QUARTZO FUMADO · Capítulo 5

Capítulo V

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O apartamento onde vivera com Tiago nos últimos oito anos tornara-se um lugar sombrio. Aquele espaço representava uma vida que afinal não tinha o significado que ela julgara. Viver sozinha era difícil para si, nunca fora uma mulher solitária e sempre socializara com facilidade. Para além disso, desde o colapso no hospital devido às dores, Ekaterina escondia um pânico profundo de sofrer um ataque semelhante quando estivesse sozinha e não ter ninguém para a socorrer, um medo que guardou para si, pois se o irmão soubesse, ter-se-ia mudado lá para casa.
O Sol brilhava lá fora, o dia estava lindo. A temperatura amena agradável fazia esquecer o frio rigoroso que envolvia a cidade em cerca de dois terços do ano. Ekaterina observava o céu azul pela janela, aguardando a chegada do irmão. Mikhail deveria estar quase a chegar, era sempre pontual. Ela virou-se para o interior da sala, olhando para a decoração e em como aquele lugar a cansava. Não evitou nova lembrança de Tiago, constatando que ele fora a sua primeira e única relação séria. Antes de Tiago, ela tivera algumas relações que mal chegaram a ser um namoro ou compromisso. Sim, Tiago arrebatara-a e fizera-a querer prender-se a uma relação e partilhar o resto da vida com alguém. Nunca pensou que a abandonasse quando ela mais precisou dele.
A mala esperava-a no vestíbulo, continha tudo o que ela considerava essencial para a estadia em Portugal, mais umas quantas outras coisas. Ekaterina parou diante do espelho e analisou-se. Vestira calças de ganga azul em tom claro, uma camisa escura e um casaco de malha roxo. Sobre a grande mala, ainda deixara um blusão igualmente de ganga clara. Sabia que em Portugal estaria calor, Tiago falara-lhe diversas vezes de como o calor podia ser intenso na sua terra natal, mas ela preferia ir prevenida. Deitou nova olhadela ao reflexo, ajeitou os óculos escuros sobre a cabeça, quase como se fosse uma bandolete a segurar-lhe os longos cabelos louros soltos. Pintara os lábios com um rosa suave, desenhara um ténue eyeliner ao redor dos olhos e intensificara o brilho das pestanas com rímel.
A campainha tocou. Pelo toque, sabia que só poderia ser o irmão, caso contrário teria sido o telefone de contacto com a portaria a tocar, para que o segurança lá em baixo lhe comunicasse quem vinha e se ela autorizava a subida. O irmão já era conhecido por todos os porteiros e estes nem perdiam tempo a anunciá-lo.
Espreitou pelo pequeno visor, confirmou que estava certa e abriu a porta.
Mikhail surgiu sorridente, enfiado numas calças estilo chino em tons caqui e num casaco quente branco que escondia parcialmente a camisola de gola alta.
— Olá, Eka! — cumprimentou, avançando e abraçando-a.
Trocaram um beijo na face.
— Olá, Mika! — Observou o irmão, o cabelo louro precisava de um corte, segundo os padrões dela. — Tens noção que está calor em Portugal, não tens? — questionou, apontando para a roupa dele.
— Não faço ideia como é o Verão lá. Nunca lá fui.
Ela riu-se.
— Em breve descobriremos.
— Estás pronta?
Ekaterina anuiu e segurou no casaco, enquanto o irmão se encarregou da mala. Saíram para o átrio impessoal, ela deitou um último olhar ao apartamento. Sim, estava cansada daquele lugar. Fechou a porta e guardou a chave.
Desceram no elevador com os olhos um no outro, a sorrir.
— Vieste sozinho?
Ele abanou a cabeça.
— A Lana vai levar-nos ao aeroporto.
O voo estrava previsto para pouco depois das duas da tarde. Não havia necessidade de estar no aeroporto com mais que uma hora de antecedência, seria um voo interno com destino a Moscovo, onde fariam escala para depois prosseguirem rumo a Lisboa. Contudo, Ekaterina detestava imprevistos e preferia antecipar as coisas, daí que ainda fosse meio-dia.
Saíram do elevador para o átrio do piso térreo, Mikhail caminhava ao lado da irmã rebocando a sua bagagem. Ekaterina trocou algumas palavras com o segurança, deixando algumas indicações para a sua ausência, vendo pelo canto do olho o irmão a continuar para o exterior.
Também era Verão em São Petersburgo e o Sol brilhava alto. Só que as temperaturas quentes, verdadeiramente quentes, não se encontravam por ali. Ekaterina vestiu o blusão de ganga, saindo para a rua e observando o irmão a guardar a mala na bagageira do BMW da noiva.
Svetlana encontrava-se junto da porta do condutor, envergando um sobretudo bege sobre o fato formal azul-escuro. Para ela, aquele era um dia normal de trabalho e usara a pausa de almoço para transportar o noivo e a cunhada ao aeroporto. Recebeu Ekaterina com um sorriso forçado. Eram amigas, mas ela levava-lhe o noivo para longe por demasiados dias, sendo que por demasiados se compreenda qualquer número acima de zero. As cunhadas trocaram um beijo. Ekaterina entrou para o lugar atrás do condutor, o que permitia ao irmão olhar melhor para ela, virando-se para trás, ao lado da noiva.
Ekaterina vivia em Peterhof, um bairro rico a sul da Baía do Neva. Mikhail e Svetlana tinham o seu apartamento a norte da baía, noutro bairro de elite, Olgino. Ambos ficavam afastados da confusão urbana do centro de São Petersburgo. O percurso de carro demoraria uns trinta e tal minutos, cerca de quarenta quilómetros até ao Aeroporto de Pulkovo. Svetlana ligou a ignição e o BMW avançou para fora da área privada do condomínio.
— Como tens passado? — perguntou a condutora, olhando para a cunhada pelo espelho retrovisor.
Ekaterina gostaria de lhe perceber as emoções pelo olhar, mas a noiva do irmão cobria parcialmente o rosto com enormes lentes pretas. Antes de responder, o irmão olhou para trás, como se estivesse curioso com a resposta, logo ele que estava com ela todos os fins de tarde, antes de regressar a casa depois do trabalho. Sentiu-se vulnerável e baixou os óculos que mantinha na cabeça, tal como faria se o Sol tivesse subitamente despontada por detrás de uma qualquer nuvem que não se avistava no céu.
— Tenho estado bem.
— Pareces mais magra. — atirou Svetlana, o que provocou um olhar desaprovador ao noivo.
— É natural. — concordou Ekaterina. — A medicação tira algum apetite.
— Felizmente, não tens tido dores, pois não, Eka?
— Ando a ficar uma mariquinhas. — confessou envergonhada. — Mal sinto dores, tomo um analgésico.
— Tens de ter cuidado para que não te provoquem habituação. — alertou Mikhail.
Ekaterina riu-se.
— Deixa lá, Mika! Esse é um mal menor.
O irmão ia a dizer alguma coisa, mas Svetlana decidiu intervir:
— Tens a certeza que a viagem que vão fazer é boa ideia?
— Lana! — admoestou Mikhail, aborrecido.
Ekaterina sorriu para o irmão e respondeu olhando para o retrovisor:
— Tenho a certeza absoluta.
Svetlana calou-se.
O ambiente no interior do carro tornou-se pesado, meio desconfortável. Ekaterina sentia-se animada por ir viajar, ainda para mais com o irmão. Queria falar dos pormenores e tinha a certeza de que a mesma vontade andaria pelo pensamento dele. Nenhum tocou no assunto, pois seriam como duas crianças a falar de um brinquedo do qual a terceira não poderia desfrutar. Ao invés, os irmãos reservaram a atenção para a paisagem verdejante a ladear a autoestrada A-118 ao som da rádio russa.
O Aeroporto de Pulkovo surgiu à direita deles. No céu, um avião descia alinhado com a pista. Svetlana abandonou a A-118 no nó junto ao aeroporto, desviando para sul e entrando na P-23. O trânsito era ainda mais intenso por ali, tratava-se de uma via que ligava o centro da cidade de São Petersburgo aos terminais de aviação. Conduzindo com uma tranquilidade que não sentia, Svetlana desviou na saída seguinte onde as placas brancas com letras pretas lhes anunciavam o destino.
Muitos carros e autocarros circulavam por ali. Passaram os primeiros parques de estacionamento e alcançaram os principais edifícios. Svetlana conseguiu um espaço para parar, perto das portas por onde os passageiros entravam no terminal, por baixo da primeira ponte pedonal onde se erguiam as letras “Polkovo Airport Saint Petersburg”.
Ekaterina foi a primeira a sair, dando tempo para uma despedida mais íntima dos noivos. Contudo, Svetlana saiu logo a seguir e Mikhail copiou-as no lado oposto do automóvel. Enquanto ele retirava as malas da bagageira, Ekaterina puxou o braço da cunhada e encaminhou-a para o passeio, afastando-se do irmão.
— Espero que me perdoes, Lana.
Svetlana abanou a cabeça e sorriu, um sorriso que desta vez pareceu franco.
— Não há nada a perdoar.
— Lamento estar a afastar o teu noivo, mesmo que por pouco tempo.
— Não penses nisso. — pediu Svetlana, afagando-lhe o braço. — Teremos muito tempo só para nós quando…
— Quando eu morrer?! — completou Ekaterina.
A cunhada mostrou-se chocada.
— Oh… Por Deus, não, Ekaterina. Refiro-me ao casamento, à lua de mel… Achas que pensaria isso?
— Desculpa, Lana.
Svetlana abraçou Ekaterina com fraternidade.
— Tu és a irmã do homem que eu mais amo neste mundo. E és também minha irmã. — Puxou os óculos para o topo do cabelo negro para que a outra lhe visse a sinceridade no olhar. — A sério, Ekaterina, tenho te como uma irmã de coração.
— O meu irmão tem muita sorte em te ter encontrado, Lana.
A noiva sorriu, meio envergonhada e algo emocionada.
— É natural que me sinta triste por ele se ausentar. — Forçou um sorriso. — Desde que estamos juntos que nunca passámos uma noite afastados. Acho que já nem sei o que é viver sozinha. — Sentiu a mão de Ekaterina no seu rosto e colocou a sua sobre a dela. — Mas, compreendo e concordo que ele vá. Quem melhor para te fazer companhia, senão o teu irmão?
— Tu és um ser maravilhoso, Lana.
— Pára com isso, ainda me fazes chorar. — Riu emocionada. — Tenho uma sessão em tribunal à tarde, não quero ir com a maquilhagem esborratada.
Ekaterina voltou a acariciar-lhe o rosto e deu-lhe um beijo prolongado na face.
— Obrigada, Lana!
A cunhada fez uma expressão de que não era nada de especial e retribuiu o beijo, dizendo:
— Toma conta do Mikhail, não o deixes embeiçar por nenhuma latina.
— Achas? O meu maninho só tem olhos para ti, não te preocupes.
Mikhail aguardava junto ao carro, percebendo que a irmã quisera ter aquela conversa privada com a sua noiva. Quando confirmou que se despediam, avançou com as malas. Foi a vez de Ekaterina se afastar e dar privacidade aos noivos, ficando a vê-los dialogar sem ouvir, a abraçarem se com muito amor e a beijarem-se apaixonados. Por fim, descolaram-se e Svetlana acenou uma última vez a Ekaterina, reentrando no automóvel e arrancando ao mesmo tempo que eles entravam no edifício.
Mikhail quis rebocar ambas as malas, mas a irmã impediu-o.
— Não estou inválida, Mika.
Ele riu-se e não a contrariou, usando a mão livre para segurar na outra mão dela.
O aeroporto não tinha muito movimento, não era um daqueles aeroportos internacionais com milhares de passageiros a correr de um lado para o outro. Também se viam muitos turistas, uns a chegar e outros a partir. Mikhail e Ekaterina deslocaram-se para o balcão de check-in onde uma funcionária da companhia aérea russa os recebeu com um sorriso protocolar radioso. Após despacharem a bagagem, prosseguiram para a etapa seguinte.
O voo era doméstico, não haveria controlo de passaportes, isso só aconteceria em Moscovo. Ekaterina revelava-se cada vez mais animada e já sem a necessidade de refrear a felicidade para não magoar a cunhada. Mikhail partilhava do seu entusiasmo, mas mais pelo tempo que iria usufruir da companhia da irmã que pelo destino da viagem.
O controlo de acesso às salas de embarque foi pacífico, o normal em qualquer aeroporto e com a vantagem de nem haver fila para os pórticos de detecção de metais e verificação de bagagem de mão.
— Queres comer alguma coisa, Eka?
Ela abanou a cabeça.
— Não tenho fome.
Seguiram as indicações para a porta de embarque do seu voo, faltavam vinte minutos para se iniciar a entrada dos passageiros.



As hospedeiras da Aeroflot circulavam pelo corredor central, confirmando que os passageiros tinham os cintos postos e fechando alguns compartimentos abertos sobre as suas cabeças. A lotação não estava esgotada, mas eram poucos os lugares vagos. Ekaterina ficou no lugar junto da janela, Mikhail a seu lado e uma senhora idosa no assento antes do corredor.
— Já tinha saudades de voar. — confidenciou ela, enquanto esperavam que o avião iniciasse a marcha. Olhou para o irmão. — Tu nem por isso.
Mikhail nunca gostara de andar de avião, só mesmo por obrigação. Nos últimos anos, o mais longe que tivera de ir, e por motivos profissionais, fora a Moscovo e usara o comboio.
— O que não faço por ti, maninha?!
Ela apertou-lhe a mão com carinho, encostou-se a ele e deu-lhe um beijo na bochecha.
— Obrigada, maninho!
A ligação entre São Petersburgo e Moscovo demorou hora e meia. O voo foi calmo e tiveram direito a uma pequena refeição que serviu para acomodar o estômago. Não falaram muito durante a viagem, Ekaterina dedicou o tempo a ler o guia de Lisboa que comprara na Internet. Naqueles dias que antecederam a viagem, ela dedicara o tempo a planear a viagem, a fazer pesquisas e a programar o itinerário. Para além disso, instalara apps de guias virtuais no telemóvel e estudara a melhor forma de se deslocarem na cidade. Por seu turno, Mikhail foi espreitando o guia, mas ficou sonolento e adormeceu.
O céu nublado cobria a capital da Rússia, nem dava bem para perceber se eram nuvens ou poluição. O avião aterrou à hora prevista. Os irmãos saíram lentamente do aparelho, aguardando o movimento vagaroso de todos os passageiros a recolher as bagagens dos compartimentos e a avançar. A escala em Sheremetyevo levaria quase duas horas, mais tempo que o voo entre as duas cidades. Não tinham de se preocupar com as malas no porão, essas seriam transferidas para o outro avião, só tinham de trocar de terminal, uma vez que o avião estacionara no Terminal B e o segundo voo partiria do C. Seguiram as placas e as indicações do pessoal do aeroporto que lhes indicou como ir de um ponto ao outro.
Ekaterina queria sempre despachar as tarefas, daí que tivessem seguido de imediato para o sector alfandegário e para o controlo de passaportes junto das autoridades. O agente verificou as identidades de ambos e concedeu-lhes a passagem para a zona reservada aos passageiros de voos internacionais.
Como tinham tempo, estacionaram num café da zona comercial e pediram um sumo e um pastel.
A quantidade de pessoas era imensa, muito diferente da relativa calma no aeroporto da sua cidade natal. Muitos turistas vindos dos quatro cantos do mundo, Moscovo parecia atrair cada vez mais visitantes. Sentados na esplanada interior do café, diante do corredor que ligava a zona às portas de embarque, eles observavam a realidade distraídos.
— Voltaste a falar com o Tiago?
Ekaterina bebericou o sumo e respondeu:
— Não. Depois de ter saído do hospital, ele mandou-me uma mensagem para saber como eu estava. Ainda está à espera da resposta.
Mikhail ia soltar uma imprecação, mas controlou-se. Ao invés, mudou de assunto:
— Falaste com a Svetlana… Está tudo bem entre vocês?
— Sim, Mika. Não te preocupes. A tua noiva é uma mulher com M grande. Não sei se no lugar dela teria o mesmo discernimento.
— Ela percebe que tu… — Mikhail nunca conseguia abordar a doença da irmã por palavras concretas. — Ela sabe porque o faço.
— Estás bem entregue. — constatou, observando-o com uma expressão tranquila.
Mikhail mostrou-se aborrecido.
— Não fales assim, Eka. Ninguém tomará o teu lugar.
—Não estou a dizer isso, Mika. Apenas me descansa saber que ela estará a teu lado, quando…
— Podemos falar de outra coisa?
— Claro.
Porém, ficaram ambos em silêncio.
O voo da Aeroflot que ligava Moscovo a Lisboa partiu do Aeroporto Sheremetyevo às cinco e meia da tarde. A aeronave era maior que a primeira e levava mais passageiros. Ekaterina voltou a posicionar-se junta à janela, lugar que Mikhail evitava. Desta feita, o interior não tinha um corredor a atravessar linhas de três mais três lugares, tinha dois corredores a cruzar linhas de dois mais quatro mais dois lugares. Os irmãos ficaram na vigésima fila no lado direito.
A travessia da Europa levou quase seis horas. Ekaterina adormeceu no ombro do irmão a meio da leitura do guia. Mikhail envolveu-a com o braço e velou-lhe o sono tranquilo. Ela só acordou quando o piloto anunciou que estavam em rota com a pista do Aeroporto da Portela, em Lisboa, informando igualmente as horas locais e a temperatura.
— Vinte e sete graus? Às nove da noite? — questionou Mikhail com surpresa. — Qual é a diferença horária?
Meio ensonada, Ekaterina disse-lhe que em São Petersburgo seriam três horas mais tarde.
Ainda era de dia, quando o Airbus aterrou na capital de Portugal. O Sol já descera a linha do horizonte, mas o crepúsculo provinha da tonalidade alaranjada para lá da cidade. Ekaterina observava encantada a paisagem lá em baixo, conforme o avião sobrevoava Lisboa, o oceano, o norte da península de Setúbal, dando a volta e começando a descer para se fazer à pista de oeste para este.
— Isso são prédios? — questionou Mikhail assustado, vendo a proximidade dos edifícios.
— O aeroporto fica dentro da cidade. — explicou a irmã com tranquilidade.
— Bolas…
A aterragem foi suave, o pequeno impacto das rodas no asfalto, o roncar dos motores a travar e a velocidade a diminuir progressivamente.
— Chegámos! — exclamou Ekaterina com um largo sorriso e um brilho no olhar.
Havia muitos passageiros russos, mas Ekaterina percebeu pelas vozes que muitos portugueses regressavam da Rússia. Mikhail retirou o telemóvel do bolso e desligou o modo de voo. Enquanto esperavam, abriu a app de mensagens e digitou uma breve a Svetlana para lhe dizer que já tinham aterrado. Ela respondeu com o pedido que lhe ligasse quando chegasse ao hotel
“Não sei o tempo que iremos demorar”
“Não importa, eu espero”
Os passageiros foram saindo pela frente do avião, onde uma rampa coberta lhes dava acesso ao edifício. Ekaterina começou a ler tudo o que via, nunca estivera diante de tanta informação em português e orgulhava-se de compreender quase todas. Mikhail socorria-se das traduções em inglês. Foram seguindo as indicações, era um voo externo à União Europeia, daí que fossem conduzidos à porta burocrática do país, a zona alfandegária.
O amplo espaço dividia-se em cidadãos da UE e externos à UE. Eles encaminharam-se para o segundo sector, avançando por corredores formados por pilares pretos de um metro de altura ligados por fitas azuis. Havia mais pessoas provenientes do exterior à União Europeia. Mikhail reconheceu alguns passageiros do seu voo a prosseguir rapidamente pela zona destinada aos portadores de passaporte ou cartão de cidadão português. Ekaterina observava em redor, quase inebriada, uma sensação estranha oferecia-lhe uma tranquilidade agradável.
Um agente da Polícia de Segurança Pública olhou para os irmãos, quando chegou a vez de eles apresentarem os passaportes. Ekaterina viu um homem que deveria ter a idade deles, usava o cabelo preto curto e fardava um polo azul-claro e calças azul-escuras, ela leu a palavra “Polícia” escrita sobre o coração. Sorriu-lhe. Sem grande simpatia, o agente olhou para ambos ao mesmo tempo que verificava os passaportes e perguntou-lhes em inglês pela finalidade da vinda a Portugal. Ekaterina respondeu pelos dois, vinham de férias. Mikhail assistia a tudo de rosto fechado, talvez tivesse sido isso a provocar a pouca simpatia do português. O agente carimbou ambos os documentos, apontou-lhes a passagem entre guichés e desejou-lhes uma boa estadia.
Continuaram a circular pelo aeroporto, seguindo as indicações de “bagagem/luggage” para irem recolher as suas malas. Mikhail procurava as informações em inglês, mas Ekaterina, apesar de mais confortável no inglês, preferia tentar perceber a informação em português. Nos ecrãs informativos, a linha referente ao seu voo da Aeroflot indicava o número da passadeira por onde seriam entregues as malas.
Já muitos passageiros se aglomeravam à volta da linha circular por onde as bagagens que brotavam de uma rampa seriam apresentadas aos seus donos. Mikhail olhou para as horas, tinham aterrado há quase uma hora e nada de malas. Como era quase uma hora da manhã em São Petersburgo, ele enviou nova mensagem à noiva.
“Isto está demorado, não sei quanto tempo iremos demorar a chegar ao hotel”
A resposta surgiu um minuto depois.
“Tenho de ir dormir, meu amor. Manda só uma mensagem quando chegares, só para saber que chegaram bem. Amanhã falamos. Amo-te!”
“Combinado, Lana. Amo-te! Beijinhos”
Ekaterina observava a passadeira parada, ansiosa por recolher as malas. Sentia-se cansada e sabia que o hotel não era já ali. Viu o irmão a trocar mensagens com a noiva e sorriu-lhe quando os seus olhos se encontraram.
— Já com saudades? — questionou com um humor cansado.
— Queria que lhe ligasse quando chegássemos ao hotel. — partilhou o irmão, guardando o telemóvel no bolso. — Disse-lhe que íamos chegar tarde, não valia pena ficar à espera.
— Manda-lhe só uma mensagem.
— Foi o que ela disse, Eka. — retorquiu com um sorriso.
Nesse instante, a passadeira começou a mexer e as malas surgiram. Quase como uma compensação divina, a bagagem deles foi das primeiras a brotar da saída. Mikhail recolheu ambas as malas pesadas com a facilidade de quem tinha o seu porte muscular.
— E agora, Eka?
Ekaterina segurou a pega da sua e os dois dirigiram-se para a saída.
— Vamos procurar o transporte para nos levar ao hotel.
Atravessaram o corredor de “nada a declarar” e saíram para a zona de chegadas onde as pessoas esperavam familiares e amigos e muitos operadores turísticos aguardavam os clientes.
Os irmãos desceram a rampa escolhendo aleatoriamente um dos lados. Ekaterina recorreu aos seus apontamentos no telemóvel para confirmar o que deveria procurar. Ao fundo da rampa, viu o posto de venda do Lisboa Card, um cartão que lhes permitia circular sem limite diário nos transportes da cidade por um, dois ou três dias. Mikhail seguiu a, dando-lhe a iniciativa de tratar daqueles pormenores, uma vez que se sentia completamente perdido.
Uma rapariga com imagem de modelo atendeu-os com um sorriso, vestia uma t-shirt escura com as letras “Welcome to Lisbon” estampadas no peito singelo. Ekaterina reparou que a moça apertara o tecido na cintura para que a camisola ficasse mais justa ao corpo. Apesar do desejo de tentar falar português, Ekaterina continuou no inglês.
Curiosamente, a rapariga foi muito atenciosa e esclareceu todas as questões de Ekaterina. Quando olhou para o irmão, viu-o completamente atento na jovem e recordou as palavras de Svetlana: “não o deixes embeiçar por nenhuma latina”. Fingindo não reparar na troca de olhares entre eles, Ekaterina pediu que lhe indicasse o Metropolitano. Mais uma vez, muito solícita, a rapariga deu-lhe todas as indicações. Ekaterina pagou os dois Lisboa Card para três dias e afastaram-se, agradecendo-lhe a simpatia.
— Os portugueses são um povo simpático e acolhedor, Mika.
— Espero que sim, só conheço aquele merd…
Calou-se perante o olhar condenatório dela.
— Pode ter acabado, mas vivemos juntos oito anos, Mika. Ele foi desleal comigo, mas não é por isso que vou querer ouvir insultos a ele.
— OK, Eka. Desculpa!
— Ah… E da próxima vez disfarça. — Ele olhou-a confuso. — A forma como olhaste para a rapariga. Parecia que a querias comer.
— Não era má.
— Estás noivo, Mika.
Mikhail riu-se.
— Imagino que a Svetlana te tenha pedido para tomares conta de mim.
— Conheces bem a tua noiva. — confirmou, rindo-se. — Mas, eu sou tua irmã e a tua maior cúmplice. Achas que lhe diria alguma coisa se te envolvesses com alguém, durante a nossa estadia?
— Sei bem que não. Mas, vim para estar contigo, não foi para me portar como um adolescente com o cio numa viagem de finalistas.
Não foi difícil encontrar o acesso ao Metropolitano. Existiam duas escadas de acesso, a rapariga alertara-a para descer na plataforma que tinha “São Sebastião” como destino.
A quantidade de pessoas na plataforma não era muita e quase todas tinham ar de turistas. A composição ecoou estridente no túnel e parou com um guinchar ensurdecedor. As carruagens não tinham quase ninguém. Eles entraram com a abertura das portas e sentaram-se num banco duplo com Mikhail a segurar ambas as malas no corredor.
— Sabes onde temos de sair?
— Sei, Mika. Estação Oriente.

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Fim do capítulo

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Próxima publicação 18/09/2026 às 21:00 Capítulo 11 · Capítulo XI

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