com aquela expressão feliz tão característica.
— Já estavas a dormir? — perguntou divertida.
— Achas que pareço alguém que estava a dormir? — Gabriel sentou-se no sofá. — Como estás, Arco-íris?
— Bem.
— Que se passa?
— Desculpa ligar-te assim tarde. — lamentou, passando distraidamente a mão no cabelo, penteando-se. — Vi há pouco que a equipa de hóquei de Toronto, os... Monsters Kings?
Gabriel soltou uma gargalha.
— Maple Leafs.
— Isso. — confirmou, envergonhada. — Desculpa, eu e o desporto... — Encolheu os ombros. — Vi que vêm jogar a Montreal. Por acaso vens ver o jogo?
Não tinha pensado nisso. Nem sequer reparara no calendário que se aproximava o confronto entre rivais. Normalmente, ele iria assistir. Naquele ano, essa possibilidade passou-lhe ao lado. Teria sido o seu inconsciente a distraí-lo por causa de Íris estar a viver lá?
— Não sei. Porquê? — Gabriel atirou-lhe uma expressão humorada. — Queres ir ver o jogo?
— Não, obrigado. — recusou. — Já vi resumos. Aquilo é de uma violência...
— Eles não se aleijam. Já viste aqueles fatos? Estão bem protegidos.
— Seja como for. A questão é a seguinte. Pensei que, se viesses, podias vir visitar-me. Que dizes?
— Não está mal pensado. — respondeu, disfarçando o incómodo. — Vou ver se dá para ir. Se for, aviso-te.
Nesse momento, Íris desviou a atenção do ecrã e falou em inglês para quem estava com ela em casa. Gabriel percebeu que Ashley estava presente. Íris dizia-lhe que estava a falar com o seu amigo Gabriel e chamava-a para se aproximar.
— Vais conhecer a Ashley. Ela não sabe que tu sabes de nós, está bem? — alertou, voltando ao português.
— Podes ficar descansada.
Então, era esse o motivo da videochamada, apresentar-lhe a mulher por quem estava apaixonada.
Ashley apareceu no enquadramento do ecrã. Gabriel achou-a muito bonita, não havia dúvida que faziam um belo par. Tal como Íris, Ashley aparentava ser igualmente cativante, revelou-se sorridente e expressiva. Acenou-lhe e cumprimentou-o com um "olá senhor Gabriel".
— Não o trates por “senhor”. — corrigiu Íris, novamente em inglês.
No mesmo idioma, Gabriel disse:
— Sim, Ashley, tira o senhor. É só Gabriel. Prazer em conhecer-te.
— Obrigado por teres convencido o teu amigo a alugar-me o outro quarto.
Gabriel fez um gesto a desvalorizar, como se fosse algo sem importância.
— Estás a gostar de viver aí?
— É óptimo estar tão perto da Universidade. — Olhou para Íris, denunciando os reais sentimentos que tinha por ela. — E a minha colega de casa também é uma excelente companhia.
O rosto de Íris dizia tudo a respeito de como era bom tê-la ali. Porém, desviou a conversa para o assunto inicial.
— Estava a convidar o Gabriel para nos visitar, se viesse ver a equipa de Toronto.
— Os Raptors? — interrogou Ashley com estranheza.
— Quem? — ripostou Íris.
— Não Ashley, não é basquetebol, é hóquei. — respondeu Gabriel. — Toronto vai jogar a Montreal daqui a uns dias.
— E estava a convidar o Gabriel para nos vir visitar.
— É uma óptima ideia. — concordou a inglesa. — Podias vir jantar connosco. Quer dizer, não sei a que horas é o jogo...
Gabriel fez de conta que olhava para o relógio.
— Depois digo-te alguma coisa, Arco-íris. Gostei de te conhecer, Ashley.
— Igualmente. — retorquiu, piscando-lhe o olho e saindo do enquadramento.
Novamente em português, Íris questionou:
— Que achaste dela?
— Vocês fazem um casal bonito. — elogiou ele para grande satisfação de Íris. — Espero que esteja sempre à tua altura.
Íris encolheu os ombros.
— Já te falei sobre isso. Sei o que temos. É aproveitar enquanto dura.
— Depois digo-te alguma coisa em relação ao jogo.
— Ok, Gabriel. Faz um esforço. Ia gostar muito que nos viesses visitar.
Ele anuiu.
— Beijinhos, Arco-íris. Gosto muito de ti.
Aquilo saiu-lhe sem pensar. Íris não duvidaria do grande carinho que ele tinha por ela, mas era raro ele verbalizá-lo.
— Eu também gosto muito de ti, Gabriel. Beijinho grande.
E desligaram.
Gabriel ficou alguns instantes a olhar para o ecrã apagado. Como se analisasse as últimas frases. Acabou por não pensar muito nisso, uma vez que tinha uma prostituta à sua espera na cama.
Ao entrar no quarto, a ruiva encontrava-se estendida no colchão, nua, de olhos fechados. Para surpresa dele, ela adormecera enquanto o esperava. Teria demorado assim tanto? Ela dormia tranquilamente, em paz. Percebeu a confiança que tinha nele para se deixar adormecer.
Gabriel riu-se para si mesmo. Estava a pagar para ela dormir? Qualquer um dos dez nomes da sua lista eram mulheres fenomenais, soberbas e competentes. Não tinha mal nenhum que tivesse adormecido. Sem fazer barulho, despiu-se por completo e deitou-se a seu lado. Não tinha intenções de a acordar. Gabriel atravessava uma fase em que, mais que sexo, ele não queria era estar sozinho.
Ao deitar-se, a ruiva deu por ele e abriu os olhos. Fez uma expressão confusa e depois consciencializou-se que se deixara dormir.
— Oh... Desculpa, Gabriel! Eu...
— Deixa-te estar. — descansou-a com um sorriso afável. — Não há problema.
Ela elevou-se na cama.
— Não me pagas para eu dormir.
— Também. — corrigiu, demonstrando que não estava minimamente aborrecido. — Já temos dormido juntos.
A ruiva ofereceu-lhe um sorriso terno.
— És um homem maravilhoso, Gabriel. E não o digo por estares a pagar e seres um excelente cliente. Estou a ser sincera.
— Se estiveres cansada, não há problema.
— Não sejas parvo. — refutou, elevando-se mais e empurrando-o para trás. Olhou para a cintura dele. — Além disso, o teu "amigo" não parece concordar contigo.
— Esse gajo é um traidor. — reclamou ele com humor.
Ela deu-lhe um beijo terno nos lábios, uma espécie de agradecimento por Gabriel ser como é. A seguir, deslizou pelo corpo dele e começou a trabalhar.
A ideia de ir visitar Íris a Montreal era atraente, ele gostaria muito de estar novamente com ela. Desde o primeiro dia do ano que não estavam juntos e ele tinha saudades dela. Gabriel não tinha, nem queria amigos, mas Íris era uma pessoa muito especial na sua vida, uma amiga de quem ele gostava muito, alguém com quem tinha uma forte ligação, algo tão inexplicável. Sim, ele não conseguia explicar o que partilhavam. Íris poderia ser sua filha, apesar de nunca se terem olhado como pai e filha. Gabriel via-a mais como uma irmã mais nova, uma amiga de uma geração mais recente. Na vida, há coisas que não se explicam, pura e simplesmente aceitamo-las ou rechaçamo-las. A empatia que sempre tiveram não se explicava. Havia algo forte que os unia, isso ele não tinha dúvidas. Não era uma ligação de homem e mulher, era algo mais transcendental que isso. Só assim se poderia explicar, se é que existe explicação, a ligação que os fez reaproximarem-se tão facilmente quando ela o contactou pela primeira vez por email. Era quase como se ela tivesse crescido consigo, a pequena Íris, o arco-íris.
Contudo, Gabriel sabia o quão amargurado ficava após cada despedida. Também não o sabia explicar. Era dolorosa a sensação que lhe ficava na alma, quando se afastavam. Acontecera quando Íris partira para Montreal, acontecera quando ela regressara à cidade, após a passagem de ano. Nem Rachel, com quem tinha uma relação complicada, mas que era o mais próximo que tinha de uma amiga, lhe deixava tamanha tristeza a cada separação.
Ainda estava indeciso na decisão a tomar, na manhã em que chegou ao escritório. Francis tinha um recado para ele.
— Quem? — questionou Gabriel.
— Jean Michel, um jogador de futebol americano. — explicou Francis. — Conheces? Não é da NFL, é do campeonato canadiano. Pediu para falar contigo, se lhe podias ligar para falarem sobre a carreira dele.
— A carreira dele? Não deve ser lá grande coisa, se nunca ouvi falar nele.
— Que queres fazer?
— Liga para ele e passa-me a chamada. Se calhar é o novo Brady. — Era evidente o tom sarcástico. — Sabes alguma coisa sobre ele?
— Só que joga em Montreal porque me disse. É quarterback.
— Estás a ver? — insistiu no mesmo tom. — Se calhar é mesmo o novo Tom Brady.
Ao contrário do que acontece noutros desportos, na NFL, o campeonato profissional de futebol americano, não há equipas sediadas fora dos Estados Unidos. As equipas canadianas de futebol americano jogam um campeonato próprio, só com equipas do Canadá.
Enquanto a NFL era um campeonato que envolvia biliões de dólares, tinha os melhores e mais ricos jogadores do mundo e continuava a ter o evento de maior audiência mundial, o Superbowl, o campeonato canadiano não tinha qualquer expressão.
Apesar de Gabriel já ter representado jogadores da NFL e ter feito grandes contratos, não era o desporto onde movimentava mais activos, sendo mesmo raros os negócios que tivessem o seu dedo. Para ele, representar um jogador de futebol americano do campeonato do Canadá tinha menos interesse que zero. Porém, Gabriel tinha a sua reputação, poderia recusar representar qualquer um, mas recusar-se a atender alguém não seria correcto.
Sendo assim, foi para o seu gabinete esperar que Francis fizesse a ligação. Quando atendeu o telefonema, a voz que falou consigo tinha um sotaque francófono, inglês do Quebec, inglês de quem diariamente fala francês. Jean Michel era quarterback dos Alouettes de Montreal. Explicou a Gabriel que o seu contrato com o agente que o representava ia acabar e que não pretendia continuar com a parceria, uma vez que sentia que o indivíduo nunca lhe encontraria o caminho para os seus sonhos. O seu grande sonho era jogar na NFL, em qualquer equipa. E tinha a certeza de que Gabriel era o homem certo para o ajudar.
Ele ouviu-o com atenção e receptividade, ao mesmo tempo que pensava se o indivíduo teria potencial para ser mais que um suplente do suplente do quarterback titular de qualquer uma das trinta e duas equipas da NFL. Numa tentativa de o demover, informou-o que não costumava fazer muitos negócios no futebol americano. Porém, Jean Michel estava bem informado e lembrou-o de um dos seus mais bem remunerados contratos na modalidade.
— Vou dar uma olhadela aos teus jogos, Jean Michel. Ver uns resumos, ver o teu potencial. Se quiseres passar por Toronto, podemos reunir e conversar sobre isso no meu escritório.
A resposta de Jean Michel foi:
— Gostas de hóquei?
— Sim, gosto. — confirmou Gabriel, sem perceber onde ele queria chegar.
— Toronto vem jogar ao Bell Centre. Eu tenho lá um camarote. Que dizes a vir ver o jogo comigo a Montreal? Podemos conversar nessa altura.
O destino parecia conspirar para que ele fosse a Montreal.
— Tenho de ver a minha agenda. Depois digo-te alguma coisa.
Francis arranjou-lhe alguns links do Youtube com jogos dos Alouettes. Para surpresa de Gabriel, ficou impressionado com as capacidades de Jean Michel. Os agentes desportivos de futebol americano deveriam andar muito distraídos. Que andava Jean Michel a fazer na CFL?
Acabou por confirmar os dois convites que tinha para Montreal, iria ver o jogo ao Bell Centre e jantar a casa de Íris.
O frio ainda era uma realidade em Toronto, mas a neve desaparecera e já só se viam resquícios dela na cidade. Em Montreal, o frio era mais intenso e a neve ainda marcava presença.
Gabriel viajou de avião em primeira classe, como sempre, e chegou a Montreal ao início da tarde. O serviço de transporte com motorista privado que contratara levou-o do aeroporto até ao Ritz-Carlton, o hotel onde reservava quarto quando ia àquela cidade.
O Bell Centre era a maior arena de hóquei no gelo do Mundo com capacidade para mais de vinte e um mil espectadores. Corriam rumores que em breve deixaria de o ser, uma vez que existiam projectos de construção de duas arenas ainda maiores, uma em São Petersburgo e outra em Frankfurt. Gabriel fez o trajecto entre o hotel e a arena a pé. Estava frio, mas não chovia e a caminhada não lhe levaria muito mais que dez minutos, era só seguir a direito pela Rue Drummond.
Os adeptos trajados com as cores dos clubes já se encaminhavam para o pavilhão, quando ele atravessou a Avenue des Canadiens de Montreal. Caminhou pela praça frontal às entradas, um lugar com estátuas de homenagem aos mais consagrados jogadores dos Canadiens e uma parede com placas alusivas aos vinte e quatro títulos na Stanley Cup. Os Montreal Canadiens eram a equipa com mais títulos da NHL, sendo a segunda os Maple Leafs de Toronto com menos onze títulos.
Gabriel entrou pelo acesso VIP e ligou a Jean Michel que lhe indicou onde o encontrava. Gabriel viu algumas caras conhecidas, gente do meio desportivo, agentes como ele, antigos jogadores... Alguns pararam para conversar, mas ele não se demorou muito com eles.
O camarote era mais modesto que o seu no ScotiaBank Arena, uma área privada com meia dúzia de cadeiras. Jean Michel era um homem com quase dois metros de altura, robusto como um armário sem deixar de parecer esguio. Moreno, cabelo aos caracóis e um rosto simpático. Tinha vinte e poucos anos. Quando Gabriel entrou no camarote, Jean Michel saltou da cadeira e cumprimentou-o com um aperto de mão vigoroso.
Os lugares começavam a ficar compostos. Os bilhetes estariam certamente todos vendidos. Na pista de gelo, os jogadores de ambas as equipas faziam exercícios de aquecimento, patinando e executando passes e remates.
— Obrigado por teres vindo, Gabriel.
— Obrigado pelo convite para o jogo.
— Calculo que sejas adepto dos Maple Leafs. — Gabriel anuiu. Jean Michel falou num tom quase de culpa. — Eu sou um Canadien. — Convidou-o a sentar-se na cadeira ao lado da sua. — Não sabia que os agentes desportivos tinham clube.
A provocação não passava de uma tentativa de quebrar o gelo e fazer assunto.
— Toda a gente que anda no desporto tem clube. O segredo é não deixar a clubite prejudicar os negócios. És adepto dos Montreal Canadiens. Se fosses hoquista e te oferecessem um bom contrato para jogares em Toronto, não ias?
— Claro que ia.
— E ganharias mais vezes. — atirou em resposta, revelando boa disposição. Sentou-se com o olhar no recinto. — Já tive oportunidade de visionar alguns dos teus jogos.
— E?
— Como é que está a situação com o teu empresário?
— A prestação de serviços dele termina este mês.
— Estou a ponderar representar-te. — partilhou no momento em que os atletas regressavam aos balneários. — Mas, só depois de assinarmos contrato e o teu actual empresário já não ter nada a ver contigo.
— Algo me diz que viste potencial na olhadela que deste aos meus jogos.
— Se achasse que não tinhas potencial, não estaria aqui. — retorquiu Gabriel, no instante em que as luzes diminuíram e os jogadores foram apresentados com a tradicional espectacularidade do início do evento. — Mas, não te vou enganar, é muito complicado arranjar-te sequer um contrato, quanto mais um bom contrato.
— Eu sei. Tenho fé em ti.
— A NFL tem tradições, olham principalmente para os jogadores que vêm do campeonato universitário. Tu vens de fora dos Estados Unidos. Percebes?
— Sim, percebo onde queres chegar, Gabriel.
A música ecoou com enorme sonoridade, tornando-se quase ensurdecedora, para a apresentação dos jogadores da equipa da casa. Ambos ficaram a olhar para o gelo. O som diminuiu e as luzes voltaram ao normal para que os hoquistas tomassem as suas posições em campo e o jogo começasse.
— Eu sei que é difícil, Gabriel. — continuou Jean Michel. — Mas, tu sentes que é possível conseguires-me esse contrato. Caso contrário não estávamos aqui.
Gabriel não disse nada, limitando-se a assistir ao jogo. As oportunidades sucediam-se para ambos os lados, mas ninguém conseguia marcar um golo.
— Quantos representas? — indagou o canadiano, apontando para o recinto.
— Cinco de Toronto e três de Montreal.
Nesse minuto, Montreal marcou.
No primeiro intervalo, Gabriel retomou o assunto. Evitara conversar durante o jogo porque gostava de estar concentrado a assistir, sem distracções. Logo que os atletas recolheram aos balneários nessa primeira pausa, ele disse-lhe:
— Vou pedir ao meu advogado que te envie o contrato com as condições, a minha comissão, etc... Se estiveres de acordo com tudo, assinas e mandas novamente para ele. Assim que o nosso contrato esteja firmado, começo a tratar de te conseguir o teu sonho.
— Tenho a certeza que vais conseguir. — afirmou Jean Michel com entusiasmo.
— Não cries muitas expectativas, Jean Michel. — alertou, encarando-o sério. — Não vou prometer que consigo, isso não seria honesto contigo. Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance, tal como faço sempre com os meus agenciados.
Não voltaram a falar do assunto ao logo do resto do jogo. No final, Montreal vencera por quatro golos contra um. Como tinha outro compromisso, Gabriel nem sequer esperou pelo fim do jogo, uma vez que não lhe pareceu provável que Toronto anulasse a desvantagem. Declinou o convite para jantar e aproveitou o facto de os espectadores ainda não terem saído dos seus lugares para abandonar o Bell Centre sem a confusão de gente a circular para as saídas.
Saiu para a noite, perfazendo parte do trajecto por onde viera do hotel. A meio caminho, virou para leste, rumo à rua onde Íris vivia.
O frio era cortante, mais uma noite gelada. Mesmo assim, não era completamente desagradável andar na rua. Ou não sentia que o fosse.
Íris recebeu-o com aquele magnífico sorriso e abraçou-o com uma saudade intensa. A casa tinha um ambiente bem mais acolhedor que quando ele ali a levara para lhe mostrar o apartamento do "amigo". Talvez o facto de os balckouts estarem corridos e a tapar a vista fizesse com que a noção de espaço fosse menor e mais intimista.
Ashley apareceu logo que ele entrou. Ambas vestiam calças de ganga azul e camisolas de algodão coloridas. A inglesa tinha a mesma alegria contagiante de Íris e recebeu Gabriel com a informalidade da companheira de casa, abraçando-o.
Por uma questão de educação e consideração por Ashley, todas as conversas foram feitas em inglês.
— Quem ganhou?
— Não falemos disso, Íris.
Ashley percebeu o resultado e exclamou:
— Força, Montreal! — piscou o olho a Gabriel. — Estou a brincar. Espero que não leves a mal.
— Nada disso.
Íris caminhou até à cozinha para continuar a tratar do jantar. Ashley convidou Gabriel a sentar-se no sofá e ofereceu-se para lhe servir uma bebida. Ele recusou a oferta.
Enquanto Íris finalizava o cozinhado que, pelo cheiro, parecia ser delicioso, Ashley encarregou-se de preparar uma mesa para três pessoas. Gabriel observou a inglesa a circular de um lado para o outro, elegante, graciosa, atlética, parecia uma bailarina. Era muito bonita, percebia porque Íris se apaixonara por ela. Parecia ter uma aura de felicidade. Também era sensual, uma mulher atraente... Sem se aperceber, Gabriel olhava-a com desejo, pensando que não se importava de pagar muitos dólares se ela os quisesse receber em contrapartida de ir para a cama com ele.
Íris tinha os olhos cravados nele. O sorriso desaparecera parcialmente. Merda, ela deve ter percebido o que ele estaria a pensar ao olhar para Ashley. Os olhares de ambos cruzaram-se. Íris disfarçou e Gabriel fez de conta que não reparara.
— Estou muito feliz que tenhas vindo. — confessou Íris.
Gabriel sorriu-lhe e ela correspondeu.
— Eu também gostei que tivesses aceite o convite. — corroborou Ashley. — Sei que és um grande amigo da Íris. E os amigos da Íris são meus amigos.
Se isso te faz feliz, pensou Gabriel, a mim passa-me ao lado a tua amizade. Sabia onde iam dar as amizades com mulheres. Que o diga Rachel. E depois... Depois queriam ser mais que aquilo que ele pretendia. Sim, demonstravam querer ser o seu grande amor para depois o ferirem e o abandonarem quando descobrissem que, afinal, já não era aquela relação que queriam. Só Íris escapava porque Íris era especial e não se viam como homem e mulher, somente como amigos sinceros.
— O Gabriel é o meu melhor amigo. — afirmou Íris, pegando na taça de porcelana com os legumes que salteara. Olhou para Ashley. — Tal como tu és a minha melhor amiga.
Ashley abraçou-a, quando ela pousou a taça na mesa. Um abraço de irmãs, de melhores amigas, diferente de outros abraços que aquela sala já presenciara, abraços de amantes.
Tanto Íris como Ashley evitavam comer carne, mas tal como Gabriel descobrira quando Íris permanecera aqueles dias em sua casa, ela sabia fazer óptimos cozinhados sem carne.
Gabriel foi convidado a ocupar um dos lugares à mesa. Ashley sugeriu que ele ficasse no topo. Íris foi abrir uma garrafa de vinho. Sentaram-se todos e começaram a comer. Ele elogiou a comida.
Conversaram animados durante todo o jantar, falando de várias coisas, a Universidade, a vida em Montreal... Ashley partilhou com Gabriel coisas simples sobre a sua vida na cidade, a vinda para estudar na McGill, a sua actividade desportiva como nadadora de natação sincronizada.
— Como é que vocês se conheceram? — questionou Gabriel.
— Numa festa. — respondeu Ashley prontamente. — Amigos comuns. Conversámos. A Íris é muito boa onda. — Olhou para a amiga. — Primeiro fiquei curiosa por ser europeia como eu. Depois...
— Depois? — interrogou Íris, provocadora.
— Depois percebi que eras inteligente, conversadora e agradável.
Íris sorriu e anuiu.
— E depois o teu namorado levou-te. — atirou Íris. Tal como te leva em todas as vezes que me deixas aqui e vais ter com ele para foderem. — Desapareceste de um momento para o outro.
Gabriel percebeu os segundos sentidos, tal como Ashley que desvalorizou por pensar que ele não sabia da relação íntima delas.
— Foi tudo tão rápido. — justificou Ashley, dirigindo-se a Gabriel. — Conhecíamos muito pessoal, naquela festa. Mais o meu namorado que eu. Andávamos a falar com todos. — Olhou novamente para Íris. — Na altura, tive pena de não lhe deixar um contacto. Gostava de voltar a falar com ela. A Íris tem uma presença muito positiva, faz-nos sentir bem.
— Sim, concordo. — disse Gabriel para Íris.
— Encontrámo-nos uns tempos mais tarde. — completou Íris.
— Sim. Estudamos na mesma Universidade, isso aconteceria mais tarde ou mais cedo. E quando nos voltámos a cruzar, tornámo-nos amigas. — Ashley falava com a atenção na amiga, de tal forma que perdeu alguma noção da presença de Gabriel. — Eu gosto muito da Íris.
Mal o disse, receou ter-se denunciado. Íris gostou da declaração, mas percebendo o seu incómodo, contrapôs:
— Eu também gosto muito de ti, Íris. És a irmã que nunca tive.
Ashley atirou-lhe um beijo.
— E vocês, como se conheceram?
A pergunta de Ashley deixou Íris apreensiva, uma vez que aquela pergunta poderia encaminhar a um assunto tabu para Gabriel, Olga, a mãe de Íris. Ia para dizer algo, mas...
— Conheço a Íris desde criança. — respondeu Gabriel com naturalidade. Ele próprio se surpreendeu por o fazer. No entanto, já notara que, desde o regresso de Íris à sua vida, o assunto "Olga" parecia já não o magoar tanto. — Eu namorei a mãe da Íris há muitos anos.
— Ah... Pois... Tu também és português. — compreendeu Ashley numa daquelas constatações que estão diante dos olhos, mas só em determinado momento se tem consciência disso.
— Talvez seja melhor falar de outro assunto. — pediu Íris.
Gabriel acariciou-lhe a mão numa expressão de agradecimento.
— Não há problema. — Voltou a dirigir-se à inglesa. — Conheci a tua amiga com sete anos. Já em criança, ela era este ser maravilhoso. — Sentiu os dedos de Íris acariciarem-lhe a mão com carinho.
Ashley detectou os toques entre eles e sentiu ciúme, daí que tivesse dito:
— Então, és quase como um pai para a Íris.
Gabriel riu-se. Íris não achou tanta piada.
— Eu tenho pai, Ashley!
Ele olhou-a, revelando-lhe uma expressão de "não tem importância" e retorquiu:
— Quanto muito, um irmão mais velho.
— Talvez... — concordou Íris. — Prefiro ver-te como amigo, um grande amigo. — Olhou séria para Ashley. — Um amigo que adoro!
— Sim, percebo porque falas tanto e tão bem dele. — ripostou Ashley, dando a entender que se sentia cativada por Gabriel, para além da simpatia.
Gabriel, subitamente, deu por si no meio de uma cena de ciúmes. Largou a mão de Íris para evitar que aquilo tomasse proporções absurdas. Contudo, Íris ia dizer alguma coisa, algo para retaliar. Ele antecipou-se:
— Está a fazer-se tarde.
— Já vais? — questionou Íris, esquecendo tudo o resto. — Ainda é cedo. Fica mais um pouco.
— Vou andando, antes que fique demasiado frio.
— Estás no mesmo hotel? — Ele anuiu. Íris sorriu-lhe e brincou. — Se quiseres, podes ficar no sofá.
— O amigo dele não ia gostar. — atirou Ashley a continuar a provocar. Íris fulminou-a com o olhar. — Estou a brincar.
Íris teve vontade de dizer "ele pode ficar na tua cama, já que dormes todas as noites comigo". Estava tão irritada com Ashley, por sentir que ela causara a súbita vontade de Gabriel ir embora, que esteve a um passo de ir mais longe e sugerir "talvez preferisses que ele ficasse na tua cama e lá fosses dormir esta noite".
Gabriel levantou-se da sua cadeira. Elas copiaram-lhe o movimento.
— Vais mesmo?
Ele anuiu e despediu-se de Ashley que voltou a abraçá-lo.
— Obrigado por teres vindo. Gostei de te conhecer.
— Eu também, Ashley.
— Se voltares a passar por Montreal...
— Eu aviso... a Íris.
Ashley sorriu sedutoramente despretensiosa.
Íris acompanhou Gabriel à porta e falou em português:
— Desculpa a minha amiga. Ficou parva...
Ele sorriu-lhe.
— Não te preocupes. Ela é boa rapariga. Aproveita, Íris! Ninguém sabe o futuro...
Ela encolheu os ombros.
— Não acredito que venha a ser mais que aquilo que é.
Abraçaram-se com ternura e carinho, apertaram-se já com a saudade que iriam sentir quando se afastassem. Íris beijou-lhe a face.
— Há pouco, foi de coração, não foi para a chatear. — referiu, meio envergonhada.
— A que te referes?
— Quando disse que te adoro. — recordou, encarando-lhe o rosto. — Adoro-te mesmo! És o meu melhor amigo.
Gabriel sorriu, sentindo uma paz e uma tranquilidade rara, algo que só sentia com ela.
— Eu gosto muito de ti, Íris. E sem que isso possa parecer estranho, uma vez que é a mais pura das verdades, tu és a pessoa mais importante da minha vida. — Íris ficou surpresa. — Por isso, mesmo que te pareça distante, tu estás sempre presente. — Abanou a cabeça. — Não sou teu pai, nem teu irmão mais velho. Sou e serei sempre um amigo com quem poderás contar hoje e sempre.
A realidade que os envolvia pareceu desaparecer. Íris olhou-o nos olhos com uma profundidade muito intensa. Nem se apercebeu que continuava a abraçá-lo.
— Tudo isto parece estranho. Sempre que estou contigo, é como se não tivesse existido um dia em que não estivéssemos juntos. É inexplicável, mas também não procuro explicação. Adoro o que temos. E, acredita que, o que tenho contigo é único, não tenho com mais ninguém. — Fez um sorriso torcido. — Nem com ela. — Voltou a ficar séria. — Não sei o que é, sei que é bom. Longe ou perto, sou feliz por existires na minha vida.
Ele sentiu a pressão dos sentimentos que ela lhe expunha. Não fosse saber a sua orientação sexual e quase o poderia interpretar de outra forma. Para aligeirar o momento, abriu o sorriso e disse:
— Isso quase pareceu uma declaração de amor.
Íris sorriu, captando o tom humorado. Tornou a apertá-lo num abraço de despedida. Quando tornou a encará-lo, o semblante era sério.
— Se é possível amar os amigos, não duvides que te amo, Gabriel.
O que estava a acontecer? Gabriel olhou para a sala e viu Ashley curiosa a observá-los. Voltou a encarar Íris. Notou que ela esperava algo. Não a desiludiria.
— Eu também te amo, minha amiga!
Era o que ela queria ouvir. Um último abraço, um beijo demorado no rosto.
— Vai mandando mensagens, Gabriel.
— Combinado. — concordou, acenando um último adeus a Ashley.
Quando fechou a porta do apartamento e regressou ao open space, Íris ouviu Ashley dizer:
— Que tanto cochicharam vocês?
— Nada que te interesse. — redarguiu aborrecida.
Ashley aproximou-se dela.
— Que foi?
— Aquela conversa de pai, irmão... Deixaste-o desconfortável.
— Se não te conhecesse, ia pensar que estavas interessada nele. — rosnou a inglesa. — És tão melosa com ele.
— É meu amigo.
— Tem idade para ser teu pai.
— Voltas a dizer isso e levas um estalo. — avisou Íris, furiosa.
A resposta de Ashley foi uma bofetada na cara de Íris.
— Desculpa, desculpa, desculpa... — pediu Ashley, perante o ar magoado e surpreendido de Íris. — Foi sem querer, eu não queria... — Tentou abraçá-la.
Íris empurrou-a para longe, segurando as lágrimas. Ashley bateu contra o balcão e aleijou-se, mas não se queixou.
— Tu bateste-me?! — Uma lágrima escorreu-lhe pela face. — Tu bateste-me?!
— Por favor, Íris, desculpa! Tu ameaçaste-me...
— Achas que te daria mesmo um estalo?
Ashley voltou a tentar aproximar-se e conseguiu abraçá-la.
— Desculpa, meu amor. Eu amo-te, Íris! Não sei o que me passou pela cabeça.
Aos poucos, a inglesa foi quebrando a resistência de Íris, tocando lhe a face com os lábios, lambendo-lhe as lágrimas até se beijarem com paixão.
Quando parecia completamente vencida e capaz de perdoar, Íris travou os beijos e encostou Ashley ao balcão, segurando-lhe o queixo. Cravou-lhe as amêndoas zangadas no seu rosto.
— Se mais alguma vez ousares levantar-me a mão, ponho-te na rua, Ashley.
O semblante de Ashley era vulnerável, defensivo.
— Pensei que ias dizer que, se te voltasse a bater, estava tudo acabado entre nós.
— Está implícito, Ashley. Acho que não preciso de o dizer.
— Mas devias. — insistiu. — Porque eu passo bem sem viver aqui ou tão perto da Universidade. Mas, não suporto a ideia de te perder.
Íris ficou desarmada.
— Vamos esquecer que isto aconteceu.
— Íris, eu...
Íris não a deixou dizer nada e voltou a beijá-la.
Tinha saudades dela, das conversas, da companhia, do sexo... Podia pegar no telefone e ligar-lhe, mas ela estava longe e não valia a pena prolongar algo que não tinha pernas para andar. Nada como aproveitar o afastamento dela para também se afastar.
Nessa noite, não quis ficar sozinho. Já lá ia cerca de uma semana em solidão e angústia. Era para combater aquilo que tinha a lista de dez nomes. Escolheu um e combinou uma visita lá a casa.
A eleita fora a ruiva, a tal que ele encontrara casualmente a sair do hotel na King Street, em finais do Verão, quando teve a reunião com os dirigentes dos Maple Leafs acerca da colocação de Tiivu. Que bestas que aqueles tipos eram. Se não lhe tivessem dado ouvidos, a equipa tinha menos vinte e quatro golos, os que Tiivu já marcara nesta temporada.
A ruiva chegou pontualmente à hora combinada. Mal passou a porta, despiu o longo casaco que a protegera do frio exterior. Não eram mulheres que andassem de transportes públicos colectivos, usualmente movimentavam-se em Ubers. Ela, tal como as outras nove, já o conheciam bem, sabiam como ele gostava de as ver, as saias curtas, as camisolas decotadas. Nunca o desiludiam.
Gabriel recebeu-a com um abraço e beijou-a com desejo. A ruiva protagonizava o seu papel na perfeição. Era a vantagem de pagar a profissionais de sexo, elas faziam tudo o que ele quisesse, representavam os papéis que ele desejasse. Gabriel era exigente na cama, mas no resto... Elas não precisavam de chegar a simular que o queriam loucamente, bastava serem sensuais, ardentes e luxuriantes.
Quando a encaminhava para o quarto, o telemóvel de Gabriel tocou. Olhou para o ecrã e viu o nome de Íris. Não era um telefonema, era uma videochamada.
— Vai andando para o quarto. Já lá vou ter.
A ruiva prosseguiu obediente para onde ele a mandou.
Gabriel atendeu, apontando o aparelho para si. No ecrã, surgiu a imagem de Íris sentada no sofá, sorridente com aquela expressão feliz tão característica.
— Já estavas a dormir? — perguntou divertida.
— Achas que pareço alguém que estava a dormir? — Gabriel sentou-se no sofá. — Como estás, Arco-íris?
— Bem.
— Que se passa?
— Desculpa ligar-te assim tarde. — lamentou, passando distraidamente a mão no cabelo, penteando-se. — Vi há pouco que a equipa de hóquei de Toronto, os... Monsters Kings?
Gabriel soltou uma gargalha.
— Maple Leafs.
— Isso. — confirmou, envergonhada. — Desculpa, eu e o desporto... — Encolheu os ombros. — Vi que vêm jogar a Montreal. Por acaso vens ver o jogo?
Não tinha pensado nisso. Nem sequer reparara no calendário que se aproximava o confronto entre rivais. Normalmente, ele iria assistir. Naquele ano, essa possibilidade passou-lhe ao lado. Teria sido o seu inconsciente a distraí-lo por causa de Íris estar a viver lá?
— Não sei. Porquê? — Gabriel atirou-lhe uma expressão humorada. — Queres ir ver o jogo?
— Não, obrigado. — recusou. — Já vi resumos. Aquilo é de uma violência...
— Eles não se aleijam. Já viste aqueles fatos? Estão bem protegidos.
— Seja como for. A questão é a seguinte. Pensei que, se viesses, podias vir visitar-me. Que dizes?
— Não está mal pensado. — respondeu, disfarçando o incómodo. — Vou ver se dá para ir. Se for, aviso-te.
Nesse momento, Íris desviou a atenção do ecrã e falou em inglês para quem estava com ela em casa. Gabriel percebeu que Ashley estava presente. Íris dizia-lhe que estava a falar com o seu amigo Gabriel e chamava-a para se aproximar.
— Vais conhecer a Ashley. Ela não sabe que tu sabes de nós, está bem? — alertou, voltando ao português.
— Podes ficar descansada.
Então, era esse o motivo da videochamada, apresentar-lhe a mulher por quem estava apaixonada.
Ashley apareceu no enquadramento do ecrã. Gabriel achou-a muito bonita, não havia dúvida que faziam um belo par. Tal como Íris, Ashley aparentava ser igualmente cativante, revelou-se sorridente e expressiva. Acenou-lhe e cumprimentou-o com um "olá senhor Gabriel".
— Não o trates por “senhor”. — corrigiu Íris, novamente em inglês.
No mesmo idioma, Gabriel disse:
— Sim, Ashley, tira o senhor. É só Gabriel. Prazer em conhecer-te.
— Obrigado por teres convencido o teu amigo a alugar-me o outro quarto.
Gabriel fez um gesto a desvalorizar, como se fosse algo sem importância.
— Estás a gostar de viver aí?
— É óptimo estar tão perto da Universidade. — Olhou para Íris, denunciando os reais sentimentos que tinha por ela. — E a minha colega de casa também é uma excelente companhia.
O rosto de Íris dizia tudo a respeito de como era bom tê-la ali. Porém, desviou a conversa para o assunto inicial.
— Estava a convidar o Gabriel para nos visitar, se viesse ver a equipa de Toronto.
— Os Raptors? — interrogou Ashley com estranheza.
— Quem? — ripostou Íris.
— Não Ashley, não é basquetebol, é hóquei. — respondeu Gabriel. — Toronto vai jogar a Montreal daqui a uns dias.
— E estava a convidar o Gabriel para nos vir visitar.
— É uma óptima ideia. — concordou a inglesa. — Podias vir jantar connosco. Quer dizer, não sei a que horas é o jogo...
Gabriel fez de conta que olhava para o relógio.
— Depois digo-te alguma coisa, Arco-íris. Gostei de te conhecer, Ashley.
— Igualmente. — retorquiu, piscando-lhe o olho e saindo do enquadramento.
Novamente em português, Íris questionou:
— Que achaste dela?
— Vocês fazem um casal bonito. — elogiou ele para grande satisfação de Íris. — Espero que esteja sempre à tua altura.
Íris encolheu os ombros.
— Já te falei sobre isso. Sei o que temos. É aproveitar enquanto dura.
— Depois digo-te alguma coisa em relação ao jogo.
— Ok, Gabriel. Faz um esforço. Ia gostar muito que nos viesses visitar.
Ele anuiu.
— Beijinhos, Arco-íris. Gosto muito de ti.
Aquilo saiu-lhe sem pensar. Íris não duvidaria do grande carinho que ele tinha por ela, mas era raro ele verbalizá-lo.
— Eu também gosto muito de ti, Gabriel. Beijinho grande.
E desligaram.
Gabriel ficou alguns instantes a olhar para o ecrã apagado. Como se analisasse as últimas frases. Acabou por não pensar muito nisso, uma vez que tinha uma prostituta à sua espera na cama.
Ao entrar no quarto, a ruiva encontrava-se estendida no colchão, nua, de olhos fechados. Para surpresa dele, ela adormecera enquanto o esperava. Teria demorado assim tanto? Ela dormia tranquilamente, em paz. Percebeu a confiança que tinha nele para se deixar adormecer.
Gabriel riu-se para si mesmo. Estava a pagar para ela dormir? Qualquer um dos dez nomes da sua lista eram mulheres fenomenais, soberbas e competentes. Não tinha mal nenhum que tivesse adormecido. Sem fazer barulho, despiu-se por completo e deitou-se a seu lado. Não tinha intenções de a acordar. Gabriel atravessava uma fase em que, mais que sexo, ele não queria era estar sozinho.
Ao deitar-se, a ruiva deu por ele e abriu os olhos. Fez uma expressão confusa e depois consciencializou-se que se deixara dormir.
— Oh... Desculpa, Gabriel! Eu...
— Deixa-te estar. — descansou-a com um sorriso afável. — Não há problema.
Ela elevou-se na cama.
— Não me pagas para eu dormir.
— Também. — corrigiu, demonstrando que não estava minimamente aborrecido. — Já temos dormido juntos.
A ruiva ofereceu-lhe um sorriso terno.
— És um homem maravilhoso, Gabriel. E não o digo por estares a pagar e seres um excelente cliente. Estou a ser sincera.
— Se estiveres cansada, não há problema.
— Não sejas parvo. — refutou, elevando-se mais e empurrando-o para trás. Olhou para a cintura dele. — Além disso, o teu "amigo" não parece concordar contigo.
— Esse gajo é um traidor. — reclamou ele com humor.
Ela deu-lhe um beijo terno nos lábios, uma espécie de agradecimento por Gabriel ser como é. A seguir, deslizou pelo corpo dele e começou a trabalhar.
A ideia de ir visitar Íris a Montreal era atraente, ele gostaria muito de estar novamente com ela. Desde o primeiro dia do ano que não estavam juntos e ele tinha saudades dela. Gabriel não tinha, nem queria amigos, mas Íris era uma pessoa muito especial na sua vida, uma amiga de quem ele gostava muito, alguém com quem tinha uma forte ligação, algo tão inexplicável. Sim, ele não conseguia explicar o que partilhavam. Íris poderia ser sua filha, apesar de nunca se terem olhado como pai e filha. Gabriel via-a mais como uma irmã mais nova, uma amiga de uma geração mais recente. Na vida, há coisas que não se explicam, pura e simplesmente aceitamo-las ou rechaçamo-las. A empatia que sempre tiveram não se explicava. Havia algo forte que os unia, isso ele não tinha dúvidas. Não era uma ligação de homem e mulher, era algo mais transcendental que isso. Só assim se poderia explicar, se é que existe explicação, a ligação que os fez reaproximarem-se tão facilmente quando ela o contactou pela primeira vez por email. Era quase como se ela tivesse crescido consigo, a pequena Íris, o arco-íris.
Contudo, Gabriel sabia o quão amargurado ficava após cada despedida. Também não o sabia explicar. Era dolorosa a sensação que lhe ficava na alma, quando se afastavam. Acontecera quando Íris partira para Montreal, acontecera quando ela regressara à cidade, após a passagem de ano. Nem Rachel, com quem tinha uma relação complicada, mas que era o mais próximo que tinha de uma amiga, lhe deixava tamanha tristeza a cada separação.
Ainda estava indeciso na decisão a tomar, na manhã em que chegou ao escritório. Francis tinha um recado para ele.
— Quem? — questionou Gabriel.
— Jean Michel, um jogador de futebol americano. — explicou Francis. — Conheces? Não é da NFL, é do campeonato canadiano. Pediu para falar contigo, se lhe podias ligar para falarem sobre a carreira dele.
— A carreira dele? Não deve ser lá grande coisa, se nunca ouvi falar nele.
— Que queres fazer?
— Liga para ele e passa-me a chamada. Se calhar é o novo Brady. — Era evidente o tom sarcástico. — Sabes alguma coisa sobre ele?
— Só que joga em Montreal porque me disse. É quarterback.
— Estás a ver? — insistiu no mesmo tom. — Se calhar é mesmo o novo Tom Brady.
Ao contrário do que acontece noutros desportos, na NFL, o campeonato profissional de futebol americano, não há equipas sediadas fora dos Estados Unidos. As equipas canadianas de futebol americano jogam um campeonato próprio, só com equipas do Canadá.
Enquanto a NFL era um campeonato que envolvia biliões de dólares, tinha os melhores e mais ricos jogadores do mundo e continuava a ter o evento de maior audiência mundial, o Superbowl, o campeonato canadiano não tinha qualquer expressão.
Apesar de Gabriel já ter representado jogadores da NFL e ter feito grandes contratos, não era o desporto onde movimentava mais activos, sendo mesmo raros os negócios que tivessem o seu dedo. Para ele, representar um jogador de futebol americano do campeonato do Canadá tinha menos interesse que zero. Porém, Gabriel tinha a sua reputação, poderia recusar representar qualquer um, mas recusar-se a atender alguém não seria correcto.
Sendo assim, foi para o seu gabinete esperar que Francis fizesse a ligação. Quando atendeu o telefonema, a voz que falou consigo tinha um sotaque francófono, inglês do Quebec, inglês de quem diariamente fala francês. Jean Michel era quarterback dos Alouettes de Montreal. Explicou a Gabriel que o seu contrato com o agente que o representava ia acabar e que não pretendia continuar com a parceria, uma vez que sentia que o indivíduo nunca lhe encontraria o caminho para os seus sonhos. O seu grande sonho era jogar na NFL, em qualquer equipa. E tinha a certeza de que Gabriel era o homem certo para o ajudar.
Ele ouviu-o com atenção e receptividade, ao mesmo tempo que pensava se o indivíduo teria potencial para ser mais que um suplente do suplente do quarterback titular de qualquer uma das trinta e duas equipas da NFL. Numa tentativa de o demover, informou-o que não costumava fazer muitos negócios no futebol americano. Porém, Jean Michel estava bem informado e lembrou-o de um dos seus mais bem remunerados contratos na modalidade.
— Vou dar uma olhadela aos teus jogos, Jean Michel. Ver uns resumos, ver o teu potencial. Se quiseres passar por Toronto, podemos reunir e conversar sobre isso no meu escritório.
A resposta de Jean Michel foi:
— Gostas de hóquei?
— Sim, gosto. — confirmou Gabriel, sem perceber onde ele queria chegar.
— Toronto vem jogar ao Bell Centre. Eu tenho lá um camarote. Que dizes a vir ver o jogo comigo a Montreal? Podemos conversar nessa altura.
O destino parecia conspirar para que ele fosse a Montreal.
— Tenho de ver a minha agenda. Depois digo-te alguma coisa.
Francis arranjou-lhe alguns links do Youtube com jogos dos Alouettes. Para surpresa de Gabriel, ficou impressionado com as capacidades de Jean Michel. Os agentes desportivos de futebol americano deveriam andar muito distraídos. Que andava Jean Michel a fazer na CFL?
Acabou por confirmar os dois convites que tinha para Montreal, iria ver o jogo ao Bell Centre e jantar a casa de Íris.
O frio ainda era uma realidade em Toronto, mas a neve desaparecera e já só se viam resquícios dela na cidade. Em Montreal, o frio era mais intenso e a neve ainda marcava presença.
Gabriel viajou de avião em primeira classe, como sempre, e chegou a Montreal ao início da tarde. O serviço de transporte com motorista privado que contratara levou-o do aeroporto até ao Ritz-Carlton, o hotel onde reservava quarto quando ia àquela cidade.
O Bell Centre era a maior arena de hóquei no gelo do Mundo com capacidade para mais de vinte e um mil espectadores. Corriam rumores que em breve deixaria de o ser, uma vez que existiam projectos de construção de duas arenas ainda maiores, uma em São Petersburgo e outra em Frankfurt. Gabriel fez o trajecto entre o hotel e a arena a pé. Estava frio, mas não chovia e a caminhada não lhe levaria muito mais que dez minutos, era só seguir a direito pela Rue Drummond.
Os adeptos trajados com as cores dos clubes já se encaminhavam para o pavilhão, quando ele atravessou a Avenue des Canadiens de Montreal. Caminhou pela praça frontal às entradas, um lugar com estátuas de homenagem aos mais consagrados jogadores dos Canadiens e uma parede com placas alusivas aos vinte e quatro títulos na Stanley Cup. Os Montreal Canadiens eram a equipa com mais títulos da NHL, sendo a segunda os Maple Leafs de Toronto com menos onze títulos.
Gabriel entrou pelo acesso VIP e ligou a Jean Michel que lhe indicou onde o encontrava. Gabriel viu algumas caras conhecidas, gente do meio desportivo, agentes como ele, antigos jogadores... Alguns pararam para conversar, mas ele não se demorou muito com eles.
O camarote era mais modesto que o seu no ScotiaBank Arena, uma área privada com meia dúzia de cadeiras. Jean Michel era um homem com quase dois metros de altura, robusto como um armário sem deixar de parecer esguio. Moreno, cabelo aos caracóis e um rosto simpático. Tinha vinte e poucos anos. Quando Gabriel entrou no camarote, Jean Michel saltou da cadeira e cumprimentou-o com um aperto de mão vigoroso.
Os lugares começavam a ficar compostos. Os bilhetes estariam certamente todos vendidos. Na pista de gelo, os jogadores de ambas as equipas faziam exercícios de aquecimento, patinando e executando passes e remates.
— Obrigado por teres vindo, Gabriel.
— Obrigado pelo convite para o jogo.
— Calculo que sejas adepto dos Maple Leafs. — Gabriel anuiu. Jean Michel falou num tom quase de culpa. — Eu sou um Canadien. — Convidou-o a sentar-se na cadeira ao lado da sua. — Não sabia que os agentes desportivos tinham clube.
A provocação não passava de uma tentativa de quebrar o gelo e fazer assunto.
— Toda a gente que anda no desporto tem clube. O segredo é não deixar a clubite prejudicar os negócios. És adepto dos Montreal Canadiens. Se fosses hoquista e te oferecessem um bom contrato para jogares em Toronto, não ias?
— Claro que ia.
— E ganharias mais vezes. — atirou em resposta, revelando boa disposição. Sentou-se com o olhar no recinto. — Já tive oportunidade de visionar alguns dos teus jogos.
— E?
— Como é que está a situação com o teu empresário?
— A prestação de serviços dele termina este mês.
— Estou a ponderar representar-te. — partilhou no momento em que os atletas regressavam aos balneários. — Mas, só depois de assinarmos contrato e o teu actual empresário já não ter nada a ver contigo.
— Algo me diz que viste potencial na olhadela que deste aos meus jogos.
— Se achasse que não tinhas potencial, não estaria aqui. — retorquiu Gabriel, no instante em que as luzes diminuíram e os jogadores foram apresentados com a tradicional espectacularidade do início do evento. — Mas, não te vou enganar, é muito complicado arranjar-te sequer um contrato, quanto mais um bom contrato.
— Eu sei. Tenho fé em ti.
— A NFL tem tradições, olham principalmente para os jogadores que vêm do campeonato universitário. Tu vens de fora dos Estados Unidos. Percebes?
— Sim, percebo onde queres chegar, Gabriel.
A música ecoou com enorme sonoridade, tornando-se quase ensurdecedora, para a apresentação dos jogadores da equipa da casa. Ambos ficaram a olhar para o gelo. O som diminuiu e as luzes voltaram ao normal para que os hoquistas tomassem as suas posições em campo e o jogo começasse.
— Eu sei que é difícil, Gabriel. — continuou Jean Michel. — Mas, tu sentes que é possível conseguires-me esse contrato. Caso contrário não estávamos aqui.
Gabriel não disse nada, limitando-se a assistir ao jogo. As oportunidades sucediam-se para ambos os lados, mas ninguém conseguia marcar um golo.
— Quantos representas? — indagou o canadiano, apontando para o recinto.
— Cinco de Toronto e três de Montreal.
Nesse minuto, Montreal marcou.
No primeiro intervalo, Gabriel retomou o assunto. Evitara conversar durante o jogo porque gostava de estar concentrado a assistir, sem distracções. Logo que os atletas recolheram aos balneários nessa primeira pausa, ele disse-lhe:
— Vou pedir ao meu advogado que te envie o contrato com as condições, a minha comissão, etc... Se estiveres de acordo com tudo, assinas e mandas novamente para ele. Assim que o nosso contrato esteja firmado, começo a tratar de te conseguir o teu sonho.
— Tenho a certeza que vais conseguir. — afirmou Jean Michel com entusiasmo.
— Não cries muitas expectativas, Jean Michel. — alertou, encarando-o sério. — Não vou prometer que consigo, isso não seria honesto contigo. Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance, tal como faço sempre com os meus agenciados.
Não voltaram a falar do assunto ao logo do resto do jogo. No final, Montreal vencera por quatro golos contra um. Como tinha outro compromisso, Gabriel nem sequer esperou pelo fim do jogo, uma vez que não lhe pareceu provável que Toronto anulasse a desvantagem. Declinou o convite para jantar e aproveitou o facto de os espectadores ainda não terem saído dos seus lugares para abandonar o Bell Centre sem a confusão de gente a circular para as saídas.
Saiu para a noite, perfazendo parte do trajecto por onde viera do hotel. A meio caminho, virou para leste, rumo à rua onde Íris vivia.
O frio era cortante, mais uma noite gelada. Mesmo assim, não era completamente desagradável andar na rua. Ou não sentia que o fosse.
Íris recebeu-o com aquele magnífico sorriso e abraçou-o com uma saudade intensa. A casa tinha um ambiente bem mais acolhedor que quando ele ali a levara para lhe mostrar o apartamento do "amigo". Talvez o facto de os balckouts estarem corridos e a tapar a vista fizesse com que a noção de espaço fosse menor e mais intimista.
Ashley apareceu logo que ele entrou. Ambas vestiam calças de ganga azul e camisolas de algodão coloridas. A inglesa tinha a mesma alegria contagiante de Íris e recebeu Gabriel com a informalidade da companheira de casa, abraçando-o.
Por uma questão de educação e consideração por Ashley, todas as conversas foram feitas em inglês.
— Quem ganhou?
— Não falemos disso, Íris.
Ashley percebeu o resultado e exclamou:
— Força, Montreal! — piscou o olho a Gabriel. — Estou a brincar. Espero que não leves a mal.
— Nada disso.
Íris caminhou até à cozinha para continuar a tratar do jantar. Ashley convidou Gabriel a sentar-se no sofá e ofereceu-se para lhe servir uma bebida. Ele recusou a oferta.
Enquanto Íris finalizava o cozinhado que, pelo cheiro, parecia ser delicioso, Ashley encarregou-se de preparar uma mesa para três pessoas. Gabriel observou a inglesa a circular de um lado para o outro, elegante, graciosa, atlética, parecia uma bailarina. Era muito bonita, percebia porque Íris se apaixonara por ela. Parecia ter uma aura de felicidade. Também era sensual, uma mulher atraente... Sem se aperceber, Gabriel olhava-a com desejo, pensando que não se importava de pagar muitos dólares se ela os quisesse receber em contrapartida de ir para a cama com ele.
Íris tinha os olhos cravados nele. O sorriso desaparecera parcialmente. Merda, ela deve ter percebido o que ele estaria a pensar ao olhar para Ashley. Os olhares de ambos cruzaram-se. Íris disfarçou e Gabriel fez de conta que não reparara.
— Estou muito feliz que tenhas vindo. — confessou Íris.
Gabriel sorriu-lhe e ela correspondeu.
— Eu também gostei que tivesses aceite o convite. — corroborou Ashley. — Sei que és um grande amigo da Íris. E os amigos da Íris são meus amigos.
Se isso te faz feliz, pensou Gabriel, a mim passa-me ao lado a tua amizade. Sabia onde iam dar as amizades com mulheres. Que o diga Rachel. E depois... Depois queriam ser mais que aquilo que ele pretendia. Sim, demonstravam querer ser o seu grande amor para depois o ferirem e o abandonarem quando descobrissem que, afinal, já não era aquela relação que queriam. Só Íris escapava porque Íris era especial e não se viam como homem e mulher, somente como amigos sinceros.
— O Gabriel é o meu melhor amigo. — afirmou Íris, pegando na taça de porcelana com os legumes que salteara. Olhou para Ashley. — Tal como tu és a minha melhor amiga.
Ashley abraçou-a, quando ela pousou a taça na mesa. Um abraço de irmãs, de melhores amigas, diferente de outros abraços que aquela sala já presenciara, abraços de amantes.
Tanto Íris como Ashley evitavam comer carne, mas tal como Gabriel descobrira quando Íris permanecera aqueles dias em sua casa, ela sabia fazer óptimos cozinhados sem carne.
Gabriel foi convidado a ocupar um dos lugares à mesa. Ashley sugeriu que ele ficasse no topo. Íris foi abrir uma garrafa de vinho. Sentaram-se todos e começaram a comer. Ele elogiou a comida.
Conversaram animados durante todo o jantar, falando de várias coisas, a Universidade, a vida em Montreal... Ashley partilhou com Gabriel coisas simples sobre a sua vida na cidade, a vinda para estudar na McGill, a sua actividade desportiva como nadadora de natação sincronizada.
— Como é que vocês se conheceram? — questionou Gabriel.
— Numa festa. — respondeu Ashley prontamente. — Amigos comuns. Conversámos. A Íris é muito boa onda. — Olhou para a amiga. — Primeiro fiquei curiosa por ser europeia como eu. Depois...
— Depois? — interrogou Íris, provocadora.
— Depois percebi que eras inteligente, conversadora e agradável.
Íris sorriu e anuiu.
— E depois o teu namorado levou-te. — atirou Íris. Tal como te leva em todas as vezes que me deixas aqui e vais ter com ele para foderem. — Desapareceste de um momento para o outro.
Gabriel percebeu os segundos sentidos, tal como Ashley que desvalorizou por pensar que ele não sabia da relação íntima delas.
— Foi tudo tão rápido. — justificou Ashley, dirigindo-se a Gabriel. — Conhecíamos muito pessoal, naquela festa. Mais o meu namorado que eu. Andávamos a falar com todos. — Olhou novamente para Íris. — Na altura, tive pena de não lhe deixar um contacto. Gostava de voltar a falar com ela. A Íris tem uma presença muito positiva, faz-nos sentir bem.
— Sim, concordo. — disse Gabriel para Íris.
— Encontrámo-nos uns tempos mais tarde. — completou Íris.
— Sim. Estudamos na mesma Universidade, isso aconteceria mais tarde ou mais cedo. E quando nos voltámos a cruzar, tornámo-nos amigas. — Ashley falava com a atenção na amiga, de tal forma que perdeu alguma noção da presença de Gabriel. — Eu gosto muito da Íris.
Mal o disse, receou ter-se denunciado. Íris gostou da declaração, mas percebendo o seu incómodo, contrapôs:
— Eu também gosto muito de ti, Íris. És a irmã que nunca tive.
Ashley atirou-lhe um beijo.
— E vocês, como se conheceram?
A pergunta de Ashley deixou Íris apreensiva, uma vez que aquela pergunta poderia encaminhar a um assunto tabu para Gabriel, Olga, a mãe de Íris. Ia para dizer algo, mas...
— Conheço a Íris desde criança. — respondeu Gabriel com naturalidade. Ele próprio se surpreendeu por o fazer. No entanto, já notara que, desde o regresso de Íris à sua vida, o assunto "Olga" parecia já não o magoar tanto. — Eu namorei a mãe da Íris há muitos anos.
— Ah... Pois... Tu também és português. — compreendeu Ashley numa daquelas constatações que estão diante dos olhos, mas só em determinado momento se tem consciência disso.
— Talvez seja melhor falar de outro assunto. — pediu Íris.
Gabriel acariciou-lhe a mão numa expressão de agradecimento.
— Não há problema. — Voltou a dirigir-se à inglesa. — Conheci a tua amiga com sete anos. Já em criança, ela era este ser maravilhoso. — Sentiu os dedos de Íris acariciarem-lhe a mão com carinho.
Ashley detectou os toques entre eles e sentiu ciúme, daí que tivesse dito:
— Então, és quase como um pai para a Íris.
Gabriel riu-se. Íris não achou tanta piada.
— Eu tenho pai, Ashley!
Ele olhou-a, revelando-lhe uma expressão de "não tem importância" e retorquiu:
— Quanto muito, um irmão mais velho.
— Talvez... — concordou Íris. — Prefiro ver-te como amigo, um grande amigo. — Olhou séria para Ashley. — Um amigo que adoro!
— Sim, percebo porque falas tanto e tão bem dele. — ripostou Ashley, dando a entender que se sentia cativada por Gabriel, para além da simpatia.
Gabriel, subitamente, deu por si no meio de uma cena de ciúmes. Largou a mão de Íris para evitar que aquilo tomasse proporções absurdas. Contudo, Íris ia dizer alguma coisa, algo para retaliar. Ele antecipou-se:
— Está a fazer-se tarde.
— Já vais? — questionou Íris, esquecendo tudo o resto. — Ainda é cedo. Fica mais um pouco.
— Vou andando, antes que fique demasiado frio.
— Estás no mesmo hotel? — Ele anuiu. Íris sorriu-lhe e brincou. — Se quiseres, podes ficar no sofá.
— O amigo dele não ia gostar. — atirou Ashley a continuar a provocar. Íris fulminou-a com o olhar. — Estou a brincar.
Íris teve vontade de dizer "ele pode ficar na tua cama, já que dormes todas as noites comigo". Estava tão irritada com Ashley, por sentir que ela causara a súbita vontade de Gabriel ir embora, que esteve a um passo de ir mais longe e sugerir "talvez preferisses que ele ficasse na tua cama e lá fosses dormir esta noite".
Gabriel levantou-se da sua cadeira. Elas copiaram-lhe o movimento.
— Vais mesmo?
Ele anuiu e despediu-se de Ashley que voltou a abraçá-lo.
— Obrigado por teres vindo. Gostei de te conhecer.
— Eu também, Ashley.
— Se voltares a passar por Montreal...
— Eu aviso... a Íris.
Ashley sorriu sedutoramente despretensiosa.
Íris acompanhou Gabriel à porta e falou em português:
— Desculpa a minha amiga. Ficou parva...
Ele sorriu-lhe.
— Não te preocupes. Ela é boa rapariga. Aproveita, Íris! Ninguém sabe o futuro...
Ela encolheu os ombros.
— Não acredito que venha a ser mais que aquilo que é.
Abraçaram-se com ternura e carinho, apertaram-se já com a saudade que iriam sentir quando se afastassem. Íris beijou-lhe a face.
— Há pouco, foi de coração, não foi para a chatear. — referiu, meio envergonhada.
— A que te referes?
— Quando disse que te adoro. — recordou, encarando-lhe o rosto. — Adoro-te mesmo! És o meu melhor amigo.
Gabriel sorriu, sentindo uma paz e uma tranquilidade rara, algo que só sentia com ela.
— Eu gosto muito de ti, Íris. E sem que isso possa parecer estranho, uma vez que é a mais pura das verdades, tu és a pessoa mais importante da minha vida. — Íris ficou surpresa. — Por isso, mesmo que te pareça distante, tu estás sempre presente. — Abanou a cabeça. — Não sou teu pai, nem teu irmão mais velho. Sou e serei sempre um amigo com quem poderás contar hoje e sempre.
A realidade que os envolvia pareceu desaparecer. Íris olhou-o nos olhos com uma profundidade muito intensa. Nem se apercebeu que continuava a abraçá-lo.
— Tudo isto parece estranho. Sempre que estou contigo, é como se não tivesse existido um dia em que não estivéssemos juntos. É inexplicável, mas também não procuro explicação. Adoro o que temos. E, acredita que, o que tenho contigo é único, não tenho com mais ninguém. — Fez um sorriso torcido. — Nem com ela. — Voltou a ficar séria. — Não sei o que é, sei que é bom. Longe ou perto, sou feliz por existires na minha vida.
Ele sentiu a pressão dos sentimentos que ela lhe expunha. Não fosse saber a sua orientação sexual e quase o poderia interpretar de outra forma. Para aligeirar o momento, abriu o sorriso e disse:
— Isso quase pareceu uma declaração de amor.
Íris sorriu, captando o tom humorado. Tornou a apertá-lo num abraço de despedida. Quando tornou a encará-lo, o semblante era sério.
— Se é possível amar os amigos, não duvides que te amo, Gabriel.
O que estava a acontecer? Gabriel olhou para a sala e viu Ashley curiosa a observá-los. Voltou a encarar Íris. Notou que ela esperava algo. Não a desiludiria.
— Eu também te amo, minha amiga!
Era o que ela queria ouvir. Um último abraço, um beijo demorado no rosto.
— Vai mandando mensagens, Gabriel.
— Combinado. — concordou, acenando um último adeus a Ashley.
Quando fechou a porta do apartamento e regressou ao open space, Íris ouviu Ashley dizer:
— Que tanto cochicharam vocês?
— Nada que te interesse. — redarguiu aborrecida.
Ashley aproximou-se dela.
— Que foi?
— Aquela conversa de pai, irmão... Deixaste-o desconfortável.
— Se não te conhecesse, ia pensar que estavas interessada nele. — rosnou a inglesa. — És tão melosa com ele.
— É meu amigo.
— Tem idade para ser teu pai.
— Voltas a dizer isso e levas um estalo. — avisou Íris, furiosa.
A resposta de Ashley foi uma bofetada na cara de Íris.
— Desculpa, desculpa, desculpa... — pediu Ashley, perante o ar magoado e surpreendido de Íris. — Foi sem querer, eu não queria... — Tentou abraçá-la.
Íris empurrou-a para longe, segurando as lágrimas. Ashley bateu contra o balcão e aleijou-se, mas não se queixou.
— Tu bateste-me?! — Uma lágrima escorreu-lhe pela face. — Tu bateste-me?!
— Por favor, Íris, desculpa! Tu ameaçaste-me...
— Achas que te daria mesmo um estalo?
Ashley voltou a tentar aproximar-se e conseguiu abraçá-la.
— Desculpa, meu amor. Eu amo-te, Íris! Não sei o que me passou pela cabeça.
Aos poucos, a inglesa foi quebrando a resistência de Íris, tocando lhe a face com os lábios, lambendo-lhe as lágrimas até se beijarem com paixão.
Quando parecia completamente vencida e capaz de perdoar, Íris travou os beijos e encostou Ashley ao balcão, segurando-lhe o queixo. Cravou-lhe as amêndoas zangadas no seu rosto.
— Se mais alguma vez ousares levantar-me a mão, ponho-te na rua, Ashley.
O semblante de Ashley era vulnerável, defensivo.
— Pensei que ias dizer que, se te voltasse a bater, estava tudo acabado entre nós.
— Está implícito, Ashley. Acho que não preciso de o dizer.
— Mas devias. — insistiu. — Porque eu passo bem sem viver aqui ou tão perto da Universidade. Mas, não suporto a ideia de te perder.
Íris ficou desarmada.
— Vamos esquecer que isto aconteceu.
— Íris, eu...
Íris não a deixou dizer nada e voltou a beijá-la.