Capítulo IV
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A madrugada ia bem avançada, quando Mikhail voltou à estrada para regressar a casa. Oferecera-se para passar a noite com a irmã, mas Ekaterina rejeitara.
— Já chega o tempo que estarás longe da tua noiva, quando fores comigo.
Svetlana enviara-lhe algumas mensagens ao longo do serão, curiosa em saber se estava tudo bem, algo que Mikhail sabia não ser mais que formas de o lembrar que tinha uma noiva solitária em casa à sua espera. Enquanto conduzia, pensava na irmã, feliz por terem decidido fazer a viagem juntos. Ele nunca sentira o mesmo interesse de Ekaterina em viajar e muito menos em conhecer o país do pulha do ex-cunhado. Se lá no terceiro mundo que seria aquele país fossem todos como o Tiago…
Ekaterina era a aventureira, a apaixonada por passeios na natureza, por viagens, por conhecer novos locais. Nisso, Tiago era mais parecido consigo, pouco interessado em sair do seu mundinho. Sentiu a mágoa pela irmã ter desperdiçado aqueles anos com o portuga, quando poderia ter viajado muito mais, uma vez que nunca mais voltara a sair da Rússia desde que começaram a viver juntos. Recordou as muitas viagens que ela fizera, desde a adolescência até conhecer o marido. Mikhail acompanhara-a à Grécia, quando os pais a premiaram com essa viagem por se ter formado em Medicina. Mais tarde, Mikhail retribuiu-lhe a estadia na Grécia com a semana nas Maldivas, a sua prenda pela sua formatura. Riu sozinho com a lembrança. Mikhail com vinte e poucos anos não tinha interesse nenhum nas Maldivas, mas sabia que a irmã lá queria ir, por isso, quando os pais lhe perguntaram o destino de sonho, ele deu a morada de mais um sonho da irmã. Foram as únicas vezes que viajaram juntos. As restantes viagens de Ekaterina foram com amigos e amigas.
O apartamento tinha somente uma luz acesa no vestíbulo, tudo o resto se mergulhara na escuridão. Svetlana já deveria estar a dormir, desistindo de esperar por ele. Enquanto pendurava o casaco grosso no cabide e largava as chaves, Mikhail imaginava como a noiva iria reagir quando lhe contasse que iria estar ausente numa viagem de férias com a cunhada. Esperava que ela entendesse, uma vez que ele não iria mudar a sua decisão. Caminhou até à sala e acendeu a luz sem vontade de ir para a cama, teria preferido ficar a fazer companhia à irmã, pois custava-lhe horrores pensar que ela estava sozinha. Serviu-se de uma dose de vodka no pequeno bar e sentou-se na poltrona junto à janela coberta por um enorme reposteiro. Saboreou o álcool com a mente cansada sem conseguir esquecer a irmã. Se pudesse, envolvê-la-ia num abraço e nunca mais a largaria até que o último suspiro de vida se lhe soltasse dos lábios.
A tranquilidade da ausência de qualquer ruído foi interrompida pelo som de uma porta. Mikhail reconheceu o som dos passos ligeiros a aproximarem-se. Svetlana entrou na sala com o rosto estremunhado perante a luz, vestindo um robe semelhante a um quimono, mal apertado e com as abas tão afastadas que ele lhe viu o umbigo.
— Ouvi-te chegar. Estranhei a demora para chegares ao quarto.
Distraidamente, Mikhail olhou para a abertura do robe, para a tímida cova entre os pequenos seios. A natureza não fora minimente generosa com Svetlana nesse campo, ao contrário das muitas virtudes físicas e morais que a noiva evidenciava, de tal forma que, quando estava deitada nua, o seu peito parecia o de um rapazinho.
— Estou sem sono. Não quis ir dar voltas na cama e incomodar te.
Ela sentou-se no colo dele e beijou-lhe os lábios.
— Bem me podias incomodar, adoro quando me incomodas a meio da noite. — confidenciou com um sorriso provocador.
Mikhail abraçou-a e apertou-a contra si, tocando-lhe os lábios com os seus, num gesto mais virado para a ternura que para a paixão.
— Como está a Ekaterina?
— Desfeita. — respondeu, desviando o olhar. — Aquele cabrão abandonou-a. Se o apanho…
Svetlana acariciou-lhe o rosto, procurando acalmá-lo.
— A tua irmã certamente que não quereria que fizesses nenhum disparate, Mikhail.
— Eu sei, Lana. Mas, custa-me que ela esteja a sofrer.
— Eu percebo, meu amor.
Será que perceberia, quando ele lhe dissesse que iria substituir o crápula como companheiro de viagem de Ekaterina? Mikhail não considerou que fosse o momento ideal para abordar o assunto, nem queria quebrar o momento que se instalava entre eles, naquela poltrona.
— Estás muito tenso, querido. Deixa-me ajudar-te a relaxar.
— Que tens em mente? — questionou, puxando a fita que fechava o quimono e olhando para as pernas esguias dela.
— Talvez me possas levar para o quarto?!
Mikhail esticou-se para pousar o copo no bar. Svetlana levantou se do seu colo, fingindo fugir-lhe. Ele agarrou-a pelo robe, mas ela contorceu se qual bailarina e libertou-se, deixando-o com o quimono na mão. Svetlana parou perto da porta e atirou-lhe um sorriso provocador, mordiscando o lábio inferior e oferecendo-lhe a visão do seu corpo nu onde conservava somente as cuecas escuras rendadas. Ele avançou para ela e, desta vez, ela não fugiu. Mikhail pegou em Svetlana ao colo e carregou-a nos braços para o quarto, enquanto ela o beijava. Havia muita ternura, mas o fogo da paixão crescia intenso.
No quarto, onde a cama ainda quente os aguardava, Mikhail deitou a noiva no colchão, entre os lençóis abertos. Desfez-se das camisolas, ao mesmo tempo que Svetlana esticara os braços para as calças e lhe desapertava o fecho. Foi a vez de ele ficar tão nu quanto ela. Svetlana viu o seu olhar incidir nas cuecas, enquanto o via puxar os boxers para baixo, dando-lhe a entender o que queria. Ela não o decepcionou e puxou o tecido singelo pelas pernas.
Sem perderem tempo, enfiaram-se por baixo do lençol e do edredão quente. Mikhail não se conseguiu abstrair totalmente da novidade que tinha para ela. Porém, haveria tempo para isso. Agora, só queria retribuir lhe o prazer que ela lhe oferecia.
O amanhecer surgiu com um Sol mentiroso, uma manhã bonita e brilhante que entrava pelas janelas do apartamento escondendo o frio seco e cortante no exterior.
Mikhail acordou sozinho na cama. Era domingo, mas ele sabia que isso era indiferente à noiva que nunca conseguia ficar muito tempo entre os lençóis, quando a claridade entrava no quarto. Meio ensonado, nem percebera o que o fizera acordar ou porque acordara, pois ainda tinha sono. Porém, não fez nada para voltar a adormecer. Ao invés, rodou no colchão e procurou o telemóvel. Ao passar o dedo no ecrã, viu as horas e surpreendeu-se, a manhã estava à beira do fim. Abriu a app das mensagens e carregou na linha de diálogo que partilhava com a irmã, escrevendo:
“Bom dia, Eka!”
O programa mostrava-a online, os vistos denunciavam que ela lera a mensagem. A seguir, a indicação de que estava a escrever. E por fim a mensagem:
“Bom dia, Mika!”
“Como estás?”
“:(”
O emoji era revelador. Ele preparou-se para digitar, mas percebeu que ela continuava a escrever e aguardou.
“Não dormi nada. Sinto-me cansada. Já nem sei se é só efeito dos acontecimentos de ontem ou o bicho a fazer das suas”
O bicho era o tumor.
“Precisas de alguma coisa?”
“Não.”
“Queres que passe por aí?”
Ekaterina não respondeu e lançou outra questão:
“Já contaste à Svetlana que vais a Portugal comigo?”
“Ainda não. Cheguei muito tarde, como sabes”
“E esta manhã?”
“Acordei há cinco minutos, maninha”
“Preguiçoso :)”
Ele retribuiu-lhe com um emoji zangado e outro a rir. A seguir, digitou um convite:
“Vem almoçar connosco”
“Não me apetece sair de casa”
“Então, passo por aí à tarde”
“Não, Mika. Hoje não. Fica com a tua noiva, fala com a Svetlana e certifica-te que ela não fica aborrecida por vires comigo”
“Porque haveria de ficar?”
“Faz-me a vontade, maninho. Toma atenção aos sentimentos dela. Imagina o que seria se ela tivesse um irmão e fosse viajar com ele e te deixasse sozinho”
Mikhail não via nisso qualquer problema.
Após um duche quente rápido e a escolha de uma roupa simples de quem não pretendia sair de casa, Mikhail saiu do quarto curioso com o que Svetlana estaria a fazer. Foi encontrá-la na sala, sentada à mesa de refeições, defronte do portátil, a aproveitar o tempo livre para adiantar alguns assuntos de trabalho.
— Bom dia, dorminhoco.
Ele aproximou-se e beijou-lhe os lábios.
— Bom dia, amor!
Svetlana retomou a atenção no ecrã do computador. Mikhail permitiu-se a um momento de contemplação, adorava vê-la de óculos, tornava-a ainda mais sensual que o habitual, mesmo que a indumentária fosse uma camisola larga e umas calças de fato-de-treino.
— Ocupada?
— A adiantar umas coisas. — respondeu. Tornou a olhar para ele. — Porquê?
— Tenho uma coisa para te contar.
Num acto reflexo, Svetlana baixou o ecrã e retirou os óculos, uma vez que as lentes lhe causavam confusão para ver mais longe.
— Diz. — pediu com toda a atenção nele.
Mikhail encostou-se às costas do sofá diante dela. De repente, pareceu tomar consciência que aquilo não seria assim tão fácil como ele julgara.
— O Tiago deixou a minha irmã. — começou, vendo o ar confuso no rosto da noiva, aquilo não era nada que ela já não soubesse. — Ela ficou de rastos. Estava lavada em lágrimas, quando cheguei. — Socou a própria mão. — Se o gajo me aparece à frente…
— Não penses nisso, Mikhail. Sei como ficas quando alguém destrata a tua irmã. Mas, esse assunto é só entre eles.
Mikhail fez um gesto semelhante a enxotar uma mosca e passou ao assunto mais sensível.
— Claro que, com isto, ele já não vai viajar com a Ekaterina.
— E ela vai? — A questão de Svetlana veio acompanhada de estupfacção. — Sozinha?
— Sim, ela disse que iria na mesma. — confirmou Mikhail. — É um desejo dela, há muito tempo que quer lá ir. E agora… Bom, não está em posição de adiar planos.
— Parece-me errado que ela o faça, mas não me diz respeito.
Pois, mas quando eu te disser que…
— Eu ofereci-me para ir com ela.
Svetlana não disse nada, limitando-se a ficar a olhar para Mikhail. Encolheu os ombros e abanou a cabeça. Ele não disse nada, aguardando as palavras que ela lhe atiraria. Porém, a noiva revelou uma calma surpreendente.
— Não posso dizer que esteja surpreendida. — acabou por dizer. — Sei bem como colocas a tua irmã à frente de tudo na tua vida. — Havia um tom de crítica subjacente, Mikhail fingiu não reparar. — Nem vou dizer mais nada.
— Isso deixa-te chateada? — perguntou perante o óbvio.
A resposta trouxe um sorriso torcido, mas as palavras não acompanharam a possível amargura que a novidade provocara em Svetlana:
— Eu compreendo que o faças, Mikhail. Ela está doente. Tu queres estar com ela. Desde que sabemos do canc… Bom, desde que sabemos disso que tu aproveitas todas as oportunidades para estar com ela. É compreensível e eu percebo, mesmo que algumas vezes me sinta colocada de lado.
— Lana…
— Espera! Por favor, meu amor, não é uma crítica ou lamento, é apenas um desabafo. — O tom de voz dela era meigo, revelador que não pretendia fazer daquilo um desentendimento. — Estou a dizer que não levo a mal que o queiras fazer. Mas, por favor, não esperes que fique feliz em ver o meu noivo a ir de férias e a deixar-me sozinha.
Mikhail aproximou-se, puxou uma cadeira e sentou-se diante dela.
— Acredita que tenho noção do que significa para ti. Nem sequer é justo e admiro a forma como o estás a encarar.
— Como se tivesse outro remédio.
— Podias barafustar, refilar, discutir. — sugeriu, colocando uma mão na perna dela. — E eu não te amaria uma gota menos que aquilo que te amo, se o fizesses.
— É por amor que o faço. Sabes bem o quanto te amo, Mikhail.
— Prometo que te compenso.
— Não precisas de me compensar. — recusou, sorrindo. Beijou-o. — É justo que queiras aproveitar o tempo com ela perante… Enfim, perante a fatalidade que ninguém merece. E a Ekaterina muito menos.
Os pais de Mikhail e Ekaterina nunca concordaram com a ideia de ela viajar para Portugal, mesmo quando os planos ainda incluíam o marido. Quando lamentaram a separação, deram por certa a anulação da viagem e, perante a constatação que isso não iria acontecer, revelaram forte oposição a que a filha mantivesse os planos e ainda culparam o filho por se ter oferecido para a acompanhar, como se o contrário tivesse evitado que Ekaterina fosse sozinha. Por vezes, eles revelavam conhecer muito pouco os filhos.
No entanto, todos os planos quase se goraram, a menos de um mês da partida, quando Ekaterina teve uma crise de dores, numa altura em que julgara estar a adaptar-se ao “bicho”. Acontecera num dos últimos dias de serviço como médica, numa reunião com colegas, uma espécie de despedida de médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar que lhe eram próximos e que nutriam verdadeira admiração por ela. Estava a ser um fim de manhã normal, quando Ekaterina sentiu que algo não estava bem. Foram dores tão intensas que ela desmaiou e teve de ficar internada.
O colega que fazia o acompanhamento do seu estado de saúde tentou demovê-la da sua resistência ao tratamento e procurou convencê la a desistir da viagem. Não teve sucesso em ambas.
Quando soube do sucedido, Tiago tentou visitá-la, mas Ekaterina recusou a presença dele. O ex-marido não se deslocara ao hospital, ligara lhe para o telemóvel e ela atendeu-o, mesmo que fosse a última pessoa com quem queria falar. Conversaram poucos minutos com cordialidade, mas a intransigência dela manteve-se. E talvez tentando recair nas boas graças da família, sugeriu que o melhor para ela seria desistir dos planos de ir a Portugal. Ekaterina desligou-lhe o telemóvel na cara.
A presença mais maçadora a visitá-la foram os pais, os quais repetiam incessantemente que ela anulasse a ida a Lisboa e tivesse a noção do disparate que era submeter-se a voos longos e a uma estadia tão longe de casa. Ekaterina aturou-os por não ter outro remédio e depois pediu ao médico que lhes barrasse a repetição da visita com o argumento de que ela precisava de descansar.
Svetlana também a visitou, se bem que Ekaterina notava que ela o fazia mais para estar algum tempo na companhia do noivo que não largava a irmã que propriamente por preocupação para com a cunhada. Evitou o assunto “viagem a Portugal”, já tinham tido oportunidade de falar sobre isso, no primeiro reencontro após Svetlana saber que o noivo iria com ela. Nessa altura, houve pedidos de desculpa e compreensão que chegasse.
Mikhail receava a morte da irmã desde o primeiro minuto que se seguiu a ela lhe contar que estava doente. Porém, aquele episódio deixara o em pânico e permaneceu no hospital tanto tempo quanto lhe era permitido ao lado da cama dela.
Ekaterina ficou hospitalizada três dias, altura em que recebeu alta após uma bateria de exames. O irmão quis que ela fosse para sua casa.
— O que pensa a Svetlana disso?
Perante a pergunta, ele hesitou e ela percebeu que a cunhada nem sequer fora consultada.
— Prefiro ficar em minha casa, Mika.
— Mas se…
— Terei sempre o telemóvel à mão, Mika.
— Vá lá, Eka.
— Não.
Felizmente, o acontecimento não se repetiu, muito por causa da mudança da medicação e o suporte dos analgésicos que o colega lhe receitara. E no início do Verão, o tão esperado dia chegava.
— Já chega o tempo que estarás longe da tua noiva, quando fores comigo.
Svetlana enviara-lhe algumas mensagens ao longo do serão, curiosa em saber se estava tudo bem, algo que Mikhail sabia não ser mais que formas de o lembrar que tinha uma noiva solitária em casa à sua espera. Enquanto conduzia, pensava na irmã, feliz por terem decidido fazer a viagem juntos. Ele nunca sentira o mesmo interesse de Ekaterina em viajar e muito menos em conhecer o país do pulha do ex-cunhado. Se lá no terceiro mundo que seria aquele país fossem todos como o Tiago…
Ekaterina era a aventureira, a apaixonada por passeios na natureza, por viagens, por conhecer novos locais. Nisso, Tiago era mais parecido consigo, pouco interessado em sair do seu mundinho. Sentiu a mágoa pela irmã ter desperdiçado aqueles anos com o portuga, quando poderia ter viajado muito mais, uma vez que nunca mais voltara a sair da Rússia desde que começaram a viver juntos. Recordou as muitas viagens que ela fizera, desde a adolescência até conhecer o marido. Mikhail acompanhara-a à Grécia, quando os pais a premiaram com essa viagem por se ter formado em Medicina. Mais tarde, Mikhail retribuiu-lhe a estadia na Grécia com a semana nas Maldivas, a sua prenda pela sua formatura. Riu sozinho com a lembrança. Mikhail com vinte e poucos anos não tinha interesse nenhum nas Maldivas, mas sabia que a irmã lá queria ir, por isso, quando os pais lhe perguntaram o destino de sonho, ele deu a morada de mais um sonho da irmã. Foram as únicas vezes que viajaram juntos. As restantes viagens de Ekaterina foram com amigos e amigas.
O apartamento tinha somente uma luz acesa no vestíbulo, tudo o resto se mergulhara na escuridão. Svetlana já deveria estar a dormir, desistindo de esperar por ele. Enquanto pendurava o casaco grosso no cabide e largava as chaves, Mikhail imaginava como a noiva iria reagir quando lhe contasse que iria estar ausente numa viagem de férias com a cunhada. Esperava que ela entendesse, uma vez que ele não iria mudar a sua decisão. Caminhou até à sala e acendeu a luz sem vontade de ir para a cama, teria preferido ficar a fazer companhia à irmã, pois custava-lhe horrores pensar que ela estava sozinha. Serviu-se de uma dose de vodka no pequeno bar e sentou-se na poltrona junto à janela coberta por um enorme reposteiro. Saboreou o álcool com a mente cansada sem conseguir esquecer a irmã. Se pudesse, envolvê-la-ia num abraço e nunca mais a largaria até que o último suspiro de vida se lhe soltasse dos lábios.
A tranquilidade da ausência de qualquer ruído foi interrompida pelo som de uma porta. Mikhail reconheceu o som dos passos ligeiros a aproximarem-se. Svetlana entrou na sala com o rosto estremunhado perante a luz, vestindo um robe semelhante a um quimono, mal apertado e com as abas tão afastadas que ele lhe viu o umbigo.
— Ouvi-te chegar. Estranhei a demora para chegares ao quarto.
Distraidamente, Mikhail olhou para a abertura do robe, para a tímida cova entre os pequenos seios. A natureza não fora minimente generosa com Svetlana nesse campo, ao contrário das muitas virtudes físicas e morais que a noiva evidenciava, de tal forma que, quando estava deitada nua, o seu peito parecia o de um rapazinho.
— Estou sem sono. Não quis ir dar voltas na cama e incomodar te.
Ela sentou-se no colo dele e beijou-lhe os lábios.
— Bem me podias incomodar, adoro quando me incomodas a meio da noite. — confidenciou com um sorriso provocador.
Mikhail abraçou-a e apertou-a contra si, tocando-lhe os lábios com os seus, num gesto mais virado para a ternura que para a paixão.
— Como está a Ekaterina?
— Desfeita. — respondeu, desviando o olhar. — Aquele cabrão abandonou-a. Se o apanho…
Svetlana acariciou-lhe o rosto, procurando acalmá-lo.
— A tua irmã certamente que não quereria que fizesses nenhum disparate, Mikhail.
— Eu sei, Lana. Mas, custa-me que ela esteja a sofrer.
— Eu percebo, meu amor.
Será que perceberia, quando ele lhe dissesse que iria substituir o crápula como companheiro de viagem de Ekaterina? Mikhail não considerou que fosse o momento ideal para abordar o assunto, nem queria quebrar o momento que se instalava entre eles, naquela poltrona.
— Estás muito tenso, querido. Deixa-me ajudar-te a relaxar.
— Que tens em mente? — questionou, puxando a fita que fechava o quimono e olhando para as pernas esguias dela.
— Talvez me possas levar para o quarto?!
Mikhail esticou-se para pousar o copo no bar. Svetlana levantou se do seu colo, fingindo fugir-lhe. Ele agarrou-a pelo robe, mas ela contorceu se qual bailarina e libertou-se, deixando-o com o quimono na mão. Svetlana parou perto da porta e atirou-lhe um sorriso provocador, mordiscando o lábio inferior e oferecendo-lhe a visão do seu corpo nu onde conservava somente as cuecas escuras rendadas. Ele avançou para ela e, desta vez, ela não fugiu. Mikhail pegou em Svetlana ao colo e carregou-a nos braços para o quarto, enquanto ela o beijava. Havia muita ternura, mas o fogo da paixão crescia intenso.
No quarto, onde a cama ainda quente os aguardava, Mikhail deitou a noiva no colchão, entre os lençóis abertos. Desfez-se das camisolas, ao mesmo tempo que Svetlana esticara os braços para as calças e lhe desapertava o fecho. Foi a vez de ele ficar tão nu quanto ela. Svetlana viu o seu olhar incidir nas cuecas, enquanto o via puxar os boxers para baixo, dando-lhe a entender o que queria. Ela não o decepcionou e puxou o tecido singelo pelas pernas.
Sem perderem tempo, enfiaram-se por baixo do lençol e do edredão quente. Mikhail não se conseguiu abstrair totalmente da novidade que tinha para ela. Porém, haveria tempo para isso. Agora, só queria retribuir lhe o prazer que ela lhe oferecia.
O amanhecer surgiu com um Sol mentiroso, uma manhã bonita e brilhante que entrava pelas janelas do apartamento escondendo o frio seco e cortante no exterior.
Mikhail acordou sozinho na cama. Era domingo, mas ele sabia que isso era indiferente à noiva que nunca conseguia ficar muito tempo entre os lençóis, quando a claridade entrava no quarto. Meio ensonado, nem percebera o que o fizera acordar ou porque acordara, pois ainda tinha sono. Porém, não fez nada para voltar a adormecer. Ao invés, rodou no colchão e procurou o telemóvel. Ao passar o dedo no ecrã, viu as horas e surpreendeu-se, a manhã estava à beira do fim. Abriu a app das mensagens e carregou na linha de diálogo que partilhava com a irmã, escrevendo:
“Bom dia, Eka!”
O programa mostrava-a online, os vistos denunciavam que ela lera a mensagem. A seguir, a indicação de que estava a escrever. E por fim a mensagem:
“Bom dia, Mika!”
“Como estás?”
“:(”
O emoji era revelador. Ele preparou-se para digitar, mas percebeu que ela continuava a escrever e aguardou.
“Não dormi nada. Sinto-me cansada. Já nem sei se é só efeito dos acontecimentos de ontem ou o bicho a fazer das suas”
O bicho era o tumor.
“Precisas de alguma coisa?”
“Não.”
“Queres que passe por aí?”
Ekaterina não respondeu e lançou outra questão:
“Já contaste à Svetlana que vais a Portugal comigo?”
“Ainda não. Cheguei muito tarde, como sabes”
“E esta manhã?”
“Acordei há cinco minutos, maninha”
“Preguiçoso :)”
Ele retribuiu-lhe com um emoji zangado e outro a rir. A seguir, digitou um convite:
“Vem almoçar connosco”
“Não me apetece sair de casa”
“Então, passo por aí à tarde”
“Não, Mika. Hoje não. Fica com a tua noiva, fala com a Svetlana e certifica-te que ela não fica aborrecida por vires comigo”
“Porque haveria de ficar?”
“Faz-me a vontade, maninho. Toma atenção aos sentimentos dela. Imagina o que seria se ela tivesse um irmão e fosse viajar com ele e te deixasse sozinho”
Mikhail não via nisso qualquer problema.
Após um duche quente rápido e a escolha de uma roupa simples de quem não pretendia sair de casa, Mikhail saiu do quarto curioso com o que Svetlana estaria a fazer. Foi encontrá-la na sala, sentada à mesa de refeições, defronte do portátil, a aproveitar o tempo livre para adiantar alguns assuntos de trabalho.
— Bom dia, dorminhoco.
Ele aproximou-se e beijou-lhe os lábios.
— Bom dia, amor!
Svetlana retomou a atenção no ecrã do computador. Mikhail permitiu-se a um momento de contemplação, adorava vê-la de óculos, tornava-a ainda mais sensual que o habitual, mesmo que a indumentária fosse uma camisola larga e umas calças de fato-de-treino.
— Ocupada?
— A adiantar umas coisas. — respondeu. Tornou a olhar para ele. — Porquê?
— Tenho uma coisa para te contar.
Num acto reflexo, Svetlana baixou o ecrã e retirou os óculos, uma vez que as lentes lhe causavam confusão para ver mais longe.
— Diz. — pediu com toda a atenção nele.
Mikhail encostou-se às costas do sofá diante dela. De repente, pareceu tomar consciência que aquilo não seria assim tão fácil como ele julgara.
— O Tiago deixou a minha irmã. — começou, vendo o ar confuso no rosto da noiva, aquilo não era nada que ela já não soubesse. — Ela ficou de rastos. Estava lavada em lágrimas, quando cheguei. — Socou a própria mão. — Se o gajo me aparece à frente…
— Não penses nisso, Mikhail. Sei como ficas quando alguém destrata a tua irmã. Mas, esse assunto é só entre eles.
Mikhail fez um gesto semelhante a enxotar uma mosca e passou ao assunto mais sensível.
— Claro que, com isto, ele já não vai viajar com a Ekaterina.
— E ela vai? — A questão de Svetlana veio acompanhada de estupfacção. — Sozinha?
— Sim, ela disse que iria na mesma. — confirmou Mikhail. — É um desejo dela, há muito tempo que quer lá ir. E agora… Bom, não está em posição de adiar planos.
— Parece-me errado que ela o faça, mas não me diz respeito.
Pois, mas quando eu te disser que…
— Eu ofereci-me para ir com ela.
Svetlana não disse nada, limitando-se a ficar a olhar para Mikhail. Encolheu os ombros e abanou a cabeça. Ele não disse nada, aguardando as palavras que ela lhe atiraria. Porém, a noiva revelou uma calma surpreendente.
— Não posso dizer que esteja surpreendida. — acabou por dizer. — Sei bem como colocas a tua irmã à frente de tudo na tua vida. — Havia um tom de crítica subjacente, Mikhail fingiu não reparar. — Nem vou dizer mais nada.
— Isso deixa-te chateada? — perguntou perante o óbvio.
A resposta trouxe um sorriso torcido, mas as palavras não acompanharam a possível amargura que a novidade provocara em Svetlana:
— Eu compreendo que o faças, Mikhail. Ela está doente. Tu queres estar com ela. Desde que sabemos do canc… Bom, desde que sabemos disso que tu aproveitas todas as oportunidades para estar com ela. É compreensível e eu percebo, mesmo que algumas vezes me sinta colocada de lado.
— Lana…
— Espera! Por favor, meu amor, não é uma crítica ou lamento, é apenas um desabafo. — O tom de voz dela era meigo, revelador que não pretendia fazer daquilo um desentendimento. — Estou a dizer que não levo a mal que o queiras fazer. Mas, por favor, não esperes que fique feliz em ver o meu noivo a ir de férias e a deixar-me sozinha.
Mikhail aproximou-se, puxou uma cadeira e sentou-se diante dela.
— Acredita que tenho noção do que significa para ti. Nem sequer é justo e admiro a forma como o estás a encarar.
— Como se tivesse outro remédio.
— Podias barafustar, refilar, discutir. — sugeriu, colocando uma mão na perna dela. — E eu não te amaria uma gota menos que aquilo que te amo, se o fizesses.
— É por amor que o faço. Sabes bem o quanto te amo, Mikhail.
— Prometo que te compenso.
— Não precisas de me compensar. — recusou, sorrindo. Beijou-o. — É justo que queiras aproveitar o tempo com ela perante… Enfim, perante a fatalidade que ninguém merece. E a Ekaterina muito menos.
Os pais de Mikhail e Ekaterina nunca concordaram com a ideia de ela viajar para Portugal, mesmo quando os planos ainda incluíam o marido. Quando lamentaram a separação, deram por certa a anulação da viagem e, perante a constatação que isso não iria acontecer, revelaram forte oposição a que a filha mantivesse os planos e ainda culparam o filho por se ter oferecido para a acompanhar, como se o contrário tivesse evitado que Ekaterina fosse sozinha. Por vezes, eles revelavam conhecer muito pouco os filhos.
No entanto, todos os planos quase se goraram, a menos de um mês da partida, quando Ekaterina teve uma crise de dores, numa altura em que julgara estar a adaptar-se ao “bicho”. Acontecera num dos últimos dias de serviço como médica, numa reunião com colegas, uma espécie de despedida de médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar que lhe eram próximos e que nutriam verdadeira admiração por ela. Estava a ser um fim de manhã normal, quando Ekaterina sentiu que algo não estava bem. Foram dores tão intensas que ela desmaiou e teve de ficar internada.
O colega que fazia o acompanhamento do seu estado de saúde tentou demovê-la da sua resistência ao tratamento e procurou convencê la a desistir da viagem. Não teve sucesso em ambas.
Quando soube do sucedido, Tiago tentou visitá-la, mas Ekaterina recusou a presença dele. O ex-marido não se deslocara ao hospital, ligara lhe para o telemóvel e ela atendeu-o, mesmo que fosse a última pessoa com quem queria falar. Conversaram poucos minutos com cordialidade, mas a intransigência dela manteve-se. E talvez tentando recair nas boas graças da família, sugeriu que o melhor para ela seria desistir dos planos de ir a Portugal. Ekaterina desligou-lhe o telemóvel na cara.
A presença mais maçadora a visitá-la foram os pais, os quais repetiam incessantemente que ela anulasse a ida a Lisboa e tivesse a noção do disparate que era submeter-se a voos longos e a uma estadia tão longe de casa. Ekaterina aturou-os por não ter outro remédio e depois pediu ao médico que lhes barrasse a repetição da visita com o argumento de que ela precisava de descansar.
Svetlana também a visitou, se bem que Ekaterina notava que ela o fazia mais para estar algum tempo na companhia do noivo que não largava a irmã que propriamente por preocupação para com a cunhada. Evitou o assunto “viagem a Portugal”, já tinham tido oportunidade de falar sobre isso, no primeiro reencontro após Svetlana saber que o noivo iria com ela. Nessa altura, houve pedidos de desculpa e compreensão que chegasse.
Mikhail receava a morte da irmã desde o primeiro minuto que se seguiu a ela lhe contar que estava doente. Porém, aquele episódio deixara o em pânico e permaneceu no hospital tanto tempo quanto lhe era permitido ao lado da cama dela.
Ekaterina ficou hospitalizada três dias, altura em que recebeu alta após uma bateria de exames. O irmão quis que ela fosse para sua casa.
— O que pensa a Svetlana disso?
Perante a pergunta, ele hesitou e ela percebeu que a cunhada nem sequer fora consultada.
— Prefiro ficar em minha casa, Mika.
— Mas se…
— Terei sempre o telemóvel à mão, Mika.
— Vá lá, Eka.
— Não.
Felizmente, o acontecimento não se repetiu, muito por causa da mudança da medicação e o suporte dos analgésicos que o colega lhe receitara. E no início do Verão, o tão esperado dia chegava.