Capítulo XVII
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Soube bem o calor no interior do hotel. Gabriel entrou no luxuoso átrio, grato por sair do frio intenso da noite de Montreal. Enquanto subia no elevador, olhou para as horas e fez um cálculo mental. Em Seattle eram menos três horas, ainda não era demasiado tarde. Saiu para o corredor e caminhou até ao seu quarto. Entrou a procurar o nome de Rachel nos contactos, o que era simples, pois estava nos favoritos. Fechou a porta ao mesmo tempo que clicou no botão verde no ecrã.
Ouviu o som compassado de chamar, o qual se repetiu até passar para o voicemail. Desligou e voltou a tentar. Novamente a chamar sem que ninguém atendesse e indo parar de novo ao voicemail. Rachel deveria estar ocupada. Certamente que lhe devolveria a chamada quando pudesse.
No entanto, Rachel não lhe ligou nessa noite. Gabriel voltou a Toronto na manhã seguinte. Não foi ao escritório no Bay Adelaide e seguiu do Pearson International Airport directamente para casa. Alguns minutos depois de entrar no seu apartamento, voltou a tentar telefonar a Rachel. Desta vez, não foi parar ao voicemail, a chamada fora rejeitada por ela. Gabriel estranhou a atitude, mas voltou a justificar para si que ela estaria ocupada. Ia para enviar uma mensagem, quando o aparelho tocou. Não era Rachel, era Íris.
— Olá, Arco-íris! Recebeste a minha mensagem?
— Olá, Gabriel! Sim, a dizeres que já tinhas chegado a Toronto.
Houve algo na voz de Íris que o deixou apreensivo.
— Estás bem?
— Mais ou menos.
— Que se passa?
— Eu e a Ashley discutimos, ontem à noite, depois de ires embora.
Gabriel não ficou surpreendido, reparara no semblante da inglesa quando estava a sair de casa delas, tinha ciúme nos olhos.
— Que aconteceu?
— A parva ficou com ciúmes. Enfim... deve querer que seja só ela a ser minha amiga.
— Vê pelo lado positivo, onde há ciúme há amor.
Íris riu-se no outro lado da linha.
— Sim. Não posso dizer que não tenha gostado da reconciliação.
Não referiu a agressão, não era assunto para contar a ninguém, nem mesmo ao seu melhor amigo. Apesar de estar magoada com Ashley por esta a ter esbofeteado, Íris relevou o acontecimento, até porque notou que a inglesa ficara bastante perturbada com o sucedido. Ficara muito mais carinhosa e melosa, voltou a pedir-lhe desculpa e repetia constantemente que se sentia mal por o ter feito. Fora uma atitude estúpida e impensada. Íris respondia-lhe sempre que já lhe perdoara, mas não lhe disse que não esqueceria.
— Quero pedir-te desculpa, se houve alguma coisa que te deixou desconfortável, ontem.
— Nada me deixou desconfortável. Gostei muito de estar convosco.
— A conversa... Tive medo, quando o assunto foi para... a minha mãe. Não quis de forma alguma que te tocassem na ferida.
— Não te preocupes, Arco-íris.
— Não suporto que te magoem.
— Eu sei. Eu também não deixaria que ninguém te magoasse.
Houve um silêncio no telefonema, ambos à espera que o outro falasse. Gabriel queria dizer algo, mas não sabia o quê. No outro lado da linha, Íris tomou a iniciativa.
— Ontem...
— Sim?
— Gostei muito que tivesses vindo.
— Eu também gostei de ter estado aí.
— Gabriel... Eu sou cem porcento lésbica.
— E?
— Não sei. A conversa na despedida... Não quero ter dado uma impressão errada.
— E que impressão seria essa?
— A Ashley acha que eu...
— A Ashley não percebe português e muito menos entenderia o que partilhamos. — atalhou Gabriel, antes que ela dissesse algo que o tocasse, que lhe tocasse nas zonas protegidas, nos lugares inacessíveis do seu coração. Ele não queria ser tocado aí, nem por ela.
— Tens razão. — concordou. — Mesmo assim, fiquei com receio... ter dito que... tu sabes.
— Que me amas?
— Sim.
— Eu também te amo, Arco-íris, como amiga, tal como tu me amas como amigo. Não foi isso que falámos ontem?
— Sim, tens razão. Desculpa, tive necessidade de falar nisso. Tive medo.
— Medo?
— De ter dado a ideia errada e magoar-te.
— Nunca me magoarias.
— Porque tens tanta certeza?
— O teu amor por mim não deixaria.
— Oh... Gabriel. — sussurrou ela. — És tão querido.
— É melhor pararmos com as lamechices. — disse ele num tom afável.
Ela riu-se.
— Fica bem, Gabriel!
— Beijinho grande para ti, Arco-íris.
— Outro para ti, meu amigo amoroso.
— Olha a lamechice.
— Fui. — finalizou rindo.
Na solidão do seu apartamento, Gabriel caminhou até ao bar e serviu-se de um whisky. Pegou no copo e ficou a olhar para a paisagem cinzenta do lago Ontário. O céu anunciava chuva. Respirou fundo, tentando afastar os sentimentos profundos que Íris lhe provocara. Que tinha ela para conseguir furar tão facilmente as suas defesas?
O silêncio da sala foi quebrado pelo toque do telemóvel. Seria Rachel? Não, era Matt, o advogado.
— Olá, Matt!
— Vou enviar-te o contrato que pediste para a representação do tal jogador. Confirma se está tudo como queres para eu depois enviar para ele.
Gabriel abriu o email no computador. Não lhe dava jeito ler tanto texto num telemóvel, sinais da idade. Estava a ficar velho. Analisou rapidamente o documento, a maior parte não divergia muito do que habitualmente continham os seus contratos, quis apenas confirmar alguns pormenores. Ao fim de dez minutos, enviou uma sms para Matt com "podes avançar".
Voltou à observação do lago. Íris regressou à sua mente, mas ele afastou-a. Bebeu o resto do whisky no copo e despejou uma nova porção. Sentia-se só. Era normal, mas não se conseguia habituar a isso, mesmo que fosse um solitário há mais de quinze anos. Voltou a pegar no telemóvel, nova tentativa de ser atendido por Rachel. Nova rejeição de chamada. Que raio! Mas que merda se passa aqui? Ia para lhe escrever uma mensagem, quando a notificação do WhatsApp o travou. Finalmente, Rachel dava notícias:
"Pára de me ligar, Gabriel! Não temos nada a dizer um ao outro"
Por aquela não esperava. É certo que não falavam desde que ela estivera em Toronto, sabia que saíra magoada com o que ele lhe dissera, mas não antecipara que isso provocasse um corte tão radical entre eles. Pensou em perguntar-lhe o que se passava, mas ele sabia a resposta. Se era isso que ela queria...
"Estava a ligar-te por causa de um negócio. Interessa-te?"
Esperou a resposta, mas não viu qualquer indicação de que ela estivesse a escrever. Para sua surpresa, ela telefonou.
— Que negócio é esse? — questionou, quando ele atendeu, sem qualquer cumprimento.
— Pensei que fôssemos amigos.
— Eu também, Gabriel. Estávamos enganados. Que negócio é que estás a propor?
— O que é que te deu para essa atitude?
— Gabriel! Ou dizes que negócio queres falar ou desligo.
— Tens conhecimentos nas equipas da NFL?
— Alguns.
— Tenho um jogador com potencial para jogar na NFL. — explicou. — Pensei em ti, que talvez tivesses contactos... Podemos lucrar os dois.
— Quem é ele?
— Só te dou pormenores depois. Achas que consegues interessados?
— Sem saber quem é, duvido.
— Assim que fechar o acordo com ele, dou-te mais pormenores. — Adoptou um tom irónico. — Se me atenderes o telefone, claro.
— Para assuntos profissionais, claro que sim.
— E para o resto?
— Quando tiveres mais pormenores, diz.
E desligou.
Não a podia censurar pela atitude. Ela dera-lhe a entender que estava apaixonada por ele. Gabriel respondera fazendo-a sentir um objecto sexual.
A formalização do acordo com Jean Michel aconteceu com a chegada dos documentos assinados ao escritório de Matt. Gabriel visitou o advogado e também assinou para que uma cópia fosse enviada para Montreal. Como o contrato de Jean Michel com o antigo empresário só terminaria no final do mês, o assunto ficou pendente até ao início de Março.
A neve desaparecera de Toronto. O frio diminuíra. Na NHL os Maple Leafs estavam a um passo da qualificação para os playoff, na NBA os Raptors já tinham esse lugar assegurado. Aquela manhã do mês que traria a Primavera nasceu com Sol e luminosa. No seu gabinete, sentado na sua cadeira, Gabriel olhava para os prédios envolventes às suas janelas a reflectir o brilho solar.
Não voltara a falar com Rachel. Na altura em que o seu contrato de representação de Jean Michel se iniciara, Gabriel enviou a Rachel uma apresentação do jogador por email e alguns vídeos dos jogos dele nos Aloutte de Montreal. Dois dias depois, ela respondeu-lhe a informar que ia ver o que podia fazer e queria saber quanto lhe caberia a ela de comissão. Ele fez a proposta, ela aceitou-a.
Durante mais uma semana não teve notícias de Rachel. Chegou a pensar se teria esquecido o assunto ou desinteressado por ter de negociar com ele. Porém, ao fim desse tempo, ligou-lhe.
— Há uma possibilidade dos Redskins o contratarem, mas será para suplente.
Os Redskins eram a equipa de Washington.
— Foi o melhor que conseguiste?
— Se não te agrada, vai à merda. — respondeu, interpretando as palavras dele como uma crítica.
— Calma, Rachel. — pediu, paciente. — Estava só a perguntar. É a única proposta?
— Sim. — confirmou. — Tenho carta branca dos Redskins para negociar o contrato contigo. Posso deslocar-me a Montreal para falar com o jogador e contigo.
— Sabes bem que esses assuntos são tratados comigo e depois eu falo com o jogador.
— Como queiras.
— Quando podes vir a Toronto?
— Porque não vens tu a Seattle? O interesse é teu.
Gabriel não respondeu. Deixou o silêncio responder por alguns segundos. Depois, encarou aquilo como um caso perdido.
— Vou falar com alguns conhecimentos para ver se consigo mais alguma coisa.
— Espera lá, Gabriel! Não andei a perder tempo para me deixares na mão.
No seu inconsciente, Gabriel queria que ela viesse a Toronto, queria voltar a vê-la.
— Sabes bem como isto funciona.
— E se eu for a Toronto?
Ao demonstrar-se disposta a ceder à sua exigência, Rachel denunciou-lhe que os Redskins teriam mais interesse em Jean Michel que aquele que ela queria deixar transparecer.
— Posso debater a proposta contigo para chegarmos a acordo.
— Odeio-te!
— Não odeias nada. — respondeu ele, provocando-a.
— Foste uma desilusão. — atirou-lhe, zangada.
As palavras atingiram-no mais que o esperado. Sentiu que a amizade com ela estava fatalmente comprometida. Decidiu levantar os escudos todos e proteger-se, atacando-a.
— Se te desiludiste, foi porque criaste ilusões. Nunca te enganei e sempre te disse o que queria e o que não queria.
— Pediste para não desistir de ti. — lembrou-lhe, ríspida. — Querias a amiga, depois quiseste uma amiga colorida...
— Foste tu que quiseste isso. E acordámos que nunca haveria cobranças.
— Ok, Gabriel. Não vale a pena continuar a discutir isto. Vou marcar voo para ir a Toronto depois de amanhã. Depois ligo-te para reunirmos.
— Podemos combinar em minha casa.
— Nem penses, Gabriel. Não volto a tua casa. Será no teu escritório.
— Deixa-me compensar-te, Rachel. — sugeriu num tom de paz. — Os hotéis são tão impessoais. Fica em minha casa. Conversamos sobre o contrato para o Jean Michel e... sobre nós.
— Não há nenhum "nós". E se me queres compensar, dá-me a tua comissão!
Então era esse o caminho que ela queria seguir? Com ele, era um caminho perigoso. Se começassem a atirar dinheiro à cara um do outro, então, Gabriel colocaria a sua máxima sobre a mesa. Gostava dela, gostava do sexo com ela, gostaria de voltar a estar com ela.
Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!
— Rachel! Só me reúno contigo em minha casa. Se quiseres prosseguir com o negócio, temos de esclarecer as coisas muito bem entre nós. E não será um assunto para o escritório, é para conversarmos com calma em minha casa.
— E tenho que dormir contigo, se quiser que o negócio avance?
Tens! Foi o que lhe apetecia responder. Porém, Gabriel não era assim.
— Estás a ser estúpida. Nunca te obriguei a nada. Só quero conversar contigo. Estou a pedir-te que fiques essa noite em minha casa para conversarmos com calma. — Fez uma pausa para a ouvir. Ela permaneceu calada. — Como é que vai ser?
— Se é a única forma de prosseguir com isto. Não quero que o Jean Michel fique prejudicado com os nossos desentendimentos. Mas, quero deixar bem claro que nunca mais nos envolveremos sexualmente. Estamos entendidos?
— Como queiras.
— Quando tiver as coisas acertadas para viajar, informo-te.
E desligou-lhe o telefone na cara.
Daí a dois dias, Rachel viajou para Toronto.
Os sinais da chegada da Primavera eram evidentes, os dias de Sol aumentavam e os dias de chuva diminuíam. Curiosamente, aquele era de chuva, apesar de a temperatura ser bem mais agradável que no mês anterior. Gabriel esperou Rachel em sua casa, ela ficara de chegar a meio da tarde. Enquanto via os aguaceiros a cair na cidade, Gabriel bebia um copo de whisky e esperava. Não duvidava que as negociações da proposta para Jean Michel chegariam a bom porto. Mais que ter um bom salário, ele tinha o sonho de jogar na NFL. Só que Gabriel queria resolver outros assuntos com Rachel e esses eram bem mais complicados para chegarem a um acordo satisfatório para as duas partes. Gabriel não queria perder a amiga, mas não queria compromissos, não queria relacionamentos. Porque não podiam continuar com aquela amizade com benefícios que julgou terem? Que acontecera? Ele sabia. Ele errara. Ele não se limitara ao sexo, naquela última noite, fizera amor com ela. Um erro. Um grande erro. Fora Gabriel quem lhe criara a ilusão que a fizera desiludir-se com ele. Magoara a, tinha a certeza, tanta quanto aquela que lhe dizia que não queria mais que aquilo, não queria uma namorada.
A campainha tocou.
Gabriel respirou fundo.
Rachel surgiu com a sua imagem de mulher empresária, elegantemente vestida num fato verde, um conjunto de calças e casaco de corte aprumado. Os caracóis penteados para o lado e a maquilhagem sóbria davam-lhe um ar sensualmente maduro. Calçava sapatos de salto alto, segurava uma pasta na mão esquerda e rebocava a mala de viagem com a mão direita. Olhou-o com uma expressão fechada e atirou um frio:
— Olá, Gabriel!
Visualmente, ele não lhe ficava atrás, envergando um fato Ermenegildo Zegna azul-escuro sobre uma camisa branca e uma gravata em riscas cinzentas e azuis. Sorriu-lhe, apesar da frieza dela.
— Olá, Rachel!
Pensou em abraçá-la, mas ela ficou parada na sua frente, colocando a mala de viagem entre eles.
— Posso entrar ou reunimos aqui? — questionou no mesmo tom gélido.
Gabriel afastou-se para o lado e apontou para o interior, convidando-a a entrar:
— Sabes o caminho.
Rachel passou por ele, puxando a mala. Parecia querer fazê-lo sentir o quanto se encontrava ali contrariada. Avançou pelo átrio e entrou no quarto que ocupara nas vezes em que ali dormira. Gabriel fechou a porta do apartamento e foi para a sala. Ela regressou uns minutos depois, sem o casaco do fato, revelando uma camisa fina e opaca em tons escuros.
— Queres beber alguma coisa?
Ela não respondeu, parando defronte dele e apontando-lhe a pasta contendo a proposta.
— Aí tens!
Paciente, Gabriel segurou nela e disse na tentativa de quebrar o gelo:
— É uma proposta de paz entre nós?
— É a proposta dos Redskins para o Jean Michel. — retorquiu inexpressiva.
Gabriel largou a pasta sobre o balcão que separava a sala da cozinha. Não mostrou interesse em ler e ficou a olhar para o rosto fechado de Rachel.
— Podemos conversar?
— Não é que estamos a fazer?
— Não.
— Que queres falar?
Ele apontou o sofá.
— Senta-te.
— Estou bem em pé.
— Eu quero sentar-me e não vou falar contigo de pé.
Rachel fez uma expressão exasperada e sentou-se na ponta do sofá. Gabriel ocupou a ponta oposta.
— Não queres beber nada?
— Não.
O ambiente era pesado e a luminosidade cinzenta do exterior não ajudava a desanuviar o clima entre eles. Gabriel adoptou uma postura de quem não teria problemas em assumir as culpas.
— Quero pedir-te desculpa, Rachel, se de alguma forma te magoei.
— Se? — interrompeu ela, ainda num tom ríspido. — Tens dúvidas?
Ele levantou as mãos em sinal de trégua.
— Ok, Rachel, eu magoei-te. Estou a pedir-te desculpa.
— As desculpas não se pedem, evitam-se!
Gabriel começou a perder a paciência.
— Que queres que faça? Estou a admitir a minha culpa. Tu desculpas ou não. Que raio! Também não cometi nenhum crime.
Rachel não disse nada, nem alterou o semblante fechado. Ao invés, levantou-se do sofá e caminhou até ao bar.
— Posso? — perguntou, apontando para a garrafa de whisky dezoito anos. Ele anuiu, observando-a atento. Ela encheu um terço do copo e bebeu um golo. Virou-se para a janela e olhou para o lago. — Não cometeste nenhum crime, é verdade. E posso desculpar-te, já que conseguiste assumir a culpa.
— Obrigado, senhora doutora juíza. — ripostou sarcástico.
Ela virou-se para ele, perdendo alguma da dureza no olhar.
— Que queres de mim? Não, não. Espera! A pergunta é: o que queres de nós? Foste tu quem enunciou um "nós" no outro dia.
— Gostava que pudéssemos voltar ao que tínhamos, antes da última vez que estivemos juntos.
— Amigos?
— Amigos que fazem sexo sem compromisso.
Rachel atirou-lhe uma gargalhada de desdém.
— Não vai acontecer, Gabriel. — Abanou a cabeça. — E lamento que depois de tudo, ainda penses que isso é possível.
— Ok. Então, o que propões?
Demonstrando que estava a pensar, caminhou até ao sofá e voltou a sentar-se no mesmo lugar. Bebeu mais um pouco do whisky e olhou para ele.
— Só tens duas possibilidades, comigo. Não. Tens três.
— E quais são?
— A mais simples, cada um segue o seu caminho e podemos cruzar-nos para interesses comuns nos negócios. Ou ficamos amigos, mas somente amigos, sem cenas íntimas e muito menos com sexo à mistura.
— E a terceira?
— Um compromisso. — afirmou, segura e sem dizer mais nada.
— Que tipo de compromisso?
— O tipo de compromisso que os casais têm.
— Casamento? — interrogou estupefacto.
— Não, nada disso. — negou ela, voltando a beber. — Assumimos uma relação amorosa. Se quiseres isso, então sim, o sexo volta à nossa amizade.
— Vives a quatro mil quilómetros. Não me parece que uma relação à distância faça sentido.
Rachel sorriu.
— A parte mais importante do meu trabalho em Seattle está feito. Não será necessário deslocar-me lá mais que uma vez por mês durante dois ou três dias. Tirando isso, as viagens profissionais são uma realidade idêntica à tua. — Encarou-o com toda a segurança, jogando todas as cartas. — Posso mudar-me para Toronto, se quiseres.
Foi a vez de Gabriel se levantar. Não respondeu, nem deu a entender o que pensava daquela hipótese. Dirigiu-se ao bar e encheu dois terços do copo com o mesmo whisky que ela. Parecia estar a ganhar tempo para responder. Sem se virar para ela, manteve os escudos levantados:
— Não estou à procura de uma relação amorosa.
— Não queres perder a tua independência para poderes continuar a recorrer a profissionais. — atirou-lhe, ouvindo a recusa daquilo que ela mais desejava.
— Não é por aí. Tu própria disseste que eu podia continuar a recorrer a elas, tendo...
— Não, se existisse um compromisso entre nós.
— Disseste-me que não te importavas, depois de termos ido para a cama um com o outro a primeira vez. Só colocaste como condição, dizer te se me envolvesse com uma mulher que não fosse paga pelo sexo.
— Nessa altura era diferente. — argumentou, levantando-se novamente. — Nessa altura, eu ainda não estava apaixonada por ti.
A confissão apanhou-o de surpresa. Claro que ele desconfiava, mas ouvi-la assumir isso era outra coisa. Virou-se para olhar para ela. Rachel permaneceu imóvel, aguardando a reacção dele. Gabriel sabia o que queria, mas iria evitar magoá-la com a única coisa que lhe poderia dizer naquele momento. Ficou calado.
— Ouviste o que te disse? Estou apaixonada por ti!
Gabriel pousou o copo. Como se poderia dourar a pílula? Como falar com eufemismo sabendo que a única resposta que tinha lhe iria partir o coração? Decidiu ser honesto e falou num tom terno:
— Gostava de poder dizer o mesmo de ti. — Notou-lhe o impacto da frase nos olhos. — Não penses que existe outra pessoa porque não existe. — Rachel desviou o olhar. — Como sempre te disse, sou um gajo complicado. Não te quero magoar. Já o fiz e foi sem intenção. Não quero perder a amiga. Podes não acreditar, mas és muito importante para mim.
Rachel assentiu. Não se mostrou zangada, apesar de no seu íntimo se sentir usada por ele, nas vezes que fizeram sexo. Porém, não era justo culpá-lo, uma vez que a iniciativa partira sempre dela.
— Será a amizade, então. — concluiu como quem chega a acordo para a contratação de um jogador. — Tu também és importante para mim. Por isso, vamos tentar fazer com isto resulte... a amizade.
Gabriel sorriu-lhe, mas não foi correspondido. Rachel voltou a ficar de pé, mas afastou-se quando ele se aproximou para selar a amizade com um abraço. Ele viu-a desviar-se para o balcão e recolher a pasta que lhe tornou a apontar.
— Lê e vê se concordas.
O ambiente ficou menos pesado. Gabriel abriu a pasta e começou a ler a proposta que os Redskins haviam delegado nela. Analisou o texto, concentrado nos pontos fundamentais. Era uma boa proposta, não era milionária, mas era muito interessante. E se Jean Michel se saísse bem, poderia obter uma renovação de contrato milionária.
— Tens margem de manobra?
— Se aceitares essa, eu recebo um bónus. — informou. — Aceita assim como está e partilho-o contigo. Setenta trinta.
— Quanto é o bónus? — Ela disse-lhe o valor. — Cinquenta cinquenta.
— Não é negociável, Gabriel. É uma proposta justa. Tu até aceitarias isso, se não te tivesse falado do bónus.
Ele fechou a pasta.
— Tudo bem. Irei apresentar o contrato ao Jean Michel.
Subitamente, ficaram a olhar-se sem nada para dizer. Tudo parecia tratado e arrumado, pelo que a reunião estava finalizada. Rachel sentiu-se a mais ali na casa dele.
— Posso convidar-te para jantar fora? — ofereceu, percebendo o desconforto dela. — Ou posso encomendar para comer aqui.
— Prefiro que me leves a jantar fora.
— Não é preciso ser na CN Tower pois não?
— Não. Qualquer sítio agradável serve.
Gabriel escolheu um restaurante simpático e acolhedor no Distillery Historic District. Não era muito longe donde vivia, o suficiente para levar os cavalos do Ferrari a passear. A noite estava amena e a chuva não voltara, daí que não se importasse de estacionar num parque automóvel junto à Parliament Street. Saíram do carro e caminharam pela Gristmill Lane, dando de caras com a escultura do coração vermelho, uma espécie de sinal do amor.
— Queres dizer-me alguma coisa? — interrogou Rachel a brincar com ele e apontando para o símbolo. — Não precisas responder.
Prosseguiram a caminhada numa passada calma. Viam-se muitas pessoas na rua, essencialmente jovens. Os habitantes de Toronto retornavam às actividades de lazer no exterior, agora que o Inverno se ia embora e as temperaturas eram mais altas. Duzentos metros mais à frente, mais precisamente na Trinity Street, entraram num restaurante e indicaram-lhes uma mesa.
O jantar foi amistoso. Colocaram de lado as divergências, os pontos de vista distintos acerca da relação deles e conversaram animados. Gabriel adorava estar com ela e lamentava que Rachel não vivesse mais perto para poderem repetir aquelas saídas de amigos. Por seu turno, Rachel adorava-o com toda a força do seu ser, uma paixão que lhe emanava de todas as células do corpo e que ela tentava controlar.
Rachel quis pagar o jantar. Era o mínimo, já chegava asilar em casa dele, cada vez que vinha à cidade. Para além disso, ia receber um belo prémio pela contratação de Jean Michel.
No entanto, Gabriel não deixou.
— Em Toronto pago eu. Quando te visitar em Seattle, pagas tu.
Ela sorriu, entusiasmada.
— Isso quer dizer que estás a pensar ir a Seattle?
— Fazes valer a pena? — Piscou-lhe o olho.
— Que queres dizer com isso?
— Estou a brincar, Rachel.
— Já falámos sobre isso, Gabriel.
— Rachel! Estou a brincar contigo.
Percorreram o mesmo caminho em sentido inverso até ao parque. O Ferrari aguardava-os no meio dos outros automóveis. Gabriel fez o papel de cavalheiro e abriu a porta para que Rachel entrasse. O burburinho dos ruídos citadinos foi quase apagado pelo roncar forte do motor, um rugido feroz da máquina sedenta de soltar os cavalos contidos e acelerar pelo asfalto. Claro que Gabriel se conteve e não excedeu os limites de velocidade, mesmo quase não havendo trânsito nas ruas.
Ao entrarem no apartamento, Rachel revelou-se cansada.
— Um último copo, antes de ir dormir? — ofereceu Gabriel num jeito sedutor.
— Dispenso. Quero ir descansar.
— Queres que passe pelo teu quarto para te aconchegar os lençóis? — sugeriu provocador.
Rachel riu-se, mas depois ficou séria.
— Não vai acontecer, Gabriel. Não quero que vás ao quarto, nem eu vou ao teu. Nem te vou enviar mensagens. Vou dormir. — Viu-o concordar, mas teve dúvidas que ele compreendesse. — Estou a falar a sério, Gabriel. Espero que não tentes nada.
— A porta tem chave, se achas que eu faria uma coisa dessas.
— Sei que não, desculpa.
Sorriram um para o outro. Gabriel esperou ter direito a um beijo, ela limitou-se a acenar-lhe um adeus.
Apesar de tudo, a situação irritava o, tinha vontade e ela não queria algo que já tinham feito com tanta naturalidade.
Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!
— Não queres chegar a um acordo?
Rachel fez uma expressão confusa.
— Acordo? Que acordo?
— Os trinta porcento do teu bónus.
— O que tem?
— Queres trocar pela noite comigo?
Ela ficou boquiaberta, meio ofendida.
— Vou fingir que não ouvi o que acabaste de propor.
— Não me podes culpar por tentar.
— Só não tens o que não queres. — Apontou-se da cabeça aos pés. — Tudo isto pode ser teu, mas com as minhas regras.
— Dorme bem, Rachel!
— Boa noite, Gabriel!
Não aconteceu nada naquela noite. Cada um dormiu no seu quarto. Na manhã seguinte, Gabriel acordou cedo, ao amanhecer, mais cedo que o costume. Saiu da cama nu como sempre e foi observar o nascer do Sol através da sua janela. Pensou em Rachel que dormia no quarto ao lado. Percebia o ponto de vista dela e compreendia que ela quisesse as coisas daquela forma para, tal como ele, não se magoar. Se queria ser entendido, Gabriel concluiu que tinha de aceitar aquilo. Lamentava que assim fosse, mas a culpa era duplamente dele, primeiro por não querer ter uma relação séria com ela, segundo por ter-se deixado ir no romantismo e, sem querer, tê-la apaixonado por si.
O duche foi retemperador e retirou aquela sonolência matinal, apesar de já não sentir sono. Barbeou-se sem dar por isso, a mente em pensamentos, distraído a olhar-se ao espelho sem se ver. Vestiu o fato elegante, perfumou-se, deu um último toque no cabelo e saiu do quarto.
Pelo silêncio, percebeu que Rachel ainda dormia. Foi até à sala, atravessou-a e parou na cozinha. Tirou um café expresso para si.
A claridade aumentara e o Sol brilhava intenso. A agenda de Gabriel estava preenchida para esse dia. Pegou no smartphone e consultou o email. Nesse instante, ouviu uma porta a abrir. Os passos de Rachel eram silenciosos, mas audíveis na ausência de qualquer som. Ela apareceu na sala, vestindo unicamente a camisa da noite anterior que lhe chegava às coxas nuas, com uma expressão estremunhada.
— Bom dia, Gabriel! Ouvi-te levantar...
— Bom dia, dorminhoca!
— Já estás pronto para sair? Eu adormeci. Vou só tomar um banho e...
— Não te preocupes. Fica à vontade. Eu tenho de ir para o escritório, mas tu podes ficar por aqui até ires para o aeroporto.
Ela sorriu ensonada.
— Obrigado.
— Quando saíres, é só bater a porta. — disse ele, pegando no casaco.
Rachel aproximou-se e ajeitou-lhe a gravata que já estava impecável. Olhou-o nos olhos. Não disseram nada, apenas sorriram um para o outro.
— Conto com a tua visita a Seattle?
Gabriel encolheu os ombros.
— Sempre que quiseres vir a Toronto, terei todo o gosto em que fiques cá em casa.
Despediram-se. Ele penteou-lhe os cabelos suavemente em desalinho com os dedos, enquanto ela fez uma carícia com a mão no rosto dele.
— Logo que tenha novidades do Jean Michel, telefono-te.
— Combinado. — Ela segurou-lhe na mão que lhe tocava o cabelo. — Quando chegar a Seattle, ligo-te. — Viu o sorriso torcido dele. — Desta vez, ligo mesmo.
— Faz boa viagem. E... mais uma vez... Desculpa, eu...
— Deixa, Gabriel. Viveremos com o que temos.
Afastaram-se. Gabriel pegou no casaco, soprou-lhe um beijo e saiu.
Ouviu o som compassado de chamar, o qual se repetiu até passar para o voicemail. Desligou e voltou a tentar. Novamente a chamar sem que ninguém atendesse e indo parar de novo ao voicemail. Rachel deveria estar ocupada. Certamente que lhe devolveria a chamada quando pudesse.
No entanto, Rachel não lhe ligou nessa noite. Gabriel voltou a Toronto na manhã seguinte. Não foi ao escritório no Bay Adelaide e seguiu do Pearson International Airport directamente para casa. Alguns minutos depois de entrar no seu apartamento, voltou a tentar telefonar a Rachel. Desta vez, não foi parar ao voicemail, a chamada fora rejeitada por ela. Gabriel estranhou a atitude, mas voltou a justificar para si que ela estaria ocupada. Ia para enviar uma mensagem, quando o aparelho tocou. Não era Rachel, era Íris.
— Olá, Arco-íris! Recebeste a minha mensagem?
— Olá, Gabriel! Sim, a dizeres que já tinhas chegado a Toronto.
Houve algo na voz de Íris que o deixou apreensivo.
— Estás bem?
— Mais ou menos.
— Que se passa?
— Eu e a Ashley discutimos, ontem à noite, depois de ires embora.
Gabriel não ficou surpreendido, reparara no semblante da inglesa quando estava a sair de casa delas, tinha ciúme nos olhos.
— Que aconteceu?
— A parva ficou com ciúmes. Enfim... deve querer que seja só ela a ser minha amiga.
— Vê pelo lado positivo, onde há ciúme há amor.
Íris riu-se no outro lado da linha.
— Sim. Não posso dizer que não tenha gostado da reconciliação.
Não referiu a agressão, não era assunto para contar a ninguém, nem mesmo ao seu melhor amigo. Apesar de estar magoada com Ashley por esta a ter esbofeteado, Íris relevou o acontecimento, até porque notou que a inglesa ficara bastante perturbada com o sucedido. Ficara muito mais carinhosa e melosa, voltou a pedir-lhe desculpa e repetia constantemente que se sentia mal por o ter feito. Fora uma atitude estúpida e impensada. Íris respondia-lhe sempre que já lhe perdoara, mas não lhe disse que não esqueceria.
— Quero pedir-te desculpa, se houve alguma coisa que te deixou desconfortável, ontem.
— Nada me deixou desconfortável. Gostei muito de estar convosco.
— A conversa... Tive medo, quando o assunto foi para... a minha mãe. Não quis de forma alguma que te tocassem na ferida.
— Não te preocupes, Arco-íris.
— Não suporto que te magoem.
— Eu sei. Eu também não deixaria que ninguém te magoasse.
Houve um silêncio no telefonema, ambos à espera que o outro falasse. Gabriel queria dizer algo, mas não sabia o quê. No outro lado da linha, Íris tomou a iniciativa.
— Ontem...
— Sim?
— Gostei muito que tivesses vindo.
— Eu também gostei de ter estado aí.
— Gabriel... Eu sou cem porcento lésbica.
— E?
— Não sei. A conversa na despedida... Não quero ter dado uma impressão errada.
— E que impressão seria essa?
— A Ashley acha que eu...
— A Ashley não percebe português e muito menos entenderia o que partilhamos. — atalhou Gabriel, antes que ela dissesse algo que o tocasse, que lhe tocasse nas zonas protegidas, nos lugares inacessíveis do seu coração. Ele não queria ser tocado aí, nem por ela.
— Tens razão. — concordou. — Mesmo assim, fiquei com receio... ter dito que... tu sabes.
— Que me amas?
— Sim.
— Eu também te amo, Arco-íris, como amiga, tal como tu me amas como amigo. Não foi isso que falámos ontem?
— Sim, tens razão. Desculpa, tive necessidade de falar nisso. Tive medo.
— Medo?
— De ter dado a ideia errada e magoar-te.
— Nunca me magoarias.
— Porque tens tanta certeza?
— O teu amor por mim não deixaria.
— Oh... Gabriel. — sussurrou ela. — És tão querido.
— É melhor pararmos com as lamechices. — disse ele num tom afável.
Ela riu-se.
— Fica bem, Gabriel!
— Beijinho grande para ti, Arco-íris.
— Outro para ti, meu amigo amoroso.
— Olha a lamechice.
— Fui. — finalizou rindo.
Na solidão do seu apartamento, Gabriel caminhou até ao bar e serviu-se de um whisky. Pegou no copo e ficou a olhar para a paisagem cinzenta do lago Ontário. O céu anunciava chuva. Respirou fundo, tentando afastar os sentimentos profundos que Íris lhe provocara. Que tinha ela para conseguir furar tão facilmente as suas defesas?
O silêncio da sala foi quebrado pelo toque do telemóvel. Seria Rachel? Não, era Matt, o advogado.
— Olá, Matt!
— Vou enviar-te o contrato que pediste para a representação do tal jogador. Confirma se está tudo como queres para eu depois enviar para ele.
Gabriel abriu o email no computador. Não lhe dava jeito ler tanto texto num telemóvel, sinais da idade. Estava a ficar velho. Analisou rapidamente o documento, a maior parte não divergia muito do que habitualmente continham os seus contratos, quis apenas confirmar alguns pormenores. Ao fim de dez minutos, enviou uma sms para Matt com "podes avançar".
Voltou à observação do lago. Íris regressou à sua mente, mas ele afastou-a. Bebeu o resto do whisky no copo e despejou uma nova porção. Sentia-se só. Era normal, mas não se conseguia habituar a isso, mesmo que fosse um solitário há mais de quinze anos. Voltou a pegar no telemóvel, nova tentativa de ser atendido por Rachel. Nova rejeição de chamada. Que raio! Mas que merda se passa aqui? Ia para lhe escrever uma mensagem, quando a notificação do WhatsApp o travou. Finalmente, Rachel dava notícias:
"Pára de me ligar, Gabriel! Não temos nada a dizer um ao outro"
Por aquela não esperava. É certo que não falavam desde que ela estivera em Toronto, sabia que saíra magoada com o que ele lhe dissera, mas não antecipara que isso provocasse um corte tão radical entre eles. Pensou em perguntar-lhe o que se passava, mas ele sabia a resposta. Se era isso que ela queria...
"Estava a ligar-te por causa de um negócio. Interessa-te?"
Esperou a resposta, mas não viu qualquer indicação de que ela estivesse a escrever. Para sua surpresa, ela telefonou.
— Que negócio é esse? — questionou, quando ele atendeu, sem qualquer cumprimento.
— Pensei que fôssemos amigos.
— Eu também, Gabriel. Estávamos enganados. Que negócio é que estás a propor?
— O que é que te deu para essa atitude?
— Gabriel! Ou dizes que negócio queres falar ou desligo.
— Tens conhecimentos nas equipas da NFL?
— Alguns.
— Tenho um jogador com potencial para jogar na NFL. — explicou. — Pensei em ti, que talvez tivesses contactos... Podemos lucrar os dois.
— Quem é ele?
— Só te dou pormenores depois. Achas que consegues interessados?
— Sem saber quem é, duvido.
— Assim que fechar o acordo com ele, dou-te mais pormenores. — Adoptou um tom irónico. — Se me atenderes o telefone, claro.
— Para assuntos profissionais, claro que sim.
— E para o resto?
— Quando tiveres mais pormenores, diz.
E desligou.
Não a podia censurar pela atitude. Ela dera-lhe a entender que estava apaixonada por ele. Gabriel respondera fazendo-a sentir um objecto sexual.
A formalização do acordo com Jean Michel aconteceu com a chegada dos documentos assinados ao escritório de Matt. Gabriel visitou o advogado e também assinou para que uma cópia fosse enviada para Montreal. Como o contrato de Jean Michel com o antigo empresário só terminaria no final do mês, o assunto ficou pendente até ao início de Março.
A neve desaparecera de Toronto. O frio diminuíra. Na NHL os Maple Leafs estavam a um passo da qualificação para os playoff, na NBA os Raptors já tinham esse lugar assegurado. Aquela manhã do mês que traria a Primavera nasceu com Sol e luminosa. No seu gabinete, sentado na sua cadeira, Gabriel olhava para os prédios envolventes às suas janelas a reflectir o brilho solar.
Não voltara a falar com Rachel. Na altura em que o seu contrato de representação de Jean Michel se iniciara, Gabriel enviou a Rachel uma apresentação do jogador por email e alguns vídeos dos jogos dele nos Aloutte de Montreal. Dois dias depois, ela respondeu-lhe a informar que ia ver o que podia fazer e queria saber quanto lhe caberia a ela de comissão. Ele fez a proposta, ela aceitou-a.
Durante mais uma semana não teve notícias de Rachel. Chegou a pensar se teria esquecido o assunto ou desinteressado por ter de negociar com ele. Porém, ao fim desse tempo, ligou-lhe.
— Há uma possibilidade dos Redskins o contratarem, mas será para suplente.
Os Redskins eram a equipa de Washington.
— Foi o melhor que conseguiste?
— Se não te agrada, vai à merda. — respondeu, interpretando as palavras dele como uma crítica.
— Calma, Rachel. — pediu, paciente. — Estava só a perguntar. É a única proposta?
— Sim. — confirmou. — Tenho carta branca dos Redskins para negociar o contrato contigo. Posso deslocar-me a Montreal para falar com o jogador e contigo.
— Sabes bem que esses assuntos são tratados comigo e depois eu falo com o jogador.
— Como queiras.
— Quando podes vir a Toronto?
— Porque não vens tu a Seattle? O interesse é teu.
Gabriel não respondeu. Deixou o silêncio responder por alguns segundos. Depois, encarou aquilo como um caso perdido.
— Vou falar com alguns conhecimentos para ver se consigo mais alguma coisa.
— Espera lá, Gabriel! Não andei a perder tempo para me deixares na mão.
No seu inconsciente, Gabriel queria que ela viesse a Toronto, queria voltar a vê-la.
— Sabes bem como isto funciona.
— E se eu for a Toronto?
Ao demonstrar-se disposta a ceder à sua exigência, Rachel denunciou-lhe que os Redskins teriam mais interesse em Jean Michel que aquele que ela queria deixar transparecer.
— Posso debater a proposta contigo para chegarmos a acordo.
— Odeio-te!
— Não odeias nada. — respondeu ele, provocando-a.
— Foste uma desilusão. — atirou-lhe, zangada.
As palavras atingiram-no mais que o esperado. Sentiu que a amizade com ela estava fatalmente comprometida. Decidiu levantar os escudos todos e proteger-se, atacando-a.
— Se te desiludiste, foi porque criaste ilusões. Nunca te enganei e sempre te disse o que queria e o que não queria.
— Pediste para não desistir de ti. — lembrou-lhe, ríspida. — Querias a amiga, depois quiseste uma amiga colorida...
— Foste tu que quiseste isso. E acordámos que nunca haveria cobranças.
— Ok, Gabriel. Não vale a pena continuar a discutir isto. Vou marcar voo para ir a Toronto depois de amanhã. Depois ligo-te para reunirmos.
— Podemos combinar em minha casa.
— Nem penses, Gabriel. Não volto a tua casa. Será no teu escritório.
— Deixa-me compensar-te, Rachel. — sugeriu num tom de paz. — Os hotéis são tão impessoais. Fica em minha casa. Conversamos sobre o contrato para o Jean Michel e... sobre nós.
— Não há nenhum "nós". E se me queres compensar, dá-me a tua comissão!
Então era esse o caminho que ela queria seguir? Com ele, era um caminho perigoso. Se começassem a atirar dinheiro à cara um do outro, então, Gabriel colocaria a sua máxima sobre a mesa. Gostava dela, gostava do sexo com ela, gostaria de voltar a estar com ela.
Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!
— Rachel! Só me reúno contigo em minha casa. Se quiseres prosseguir com o negócio, temos de esclarecer as coisas muito bem entre nós. E não será um assunto para o escritório, é para conversarmos com calma em minha casa.
— E tenho que dormir contigo, se quiser que o negócio avance?
Tens! Foi o que lhe apetecia responder. Porém, Gabriel não era assim.
— Estás a ser estúpida. Nunca te obriguei a nada. Só quero conversar contigo. Estou a pedir-te que fiques essa noite em minha casa para conversarmos com calma. — Fez uma pausa para a ouvir. Ela permaneceu calada. — Como é que vai ser?
— Se é a única forma de prosseguir com isto. Não quero que o Jean Michel fique prejudicado com os nossos desentendimentos. Mas, quero deixar bem claro que nunca mais nos envolveremos sexualmente. Estamos entendidos?
— Como queiras.
— Quando tiver as coisas acertadas para viajar, informo-te.
E desligou-lhe o telefone na cara.
Daí a dois dias, Rachel viajou para Toronto.
Os sinais da chegada da Primavera eram evidentes, os dias de Sol aumentavam e os dias de chuva diminuíam. Curiosamente, aquele era de chuva, apesar de a temperatura ser bem mais agradável que no mês anterior. Gabriel esperou Rachel em sua casa, ela ficara de chegar a meio da tarde. Enquanto via os aguaceiros a cair na cidade, Gabriel bebia um copo de whisky e esperava. Não duvidava que as negociações da proposta para Jean Michel chegariam a bom porto. Mais que ter um bom salário, ele tinha o sonho de jogar na NFL. Só que Gabriel queria resolver outros assuntos com Rachel e esses eram bem mais complicados para chegarem a um acordo satisfatório para as duas partes. Gabriel não queria perder a amiga, mas não queria compromissos, não queria relacionamentos. Porque não podiam continuar com aquela amizade com benefícios que julgou terem? Que acontecera? Ele sabia. Ele errara. Ele não se limitara ao sexo, naquela última noite, fizera amor com ela. Um erro. Um grande erro. Fora Gabriel quem lhe criara a ilusão que a fizera desiludir-se com ele. Magoara a, tinha a certeza, tanta quanto aquela que lhe dizia que não queria mais que aquilo, não queria uma namorada.
A campainha tocou.
Gabriel respirou fundo.
Rachel surgiu com a sua imagem de mulher empresária, elegantemente vestida num fato verde, um conjunto de calças e casaco de corte aprumado. Os caracóis penteados para o lado e a maquilhagem sóbria davam-lhe um ar sensualmente maduro. Calçava sapatos de salto alto, segurava uma pasta na mão esquerda e rebocava a mala de viagem com a mão direita. Olhou-o com uma expressão fechada e atirou um frio:
— Olá, Gabriel!
Visualmente, ele não lhe ficava atrás, envergando um fato Ermenegildo Zegna azul-escuro sobre uma camisa branca e uma gravata em riscas cinzentas e azuis. Sorriu-lhe, apesar da frieza dela.
— Olá, Rachel!
Pensou em abraçá-la, mas ela ficou parada na sua frente, colocando a mala de viagem entre eles.
— Posso entrar ou reunimos aqui? — questionou no mesmo tom gélido.
Gabriel afastou-se para o lado e apontou para o interior, convidando-a a entrar:
— Sabes o caminho.
Rachel passou por ele, puxando a mala. Parecia querer fazê-lo sentir o quanto se encontrava ali contrariada. Avançou pelo átrio e entrou no quarto que ocupara nas vezes em que ali dormira. Gabriel fechou a porta do apartamento e foi para a sala. Ela regressou uns minutos depois, sem o casaco do fato, revelando uma camisa fina e opaca em tons escuros.
— Queres beber alguma coisa?
Ela não respondeu, parando defronte dele e apontando-lhe a pasta contendo a proposta.
— Aí tens!
Paciente, Gabriel segurou nela e disse na tentativa de quebrar o gelo:
— É uma proposta de paz entre nós?
— É a proposta dos Redskins para o Jean Michel. — retorquiu inexpressiva.
Gabriel largou a pasta sobre o balcão que separava a sala da cozinha. Não mostrou interesse em ler e ficou a olhar para o rosto fechado de Rachel.
— Podemos conversar?
— Não é que estamos a fazer?
— Não.
— Que queres falar?
Ele apontou o sofá.
— Senta-te.
— Estou bem em pé.
— Eu quero sentar-me e não vou falar contigo de pé.
Rachel fez uma expressão exasperada e sentou-se na ponta do sofá. Gabriel ocupou a ponta oposta.
— Não queres beber nada?
— Não.
O ambiente era pesado e a luminosidade cinzenta do exterior não ajudava a desanuviar o clima entre eles. Gabriel adoptou uma postura de quem não teria problemas em assumir as culpas.
— Quero pedir-te desculpa, Rachel, se de alguma forma te magoei.
— Se? — interrompeu ela, ainda num tom ríspido. — Tens dúvidas?
Ele levantou as mãos em sinal de trégua.
— Ok, Rachel, eu magoei-te. Estou a pedir-te desculpa.
— As desculpas não se pedem, evitam-se!
Gabriel começou a perder a paciência.
— Que queres que faça? Estou a admitir a minha culpa. Tu desculpas ou não. Que raio! Também não cometi nenhum crime.
Rachel não disse nada, nem alterou o semblante fechado. Ao invés, levantou-se do sofá e caminhou até ao bar.
— Posso? — perguntou, apontando para a garrafa de whisky dezoito anos. Ele anuiu, observando-a atento. Ela encheu um terço do copo e bebeu um golo. Virou-se para a janela e olhou para o lago. — Não cometeste nenhum crime, é verdade. E posso desculpar-te, já que conseguiste assumir a culpa.
— Obrigado, senhora doutora juíza. — ripostou sarcástico.
Ela virou-se para ele, perdendo alguma da dureza no olhar.
— Que queres de mim? Não, não. Espera! A pergunta é: o que queres de nós? Foste tu quem enunciou um "nós" no outro dia.
— Gostava que pudéssemos voltar ao que tínhamos, antes da última vez que estivemos juntos.
— Amigos?
— Amigos que fazem sexo sem compromisso.
Rachel atirou-lhe uma gargalhada de desdém.
— Não vai acontecer, Gabriel. — Abanou a cabeça. — E lamento que depois de tudo, ainda penses que isso é possível.
— Ok. Então, o que propões?
Demonstrando que estava a pensar, caminhou até ao sofá e voltou a sentar-se no mesmo lugar. Bebeu mais um pouco do whisky e olhou para ele.
— Só tens duas possibilidades, comigo. Não. Tens três.
— E quais são?
— A mais simples, cada um segue o seu caminho e podemos cruzar-nos para interesses comuns nos negócios. Ou ficamos amigos, mas somente amigos, sem cenas íntimas e muito menos com sexo à mistura.
— E a terceira?
— Um compromisso. — afirmou, segura e sem dizer mais nada.
— Que tipo de compromisso?
— O tipo de compromisso que os casais têm.
— Casamento? — interrogou estupefacto.
— Não, nada disso. — negou ela, voltando a beber. — Assumimos uma relação amorosa. Se quiseres isso, então sim, o sexo volta à nossa amizade.
— Vives a quatro mil quilómetros. Não me parece que uma relação à distância faça sentido.
Rachel sorriu.
— A parte mais importante do meu trabalho em Seattle está feito. Não será necessário deslocar-me lá mais que uma vez por mês durante dois ou três dias. Tirando isso, as viagens profissionais são uma realidade idêntica à tua. — Encarou-o com toda a segurança, jogando todas as cartas. — Posso mudar-me para Toronto, se quiseres.
Foi a vez de Gabriel se levantar. Não respondeu, nem deu a entender o que pensava daquela hipótese. Dirigiu-se ao bar e encheu dois terços do copo com o mesmo whisky que ela. Parecia estar a ganhar tempo para responder. Sem se virar para ela, manteve os escudos levantados:
— Não estou à procura de uma relação amorosa.
— Não queres perder a tua independência para poderes continuar a recorrer a profissionais. — atirou-lhe, ouvindo a recusa daquilo que ela mais desejava.
— Não é por aí. Tu própria disseste que eu podia continuar a recorrer a elas, tendo...
— Não, se existisse um compromisso entre nós.
— Disseste-me que não te importavas, depois de termos ido para a cama um com o outro a primeira vez. Só colocaste como condição, dizer te se me envolvesse com uma mulher que não fosse paga pelo sexo.
— Nessa altura era diferente. — argumentou, levantando-se novamente. — Nessa altura, eu ainda não estava apaixonada por ti.
A confissão apanhou-o de surpresa. Claro que ele desconfiava, mas ouvi-la assumir isso era outra coisa. Virou-se para olhar para ela. Rachel permaneceu imóvel, aguardando a reacção dele. Gabriel sabia o que queria, mas iria evitar magoá-la com a única coisa que lhe poderia dizer naquele momento. Ficou calado.
— Ouviste o que te disse? Estou apaixonada por ti!
Gabriel pousou o copo. Como se poderia dourar a pílula? Como falar com eufemismo sabendo que a única resposta que tinha lhe iria partir o coração? Decidiu ser honesto e falou num tom terno:
— Gostava de poder dizer o mesmo de ti. — Notou-lhe o impacto da frase nos olhos. — Não penses que existe outra pessoa porque não existe. — Rachel desviou o olhar. — Como sempre te disse, sou um gajo complicado. Não te quero magoar. Já o fiz e foi sem intenção. Não quero perder a amiga. Podes não acreditar, mas és muito importante para mim.
Rachel assentiu. Não se mostrou zangada, apesar de no seu íntimo se sentir usada por ele, nas vezes que fizeram sexo. Porém, não era justo culpá-lo, uma vez que a iniciativa partira sempre dela.
— Será a amizade, então. — concluiu como quem chega a acordo para a contratação de um jogador. — Tu também és importante para mim. Por isso, vamos tentar fazer com isto resulte... a amizade.
Gabriel sorriu-lhe, mas não foi correspondido. Rachel voltou a ficar de pé, mas afastou-se quando ele se aproximou para selar a amizade com um abraço. Ele viu-a desviar-se para o balcão e recolher a pasta que lhe tornou a apontar.
— Lê e vê se concordas.
O ambiente ficou menos pesado. Gabriel abriu a pasta e começou a ler a proposta que os Redskins haviam delegado nela. Analisou o texto, concentrado nos pontos fundamentais. Era uma boa proposta, não era milionária, mas era muito interessante. E se Jean Michel se saísse bem, poderia obter uma renovação de contrato milionária.
— Tens margem de manobra?
— Se aceitares essa, eu recebo um bónus. — informou. — Aceita assim como está e partilho-o contigo. Setenta trinta.
— Quanto é o bónus? — Ela disse-lhe o valor. — Cinquenta cinquenta.
— Não é negociável, Gabriel. É uma proposta justa. Tu até aceitarias isso, se não te tivesse falado do bónus.
Ele fechou a pasta.
— Tudo bem. Irei apresentar o contrato ao Jean Michel.
Subitamente, ficaram a olhar-se sem nada para dizer. Tudo parecia tratado e arrumado, pelo que a reunião estava finalizada. Rachel sentiu-se a mais ali na casa dele.
— Posso convidar-te para jantar fora? — ofereceu, percebendo o desconforto dela. — Ou posso encomendar para comer aqui.
— Prefiro que me leves a jantar fora.
— Não é preciso ser na CN Tower pois não?
— Não. Qualquer sítio agradável serve.
Gabriel escolheu um restaurante simpático e acolhedor no Distillery Historic District. Não era muito longe donde vivia, o suficiente para levar os cavalos do Ferrari a passear. A noite estava amena e a chuva não voltara, daí que não se importasse de estacionar num parque automóvel junto à Parliament Street. Saíram do carro e caminharam pela Gristmill Lane, dando de caras com a escultura do coração vermelho, uma espécie de sinal do amor.
— Queres dizer-me alguma coisa? — interrogou Rachel a brincar com ele e apontando para o símbolo. — Não precisas responder.
Prosseguiram a caminhada numa passada calma. Viam-se muitas pessoas na rua, essencialmente jovens. Os habitantes de Toronto retornavam às actividades de lazer no exterior, agora que o Inverno se ia embora e as temperaturas eram mais altas. Duzentos metros mais à frente, mais precisamente na Trinity Street, entraram num restaurante e indicaram-lhes uma mesa.
O jantar foi amistoso. Colocaram de lado as divergências, os pontos de vista distintos acerca da relação deles e conversaram animados. Gabriel adorava estar com ela e lamentava que Rachel não vivesse mais perto para poderem repetir aquelas saídas de amigos. Por seu turno, Rachel adorava-o com toda a força do seu ser, uma paixão que lhe emanava de todas as células do corpo e que ela tentava controlar.
Rachel quis pagar o jantar. Era o mínimo, já chegava asilar em casa dele, cada vez que vinha à cidade. Para além disso, ia receber um belo prémio pela contratação de Jean Michel.
No entanto, Gabriel não deixou.
— Em Toronto pago eu. Quando te visitar em Seattle, pagas tu.
Ela sorriu, entusiasmada.
— Isso quer dizer que estás a pensar ir a Seattle?
— Fazes valer a pena? — Piscou-lhe o olho.
— Que queres dizer com isso?
— Estou a brincar, Rachel.
— Já falámos sobre isso, Gabriel.
— Rachel! Estou a brincar contigo.
Percorreram o mesmo caminho em sentido inverso até ao parque. O Ferrari aguardava-os no meio dos outros automóveis. Gabriel fez o papel de cavalheiro e abriu a porta para que Rachel entrasse. O burburinho dos ruídos citadinos foi quase apagado pelo roncar forte do motor, um rugido feroz da máquina sedenta de soltar os cavalos contidos e acelerar pelo asfalto. Claro que Gabriel se conteve e não excedeu os limites de velocidade, mesmo quase não havendo trânsito nas ruas.
Ao entrarem no apartamento, Rachel revelou-se cansada.
— Um último copo, antes de ir dormir? — ofereceu Gabriel num jeito sedutor.
— Dispenso. Quero ir descansar.
— Queres que passe pelo teu quarto para te aconchegar os lençóis? — sugeriu provocador.
Rachel riu-se, mas depois ficou séria.
— Não vai acontecer, Gabriel. Não quero que vás ao quarto, nem eu vou ao teu. Nem te vou enviar mensagens. Vou dormir. — Viu-o concordar, mas teve dúvidas que ele compreendesse. — Estou a falar a sério, Gabriel. Espero que não tentes nada.
— A porta tem chave, se achas que eu faria uma coisa dessas.
— Sei que não, desculpa.
Sorriram um para o outro. Gabriel esperou ter direito a um beijo, ela limitou-se a acenar-lhe um adeus.
Apesar de tudo, a situação irritava o, tinha vontade e ela não queria algo que já tinham feito com tanta naturalidade.
Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!
— Não queres chegar a um acordo?
Rachel fez uma expressão confusa.
— Acordo? Que acordo?
— Os trinta porcento do teu bónus.
— O que tem?
— Queres trocar pela noite comigo?
Ela ficou boquiaberta, meio ofendida.
— Vou fingir que não ouvi o que acabaste de propor.
— Não me podes culpar por tentar.
— Só não tens o que não queres. — Apontou-se da cabeça aos pés. — Tudo isto pode ser teu, mas com as minhas regras.
— Dorme bem, Rachel!
— Boa noite, Gabriel!
Não aconteceu nada naquela noite. Cada um dormiu no seu quarto. Na manhã seguinte, Gabriel acordou cedo, ao amanhecer, mais cedo que o costume. Saiu da cama nu como sempre e foi observar o nascer do Sol através da sua janela. Pensou em Rachel que dormia no quarto ao lado. Percebia o ponto de vista dela e compreendia que ela quisesse as coisas daquela forma para, tal como ele, não se magoar. Se queria ser entendido, Gabriel concluiu que tinha de aceitar aquilo. Lamentava que assim fosse, mas a culpa era duplamente dele, primeiro por não querer ter uma relação séria com ela, segundo por ter-se deixado ir no romantismo e, sem querer, tê-la apaixonado por si.
O duche foi retemperador e retirou aquela sonolência matinal, apesar de já não sentir sono. Barbeou-se sem dar por isso, a mente em pensamentos, distraído a olhar-se ao espelho sem se ver. Vestiu o fato elegante, perfumou-se, deu um último toque no cabelo e saiu do quarto.
Pelo silêncio, percebeu que Rachel ainda dormia. Foi até à sala, atravessou-a e parou na cozinha. Tirou um café expresso para si.
A claridade aumentara e o Sol brilhava intenso. A agenda de Gabriel estava preenchida para esse dia. Pegou no smartphone e consultou o email. Nesse instante, ouviu uma porta a abrir. Os passos de Rachel eram silenciosos, mas audíveis na ausência de qualquer som. Ela apareceu na sala, vestindo unicamente a camisa da noite anterior que lhe chegava às coxas nuas, com uma expressão estremunhada.
— Bom dia, Gabriel! Ouvi-te levantar...
— Bom dia, dorminhoca!
— Já estás pronto para sair? Eu adormeci. Vou só tomar um banho e...
— Não te preocupes. Fica à vontade. Eu tenho de ir para o escritório, mas tu podes ficar por aqui até ires para o aeroporto.
Ela sorriu ensonada.
— Obrigado.
— Quando saíres, é só bater a porta. — disse ele, pegando no casaco.
Rachel aproximou-se e ajeitou-lhe a gravata que já estava impecável. Olhou-o nos olhos. Não disseram nada, apenas sorriram um para o outro.
— Conto com a tua visita a Seattle?
Gabriel encolheu os ombros.
— Sempre que quiseres vir a Toronto, terei todo o gosto em que fiques cá em casa.
Despediram-se. Ele penteou-lhe os cabelos suavemente em desalinho com os dedos, enquanto ela fez uma carícia com a mão no rosto dele.
— Logo que tenha novidades do Jean Michel, telefono-te.
— Combinado. — Ela segurou-lhe na mão que lhe tocava o cabelo. — Quando chegar a Seattle, ligo-te. — Viu o sorriso torcido dele. — Desta vez, ligo mesmo.
— Faz boa viagem. E... mais uma vez... Desculpa, eu...
— Deixa, Gabriel. Viveremos com o que temos.
Afastaram-se. Gabriel pegou no casaco, soprou-lhe um beijo e saiu.