QUARTZO FUMADO · Capítulo 3

Capítulo III

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As luzes da rua já estavam acesas, pouco passava das cinco da tarde, o que nem era mau se pensarmos que em pleno Inverno já estavam acesas hora e meia antes. Não havia muito trânsito na estrada, no itinerário que separava o apartamento onde Mikhail vivia com a noiva e aquele para onde Ekaterina se dirigia conduzida pelo marido ao volante do Mercedes. Naquele Sábado, eles foram almoçar a casa do irmão e, durante a refeição, Ekaterina reparou como o marido conversava animado com os cunhados, revelador de como sentia necessidade de socializar num ambiente diferente ao ninho deles, onde o amor parecia esfriar todos os dias. Svetlana escutava-o com atenção, interagindo na conversa, enquanto Ekaterina via o irmão a dar atenção a Tiago por cortesia, mas com os olhos nela, olhares que ela retribuía com um sorriso de uma felicidade encenada, certa de que não enganaria Mikhail.
Aquelas mudanças de estados de alma do marido perturbavam na, pois deixavam-na consumir pela ideia de que a doença a tornara num fardo para ele. E o silêncio a que ele se fechou ao longo do trajecto avolumou aquela sensação.
Tiago quase parecia russo, ao comportar-se daquela maneira, longe do homem caloroso que ela conhecera, por quem se apaixonara e que continuava a amar intensamente após oito anos. Ela olhou para ele, enquanto conduzia. Ele sentiu-o e retribuiu o olhar, forçando o sorriso para parecer que estava tudo bem, mas Ekaterina sabia que não estava. Ele retomou a atenção para a estrada, para o trânsito escasso, o rosto sempre bem barbeado cheio de rugas que não escondiam os seus cinquenta anos, o cabelo grisalho com madeixas brancas, os óculos de armação pesada, o nariz aquilino, a pele mediterrânica num tom de bronze natural tão diferente da tez alva dela. Os olhos castanhos voltaram a observá-la.
— Que se passa? — questionou, percebendo que ela continuava a olhá-lo.
Ekaterina ia para abanar a cabeça e dizer um “nada” ou “está tudo bem”, mas o seu cérebro decidiu aproveitar a oportunidade:
— Acho que tudo isto está a ser maligno para ti também.
O uso da palavra “maligno” fora propositada, uma forma de colar aquela espécie de depressão dele ao seu tumor.
Desta vez, Tiago manteve os olhos na estrada.
— Está a ser mau para ambos, Ekaterina. — lembrou, quase como se achasse que se poderia comparar a ela no sofrimento. Teve o bom senso de não ficar por ali. — Claro que para ti é muito pior, eu sei.
— Nunca falamos sobre isso. Acho que o deveríamos fazer.
O semáforo ficou vermelho e eles ficaram parados atrás de uma carrinha Skoda com aquilo que parecia um casal com vários filhos no interior.
— De que queres falar? — questionou o marido, voltando a encará la. — Não gosto de falar sobre a tua doença, sinto que não te fará bem nenhum.
Ekaterina questionou-se se isso seria verdade ou uma desculpa dele para não abordar um tema que era manifestamente desconfortável para ele.
— É uma evidência incontornável. Não é por não falar no cancro que ele não existe.
Sim, não tinha dúvidas, palavras como “cancro”, “tumor” ou “maligno” eram desconfortáveis para Tiago. Também o eram para ela, mas com os dias decidira-se a aceitar o destino e a aproveitar o melhor possível o que lhe restava da vida.
— Seja como for, prefiro não falar nisso.
O automóvel retomou a marcha e Tiago o silêncio. Ekaterina sentiu a necessidade de o ouvir dizer que a amava, de confirmar todo o amor que ele sempre tivera por si, abater as dúvidas que a perturbavam, afastar o medo de que a doença, para além de ir matá-la, a faria ver o seu amor a morrer aos poucos diante dos seus olhos.
— Sinto que a minha doença te está a consumir. — Tiago não respondeu, mas suspirou agastado com o assunto. — Tu não és obrigado a suportar isto, o que tenho pela frente…
— Pára, Ekaterina! — exigiu. Tiago nunca a tratara por “Eka”, fizera-o ao início do namoro e ela pediu que não o fizesse, pois só o irmão a tratava assim. — Que queres que faça? És minha mulher.
As palavras atingiram-na como quem abre uma janela sem esperar o vento forte. Na boca dele, subitamente, ser sua mulher parecia um fardo. Ekaterina respirou fundo e consumou a finalidade de conduzir a conversa naquela direcção:
— Eu vou morrer, Tiago! — afirmou como se ele não o soubesse. Esperou outra reacção irritada, algo parecido com a forma aborrecida como o irmão lhe pedia para que se calasse, sempre que o lembrava que estava de facto a morrer. Porém, o marido manteve-se impávido com o olhar nos faróis traseiros do carro da frente. Ela continuou corajosa. — Isto não é justo para ti. Não te levaria a mal, se… sei lá… se quisesses… — Tornou a inspirar, o ar parecia ter desaparecido. — Não tens de estar comigo só porque sentes que tens essa obrigação. Não quero que sintas que tens de esperar que eu morra para refazeres a tua vida.
Era ali, era naquele momento que ela esperava que ele disparatasse perante tal ideia, se irritasse com ela por sequer sugerir que ele poderia querer outro cenário que não fosse permanecer a seu lado, talvez até a insultasse por achar que ele quereria isso. Tinha a certeza de que ele lhe diria que jamais se afastaria, que a amava com todas as forças do seu ser, que não pensava em refazer a sua vida porque quando ela morresse, ele morreria com ela, mesmo que continuasse a respirar.
O silêncio que se seguiu durou poucos segundos, mas para Ekaterina foram horas, até porque cada fracção de segundo lhe dava a entender que algo naquele filme estava a correr horrivelmente mal.
— Confesso que já pensei nisso. — acabou por dizer. Isso surpreendeu-a. Mesmo assim, imaginou que a seguir vinham as juras de amor, as… — E tenho andado a ganhar coragem para abordar o assunto contigo.
Ekaterina nem percebeu que ficou boquiaberta com o que ouvia. Tiago era incapaz de a encarar e disfarçava fingindo dar atenção ao asfalto. Porém, continuou a falar:
— Sinto que não sou capaz de continuar. Sei que deveria dizer o contrário, mas… Não sei até onde conseguirei manter-me a teu lado, quando… Para já, só tens pequenos mal-estares e eu já fico… — Suspirou e abanou a cabeça.
— Não fazia ideia… — sussurrou, mal encaixando o impacto do choque com a realidade.
Ele encarou-a.
— Agradeço-te que tenhas abordado o assunto. Confesso que não sei quando teria coragem de o fazer. Sinto que te estou a falhar em toda a linha, mas… Não consigo, Ekaterina, não consigo manter esta relação.
O balde não foi de água fria, foi de gelo, um gelo de arestas afiadas que lhe retalharam a alma e feriram o coração. Não foi capaz de dizer nada, evitou olhar para ele e virou o rosto para o lado oposto, ficando a observar as pessoas nos passeios, sentindo as lágrimas a escorrer pela face.
— Ekaterina. — chamou, ouvindo-a soluçar.
— Não digas mais nada, por favor. — balbuciou.
Ele tentou segurar-lhe a mão, mas ela enxotou-o como se fosse uma varejeira nojenta.
Não disseram mais nada no resto do percurso.
O apartamento onde o casal vivia situava-se num condomínio de luxo numa das zonas mais elitistas de São Petersburgo, um presente dos pais dela quando Ekaterina decidira aceitar o convite do namorado para viverem juntos. Logo que Tiago parou o automóvel no interior da garagem do prédio, ao lado do Lada que insistia em manter pelo valor sentimental, Ekaterina saiu sem esperar por ele. Caminhou imponente até ao elevador, limpando as lágrimas e esperando não se cruzar com nenhum vizinho, não que houvesse proximidade com eles, apenas não queria que ninguém a visse assim vulnerável. Não esperou pelo marido e deixou que as portas do elevador se fechassem, quando Tiago se aproximava, subindo ao décimo andar sozinha. Irritou-se com a lembrança que as chaves de casa estavam com ele e teve de aguardar a sua chegada como uma criança amuada junto da porta.
Tiago saiu do elevador como se nada tivesse acontecido, mas incapaz de a encarar. Dirigiu-se para a porta e abriu-a, dando passagem a Ekaterina.
O apartamento não era muito grande, o suficiente para um casal em início de relação que ambicionava ter filhos. O vestíbulo largo dava acesso ao corredor onde existiam duas portas, uma para a sala e outra para a cozinha. Ao fundo, longe das visitas, um pequeno átrio com mais três portas, cujos acessos pertenciam ao quarto de casal, à casa de banho geral e ao segundo quarto onde o projecto de ninho de uma criança fora suspenso meses antes.
Ekaterina avançou pela casa, largando a mala no móvel de apoio do vestíbulo. Tiago não a seguiu, limitando-se a observá-la. Ela atravessou o corredor e entrou no quarto de ambos. Despiu o sobretudo e atirou-o para cima da cama. As lágrimas aumentaram. Receando que o marido viesse atrás de si, refugiou-se na casa de banho privada do quarto. Sabia que ele só lhe poderia dar pena e isso ela odiava. Sentou-se no tampo da sanita, apoiou os cotovelos nas pernas e segurou a cabeça com os cabelos louros caídos escondendo-lhe o rosto. Sozinha, desabou num pranto incontrolável, soluçando e lamentando ter aberto a porta ao pássaro com a certeza estúpida de que ele não voaria para fora da gaiola. Seria isso que ela era para Tiago? Uma gaiola da qual ele queria fugir? Pelos vistos, parecia que sim.
Alguns minutos passados, o som de pancadas suaves na porta quebrou o ruído do choro. Ele conhecia-a bem e sabia que lhe deveria dar tempo para se recompor. Contudo, o tempo que ela precisava para se recompor daquilo era superior ao que teria de vida, daí que preferisse ignorar o marido.
Ao som das pancadas juntou-se a voz dele, meiga:
— Ekaterina? — Ela fingiu não ter ouvido e não respondeu. — Ekaterina, meu amor. Estás bem?
Amor? Como se atrevia ele a chamá-la assim?
— Estou óptima! — respondeu-lhe num tom carregado de ironia.
— Podes abrir a porta? — pediu ele, continuando gentil. — Precisamos de conversar.
Ela suspirou. Tinham mesmo?
— Dá-me uns minutos. — A voz dela já não tinha as marcas da ironia. — Já vou ter contigo à sala.
No silêncio, Ekaterina ouviu os passos pesados dele a afastar se. Sim, tinham de conversar, aquela conversa não poderia ficar por ali, apesar de saber o rumo que a esperava. De repente, sentiu-se como se aqueles oito anos não tivessem passado de um caso amoroso sem significado, um mero entendimento sexual, algo superficial que perante a fatalidade de uma doença incurável, o cabrão arrumava os tarecos e ia à vidinha dele. Recriminou-se por pensar nele naqueles termos, mas como poderia sentir outra coisa, senão raiva, pelo homem que descaradamente assumia que não pretendia continuar com ela, agora que não passava de uma condenada?
Levantou-se do assento improvisado. Olhou-se ao espelho, os olhos avermelhados pelo choro, o rosto riscado pelas lágrimas e a maquilhagem esborratada. Segurou o cabelo com ambas as mãos e prendeu-o num rabo-de-cavalo. Abriu a torneira e lavou o rosto. Observou-se por alguns segundos, continuava linda como sempre, uma beleza que escondia algo que a matava por dentro, que crescia sem controlo e que o máximo que lhe iria permitir seria travar o seu avanço através do sofrimento do tratamento numa luta inglória. Ela era médica, sabia os custos para o corpo e também sabia que puxaria as orelhas a qualquer paciente seu que tomasse a decisão que ela própria tomara para si. Respirou fundo.
Mesmo sabendo que não era o caso, abriu a porta da casa de banho devagar como se esperasse encontrar Tiago ali. Isso não aconteceu, ela sabia que ele respeitaria o seu pedido. Porém, ela também tinha outras certezas acerca dele que se haviam revelado uma mentira naquela tarde. O primeiro passo foi incerto, procurando avançar e tomar uma decisão ao mesmo tempo.
Tiago aguardava sentado no sofá da sala, aguardando por ela. Acendera unicamente o candeeiro lateral ao braço do sofá e mantivera a televisão desligada. Ekaterina entrou na maior divisão da casa com uma recordação estúpida, as primeiras discussões absurdas, em que ele acabava por a insultar em português e ela só mais tarde, quando já sabia falar bastante bem o idioma de Camões, viria a perceber. Essas discussões eram migalhas na relação deles e, muitas vezes, serviam apenas para se atirarem um ao outro aos beijos e a resolver tudo na loucura sexual entre os lençóis. Aquilo que se lhe deparava, não tinha metade da desavença verbal desses tempos e jamais seria resolvida como ela adoraria.
— Desculpa! — foi a primeira coisa que lhe disse, levantando-se do sofá. — Sinto que isto só serve para te fazer sentir pior. Não quero fazer nada que te magoe.
Estás a falhar completamente.
— Não te preocupes. É bom que estejamos a ter esta conversa.
Eles conversavam sempre em russo, Tiago quase dava mostras de querer esquecer-se do seu idioma de origem. Curiosamente, sempre fora Ekaterina a insistir para que ele falasse português, que a ensinasse, ela gostava de falar a língua dele e congratulava-se por ter um nível de conhecimento de português suficiente para dialogar com qualquer compatriota de Tiago.
— Talvez eu não devesse ter assumido o que sentia.
Agora é tarde.
Ela fulminou-o com o olhar.
— Sabes bem que odeio mentiras. Já me chega pensar há quanto tempo te sentes assim e o tens escondido.
— Não achei justo que… Precisas de coisas que te deixem feliz, não que eu te fale nos meus problemas.
— Quando nos juntámos, pensei que tivesse ficado claro que não havia o teu ou o meu, havia sempre o nosso, os teus problemas eram os meus problemas, mesmo que o teu problema seja eu.
— Tu não és o meu problema, Ekaterina.
— Mas o meu cancro é. — disparou ela, contendo a raiva.
— Não coloques isso assim.
Ekaterina deu alguns passos pela sala, mais para evitar encará-lo. Sentia-se vulnerável e, pela primeira vez desde que se conheciam, não via nele um porto seguro.
— Que pretendes fazer, Tiago?
— Como assim?
— Penso que não há dúvidas que o nosso casamento… — Não conseguiu evitar o soluço, nem controlar as lágrimas. Ele tentou aproximar-se, mas o gesto dela não deixou margem para duvidas de que o queria longe. — Esta relação acabou, Tiago! Se não posso contar contigo nos maus momentos, não te quero nos bons que pudéssemos vir a ter.
— E a viagem?
Ekaterina não conteve uma gargalhada de escárnio.
— A sério, Tiago? Achas que ainda iriamos fazer a viagem depois disto? — Abanou a cabeça incrédula. — Para além disso, desde que a planeámos que não sinto em ti o mínimo entusiasmo em regressares ao teu país.
Ele não a contrariou.
— Sei que é um desejo teu. Não me importo de te acompanhar. — explicou com naturalidade. — Disse-te que tenho dificuldade em lidar com a tua doença, mas não estou desesperado para me afastar de ti.
— Mas, se calhar, eu estou incapaz de continuar a suportar-te a meu lado. — balbuciou em lágrimas.
Mais uma vez, Tiago tentou aproximar-se. Ela tornou a rejeitá-lo. Ele respeitou a vontade dela e manteve um tom de voz meigo:
— Sei que tudo isto tem um grande impacto. Vai descansar um pouco. Eu trato do jantar. Ambos precisamos de uma boa noite de sono. Amanhã conversamos melhor sobre isto.
Ela ouviu-o com os olhos marejados cravados nele. Quando se calou, Ekaterina falou com uma frieza gélida na voz:
— Quero que saias desta casa. Se tens alguma consideração por mim, se te preocupas comigo, faz as malas e vai para um hotel.
— Não podes ficar sozinha, Ekaterina. — contrapôs, quase como se dialogasse com uma criança. — Podes precisar de…
— Não preciso de nada de ti. Neste momento, a tua presença é tão maligna quanto o cancro que me consome.
A frase foi dura, mais que aquilo que Ekaterina pretendia, mas não deixava de ser uma verdadeira representação do que sentia por ele naquele momento.
— Queres mesmo que vá?
A pergunta, para maior dor dela, não revelava qualquer tristeza, parecia mais alguém com ares de superioridade a perguntar se estava mesmo disposta a abdicar dele.
— Sim.
A voz de Ekaterina revelava-se mais segura, apesar de as lágrimas continuarem a escorrer pelo seu rosto.
— Queres que vá já?
— Por favor. — confirmou. — Compreendo se precisares de mais tempo, mas, se puderes ir já…
Tiago anuiu e virou-lhe as costas. Sem que soubesse explicar porquê, a sensação de Ekaterina era que tudo aquilo, o fim da relação, se tornara uma oportunidade que o marido… ex-companheiro não iria desperdiçar.
O apartamento ficou mergulhado num silêncio amargurado, uma amargura sentida em exclusivo por Ekaterina que se deixou ficar pelo sofá com o rosto escondido nas mãos e acalmando as lágrimas. Não se largava assim uma relação, ela sentia-lhe o fim como se lhe arrancassem um braço. Já Tiago dava sinais de tratar aquilo como se ela não passasse de um caso de uma noite sem significado.
A noite caíra por completo lá fora. A luz do candeeiro era insuficiente, mas Ekaterina sentia-se confortável na penumbra. Ao fim de uma quantidade de minutos que não quantificou, viu Tiago aparecer na porta da sala com duas malas.
— Depois, trato de vir buscar o resto.
Protegida pelas sombras, ela respondeu:
— Não precisas de ter pressa, as tuas coisas não me incomodam.
— Sou só eu, não é?
— Fica bem, Tiago. — despediu-se.
A luz do corredor iluminava-o. Ele sorriu-lhe numa postura conciliadora. Custava-lhe deixá-la, mas sentia ser o melhor caminho… para ele. Mesmo assim, mesmo sabendo como lidaria mal com as consequências do adoecimento dela, ofereceu:
— Se precisares de alguma coisa…
— Serás a última pessoa a quem ligarei. — respondeu cortante.
Nada mais havia a dizer.
Tiago desapareceu pelo corredor, transportando as malas. Ela ouviu os passos dele a cortar o silêncio, os movimentos a vestir o casaco, a porta a abrir, a porta a fechar… Ele fora mesmo embora.
No entanto, Ekaterina levantou-se do sofá e foi espreitar na entrada da sala, questionando se ele simulara a saída. Não, não simulara, deixara-a mesmo sozinha sem olhar para trás. Soluçou. Nova vaga de choro incontrolável.
Regressou ao sofá e pegou no telemóvel que deixara na mesinha de apoio. Procurou o número que queria e carregou no ecrã sobre o símbolo verde. Era tarde e teve consciência que talvez nem fosse correcto recorrer ao seu auxílio. Ouviu o som de chamar até a voz do irmão a atender.
— Mika! Aconteceu uma coisa…



Mikhail conduzia acelerado pelas ruas de São Petersburgo. A noite fria dava sinais de trazer gelo nos chuviscos, o que propiciava um piso escorregadio e perigoso perante a forma nervosa como ele conduzia o Porsche. A irmã tentara disfarçar, mas ele percebera-lhe o choro na voz, o fungar, as tremuras nas palavras. Quando a ouvira relatar resumidamente o que acontecera, disse-lhe que iria imediatamente ao seu encontro.
Svetlana não se mostrou particularmente agradada por ver o noivo sair de casa para uma noite chuvosa, ainda para mais tendo recusado a sua oferta para o acompanhar e deixando-a sozinha. Por muito que a relação das cunhadas fosse boa, se tivessem tornado amigas, naquela situação Mikhail sabia que a irmã só o queria a ele e mais ninguém. Svetlana adoptou uma postura neutra e apresentou-se compreensiva quando ele se despediu dela, vestindo o casaco atabalhoadamente, dando-lhe um beijo que mal lhe acertou nos lábios e procurando as chaves apressado.
Sim, ela não ficara nada satisfeita e, na verdade, aquilo nem era justo para Svetlana. Porém, Ekaterina era a sua irmã, o ser mais importante da sua vida. Sim, mesmo mais importante que a noiva, algo que ele jamais admitiria. E a irmã estava a morrer, não naquela noite, claro, mas infelizmente em breve. A noiva poderia ficar amuada, ele lamentava-o e iria compensá-la quando voltasse.
Estacionou na área de visitantes do condomínio. Nem sentiu a chuva que se tornara mais intensa. O prédio tinha segurança privada, mas o armário junto à entrada reconheceu-o e limitou-se a um cumprimento fogaz. Mikhail avançou pelo átrio e carregou múltiplas vezes no botão para chamar o elevador, consciente que não era por metralhar a seta ascendente que as portas se abririam mais depressa.
Logo que entrou no transporte, pressionou o botão correspondente ao piso da irmã e voltou a metralhar com o polegar o outro sinal de fechar as portas, apesar de o fecho e a abertura serem automáticos.
Naquele edifício deveriam viver dezenas de pessoas. Contudo a insonorização dos apartamentos era tal que quase parecia que ninguém ali vivia. No átrio do décimo piso reinava o silêncio. As paredes e chão marmoreado aumentavam a sensação de frio. Sem saber bem porquê, Mikhail pensou que o decorador do espaço poderia ter tido o discernimento de meter ali umas carpetes. Foi um pensamento fugaz que se desvaneceu assim que os seus olhos encontraram a porta do apartamento da irmã. Sem perder tempo, tocou na campainha e ouviu o ecoar ténue do som.
Os apartamentos eram insonorizados, Mikhail não ouviu um sonzinho que fosse, mas teve perfeita consciência da aproximação da irmã, do momento em que parou atrás da porta e espreitou para ver quem era. O abrir da porta confirmou-lhe que todo o timing na sua cabeça coincidira na perfeição com a realidade.
Ekaterina apareceu para lá da porta que se abria, envergando um pijama azul-claro de malha polar com uma coelhinha cor-de-rosa estampada na camisola. O cabelo louro vinha preso na nuca e o rosto revelava as pálpebras inchadas pelas lágrimas, bem como os olhos raiados pelo choro. Ele entrou e ela deixou-se despenhar nos seus braços. Mikhail apertou-a com força num abraço cheio de carinho e ternura.



A sala continuava iluminada pelo candeeiro de pé. O ambiente de penumbra era acolhedor. Mikhail estava sentado no sofá na ponta oposta ao candeeiro que iluminava principalmente as pernas do pijama de Ekaterina que se deitara ao comprido com a cabeça no colo do irmão. Ela observava o tecto, enquanto lhe relatou calmamente todos os desenvolvimentos, desde que saíra de casa do irmão com o mari… com o ex marido. Mikhail ouvia-a com atenção, observando os olhos dela, ora perdidos na recordação, ora a encarar os dele, e afagava-lhe o cabelo acima da testa. Por sua vez, Ekaterina deitara-se como se estivesse num gabinete psiquiátrico, estendida de barriga para cima e as mãos sobre a cintura com os dedos entrelaçados e a outra mão do irmão sobre as suas.
Mikhail guardou para si a vontade que tinha de partir todos os ossos do corpo do ex-cunhado. Porém, não segurou um “cabrão” perante o relato.
— Estou magoada, Mika, mas tenho de compreender o lado dele.
— Estás enganada, Eka. Ele é que deveria ter sido homenzinho. Cabia a ele compreender a situação e manter-se a teu lado. Cabrão de merda!
— Pára com isso, Mika! — pediu, olhando-o nos olhos. — E não penses sequer em ir falar com ele.
— Pouco teria a dizer-lhe.
— Sei o que lhe gostarias de dizer, Mika! — retorquiu com um sorriso torcido. — E nem falavas, pois não?
Mikhail remeteu-se ao silêncio.
Não conversaram nos minutos seguintes. Ekaterina fechou os olhos e desfrutou do conforto do colo do irmão. Ele sim, ele era o seu verdadeiro, eterno e incondicional porto de abrigo. Por seu turno, Mikhail permaneceu com as mãos no cabelo e nas dela, contemplando a paz no seu rosto.
Sem abrir os olhos e permanecendo imóvel, Ekaterina quebrou o momento com a sua voz suave:
— Agora terei de viajar sozinha.
Aquilo surpreendeu-o, pois julgara que a separação aniquilaria os planos de viajar até à terra de Tiago. Contudo, Mikhail também sabia que essa mesma viagem sempre fora um projecto dela e não do cabrão portuga que partira o coração da irmã.
— Como assim? Vais à mesma?
Ela abriu os olhos e o seu azul mergulhou no dos olhos dele. Sorriu terna, encontrando uma felicidade genuína, que a fazia esquecer tudo o resto, por ele estar ali.
— Claro, Mika. — confirmou como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Porque não haveria de ir?
— Sozinha?
Ela riu-se.
— A menos que queiras vir comigo… — Mal a frase lhe saiu da boca, a ideia pareceu fazer todo o sentido na sua cabeça. Mesmo assim, disfarçou. — Sim, irei sozinha.
Mikhail não desviou o olhar e a expressão do rosto revelava-se pensativa. Para surpresa de Ekaterina, leu-o como sempre fazia, na perfeição, e compreendeu que ele estava mesmo a ponderar a ideia que ela própria proferira como sendo estapafúrdia.
— Queres que vá contigo, Eka?
— Não te posso pedir isso, Mika. — rejeitou. — Não tenho o direito de te afastar da tua noiva.
Novo silêncio.
Ekaterina tornou a fechar os olhos, repousando e saboreando o momento. Seria maravilhoso que ele a acompanhasse. Agora que pensava nisso, percebia que ele era a pessoa ideal para partilhar aquela experiência, atravessar a Europa e conhecer o país para lá do pôr-do-sol, o pequeno território banhado pelas águas do Atlântico, onde a neve é rara e o calor era tão natural como o frio em São Petersburgo. De súbito, teve a noção que a viagem só faria mesmo sentido se fosse na companhia dele.
— Se eu te pedisse? — questionou, abrindo os olhos e encontrando os dele em si. — Se te pedisse que viesses comigo, tu vinhas?
Mikhail sorriu-lhe. Como se houvesse algum pedido que ela lhe pudesse fazer ao qual ele não concordasse. Porém…
— Talvez… Com uma condição.
— Diz.
— Quando voltarmos, tu inicias o tratamento.
Ekaterina desviou o olhar, virando o rosto para a televisão desligada em posição oposta ao irmão.
— Antes, não colocavas condições aos meus pedidos.
— Sabes bem porque o faço, Eka. — respondeu, rodando-lhe a cabeça com carinho, fazendo-a tornar a olhar para si. — Quero esgotar todas as hipóteses que possas ter.
— Não tenho hipóteses, Mika. — A voz saiu-lhe sofrida. — Estou condenada. O tratamento só me fará atravessar um suplício para poder adiar o inevitável.
Mikhail suspirou.
— Tu sabes bem que, independentemente da tua resposta, eu vou contigo.
Há muito tempo que Mikhail não lhe via um sorriso tão radioso no rosto. Ekaterina apertou-lhe a mão que cobria as suas.
— Eu amo-te, maninho!
— Também te amo, Eka!
Ela levantou-se do sofá, rodou sobre as almofadas e sentou-se ao lado dele. Cara a cara com ele, fez-lhe a promessa:
— Prometo que o farei por ti, Mika. Voltarei às consultas e farei os tratamentos que os médicos acharem melhor, seja radio ou quimioterapia.
— Quero que o faças por ti.
— Fá-lo-ei por nós.
E abraçou-o com muito amor e ternura.

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Fim do capítulo

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Próxima publicação 18/09/2026 às 21:00 Capítulo 11 · Capítulo XI

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