QUARTZO TITÂNIO · Capítulo 18

Capítulo XVIII

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Jean Michel nem cabia em si de felicidade, quando Gabriel lhe ligou a contar sobre a proposta que recebera dos Redskins. Traçou-lhe os pontos gerais do contrato e depois remeteu-lho por email.
Sem que o tivessem combinado, Gabriel e Rachel foram falando todos os dias, sempre com a justificação do contrato, mas acabando a falar noutras coisas. Algo mudara, algo se alterara nele. Já não sentia aquela necessidade defensiva de a afastar. Ao invés, sempre que tinha uns minutos, ligava a Rachel ou mandava-lhe uma mensagem. Por vezes, o objectivo era só ouvir a voz dela, um telefonema de dois minutos que em algumas ocasiões se transformavam em duas horas.
Os representantes dos Redskins quiseram fechar a assinatura do contrato com Jean Michel e convidaram-no a ir a Washington com o seu empresário. Gabriel teria preferido um encontro em Toronto, mas não tinha qualquer problema em ir à capital do país vizinho. Fora Rachel quem comunicara o convite para a reunião.
— Isto podia ser feito sem lá ir.
— Sabes como é, Gabriel. É um marcar de posição, demonstram que são eles o elo mais forte na negociação. Não iriam deslocar-se a Montreal ou a Toronto, nem fazer as coisas por correspondência. — Riu-se no outro lado da linha. — A menos que ele fosse o Tom Brady.
— Pelo menos, vou voltar a ver-te.
— Eu não vou estar presente, Gabriel. — disse ela num tom lamentoso. — Tenho outros assuntos a tratar e não se justifica a viagem.
— Bolas. Gostava de te voltar a ver.
— Posso mandar-te uma foto. — sugeriu divertida.
— Só se for um nude. — ripostou no mesmo tom.
— Para quê? Nada que não tivesses já visto.
Houve um silêncio. Gabriel contou os dias que tinham passado desde que ela estivera em Toronto, cerca de uma semana. Parecia uma eternidade. Gostava verdadeiramente da companhia dela. Talvez decidisse começar a ajustar a sua agenda para uma visita a Seattle.
— Quando me pagarem o bónus, transfiro a tua parte. — informou, quebrando-lhe os pensamentos.
— Combinado.
A viagem a Washington resolveu-se num dia. Jean Michel viajou de Montreal e Gabriel de Toronto. Encontraram-se no aeroporto e seguiram para os escritórios da equipa de futebol americano. A reunião foi tranquila e bem-disposta, todos os pormenores ficaram acertados. Jean Michel quis ficar pela cidade mais uns dias, mas Gabriel regressou a Toronto nessa noite.
Todo aquele mês foi bastante tranquilo. Profissionalmente as coisas corriam bem, como sempre, e ele continuava a ganhar muito dinheiro. Como adepto de desporto, também não se podia queixar, tanto no hóquei como no basquetebol, Toronto avançara para os playoffs.
O contacto com Íris permanecia regular. Ela estava feliz, apesar da relação com Ashley não ser aquilo que ela gostaria que fosse. Porém, preferia saborear o que tinha, a pensar no que não tinha. Para além disso, surgira uma novidade que ela quis partilhar com ele por email, algo que também o deixaria contente.

"Olá Gabriel,
Aconteceu uma coisa incrível e inesperada que poderá fazer-me repensar o futuro. Como tu sabes, a minha ideia era vir estudar um ano para o Canadá e voltar a Portugal. Só que recebi uma proposta de emprego para trabalhar em Montreal. É exactamente na área para o qual estudei toda a minha vida e escusado será dizer que o ordenado será muito superior a qualquer possibilidade idêntica em Portugal. Fiquei muito feliz. A Ashley também adorou a ideia, se bem que ela ainda não saiba muito bem o que vai fazer a partir do início do Verão, oscilando entre a hipótese de arranjar um emprego cá ou regressar a Inglaterra. Eu amo-a, como tu também sabes, mas não posso fazer depender as decisões do meu futuro com base numa relação cheia de secretismo e que não me parece que ela algum dia venha a assumir. A parte negativa de tudo isto é a minha mãe. Já lhe contei e ela ficou muito feliz por mim e disse-me logo que deveria aproveitar. Mas, eu sei que me esconde a tristeza que vai sentir por eu continuar longe. Nada é perfeito. Seja como for, quis partilhá-lo contigo, não só porque és o meu melhor amigo, como acho que devo comunicar, através de ti, a minha intenção ao senhorio de permanecer nesta casa. E, claro, ele pode não estar na disposição de prolongar o arrendamento especial que me faz em atenção a ti. Compreenderei se ele quiser que eu saia no Verão. Tenta saber a perspectiva dele, uma vez que vou precisar de tempo para me mudar. E com isto tudo, já deves ter percebido que vou aceitar a oferta de emprego. Estou muito feliz. Será um estágio modestamente remunerado durante as aulas, mas depois passarei a trabalhar a tempo inteiro. Pedi só para me darem uns dias entre o fim das aulas e o início do contrato a tempo inteiro para ir a Portugal visitar a minha mãe. Espero que tenhas ficado feliz com a notícia. Eu sei que estás :) Beijinhos para ti. Amo-te! Íris (para ti, Arco-íris)"

Gabriel ficou muito satisfeito com a notícia. Já algumas vezes dera por si a pensar que daí a uns meses Íris regressaria em definitivo a Portugal e o oceano voltaria a estar entre eles. Assim, ela estaria a somente uma hora de avião, caso a quisesse visitar. Porque haveria de pensar nisso? Íris vivia em Montreal há mais de meio ano e ele só a visitara uma vez e no aproveitamento de uma viagem de negócios. Tinha de mudar isso, queria estar com ela mais vezes. Porém, lembrou-se do relato de ciúmes de Ashley. A relação entre as duas já era complicada, ele não queria causar problemas. E tinha a certeza que, apesar da forte amizade, Íris preferiria que ele ficasse longe, se isso significasse menos desentendimentos com Ashley.
No sossego solitário do seu apartamento, Gabriel decidiu responder ao email. Contudo, como iria dizer-lhe que o senhorio (que era ele próprio) não se importava que ela continuasse na casa, talvez fosse melhor só escrever no dia seguinte para não levantar suspeitas.
A solidão não o largava. No entanto, desde que falava regularmente com Rachel, a angústia desaparecera. Bom, não desaparecera totalmente, mas não dava sinais de ser tão pesada como antes.
Sem hesitar, sentou-se no sofá com o seu copo de whisky a um terço e pegou no telemóvel. Marcou o número de Rachel e aguardou o toque de chamar. Ouviu o sinal três vezes e depois, para sua surpresa, ela rejeitou a chamada. Que estranho. Teria sido engano? Voltou a marcar e ela voltou a rejeitar. Só por uma vez lhe fizera aquilo, consequência de estar aborrecida com ele. Não era o caso, por aqueles dias, estavam até a dar-se muito bem. Antes que tivesse oportunidade para tentar uma terceira vez, recebeu uma mensagem pelo WhatsApp:
"Desculpa, Gabriel. Agora não posso atender, estou ocupada. Depois falamos"
O "depois falamos" não aconteceu nessa noite, nem no dia seguinte. Gabriel também não insistiu, uma vez que deveria ser ela a devolver-lhe a chamada.
A situação era estranha. Ele recusava-se a encará-la como tal, mas não conseguia desligar-se da questão. Porque não o atendera e porque não devolvera a chamada? Precisava de desabafar e por isso recorreu ao seu terapeuta.
A primeira coisa que Phil lhe disse foi:
— Noto uma alteração na tua forma de encarar a vida. E fico satisfeito com isso. Sinal de que ainda há esperança para ti.
— Não estou a perceber. — ripostou Gabriel, sentando no lugar de sempre no sofá, diante de Phil na sua poltrona.
— O Gabriel de há uns tempos estaria a borrifar-se para isso. Aliás, seria mais provável seres tu a rejeitar a chamada e a afastá-la.
— Sim, talvez... Mas, isso não me esclarece em relação ao que se passa.
— E achas que eu sei?
— Podias ter uma teoria.
— Não faço ideia, Gabriel. Terá de ser ela a dizer-te.
Gabriel abanou a cabeça, confuso, desorientado.
— Não sei o que se passa, Phil. Gosto dela, mas não quero prender me a isso. Sei que gosta de mim. — Sorriu meio parvo. — Nós já fomos para a cama. Ela é maravilhosa. Não fica nada atrás das tipas que eu contrato.
— Não preciso de pormenores, Gabriel.
— A Rachel quer uma relação, mas eu não me sinto preparado para isso.
— Estás a ver? — questionou o terapeuta com ar de quem tem razão. — Antes, não estarias sequer a colocar essa hipótese. Aliás, acho que há uns meses nem estaríamos a ter esta conversa.
— Não sei o que vês diferente.
— Vejo que disseste que não te sentes preparado ao contrário do outro Gabriel, aquele que diria que ela queria, mas tu não.
— Eu gosto de estar com ela. Há muito tempo que não me sentia tão bem com uma mulher. — confessou sem conseguir encará-lo. — Só que... Continuo a achar que será efémero. Sei onde esse caminho leva e não preciso disso.
— Tu não sabes isso, Gabriel. Lá porque uma vez alguém te magoou muito, não quer dizer que a Rachel vá fazer o mesmo.
— Fico mais seguro, se não seguir esse caminho.
— Preferes o caminho da solidão e da angústia?
— Terei de encontrar um meio termo.
— Dá-lhe uma oportunidade, Gabriel. Sendo que, ao dar-lhe uma oportunidade, estarás a dar uma a ti também.
Gabriel sabia que estava diferente, uma diferença que se tinha vindo a acentuar nos últimos meses. Começava a estar farto da angústia, de uma vida sem ninguém com quem partilhar, das noites de sexo com profissionais pagas para isso. Dava por si a pensar na proposta de Rachel. Sim, nas últimas noites, na solidão do seu apartamento, do seu quarto, da sua cama, pensava como seria se ela vivesse ali consigo. E se tentassem? Será que ela estaria disposta a experimentar, viverem juntos um tempo para ver se resultava? Estaria ele sequer receptivo a isso? Não sabia porque tanto o queria como não.
Continuava a estranhar a rejeição do último telefonema e a ausência de notícias dela nos últimos dois dias. Que teria acontecido? Foi Rachel quem o esclareceu nessa noite.
O telefonema aconteceu quando Gabriel visionava a transmissão do jogo de basquetebol dos Raptors. Na sua sala, ele distraía a solidão e a angústia com o desporto na televisão. Pouco comera, não tinha fome, e fazia-se acompanhar do whisky. Ao ver que era ela quem ligava, atendeu de imediato ao mesmo tempo que cessou o som do jogo.
— Pensei que estivesses chateada comigo. — disse-lhe num lamento, sem procurar qualquer cobrança.
— Desculpa, mas na outra noite estava ocupada. — repetiu. — Ontem e hoje tive o tempo todo ocupado, muito stress... Só agora consegui alguma tranquilidade para te ligar.
— Tudo bem, não há problema.
— Estás bem?
— Posso saber o que te estava a ocupar na outra noite? — perguntou ignorando a curiosidade dela.
— Já falámos sobre isso, Gabriel. Para te responder a essas questões, a nossa relação teria de estar noutro nível.
Ele ia a concordar, mas hesitou e insistiu:
— Eu gostava de saber.
— O que achas que me estava a ocupar na outra noite?
— Não sei, Rachel. Por isso é que estou a perguntar.
— Acho que tens uma suspeita.
— Estavas com alguém?
— Gabriel... Volto a lembrar-te que a nossa relação de amizade não nos dá o direito de questionar esse assunto.
— Só consigo entender que me rejeitasses a chamada se estivesses com outro homem e não fosse conveniente atender-me. Noutra situação... terias atendido e dito de viva-voz o que escreveste na mensagem.
— Não tens o direito de me cobrar isso.
— Não estou a cobrar, Rachel. Estou a perguntar. Como teu amigo, estou a pedir que me digas a razão de...
— Estava com alguém. — afirmou, quase sem respirar. — Estava com uma pessoa que conheci nesse dia. Convidou-me para jantar. Tu ligaste durante o jantar.
— Ok. — suspirou Gabriel, sem demonstrar querer saber mais.
Por seu lado, Rachel sentiu-se a abrir a porta das confissões e decidiu atirar tudo cá para fora:
— Jantámos no hotel onde ele estava aqui em Seattle e depois bebemos um copo no bar. Ele convidou-me para subir ao quarto dele. E eu aceitei. Não passei a noite com ele, mas fizemos sexo. — Fez uma pausa para ouvir a reacção de Gabriel. Não houve. — Aconteceu, mas não é nada de... Olha, foi como os teus encontros com as prostitutas. Passámos um bom bocado, nada mais.
— Só comigo é que tem de haver um compromisso. — lembrou, evitando denunciar que estava magoado.
— Não significou nada, nem pretendo voltar a vê-lo. Para além disso, já fui para a cama contigo. Mais que uma vez. — Ouviu-a sorrir sem alegria. — Também tenho as minhas necessidades, Gabriel. Aconteceu e não me envergonho. Quantas vezes já tivestes prostitutas aí em casa, desde a última vez que aí estive?
Gabriel não respondeu. Ficara magoado, mas nem sabia muito bem com o quê. Não eram namorados, ela não o traíra. Que esperava ele? Que ela se tornasse freira?
— Ok. Eu só queria saber. — acabou por dizer, após pigarrear para aclarar a garganta.
— Nada mudou entre nós, Gabriel. Continuamos amigos. Não continuamos?
— Claro que sim.
O tom de voz dela desanuviou.
— E tu, como estás?
Gabriel respondeu num tom neutro, sentindo uma súbita vontade de desligar o telefone.
— Estou bem. Olha! Amanhã tenho uma reunião cedo. — mentiu. — Depois falamos. Beijinhos.
— Beiji...
Desligou.
Estava confirmado, não valia a pena. Rachel não valia as interrogações que ele colocara a si próprio, o equacionar da possibilidade de tentar uma relação com ela. Bolas, ainda nem avançara para a hipótese de serem um casal e ela já o desiludia. Mas... Que esperava ele? Ela já se lhe declarara. Fora ele quem a rejeitara.
Optou por não pensar mais no assunto. Também não ligou mais ao jogo, perdera completamente o interesse. Ao reparar no computador portátil sobre o balcão, lembrou-se que ainda não respondera a Íris.

"Olá Arco-íris,
Fiquei muito feliz com as notícias que me enviaste no último email. Não respondi antes porque quis falar com o meu amigo acerca do arrendamento do apartamento. Podes ficar descansada, ele disse que podes continuar aí o tempo que quiseres. É de facto uma óptima oportunidade. Percebo a tua questão em relação à tua mãe, a distância. Mas, o aumento da capacidade financeira também te permitirá ir mais vezes a Portugal, dependendo da tua disponibilidade, claro, ou podes patrocinar a vinda da tua mãe a Montreal. Tu és uma pessoa positiva e sei que verás o lado bom disso e deixarás que o lado mau se transforme em algo somente menos bom. Mudando de assunto. Tu sempre viste em mim um confidente. Espero que não te importes que os papéis se invertam. E, no final, se me quiseres dar a tua opinião, isso será bem-vindo. Acontece que há tempos conheci uma pessoa. Uma mulher que trabalha no mundo do desporto, tal como eu. Ficámos amigos e acabámos por nos aproximar muito. Envolvemo-nos intimamente, mas sem qualquer tipo de relacionamento, uma espécie de amigos com benefícios. Acontece que ela se apaixonou por mim, mas tu sabes como eu sou com os relacionamentos, já o partilhei contigo. Acabei por não a tratar da forma mais correcta e ela afastou-se. Há uns tempos, voltámos a aproximar-nos, mas apenas como amigos. Ela não quer que seja mais que isso, a menos que eu queira um compromisso, uma relação. Eu gosto muito dela. Não sei porquê, comecei mesmo a ponderar a hipótese de tentar, de voltar a ter algo parecido com amor na minha vida. Ela até está disposta a mudar-se para Toronto. Só que... Há pouco, em conversa com ela, confessou-me que estivera com outro homem. Nada sério, uma cena de sexo ocasional. Não a posso recriminar por isso, eu já o fiz também, depois de ter estado com ela. Mas... Não sei porquê, senti-me desiludido. E agora, tudo me parece absurdo, as ideias de assumir uma relação com ela, se valerá a pena, enfim... Vou continuar como até aqui, acho que se sofre menos. Precisava de desabafar um pouco e tu és a única pessoa com quem não tenho segredos. Se quiseres opinar sobre isto, estás à vontade. Por vezes, quem está de fora tem uma visão melhor. Beijinho muito grande para ti, Arco-íris. Gabriel"

Só depois de enviar é que reparou que não escrevera o "amo-te" que Íris lhe endereçara antes. Pensou em enviar-lhe nova mensagem só a dizer isso, mas acabou por deixar assim.
Íris respondeu-lhe no dia seguinte, ele recebeu o email a meio da tarde, quando ainda estava no escritório em Bay-Adelaide.

"Olá Gabriel,
Se as opiniões fossem boas, vendiam-se em vez de serem dadas :) Estou a brincar. Sinto-me lisonjeada que um homem experiente como tu se disponha a ouvir a opinião de uma miúda como eu. Em relação ao que me contaste, só te posso dizer que avances e não a deixes fugir. Olha para mim. Achas que me posso preocupar com esse tipo de coisas na minha relação com a Ashley? Ela continua com o namorado, sei que há sexo quase todas as vezes em que se encontram. Se fizesse depender disso a minha relação, nunca teríamos passado daquela primeira vez que fizemos amor. Não penses demasiado no futuro. Concentra-te nas coisas boas que essa tua amiga pode trazer à tua vida. Cenas de uma noite não fazem qualquer diferença. Por favor, não quero que fiques a pensar que sou uma depravada, mas acho que o sexo deveria ser visto como algo mais natural. Estamos a falar de algo que dá prazer. E se não houver prazer na vida... Acho que já percebeste onde quero chegar. Espero que depois de leres este email, pegues no telefone e lhe ligues. O amor é tão bonito. Não procures ser perfeito, tenta só ser como és, um homem maravilhoso. Vai com calma e deixa fluir, como eu faço com a Ashley. Sabes, um dia abri um livro numa livraria e li uma frase que nunca esqueci. Dizia "amo-te como sei, não como queres". O importante é haver amor porque o amor é uma ligação profunda entre dois seres. O resto são pormenores. Espero que a opinião da miúda tenha servido para alguma coisa :) Agora, mudando de assunto, muito obrigada ao teu amigo e a ti. Eu vou ganhar um bom ordenado, acho justo um aumento da renda. Fala-lhe nisso, por favor. Obrigado por tudo e por voltares a existir na minha vida. Depois quero saber novidades de ti e dela ;) Beijinhos da tua Arco-íris."

Gabriel ficou estarrecido com a maturidade de Íris. Ler a mensagem teve um efeito semelhante a abrir-lhe os olhos. Que diferença fazia o facto de Rachel ter tido um caso ocasional com um tipo qualquer? Não tinha nenhum compromisso com ela, nem ela com ele. Íris tinha razão, deveria aproveitar o amor que Rachel lhe queria dar.
Não seguiu totalmente o conselho de Íris, não ligou a Rachel logo depois de ler o email. Preferia fazê-lo na tranquilidade solitária do seu apartamento a uma hora mais tardia.
A noite primaveril convidava a ficar na varanda da sala a observar o lago negro a brilhar com o luar, parecendo que toda a sua imensidão se cobria por um manto prateado. O ruído citadino chegava-lhe aos ouvidos, vindo de longe. Gabriel sentiu uma paz interior saborosamente estranha. Retirou o telemóvel do bolso e escolheu o nome de Rachel nos favoritos dos contactos. Ela atendeu ao segundo toque.
— Já não estás chateado comigo? — questionou ao atender.
— Eu? Chateado? Não estou chateado contigo, Rachel.
— Ontem praticamente desligaste-me o telefone na cara.
— Não dei por isso. — mentiu. Ele ficara decepcionado com ela e desligou num impulso. — Se o fiz, desculpa. Mas, não estou chateado contigo.
— Ok.
— Que fazes?
— Ia jantar.
— A esta hora? — interrogou num tom humorado para quebrar algum gelo entre eles.
— Aqui são menos três horas...
Rachel falava num tom monocórdico, quase como se estivesse a fazer um frete. Talvez fosse cansaço, talvez estivesse farta dele.
Gabriel notou-o, mas evitou dar-lhe importância, respondendo:
— Eu sei.
— Podemos falar mais tarde?
— Claro. Liga quando quiseres, vou ficar à espera.
Guardou o aparelho novamente no bolso e sentou-se numa cadeira que trouxera do interior. Ficou a observar a noite com os pensamentos a vaguearem pela mente. Equacionou o que haveria de lhe dizer, o que realmente queria que acontecesse, se estava totalmente certo das hipóteses que se predispunha a considerar para o seu futuro. Não chegou a nenhuma certeza e regressou ao interior da sala, cerca de meia hora depois, uma vez que o frio aumentara e o expulsara da varanda.
A espera continuou. Será que ela se esquecera dele? Ou estaria novamente ocupada? Teve vontade de quebrar a espera, ligando-lhe, mas conteve-se.
A meia-noite já passara há muito, quando ela finalmente ligou.
— Pensei que te tivesses esquecido de mim.
— Ou talvez estivesses a pensar que eu estava novamente ocupada com um gajo qualquer. — atirou-lhe, cortante.
Gabriel ficou calado, não pela eventualidade de isso ter acontecido, mas pela surpresa de ela lhe ter adivinhado os pensamentos.
— Não, não estava. — acabou por dizer. — Isso é um assunto que não me diz respeito.
— Então, significa que não vais perguntar porque demorei tanto?
— Não tenho nada a ver com isso.
Ouviu-a rir do outro lado.
— Posso fazer-te uma pergunta, Gabriel?
— Força.
— Ficaste chateado por eu ter dormido com outro homem? Quero que sejas sincero.
— Tu não dormiste com ele, segundo me contaste.
— Sabes o que quero dizer.
— Não tenho o direito de ficar chateado, Rachel. Nós somos apenas amigos. — esclareceu ele. — Seria o mesmo que ficares chateada por eu contratar profissionais de sexo.
— Eu fico chateada... fiquei chateada. — confessou com voz séria. — Disse-te que não me importava, mas quando me disseste que ias estar com... Doeu. Tens razão, não temos o direito de sentir isso, mas doeu-me.
— Talvez tu tenhas algum direito.
— Como assim?
— Tu abriste-me o teu coração. Disseste o que sentias por mim...
— Não nessa altura, Gabriel. — corrigiu ela. A voz saía-lhe suave e doce. — Entre nós, tinha sido sexo ocasional.
— Tu disseste que estavas apaixonada por mim.
— Sim, depois da última vez. — confirmou sem problema. — Fazer sexo não significa que haja amor. Acho que sabes isso, não preciso de explicar. Aliás, tu melhor que ninguém o sabe. — contrapôs tranquila. — Só que... Aquela noite que tivemos no teu quarto... Para mim, aquilo foi amor. E a partir daí, as coisas mudaram. Já não dava para cenas ocasionais contigo. Sei que sofro menos, se ficarmos só amigos.
Gabriel escutava-a atento, sentado no sofá e envolto naquela solidão diária. Adorava que ela pudesse estar ali com ele, que pudessem estar a conversar, olhos nos olhos. Rachel estava a ser sincera com ele e não merecia que ele fosse menos com ela.
— Eu também não gostei que tivesses ido para a cama com outro homem.
— Porquê?
— Porquê?
— Sim, Gabriel. Porquê?
— Porque... Porque... — Porque é que não gostara? Percebeu que não conseguia ter uma resposta. Ou talvez tivesse, mas não soubesse expressar naquele momento. — Não sei. Só sei que não gostei.
Rachel entendeu e não insistiu numa explicação.
— A razão da minha demora teve a ver com trabalho. Ligaram-me por causa da mediação da renovação de contrato de um jogador de basebol.
— Não tenho nada com isso.
— Mas, estás mais aliviado por a razão não ter sido novamente sexo ocasional com um recém-conhecido.
— Sim, não te vou mentir. — confessou. — Mas, não tenho o direito de...
— Sabes que basta uma palavra tua, não sabes?
— Uma palavra minha?
— Sim, Gabriel. Basta dizeres e eu serei apenas tua. — Gabriel ficou em silêncio. Continuava a hesitar. Era aquela cena do queria e não queria. No outro lado houve uma esperança de retribuição ou de mudança de sentimentos dele em relação a ela. Nada. — Eu percebo. Desculpa, estar a insistir com parvoíces.
— Devias tirar umas férias.
A voz dela revelou confusão por ele fazer uma sugestão que em nada se relacionava com o que estavam a conversar.
— Porque dizes isso?
— Gostava de te convidar a passar uns dias comigo.
Ela sorriu num tom melodioso.
— Vá lá, Gabriel. Não vás por aí. Não vou entrar nesse jogo.
— Que jogo?
— Queres que vá aí passar uns dias para os partilharmos como amigos... coloridos.
Gabriel pigarreou para aclarar a voz. Esforçou-se para que a voz lhe saísse séria, colocada e sincera.
— Não, não é isso. Vem passar uns dias comigo, só pela companhia. Podemos dar uns passeios, conversar. Nada de sexo. Juro-te que não tentarei nada, nem terei segundas intenções.
— O meu coração continua aberto para ti, Gabriel. Se quiseres entrar nele e ficar, serei tua incondicionalmente.
— Eu sei, Rachel. E...
— E?
— Estás um passo à frente de qualquer outra mulher, nesse campo. — respondeu, vulnerável. — Agora, cabe-me a mim dar o outro passo. Não me sinto preparado para isso, daí que seja só pela amizade que te estou a convidar. Gostava mesmo muito que viesses, uma semana pelo menos, para estar contigo. Só estar contigo. Podes confiar.
— Eu sei.
— Que me dizes?
— Deixa-me organizar a minha vida para tirar uns dias e vou ter contigo a Toronto.

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